6 razões pelas quais não visito mais zoológicos, parques marinhos, ou qualquer outra instalação que exibe animais

Um debate intenso em torno da questão ética de manter animais em jardins zoológicos e parques marinhos tem crescido há décadas. Os primeiros zoológicos comerciais foram estabelecidos com o propósito único de proporcionar diversão aos seres humanos. Esses zoológicos consideravam, em grande parte, a saúde e o bem-estar de seus animais como uma preocupação secundária … isso se considerassem tal questão. No início deste ano, fotografias tiradas nas primeiras instalações de animais cativos da Australia no início do século XX foram divulgadas pela Biblioteca Estatal de Victoria. Estas imagens atestam o tratamento descaradamente cruel e negligente de animais, que era marca registrada dos primeiros zoológicos comerciais do mundo. Elas revelam que macacos desfilavam acorrentados pelas instalações do zoológico, forçados a andar sobre pernas de pau, e obrigados a usar trajes estranhos, para benefício de espectadores humanos. Enquanto isso, jaguares, hipopótamos e ursos eram confinados em recintos tão pequenos que mal podiam se virar.

A história dos primeiros parques marinhos do mundo segue uma trajetória similar. Os métodos de captura estrondosamente brutais usados para adquirir as orcas originais do SeaWorld durante os anos 60 e 70 foram bem documentados. A captura de Lolita, a orca mais antiga do Miami Seaquarium, foi igualmente chocante. Em agosto de 1970, ela foi arrancada de seu grupo familiar na costa de Puget Sound, no estado de Washington, em uma luta violenta que envolveu o uso de poderosas redes, cordas e explosivos. Moradores locais relataram ter ouvido “terríveis gritos humanos” emanando da área da luta. Uma orca adulta e quatro filhotes de Lolita foram mortos naquele dia. Desde então, Lolita esteve confinada no menor tanque de orcas da América do Norte.

Hoje em dia, no entanto, as instalações de animais cativos afirmam ter deixado este passado desagradável para trás. Elas argumentariam que seu propósito mudou agora: que eles se concentram agora em objetivos de educação, divulgação e conservação, e que têm um papel vital para salvar as espécies animais ameaçadas do planeta. Um dos argumentos mais comuns que os zoológicos usam para a posse de leões, tigres, elefantes, macacos e outras espécies animais em cativeiro é que as crianças gostam de vê-los, e que elas são levadas a se preocupar em proteger seus homólogos selvagens como resultado da visita.

É verdade que a maioria das crianças tende a exibir um profundo fascínio pelos animais, e são naturalmente inclinadas a desfrutar de experiências diretas com eles. Quando eu era criança, considerava cada visita ao zoológico uma experiência mágica. Sempre me lembrarei da emoção de poder alimentar os elefantes no Jardim Zoológico de Dublin no dia da festa do meu oitavo aniversário: oferecendo punhados de cenouras recém-picadas e observando-os ansiosamente aceitarem as ofertas com suas trombas. Em uma memorável visita a um zoológico no interior da França, meu saco de pipoca foi roubado por um macaco capuchinho — para minha irritação! Minha raiva foi aumentada ainda mais alguns momentos depois, quando o macaco descaradamente correu de volta para mim, na esperança de pegar meus amendoins também.

Não há dúvida de que essas experiências deixaram uma impressão indelével em mim mas, mesmo naquela idade, notei que os animais que eu via nos jardins zoológicos eram, muitas vezes, infelizes e indiferentes. A última vez que visitei um zoológico foi no verão de 2008. Naquele dia, testemunhei tantos animais se comportando de forma apática, deprimida ou frustrada, que me dei conta de que nunca mais poderia pisar em qualquer instalação que os mantém cativos pelo bem de seu próprio lucro ou entretenimento.

