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Protetores de animais querem criação das Promotorias de Defesa Animal

Impunidade dos que cometem maus-tratos a animais gera campanha que pede ao MP a criação promotorias especializadas no tema.

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As pequenas penas previstas para quem maltrata animais e a situação de insegurança na qual a população se vê inserida, com uma sensação de impunidade até para crimes contra pessoas, têm deixado aqueles que maltratam e muitas vezes matam de forma extremamente perversa, animais indefesos, livres de qualquer punição na maioria dos casos.

Não fosse o olhar atento e de cobrança da sociedade que se condói ao ver as atrocidades a que muitos animais são expostos, a maioria dos casos passaria despercebida, o que é uma ilegalidade do ponto de vista jurídico e, do ponto de vista social, um grande erro, já que pesquisas revelam a relação entre violência contra animais e violência contra pessoas. Psiquiatras forenses relatam que é muito comum que os criminosos mais violentos da história penal do país tenham um passado recheado de episódios de torturas contra animais. Coibir esse crime é também evitar possíveis crimes semelhantes contra pessoas e para esses estudiosos já não há nenhuma dúvida em relação a isso.

Nos Estados de São Paulo e Santa Catarina foram criados grupos especiais para tratar desses casos dentro dos Ministérios Públicos Estaduais, mas embora importantes, essas iniciativas não são suficientes para lidar com a grande demanda de casos.

Recentemente grupos de protetores de animais tem percebido um aumento no número de rinhas de animais. Os eventos têm sido postados em redes sociais, com preço de entrada e taxa mínima de apostas, o que no caso envolve outros crimes. Além de ser considerado caso de tortura, esse tipo de aposta, normalmente chamado de contravenção penal, ganha nova conotação e torna-se mais um crime a ser computado àqueles que promovem esse tipo de prática, que gera violência entre os animais e incita a violência entre os humanos.

O coordenador do site Olhar Animal, Maurício Varallo, é o entrevistado do Amazônia Brasileira desta terça-feira (14). Ele explica aos ouvintes da Rádio Nacional da Amazônia como pessoas de todo o país podem fazer parte dessa campanha, tornando-a cada vez mais uma reivindicação nacional.

Hoje já há delegacias especializadas no tema, mas sem o acompanhamento dos casos pelos promotores a impunidade dos maltratadores tem sido dada, sobretudo pelos próprios, como certa, engrossando as estatísticas de desrespeito às leis vigentes no país.

O programa Amazônia Brasileira vai ao ar a partir das 08h, na Rádio Nacional da Amazônia, em rede com a Rádio Nacional do Alto Solimões, onde é transmitido ao vivo às 05h. A produção e a apresentação são de Beth Begonha.

Fonte: EBC 

Nota do Olhar Animal (atualização): A entrevista já ocorreu e pode ser ouvida clicando-se aqui.
 
3.preto

Muito além dos cinco mil mundos veganos

1.perfilEm entrevista cedida ao Olhar Animal, o “indivíduo não governamental” Fabiu Buena Onda fala sobre alguns envolvimentos em movimento, em busca de autonomia, na forma de projetos e ações reais para promoção de transformações sociais. Buscando oportunizar o despertar da curiosidade, e reconhecimento de diferentes relações, para abrir espaços e semear o poder que cada pessoa tem dentro de si, encorajando-as. Segundo Fabiu, “divisões se esvaem” diante de um posicionamento político fora de padrões, mergulhado em partilhas, camisetas, queijos, hortas, amizades, picnics, cooperativas e bazares veganos, nas relações humanas e não humanas. Autocrítica, empoderamento e participatividade cooperando lado a lado, mostrando a que veio, em outras marés que desprezam competições e desligam TVs, “por um futuro sem classes onde tudo será arte, de viver como iguais”. Desafios maiores por vir, muito além de cinco mil mundos veganos.

Como é a tua relação com a política nesse ano que tivemos eleições?

Não acredito na democracia representativa. A história já mostrou que esse sistema é muito falho, independente de termos meia dúzia ou uma centena de pessoas bem intencionadas. O Congresso sempre foi conservador, pois é resultado de um processo eleitoral no qual o dinheiro manda e condiciona as pessoas. Quem exerce o poder é o grande empresário que financia o poder político. Penso em outras formas de se gerir e lidar com política sem ditadura institucionalizada ou camuflada. De 5 anos pra cá tenho focado minhas energias nisso e sinto uma melhora significativa. Não quero ninguém pra me governar. Voltei às minhas origens, pois quando criança pensava da mesma forma que hoje, com a diferença que antes eu não tinha uma direção tão nítida como tenho atualmente. Nosso cérebro é muito complexo e isso faz com que sejamos menos autônomos. Se já é tão difícil tomarmos conta de nossas próprias vidas, imagina o absurdo que é querer controlar a vida de outras pessoas. A mania de controle é como uma epidemia, precisamos de auto-observação diária. Por que alguém, que não eu, irá dizer e decidir o que é melhor pra mim? Foco na base, nada virá de cima para baixo, até as chuvas se originam dos líquidos presentes aqui embaixo.

Com uma vida simples nossos pensamentos se elevam fazendo com que não almejemos nos tornar superiores. O atual modelo político e urbano é um modelo visivelmente decadente. Se você ainda acredita nesse molde ou em ajustes nesses moldes atuais, saiba que isso sempre existiu, saiba que não há novidade nisso. A novidade nesse sistema desenvolvimentista competitivo e linear tem sido um aumento progressivo na destruição dos recursos e dos seres que habitam nesse planeta, uma linha com começo, meio e fim.

Cooperativas, autogestão, crowdfundings e startups alternativos, horizontalidade, descentralização e empoderamento local, compras e trocas coletivas, brechós, relações sem dinheiro, economia de dádivas, rádio livre, verdurada, arte livre, bicicletada, passe livre, coletores de frutas e materiais descartados, plantio de comestíveis, trocas de sementes crioulas, desbravamento de feiras orgânicas, agrofloresta, terra livre, alimentação viva, ocupações, reforma agrária, PANCs (plantas alimentícias não convencionais), energia livre, reuso das águas, compostagem, danças circulares, parto natural, equidade racial, de gênero e de espécies, miscigenação, LGBTTT e quantos Ts mais for preciso, comunicação não-violenta, círculos restaurativos, software livre, ação direta, luta por direitos universais de animais humanos e não humanos… Tudo isso visa um bem comum, uma abolição da exploração para condições mais igualitárias, menos disparates. Vale muito aproveitar as brechas do sistema. A “legalidade” é criticada em todos esses movimentos alternativos e a progressiva união e reconhecimento entre esses levantes sociais fará possível toda essa transição, pois ninguém é totalmente independente, todxs somos interdependentes e ampliamos nossa autonomia quando nos unimos, nos auto-gerenciando. Ando cumprimentando pessoas pelas ruas, não as tratando como “marginais” por estarem às margens do que hoje chamam de sociedade, uma egrégora se apresenta. Movimentos por justiça social se interligam. Se lutamos contra meia dúzia de pessoas que exploram o povo, então não faz sentido explorarmos os animais não-humanos que somados são infinitamente muito mais indivíduos do que nossa humanidade que os domina por terem um desenho diferente ao nosso, condições diferentes as nossas, sendo que os interesses básicos desses animais são os mesmos de todos nós.

Criticamos o capitalismo, mas vivemos dentro dele, ninguém escapa. Uso banco pra débito, carro pra caronas, o petróleo está em quase tudo, desde o pneu da bicicleta até os tênis velhos que uso, usamos redes sociais… Sinto uma melhora significativa em minhas ações quando hoje me comparo aos anos anteriores. Fui abolindo muitas coisas perante anos atrás, o importante é detectar e caminhar visando pra essas abolições. Algumas pessoas acham que sou livre, mas se enganam, pois ninguém é livre. Minha fama está maior do que eu realmente sou. Eu busco a liberdade e abri mão de muitas coisas. Ainda me sinto como um pássaro de gaiola que ativistas abriram, mas estou atrofiado fisicamente e mentalmente, me descondicionando para poder viver lá fora, tudo é um processo de desconstrução e aprendizado. Muitas coisas são abstratas e precisam ser resolvidas em nossa mente frente às vivências cotidianas. Não há uma “solução pronta”, o caminho nos mostrará, e já está mostrando. Não tenho como fazer diferente, seria hipocrisia demais não ser honesto comigo mesmo, um tortuoso suicídio.

Como anda o projeto popular das camisetas veganas?

