A crueldade animal e o novo golpe da bancada ruralista

As práticas adotadas pelo Brasil para a exportação de animais vivos já foram parar na Justiça por diversos grupos de defesa animal, devido às condições precárias onde milhares morrem pelo caminho: por fome, sede, fraturas, hipotermia, falta de ventilação, acidentes, infecções e uma vasta gama de crueldade envolvendo o transporte marítimo de gado vivo.

São muitas as dificuldades que os movimentos de defesa animal vêm encontrando para barrar a exportação de carga viva, já que existem muitas pessoas e segmentos interessados na preservação dessas práticas (além dos pecuaristas): o sindicato dos operadores portuários, motoristas de caminhões, operadores financeiros no âmbito privado e governamental. Além disso, há todo um discurso que envolve a melhoria da economia, sustento de milhares de famílias, acordos em relações internacionais e diplomáticas.

De acordo com o Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (MDIC), de janeiro até novembro de 2017, o Brasil exportou 340,34 mil bovinos vivos, garrotes com menos de 1 ano, sendo a Turquia responsável por 47,5% da compra; devido ao sangrento abate religioso Halal, que, segundo seus costumes, degola os animais provocando uma morte lenta; ainda mais dolorosa e sádica.

Mais do que abominável e com uma realidade bem distante do que apregoa a campanha, “Agro é pop”, a crueldade cometida contra os animais na terrível exportação do gado em pé fere todos os princípios assumidos pelo Brasil da Declaração Oficial de Direitos dos Animais da ONU, prejudicando a imagem do país lá fora. No embarque, o navio parece higiênico, porém, após três dias em alto mar, tudo está contaminado, inclusive a alimentação. O piso complementarmente encharcado e escorregadio causa fraturas expostas nos garrotes que, feridos, acabam sendo pisoteados e morrem pelo caminho, enquanto os que sobrevivem precisam enfrentar semanas soterrados em suas próprias fezes para desembarcar para mais longas jornadas de caminhão até o destino final.

O processo de exportação de carga em pé é tão cruel que choca até mesmo as pessoas que comem carne. A tal “tecnologia de embarque” propagada na TV como norma de segurança, na verdade, não passa do uso de máquinas de choque para o manejo em um navio de 12 andares onde serão confinados por semanas. Cabe lembrar que estamos falando de seres sencientes, ou seja, aqueles que têm a capacidade de sentir – frio, medo, dor, estresse, sofrimento, etc. Tudo isso sem contar a vasta tonelada de fezes e carcaças dos animais que morrem que são jogadas ao mar; fora das vistas daqueles que comem carne.

Mesmo com grande pressão de ativistas pelo direito dos animais presentes desde a quarta-feira (4) na Assembleia Legislativa de São Paulo, o PL 31 mais uma vez não foi pautado pelo deputado Cauê Macris (PSDB), presidente da ALESP. Com forte apelo de mais de 300 pessoas no local e milhares de protestos nas redes sociais, o assunto tomou enormes proporções quando, até mesmo artistas fizeram apelo em suas contas do Instagram para que a pauta fosse votada.

O deputado Teonílio Barba comentou que, nesta semana, coisas estranhas aconteceram na casa: “Não se debateu se levantavam os trabalhos do dia 17 até ao dia 31 de julho e de repente aparece essa proposta aqui, hoje, assinada por trinta e poucos deputados. Cheira a golpe”, disse. O parlamentar petista apontou a pressão de representantes do agronegócio para evitar a votação do PL 31/2018. Segundo ele, o grande motivo pelo golpe é o valor do gado vivo no Estado de São Paulo, a arroba é mais lucrativa do que o quilo do animal abatido.

“Guardem bem esse numero: são 25% a mais no transporte do boi vivo, na arroba é 25% a mais. Então, é mais uma vez o lucro à frente das coisas. Então, quem defender a bancada do boi aqui, não tenha medo, fala que é isso! Fala ‘Nós não vamos abrir mão, porque é 25% a mais na arroba do boi vivo’. É isso que está em debate. Vocês estão defendendo a proteção contra tortura, contra judiar dos animais e eles estão defendendo a manutenção do lucro. Aliás, esse é um processo hereditário, escravagista, escravocrata, porque é o modelo da cabeça ruralista do Brasil, é o modelo da cabeça da cana-de-açúcar do Brasil. Tem deputado aqui nessa casa que tem fazenda em outro estado e quer trazer o boi vivo pra cá, porque aqui é 25% a mais na arroba. Quem está votando a favor, quem esta apoiando o pessoal do agronegócio, não tenha vergonha, subam e digam isso.”, disse em seu discurso corajoso na ALESP (veja aqui).

Por conta desse pensamento apenas no lucro, que os deputados ruralistas estão impedindo a votação. Caso ocorra, é muito provável que seja aprovado o PL 31 e, se for aprovado, serão 25% a menos no bolso dos deputados e pecuaristas.

São eles: Itamar Borges (MDB), Davi Zaia (PPS), Roberto Morais (PPS), Marcos Vinholi (PSDB), Barros Munhoz (PSDB), Carlão Pignatari (PSDB), Gilmar Gimenes (PSDB), Welson Gasparini (PSDB) e Adilson Rossi (PSB).

MANOBRA

A base tucana tentou uma suspensão dos trabalhos legislativos do dia 17 até 31 de julho, assinada por 30 parlamentares e presidida pelo deputado Cauê Macris. Porém, o Regimento Interno determina que a Assembleia Legislativa só possa entrar em recesso depois da votação da LDO, o que ainda não aconteceu. Desta forma, a tentativa de suspensão não prosperou e em decorrência da obstrução da maioria dos partidos, pressionados pelas manifestações de ativistas da proteção de animais que pedem que o PL 31/2018 seja pautado, a pressão contínua.

Um verdadeiro escárnio ao eleitor e a clara certeza de que os deputados não representam a vontade do cidadão brasileiro, para o qual trabalham; mas sim, em benefício próprio fazendo manobras políticas para que este e outros projetos não sejam aprovados.

A sociedade não pode se calar diante da crueldade que está sendo imposta aos animais, em virtude do enriquecimento mais uma vez antiético, cruel e unilateral da bancada ruralista. Todos devem pressionar pelo direito daqueles que não têm voz, subjugados a falta de ética e que estão sendo barbaramente maltratados; muito além do já são corriqueiramente no interior dos matadouros: bovinos, criaturas dóceis e fadadas ao inferno pelas mãos do homem.

Por Luh Pires


Luh PiresLuh Pires | Instagram @luhpires_

Formada em Propaganda e Marketing pela ESPM/RS com especialização em Influência de Mídias Digitais pela Uninter, também cursou Psicanálise Clínica pelo Instituto ABRAFP e diversos cursos na área do marketing digital, desenvolve a comunicação de marcas com viés consciente. É fundadora do Grupo Resgate na Rede que une profissionais de diversas áreas do Brasil para atuar em ativismo direto ou consultoria para resgate de indivíduos ou manadas. Ativista, Infoativista e palestrante na conscientização acerca do Direito dos Animais e a comunicação como pilar de costumes antropocêntricos de dessensibilização entre espécies.

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