Brasinha (ou de quando me sinto uma pessoa boa)

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Brasinha (ou de quando me sinto uma pessoa boa)

Mesmo depois de anos, a lembrança continua vívida. Ao chegar à reunião da APATA CE, associação de proteção onde atua em Fortaleza, Iolanda Lene soube que estava ali um gato preto. O pior foi descobrir que ele havia sido amarrado aos trilhos de trem por pessoas doentes, que queriam se divertir vendo o que aconteceria. Socorrido com vida, o gatinho porém não escapara de perder uma perna e a cauda, mas estava se recuperando. “Pedi para vê-lo e me apaixonei imediatamente” lembra Iolanda. “Resolvi adotá-lo. E prometi-lhe que ele seria tão amado, mais tão amado, que talvez um dia até pudesse esquecer a maldade que lhe fizeram. Disse também que, na casa para onde ia, faríamos o possível para satisfazer todas as suas vontades.

E assim tem sido nos últimos anos. Brasinha se recuperou e é muitíssimo amado e mimado. E leva uma vida normal e ativa, já que sua deficiência não o impede de fazer nada.

Mas nem por isso me sinto uma pessoa boa. Ao adotar o Brasinha, ao amá-lo e mimá-lo muito, não fiz mais do que a minha obrigação.

O que faz com que eu me sinta uma pessoa boa é o seguinte: por conta do trauma, ele tem medo de pessoas estranhas. Sempre que chega algum desconhecido, corre para esconder-se. Mas todos os dias, quando estamos só os dois no meu quarto, ele deita na sua toalhinha e dorme tranquilo, sem medo nenhum, sabendo que estou ali e que, por isso, ninguém poderá maltratá-lo. É nesse momento, observando em silêncio por alguns instantes esse serzinho traumatizado por tanta maldade, e que no entanto demonstra total confiança em mim, que me sinto uma pessoa boa. E então chego sempre à mesma conclusão: o Brasinha fez muito mais por mim do que fiz por ele.”


Texto baseado no relato de Iolanda Lene, de Fortaleza, CE

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