Oscar Horta: "o sofrimento humano é o mesmo que o animal"

Oscar Horta: “o sofrimento humano é o mesmo que o animal”

Oscar Horta é professor de filosofia moral na Universidade de Santiago de Compostela. Ativista em defesa dos animais e membro da Fundação Ética Animal, ele foi investigador visitante nas universidades dos Estados Unidos, Suécia, Finlândia, Itália, Portugal e Dinamarca, assim como na Fundação Espanhola de Ciência e Tecnologia.

Dr. Walter Figueira, o mago da Castração Minimamente Invasiva

Dr. Walter Figueira, o mago da Castração Minimamente Invasiva

Ele é do tipo bonachão, nunca perde o humor e ama animais. Vive rodeado de bichos retirados das ruas, especialmente gatos. Veterinário formado pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), atende diariamente em sua clínica, a Bichos e Vets, localizada na Zona Leste da cidade de São Paulo.

Sociedade Protetora dos Animais do Espírito Santo defende pena mais rígida para agressores

Entrevista com Neida Vaz.

A representante da Sociedade Protetora dos Animais do Espírito Santo (Sopaes), Neida Vaz, defendeu pena mais rígida para os agressores. Segundo a advogada aposentada, a legislação de proteção ao meio ambiente, que inclui sanções para quem comete maus tratos, é muito branda e trata os bichinhos como coisas ou objetos, e não como seres sem voz, que carecem de proteção, cuidado e respeito.

Em entrevista especial ao Folha Vitória, Neida, que cuida atualmente de 17 gatos em sua residência, explica ainda como denunciar casos de maus tratos; avalia o trabalho desempenhado pela CPI dos Maus Tratos a Animais, da Assembleia Legislativa do Estado e comenta sobre o sucesso da campanha ES Solidário, da Rede Vitória, que conseguiu arrecadar mais de uma tonelada de ração somente no mês passado.

Segundo a representante da Sopaes, esse tipo de iniciativa é fundamental para suprir uma das principais carências dos abrigos de animais, que é o grande custo existente para a compra de alimentos. Confira a entrevista completa:

FOLHA VITÓRIA: O que é a Sopaes, da qual a senhora faz parte?
NEIDA VAZ: Sopaes é a sigla para Sociedade Protetora dos Animais do Espírito Santo e que foi fundada em 1998. Ela visa o bem-estar dos animais abandonados. Resgatamos animais em situação de perigo, como filhotes, cães e gatos atropelados. Então vacinamos, castramos e eles passam por um veterinário, porque a maioria precisa de tratamento. Depois o colocamos para doação. A sociedade tem cerca de seis voluntários e não possui abrigo, sede ou um lugar que a gente possa cuidar dos bichinhos. As voluntárias resgatam e cuidam deles em suas próprias casas, em uma espécie de lar provisório. Temos ainda parcerias com clínicas veterinárias, que nos dão desconto para custear os tratamentos necessários.

FV: Acha que a legislação contempla bem a questão animal?
NV: De jeito algum. Pela lei de crimes ambientais (9.605/98), a pena para maus tratos é detenção de três meses a um ano. Aí vem o Código Civil, que diz que penas inferiores a quatro anos não levam à prisão, mas sim à prestação de serviços ou multa. Então não existe caso nenhum de prisão, mesmo o animal morrendo. A gente precisa de uma legislação mais rígida com penas maiores. A multa chega até R$ 5 mil, mas no caso da gatinha da Pedra da Cebola, por exemplo, que o agressor morava na Mata da Praia, a multa foi de apenas R$ 2 mil. Isso para o poder aquisitivo dele não é nada. De nada valeu a vida do animal, que ele matou com uma enxada.

FV: Nos últimos meses, muitos casos de maus tratos estão vindo à tona, sobretudo por conta das redes sociais. Em sua opinião, essa superexposição dos casos, como o da gatinha morta no parque ou do cachorro espancado em Cachoeiro de Itapemirim, contribui para a conscientização das pessoas?
NV: Com certeza. Porque a partir do momento em que essas situações de crueldade aparecem, as pessoas vão se sensibilizando. Afinal, todo mundo sabe que o animal não tem voz. Quando elas veem uma crueldade, como o caso do cachorro de Cachoeiro, onde um ser humano se achava no direito de matá-lo a pauladas, ficam indignadas. E com essa indignação, a ideia de proteção aos animais é repassada. Começa então uma mobilização da sociedade em prol de um indivíduo que não tem voz.

FV: Existe uma contabilização dos casos de maus tratos no Estado?
NV: Pelo que nos informamos recentemente com a Delegacia de Meio Ambiente, de 840 chamadas realizadas neste ano, apenas oito se configuraram como maus tratos. Muitas vezes não é bem aquela situação, mas mera falta de orientação ou tentativa de vingança de vizinhos que brigaram.

FV: Como denunciar os maus tratos?
NV: A pessoa que quer fazer uma denúncia verídica tem de abrir um B.O [Boletim de Ocorrência] e e ter comprovação dos fatos, como fotos e vídeos. Um material que, de fato, comprove que o animal está sofrendo maus tratos. A denúncia pode ser feita na Polícia Ambiental ou em qualquer DPJ [Departamento de Polícia Judiciária].

FV: Essas denúncias realmente surtem efeito?
NV: Como elas não funciona muito bem, foi criada a CPI de Maus Tratos na Assembleia. Aí sim estamos ‘botando o pau pra quebrar’. Mas não é por má vontade ou desqualificação da Polícia. E sim porque ela infelizmente não tem muitos recursos e pessoal para atender a todas as denúncias que chegam. Então estamos preferindo fazer essas denúncias diretamente à CPI. Qualquer pessoa, colhendo as devidas provas e registrando o B.O, pode encaminhar a denúncia para o e-mail defesadosanimaises@gmail.com ou acionar o WhatsApp (27) 9-9635-8594.

FV: Falando na CPI dos Maus Tratos, instalada na Assembleia Legislativa e presidida pela deputada Janete de Sá, como avalia o andamento dos trabalhos?
NV: Avalio muito bem. Só pelo fato de chamarem os denunciados para depor, perante uma comissão, já causa um impacto: ‘epa! Agora parece que vai dar galho para mim’. Foi chamado, por exemplo, o síndico de um condomínio da Serra onde matavam gatos envenenados e outros casos que ganharam repercussão.

FV: A Campanha ES Solidário, promovida pela Rede Vitória em parceria com a Rede Show Supermercados, arrecadou mais de uma tonelada de ração para animais no mês de julho. O que a senhora achou da iniciativa?
NV: Achei a iniciativa super válida porque os abrigos são extremamente carentes. São muitos animais e as pessoas que fizeram esses abrigos, todos particulares, normalmente não têm dinheiro para arcar com todos os custos. Então você vê vários abrigos pedindo na internet, pelo amor de Deus, um saco de ração. Acho que a campanha teve um time perfeito, porque a mídia agora está voltando a atenção para os animais enquanto seres de direito e não objetos.

FV: De que forma os interessados em ajudar a Sopaes podem entrar em contato com a organização?
NV: As pessoas podem participar da Sopaes abrindo suas casas como um lar temporário. Seria interessante essa mobilização. Não tem um animalzinho? Pegue um que está em tratamento, até que fique bom. Quem quiser adotar ou oferecer um lar temporário pode entrar comigo pelo (27 9-9274-4169.

Fonte: Folha Vitória 

Mais notícias

{module [427]}

{module [425]}

portugal sandracardoso H

A veterinária solidária que cobra pouco a quem tem pouco, em Portugal; áudio

portugal sandracardoso

Sandra Cardoso é uma pioneira na defesa da causa animal. Há seis meses abriu o primeiro hospital veterinário solidário do país, no Lumiar, em Lisboa. Uma espécie de “segurança social” para quem tem bichos de estimação mas não tem como pagar as despesas elevadas da saúde dos mesmos. À frente da associação SOS Animal, Sandra foi o rosto num programa de televisão na SIC que acompanhava os resgates de animais abandonados e maltratados. Cães, gatos e até uma vaca, a Carlota Marília, que foi encontrada num terreno baldio, a definhar, e acabou por ser adotada por uma família que a tem como animal de estimação. Sandra não quer salvar o mundo, quer antes consciencializar as pessoas de que os animais não são coisas mas seres vivos com direitos. Vegan convicta, tem como refúgio a casa no Guincho, a poucos metros do mar, na companhia do marido e de oito animais resgatados: cinco cães, dois gatos e… uma porca – a Olívia – que é lavada com o seu gel de banho e que aos serões vê televisão com ela no sofá da sala. Esta é a história desta semana do podcast “A Beleza das Pequenas Coisas”

Aviso a todos os marinheiros desta embarcação em podcast: nesta conversa fala-se de animais – e de como há homens que são umas valentes bestas, mais irracionais do que os bichos –mas não só. Fala-se de música, de vampiros, de amor, de felicidade, de uma tentativa fracassada de assédio sexual por alguém do mundo do jornalismo que já bateu a bota e das maravilhas de quem tem, além de cães e gatos, uma porca em casa que roubou o nome à Olívia do Popeye.

Sandra Cardoso, de 36 anos, veterinária e presidente da associação SOS Animal, é uma mulher simples, de sorriso franco, que passa autenticidade e o seu grande amor aos animais. “Se tirarem os animais de mim, acho que fica pouco.” A sua grande obra tem seis meses de vida e já é tão grande: trata-se do hospital veterinário solidário SOS Animal, localizado no Lumiar, em Lisboa. De portas abertas para todos, permite às pessoas carenciadas tratarem os seus animais com custos mais reduzidos. “Este é um hospital aberto a toda a gente. Com uma tabela de preços igual a todos os outros. O lucro é para [ajudar] aquelas pessoas que têm a tabela três, comprovadamente carenciadas. E uma pessoa carenciada não é aquela que tem dificuldades porque paga a casa e o carro, porque senão somos todos. É quem não tem nada e que recebe o rendimento de inserção social, ou que vive de abonos, com problemas sociais graves, no limiar da pobreza [e que tem um animal para ser tratado].”

A preparar-se para apresentar um novo programa de televisão, na SIC, sobre o mundo animal (há mais de um ano em gravações), conta que ser veterinário é das profissões com mais alta incidência de suicídios. Porque lidam diariamente com a morte e os maus tratos. “Por vezes salvo vidas e sinto-me a maior do mundo. Mas há dias em que, francamente, quase, quase penso em desistir. É muito desgastante, não só ser médica veterinária mas estar consciente e ver até onde chega a maldade humana. E isso tolda um bocadinho a inocência e a esperança na Humanidade. Entendo porque é que há uma taxa tão grande de suicídio entre os veterinários. Porque é muito difícil fazer de Deus. E nós fazemos. Escolhemos entre a vida e a morte tantas vezes…”

De momento, no seu hospital, Sandra tem dez animais para adoção, mas recebe diariamente outros tantos bichos a precisarem de abrigo e tratamento. “Infelizmente não conseguimos ajudar todos. Acreditamos que todos os animais têm de ter o direito a assistência médica, e lutámos pela criação deste Hospital Solidário Veterinário. Daí precisarmos tanto da ajuda das pessoas para fazermos a diferença. Porque não temos qualquer apoio estatal.”

