246 cágados já morreram na Avenida Boa Esperança, em Teresina (PI), em 2017

Além do risco de atropelamentos, os animais também são mortos por pescadores que utilizam sua carne para a pesca.

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Cágados habitam região das lagoas da zona Norte e são atropelados ao atravessar a avenida (Foto: Jailson Soares/O Dia)
Cágados habitam região das lagoas da zona Norte e são atropelados ao atravessar a avenida (Foto: Jailson Soares/O Dia)

A passos lentos, o animal passa pela via ignorando o movimento constante dos carros e um motorista desatento acaba por atropelar o bicho. Esse cenário, infelizmente e fatalmente, é muito comum na zona Norte de Teresina, onde a morte dos cágados de barbicha, espécie comum na região das lagoas e no entorno do Parque Lagoas do Norte, é uma realidade preocupante. De acordo com o Instituto Socioambiental Cágado de Barbicha, já foram contabilizadas a morte de 246 cágados este ano na região.

A presença de animais silvestres nas áreas urbanas vira ocorrências diárias dos órgãos especializados na proteção da fauna. “Infelizmente, por conta do crescimento desordenado da cidade e a falta de um estudo ambiental, temos muitos lugares que têm a presença de animais silvestres, que são mortos por motivos variados”, explica a ambientalista e presidente do Instituto Cágado de Barbicha, Jacqueline Lustosa.

No caso dos cágados da zona Norte de Teresina, além do risco de atropelamentos, os animais também são mortos por pescadores que utilizam a carne do animal para a pesca. Para o primeiro fato, o poder público colocou placas de sinalização que alertam para a presença dos animais na pista. No segundo caso, há uma tentativa de conscientização da comunidade, através do Programa Lagoas do Norte, para a conservação da fauna local.

Outros casos

Mas o problema envolvendo animais silvestres em Teresina não se resume à zona Norte. A indevida retirada de animais de seu habitat natural para criação em sítios e residências afeta todo o equilíbrio do ecossistema local.

“No Mocambinho, por conta do Jardim Botânico, algumas pessoas pegam soins e até filhotes de bicho preguiça. Essa época, quando acontece a reprodução das preguiças e em virtude dos galhos que estão grandes no Parque, as pessoas acabam por retirar esses animais, o que é um erro gravíssimo”, alerta Jacqueline.

A transmissão de doenças é um dos riscos alertados pela ambientalista. Os animais silvestres podem transmitir doenças, entre elas a raiva, que coloca os seres humanos em risco de morte.

O que diz a lei

A captura e a criação de animais silvestres, apesar de serem práticas comuns, são terminantemente proibidas, como determina o artigo 1º da Lei de Proteção à Fauna. “Os animais de quaisquer espécies, em qualquer fase do seu desenvolvimento e que vivem naturalmente fora do cativeiro, constituindo a fauna silvestre, bem como seus ninhos, abrigos e criadouros naturais são propriedade do Estado, sendo proibida a sua utilização, perseguição, destruição, caça ou apanha”.

Falta de sinalização põe bichos em risco

A falta de sinalização e o excesso de velocidade são fatores que, juntos, têm causado a morte de animais silvestres nas vias urbanas de Teresina. Para a ambientalista Jacqueline Lustosa, a fixação de placas de alerta poderia diluir o risco de mortes desses bichos. Entre os locais que mais registra fluxo de animais em Teresina, Jacqueline ressalta trechos como os da proximidade da Avenida Universitária e da Ponte da Primavera; toda a extensão da Avenida Cajuína e na frente dos parques públicos da cidade, onde a flora e fauna ainda são preservadas.

Soin morto na Avenida Petrônio Portela, próximo ao Rio Poti, após atropelamento.
Soin morto na Avenida Petrônio Portela, próximo ao Rio Poti, após atropelamento.

“Só temos sinalização na zona Norte e precisamos que os poderes públicos se mobilizem para garantir uma melhor cobertura e cuidado com os animais da nossa cidade”, explica.

O mototaxista Fernando Mangabeira, que mora nas proximidades da Avenida Dom Severino, na zona Leste de Teresina, relata que o fluxo de iguanas na via é preocupante. “Têm épocas que aparecem muitas e elas acabam sendo atropeladas ou atrapalham os carros aqui na Avenida”, destaca. Segundo a ambientalista, seis iguanas já foram resgatadas na região.

Diferenças entre animais silvestres e exóticos

Os animais de estimação são comuns nas residências de todo o mundo, mas o desejo por criar bichos diferenciados acaba fazendo com que as pessoas alimentem a rede de tráfico de animais, que é proibida no país.

Para criar animais silvestres é preciso ter uma autorização do Ibama. Por exemplo, pássaros nativos em cativeiro, têm que ser credenciados no Sispass, que é um sistema de passeriformes. Segundo a capitã Liliane, do Batalhão Ambiental, no Piauí, não existem criadores autorizados.

Os animais silvestres são aqueles pertencentes às espécies nativas, migratórias e quaisquer outras, aquáticas ou terrestres, que tenham a sua vida ou parte dela ocorrendo naturalmente dentro dos limites do Território Brasileiro, é o caso do papagaio, aranha, jacaré, jabuti, tamanduá e tantos outros.

Já os animais exóticos são aqueles cuja a distribuição geográfica não inclui o Território Brasileiro. As espécies ou subespécies introduzidas pelo homem, inclusive domésticas, em estado selvagem, também são consideradas exóticas.

Criar animais silvestres ou exóticos sem permissão é considerado crime pela Lei 9605/98. E quem infringir esta lei pode ser multado e sofrer detenção que pode ir de seis meses a um ano.

Projeto alerta para cuidados e riscos envolvendo animais silvestres

A difusão de informações no combate ao tráfico de animais silvestres e suas zoonoses. Este é o objetivo do projeto Jandaia Sol, realizado através do Ibama Piauí em parceria com a Prefeitura de Teresina, na sensibilização de mais de sete mil crianças da rede municipal de educação de Teresina. O nome do projeto faz referência a uma ave, instituída como símbolo de Teresina, através de um decreto assinado em 1999.

Fabiano Pessoa, veterinário e analista ambiental do Ibama, destaca que a sensibilização das crianças é uma medida capaz de provocar uma verdadeira transformação social.

Foto: Assis Fernandes/O Dia
Foto: Assis Fernandes/O Dia

“As crianças assimilam a mensagem muito rápido. Entender que os animais silvestres têm direito de viverem em liberdade e têm necessidade de se manterem em seus ecossistemas, é fundamental para uma sociedade melhor”, destaca.

Isso porque o tráfico e a captura indevida de animais trazem danos incalculáveis para a biodiversidade, além de expor o ser humano a mui tas doenças.

Nas escolas, as intervenções pedagógicas, que contam com apresentações de fantoches, musicais e palestras, fomentam a necessidade de manter o equilíbrio do ecossistema para as crianças em idade escolar.

De autoria da Superintendência do Ibama no Piauí, o Jandaia Sol é desenvolvido com o apoio da Secretaria Municipal de Educação (Semec) e Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Semam).

Por Glenda Uchôa

Fonte: Jornal O Dia

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