Em 55 meses já são 5 mil camisetas produzidas, 5 mil mundos e muitas amizades espontâneas. Tenho tido espaços cedidos pelas feiras veganas, que se multiplicaram, com ajuda voluntária nas mesinhas de ‎pessoas amigas como Fátima Maranhão, Meire Badona e Juliano Grafite. Além disso, 5 dias atrás tivemos mais um ponto de apoio pras camisetas, somatizando 55 pontos que já co-apoiaram esse projeto pelo Brasil.

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Também envio pelos correios em caixas de suco reutilizadas. Nunca pedi comprovante de depósito, pois acredito nas pessoas, e em todos esses anos ninguém faltou com a palavra, não há resposta melhor do que essa vivência. As mídias de massa querem fazer com que as pessoas desconfiem umas nas outras, isso é feito para tentar nos segregar, nos enfraquecer, imobilizar, postergando a pirâmide do poder. Responsabilizar fatos isolados para um todo é desonesto, isso sim é terrorismo, uma anti-cultura de externar o medo.

Por todo esse tempo vivi num mundo paralelo à realidade imposta pelo sistema monetário, que endivida as pessoas gerando escassez. Serão 5 anos sem repassar a inflação nesse meu auto-governo. Esse projeto de distribuir a valor de custo chegará ao fim no meio de 2015, quando completará 5 anos, pois nesse período o valor para produzir uma camiseta ultrapassará o valor unitário distribuído. Ou seja, o projeto popular R$ 9,90 sem fins lucrativos chegará ao fim em si mesmo, impedido pela moeda. Após esse período, distribuirei por outro valor até acabar os estoques. Portanto aproveitem o agora, animalistas! Até lá estimo chegar a 5.555 camisetas produzidas. Acabará na hora certa, pois preciso abrir caminhos para novos projetos e focar meu tempo num espaço físico pra mim.

É um projeto voluntariado feito sem ONG, instituição, empresas ou governo. Descobri que sou uma ING (Indivíduo Não Governamental). Quem sabe o fim desse projeto, a ausência dele, empodere pessoas a iniciar algo do tipo, já que não vi nada parecido até hoje. Até agora só 3 Estados desse país ainda não solicitaram as camisetas (Roraima, Rondônia e Amapá). Será uma honra enviar pra essa trinca antes do projeto terminar, e sinto que isso vai acontecer, pois já mandei até pro Japão.

Novas estampas e projetos por vir?

Recentemente lancei uma com o dizer “Máximo Respeito” focando na temática de algumas relações de opressão e discriminação que podem ser falaciosamente tratadas como opinião. Apesar de entendido socialmente, o racismo ainda continua muito vivo e serve de chamariz para outros temas ainda não tão conhecidos como o sexismo e o especismo, podendo gerar dúvidas a quem for receber a mensagem. Gosto de estimular a inerente curiosidade das pessoas, pois é uma porta espontânea para o conhecimento e reconhecimento das estruturas de dominação que tem a mesma raiz. Ninguém está livre de ter e sofrer preconceitos, mas podemos nos auto-estimular nesse processo e desconstruí-los no dia a dia.

 

Se encontrar pessoas que se dizem “veganas” machistas, elitistas, racistas, homofóbicas, daí não estão sendo veganas, pois ainda não entenderam a amplitude do veganismo, já que todxs somos animais. Quando uma pessoa acha que é ou está vegana, mas não quer reconhecer e internalizar valores libertários, desconstruindo preconceitos, daí é um equívoco do tempo e espaço a qual participa. Para isso, precisamos dispor as informações e comunicar ao invés de acumular conhecimentos, nos sentindo intelectualizados e soberbos, uma armadilha nesse mundo capitalista que estimula competição. A comunicação só se faz quando há uma interação, uma resposta entre as pessoas que interagem, um entendimento. Mídias apenas expressam, não comunicam, não há acordo. Vamos todxs nos comunicando, cooperando, ouvindo. Caminhamos entre a teoria e a ação, entre a racionalidade e a intuição, escorregando, tropeçando, nos levantando…

É comum nos deparar com pessoas veganas tendo atitudes não veganas. Até porque veganismo é movimento em constante processo e todas as pessoas podem rever e mudar pra adentrar ao processo. Não me preocupo com algumas pessoas veganas agressivas, pessoas agressivas existem em todos os lugares. Me preocupo com o veganismo, ou seja, com os animais. Abaixo a veganofobia, misantropia e todo tipo de generalização. Desde criança fomos formatadxs a escolher uma coisa ou outra, a viver uma monocultura de exclusões e isso é feito para nos enfraquecer. Podemos reconhecer para agregar a todas essas mudanças sem achar que para isso precise ser um super-herói, de algo espiritualmente ou intelectualmente elevado e purificado. Pura bobagem.

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Não sou palestrante, mas nesse último ano me convocaram a palavra pra 5 partilhas sobre veganismo, seja relacionado a atividades físicas ou a permacultura. Foi muito bom estar com o pessoal da educação física do Projeto de Práticas Corporais da UFSC e com os hares no Centro Cultural Vrinda de Florianópolis, no Curso de Design em Permacultura de Nova Oikos em Camboriú-SC, com a galera da Agroecologia do coletivo Caaporã em Matinhos-PR e o GEDA no Lar Vegano em São Paulo. São aberturas importantes para integração. Não vejo mérito no que faço, pra mim não é mais que minha obrigação. Quando sou chamado me sinto no dever moral de expor, pois não posso me segurar nessa condição privilegiada que tive em obter informações, refletir e vivenciar as situações. Não adianta eu ter vergonha de ser branco, de classe média, homem e hetero, pois só vergonha não vai mudar a situação das pessoas oprimidas, não vai tirar meus privilégios. Agradeço as hospedagens, abraços e transportes solidários para viabilizar todo esse mutuo aprendizado. Pra 2015 já tem três partilhas em vista sobre Permacultura Vegana, nos PDCs (Curso de Design em Permacultura) do Çarakura em Florianópolis-SC e VelaTropa em Garopaba-SC, e outra pro Morro do São Bento no Projeto Merenda Vegana em Santos-SP. Estou germinando a ideia de uma estampa orgânica sobre Permacultura Vegana, flertando pra esse ano com muito carinho.

Em 2014 quase consegui um espaço físico em Florianópolis, foi por muito pouco, mas a busca continua, ainda mais agora que me sinto muito mais focado nos caminhos a percorrer, e com ideias mais claras em como atingir esses objetivos do sonho que tornei público na matéria da Anda no meio de 2013. Enquanto isso não chega, vou aprendendo pelo caminho nas várias idas e vindas à ilha, em verdadeiras vivências transformadoras, intercâmbios multiétnicos e culturais, amizades e laços vão ficando mais fortes, do jeito que é, sem aceitar a ditadura da economia no desejo de ter acesso a bens e serviços. Lares temporários solidários e espontâneos se multiplicam e muito mais pessoas fantásticas por vir e agregar para co-criarmos o mundo diferente que queremos.

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Nesse mês organizamos um Veganic (picnic vegano) aqui na Lagoa da Conceição onde tivemos em torno de 80 pessoas somadas ao longo do dia, nunca vi tanta gente reunida num picnic. Também tenho orgulho em comunicar o surgimento de um diferente novo projeto na ilha. Criamos uma Cooperativa Vegana, e estamos com uma Tenda Vegana na “Feira Orgânica” de quartas-feiras na UFSC. Libertação Animal e da terra num novo ponto que promoverá a Agroecologia Vegana. Mais do que alimentação artesanal vegana, ao máximo integral, orgânica e acessível. Um ponto real e presencial de ativismo onde pretendemos unir diversas frentes de projetos sociais abolicionistas, disponibilizando informações e trazendo acesso à comunidade, ligando atividades, misturando as “caixinhas” intituladas de faculdades, permaculturando. Um espaço de inclusão vegana, abrindo fronteiras.

Pretendemos viver uma relação diferente da prestação de serviços, para um encontro de igual pra igual, com mais respeito de ambas as partes, revendo as relações de consumo, por uma economia solidária. As críticas são ao industrialismo exacerbado que tentam enfiar no veganismo devida urbanidade, e ao utilitarismo animal arraigado na permacultura. Sem contar num capitalismo que todos os dias tenta engolir o significado dessas duas práticas, com criação de cartéis elitizantes, explorando humanos. Não existe libertação animal sem veganismo, mas o veganismo sozinho não trará a libertação animal. Faz-se preciso abandonar ao máximo industrializados, abolir monocultivos e transgênicos, químicos, consumismo corporativista vertical, competitividade. E qualquer uso utilitário de animais é prejudicial à educação cultural holística. É preciso abolir as ações opressoras unilaterais antropocêntricas. As diversas possibilidades existentes de não forçar e não objetificar animais são boas respostas que trazem mais respeito e harmonia ao planeta. Aproveitaremos pra tornar permacultura e veganismo como um organismo vivo e único.