À pergunta sobre como se pode ajudar a SOS Animal, eis aqui várias maneiras: fazendo voluntariado; sendo uma família de acolhimento temporária; recolhendo um animal e tomando conta dele enquanto não chegar a uma família de adoção definitiva: apadrinhando um animal; entregando donativos em géneros (ração, produtos de limpeza, desparasitantes, medicamentos, coleiras, etc); ou fazendo um donativo, através desta conta bancária da Caixa Geral de Depósitos (NIB – 0035 0202 0003 5876 23091).

Mas há muito mais para ouvir e descobrir neste episódio: para o fazer, basta clicar na seta que se encontra no topo deste texto ou descarregar no Soundcloud.

O programa “A Beleza das Pequenas Coisas” conta com música dos Budda Power Blues.

Fonte: Expresso / mantida a grafia lusitana original

Mais notícias

{module [427]}

{module [425]}

BiancaMarigliani eliminar testes animais H

“É possível eliminar testes em animais no Brasil”, diz vencedora de prêmio internacional

Por Maurício Cancilieri

BiancaMarigliani eliminar testes animais

Premiada na Europa, pesquisadora Bianca Marigliani defende que, para os testes cosméticos, hoje já é possível eliminar o uso de bichos. “As indústrias têm que se adaptar”, diz, em entrevista à DW.

O apelo ético sobre os testes em animais para fabricação de produtos de beleza ainda não conseguiu mobilizar, no Brasil, uma mudança abrangente de legislação, a não ser no estado de São Paulo, o primeiro a proibir a prática em 2014, e na cidade de Porto Alegre (RS), onde a Câmara aprovou, neste ano, um projeto de lei com a mesma pauta.

Para bióloga Bianca Marigliani, doutoranda em biotecnologia pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), não há motivo para a prática seguir legalizada no país.

“A gente não pode fazer a lei em cima do que a indústria quer. Esses testes nunca foram 100% seguros”, disse em entrevista à DW Marigliani, única brasileira a ganhar o maior prêmio internacional, de 2015, para iniciativas alternativas aos testes em bichos, o Lush Prize, de uma rede britânica de cosméticos naturais.

Convicta disso e vegetariana há pelo menos 15 anos, a especialista na área levou, além do reconhecimento, 10 mil libras. O dinheiro será investido no estudo de um método in vitro de cultivo de células em meio sintético e não em meio suplementado por soro bovino fetal, substância amplamente usada para avaliar riscos de alergia a diversos elementos químicos. O soro é obtido do sangue retirado dos fetos ainda vivos por meio de punção cardíaca.

DW Brasil: A indústria cosmética até hoje no Brasil tem permissão para fazer testes em animais. É possível bani-los?

Bianca Marigliani: Sim. Para os testes cosméticos, hoje já é possível eliminar o uso de animais. A União Europeia, por exemplo, baniu testes em 2013. É uma questão de legislação e incorporação de novas tecnologias. Os métodos alternativos incluem a diminuição no número de animais nos testes e a substituição. O que a gente quer realmente é a substituição. Para isso, existem os métodos in vitro, que seriam os cultivos celulares (geralmente células humanas), os químicos e os in silico, que são computacionais. A união dos três pode ser usada para substituir os animais. No caso da sensibilização cutânea, é um processo complexo, que envolve diferentes etapas, diferentes tipos celulares. O que se fala na Europa e outros países é como montar uma estratégia de bateria de testes que consiga trazer uma resposta mais segura.

Por que o Brasil segue sem conseguir se adequar? É a sociedade que não cobra ou cientistas que automatizaram o processo e nem percebem mais?

A sociedade vem se mostrando cada vez mais participativa nessa questão. Poucos anos atrás, esse tema não era discutido, principalmente porque as pessoas, em geral, nem tinham conhecimento de que aquele cosmético que elas estavam usando era testado em animais. Muitas vezes, quando a pessoa fica sabendo, ela diz: “Mas está errado, não tem outro jeito?”. Por falta de conhecimento, às vezes as pessoas dizem: “Não, tem que testar.” É um pensamento antigo. Eu acho que é uma questão regulatória mesmo, de legislação. A partir do momento que você tem uma legislação que diz que pode ou que não pode, a indústria tem que correr atrás. A gente não pode fazer a lei em cima do que a indústria quer. Eu entendo que é necessário que exista um prazo para adequação porque a incorporação de novas tecnologias não é uma coisa que se faz do dia para a noite. Mas as indústrias têm que se adaptar. Mesmo porque essa é uma barreira comercial. Se você tem um cosmético produzido no Brasil que é testado em animais, ele não vai ser vendido na Europa.

Qual o problema da adequação? É financeiro? É mais caro produzir sem testes em animais?

Depende. Como os testes com animais já estão estabelecidos, trazer um método novo num primeiro momento vai ser mais caro porque você não tem um laboratório adequado para cultivo de células humanas. O investimento inicial vai ser maior. Mas ao longo do tempo, esse custo vai sendo diluído. Eu realmente não acredito que o custo seja a principal barreira. Mesmo se for, se ficar mais caro, é uma questão de desenvolvimento econômico. Você está abrindo mercado. As indústrias cosméticas geralmente terceirizam os testes. Não são elas que fazem. Então, para a indústria em si, não faz diferença.

Por que você decidiu defender essa causa?

A questão do uso de animais, em geral, sempre me preocupou. Nunca fez muito sentido para mim. Eu sempre gostei de animais. Fui fazer biologia por gostar muito de bichos. Eu quis seguir uma carreira em que eu conseguisse juntar coisas que eu gostava de fazer, com poder promover algumas mudanças que eu gostaria que acontecessem.

Nos testes sem animais, existe algum risco para as pessoas?

A gente já sabe que as células humanas, o corpo humano, responde de maneira semelhante aos animais, mas não idêntica. Os testes em animais nunca foram 100% seguros. Na sensibilização cutânea, por exemplo, o camundongo não gera uma resposta imunológica ao níquel, que é uma das substâncias que mais causam dermatite de contato (alergia – inflamação da pele). Acho que todo mundo conhece alguém que já teve alergia à bijuteria. Para o camundongo, o níquel não é um sensibilizador. Não causa alergia. O animal reage a muitos químicos de forma parecida, mas a muitos outros não. Com os métodos in vitro, conforme a gente vai tendo mais conhecimento dos processos biológicos, conseguimos pensar em cada uma das etapas. São testes feitos com células humanas. Eles acabam sendo mais seguros. Existe, óbvio, um receio da mudança de um método tradicional que as pessoas acreditam que seja seguro. Mas, conforme as pessoas entenderem como as tecnologias atuam, elas vão se sentir mais seguras. A união de diferentes métodos numa bateria de testes já se mostra eficiente. Algumas já conseguem 100%.

Como você vai investir o valor do prêmio?

O dinheiro do prêmio vai ser usado para comprar os reagentes necessários, a linhagem de células, o meio quimicamente definido, os químicos de referência para que eu possa fazer essa adaptação celular a um meio sintético sem soro. E testar se elas (as células) respondem da mesma maneira que o método validado para, então, solicitar uma atualização dele para um método que não utilize mais o soro. O objetivo é ter testes alternativos in vitro totalmente livres de produtos de origem animal.

Fonte: UOL

Mais notícias

{module [427]}

{module [425]}

ENTREVISTA 2949865laerte levay H

Entrevista: Direito Animal e o Princípio da Senciência

ENTREVISTA 2949865laerte levayO promotor de justiça Laerte Fernando Levai, de São José dos Campos, SP, fala de sua proposta de inclusão da senciência como princípio jurídico. Levai é Mestre em Direito pela UNISAL/Lorena, Especialista em Bioética pela FM/USP. Pesquisador do Diversitas – Núcleo de Estudos das Diversidades, das Intolerâncias e dos Conflitos, ligado à Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, da USP e autor de “Direito dos Animais” (Mantiqueira, 2004).

Pode nos definir o Princípio da Senciência?

Em julho de 2012 um renomado grupo de neurocientistas, então reunidos na Universidade de Cambridge para o Simpósio sobre a Consciência em Animais Humanos e Não Humanos, proclamaram ao mundo aquilo que todos já sabiam e que o direito ainda reluta em admitir: os animais são seres sensíveis, capazes de sentir e de sofrer. Tal constatação, de relevante interesse jurídico, vai ao encontro do mandamento constitucional brasileiro que veda a submissão de animais a crueldade (artigo artigo 225 par 1o, VII, parte final) e ao dispositivo da Lei ambiental que criminaliza a prática de abusos, maus tratos, ferimentos e mutilações (artigo 32 da Lei 9.605/98). Deste modo, ao agregar numa única palavra os conceitos de sensibilidade e consciência, o vocábulo senciência acaba se tornando palavra-chave para a discussão ética sobre os animais e seus direitos. A Declaração de Cambridge, conjugada ao nosso dispositivo constitucional protetor da fauna, serve como fundamento de um novo princípio geral de direito voltado aos animais como sujeitos jurídicos: o princípio da senciência.

Ainda definindo conceitos, o que entende por biocentrismo?

O biocentrismo, enquanto modo filosófico de enxergar o direito ambiental, é o paradigma mais adequado para alcançar as mudanças sonhadas. Seus preceitos põem o homem, os animais e a natureza em igualdade de condições no mundo natural. Trata-se de uma visão que respeita a vida em sua singularidade existencial e que reconhece o planeta como um sistema orgânico onde tudo depende de tudo, numa íntima conexão entre os ecossistemas, a biodiversidade e as espécies que dela fazem parte. Atribuir um valor central à vida surge como um necessário contraponto ao antropocentrismo predatório que, na sociedade de consumo, exclui da esfera de consideração moral humana as criaturas que possuem configuração biológica diversa e que, em razão dessa contingência, acabam desrespeitadas em sua dignidade.

Qual o conjunto normativo que dispomos no momento sobre o Direito Animal?

A tutela legislativa pode ocorrer de maneira direta, pela edição de leis pontuais voltadas para o animal em si ou então por via oblíqua, com a normatização ecológica garantidora de espaços territoriais protegidos e refúgios da vida silvestre. Sob a inspiração dos mandamentos constitucionais do artigo 225, a Lei de Crimes Ambientais dedicou um capítulo específico à fauna silvestre, doméstica ou domesticada, nativa ou exótica, enquanto a legislação cível erigiu um amplo sistema de defesa ambiental a partir da criação das unidades de conservação. Apesar disso os atentados à fauna ocorrem a todo instante, demonstrando que a mera existência de leis nada resolve se o país não promover, paralelamente, uma política de educação ambiental que fomente noções de ética e respeito pela vida humana e dos animais.

Pode nos falar sobre a concepção atual científica da similaridade entre nós humanos e os animais? Como isto muda o Direito?

Em sua derradeira obra, “A expressão das emoções no homem e nos animais” (1872) Charles Darwin antecipou as principais questões objetos de interesse pelos etologistas modernos, mostrando que o animal expressa sentimentos diversos como alegria, tristeza, raiva, ternura, apatia, medo ou sofrimento. As observações do naturalista inglês, que se opuseram à perniciosa concepção cartesiana de que os animais seriam criaturas desprovidas de mente (teoria do animal-machine), restaram confirmadas pelos cientistas do século XX. Mais recentemente, estudos de neuroanatomia comparada e de similitude genética em análise de DNA reforçaram a conclusão de que a nossa diferença em relação aos animais é apenas de grau. A Declaração de Cambridge mostra-se reveladora no sentido de que a essência de homens e animais sencientes é a mesma, o que muda é apenas a aparência. Segundo Philip Low, que a subscreveu, as mesmas estruturas cerebrais que produzem a consciência em humanos existem nos animais, seguramente nos mamiferos e nas aves, os quais possuem substratos neurológicos que lhes permitem experimentar estados emocionais diversos. O direito, assim como a bioética, não pode permanecer indiferente a esses fatos.