O comportamento de um gorila da montanha idoso, em particular, foi verdadeiramente doloroso. Nunca esquecerei o modo como ele se curvou em posição fetal e começou a balançar para frente e para trás assim que uma multidão de pessoas se aproximou dele. Havia uma rachadura enorme em uma das paredes de vidro que o cercavam: obviamente indicando um ponto onde ele havia perfurado com frustração. Tampouco esquecerei os sons de uma multidão de crianças que zombava dele, ou perguntava a seus pais por que ele “não estava fazendo nada de engraçado.” Essas crianças acreditavam plenamente que o trabalho desse gorila era entretê-las: uma expectativa promovida pelo senso inerente de direito sobre o comportamento dos animais que os zoológicos perpetuam.

Naquele dia, eu soube que jamais ficaria totalmente confortável em visitar um zoológico novamente. No entanto, foi apenas vários anos mais tarde que aprendi mais sobre a verdade horrenda por trás de como zoológicos, parques marinhos e outras instalações comerciais de animais cativos operam. Embora haja indubitavelmente muitos tratadores de zoológicos em particular que se preocupam com o bem estar dos animais prisioneiros, um número de lições arrepiantes que aprendi sobre a indústria como um todo vai garantir que eu jamais dê meu dinheiro para um zoológico, parque marinho, ou outro local parecido novamente.

  1. A saúde psicológica dos animais em cativeiro frequentemente sofre a tal ponto que o fenômeno adquiriu um nome: “zoochosis”.
Foto: GTS Productions/Shutterstock
Foto: GTS Productions/Shutterstock

O comportamento perturbador que testemunhei no velho gorila de montanha, em 2008, está longe de ser incomum entre animais em cativeiro. Auto-mutilação, movimentos anormais repetitivos, andar sem descanso, comportamentos depressivos e explosões repentinas de agressão foram registrados em leões, tigres, elefantes, baleias e golfinhos em cativeiro, para citar apenas alguns. Esse padrão de atividade psicologicamente perturbada entre animais do zoológico foi chamado de “zoochosis”.

O uso generalizado de drogas que alteram o humor, como o Prozac, é um segredo conhecido na indústria de cativeiro de animais. O SeaWorld admitiu administrar medicação antipsicótica às suas orcas prisioneiras: um fato que serve para minar a declaração muitas vezes repetida da empresa de que seus animais estão “prosperando”.

O documentário “Blackfish”, de 2013, examina a morte do treinador do SeaWorld Orlando, Dawn Brancheau, em 24 de fevereiro de 2010, nas mãos de Tilikum. Antes da morte de Brancheau, ela já tinha uma história de comportamento instável, tendo sido ligada a duas outras mortes humanas. Infelizmente, Tilikum não é a única orca cativa que matou ou feriu gravemente um treinador. Houve numerosos casos de violência fatal entre orcas com personalidades incompatíveis obrigadas a conviver juntas em parques marinhos. No entanto, até hoje, nunca houve um único caso documentado de uma orca machucando um ser humano na natureza.

  1. A saúde física dos animais em cativeiro não é muito melhor.

Quando os animais são confinados a um ambiente que não consegue satisfazer suas necessidades de desenvolvimento, a sua saúde física sofre tanto quanto a psicológica. Elefantes em cativeiro, por exemplo, são frequentemente atormentados por artrite, infecções nos pés, baixa fertilidade e mortalidade precoce. Quando soltos, elefantes podem viajar até 48 quilômetros por dia e são um dos mamíferos terrestres mais abrangentes do planeta. No entanto, 40 por cento dos elefantes de zoológicos sofrem de obesidade como resultado direto de seu estilo de vida sedentário.

Um relatório realizado por uma equipe de pesquisadores sobre cativeiros da Alemanha, Israel, Estados Unidos e Reino Unido, e publicado na revista científica PLOSone em 2014, sugeriu que o cativeiro pode até mesmo deixar leões recém nascidos com danos cerebrais. O pesquisador líder do projeto Joseph Saragusty observou que “altas taxas de natimortos, assim como morbidade e mortalidade de recém-nascidos e leões jovens são relatados”. Muitos destes casos estão associados a malformações ósseas, incluindo estenose do forame magno (FM) e tentório do cerebelo engrossado. “Os sintomas destas malformações incluem tremores, perda de equilíbrio e inclinação incomuns da cabeça.”

