A fábula do bode e do tigre

Longe de causar um momento fofura, a notícia do bode colocado na jaula do tigre para que fosse comido, e que contrariando as expectativas (falaremos dessas “expectativas”…) desenvolveu com seu predador natural uma inesperada amizade, provocou-me muita inquietação. Em primeiro lugar, foi terrível ser informada de que “pelo menos duas vezes por semana” os carnívoros daquele zoológico russo recebem presas vivas. Como são alimentados os carnívoros cativos é uma questão insolúvel que preferimos ignorar, até que ela nos é inevitavelmente colocada. Como alimentar uma coruja ferida, que só aceitará roedores vivos? Como alimentar uma cobra “de estimação”, criada para esse fim e que nunca poderá voltar à natureza? Como alimentar meu gato?

Lembro de uma ocasião, há muitos anos, em que uma das minhas porquinhas-da-índia precisou passar por uma cirurgia. A veterinária, uma das poucas que naquela época atendia animais silvestres, foi incrivelmente atenciosa. Como trabalhava algumas horas por dia no parque zoológico, e não desejando deixar a bichinha sem supervisão durante o período de recuperação, contou-me que a levaria junto durante sua jornada no parque no dia seguinte. Voltei para casa preocupada, não só com o estado da porquinha, mas com um incômodo indefinido que os sonhos agitados da noite se encarregaram de me explicar. Sonhei que a Nipe – esse era o nome dela – era colocada numa gaiola junto com os outros porquinhos e hamsters que são criados nos zoológicos com o único fim de alimentar as aves de rapina. Como num terrível erro judiciário, o funcionário/carrasco do zôo vinha buscar os condenados daquela manhã e levava a Nipe por engano. Passei a noite me revirando nesse pesadelo, gritando “não, não” como num clichê de filme, e assim que amanheceu liguei correndo para a vet, que me tranquilizou, rindo muito: não, não havia o menor perigo da porquinha errada ser entregue aos gaviões.

Porém, nesse caso, Nipe não seria a porquinha “errada”, e sim a porquinha “certa”. A porquinha positiva, a porquinha marcada para viver, porquinha inocente, tal qual o bode que por algum capricho que nos escapa, o tigre siberiano resolveu poupar. Os outros roedores, assim como as outras presas semanalmente jogadas ao tigre, esses eram os “errados”, de alguma forma culpados por sua existência infeliz, marcada pelo cativeiro numa caixa insalubre e pela morte violenta e aterrorizante que se seguiria.Na própria notícia do bode e do tigre (não parece uma fábula antiga?) percebe-se uma sutil tentativa de revestir a figura do bode de um certo heroísmo, de uma certa dignidade; emana do texto a impressão de que o bode, dono de uma personalidade incomum, conquistou o respeito do predador, conquistou o direito à vida: “O bode não mostrou nenhum indício de medo, encarou o tigre e assumiu seu abrigo”, disse um funcionário do zoológico ao jornal Siberian Times. Os outros, não. Os outros, mereciam morrer.

E isso insere nosso bode na mesma categoria dos cachorros heróicos e dos equinos estóicos da dramaturgia (houve também Skippy, o canguru, Salty, a foquinha, Flipper, o golfinho, mas lembrar isso é entregar minha longevidade). Lassie, Rin-tin-tin e todos aqueles cavalos de guerra e de corrida que, tombando em batalha, recebem como condecoração uma lágrima e uma bala na cabeça; fizeram por merecer a honraria, pois foram humanos, humanos naquele sentido cego e presunçoso do antropocentrismo, que significa atribuir valor à vida dos animais apenas quando eles mimetizam características que preferimos considerar as mais relevantes em nossa própria espécie: coragem, inteligência, altruismo… E na verdade, segundo penso, não são esses, e sim a perversidade – num sentido amoral, psicanalítico, importa ressalvar – , os impulsos que mais nos diferem das outras espécies animais. Perversidade, nosso maior presente evolutivo, excentricidade só possível na intrincada psiquê humana.

Enfim, o que a notícia nos diz é que excepcionalmente tigres podem ser bons e bodes podem ser dignos, única circunstância em que suas vidas, por aproximá-las da experiência humana, adquirem valor.  Quase posso imaginar a notícia encerrando com uma moral, bem ao estilo das fábulas da antiguidade que utilizavam arquétipos animais para falar de misérias do homem, tipo “Levanta tua cabeça e teu algoz abaixará a dele” ou algo assim.

O que a notícia não diz em nenhum momento é porque aquele tigre e aquele bode estão lá, que crime podem ter cometido os dois, um, para que seja condenado a uma existência aprisionada e humilhante, outro, a uma morte prematura e ainda mais indigna. Mas suspeito que a razão é que o show deve continuar. Como num dantesco snuff movie – aqueles filmes marginais que, segundo conta a lenda urbana, mostram torturas e assassinatos reais, produzidos de encomenda para um público sádico – zoológicos não são o espetáculo da vida, mas sim da morte. Ali a vida é engessada, apagada, reduzida a farsa como na escultura de uma raposa empalhada. Não há muita diferença entre o que acontece num zoológico e os milhares de vídeos doentios que rolam pelo You Tube, em que adolescentes neuróticos, entre risos e observações cruéis, documentam detalhadamente enquanto oferecem coelhinhos e camundongos a suas serpentes e sapos carnívoros. No Facebook, há um canal intitulado “Crueldade humana contra os animais” ou algo parecido, repleto dos vídeos mais terríveis que se possa imaginar, e que sob o disfarce de veículo de denúncia, promove apenas, novamente, espetáculo. E há espetáculo porque há público, como provam os documentários de cenas de predação que fazem a alegria do National Geographic Channel. Sim, a natureza é assim – e essa é uma boa razão para nos perguntarmos porque afinal deveríamos tomar a natureza como parâmetro para considerações éticas

Que o tigre coma o bode, isso é questão de tempo.Tigres – ao contrário de nós, veganos, que nos alimentamos exclusivamente de alface e soja, como todos sabem – não dispõem de capacidade cognitiva suficiente para realizar escolhas morais, nem, ainda que quisessem, de aparelhamento biológico para adotar uma dieta vegetariana.  Ainda que a conduta do tigre estivesse sendo movida pela compaixão, um belo dia o felino acordará ansioso, de mau humor, e devorará o bode errado. Ao final, esta seria a verdadeira fábula implícita na notícia: de que uma ética norteada ingenuamente pela compaixão, conhecida como “ética do cuidado”, não é lá muito segura para os mais fracos. Não podemos depender  dos caprichos afetivos dos poderosos, e por isso é bem melhor que a ética se construa através da teoria do direito. Posso até imaginar a moral dessa fábula: “Quem janta com predadores um dia vira sobremesa”…

Já os funcionários do zoo, é verdade, não tinham muitas alternativas, mesmo se decidissem refletir até o fim, atividade kamikaze própria dos filósofos. Ao ver que o bode, como um lázaro, resistia à morte, poderiam tê-lo tirado de lá, tê-lo livrado do perigo iminente sob o qual se encontra, ter lhe dado uma verdadeira segunda chance. Mas se tivessem feito isso – e na hipótese de que quisessem pensar até o fim – num segundo estariam se perguntando (como nós aqui), por que não salvar também os outros bodes? E salvos todos os bodes, de que viveria o tigre, o tigre metaforicamente empalhado que jamais pisou numa selva? De que viveriam os zoos?? Muito problema. Eles preferiram a fábula.

Link da notícia:

Bode é colocado em jaula para ser comido por tigre, mas eles acabam brincando juntos

Por Liège Copstein

Fonte: Olhar Animal

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