Poderia nos falar mais sobre a aplicabilidade da Lei federal 9.605/98, em particular o artigo 32?

O legislador ambiental, ao criminalizar as práticas cruéis, reconheceu que os animais são criaturas sensíveis. Isso ajuda a desconstruir a doutrina civilista que trata o animal como coisa, bem semovente ou mercadoria de consumo, assim como o especismo penal que o considera mero objeto material da conduta humana. O artigo 32 da Lei 9.605/98, apesar da crítica que se faz à brandura de suas penas, reforça a tese de que os animais devem ser considerados sujeitos de direito. Tal interpretação vem ganhando espaço cada vez maior nos tribunais, como se viu este ano no rumoroso caso em que um mulher foi condenada a 12 anos e 6 meses de detenção por torturar e matar dezenas de gatos e quatro cães, tendo a justiça paulista reconhecido o concurso material de delitos, numa decisão história que houve por bem considerar cada animal como vítima.

Quais são as lacunas que no momento são consideradas insuperáveis? Quais são os efeitos?

Afora a circunstancialidade da reprimenda cominada aos malfeitores, o principal obstáculo para que os animais sejam considerados sujeitos jurídicos é de ordem cultural. Enquanto se continuar ensinando que a finalidade da fauna é o benefício que seu uso pode trazer ao homem, mais difícil será superar a visão antropocêntrica que instrumentaliza a vida animal e torna o direito excludente. Afinal, o princípio da dignidade humana não se realiza em plenitude à custa da indignidade animal. E como os consagrados princípios de direito ambiental (precaução/prevenção, poluidor/pagador, razoabilidade/proporcionalidade) ainda se mostram insuficientes para a defesa dos animais, há que se dar um passo adiante. O reconhecimento da senciência animal é, acima de tudo, uma questão de princípio. Um princípio ético que requer um princípio jurídico.

Pode nos falar mais sobre a Lei Arouca (Lei federal 11.794/08)?

A Lei Arouca é um exemplo de lei permissiva de comportamento cruel, ao reafirmar a experimentação animal como “método ofical de pesquisa científica”. Em nenhum momento ela admite a possibilidade de o modelo vivo animal ser substituído por métodos alternativos de ensino e pesquisa, como preconiza o artigo 32 par. 1o da Lei de Crimes Ambientais. Também não se preocupou em assegurar o legítimo direito à objeção de consciência aos alunos das faculdades de ciências biomédicas ou a funcionários dos laboratórios de pesquisa que porventura recusem participar, por motivos ideológicos ou de convicção filosófica, dos procedimentos vivisseccionistas. Paradoxalmente, o próprio legislador admite a senciência das “cobaias” utilizadas nos testes científicos pelo grau de adjetivação do seu sofrimento. O artigo 3o, inciso IV, recomenda morte humanitária aos animais nos casos de “mínimo sofrimento físico ou mental”; o artigo 14, par 1o, sugere a aplicação de eunatásia quando ocorrer, no experimento, “intenso sofrimento aos animais”. Já o artigo 15 possibilita ao pesquisador restringir ou proibir experimentos que importem “elevado grau de agressão aos animais”. Isso tudo demonstra uma realidade inescondível que não pode mais permanecer oculta sob o véu da ignorância.

Como caminha a doutrina em relação aos direitos animais?

Nas últimas décadas surgiram, no Brasil, vozes contrárias ao discurso preconceituoso que exclui do âmbito da justiça as demais espécies. Juristas especializados em Direito Animal passaram a escrever sobre o tema, como Edna Cardozo Dias, Heron Santana Gordilho, Daniel Braga Lourenço, Luciano Santana, Fabio de Oliveira, Eduardo Cabetti, Danielle Tetü Rodrigues, João Marcos Adede y Castro, Fernanda Medeiros, Tagore Trajano, dentre outros. No campo do direito ambiental, após o pioneirismo de Edis Milaré em questionar a insanidade do antropocentrismo vigente, Tiago Fensterseifer, José Robson da Silva e Luis Paulo Sirvinskas surgem como principais nomes cujo olhar se abre, generosamente, para outras realidades sensíveis. Esses autores todos têm inspirado muita gente que se dedica, de corpo e alma, à causa dos animais. Pelo que se tem visto em termos doutrinários, a revisão do estatuto jurídico dos animais – de coisa móvel para ser sensível – torna-se urgente.

Existe um posicionamento da jurisprudência nessa área?

A jurisprudência brasileira revela, pelo teor das decisões já proferidas em centenas e centenas de ações penais ou civis ajuizadas pelo Ministério Público em favor da fauna (denúncias por abusos e maus tratos dos mais diversos e/ou ações civis públicas contra caça, rodeios, vaquejadas, zoológicos, circos, centros de controle de zoonoses, etc) que o direito animal já é uma realidade no mundo jurídico. As decisões dos tribunais, entretanto, ainda se mostram divergentes, ora beneficiando os animais maltratados, ora legitimando a crueldade humana. Se há quase vinte anos o Supremo Tribunal Federal declarou a inconstitucionalidade da farra do boi, hoje o mesmo questionamento recai sobre uma lei cearense que reconhece a vaquejada como prática cultural. Dois temas, contudo, ainda permanecem tabus no direito: a vivissecção e o agronegócio, justamente as áreas em que os índices de agressão sobre os animais alcançam proporções inimagináveis. Mas há honrosas exceções: na década passada a justiça de São José dos Campos, em acordo judicial, proibiu um curso médico que realizava experimentação animal (traumatologia em cães) e julgou inconstitucional, por sentença a lei paulista que autorizava a jugulação cruenta de bovinos (abate muçulmano). Deste modo, sempre que houver um conflito de normas constitucionais (dispositivo anticrueldade x prática cultural) a solução mais justa deveria levar em conta a relevância da dor concreta que recai nos animais, que prepondera sobre um interesse humano de natureza abstrata. O conflito de normas é apenas aparente, podendo ser resolvido pelo princípio da senciência.

Quais são sugestões para melhor a tutela jurídica dos animais?

Reconhecer no animal seu valor intrínseco, sua presença sensível e consciente, a realidade da dor que deveras sente, é enxergá-lo sob um viés diverso da maioria dos diplomas jurídicos antropocêntricos onde o único sujeito de direitos e usufrutuário da natureza é o ser humano. A ética ambiental não estabelece barreiras entre as espécies e a mesma noção do justo que a inspira deve ser considerada em relação a todos os seres vivos. A Declaração de Cambridge abriu caminho para uma postura mais compassiva ao reconhecer cientificamente a senciência nos mamíferos e nas aves, além do polvo, restando às outras espécies ainda não contempladas o benefício da dúvida. Se o direito dos animais é movido pelo mesmo espírito do justo que deve inspirar o direito dos homens, a senciência surge como sua pedra de toque. Nestes tempos de perplexidade e violência, em que a competição se sobrepõe à solidariedade, em que o prazer do consumo vale mais do que a vida consumida, em que a vaidade e a ambição esmagam as utopias, é preciso agir com benevolência perante o Outro. Saber enxergar, em cada ser, a insólida aventura do efêmero, a iluminação que se irradia da noite mais profunda, a verdade que se traduz em olhares, gestos, cores e sons. Ver os animais como seres sensíveis, nossos companheiros de tempo e de espaço, não como meros recursos de uma natureza que o homem ainda teima em destruir.

Fonte: Carta Forense  

Nota do Olhar Animal: Entendemos que a visão biocêntrica ainda é limitada para fazer valer os interesses dos animais e que a verdadeira mudança de paradigmas ocorrerá quando for considerado o senciocentrismo (ou sencientocentrismo). Recomendamos a leitura do artigo Sencientocentrismo X Biocentrismo e alguns do site Animal Ethics: Why we should give moral consideration to sentient beings, rather than living beings / Why we should give moral consideration to individuals rather than species / Why we should give moral consideration to sentient beings rather than ecosystems / The relevance of sentience: animal ethics vs speciesist and environmental ethics
PauloVictor veganismo1 H

Um dos maiores nomes do fisiculturismo nacional fala sobre veganismo

”Acredito que o homem, quando conhece a realidade dos matadouros e do confinamento animal, dificilmente vai ficar tranquilo ao consumir animais.” – Paru Vegan.

Por Lucas Alvarenga

PauloVictor veganismo1

Entrevistamos um dos maiores nomes do fisiculturismo nacional, o baiano Paulo Victor, conhecido como Paru Vegan. Veja o que ele tem a dizer sobre veganismo.

A indústria da carne e nossa cultura milenar são muito poderosas. Por isso, muita gente tem muito receio sobre uma mudança alimentar por não sentir segurança sobre questões como proteína e performance esportiva. Paulo Victor nos conta sobre sua experiência. Veja como foi:

VEGGO: Paulo, qual é a sua maior motivação em relação ao veganismo?

Paulo Victor: Minha maior motivação é saber que não contribuo para a exploração animal. Sou vegano porque não acho certo matar e explorar animais para que eu tenha que consumir produtos.

VEGGO: Há quanto tempo você é vegano?

Paulo Victor: Em setembro de 2015 completo 14 anos de veganismo.

VEGGO: Você já teve algum problema de saúde grave ou alguma dificuldade por conta da alimentação?

Paulo Victor: Não. No início do veganismo fiz exames completos de três em três meses para saber como meu corpo reagiria e, após perceber que não houve nenhum problema, passei a fazer exame com uma frequência anual.

VEGGO: Que vantagens você vê no veganismo para a sua vida?

Paulo Victor: Após conhecer a verdade sobre as indústrias e as ”aplicações” dela sobre os animais, o veganismo me trouxe alguma paz, uma melhor qualidade de vida e um círculo de amigos com ideologias parecidas.

VEGGO: Você tem algum cuidado especial em relação a alimentação?

Paulo Victor: Meus cuidados são usar um multivitamínico e fazer exames anualmente, nada diferente do que um onívoro faz (ou pelo menos deveria fazer).

VEGGO: Muita gente ainda não parou de comer carne pois escuta muita coisa de nutricionistas e familiares a respeito da falta de proteína. Você passou por isso? Como foi?

Paulo Victor: Por incrível que pareça, não ouvi muita coisa contra o veganismo vinda de meus familiares. Meus pais sempre me deram muita autonomia de vida desde novo e não implicaram com nada. Isso ajudou bastante na minha transição. Já com nutricionistas, as poucas vezes que fui em alguns, não ouvi boas recomendações. A maioria tentou me desencorajar e me fazer consumir ao menos alguns laticínios e ovos.

VEGGO: Muita gente que pratica muito esporte ou fisiculturismo tem medo de não alcançar seus resultados com uma dieta vegana. Que mensagem você gostaria de transmitir para essas pessoas?