O amor inclui o respeito, mas o respeito não inclui necessariamente o amor. O mínimo que os animais precisam é de respeito. Não é preciso amar um rato ou um besouro para respeitar a liberdade e integridade de ambos. Promovo o respeito e quem quiser amar que ame.

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Gratidão a todas as pessoas que co-lutaram e co-apoiaram pra isso se tornar uma realidade nesses últimos 5 dias, nessas 5 semanas, nesses 5 meses, nesses 5 anos, vocês sabem quem vocês são. É só um novo inicio, toda estrutura será montada com o tempo.

E em julho desse ano também realizaremos o 1º Bazar Vegano de Florianópolis. Estou muito feliz com todo esse mundo de possibilidades infinitas.

Como tem sido a experiência com os queijos veganos?

O Vegão é um trabalho autônomo de um ano e meio. É um queijo artesanal sem leite, sem lactose, sem caseína, sem colesterol, sem soja, sem transgênicos, sem enzimas digestivas (coalho de animais mortos), sem pus, sem hormônios, sem antibióticos e sem bezerros mortos. Por não escravizar e nem matar animais acaba deixando um menor impacto sobre o planeta, pois não desvia milhares de grãos e nem milhões de litros de água para produção de sua matéria prima. Por consequência, não deixa toneladas de excrementos, nem gás metano; problemas de todos os laticínios. Pra quem não sabe, em média, para cada Kg dos queijos convencionais são usados 10 litros de leite arrancados das fêmeas, e para manteiga são 40 litros (pro ghee são 60 litros). Tudo isso é plenamente dispensável para a nossa felicidade e sustento nesse planeta, aliás, precisa ser dispensado para tal.

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É um queijo vegano feito para todas as pessoas, pois veganismo é para todas as pessoas. É um frio perecível, participei de cinco eventos em 2013 e o dobro em 2014. São inúmeros os eventos surgindo pelo país e isso tende a intensificar, e se espalhar cada vez mais. Essa estória naturalmente faz parte de minha vida, pois sempre fui um viciado em queijos (agora por todos os queijos veganos). Estudei anos sobre o assunto e sei que ainda vou experienciar muito mais na busca pelo “queijo perfeito”. Tem sido gratificante a recepção das pessoas, tanto as que acabam conhecendo veganismo por esse canal quanto as que já são veganas.

Mas sei bem as coisas que não quero, e agora é construir o que estou afim, mesmo que para isso demande mais tempo. Não sou nem serei patrão ou funcionário de ninguém, sem rabo preso ou cortado, pois vegano não quer “engolir sapo”; não usarei isopor para envio a distância, pois não concordo com o uso desse material, hoje isso me limita a uma distribuição local que vem de encontro ao caminho ilimitado que trilho, fora dos padrões comerciais. Quero fazer no meu tempo, pois o tempo vale mais do que o dinheiro, e quem sabe trocar cada espetinho por R$ 5 durante 5 anos de vida desse queijo.

Ainda estou distante do ideal que é conhecer a procedência de toda matéria prima e modo de produção dessa matéria, para uma atuação menos alienada e eticamente mais alinhada, mas passo a passo vamos chegando. Estou sentindo o caminho no caminhar, sem atropelar ou dar passos maiores do que a perna.

Gostaria de deixar mais alguma mensagem sobre veganismo?

Veganismo não é dieta, veganismo não é um estilo de vida. Ninguém que defende os direitos humanos diz “esse é meu estilo de vida”, então por que defender os animais deveria ser definido como “lifestyle”? Veganismo é colocar em prática os direitos animais. É uma busca diária, constante, por evitar ao máximo a exploração animal. É incluir os animais na consideração moral.

Veganismo também não significa que é tudo do reino não-animal. Veganismo é além. Vou citar alguns exemplos: Uma empresa que escraviza pessoas mesmo vendendo apenas coisas de origem vegetal; Uma plantação que explora animais na “mão de obra”; Deserto verde das monoculturas e transgênicos, não importa a quem for destinado, afeta diretamente animais humanos e não-humanos; Agrotóxicos, venenos pra nós e para os não-humanos; Indústrias químicas poluentes que afetam a vida geral de humanos e não humanos; Testes em animais, entre outras coisas. Portanto veganismo não é apenas sinônimo direto de “coisas de origem vegetal”. Há de se considerar e lutar por todos os animais, já que é esse o propósito. Ser vegano não é dizer que está livre de tudo isso. É dizer que não quer isso. Desbravar, se acionar, reivindicar, desconstruir, replanejar, buscar, mover-se. Não tem nada “pronto”. Veganismo é movimento.

Mas de nada adianta o nosso conhecimento se não exercitamos a sabedoria diariamente, e ninguém escapa disso. Pensamento positivo é pensamento crítico. É como li de Saramago sobre não tentar convencer ninguém, pois o trabalho de convencer é uma falta de respeito, é uma tentativa de colonização do outro. Não conscientizamos ninguém, apenas damos elementos para que as pessoas possam tomar decisões éticas.

Você diz que “convencer” é “um desrespeito, uma tentativa de colonização do outro”. Adotou esta filosofia. Não terá sido você persuadido pelo Saramarago (não diretamente, claro, mas em função da exposição de ideias dele)? Isto, de “não convencer”, não é um pensamento auto-refutante?

Não fui convencido por Saramago, pois já era algo que eu sentia antes de ler essa citação dele, que só reforçou minha opinião perante observações nas vivencias cotidianas. Relativismos a parte, não sei se é auto-refutante pois imagino que quase tudo possa ser, de certa forma, refutado, porém prefiro deixar pra que as pessoas sintam sobre essa questão levantada, ao invés de que pareça que eu esteja aqui no propósito de convencê-las de tal.

Quando você manifesta uma ideia, não está buscando persuadir alguém, ainda que de forma passiva? Se não, para que manifestá-la? Você não crê que é inerente ao ativismo a ação de persuasão? O problema é com o termo “convencer”? O “vencer” de “convencer” não tem mais a ver com “vencer resistências ideológicas” do que com “vencer o outro indivíduo”, no sentido de subjugá-lo? Ao se abster de tentar “convencer” alguém a não provocar danos a outros seres, você não está automaticamente colaborando para que a situação permaneça e as vítimas continuem a sofrer a ação do “não convencido”? Acha que seria um desrespeito buscar persuadir um criminoso a não cometer um crime? Um estuprador, por exemplo? Enfim, a questão é mesmo convencer ou é a forma como se faz isso?

A persuasão ocorre na vida como um todo e no ativismo não seria diferente, ainda mais quando são propostas de mudanças. As formas podem fazer toda diferença, o termo convencer pode ser tanto para subjugar indivíduos quanto uma tentativa de mudar resistências ideológicas, mas o que somos e vivemos é o que acaba sendo manifestado, assistido. A motivação principal vem no ser, e a apresentação é consequência desse ser, por isso não acho que esteja conscientemente colaborando para certas situações violentas que não fazem parte do exemplo vivido por meu individuo, e das violências que não cometo mais.

Quando estou centrado, antes de pensar em persuadir algo, acho importante estudar o porquê desse algo e trabalhar nesses porquês, mas em situações limite de violência como um presencial estupro, não vejo espaço no tempo a não ser com uma ação direta para evitá-lo.

Agradeço a paciência do Olhar Animal em aguentar meu atraso de 5 meses pra expor essa matéria solicitada, mas só agora tive tempo de sentar com calma e escrever algumas considerações. Gratidão a paciência de quem leu essa longa entrevista em tempos de 140 caracteres.

Não sou dono nem proprietário de nada do que falei. Tudo está lançado ao mundo para cópia livre, sem assinatura. Faça você mesmx! Você pode fazer muito melhor do que eu. Tenha certeza disso, muito além.

Nota do Olhar Animal: Entrevista concedida por e-mail.
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Entrevista com Evely Libanori, escritora e educadora vegana abolicionista

ENTREVISTA EVELY 10203318363747894 1043053686 nEvely Vânia Libanori, é professora do Departamento de Teorias Linguísticas e Literárias da Universidade Estadual de Maringá desde 1997. É mestre e doutora em Teoria da Literatura e Literaturas de Língua Portuguesa pela Universidade Estadual Paulista (Assis-SP). Na Graduação, leciona a disciplina “Literatura brasileira: narrativa” e, na Pós-graduação, a disciplina “Identidade existencial no romance latino-americano”. É lider do GAIA (Grupo de Atividades Interdisciplinares sobre os Animais), grupo de pesquisa cadastrado no CNPq e que estuda libertação animal, ética animal e veganismo. Autora da obra “Nós, Animais”.

Segue abaixo a entrevista que a educadora e escritora concedeu a LIGA ANIMALISTA.

