Carroças não poderão mais circular no Centro de Canoas, RS

Medida deve entrar em vigor na primeira quinzena de fevereiro e gera apreensão entre carroceiros.

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Anderson anda com o filho e a mulher a tiracolo e teme pelo futuro da família (Foto: Mateus Bruxel / Agencia RBS)
Anderson anda com o filho e a mulher a tiracolo e teme pelo futuro da família (Foto: Mateus Bruxel / Agencia RBS)

Para dar fim à circulação de carroças pela cidade, a prefeitura de Canoas proibirá, a partir da primeira quinzena de fevereiro, a circulação dos veículos de tração animal na área central. A data oficial para início da restrição ainda não foi estipulada. A medida é uma das ações que pretendem extinguir o uso de carroças na cidade até 2024, conforme lei municipal sancionada em 2016. Outra, já em andamento, é o cadastramento de todos os carroceiros nos Centros de Referência em Assistência Social (Cras) da cidade.

Ainda não há um levantamento oficial da quantidade de carroças existentes em Canoas, mas a prefeitura calcula que hoje centenas delas atuam na catação de material reciclável. E são os recicladores o principal alvo do projeto Cavalo de Lata, iniciativa da administração municipal que pretende trocar os cavalos por triciclos movidos pela força humana. Segundo o prefeito Luiz Carlos Busato, o projeto visa coibir os maus-tratos sem prejudicar as famílias que vivem da reciclagem.

— É inadmissível que ainda hoje se use um animal como escravo para puxar uma carroça. Nossa preocupação é com os maus-tratos aos cavalos, mas também pensamos na questão social, queremos reencaminhar a fonte de renda das famílias que trabalham com as carroças. Por isso, estamos cadastrando os carroceiros da cidade — destaca.

Inicialmente, dez triciclos serão distribuídos aos catadores que circulam pelo Centro e não poderão andar com carroças. Os veículos foram adquiridos pela Secretaria do Meio Ambiente por meio de um Termo de Compensação Vegetal (TCV) – compromisso ambiental assumido por um empreendedor, como forma de compensar a retirada de vegetação no município.

Luiz Carlos esclarece que os dez primeiros carroceiros serão capacitados pelas secretarias do Meio Ambiente e Desenvolvimento Social, já que a substituição da tração animal pelo cavalo de lata alterará o sistema de coleta seletiva no Centro.

Polêmica

Enquanto a prefeitura divulga o projeto e tenta convencer os recicladores, a medida continua sendo considerada polêmica entre os que utilizam as carroças como principal meio de trabalho. Eles alegam que precisariam carregar até 300 quilos diários de material reciclável sem a ajuda do animal.

Catador há 15 anos, Juliano Gonçalves Rodrigues, 33 anos, percorre Canoas diariamente junto com o cavalo Dragão, de 14 anos, em busca de material reciclável, mas evita o Centro da cidade por considerar uma área de difícil acesso. Desconhecendo a lei municipal e o novo projeto da prefeitura, Juliano surpreendeu-se com a possibilidade de ter que entregar Dragão.

— Vão salvar os cavalos e prejudicar os humanos? Circulamos por vias com lombas e será impossível carregar tudo numa bicicleta. Como ficarão as famílias que saem juntas para catar? Vai ter bicicleta para todos? — questionou.

Juliano conta com a ajuda de Dragão
(Foto: Mateus Bruxel / Agencia RBS)

Cavalo recém comprado terá se der entregue

As mesmas dúvidas têm Anderson Sávio Rodrigues, 27 anos, um dos primeiros a se cadastrar no Cras Mathias Velho para fazer parte do novo programa da prefeitura. Anderson se inscreveu acreditando que receberia um triciclo motorizado. Ao saber que seria uma bicicleta comum com uma carroça na parte traseira, demonstrou surpresa.

Pintor desempregado, há cinco meses Anderson comprou por R$ 5 mil o cavalo e a carroça para pagá-los em dez prestações. Recém pagou as quatro primeiras. Todos os dias, por volta das 6h, ele sai ao lado da mulher, a auxiliar de cozinha desempregada há um ano, Catiússia Moraes da Silva, 21 anos, e o filho Anderson Gabriel Rodrigues, dois anos, e percorre mais de 30km dentro da cidade catando recicláveis.

— Não tenho como andar com a mulher e o filho numa única bicicleta. E o peso que carregamos é inviável num veículo frágil assim — justificou.

A prefeitura estuda, futuramente, adotar um modelo de veículo com tração mecânica. Para isso, o prefeito afirma que a ampliação do projeto Cavalo de Lata será realizada com recurso federal já garantido pela Secretaria Municipal de Projetos Especiais, Captação e Inovação. Ainda não foi definida a data de proibição da circulação em outros bairros.

Onde obter mais informações

A Secretaria Municipal do Desenvolvimento Social (SMDS) está realizando o cadastro dos carroceiros que atuam no Centro, onde iniciará o projeto Cavalo de Lata. Os carroceiros de outras regiões também deverão procurar o Centro de Referência em Assistência Social (CRAS) mais próximo de casa para inscreverem-se no Cadastro Único do Governo Federal. No momento da inscrição ele deve informar que está interessado em participar do projeto. A inscrição será um pré-requisito para o recebimento do triciclo.

– CRAS Harmonia _ Rua Sobral Pinto, 35 Loteamento Porto Belo _ Harmonia.
Fone: 3425-0083

– CRAS Guajuviras _ Rua 17 de Abril, 28 Setor 06 _ Guajuviras.
Fone: 3467-2062

– CRAS Niterói _ Rua 1° de Maio, 1398 _ Niterói.
Fone: 3478-1101

– CRAS Rio Branco _ Rua Montenegro, 1057 _ Rio Branco.
Fone: 3236-2715

Por Aline Custódio

Fonte: Gauchazh

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