Paulo Victor: Eu acho que a compaixão deve vir à frente de qualquer resultado. Quando se faz algo em que acredita, os resultados vêm. Não vou dizer que é mais fácil alcançar objetivos em esportes de performance com o veganismo, já que a nossa literatura esportiva foi praticamente criada em cima de uma base de dieta onívora, mas garanto que é completamente possível. Não se deixe levar pelo que muitas pessoas e profissionais dizem contra uma dieta baseada em vegetais. Estude, tire suas próprias conclusões e procure profissionais instruídos e com conhecimentos sobre nutrição vegana.

VEGGO: Que mensagem especial você gostaria de passar para as pessoas se estimularem a abandonarem o consumo animal completamente?

Paulo Victor: Recomendo que vejam vídeos como Terráqueos, Não Matarás ou o curta Meet your Meat. Acredito que o homem, quando conhece a realidade dos matadouros e do confinamento animal, dificilmente vai ficar tranquilo ao consumir animais. Não se deixe levar por opiniões vazias, pessoas negativistas ou profissionais desinformados. Busque conhecimento e verá que é possível viver de forma saudável, com diversos prazeres gastronômicos, desempenho esportivo, qualidade de vida e ao mesmo tempo deixar os animais em paz.

PauloVictor veganismo2

Fonte: Veggo

entrevista forcavegana H

Equipe vegana mostra que é possível correr (muito) sem comer carne

Por Julia Zanolli

Ser corredor e vegano é um ato de resistência. Não existe maneira mais concreta de mostrar ao mundo que é possível ser saudável sem carne nem qualquer alimento de origem animal, como leite, ovo e mel. O comprometimento dos atletas veganos vai além da alimentação: eles não usam couro, lã e outros produtos que causem sofrimento aos animais.

Para acabar com o mito de que eles são “fraquinhos”, o triatleta e ultramaratonista vegano Daniel Meyer criou a equipe “Força Vegana”. Junto com os corredores Rafa Alvez e Franz Hermann, passou a divulgar a causa do ativismo esportivo em provas pelo Brasil.

entrevista forcavegana1

Qualquer atleta vegano pode participar, as principais formas de contato são a página e o grupo da equipe no Facebook. A ideia cresceu e hoje cerca de 400 pessoas fazem parte do grupo. Hermann, de 37 anos, aderiu ao veganismo em 1999 e corre desde 2009. Na entrevista abaixo ele fala sobre a equipe, nutrição e preconceitos no meio esportivo.

***

Jornalistas que Correm: Quando a equipe foi criada?

Franz Hermann: Geralmente quando você participa de provas tem um espaço na inscrição para colocar o nome da equipe ou do patrocinador. No final de 2010 o Daniel Meyer, em uma de suas competições, colocou “Força Vegana”.

Eu vi e de imediato falei com ele, pedindo para competir pela mesma equipe. Em seguida falei com o Rafa Alvez, que também é corredor e vegano. A ideia vingou mesmo em 2011, a princípio com nós três.

A equipe começou a ficar mais conhecida na Ultramaratona de 24 horas de Campinas, onde começamos a competir com as camisetas da “Força Vegana”. A partir daí mais e mais pessoas entraram em contato com a gente e estamos sempre presentes, não só nas corridas de rua e montanha. Hoje a equipe é multiesportiva: temos fisiculturistas, triatletas, lutadores, ciclistas, nadadores, skatistas, entre outros.

JQC: Qual é a principal motivação de vocês?

FH: Divulgar o veganismo através do esporte, acabar com esse mito de que proteína é só carne e de que todo vegano é fraquinho.

JQC: Como é a equipe hoje?

FH: Temos atletas no Brasil inteiro, Portugal, Canadá… Enfim, a equipe se espalhou pelo mundo.

JQC: Vocês fornecem aconselhamento para quem busca conciliar o estilo de vida vegano com o esporte?

FH: Aconselhamento esportivo só pode ser dado por profissionais da área de educação física. O que fazemos é mostrar que é possível, queremos servir de exemplo para quem quer começar a praticar algum esporte, seja ele qual for. Marcamos alguns treinos, normalmente em parques. Chamamos quem quiser participar, seja caminhando, pedalando ou correndo e fazemos um piquenique no final.

JQC: Qual é o principal preconceito em relação aos atletas veganos?

FH: Muita gente ainda tem aquela mania de achar que por não comer carne o vegano não tem força. No começo da equipe isso ficava claro em competições, mas após alguns anos e com os excelentes resultados que tivemos esse preconceito está sumindo. Estamos mostrando na prática que um atleta vegano compete de igual para igual com quem quer que seja.

JQC: Quais são as principais vantagens dessa opção? A as desvantagens?

FH: Talvez a única desvantagem (que nem é tão desvantagem assim) são os alimentos fornecidos em provas de endurance. Nós muitas vezes não sabemos o que é vegano. Porém por outro lado acabamos levando a nossa própria comida e sabemos exatamente o que estamos comendo, sem surpresas. E as vantagens do veganismo são inúmeras. Mas acho que a principal é que, além de competirmos por nós mesmos, estamos competindo por uma causa.

JQC: Eu sou vegetariana e às vezes tenho dificuldade em encontrar alimentos proteicos e pouco calóricos. Quais são as suas dicas para atletas que querem consumir menos produtos de origem animal?

FH: Seja o mais simples possível, coma frutas, legumes, vegetais. Eles também proporcionam os nutrientes necessários.

JQC: Muita gente pensa que a questão é só a carne. Há algum produto esportivo que contenha derivados de animais?

FH: Algumas marcas de tênis ainda usam couro de animais e obviamente não usamos esses produtos. Na questão da suplementação (para quem usa suplementos) é só prestar atenção no que você consome, sem grandes segredos.

Fonte: Jornalistas que Correm

DF brasilia cachoro jumerengue flickr thumb m

Protetores de animais querem criação das Promotorias de Defesa Animal

Impunidade dos que cometem maus-tratos a animais gera campanha que pede ao MP a criação promotorias especializadas no tema.

DF brasilia cachoro jumerengue flickr

As pequenas penas previstas para quem maltrata animais e a situação de insegurança na qual a população se vê inserida, com uma sensação de impunidade até para crimes contra pessoas, têm deixado aqueles que maltratam e muitas vezes matam de forma extremamente perversa, animais indefesos, livres de qualquer punição na maioria dos casos.

Não fosse o olhar atento e de cobrança da sociedade que se condói ao ver as atrocidades a que muitos animais são expostos, a maioria dos casos passaria despercebida, o que é uma ilegalidade do ponto de vista jurídico e, do ponto de vista social, um grande erro, já que pesquisas revelam a relação entre violência contra animais e violência contra pessoas. Psiquiatras forenses relatam que é muito comum que os criminosos mais violentos da história penal do país tenham um passado recheado de episódios de torturas contra animais. Coibir esse crime é também evitar possíveis crimes semelhantes contra pessoas e para esses estudiosos já não há nenhuma dúvida em relação a isso.

Nos Estados de São Paulo e Santa Catarina foram criados grupos especiais para tratar desses casos dentro dos Ministérios Públicos Estaduais, mas embora importantes, essas iniciativas não são suficientes para lidar com a grande demanda de casos.

Recentemente grupos de protetores de animais tem percebido um aumento no número de rinhas de animais. Os eventos têm sido postados em redes sociais, com preço de entrada e taxa mínima de apostas, o que no caso envolve outros crimes. Além de ser considerado caso de tortura, esse tipo de aposta, normalmente chamado de contravenção penal, ganha nova conotação e torna-se mais um crime a ser computado àqueles que promovem esse tipo de prática, que gera violência entre os animais e incita a violência entre os humanos.

O coordenador do site Olhar Animal, Maurício Varallo, é o entrevistado do Amazônia Brasileira desta terça-feira (14). Ele explica aos ouvintes da Rádio Nacional da Amazônia como pessoas de todo o país podem fazer parte dessa campanha, tornando-a cada vez mais uma reivindicação nacional.

Hoje já há delegacias especializadas no tema, mas sem o acompanhamento dos casos pelos promotores a impunidade dos maltratadores tem sido dada, sobretudo pelos próprios, como certa, engrossando as estatísticas de desrespeito às leis vigentes no país.

O programa Amazônia Brasileira vai ao ar a partir das 08h, na Rádio Nacional da Amazônia, em rede com a Rádio Nacional do Alto Solimões, onde é transmitido ao vivo às 05h. A produção e a apresentação são de Beth Begonha.

Fonte: EBC 

Nota do Olhar Animal (atualização): A entrevista já ocorreu e pode ser ouvida clicando-se aqui.
 
3.preto

Muito além dos cinco mil mundos veganos

1.perfilEm entrevista cedida ao Olhar Animal, o “indivíduo não governamental” Fabiu Buena Onda fala sobre alguns envolvimentos em movimento, em busca de autonomia, na forma de projetos e ações reais para promoção de transformações sociais. Buscando oportunizar o despertar da curiosidade, e reconhecimento de diferentes relações, para abrir espaços e semear o poder que cada pessoa tem dentro de si, encorajando-as. Segundo Fabiu, “divisões se esvaem” diante de um posicionamento político fora de padrões, mergulhado em partilhas, camisetas, queijos, hortas, amizades, picnics, cooperativas e bazares veganos, nas relações humanas e não humanas. Autocrítica, empoderamento e participatividade cooperando lado a lado, mostrando a que veio, em outras marés que desprezam competições e desligam TVs, “por um futuro sem classes onde tudo será arte, de viver como iguais”. Desafios maiores por vir, muito além de cinco mil mundos veganos.

Como é a tua relação com a política nesse ano que tivemos eleições?

Não acredito na democracia representativa. A história já mostrou que esse sistema é muito falho, independente de termos meia dúzia ou uma centena de pessoas bem intencionadas. O Congresso sempre foi conservador, pois é resultado de um processo eleitoral no qual o dinheiro manda e condiciona as pessoas. Quem exerce o poder é o grande empresário que financia o poder político. Penso em outras formas de se gerir e lidar com política sem ditadura institucionalizada ou camuflada. De 5 anos pra cá tenho focado minhas energias nisso e sinto uma melhora significativa. Não quero ninguém pra me governar. Voltei às minhas origens, pois quando criança pensava da mesma forma que hoje, com a diferença que antes eu não tinha uma direção tão nítida como tenho atualmente. Nosso cérebro é muito complexo e isso faz com que sejamos menos autônomos. Se já é tão difícil tomarmos conta de nossas próprias vidas, imagina o absurdo que é querer controlar a vida de outras pessoas. A mania de controle é como uma epidemia, precisamos de auto-observação diária. Por que alguém, que não eu, irá dizer e decidir o que é melhor pra mim? Foco na base, nada virá de cima para baixo, até as chuvas se originam dos líquidos presentes aqui embaixo.

Com uma vida simples nossos pensamentos se elevam fazendo com que não almejemos nos tornar superiores. O atual modelo político e urbano é um modelo visivelmente decadente. Se você ainda acredita nesse molde ou em ajustes nesses moldes atuais, saiba que isso sempre existiu, saiba que não há novidade nisso. A novidade nesse sistema desenvolvimentista competitivo e linear tem sido um aumento progressivo na destruição dos recursos e dos seres que habitam nesse planeta, uma linha com começo, meio e fim.