LIGA: Hoje a sra. é conhecida como uma educadora vegana abolicionista (lecionando, palestrando e escrevendo), como foi o processo para chegar a esse posicionamento político?

Evely Libanori: Em 2005 me tornei protovegetariana. Em 2009, vegana. À medida que eu ia conhecendo a realidade de vida e de morte dos animais usados por nossa cultura, eu ia modificando meus hábitos. Primeiramente, mudei minha dieta, deixei de comer carnes. Depois deixei de usar tudo que tivesse origem animal. Eu lia bastante sobre Ética Animal. Por fim, vi a necessidade de passar para os meus alunos esse conhecimento. Então, meu posicionamento político de educadora vegana tem a ver com o conhecimento da vida e morte dos animais usados por nós. E, quando se é educador, não se pode deixar para lá esse conhecimento. Os alunos, esperança de mudança da mentalidade antropocêntrica, precisam conhecer o que fazemos aos animais e precisam pensar em modos de mudança.

LIGA: Como a sra. definiria a educação vegana?

Evely Libanori: A educação vegana é aquela comprometida com os seres vivos e com a vida. Está voltada para o respeito aos animais e aos ecossistemas. A educação vegana pretende promover um modo de viver que não maltrate as outras vidas em volta de nós. É cientificamente comprovado que podemos viver sem carne e, ainda assim, matamos milhares de animais a cada minuto, setenta milhões por ano, apenas para agradar o paladar dos carnistas. Isso é moralmente inaceitável. A educação vegana mostra e questiona o especismo, ou seja, o pensamento de que o ser humano é superior às outras espécies animais, o que dá a ele o direito de usar os animais como bem entender. A educação vegana quer a paz, que não haja derramamento de nenhum sangue, incluindo dos animais não humanos, quer o respeito pelo corpo do outro animal, a liberdade para todas as espécies e o respeito aos ecossistemas.

LIGA: Segundo o professor Leon Denis, existem dois tipos de educação vegana: a não formal, realizada pelos ativistas em qualquer lugar e situação; e a formal, realizada nas escolas e universidades e tendo os direitos animais como componente curricular. No seu livro ‘Educação vegana: tópicos de direitos animais no ensino médio’, ele afirma que por enquanto a formal só é realizada no Brasil, a sra. concorda com essa afirmação e com essa divisão da educação vegana?

Evely Libanori: Sim, concordo. A educação vegana não formal se dá quando ativistas explicam a necessidade de consideração ética para com os animais. É uma atividade educativa porque implica a mudança dos valores, dos hábitos, do pensamento. Em nível formal, a educação vegana acontece nas universidades de vários países onde há os veganos educadores. Em nível médio, não tenho conhecimento de outros países que foquem a educação vegana formal. Aqui, no Brasil, ela se inicia com o trabalho do professor Leon Denis.

LIGA: Uma crítica muito comum aos educadores veganos é direcionada ao uso que eles fazem em sala de aula de vídeos que exibem imagem de animais não humanos sendo torturados e assassinados como: A carne é fraca, Não matarás, e Terráqueos. Como a sra. avalia essa crítica?

Evely Libanori: Sim, quando o educador vegano mostra imagens e vídeos com animais sangrando, as pessoas nos chamam de agressivos. Eu avalio essa crítica como sendo um contraste e uma hipocrisia. Só mostramos o que mostramos para as pessoas saberem como os animais são tratados nos criadouros, nas granjas, nos matadouros, nos laboratórios. Só mostramos a sujeira e o sofrimento escondidos no prato, nos produtos do dia a dia. E então, como podemos ser nós os agressivos, se apenas mostramos o que os outros fazem justamente porque não concordarmos com isso? Mostramos filmes e imagens para as pessoas saberem que não estamos exagerando, que os animais sofrem muito, para além do que se pensa. Quando a pessoa me diz que estou sendo agressiva por mostrar as cenas fortes, eu vejo que ali está um reacionário, uma pessoa que não quer abrir mão de usar o outro animal. Se vejo que se trata de uma mente que se recusa a se expandir, que se protege nos velhos hábitos, então eu não insisto. Uso meu tempo e minha energia com os que são mais empáticos e sensíveis aos animais.

LIGA: A sra. trabalha com identidade animal, ética animal e representação animal na literatura num departamento de Letras, como é a recepção dos alunos e alunas?

Evely Libanori: Dou aulas para o curso de Letras, na graduação. Na pós-graduação, tenho alunos da Filosofia, Jornalismo, História, Psicologia. Trabalho com o tema da identidade humana e animal e então pensamos a proximidade entre seres humanos e animais. Também trabalho com Ética Animal. O espanto ante as ideias de libertação animal acontece com alunos de diferentes cursos. A necessidade de sermos éticos para com os animais é assunto novo na nossa cultura, então o ideal abolicionista não é conhecido pela maior parte das pessoas, mesmo em nível universitário. Por exemplo, na UEM, nenhum outro Departamento estuda Ética Animal com base nas ideias abolicionistas.

LIGA: A sra. poderia falar um pouco sobre o GAIA – grupo de atividades interdisciplinares sobre os animais e as pesquisas que o grupo realiza?

Evely Libanori: O Grupo Gaia foi criado para pensar a relação do ser humano com o animal. Existe há três anos e tem alunos de diversos cursos da graduação e pós-graduação: Letras, Psicologia, Biologia, Direito, Farmácia, Biomedicina. O Grupo promove atividades de pesquisa e de auxílio a animais abandonados. No ano de 2013, trouxemos a filósofa abolicionista Sônia T. Felipe para uma palestra na UEM. No ano de 2014, houve a Mostra de Artes pelos Animais para angariar fundos e criar de animais de rua. E eu publiquei o livro de crônicas abolicionistas, Nós, Animais. O que pesquisamos no grupo: Estudamos os autores veganos abolicionistas, como Sônia T. Felipe, Peter Singer, Gary Francione, Carol Adams. Há alunos da graduação e pós-graduação que estudam o pensamento ético na Literatura. Outros estudam a representação animal na Literatura, sua simbologia, seu ethos e sua relação com os seres humanos. Uma aluna do Direito rastreia, no Constituição Federal, as situações em que a lei é omissa ou negligente para com os animais. A aluna propõe nova redação para a lei nesses momentos, redação que leva em conta as necessidades dos animais. Alunas da Linguística estão pesquisando o efeito das campanhas do site Vista-se entre carnistas e não carnistas. Alunos que dão aula de Literatura pesquisam estratégias de ensino que tornem a educação vegana mais funcional.

LIGA: No ano de 2014, a sra. lançou o livro de crônicas ‘Nós, animais’. Essas crônicas vieram do ativismo dentro e fora da academia? Quais as expectativas quanto a obra?

Evely Libanori: Essas crônicas eu escrevi durante 2010-2013. Eu escrevo como forma de extravasar aquilo que me atinge, que me provoca inquietações. Nas horas vagas, escrevo crônicas sobre os animais e sobre a forma como nos relacionamos com eles. Depois de um tempo, conversando com amigos ativistas, veio a ideia de publicar as crônicas em livro. Minha expectativa quanto ao livro é que as pessoas conheçam as ideias de libertação animal, que se importem com os animais. Que o livro seja uma semente. Há professores que estão trabalhando com as crônicas em ensino fundamental e médio. Eu alerto para que eles cuidem de escolher bem o texto porque nem todos servem para crianças. O que me dizem é que há crônicas que sensibilizam, que provocam lágrimas. E se o livro comove assim, acho ótimo. A professora de Redação do colégio Nobel, em Maringá, trabalhou com os textos e, então, duas alunas se tornaram vegetarianas imediatamente. As alunas pediram a introdução do cardápio vegetariano no restaurante do Colégio e foram atendidas. Então, o livro já está fazendo alguma diferença, o que me deixa contente.

LIGA: O vosso trabalho de extrair uma ética animal de autores como Juan Rulfo e Clarice Lispector é conhecido, mas o que a sra. tem a dizer de romances que se apresentam declaradamente em defesa dos animais não humanos como ‘A Vida dos Animais’ de J. M. Coetzee, e ‘Humana Festa’ de Regina Rheda?

Evely Libanori: Eu quero incorporar ao meu trabalho também os autores que você citou, J. M. Coetzee e Regina Rheda. O que eu gostei em A vida dos animais, do Coetzee foi da posição sincera da escritora protagonista. Ela fala, às claras, e para qualquer um disposto a ouvir, a condição do animal não humano na nossa cultura. O pensamento abolicionista de Coetzee e Rheda é aberto, suas obras refletem a necessidade de mudarmos os nossos padrões morais e éticos em relação aos animais.

LIGA: A sra. acha que os (as) educadores (as) veganos (as) deveriam usar mais a literatura no ativismo animalista?