Orcas cativas, enquanto isso, são propensas a vírus e infecções bacterianas incomuns que raramente — se alguma vez — são testemunhados em suas contrapartes selvagens. O colapso da barbatana dorsal é um fenômeno quase universal entre as orcas machos em cativeiro, mas, novamente, raramente é observado em orcas machos em estado selvagem. Investigadores acreditam que isto é porque a pressão atmosférica da água do mar — combinada à enorme distância coberta por estes animais (até 160 quilômetros por dia) — serve para manter suas barbatanas eretas. Em um tanque pequeno e raso que compreende somente 0.001 por cento do território total disponível para orcas selvagens, esses fatores não estão presentes.

  1. A afirmação de parques zoológicos e marinhos têm um impacto educativo positivo nas crianças é um argumento delicado, na melhor das hipóteses.
Foto: Kelsey Thomas/Shutterstock
Foto: Kelsey Thomas/Shutterstock

Qualquer um que tenha testemunhado um grupo de crianças incomodando um animal cativo ou exigindo que o animal as “entretenha” saberá que — longe de educar crianças sobre como respeitar animais — jardins zoológicos muitas vezes servem para perpetuar a ideia de que eles existem apenas para a nossa diversão. Lori Marino, diretora executiva do Kimmela Center for Animal Advocacy, disse: “Não há evidências atuais de estudos controlados na literatura revisada por pares, apoiando o argumento de que exibições de animais em cativeiro são educativas ou promovem a conservação em qualquer sentido. Como eu sei? Revisei a literatura e publiquei nossas descobertas sobre esta questão”.

Em 2014, um trabalho de pesquisa publicado no jornal Conservation Biology lançou dúvidas sobre as reivindicações educacionais dos zoológicos. O trabalho delineou os resultados de um estudo em que mais de 2.800 crianças foram entrevistadas antes e depois de terem visitado o Zoológico de Londres. Após sua visita, 62 por cento das crianças não mostraram nenhuma indicação de ter aprendido informações nova sobre conservação animal ou ambiental. O estudo descobriu que muitas delas “não se sentem capacitadas para acreditar que podem tomar ‘ação efetiva de melhoria’ em assuntos relacionados à conservação após sua experiência no zoológico”, e que os programas de educação zoológica podem, na verdade, produzir um “resultado de aprendizado negativo”.

Em 2010, um relatório encomendado pelo governo britânico também expressou preocupações de que “apesar de os jardins zoológicos promoverem programas de educação, havia pouca evidência de impacto educacional pela indústria”.

  1. A questão de se jardins zoológicos realmente contribuem para os esforços de conservação a animais ameaçados é altamente discutível.

Contrariamente às alegações dos zoológicos de que os seus programas de conservação e reprodução têm importância vital para o futuro das espécies animais ameaçadas de extinção, a realidade é que esses programas raramente libertam tais animais de volta à natureza. Iniciativas de criação em cativeiro muitas vezes falham devido às más condições e tensões associadas à vida em cativeiro. Em 2013, um relatório da Fundação Aspinall — realizado pelo maior geneticista de conservação, Dr. Paul O’Donoghue — descreveu os animais do zoológico no Reino Unido como “catástrofes genéticas” devido às altas taxas de reprodução e hibridização, causadas pela baixa de animais em cativeiro disponíveis para os jardins zoológicos.

Os programas de reintrodução mais bem sucedidos tendem a ser realizados por agências governamentais e organizações sem fins lucrativos. Uma característica determinante destes programas é que os animais não estão geralmente disponíveis para a visita do público, o que significa que mais tempo do pessoal pode ser gasto em ensinar-lhes importantes habilidades de sobrevivência.