Cooperativas, autogestão, crowdfundings e startups alternativos, horizontalidade, descentralização e empoderamento local, compras e trocas coletivas, brechós, relações sem dinheiro, economia de dádivas, rádio livre, verdurada, arte livre, bicicletada, passe livre, coletores de frutas e materiais descartados, plantio de comestíveis, trocas de sementes crioulas, desbravamento de feiras orgânicas, agrofloresta, terra livre, alimentação viva, ocupações, reforma agrária, PANCs (plantas alimentícias não convencionais), energia livre, reuso das águas, compostagem, danças circulares, parto natural, equidade racial, de gênero e de espécies, miscigenação, LGBTTT e quantos Ts mais for preciso, comunicação não-violenta, círculos restaurativos, software livre, ação direta, luta por direitos universais de animais humanos e não humanos… Tudo isso visa um bem comum, uma abolição da exploração para condições mais igualitárias, menos disparates. Vale muito aproveitar as brechas do sistema. A “legalidade” é criticada em todos esses movimentos alternativos e a progressiva união e reconhecimento entre esses levantes sociais fará possível toda essa transição, pois ninguém é totalmente independente, todxs somos interdependentes e ampliamos nossa autonomia quando nos unimos, nos auto-gerenciando. Ando cumprimentando pessoas pelas ruas, não as tratando como “marginais” por estarem às margens do que hoje chamam de sociedade, uma egrégora se apresenta. Movimentos por justiça social se interligam. Se lutamos contra meia dúzia de pessoas que exploram o povo, então não faz sentido explorarmos os animais não-humanos que somados são infinitamente muito mais indivíduos do que nossa humanidade que os domina por terem um desenho diferente ao nosso, condições diferentes as nossas, sendo que os interesses básicos desses animais são os mesmos de todos nós.

Criticamos o capitalismo, mas vivemos dentro dele, ninguém escapa. Uso banco pra débito, carro pra caronas, o petróleo está em quase tudo, desde o pneu da bicicleta até os tênis velhos que uso, usamos redes sociais… Sinto uma melhora significativa em minhas ações quando hoje me comparo aos anos anteriores. Fui abolindo muitas coisas perante anos atrás, o importante é detectar e caminhar visando pra essas abolições. Algumas pessoas acham que sou livre, mas se enganam, pois ninguém é livre. Minha fama está maior do que eu realmente sou. Eu busco a liberdade e abri mão de muitas coisas. Ainda me sinto como um pássaro de gaiola que ativistas abriram, mas estou atrofiado fisicamente e mentalmente, me descondicionando para poder viver lá fora, tudo é um processo de desconstrução e aprendizado. Muitas coisas são abstratas e precisam ser resolvidas em nossa mente frente às vivências cotidianas. Não há uma “solução pronta”, o caminho nos mostrará, e já está mostrando. Não tenho como fazer diferente, seria hipocrisia demais não ser honesto comigo mesmo, um tortuoso suicídio.

Como anda o projeto popular das camisetas veganas?

Em 55 meses já são 5 mil camisetas produzidas, 5 mil mundos e muitas amizades espontâneas. Tenho tido espaços cedidos pelas feiras veganas, que se multiplicaram, com ajuda voluntária nas mesinhas de ‎pessoas amigas como Fátima Maranhão, Meire Badona e Juliano Grafite. Além disso, 5 dias atrás tivemos mais um ponto de apoio pras camisetas, somatizando 55 pontos que já co-apoiaram esse projeto pelo Brasil.

2.camisetas

Também envio pelos correios em caixas de suco reutilizadas. Nunca pedi comprovante de depósito, pois acredito nas pessoas, e em todos esses anos ninguém faltou com a palavra, não há resposta melhor do que essa vivência. As mídias de massa querem fazer com que as pessoas desconfiem umas nas outras, isso é feito para tentar nos segregar, nos enfraquecer, imobilizar, postergando a pirâmide do poder. Responsabilizar fatos isolados para um todo é desonesto, isso sim é terrorismo, uma anti-cultura de externar o medo.

Por todo esse tempo vivi num mundo paralelo à realidade imposta pelo sistema monetário, que endivida as pessoas gerando escassez. Serão 5 anos sem repassar a inflação nesse meu auto-governo. Esse projeto de distribuir a valor de custo chegará ao fim no meio de 2015, quando completará 5 anos, pois nesse período o valor para produzir uma camiseta ultrapassará o valor unitário distribuído. Ou seja, o projeto popular R$ 9,90 sem fins lucrativos chegará ao fim em si mesmo, impedido pela moeda. Após esse período, distribuirei por outro valor até acabar os estoques. Portanto aproveitem o agora, animalistas! Até lá estimo chegar a 5.555 camisetas produzidas. Acabará na hora certa, pois preciso abrir caminhos para novos projetos e focar meu tempo num espaço físico pra mim.

É um projeto voluntariado feito sem ONG, instituição, empresas ou governo. Descobri que sou uma ING (Indivíduo Não Governamental). Quem sabe o fim desse projeto, a ausência dele, empodere pessoas a iniciar algo do tipo, já que não vi nada parecido até hoje. Até agora só 3 Estados desse país ainda não solicitaram as camisetas (Roraima, Rondônia e Amapá). Será uma honra enviar pra essa trinca antes do projeto terminar, e sinto que isso vai acontecer, pois já mandei até pro Japão.

Novas estampas e projetos por vir?

Recentemente lancei uma com o dizer “Máximo Respeito” focando na temática de algumas relações de opressão e discriminação que podem ser falaciosamente tratadas como opinião. Apesar de entendido socialmente, o racismo ainda continua muito vivo e serve de chamariz para outros temas ainda não tão conhecidos como o sexismo e o especismo, podendo gerar dúvidas a quem for receber a mensagem. Gosto de estimular a inerente curiosidade das pessoas, pois é uma porta espontânea para o conhecimento e reconhecimento das estruturas de dominação que tem a mesma raiz. Ninguém está livre de ter e sofrer preconceitos, mas podemos nos auto-estimular nesse processo e desconstruí-los no dia a dia.

 

Se encontrar pessoas que se dizem “veganas” machistas, elitistas, racistas, homofóbicas, daí não estão sendo veganas, pois ainda não entenderam a amplitude do veganismo, já que todxs somos animais. Quando uma pessoa acha que é ou está vegana, mas não quer reconhecer e internalizar valores libertários, desconstruindo preconceitos, daí é um equívoco do tempo e espaço a qual participa. Para isso, precisamos dispor as informações e comunicar ao invés de acumular conhecimentos, nos sentindo intelectualizados e soberbos, uma armadilha nesse mundo capitalista que estimula competição. A comunicação só se faz quando há uma interação, uma resposta entre as pessoas que interagem, um entendimento. Mídias apenas expressam, não comunicam, não há acordo. Vamos todxs nos comunicando, cooperando, ouvindo. Caminhamos entre a teoria e a ação, entre a racionalidade e a intuição, escorregando, tropeçando, nos levantando…

É comum nos deparar com pessoas veganas tendo atitudes não veganas. Até porque veganismo é movimento em constante processo e todas as pessoas podem rever e mudar pra adentrar ao processo. Não me preocupo com algumas pessoas veganas agressivas, pessoas agressivas existem em todos os lugares. Me preocupo com o veganismo, ou seja, com os animais. Abaixo a veganofobia, misantropia e todo tipo de generalização. Desde criança fomos formatadxs a escolher uma coisa ou outra, a viver uma monocultura de exclusões e isso é feito para nos enfraquecer. Podemos reconhecer para agregar a todas essas mudanças sem achar que para isso precise ser um super-herói, de algo espiritualmente ou intelectualmente elevado e purificado. Pura bobagem.

9.FABIU888998804 o

Não sou palestrante, mas nesse último ano me convocaram a palavra pra 5 partilhas sobre veganismo, seja relacionado a atividades físicas ou a permacultura. Foi muito bom estar com o pessoal da educação física do Projeto de Práticas Corporais da UFSC e com os hares no Centro Cultural Vrinda de Florianópolis, no Curso de Design em Permacultura de Nova Oikos em Camboriú-SC, com a galera da Agroecologia do coletivo Caaporã em Matinhos-PR e o GEDA no Lar Vegano em São Paulo. São aberturas importantes para integração. Não vejo mérito no que faço, pra mim não é mais que minha obrigação. Quando sou chamado me sinto no dever moral de expor, pois não posso me segurar nessa condição privilegiada que tive em obter informações, refletir e vivenciar as situações. Não adianta eu ter vergonha de ser branco, de classe média, homem e hetero, pois só vergonha não vai mudar a situação das pessoas oprimidas, não vai tirar meus privilégios. Agradeço as hospedagens, abraços e transportes solidários para viabilizar todo esse mutuo aprendizado. Pra 2015 já tem três partilhas em vista sobre Permacultura Vegana, nos PDCs (Curso de Design em Permacultura) do Çarakura em Florianópolis-SC e VelaTropa em Garopaba-SC, e outra pro Morro do São Bento no Projeto Merenda Vegana em Santos-SP. Estou germinando a ideia de uma estampa orgânica sobre Permacultura Vegana, flertando pra esse ano com muito carinho.

Em 2014 quase consegui um espaço físico em Florianópolis, foi por muito pouco, mas a busca continua, ainda mais agora que me sinto muito mais focado nos caminhos a percorrer, e com ideias mais claras em como atingir esses objetivos do sonho que tornei público na matéria da Anda no meio de 2013. Enquanto isso não chega, vou aprendendo pelo caminho nas várias idas e vindas à ilha, em verdadeiras vivências transformadoras, intercâmbios multiétnicos e culturais, amizades e laços vão ficando mais fortes, do jeito que é, sem aceitar a ditadura da economia no desejo de ter acesso a bens e serviços. Lares temporários solidários e espontâneos se multiplicam e muito mais pessoas fantásticas por vir e agregar para co-criarmos o mundo diferente que queremos.

4.veganic

Nesse mês organizamos um Veganic (picnic vegano) aqui na Lagoa da Conceição onde tivemos em torno de 80 pessoas somadas ao longo do dia, nunca vi tanta gente reunida num picnic. Também tenho orgulho em comunicar o surgimento de um diferente novo projeto na ilha. Criamos uma Cooperativa Vegana, e estamos com uma Tenda Vegana na “Feira Orgânica” de quartas-feiras na UFSC. Libertação Animal e da terra num novo ponto que promoverá a Agroecologia Vegana. Mais do que alimentação artesanal vegana, ao máximo integral, orgânica e acessível. Um ponto real e presencial de ativismo onde pretendemos unir diversas frentes de projetos sociais abolicionistas, disponibilizando informações e trazendo acesso à comunidade, ligando atividades, misturando as “caixinhas” intituladas de faculdades, permaculturando. Um espaço de inclusão vegana, abrindo fronteiras.

Pretendemos viver uma relação diferente da prestação de serviços, para um encontro de igual pra igual, com mais respeito de ambas as partes, revendo as relações de consumo, por uma economia solidária. As críticas são ao industrialismo exacerbado que tentam enfiar no veganismo devida urbanidade, e ao utilitarismo animal arraigado na permacultura. Sem contar num capitalismo que todos os dias tenta engolir o significado dessas duas práticas, com criação de cartéis elitizantes, explorando humanos. Não existe libertação animal sem veganismo, mas o veganismo sozinho não trará a libertação animal. Faz-se preciso abandonar ao máximo industrializados, abolir monocultivos e transgênicos, químicos, consumismo corporativista vertical, competitividade. E qualquer uso utilitário de animais é prejudicial à educação cultural holística. É preciso abolir as ações opressoras unilaterais antropocêntricas. As diversas possibilidades existentes de não forçar e não objetificar animais são boas respostas que trazem mais respeito e harmonia ao planeta. Aproveitaremos pra tornar permacultura e veganismo como um organismo vivo e único.