Evely Libanori: Acho. A Literatura é o mundo paralelo, não o que é, mas o que poderia ser. Toda a história, do começo ao fim, está dada adiante dos olhos. E a Literatura é a arte do não dito, é polissêmica, portanto, há muito que dizer sobre as situações e pensamentos. Uma vez que a Literatura cria personagens à semelhança humana, ela nos oferece o ser humano visto por dentro e por fora. Suas ações e sentimentos. Além disso, a Literatura pode emocionar e, quando uma ideia fala ao coração do leitor, ele não se esquecerá dela.

LIGA: Gostaria de terminar a entrevista pedindo que a sra. indicasse obras e artigos que são de fundamental importância para quem quer se tornar um (a) educador (a) vegano (a).

Evely Libanori:

  • ADAMS, Carol J. A política sexual da carne: A relação entre o carnivorismo e a dominância masculina. São Paulo: Alaúde, 2012.
  • ANDRADE, Silvana, (Org.) Visão abolicionista: Ética e Direitos animais. São Paulo: Libra Três, 2010.
  • DENIS, Leon. Educação vegana: Tópicos de direitos animais no ensino médio. São Paulo: Libra Três, 2012.
  • DENIS, Leon. Educação & direitos animais. São Paulo: LibraTrês, 2014.
  • FRANCIONE, Gary. Introdução aos direitos animais. Campinas: Editora da Unicamp, 2014.
  • FELIPE, Sônia T. Acertos abolicionistas: a vez dos animais. São José: Ecoânima, 2014.
  • FELIPE, Sônia T. Ética e experimentação animal: Fundamentos abolicionistas. Florianópolis: UFUSC, 2007.
  • FELIPE, Sônia T. Galactolatria: mau deleite. São José: Ecoânima, 2012.
  • FELIPE, Sônia T. Por uma questão de princípios: Alcance e limites da ética de Peter Singer em defesa dos animais. Florianópolis: Boiteux, 2003.
  • GARRARD, Greg. Ecocrítica. Trad. de Vera Ribeiro. Brasília: Universidade de Brasília, 2006.
  • REGAN, Tom. Jaulas vazias: Encarando o desafio dos direitos animais. Trad. de Regina Rheda. Porto Alegre: Lugano, 2006.
  • SINGER, Peter. Libertação animal. Trad. de Marly Winckler Porto Alegre: Lugano, 2004.
  • TRÉZ, Thales (Org.) Instrumento animal: O uso prejudicial de animais no ensino superior. Bauru: Canal 6, 2008.

Livros literários

  • COETZEE, John Maxwell. A vida dos animais. Trad. de José Rubens Siqueira. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
  • LIBANORI, Evely. Nós, animais. Rio de Janeiro: Livre Expressão, 2014.
  • LISPECTOR, Clarice. De bichos e pessoas. Rio de Janeiro: Rocco, 2012.
  • RHEDA, Regina. Humana festa. Rio de Janeiro: Record, 2008.
  • TORGA, Miguel. Bichos. Coimbra: Leia, 2002.

Na internet

Fonte: Liga Animalista

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Entrevista com o filósofo David Pearce

Ele defende um projeto abolicionista que envolve o fim da predação, obtido através da ecoengenharia.

INT david-pearceDeve ser permitido que animais cacem e matem outros animais?  O filósofo britânico David Pearce não pode imaginar um futuro em que os animais continuem presos no ciclo interminável de processos cegos darwinianos. Cabe a nós, ele argumenta, colocar nossos cérebros, nossas tecnologias, e nosso senso de compaixão para o bom uso e fazer algo  a respeito. É parte de seu abrangente Imperativo Hedonista, um clarividente projeto abolicionista definido como o objetivo de alcançar nada menos do que a eliminação de todo o sofrimento no planeta.

Estamos nos aproximando rapidamente da era da ecoengenharia em larga escala – uma perspectiva que David Pearce argumenta, deve ser usada para eliminar o sofrimento. Mas para chegar lá, ele diz que vamos ter que eliminar e reprogramar os predadores do nosso planeta. Para esse fim, ele monta um “plano para um mundo livre de crueldade”.

Leia abaixo à entrevista concedida em setembro por David Pearce ao site io9, com livre tradução do Veggi & Tal:

A idéia de tal re-engenharia de ecossistema livre de sofrimento é um projeto radicalmente ambicioso – e que tem sido referido como a “loucura bem intencionada” de um futurista. Dito isto, é uma idéia enraizada na história. De onde você tira suas ideias e filosofia moral?

David Pearce: Os seres sencientes não devem prejudicar uns aos outros. Esta visão que soa utópica é antiga. Gautama Buda disse: “Que tudo que têm vida esteja livre do sofrimento”. A Bíblia profetiza que o lobo e o leão se deitarão com o cordeiro. Hoje, jainistas varrem o chão a frente de seus pés, em vez de sem querer pisar em um inseto.

Minha própria estrutura conceitual e ética é secular – mais Bentham que Buda. Acho que devemos usar a biotecnologia para reescrever o nosso código fonte genético; recalibrar a esteira hedonista; desligar fazendas industriais e matadouros; e sistematicamente ajudar os seres sencientes, ao em vez de prejudicá-los.

No entanto, há um problema óbvio. Em face disso, a idéia de uma biosfera sem dor é ecologicamente analfabeta. Utópicos seculares e religiosos tendem a ignorar a biologia de carnívoros e a termodinâmica de uma cadeia alimentar. Alimente uma população de herbívoros famintos no inverno e nós desencadearemos uma explosão demográfica e um colapso ecológico. Ajude predadores carnívoros e causaremos mais mortes e sofrimento para os herbívoros que são predados. Richard Dawkins coloca o caso bioconservador bastante sem rodeios: “Deve ser assim”. Felizmente, não é o caso.

Diz-se frequentemente que os predadores (e a maioria dos animais) estão fora de nosso alcance ético e que é preciso percebê-los como criaturas amorais. Então, qual é o problema com os predadores? E por que os seres humanos se envolvem com esse grau de funcionamento interno do ecossistema?

Os seres humanos já “interferem” massivamente com a natureza de inúmeras maneiras que variam da destruição descontrolada de habitat a programas de reprodução em cativeiro para grandes felinos para reinserção na vida selvagem. Dentro das próximas décadas, cada metro cúbico do planeta será computacionalmente acessível a vigilância, micro-gestão e controle. Com base nas tendências atuais, grandes vertebrados terrestres não-humanos serão extintos dos nossos parques de vida selvagem até meados do século. Então, surge a pergunta. Que princípio (s) deve governar nossa administração do resto do mundo vivo? Quantos dos horrores tradicionais da natureza devemos promover e perpetuar? Como alternativa, na medida em que queremos preservar as formas tradicionais de vida darwiniana, devemos apontar para uma ética administrativa compassiva no lugar. Cognitivamente, animais não-humanos são parecidos com crianças pequenas. Eles precisam de cuidados semelhantes.

Livrar-se de predação não é uma questão de moralismo. A python que mata uma pequena criança humana não é moralmente censurável. Nem um leão que caça e mata uma zebra aterrorizada. Em ambos os casos, a vítima sofre horrivelmente. Mas o predador não tem as habilidades empáticas e de leitura da mente necessários para compreender as implicações do que ele / ela está fazendo. Alguns seres humanos também apresentam um déficit similar. Do ponto de vista da vítima, o status moral ou (falta de) intenção criminosa de um predador humano ou não-humano é irrelevante. De qualquer maneira, ficar e assistir uma cobra asfixiar uma criança seria quase tão moralmente repugnante como matar a criança você mesmo. Então, por que não adotar este princípio com seres de sensibilidade e senciência comparáveis ao das crianças e bebês humanos? Com o poder vem cumplicidade. Para melhor ou pior, o poder sobre a vida de todos os seres sencientes do planeta está agora ao nosso alcance.

Inevitavelmente, os críticos falam em “arrogância”. Os seres humanos não devem “brincar de Deus”. Que direito têm os seres humanos de impor os nossos valores a membros de outra raça ou espécie? A acusação é sedutora, mas equivocada. Não há antropomorfismo aqui, sem imposição de valores humanos em mentes alienígenas. Animais humanos e não humanos são iguais em uma relação ética crítica. O eixo prazer-dor é universal à vida senciente. Nenhum ser senciente quer ser prejudicado – ser asfixiado, desmembrado, ou comido vivo. Os desejos de um bebê aterrorizado ou o de uma zebra em fuga, de se desenvolverem sem serem molestados, não estão em aberto para dúvidas, mesmo na ausência de capacidade verbal para dizer isso.