Além disso, os membros selvagens de uma espécie ameaçada de extinção tendem a demonstrar uma preocupante falta de interesse em acasalar com seus companheiros criados em cativeiro. De acordo com um estudo publicado em 2014 na revista Biology Letters, da Sociedade Real, animais criados em cativeiro também preferem acasalar com outros animais criados em cativeiro: uma descoberta que poderia ter um profundo impacto sobre o futuro dos esforços de criação em cativeiro. Isso implica em que animais criados em cativeiro que são introduzidos na natureza não conseguem acasalar com suas contrapartes selvagens, formando em vez disso uma futura “subpopulação” de animais selvagens que estarão em desvantagem evolutiva, não tendo se assimilado à população selvagem nem herdado importantes técnicas de sobrevivência.

  1. É muito mais econômico concentrar-se na preservação do habitat dos animais em perigo.

Além dos muitos problemas práticos associados aos programas de reintrodução selvagem dos zoológicos, o custo de tais programas é outro motivo de preocupação. De acordo com um inquérito realizado pelo grupo de conservação dos animais selvagens Born Free, o custo de manutenção anual de manter um rinoceronte preto em cativeiro é de U$ 16.800. No entanto, o custo anual de proteger habitat suficiente para manter um rinoceronte preto no estado selvagem é de apenas U$ 1.000. O inquérito também descobriu que pode ser até 100 vezes mais caro manter um pequeno rebanho de elefantes em cativeiro por um ano do que proteger uma quantidade semelhante de elefantes — juntamente com todo o seu ecossistema — durante o mesmo período de tempo.

Elefantes africanos estão perdendo suas vidas atualmente para caçadores furtivos de marfim numa média de 100 animais por o dia. O rinoceronte-de-Java foi declarado extinto em 2011, enquanto o rinoceronte negro ocidental sofreu o mesmo destino em 2013. As subespécies de Sumatra e Rinoceronte Branco são atualmente classificadas como “em perigo crítico” pela International Union for the Conservation of Nature, a União Internacional para a Conservação da Natureza (ou UICN). Após a morte de Nola — um dos quatro rinocerontes-brancos do Norte remanescentes no planeta — no ano passado, as perspectivas para esta subespécie também estão parecendo extremamente sombrias. Uma média de três rinocerontes é morta por seus chifres todos os dias. Dado o crítico estado de perigo dos elefantes africanos e da maioria das subespécies de rinocerontes, é vital que os esforços de conservação para estes animais concentrem-se em medidas mais bem sucedidas e rentáveis … e é claro que os programas de reintrodução selvagem dos zoológicos não se encaixam nesta categoria.

  1. No fim das contas… simplesmente não temos o direito de manter esses animais em cativeiro por nenhuma razão melhor do que para eles nos divertirem.
Foto: Krit Leoniz/Shutterstock
Foto: Krit Leoniz/Shutterstock

Se existe uma lição de destaque que aprendi no dia em que vi aquele gorila obviamente arrasado se enrolando como uma bola, que seria esta: quando visitamos um zoológico, não estamos tendo uma imagem precisa de quem esses animais realmente são. De acordo com Azzedine Downes, diretor do Fundo Internacional pelo Bem-Estar Animal (International Fund for Animal Welfare, ou IFAW), jardins zoológicos poderiam ser descritos como “instalações de armazenamento ao vivo”, que representam “uma aquiescência desanimadora para um mundo sem animais vagando na natureza”.

A Terra perdeu estimados 52 por cento de sua vida selvagem nos últimos quarenta anos. Isto tem sido principalmente impulsionado pela perda de habitat causada pela expansão industrial dos seres humanos. Os comentários de Downes ilustram o futuro triste que pode estar à espera dos animais não-humanos: um em que eles são completamente eliminados de seu ambiente natural e exibidos apenas como exposições para nossa curiosidade. A visão daquele gorila indiferente em 2008 me ensinou que, quando visitamos um zoológico, estamos apenas vendo uma versão subjugada, assediada e apática de quem um animal poderia ser se lhe fosse permitido permanecer selvagem.

Por Aisling Maria Cronin / Tradução de Alda Lima

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