O amor inclui o respeito, mas o respeito não inclui necessariamente o amor. O mínimo que os animais precisam é de respeito. Não é preciso amar um rato ou um besouro para respeitar a liberdade e integridade de ambos. Promovo o respeito e quem quiser amar que ame.

5.cooperativa

Gratidão a todas as pessoas que co-lutaram e co-apoiaram pra isso se tornar uma realidade nesses últimos 5 dias, nessas 5 semanas, nesses 5 meses, nesses 5 anos, vocês sabem quem vocês são. É só um novo inicio, toda estrutura será montada com o tempo.

E em julho desse ano também realizaremos o 1º Bazar Vegano de Florianópolis. Estou muito feliz com todo esse mundo de possibilidades infinitas.

Como tem sido a experiência com os queijos veganos?

O Vegão é um trabalho autônomo de um ano e meio. É um queijo artesanal sem leite, sem lactose, sem caseína, sem colesterol, sem soja, sem transgênicos, sem enzimas digestivas (coalho de animais mortos), sem pus, sem hormônios, sem antibióticos e sem bezerros mortos. Por não escravizar e nem matar animais acaba deixando um menor impacto sobre o planeta, pois não desvia milhares de grãos e nem milhões de litros de água para produção de sua matéria prima. Por consequência, não deixa toneladas de excrementos, nem gás metano; problemas de todos os laticínios. Pra quem não sabe, em média, para cada Kg dos queijos convencionais são usados 10 litros de leite arrancados das fêmeas, e para manteiga são 40 litros (pro ghee são 60 litros). Tudo isso é plenamente dispensável para a nossa felicidade e sustento nesse planeta, aliás, precisa ser dispensado para tal.

6.queijo

É um queijo vegano feito para todas as pessoas, pois veganismo é para todas as pessoas. É um frio perecível, participei de cinco eventos em 2013 e o dobro em 2014. São inúmeros os eventos surgindo pelo país e isso tende a intensificar, e se espalhar cada vez mais. Essa estória naturalmente faz parte de minha vida, pois sempre fui um viciado em queijos (agora por todos os queijos veganos). Estudei anos sobre o assunto e sei que ainda vou experienciar muito mais na busca pelo “queijo perfeito”. Tem sido gratificante a recepção das pessoas, tanto as que acabam conhecendo veganismo por esse canal quanto as que já são veganas.

Mas sei bem as coisas que não quero, e agora é construir o que estou afim, mesmo que para isso demande mais tempo. Não sou nem serei patrão ou funcionário de ninguém, sem rabo preso ou cortado, pois vegano não quer “engolir sapo”; não usarei isopor para envio a distância, pois não concordo com o uso desse material, hoje isso me limita a uma distribuição local que vem de encontro ao caminho ilimitado que trilho, fora dos padrões comerciais. Quero fazer no meu tempo, pois o tempo vale mais do que o dinheiro, e quem sabe trocar cada espetinho por R$ 5 durante 5 anos de vida desse queijo.

Ainda estou distante do ideal que é conhecer a procedência de toda matéria prima e modo de produção dessa matéria, para uma atuação menos alienada e eticamente mais alinhada, mas passo a passo vamos chegando. Estou sentindo o caminho no caminhar, sem atropelar ou dar passos maiores do que a perna.

Gostaria de deixar mais alguma mensagem sobre veganismo?

Veganismo não é dieta, veganismo não é um estilo de vida. Ninguém que defende os direitos humanos diz “esse é meu estilo de vida”, então por que defender os animais deveria ser definido como “lifestyle”? Veganismo é colocar em prática os direitos animais. É uma busca diária, constante, por evitar ao máximo a exploração animal. É incluir os animais na consideração moral.

Veganismo também não significa que é tudo do reino não-animal. Veganismo é além. Vou citar alguns exemplos: Uma empresa que escraviza pessoas mesmo vendendo apenas coisas de origem vegetal; Uma plantação que explora animais na “mão de obra”; Deserto verde das monoculturas e transgênicos, não importa a quem for destinado, afeta diretamente animais humanos e não-humanos; Agrotóxicos, venenos pra nós e para os não-humanos; Indústrias químicas poluentes que afetam a vida geral de humanos e não humanos; Testes em animais, entre outras coisas. Portanto veganismo não é apenas sinônimo direto de “coisas de origem vegetal”. Há de se considerar e lutar por todos os animais, já que é esse o propósito. Ser vegano não é dizer que está livre de tudo isso. É dizer que não quer isso. Desbravar, se acionar, reivindicar, desconstruir, replanejar, buscar, mover-se. Não tem nada “pronto”. Veganismo é movimento.

Mas de nada adianta o nosso conhecimento se não exercitamos a sabedoria diariamente, e ninguém escapa disso. Pensamento positivo é pensamento crítico. É como li de Saramago sobre não tentar convencer ninguém, pois o trabalho de convencer é uma falta de respeito, é uma tentativa de colonização do outro. Não conscientizamos ninguém, apenas damos elementos para que as pessoas possam tomar decisões éticas.

Você diz que “convencer” é “um desrespeito, uma tentativa de colonização do outro”. Adotou esta filosofia. Não terá sido você persuadido pelo Saramarago (não diretamente, claro, mas em função da exposição de ideias dele)? Isto, de “não convencer”, não é um pensamento auto-refutante?

Não fui convencido por Saramago, pois já era algo que eu sentia antes de ler essa citação dele, que só reforçou minha opinião perante observações nas vivencias cotidianas. Relativismos a parte, não sei se é auto-refutante pois imagino que quase tudo possa ser, de certa forma, refutado, porém prefiro deixar pra que as pessoas sintam sobre essa questão levantada, ao invés de que pareça que eu esteja aqui no propósito de convencê-las de tal.

Quando você manifesta uma ideia, não está buscando persuadir alguém, ainda que de forma passiva? Se não, para que manifestá-la? Você não crê que é inerente ao ativismo a ação de persuasão? O problema é com o termo “convencer”? O “vencer” de “convencer” não tem mais a ver com “vencer resistências ideológicas” do que com “vencer o outro indivíduo”, no sentido de subjugá-lo? Ao se abster de tentar “convencer” alguém a não provocar danos a outros seres, você não está automaticamente colaborando para que a situação permaneça e as vítimas continuem a sofrer a ação do “não convencido”? Acha que seria um desrespeito buscar persuadir um criminoso a não cometer um crime? Um estuprador, por exemplo? Enfim, a questão é mesmo convencer ou é a forma como se faz isso?

A persuasão ocorre na vida como um todo e no ativismo não seria diferente, ainda mais quando são propostas de mudanças. As formas podem fazer toda diferença, o termo convencer pode ser tanto para subjugar indivíduos quanto uma tentativa de mudar resistências ideológicas, mas o que somos e vivemos é o que acaba sendo manifestado, assistido. A motivação principal vem no ser, e a apresentação é consequência desse ser, por isso não acho que esteja conscientemente colaborando para certas situações violentas que não fazem parte do exemplo vivido por meu individuo, e das violências que não cometo mais.

Quando estou centrado, antes de pensar em persuadir algo, acho importante estudar o porquê desse algo e trabalhar nesses porquês, mas em situações limite de violência como um presencial estupro, não vejo espaço no tempo a não ser com uma ação direta para evitá-lo.

Agradeço a paciência do Olhar Animal em aguentar meu atraso de 5 meses pra expor essa matéria solicitada, mas só agora tive tempo de sentar com calma e escrever algumas considerações. Gratidão a paciência de quem leu essa longa entrevista em tempos de 140 caracteres.

Não sou dono nem proprietário de nada do que falei. Tudo está lançado ao mundo para cópia livre, sem assinatura. Faça você mesmx! Você pode fazer muito melhor do que eu. Tenha certeza disso, muito além.

Nota do Olhar Animal: Entrevista concedida por e-mail.
ENTREVISTA EVELY 10203318363747894 1043053686 n thumb

Entrevista com Evely Libanori, escritora e educadora vegana abolicionista

ENTREVISTA EVELY 10203318363747894 1043053686 nEvely Vânia Libanori, é professora do Departamento de Teorias Linguísticas e Literárias da Universidade Estadual de Maringá desde 1997. É mestre e doutora em Teoria da Literatura e Literaturas de Língua Portuguesa pela Universidade Estadual Paulista (Assis-SP). Na Graduação, leciona a disciplina “Literatura brasileira: narrativa” e, na Pós-graduação, a disciplina “Identidade existencial no romance latino-americano”. É lider do GAIA (Grupo de Atividades Interdisciplinares sobre os Animais), grupo de pesquisa cadastrado no CNPq e que estuda libertação animal, ética animal e veganismo. Autora da obra “Nós, Animais”.

Segue abaixo a entrevista que a educadora e escritora concedeu a LIGA ANIMALISTA.

LIGA: Hoje a sra. é conhecida como uma educadora vegana abolicionista (lecionando, palestrando e escrevendo), como foi o processo para chegar a esse posicionamento político?

Evely Libanori: Em 2005 me tornei protovegetariana. Em 2009, vegana. À medida que eu ia conhecendo a realidade de vida e de morte dos animais usados por nossa cultura, eu ia modificando meus hábitos. Primeiramente, mudei minha dieta, deixei de comer carnes. Depois deixei de usar tudo que tivesse origem animal. Eu lia bastante sobre Ética Animal. Por fim, vi a necessidade de passar para os meus alunos esse conhecimento. Então, meu posicionamento político de educadora vegana tem a ver com o conhecimento da vida e morte dos animais usados por nós. E, quando se é educador, não se pode deixar para lá esse conhecimento. Os alunos, esperança de mudança da mentalidade antropocêntrica, precisam conhecer o que fazemos aos animais e precisam pensar em modos de mudança.

LIGA: Como a sra. definiria a educação vegana?

Evely Libanori: A educação vegana é aquela comprometida com os seres vivos e com a vida. Está voltada para o respeito aos animais e aos ecossistemas. A educação vegana pretende promover um modo de viver que não maltrate as outras vidas em volta de nós. É cientificamente comprovado que podemos viver sem carne e, ainda assim, matamos milhares de animais a cada minuto, setenta milhões por ano, apenas para agradar o paladar dos carnistas. Isso é moralmente inaceitável. A educação vegana mostra e questiona o especismo, ou seja, o pensamento de que o ser humano é superior às outras espécies animais, o que dá a ele o direito de usar os animais como bem entender. A educação vegana quer a paz, que não haja derramamento de nenhum sangue, incluindo dos animais não humanos, quer o respeito pelo corpo do outro animal, a liberdade para todas as espécies e o respeito aos ecossistemas.

LIGA: Segundo o professor Leon Denis, existem dois tipos de educação vegana: a não formal, realizada pelos ativistas em qualquer lugar e situação; e a formal, realizada nas escolas e universidades e tendo os direitos animais como componente curricular. No seu livro ‘Educação vegana: tópicos de direitos animais no ensino médio’, ele afirma que por enquanto a formal só é realizada no Brasil, a sra. concorda com essa afirmação e com essa divisão da educação vegana?

