Núcleo de pesquisa da Ufes estima mais de 20 mil atropelamentos por ano em trecho de 25 quilômetros (Foto: Leonardo Merçon / Instituto Últimos Refúgios)

Animais mortos na BR-101 vão virar exposição ambiental no ES para chamar atenção aos acidentes

Em 2 de novembro de 2017, Dia de Finados, pesquisadores da Universidade Federal do Espírito Santo contaram, pessoalmente, 91 animais mortos por atropelamento, na extensão de cinco quilômetros da BR-101 que corta a Reserva Biológica de Sooretama, no Norte do Espírito Santo.

“Sooretama”, de origem tupi-guarani, significa “terra dos animais”. E os que perderam a vida em acidentes nesse trecho estão sendo eternizados pelas mãos da equipe do laboratório de plastinação da Ufes. Além do aproveitamento educacional, a ação tem um apelo de conscientização para a preservação da fauna, ameaçada pela rodovia.

A plastinação é uma técnica de preservação de tecidos biológicos com a utilização de silicone, epóxi ou poliéster. Diferente da taxidermia (conhecida como empalhamento), ela preserva todo o corpo do animal e o deixa protegido contra ataque de bichos, como traças e cupins.

Esse projeto inédito, que teve início em 2016, envolve cerca de 20 pessoas no laboratório e tem como objetivo a criação de uma exposição de educação ambiental com uma coleção de animais silvestres.

Athelson Bittencourt e Aureo Banhos no Laboratório de Plastinação do Museu de Ciências da Vida da Ufes. Um mão-pelada, com metade do corpo dissecado no plano muscular, e uma cabeça de anta. (Foto: Athelson Bittencourt / Arquivo pessoal)

O trecho da BR-101 administrado pela Eco 101 no estado intercepta seis unidades de conservação, entre elas a de Sooretama, e outros fragmentos florestais, segundo a concessionária.

O Núcleo de Ecologia de Estradas da Ufes estima uma média de 20 mil atropelamentos de animais por ano no trecho de 25 quilômetros da Rebio de Sooretama até a Reserva Natural da Vale. O dado mais recente informado pela Eco 101 foi de 495 animais atropelados em 2016 em toda a extensão administrada pela concessionária no estado.

O número é subestimado, segundo o pesquisador. “Ainda que façam esse trabalho, muitos passam sem eles perceberem”, afirmou Aureo.

Para amenizar o impacto causado pela rodovia, a concessionária afirma que existe um programa de proteção da fauna para fazer monitoramento, resgate e afugentamento dos bichos.

“Essa rodovia é o pior impacto que há ali. Como não tem pessoas morando, só bichos, a situação é ainda pior”, disse o doutor em biologia Aureo Banhos.

BR-101 corta a Reserva Biológica de Sooretama (Foto: Leonardo Merçon / Instituto Últimos Refúgios)

Plastinação

Alguns dos animais mortos são congelados, com a colaboração do Instituto Chico Mendes (ICMBio) e da Eco 101, e levados para o laboratório de plastinação, pelo intermédio do Núcleo de Ecologia. Depois, são submetidos ao processo.

A técnica de plastinação foi trazida pelo coordenador do laboratório, o professor Athelson Stefanon Bittencourt, pós-doutor em Ciências Fisiológicas, depois de uma especialização nos Estados Unidos. A primeira plastinação em Vitória foi feita em 2014, ano em que o laboratório da Ufes foi implantado.

O laboratório da Ufes é o único no Brasil que faz as três variações da técnica e que trabalha com peças de médio porte.

O trabalho é demorado e feito em várias etapas. Os animais são conservados com formol e podem passar por dissecção ou não. Após a preparação inicial, eles recebem o plástico.

Trabalho de dissecção do mão-pelada. (Foto: Athelson Bittencourt / Arquivo pessoal)
Tamanduá-mirim, imediatamente antes de ser submetido ao processo de plastinação. (Foto: Athelson Bittencourt / Arquivo pessoal)

Os animais são submersos no silicone numa câmara de vácuo para passarem pelo processo de impregnação forçada, quando a substância penetra no corpo. No caso dos animais abaixo, essa etapa durou 20 dias, mas o tempo varia de acordo com o tamanho.

Uma preguiça, um gato-do-mato e um quati sendo submerso no silicone para passarem pelo processo de impregnação forçada (Foto: Athelson Bittencourt / Arquivo pessoal)

“A bomba de vácuo fica ligada naquela câmara, e o vácuo faz com que a acetona que está no corpo do animal vire vapor. Quando ela vira vapor, é extraída para a atmosfera interna da câmara. Nesse momento, quando a acetona sai do tecido, ela cria um micro-vácuo, que acaba atraindo para dentro o silicone que estava em volta do corpo do animal”, explicou o professor.

O epóxi e o poliéster são utilizados em uma proposta mais detalhista, para lâminas do corpo. Nesse caso, é possível enxergar diversas estruturas do corpo, como fibras musculares e áreas do cérebro do animal.