Predadores desempenham um papel inestimável nos ecossistemas do mundo. Perturbar este equilíbrio poderia ter consequências desastrosas. Como o seu plano para uma  Terra livre de predadores lida com essas restrições? E como você distingue entre as estratégias de extinção seletivas e reprogramação?

Predadores carnívoros mantém as populações de herbívoros em cheque. Espécies de mosquito Anopheles que carregam o Plasmodium mantém populações humanas em cheque. Em cada caso, um papel ecológico importante é conseguido à custa de um imenso sofrimento e a perda de centenas de milhões de vidas. O que está em questão não é o valor do parasita ou o papel ecológico do predador, mas se os agentes morais inteligentes podem desempenhar esse papel melhor. Em algumas hipóteses bastante razoáveis, regulação da fertilidade através de planejamento familiar ou imunocontracepção entre espécies é uma opção política mais civilizada e compassiva do que a fome, depredação e doenças. O maior obstáculo para um futuro de ecossistemas compassivo é a ideologia da tradicional biologia da conservação – e o viés do status quo irrefletido.

A distinção entre a extinção seletiva e reprogramação genética não é clara. E ainda é útil. Todos os mais ardorosos conservacionistas e defensores do status quo preferem ver o mosquito Anopheles extinto na natureza – ou, pelo menos, inofensivo. De comum acordo, a humanidade visa acabar com a malária em todo o mundo. Sem dúvida, menos animais humanos e não humanos vão adoecer e morrer em consequência, colocando ainda mais pressão sobre o meio ambiente. Mas acesso a planejamento familiar na população humana da Africa Sub-Sariana pode ser aperfeiçoado também. No longo prazo, retirar do genoma humano o alelo falciforme terrível que confere resistência parcial à malária deve ser viável também. No entanto, a idéia de permitir que espécies predadoras de vertebrados icônicos sejam extintas geralmente provoca uma resposta diferente da idéia de eliminação progressiva de um mosquito – independentemente do sofrimento que causam. A maioria dos moradores de subúrbios citadinos estão horrorizados com a idéia de um mundo sem leões ou tigres e outros “carismáticos da mega-fauna”.

Eu não estou pessoalmente convencido de que precisamos de tais espécies predadoras para sobreviver de qualquer forma – nem mesmo geneticamente “reprogramados” para serem inofensivos para suas vítimas habituais. Mas vamos supor o contrário. Podem os princípios gêmeos da biologia da conservação e design de ecossistema compassivo se reconciliar? Em princípio, sim. Se realmente queremos preservar crocodilos, cobras e tigres que vivem livres e promover uma biosfera livre de crueldade, então os membros carnívoros de parques de vida selvagem do futuro terão de ser geneticamente e comportamentalmente mexidos – com neurochips, rastreamento de GPS e abundância de alta tecnologia de defesa para evitar acidentes.

No caso das populações de herbívoros não predadas que de outra forma explodiriam, regulação da fertilidade entre-espécies via imunocontracepção vai ser uma opção barata, eficaz e de baixa tecnologia.

Os críticos podem alegar que um leão que come erva de gato cultivada com sabor carne, ou um tigre que foi geneticamente mexido para desfrutar de uma dieta vegetariana, não é mais “realmente” um leão ou um tigre. Exatamente o mesmo argumento poderia ser feito para o Homo sapiens contemporâneo. Assim a natureza “projetou” seres humanos arcaicos do sexo masculino para serem caçadores / guerreiros. Se começarmos a usar roupas, curar doenças genéticas fatais, parar de prejudicar animais não-humanos, e parar de matar uns aos outros, perdemos assim uma parte vital da nossa “essência como espécie”? E se assim for, isso importa? É da mesma forma com os leões e herbívoros. Por que limitar o processo civilizatório a um único grupo étnico ou espécie? Abstrações taxonômicas não têm literalmente interesses, apenas seres sencientes individuais.

Quão granular e total esse projeto precisa ser? Devemos eliminar toda a predação? E de qual extensão estamos falando –  até mesmo insetos e parasitas?

No longo prazo, não há nada que pare agentes inteligentes de identificar a assinatura molecular de experiência abaixo do zero hedônico e eliminá-lo por completo – mesmo em insetos. A nocicepção é vital; dor é opcional. Eu timidamente prevejo que a última experiência desagradável do mundo em nossa frente será um evento precisamente datável – talvez alguma micro-dor em algum obscuro invertebrado marinho, alguns séculos a partir de agora.

Tenho que dizer que nós vamos exigir tecnologias extremamente sofisticadas para conseguir isso. Mas já estamos desenvolvendo tecnologias precursoras para as que você descreve. Olhando para o futuro, que outras tecnologias terão de cumprir este projeto?

O bem-estar de grandes mamíferos de longa duração e de vida livre pode ser garantido, mesmo com as tecnologias de hoje. Expandir o círculo de compaixão ainda é tecnicamente mais desafiador. Até alguns anos atrás, eu teria falado em termos de séculos. Por motivos sociológicos, em vez de técnicos, eu ainda acho que esse tipo de calendário é mais credível para a salvaguarda do bem-estar dos seres humanos, trans-humanos e dos mais submissos dos animais não-humanos semelhantes.

Certamente, até a revolução CRISPR (técnica de correção de genes), falar de estender uma ética abolicionista além de vertebrados parecia fantasioso porque as intervenções humanitárias passariam de extensões reconhecíveis de tecnologias existentes para uma era especulativa da nanotecnologia madura, nanorrobôs auto-replicantes e drones marinhos patrulhando os oceanos. Para mim, a peça final do quebra-cabeças abolicionista só encaixou no lugar depois de ler o livro de Eric Drexler Os Motores da Criação: A Era vinda da Nanotecnologia (1986) – uma perspectiva tentadora, mas não um cenário facilmente concebível em nossa vida.

Depois veio a CRISPR. Mesmo os cientistas sóbrios descrevem a revolução CRISPR como “de cair o queixo”. Unidades de genes podem espalhar alterações genéticas para o resto da população.

Quer se trate de grandes vertebrados icônicos ou insetos obscuros sem carisma, a pergunta a fazer agora é menos o que é viável, mas sim, o que é ética? Quais os tipos de consciência, e que tipos de seres sencientes que queremos que existam no mundo? Naturalmente, só porque um estado de bem-estar pan-espécie é tecnicamente viável, não há garantia de que algum tipo Jardim do Éden vá acontecer um dia. A maioria das pessoas ainda acha a idéia de eliminação gradual da biologia do sofrimento involuntário nos seres humanos uma perspectiva fantasiosa – e mais ainda a sua abolição em animais não-humanos. O bem-estar de todos os insetos soa como a reductio ad absurdum do projeto abolicionista. Mas aqui eu vou ser muito dogmático. Alguns séculos a partir de agora, se o sofrimento involuntário ainda existir no mundo, a explicação para a sua persistência não será que nós esgotamos os recursos computacionais para eliminar progressivamente a sua assinatura biológica, mas sim que os agentes racionais – por razões desconhecidas – terão escolhido preservá-la.

Qual é a sua visão final para o nosso planeta e os animais que vivem nele?

Estou ansioso para um futuro em que todos os seres sencientes aproveitem a vida animada por gradientes de felicidade. “Aqueles que nos prometem o paraíso na Terra nunca produziram nada, apenas um inferno”, disse Karl Popper. Na mesma linha, minha comiseração mente ao leitor cético que calcula que os humanos provavelmente estragarão tudo. Em uma nota mais brilhante, se fizermos as coisas certas, o futuro da vida no universo pode ser maravilhoso para além dos limites da imaginação humana: uma civilização do “triplo S” : superlongevidade, superinteligência e superfelicidade. Duvido que eu vou viver para ver isso, mas é um futuro pelo qual vale a pena lutar.

Fonte: Veggi & Tal

Entrevista com o filósofo Luciano Carlos Cunha sobre educação vegana

O grupo Liga AnimalistA conversou com o filósofo catarinense Luciano Carlos Cunha sobre o tema educação vegana.

LIGA: Como o sr. definiria educação vegana?

LUCIANO CUNHA: Depende do que se está a referir por “educação vegana”. Eu imagino que o que você queira dizer com o termo seja a educação no sentido de se difundir os argumentos para se reconhecer o dever de respeitar os animais não humanos. Se é esse sentido, acredito que um nome mais adequado seria educação anti-especista. Minha preocupação com o termo “educação vegana” é a seguinte. O termo veganismo é, em geral, entendido como a prática de não se alimentar de produtos oriundos da exploração animal. É claro, a prática do veganismo parecer ser uma implicação óbvia do anti-especismo: se alguém reconhece que os animais não humanos devem ser respeitados, vai reconhecer que tem o dever de não prejudicá-los (não causar seu sofrimento e morte, por exemplo) através do uso. Mas, o contrário não necessariamente é verdade. Existem muitas pessoas que são veganas (ou seja, não consomem produtos de origem animal), mas defendem o especismo, da mesma maneira que é possível alguém não ter escravos e ainda assim ser racista.

Existem muitas coisas especistas que muitos veganos defendem. Por exemplo, inúmeras vezes defendem que não causar morte e sofrimento aos animais não humanos é algo permissível, mas não requerido. Isto é, enxergam não matar os animais como algo moralmente opcional (como vestir uma blusa cinza ou uma amarela, por exemplo), ou como algo louvável, mas não moralmente obrigatório. O jargão que usam é “assim como eu tenho direito de ser vegano, outras pessoas têm o direito de comer os animais se quiseres”. Isto é, estão a defender os direitos dos veganos, mas não os direitos dos animais. Eles não parecem acreditar que alguém está a cometer uma injustiça (muito menos uma injustiça grave) quando se causa sofrimento e/ou morte de animais não humanos para consumi-los. Mas, obviamente pensariam diferente se as vítimas fossem humanos.

Muitas vezes, defendem também que reivindicar o dever de abolir o uso de animais é fazer uma imposição injustificada aos que consomem os animais. “Você está impondo o seu ponto de vista” é o slogan comumente pronunciado. Ou seja, apesar de a prática deles ser diferente daquela dos que consomem animais, a visão moral deles é exatamente a mesma: a de que causar morte e sofrimento aos animais não humanos é algo moralmente permissível: quem não quiser fazer, está justificado a não fazer; quem quiser fazer está justificado a fazer. Ou seja, apesar de serem veganos, estão a defender o suposto “direito” dos humanos assassinarem, torturarem, escravizarem os não humanos. Consideram argumentar a favor de um tratamento justo dos animais uma imposição injustificada, mas não consideram uma imposição injustificada causar morte e sofrimento aos animais. Obviamente que isso é completamente arbitrário.

Ninguém, seja vegano, seja não-vegano, defende que causar morte e sofrimento aos humanos é algo moralmente opcional ou louvável. Mas, as razões que explicam o porquê de ser injusto causar a morte ou ferir a integridade física de humanos (o fato de a vítima ter um prejuízo grave caso isso aconteça, seja pela presença de sensações negativas como o sofrimento, seja pela ausência de sensações positivas, que vêm com a morte, por exemplo) explicam ao mesmo tempo porque é injusto fazer as mesmas coisas com qualquer outro ser capaz de padecer daqueles prejuízos. E isso inclui qualquer ser senciente, independentemente de espécie.

Existem veganos que são contrários a dar direitos legais para os animais não humanos (novamente, dizem que fazer isso é uma imposição injustificada sobre aqueles que desejam violar a integridade física dos animais não humanos), mas são favoráveis a direitos legais para os humanos (nenhum deles abdica dos direitos legais que tem, pelo menos). No entender deles, seria justificado argumentar com alguém com vistas a convencê-lo a respeitar os animais, mas, se posicionam contrariamente a se tentar medidas legais para proteger os animais não humanos, com base na alegação de que isso seria fazer uma imposição injustificável sobre os violadores. Novamente, no contexto humano quase ninguém pensa assim. Ninguém pensa que as leis anti-estupro fazem uma imposição injustificada aos estupradores, por exemplo. E, mesmo se fosse o caso de tais medidas serem defendidas quando humanos são as vítimas, isso parece envolver uma parcialidade extrema a favor do violador.

Existem também veganos que defendem apenas deveres negativos (evitar de praticar atos danosos) para com os não humanos, mas defendem que, quando as vítimas são os humanos, temos também o dever de prestar ajuda. Mesmo quando, dentro do movimento vegano, reconhece-se algum tipo de dever positivo diante dos animais não humanos, isso resume-se danos provocados pela exploração. Em se tratando de danos provocados por processos naturais (morte por inanição, predação, catástrofes naturais, parasitismo, doenças, etc.) pelo menos quando se está a falar de animais silvestres, a maior parte dos veganos não apenas defende que não há o dever de prestar ajuda, como defende que seria moralmente errado ajudar. Mas, quando as vítimas são os humanos, todos nós reconhecemos que, não apenas estamos justificados nos defendermos ou defendermos outros humanos das situações acima, como também geralmente reconhecemos que isso é um dever. Mas, todas as razões que explicam porque há permissibilidade ou dever de ajudar quando as vítimas são humanas oferecem iguais razões para ser permissível (ou até mesmo um dever) quando as vítimas pertencem à outras espécies.

Por fim, muitos veganos, inclusive alguns abolicionistas, não parecem estar preocupados com a distribuição igualitária. Parecem entender que nossos deveres perante aos animais não humanos seria abolir o seu uso, mas parecem também  não se preocupar com situações de desigualdade que não provém do uso. Obviamente, uma situação onde, sendo todos inocentes, alguns estão muito bem e outros estão muito mal é uma situação injusta, independentemente de essa desigualdade ser ou não resultado da escravidão. No contexto humano, a maioria de nós reconhece que uma situação de desigualdade é injusta. Quase ninguém fala: “já abolimos a escravidão humana; não temos mais deveres nenhum para com eles”. Mas, por vezes abolicionistas da exploração animal defendem algo assim para com os animais não humanos. Claramente isso é especista. Assim sendo, rejeitar o especismo implica praticar o veganismo, mas, vice-versa, infelizmente, não acontece.

Então, a necessidade não é apenas educar para o veganismo. É educar para se rejeitar o especismo e para dar respeito pleno aos animais não humanos. Então, a pergunta central seria: “como você define a educação anti-especista?”. Eu definiria como: apresentar as razões, os argumentos que explicam que dar uma consideração menor a seres sencientes que pertencem a determinada(s) espécie(s) é uma forma de discriminação, e, portanto, uma injustiça”.

LIGA: Segundo o professor Leon Denis, existem dois tipos de educação vegana: a não-formal, realizada pelos ativistas em qualquer lugar e situação; e a formal, realizada nas escolas e tendo os direitos animais como componente curricular. No seu livro ‘Educação Vegana: tópicos de direitos animais no ensino médio’, ele afirma que por enquanto a formal só é realizada no Brasil, o sr, concorda com essa afirmação e com essa divisão da educação vegana?

LUCIANO CUNHA: Eu não tenho muito conhecimento do que está a acontecer em outros países em termos de educação formal. Então, não tenho como dizer se a educação anti-especista formal só é realizada no Brasil. Existem cadeiras específicas sobre ética animal em cursos de filosofia em universidades no Brasil e no resto do mundo, mas, em relação ao ensino médio, até hoje o único exemplo que vi de um tratamento da ética animal durante o ano letivo inteiro, como componente curricular, é o trabalho realizado pelo professor Leon Denis. Espero que esse exemplo gere frutos, e, cada vez mais, esse tema faça parte do “currículo oficial”, já que é uma das questões mais discutidas na filosofia nos últimos quarenta anos.

Eu concordo com a divisão entre educação formal e informal, embora seja importante ressaltar que isso não significa que uma forma seja necessariamente mais bem embasada (com melhores argumentos) do que a outra. Obviamente, o que se espera de um ensino acadêmico sobre um tópico é que o professor conheça bem a argumentação em relação ao assunto que está a trabalhar. Mas, é possível que um determinado ativista, que não é filósofo por profissão, mas tem o hábito de ler sobre o assunto e avaliar os argumentos, tenha por vezes uma base teórica mais bem fundamentada do que determinado filósofo profissional.

LIGA: Uma critica muito comum aos educadores veganos é direcionada ao uso que eles fazem em sala de aula de vídeos que exibem imagem de animais não-humanos sendo torturados e assassinados como: A carne é fraca, Não matarás, e Terráqueos. Como o sr. avalia essa critica?

LUCIANO CUNHA: Depende da razão para se fazer tal crítica. Existe uma razão que considero válida, e outra que considero inválida. Infelizmente, imagino que as críticas surjam mais da razão inválida do que da válida. Vou falar primeiro da razão válida.

Pessoalmente, tenho também críticas a esses documentários. Reconheço que eles possuem muitos pontos positivos, e um deles é mostrar a realidade da vida dos animais criados para serem usados como recursos, que é sofrimento extremo desde o momento do nascimento até o momento da morte. Minha crítica é, novamente, quanto aos argumentos. Muitos desses documentários dão a entender que o sofrimento e/ou a morte dos animais não é suficiente para haver a obrigação moral de abolir o uso de animais. Dão a entender que, diante da quantidade gigantesca de mortes e de sofrimento extremo que passam os animais, ainda assim, para ver se há ou não o dever de abolir tal imposição de sofrimento e morte, temos de perguntar sobre o impacto ambiental, sobre se comer animais é ou não saudável, se experimentar em animais é ou não eficaz, se consumir animais é ou não natural, etc. Ninguém defenderia uma coisa dessas se as vítimas fossem humanas. Dão a entender também que essa é uma questão sobre ser bondoso ou amoroso, e não que estamos a ser extremamente injustos se não os respeitarmos.