Evely Libanori: Sim, concordo. A educação vegana não formal se dá quando ativistas explicam a necessidade de consideração ética para com os animais. É uma atividade educativa porque implica a mudança dos valores, dos hábitos, do pensamento. Em nível formal, a educação vegana acontece nas universidades de vários países onde há os veganos educadores. Em nível médio, não tenho conhecimento de outros países que foquem a educação vegana formal. Aqui, no Brasil, ela se inicia com o trabalho do professor Leon Denis.

LIGA: Uma crítica muito comum aos educadores veganos é direcionada ao uso que eles fazem em sala de aula de vídeos que exibem imagem de animais não humanos sendo torturados e assassinados como: A carne é fraca, Não matarás, e Terráqueos. Como a sra. avalia essa crítica?

Evely Libanori: Sim, quando o educador vegano mostra imagens e vídeos com animais sangrando, as pessoas nos chamam de agressivos. Eu avalio essa crítica como sendo um contraste e uma hipocrisia. Só mostramos o que mostramos para as pessoas saberem como os animais são tratados nos criadouros, nas granjas, nos matadouros, nos laboratórios. Só mostramos a sujeira e o sofrimento escondidos no prato, nos produtos do dia a dia. E então, como podemos ser nós os agressivos, se apenas mostramos o que os outros fazem justamente porque não concordarmos com isso? Mostramos filmes e imagens para as pessoas saberem que não estamos exagerando, que os animais sofrem muito, para além do que se pensa. Quando a pessoa me diz que estou sendo agressiva por mostrar as cenas fortes, eu vejo que ali está um reacionário, uma pessoa que não quer abrir mão de usar o outro animal. Se vejo que se trata de uma mente que se recusa a se expandir, que se protege nos velhos hábitos, então eu não insisto. Uso meu tempo e minha energia com os que são mais empáticos e sensíveis aos animais.

LIGA: A sra. trabalha com identidade animal, ética animal e representação animal na literatura num departamento de Letras, como é a recepção dos alunos e alunas?

Evely Libanori: Dou aulas para o curso de Letras, na graduação. Na pós-graduação, tenho alunos da Filosofia, Jornalismo, História, Psicologia. Trabalho com o tema da identidade humana e animal e então pensamos a proximidade entre seres humanos e animais. Também trabalho com Ética Animal. O espanto ante as ideias de libertação animal acontece com alunos de diferentes cursos. A necessidade de sermos éticos para com os animais é assunto novo na nossa cultura, então o ideal abolicionista não é conhecido pela maior parte das pessoas, mesmo em nível universitário. Por exemplo, na UEM, nenhum outro Departamento estuda Ética Animal com base nas ideias abolicionistas.

LIGA: A sra. poderia falar um pouco sobre o GAIA – grupo de atividades interdisciplinares sobre os animais e as pesquisas que o grupo realiza?

Evely Libanori: O Grupo Gaia foi criado para pensar a relação do ser humano com o animal. Existe há três anos e tem alunos de diversos cursos da graduação e pós-graduação: Letras, Psicologia, Biologia, Direito, Farmácia, Biomedicina. O Grupo promove atividades de pesquisa e de auxílio a animais abandonados. No ano de 2013, trouxemos a filósofa abolicionista Sônia T. Felipe para uma palestra na UEM. No ano de 2014, houve a Mostra de Artes pelos Animais para angariar fundos e criar de animais de rua. E eu publiquei o livro de crônicas abolicionistas, Nós, Animais. O que pesquisamos no grupo: Estudamos os autores veganos abolicionistas, como Sônia T. Felipe, Peter Singer, Gary Francione, Carol Adams. Há alunos da graduação e pós-graduação que estudam o pensamento ético na Literatura. Outros estudam a representação animal na Literatura, sua simbologia, seu ethos e sua relação com os seres humanos. Uma aluna do Direito rastreia, no Constituição Federal, as situações em que a lei é omissa ou negligente para com os animais. A aluna propõe nova redação para a lei nesses momentos, redação que leva em conta as necessidades dos animais. Alunas da Linguística estão pesquisando o efeito das campanhas do site Vista-se entre carnistas e não carnistas. Alunos que dão aula de Literatura pesquisam estratégias de ensino que tornem a educação vegana mais funcional.

LIGA: No ano de 2014, a sra. lançou o livro de crônicas ‘Nós, animais’. Essas crônicas vieram do ativismo dentro e fora da academia? Quais as expectativas quanto a obra?

Evely Libanori: Essas crônicas eu escrevi durante 2010-2013. Eu escrevo como forma de extravasar aquilo que me atinge, que me provoca inquietações. Nas horas vagas, escrevo crônicas sobre os animais e sobre a forma como nos relacionamos com eles. Depois de um tempo, conversando com amigos ativistas, veio a ideia de publicar as crônicas em livro. Minha expectativa quanto ao livro é que as pessoas conheçam as ideias de libertação animal, que se importem com os animais. Que o livro seja uma semente. Há professores que estão trabalhando com as crônicas em ensino fundamental e médio. Eu alerto para que eles cuidem de escolher bem o texto porque nem todos servem para crianças. O que me dizem é que há crônicas que sensibilizam, que provocam lágrimas. E se o livro comove assim, acho ótimo. A professora de Redação do colégio Nobel, em Maringá, trabalhou com os textos e, então, duas alunas se tornaram vegetarianas imediatamente. As alunas pediram a introdução do cardápio vegetariano no restaurante do Colégio e foram atendidas. Então, o livro já está fazendo alguma diferença, o que me deixa contente.

LIGA: O vosso trabalho de extrair uma ética animal de autores como Juan Rulfo e Clarice Lispector é conhecido, mas o que a sra. tem a dizer de romances que se apresentam declaradamente em defesa dos animais não humanos como ‘A Vida dos Animais’ de J. M. Coetzee, e ‘Humana Festa’ de Regina Rheda?

Evely Libanori: Eu quero incorporar ao meu trabalho também os autores que você citou, J. M. Coetzee e Regina Rheda. O que eu gostei em A vida dos animais, do Coetzee foi da posição sincera da escritora protagonista. Ela fala, às claras, e para qualquer um disposto a ouvir, a condição do animal não humano na nossa cultura. O pensamento abolicionista de Coetzee e Rheda é aberto, suas obras refletem a necessidade de mudarmos os nossos padrões morais e éticos em relação aos animais.

LIGA: A sra. acha que os (as) educadores (as) veganos (as) deveriam usar mais a literatura no ativismo animalista?

Evely Libanori: Acho. A Literatura é o mundo paralelo, não o que é, mas o que poderia ser. Toda a história, do começo ao fim, está dada adiante dos olhos. E a Literatura é a arte do não dito, é polissêmica, portanto, há muito que dizer sobre as situações e pensamentos. Uma vez que a Literatura cria personagens à semelhança humana, ela nos oferece o ser humano visto por dentro e por fora. Suas ações e sentimentos. Além disso, a Literatura pode emocionar e, quando uma ideia fala ao coração do leitor, ele não se esquecerá dela.

LIGA: Gostaria de terminar a entrevista pedindo que a sra. indicasse obras e artigos que são de fundamental importância para quem quer se tornar um (a) educador (a) vegano (a).

Evely Libanori:

  • ADAMS, Carol J. A política sexual da carne: A relação entre o carnivorismo e a dominância masculina. São Paulo: Alaúde, 2012.
  • ANDRADE, Silvana, (Org.) Visão abolicionista: Ética e Direitos animais. São Paulo: Libra Três, 2010.
  • DENIS, Leon. Educação vegana: Tópicos de direitos animais no ensino médio. São Paulo: Libra Três, 2012.
  • DENIS, Leon. Educação & direitos animais. São Paulo: LibraTrês, 2014.
  • FRANCIONE, Gary. Introdução aos direitos animais. Campinas: Editora da Unicamp, 2014.
  • FELIPE, Sônia T. Acertos abolicionistas: a vez dos animais. São José: Ecoânima, 2014.
  • FELIPE, Sônia T. Ética e experimentação animal: Fundamentos abolicionistas. Florianópolis: UFUSC, 2007.
  • FELIPE, Sônia T. Galactolatria: mau deleite. São José: Ecoânima, 2012.
  • FELIPE, Sônia T. Por uma questão de princípios: Alcance e limites da ética de Peter Singer em defesa dos animais. Florianópolis: Boiteux, 2003.
  • GARRARD, Greg. Ecocrítica. Trad. de Vera Ribeiro. Brasília: Universidade de Brasília, 2006.
  • REGAN, Tom. Jaulas vazias: Encarando o desafio dos direitos animais. Trad. de Regina Rheda. Porto Alegre: Lugano, 2006.
  • SINGER, Peter. Libertação animal. Trad. de Marly Winckler Porto Alegre: Lugano, 2004.
  • TRÉZ, Thales (Org.) Instrumento animal: O uso prejudicial de animais no ensino superior. Bauru: Canal 6, 2008.

Livros literários

  • COETZEE, John Maxwell. A vida dos animais. Trad. de José Rubens Siqueira. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
  • LIBANORI, Evely. Nós, animais. Rio de Janeiro: Livre Expressão, 2014.
  • LISPECTOR, Clarice. De bichos e pessoas. Rio de Janeiro: Rocco, 2012.
  • RHEDA, Regina. Humana festa. Rio de Janeiro: Record, 2008.
  • TORGA, Miguel. Bichos. Coimbra: Leia, 2002.

Na internet

Fonte: Liga Animalista

INT david-pearce thumb

Entrevista com o filósofo David Pearce

Ele defende um projeto abolicionista que envolve o fim da predação, obtido através da ecoengenharia.

INT david-pearceDeve ser permitido que animais cacem e matem outros animais?  O filósofo britânico David Pearce não pode imaginar um futuro em que os animais continuem presos no ciclo interminável de processos cegos darwinianos. Cabe a nós, ele argumenta, colocar nossos cérebros, nossas tecnologias, e nosso senso de compaixão para o bom uso e fazer algo  a respeito. É parte de seu abrangente Imperativo Hedonista, um clarividente projeto abolicionista definido como o objetivo de alcançar nada menos do que a eliminação de todo o sofrimento no planeta.

Estamos nos aproximando rapidamente da era da ecoengenharia em larga escala – uma perspectiva que David Pearce argumenta, deve ser usada para eliminar o sofrimento. Mas para chegar lá, ele diz que vamos ter que eliminar e reprogramar os predadores do nosso planeta. Para esse fim, ele monta um “plano para um mundo livre de crueldade”.

Leia abaixo à entrevista concedida em setembro por David Pearce ao site io9, com livre tradução do Veggi & Tal:

A idéia de tal re-engenharia de ecossistema livre de sofrimento é um projeto radicalmente ambicioso – e que tem sido referido como a “loucura bem intencionada” de um futurista. Dito isto, é uma idéia enraizada na história. De onde você tira suas ideias e filosofia moral?

David Pearce: Os seres sencientes não devem prejudicar uns aos outros. Esta visão que soa utópica é antiga. Gautama Buda disse: “Que tudo que têm vida esteja livre do sofrimento”. A Bíblia profetiza que o lobo e o leão se deitarão com o cordeiro. Hoje, jainistas varrem o chão a frente de seus pés, em vez de sem querer pisar em um inseto.