Quando saem da câmara de vácuo, o silicone fica escorrendo por cerca de 24h. Os animais que receberam o plástico vão para outro setor do laboratório, onde as peças são montadas e finalizadas.

Onça, harpia, anta, gato-do-mato e cachorro-do-mato são exemplos dos animais que estão passando por plastinação. Bicho-preguiça, jaguatirica, tamanduá e muitos outros também vão fazer parte do acervo. Para isso, os pesquisadores estão em fase de captação de recursos.

A posição em que os animais ficam é pensada desde o início do processo e leva em consideração o comportamento deles na natureza. Uma das preguiças, por exemplo, vai ficar nas garras da harpia, já que é presa da ave. A onça está sendo preparada em posição de ataque, como se tivesse olhando para outro animal.

“É um trabalho artístico, mas com o conhecimento científico”, disse coordenador do laboratório de plastinação, Athelson Bittencourt.

A técnica também é aplicada em corpos de humanos, e as peças trabalhadas no laboratório serão expostas no Museu de Ciências da Vida, em Vitória. A previsão de inauguração é março de 2018. Este será o primeiro museu do Brasil com peças plastinadas no próprio país.

Dois animais mortos por quilômetro

De acordo com Aureo Banhos, do Núcleo de Ecologia de Estradas da Ufes, a estimativa é de que a média na região de Sooretama seja de dois animais mortos atropelados por quilômetro a cada dia.

O monitoramento da área é feito pelo núcleo desde de 2010, em parceria com o ICMBio, que gerencia a Reserva de Sooretama. O núcleo assumiu a responsabilidade de encontrar destinos que possa ser mais proveitosos para os animais mortos. Foi assim que surgiu a ideia de levá-los para a plastinação. “Para tentar trazer um retorno positivo, de sensibilização dos usuários das rodovias”, explicou.

Algumas medidas para diminuir o impacto da rodovia na área já foram discutidas. De acordo com Áureo, é possível implantar ações emergenciais até que algo permanente seja feito, como a redução do limite máximo de velocidade e fiscalização efetiva do trecho. São elas:

a) Redução do limite máximo de velocidade para menos de 60 km/h no trecho;

b) Mais pontos de fiscalização eletrônica ou física;

c) Adaptação de grandes tubos de drenagem para o trânsito dos animais, que já passam por eles, mas enfrentam obstáculos.

A Eco 101 disse que realiza um trabalho de monitoramento para que as medidas de mitigação dos impactos possam ser implantadas.

No momento, há placas educativas ao longo de todo trecho da reserva, além de placas informativas aos usuários nos limites das reservas de Sooretama e na Reserva Natural da Vale.

A concessionária informou que há passagens subterrâneas e que a implantação de passagens aéreas é estudada.

Animais atravessam a pista da BR-101 (Foto: Leonardo Merçon / Instituto Últimos Refúgios)

Programa de proteção

A Eco 101 informou que implantou, em 2013, o Programa de Proteção à Fauna, que é composto por dois subprogramas, de monitoramento e de resgate e afugentamento. O objetivo é conhecer os animais que ali estão e amenizar os impactos causados pela rodovia.

A concessionária explicou que a equipe do programa percorre o trecho da BR-101 sob administração da Eco 101 uma vez por mês. A vistoria é feita em um veículo em baixa velocidade, para que os animais possam ser identificados.

O monitoramento também é feito por uma equipe a pé. Todos os dados coletados são cadastrados numa planilha, por grupo, espécie, local e outras informações.

Os animais mortos são recolhidos ou retirados da pista, para evitar a atração de outros animais. Alguns, que estejam em bom estado, são destinados à pesquisa científica.

Cuidados nas obras de duplicação

A Eco 101 informou que também monitora a possível presença de animais nas áreas onde serão realizadas as obras de duplicação da BR-101. Os locais são vistoriados antes da execução.

Durante as obras, a concessionária informou que já foram afugentados animais como tatu, gambá, cobra e ouriço-cacheiro, por exemplo.

Quando o afugentamento não é possível, como em casos de supressão da vegetação, os bichos são resgatados e soltos em local com características semelhantes.

Animais resgatados pela Eco 101

Os animais feridos em acidentes na rodovia são resgatados por uma equipe especializada da concessionária.

No período de setembro de 2016 a novembro de 2017, foram resgatados 19 animais com vida. Seis foram soltos novamente na natureza, cinco estão em tratamento e oito morreram antes ou durante o tratamento.

O que fazer se encontrar um animal vivo?

A concessionária não recomenda o resgate de animais pelos usuários da BR-101. A recomendação é que os usuários acionem a equipe operacional da Eco101 pelo telefone de emergências 0800 77 01 101 para que sejam tomadas as devidas providências.

Os animais são recolhidos e soltos posteriormente em local adequado, preferencialmente áreas de mata nativa e afastadas da rodovia.

Por Manoela Albuquerque

Fonte: G1

Os comentários abaixo não expressam a opinião do Olhar Animal e são de responsabilidade exclusiva dos respectivos autores.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *