Foto: Gabriela Ibarra/Flickr

As zonas mortas nos oceanos quadruplicaram desde 1950… e isto está ligado a nossa obsessão por carne

Um novo estudo publicado recentemente na revista Science by GO2NE (Global Ocean Oxygen Network) descobriu que as zonas oceânicas mortas quadruplicaram, aumentando 1000 por cento, desde 1950. O estudo aponta para as mudanças climáticas e para a pecuária industrial como os principais impulsionadores do aumento dramático.

As zonas mortas são áreas onde a hipóxia ou a diminuição dos níveis de oxigênio ocorre nos oceanos. Essas condições de fato matam todas as criaturas vivas onde elas ocorrem. As zonas mortas podem variar de tamanho com as estações e se mover com as marés, mas sua presença é essencialmente garantida em áreas onde o excesso de nutrientes das operações agrícolas convencionais entra nos cursos d’água.

A pesquisa mais recente reflete o estudo do grupo ambiental Mighty de 2017, que descobriu que o despejo da pecuária foi responsável pela criação da maior zona morta no Golfo do México. O estudo da Mighty, da mesma forma, culpou o apetite dos americanos por carne e, especificamente, aponta a Tyson Foods, a maior empresa de carne dos EUA, por sua contribuição com nutrientes que resultam em zonas mortas.

“Essas descobertas não surpreendem e confirmam ainda que a poluição não controlada da agropecuária industrial atingiu os níveis de crise e exige ação imediata”, afirmou Lucia von Reusner, diretora de campanha da Mighty Earth.

E como exatamente a indústria da pecuária está ligada às zonas mortas? Os animais criados para alimentação produzem cerca de 130 vezes mais excrementos do que a população humana inteira. A Environmental Protection Agency estima que cerca de 335 milhões de toneladas de estrume (medido em peso seco) são produzidas pelo gado nos Estados Unidos a cada ano. E se uma fazenda não tem um sistema de tratamento adequado para lidar com esse resíduo, os nutrientes deste estrume podem acabar em águas subterrâneas ou águas superficiais, apenas para fluir e se acumular em um lago ou oceano. Isso é uma tonelada de nutrientes extras na água! Na verdade, são 335 milhões de toneladas de nutrientes extras.

As pilhas de estrume são apenas uma parte da equação. Há uma razão pela qual as vacas e os porcos estão defecando e é a causa de uma carga extra de nitrogênio e fósforo que o ecossistema é forçado a lidar. Estima-se que 85 por cento da produção de soja no mundo são usados em alimentos para animais, e estima-se que 80 por cento do milho produzido nos Estados Unidos acabam como alimentação animal. Como você pode adivinhar, muitos fertilizantes vão para o cultivo dessas plantações. Em 2011, 22 milhões de toneladas de fertilizantes foram usados em plantações nos Estados Unidos. Infelizmente, apenas cerca de 50 por cento dos fertilizantes são realmente absorvidos pelas próprias plantas, o resto simplesmente escoa, geralmente encontrando seu caminho para os cursos d’água.

“Empresas como a Tyson Foods estão impulsionando a demanda de grandes quantidades insustentáveis de milho e soja, que estão derramando a maior parte da poluição de nutrientes em nossos cursos d’água”, afirmou Lucia von Reusner, “além do estrume que muitas vezes é despejado nos campos onde depois são levados para os cursos d’água circundantes”.

De acordo com o One World One Ocean, há 405 zonas mortas nos oceanos. À medida que a população aumenta e as entidades agrícolas cultivam mais terras, mais de 90 milhões de hectares de milho no ano passado, diz a Scientific American, as zonas mortas dobram a cada 10 anos, ameaçando a vida de animais marinhos em todo o mundo.

Nós raramente consideramos a conexão entre os oceanos e nossa vida aqui na terra, mas essa não é uma relação que podemos nos dar ao luxo de dar por certo. O fitoplâncton marinho produz a maior parte do oxigênio do mundo e os oceanos atuam como sumidouros vitais de carbono, absorvendo o dióxido de carbono adicional que contribui para a mudança climática. O capitão Paul Watson, fundador da Sea Shepherd, disse muitas vezes: “Se os oceanos morrerem, nós morremos”.

Então o que nós podemos fazer?

Você pode não ser capaz de acabar sozinho com as zonas mortas feitas pelo homem. Mas há muito que você pode fazer para ajudar a situação nos cursos d’água. Lembre-se de que você pode fazer escolhas todos os dias na sua alimentação e falar à sua comunidade para ajudar o meio ambiente.

Você pode fazer parte do #EatForThePlanet a partir de hoje. É só seguir os três passos simples abaixo:

1. Substitua: tente trocar produtos de origem animal em sua dieta diária por alternativas veganas (leite, manteiga, maionese, queijo, frango grelhado, carne, salsichas, frios etc.)

2. Inclua: Adicione alimentos completamente à base de vegetais (da região e orgânicos, quando possível) à sua dieta, como verduras, frutas frescas e vegetais, grãos inteiros, proteínas vegetais como lentilhas, nozes e sementes, feijão, tofu etc.

3. Modere: Limite o consumo de suas carnes favoritas, como carne bovina, cordeiro, porco etc.

Todos nós temos o poder de criar um futuro melhor para nossos filhos e os inúmeros animais com quem compartilhamos o planeta fazendo uma simples mudança.

Por Michelle Neff / Tradução de Ana Carolina Figueiredo

Fonte: One Green Planet


Nota do Olhar Animal: Quando falam do impacto ambiental da fabricação de produtos de origem animal, é comum colocarem o foco no resultado disto para os humanos, apelando-se para a ameaça que essa atividade representa para a sobrevivência da nossa própria espécie. Mas os humanos são vítimas secundárias, já que quem sofre o dano primário são os animais explorados nessas linhas de produção, como bois, porcos, aves, etc., torturados e abatidos que são. E é um imperativo ético que o dano causado a eles seja considerado antes de qualquer outro. Ter como objetivo final apenas “limitar o consumo” desses produtos, como sugere o texto, significa desconsiderar esta obrigação moral.

Por outro lado, é bom lembrar que as vítimas dos impactos secundários não são apenas os próprios humanos, mas também os animais de outras espécies (como os aquáticos e selvagens), cujas vidas são tão relevantes quando as dos animais abatidos para consumo. Isto torna a questão ambiental importante e digna de consideração, sim, mesmo que se pretenda focar pensamentos e ações prioritariamente sobre a questão dos animais não humanos. O equívoco não é dar importância à questão ambiental e sim, na sua abordagem, perder-se no sedutor e menos conflituoso antropocentrismo dominante.

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