Minha própria estrutura conceitual e ética é secular – mais Bentham que Buda. Acho que devemos usar a biotecnologia para reescrever o nosso código fonte genético; recalibrar a esteira hedonista; desligar fazendas industriais e matadouros; e sistematicamente ajudar os seres sencientes, ao em vez de prejudicá-los.

No entanto, há um problema óbvio. Em face disso, a idéia de uma biosfera sem dor é ecologicamente analfabeta. Utópicos seculares e religiosos tendem a ignorar a biologia de carnívoros e a termodinâmica de uma cadeia alimentar. Alimente uma população de herbívoros famintos no inverno e nós desencadearemos uma explosão demográfica e um colapso ecológico. Ajude predadores carnívoros e causaremos mais mortes e sofrimento para os herbívoros que são predados. Richard Dawkins coloca o caso bioconservador bastante sem rodeios: “Deve ser assim”. Felizmente, não é o caso.

Diz-se frequentemente que os predadores (e a maioria dos animais) estão fora de nosso alcance ético e que é preciso percebê-los como criaturas amorais. Então, qual é o problema com os predadores? E por que os seres humanos se envolvem com esse grau de funcionamento interno do ecossistema?

Os seres humanos já “interferem” massivamente com a natureza de inúmeras maneiras que variam da destruição descontrolada de habitat a programas de reprodução em cativeiro para grandes felinos para reinserção na vida selvagem. Dentro das próximas décadas, cada metro cúbico do planeta será computacionalmente acessível a vigilância, micro-gestão e controle. Com base nas tendências atuais, grandes vertebrados terrestres não-humanos serão extintos dos nossos parques de vida selvagem até meados do século. Então, surge a pergunta. Que princípio (s) deve governar nossa administração do resto do mundo vivo? Quantos dos horrores tradicionais da natureza devemos promover e perpetuar? Como alternativa, na medida em que queremos preservar as formas tradicionais de vida darwiniana, devemos apontar para uma ética administrativa compassiva no lugar. Cognitivamente, animais não-humanos são parecidos com crianças pequenas. Eles precisam de cuidados semelhantes.

Livrar-se de predação não é uma questão de moralismo. A python que mata uma pequena criança humana não é moralmente censurável. Nem um leão que caça e mata uma zebra aterrorizada. Em ambos os casos, a vítima sofre horrivelmente. Mas o predador não tem as habilidades empáticas e de leitura da mente necessários para compreender as implicações do que ele / ela está fazendo. Alguns seres humanos também apresentam um déficit similar. Do ponto de vista da vítima, o status moral ou (falta de) intenção criminosa de um predador humano ou não-humano é irrelevante. De qualquer maneira, ficar e assistir uma cobra asfixiar uma criança seria quase tão moralmente repugnante como matar a criança você mesmo. Então, por que não adotar este princípio com seres de sensibilidade e senciência comparáveis ao das crianças e bebês humanos? Com o poder vem cumplicidade. Para melhor ou pior, o poder sobre a vida de todos os seres sencientes do planeta está agora ao nosso alcance.

Inevitavelmente, os críticos falam em “arrogância”. Os seres humanos não devem “brincar de Deus”. Que direito têm os seres humanos de impor os nossos valores a membros de outra raça ou espécie? A acusação é sedutora, mas equivocada. Não há antropomorfismo aqui, sem imposição de valores humanos em mentes alienígenas. Animais humanos e não humanos são iguais em uma relação ética crítica. O eixo prazer-dor é universal à vida senciente. Nenhum ser senciente quer ser prejudicado – ser asfixiado, desmembrado, ou comido vivo. Os desejos de um bebê aterrorizado ou o de uma zebra em fuga, de se desenvolverem sem serem molestados, não estão em aberto para dúvidas, mesmo na ausência de capacidade verbal para dizer isso.

Predadores desempenham um papel inestimável nos ecossistemas do mundo. Perturbar este equilíbrio poderia ter consequências desastrosas. Como o seu plano para uma  Terra livre de predadores lida com essas restrições? E como você distingue entre as estratégias de extinção seletivas e reprogramação?

Predadores carnívoros mantém as populações de herbívoros em cheque. Espécies de mosquito Anopheles que carregam o Plasmodium mantém populações humanas em cheque. Em cada caso, um papel ecológico importante é conseguido à custa de um imenso sofrimento e a perda de centenas de milhões de vidas. O que está em questão não é o valor do parasita ou o papel ecológico do predador, mas se os agentes morais inteligentes podem desempenhar esse papel melhor. Em algumas hipóteses bastante razoáveis, regulação da fertilidade através de planejamento familiar ou imunocontracepção entre espécies é uma opção política mais civilizada e compassiva do que a fome, depredação e doenças. O maior obstáculo para um futuro de ecossistemas compassivo é a ideologia da tradicional biologia da conservação – e o viés do status quo irrefletido.

A distinção entre a extinção seletiva e reprogramação genética não é clara. E ainda é útil. Todos os mais ardorosos conservacionistas e defensores do status quo preferem ver o mosquito Anopheles extinto na natureza – ou, pelo menos, inofensivo. De comum acordo, a humanidade visa acabar com a malária em todo o mundo. Sem dúvida, menos animais humanos e não humanos vão adoecer e morrer em consequência, colocando ainda mais pressão sobre o meio ambiente. Mas acesso a planejamento familiar na população humana da Africa Sub-Sariana pode ser aperfeiçoado também. No longo prazo, retirar do genoma humano o alelo falciforme terrível que confere resistência parcial à malária deve ser viável também. No entanto, a idéia de permitir que espécies predadoras de vertebrados icônicos sejam extintas geralmente provoca uma resposta diferente da idéia de eliminação progressiva de um mosquito – independentemente do sofrimento que causam. A maioria dos moradores de subúrbios citadinos estão horrorizados com a idéia de um mundo sem leões ou tigres e outros “carismáticos da mega-fauna”.

Eu não estou pessoalmente convencido de que precisamos de tais espécies predadoras para sobreviver de qualquer forma – nem mesmo geneticamente “reprogramados” para serem inofensivos para suas vítimas habituais. Mas vamos supor o contrário. Podem os princípios gêmeos da biologia da conservação e design de ecossistema compassivo se reconciliar? Em princípio, sim. Se realmente queremos preservar crocodilos, cobras e tigres que vivem livres e promover uma biosfera livre de crueldade, então os membros carnívoros de parques de vida selvagem do futuro terão de ser geneticamente e comportamentalmente mexidos – com neurochips, rastreamento de GPS e abundância de alta tecnologia de defesa para evitar acidentes.

No caso das populações de herbívoros não predadas que de outra forma explodiriam, regulação da fertilidade entre-espécies via imunocontracepção vai ser uma opção barata, eficaz e de baixa tecnologia.

Os críticos podem alegar que um leão que come erva de gato cultivada com sabor carne, ou um tigre que foi geneticamente mexido para desfrutar de uma dieta vegetariana, não é mais “realmente” um leão ou um tigre. Exatamente o mesmo argumento poderia ser feito para o Homo sapiens contemporâneo. Assim a natureza “projetou” seres humanos arcaicos do sexo masculino para serem caçadores / guerreiros. Se começarmos a usar roupas, curar doenças genéticas fatais, parar de prejudicar animais não-humanos, e parar de matar uns aos outros, perdemos assim uma parte vital da nossa “essência como espécie”? E se assim for, isso importa? É da mesma forma com os leões e herbívoros. Por que limitar o processo civilizatório a um único grupo étnico ou espécie? Abstrações taxonômicas não têm literalmente interesses, apenas seres sencientes individuais.

Quão granular e total esse projeto precisa ser? Devemos eliminar toda a predação? E de qual extensão estamos falando –  até mesmo insetos e parasitas?

No longo prazo, não há nada que pare agentes inteligentes de identificar a assinatura molecular de experiência abaixo do zero hedônico e eliminá-lo por completo – mesmo em insetos. A nocicepção é vital; dor é opcional. Eu timidamente prevejo que a última experiência desagradável do mundo em nossa frente será um evento precisamente datável – talvez alguma micro-dor em algum obscuro invertebrado marinho, alguns séculos a partir de agora.

Tenho que dizer que nós vamos exigir tecnologias extremamente sofisticadas para conseguir isso. Mas já estamos desenvolvendo tecnologias precursoras para as que você descreve. Olhando para o futuro, que outras tecnologias terão de cumprir este projeto?

O bem-estar de grandes mamíferos de longa duração e de vida livre pode ser garantido, mesmo com as tecnologias de hoje. Expandir o círculo de compaixão ainda é tecnicamente mais desafiador. Até alguns anos atrás, eu teria falado em termos de séculos. Por motivos sociológicos, em vez de técnicos, eu ainda acho que esse tipo de calendário é mais credível para a salvaguarda do bem-estar dos seres humanos, trans-humanos e dos mais submissos dos animais não-humanos semelhantes.

Certamente, até a revolução CRISPR (técnica de correção de genes), falar de estender uma ética abolicionista além de vertebrados parecia fantasioso porque as intervenções humanitárias passariam de extensões reconhecíveis de tecnologias existentes para uma era especulativa da nanotecnologia madura, nanorrobôs auto-replicantes e drones marinhos patrulhando os oceanos. Para mim, a peça final do quebra-cabeças abolicionista só encaixou no lugar depois de ler o livro de Eric Drexler Os Motores da Criação: A Era vinda da Nanotecnologia (1986) – uma perspectiva tentadora, mas não um cenário facilmente concebível em nossa vida.

Depois veio a CRISPR. Mesmo os cientistas sóbrios descrevem a revolução CRISPR como “de cair o queixo”. Unidades de genes podem espalhar alterações genéticas para o resto da população.

Quer se trate de grandes vertebrados icônicos ou insetos obscuros sem carisma, a pergunta a fazer agora é menos o que é viável, mas sim, o que é ética? Quais os tipos de consciência, e que tipos de seres sencientes que queremos que existam no mundo? Naturalmente, só porque um estado de bem-estar pan-espécie é tecnicamente viável, não há garantia de que algum tipo Jardim do Éden vá acontecer um dia. A maioria das pessoas ainda acha a idéia de eliminação gradual da biologia do sofrimento involuntário nos seres humanos uma perspectiva fantasiosa – e mais ainda a sua abolição em animais não-humanos. O bem-estar de todos os insetos soa como a reductio ad absurdum do projeto abolicionista. Mas aqui eu vou ser muito dogmático. Alguns séculos a partir de agora, se o sofrimento involuntário ainda existir no mundo, a explicação para a sua persistência não será que nós esgotamos os recursos computacionais para eliminar progressivamente a sua assinatura biológica, mas sim que os agentes racionais – por razões desconhecidas – terão escolhido preservá-la.

Qual é a sua visão final para o nosso planeta e os animais que vivem nele?

Estou ansioso para um futuro em que todos os seres sencientes aproveitem a vida animada por gradientes de felicidade. “Aqueles que nos prometem o paraíso na Terra nunca produziram nada, apenas um inferno”, disse Karl Popper. Na mesma linha, minha comiseração mente ao leitor cético que calcula que os humanos provavelmente estragarão tudo. Em uma nota mais brilhante, se fizermos as coisas certas, o futuro da vida no universo pode ser maravilhoso para além dos limites da imaginação humana: uma civilização do “triplo S” : superlongevidade, superinteligência e superfelicidade. Duvido que eu vou viver para ver isso, mas é um futuro pelo qual vale a pena lutar.

Fonte: Veggi & Tal