‘Carne limpa’?

Começaram a revelar detalhes da “engenharia do processo de produção da carne de laboratório”. Uma pena que não o fizeram a tempo de eu poder usar no livro “Carnelatria: escolha omnis vorax mortal”.

Em princípio, só em princípio e para quem não gosta de ler textão, mesmo sendo notícia relevante para toda gente, não haveria “sofrimento animal algum”, pois a célula básica da qual se reproduzirão as bilhões de outras em formato de bifes e similares, é extraída da pena de uma galinha branca. Tudo muito limpo, branquinho.

Supondo-se que essas penas fossem coletadas do ambiente no qual a galinha vivesse livre para fazer o que bem entendesse com seu espírito galináceo, nenhuma forma de limitação à liberdade dela seria imposta. Nenhum procedimento invasivo seria infligido ao seu organismo. Uma simples pena seria recolhida e dela seriam gestados bilhões de bifes.

Tudo muito lindo, não? Finalmente, os aficionados por carnes poderiam seguir degustando o que julgam ser fonte insubstituível de sabores aminoácidos. Só que não.

Para forjar o tal do bife, foi preciso deixar aquela célula penosa nutrir-se de uma combinação de açúcar, proteínas e vitaminas. À primeira vista, isso também não implica sofrimento para qualquer animal, certo?

Errado. A base na qual aqueles nutrientes foram inicialmente colocados para alimentar a célula inicial e em seguida as trilhões de outras que dela se formaram, no experimento realizado, foi soro extraído por punção do coração vivo de fetos bovinos. Pelo menos essa foi a técnica empregada nos estudos preliminares de multiplicação de células para produção da “carne limpa”.

Para extração do soro bovino fetal a vaca é engravidada para gerar um feto de cujo coração vivo é punçado o soro com o qual se forma a base na qual foram colocados os nutrientes da “carne limpa” (clean meat), como ocorre em outras técnicas de culturas de células vivas.

Carne limpa? Com o uso experimental desse soro, a pesquisa que deu origem à carne de laboratório não foi feita de modo limpo. Essa carne veio impregnada de dor e sofrimento das vacas (mais uma vez temos aí a ‘mizooginia’) e dos fetos (mais uma vez abortos induzidos, comuns nas “fazendas de sangue”, ‘zooinfanticídios’).

Mesmo com o avanço atual da técnica, que ora busca dispensar o uso do soro extraído do coração de fetos bovinos vivos (conforme comentário feito a esta postagem por Felipe Krelling, atualizando os dados da pesquisa, obrigada, Felipe!), é muito mais sensato parar de comer carnes animalizadas de todos os tipos, parar de cobiçar leites, queijos e omeletes animalizados de todos os tipos. São três decisões que “limpam” da dieta todo vestígio de sangue, estupro, aborto e assassinato de inocentes. Animastê!

Por Sônia T. Felipe

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