Imprudência de condutores e falta de sinalização contribuem para o aumento no número de mortes de diversas espécies em rodovias. (Foto: Fernando Tatagiba/Parque Nacional Chapada dos Veadeiros)

Acidentes matam mais de 2 mil animais por ano em rodovia próxima ao DF

Os atropelamentos de animais em rodovias têm provocado uma série de desequilíbrios ambientais e preocupado especialistas. Nas GO-239 e GO-118, que cortam o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, distante 230km de Brasília, o alerta é mais grave por espécies ameaçadas de extinção, como onça-pintada, jaguatirica, lobo-guará, tamanduá-bandeira, entre outros, estarem sendo duramente atingidas. Os impactos são severos. Em alguns casos, comparados ao da perda do hábitat. Um inquérito civil público na Procuradoria da República no município de Luziânia cobra medidas para conter as mortes.

Para se ter ideia da dimensão do problema, apenas na GO-239, estima-se que morram mais de 2 mil animais atropelados por ano. Os dados são da pesquisa da cientista ambiental da Universidade de Brasília (UnB), Tatiana Rolim. Entre julho de 2015 e setembro de 2016, a pesquisadora monitorou a situação. A cada três horas, ela percorria a estrada e recolhia os cadáveres. Aves e répteis são os mais atingidos. Mamíferos e anfíbios também estão no ranking. Durante o levantamento, Tatiana recolheu 295 animais atropelados: 124 aves, 69 répteis, 34 mamíferos e 68 anfíbios. Os números ancoram o cálculo da estimativa.

Faltam políticas

Em 23 de janeiro, a Procuradoria da República no município de Luziânia recomendou à Agência Goiana de Transportes e Obras (Agetop), responsável pelas rodovias, a implantação de diversas ações que diminuiram os atropelamentos, como a elaboração de estudo específico dos corredores de fauna e medidas de controle de velocidade. O prazo foi de 30 dias. Contudo, segundo os ambientalistas, nada foi feito.

A Agetop não comentou o caso. Em nota, informou que “estuda a instalação de redutores de velocidade nas rodovias que dão acesso à Chapada dos Veadeiros, além de outdoors com fotos de animais para alertar os condutores sobre a necessidade de reduzir a velocidade e evitar atropelamentos das espécies nas rodovias”. O Correio questionou quais ações de mitigação o órgão implantou e se há previsão para alguma medida ser tomada no local, mas não obteve resposta.

Para o chefe do Parque Nacional Chapada dos Veadeiros, Fernando Tatagiba, a falta de medidas de proteção dos animais, como passagens subterrâneas ou aéreas, o cercamento das rodovias e a inexistência de um programa de monitoramento acentuam o número de mortes. “Observamos que há um número de atropelamento de fauna silvestre altíssimo. Esse impacto é negativo e está entre as principais ameaças para várias espécies”, explica.

Flávia Cantal, da ONG Associação dos Amigos da Floresta, aponta a imprudência dos condutores combinada com a falta de sinalização como combustíveis para as mortes. “A grande maioria dos motoristas não quer atropelar o animal, mas tem a crença de que dá tempo de frear ou desviar. O animal atravessa a pista repentinamente, sobretudo à noite. Em muitos casos, quando o bicho é pequeno, não há danos ao carro e às pessoas. Mas, quando é  maior, há estragos enormes, inclusive a morte de pessoas”, alerta.

Uma das principais críticas da bióloga especialista em ecologia de estrada Fernanda Abra é a falta de políticas públicas para a diminuição dessas mortes. “Nunca foi pensando na implantação de medidas de mitigação de atropelamento de fauna. São acidentes gravíssimos, sobretudo quando ocorre o atropelamento de animais de grande porte. O atropelamento da fauna não é algo eventual, é crônico”, avalia.

Medidas de proteção

A professora Clarisse Rezende Rocha, do Centro de Estudos UnB Cerrado, explica que há um conjunto de medidas que reduz o número de atropelamentos, previsto na construção das rodovias.  No caso da GO-239 e da GO-118, poucas ações foram implantadas. “Isso é uma obrigação das autoridades públicas. Quando uma rodovia é feita,há um estudo de impacto ambiental. O que precisa ser feito já está escrito antes da construção”, critica.

Para ela, a única medida efetiva é a construção de passagens: aérea para primatas, por exemplo, e subterrâneas, para aqueles mais terrestres. “A quantidade de bichos atropelados é muito grande. Temos uma redução da população dos animais e isso gera um desequilíbrio ambiental gigantesco”, conclui.

A cientista ambiental Tatiana Rolim é categórica: alguma coisa precisa ser feita. “A pesquisa começou após a inauguração da ampliação da GO-239, em 2015. Queríamos ver o impacto com a mudança na rodovia. Comparei a fauna atropelada depois da obra com a pesquisa que havia sido feita anteriormente. Houve um aumento na frequência dos atropelamentos e na quantidade de espécies atingidas”, detalha.

Por Otávio Augusto 

Fonte: Correio Braziliense 

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