Ninguém diria que eu sou uma pessoa  bondosa e amorosa só porque não joguei uma bomba em um lugar onde moram seres humanos. Se eu fizesse isso, eu estaria sendo injusto, mas, se eu não faço, eu não estaria fazendo nada para além da minha obrigação mínima. Não estaria fazendo nenhum ato louvável. Mas, se os próprios documentários que visam defender os animais mantém a visão de que, se escolho não assassinar ou torturar um animal não humano, estou a fazer algo para além do mínimo que seria justo, ou, se esses documentários afirmam (ainda que de maneira indireta) que o sofrimento e/ou morte dos animais não é suficiente para se considerar tais práticas injustas, então algo está muito errado com a argumentação desses documentários.

Além disso, alguns desses documentários dão a entender que o erro está somente no fato de haver sofrimento durante o uso. É claro, haver sofrimento torna tudo muito pior. Mas, muitas vezes, dá-se a entender que, se não houvesse sofrimento, os assassinatos estariam justificados. Mas, obviamente, ninguém aceitaria tal desculpa se as vítimas fossem seres humanos (imagine por exemplo, alguém dizendo “eu sou bondoso, compassivo e amoroso, porque quando assassinei aquele ser humano para comer sua carne, eu apenas assassinei, mas não torturei antes”). A morte é um prejuízo porque elimina a possibilidade de se desfrutar de experiências positivas, e esse prejuízo é possível para todo ser senciente que possui possibilidade de desfrutar de experiências positivas, e não apenas para humanos. Assim sendo, as razões que explicam o que há de errado, nos casos em que é errado, matar seres humanos, explicam igualmente o que há de errado em matar seres sencientes de outras espécies, nas mesmas circunstâncias.

Feita essa ressalva, acho que esses documentários no geral mais ajudam porque trazem à tona essa questão (além de serem bons em termos de descrição sobre o que acontece com os animais) o que muitas vezes faz as pessoas irem atrás de mais informações, melhores argumentos.

Mas, como disse, imagino que as críticas geralmente venham de uma razão inválida. Imagino que a crítica geralmente venha do fato de se estar a mostrar o que acontece com os animais, e, já que o que acontece são coisas altamente monstruosas, as pessoas fiquem chocadas ao ver essas cenas. Bom, se esta é a crítica, eu fico me perguntando por que é que essas pessoas estão contra quem está a mostrar a injustiça e a reivindicar que se pare de cometer a injustiça, e não contra a injustiça mesma. Obviamente que as pessoas tem a obrigação de ver essas cenas. Antes de tudo, é importante lembrar: são elas que estão a causar essas cenas. Acredito que as pessoas estejam a dar uma desculpa para não pensar no assunto. Se alguém for realmente sensível ao ver essas imagens, só por saber que tal coisa acontece a pessoa já se tornaria ativista, e jamais reclamaria de alguém mostrar essas imagens com vistas a convencer mais pessoas a pararem de cometer tais injustiças. Por outro lado, se a pessoa se sente chocada ao ver tais imagens, mas não se sente chocada em causar as monstruosidades que as imagens mostram, então talvez a pessoa não esteja sendo sincera ao relatar que fica chocada.

Uma objeção que se poderia dizer é que mostrar essas imagens a crianças pode traumatizá-las. Talvez, estrategicamente, não seja lá muito importante mostrar essas imagens às crianças. Isso acontece porque, na maioria das vezes, por incrível que pareça, crianças (pelo menos até certa idade) são geralmente muito melhores em termos racionais, em termos de avaliar argumentos, do que adultos. Isso acontece porque crianças por vezes gostam de perguntar sobre o porquê das coisas. Querem justificativas. Querem razões que mostrem por que é assim e não de outro modo. E mais: elas querem razões que realmente justifiquem a conclusão em questão, e não “desculpas esfarrapadas”. Provavelmente não vão se contentar com respostas como “isso é uma tradição” ou “isso é natural” ou “isso acontece desde sempre” ou “tudo é muito relativo”. Vão perguntar “por que tem-se que respeitar algo só por ser tradicional, natural ou por acontecer desde sempre?”; “por que você diz que é tudo muito relativo?”, etc. Da experiência que tenho com crianças pequenas, só por saberem que um ser senciente foi morto para produzir o alimento delas, a grande maioria já se posicionaria contrária a essa prática. Penso que estimular esse senso crítico, com as crianças (e, não apenas com elas), seja mais importante (e, melhor em termos de eficácia para ajudar os animais) do que mostrar vídeos. Mas, infelizmente, já na adolescência, muitos perderam a curiosidade de perguntar o porquê das coisas, pedir por justificativas, e passam a reproduzir qualquer preconceito vigente. Talvez, no caso dessas pessoas, mostrar os vídeos sirva para lembrá-las da monstruosidade que estão a causar.

Mas, supondo que não fosse assim. Supondo que tivéssemos que mostrar esses vídeos para essas crianças e que isso fosse deixá-las chocadas. Acredito que, ainda assim, haveria justificativa para mostrar tais vídeos, se fazer isso fosse a única maneira de evitar a morte e o sofrimento de muitos animais (por exemplo, se ficar chocado com as imagens fosse fazer esse alguém ser vegano e ativista). Isso é assim por uma simples questão de justiça: se temos de escolher entre duas opções de decisão prática, sendo que as duas causam dano, devemos escolher a que causa menor dano. “Menor dano” pode ser entendido tanto como uma função do dano sobre cada indivíduo, quanto do número de indivíduos que serão danados. E, obviamente, o dano de se nascer e viver uma vida inteira em uma granja industrial, é infinitamente maior do que ver um documentário e ficar chocado. Se alguém duvida, basta perguntar o que escolheria agora: ver um documentário e ficar chocado, ou ficar no lugar dos animas na granja industrial. E, se contarmos também o número de indivíduos, o número de animais danados com o fato de alguém consumir produtos de origem animal é infinitamente maior do que o número de pessoas que ficariam chocadas vendo os vídeos. Isso é assim porque cada pessoa mata muitos animais durante a sua vida, devido ao que consome. Assim sendo, se alguém escolher causar o dano maior ao invés do dano menor, só porque as vítimas em um caso são de uma espécie e em outro caso são de outras, está sendo altamente injusto, já que a razão óbvia para não se causar dano é o fato de o dano ter valor negativo, e isso é totalmente independente da espécie da vítima.

Mas, felizmente, há inúmeras maneiras de se divulgar os argumentos a favor do respeito pelos animais não humanos. Penso que os ativistas deveriam procurar investigar o que é melhor em termos de custo/eficácia. Ainda há pouca pesquisa nessa área, mas, já há alguns estudos sobre que tipo de abordagem é mais eficaz em termos de mudar as atitudes práticas a longo prazo com relação aos animais. Não conheço a fundo essas pesquisas, mas, me parece que estudos recentes estão a indicar que uma combinação dos argumentos anti-especistas (e não argumentos indiretos como o do impacto ambiental, saúde, ineficácia dos experimentos, etc.) com imagens mostrando o sofrimento é mais eficaz tanto a curto prazo para fazer as pessoas pararem de consumir animais quanto a longo prazo, para continuarem sem consumir e defendendo o fim do especismo. Um exemplo seria esse estudo:http://www.vegfund.org/blog/wp-content/uploads/VegFund-Video-Survey-Results-Final-Report-October-2012.pdf

LIGA: Que implicações para causa animal podem vir da falta de fundamentação teórica dos ativistas?

LUCIANO CUNHA: Acredito que há várias implicações negativas. Citarei apenas as implicações que acho que são as mais constantes. Penso também que essas implicações não se devem apenas a uma falta de fundamentação teórica, mas devido a uma dificuldade (que também pode vir de falta de fundamentação teórica) de levar em conta o ponto de vista da vítima em uma situação. Parece que existe uma tendência, infelizmente, de as pessoas se identificarem com o agressor, e não com a vítima. Mesmo ativistas da causa animal constantemente, dependendo das circunstâncias, parecem não se importarem nem um pouco com o sofrimento e morte dos animais. Vamos então às implicações negativas:

(1) Ativismo especista

Acredito que um dos grandes problemas do movimento de defesa animal no momento é a reprodução, mesmo que inconsciente, de uma mentalidade especista, nas campanhas. Na grande maioria das vezes, pelo menos no que eu tenho conhecimento sobre panfletos e campanhas, a mensagem passada nunca é de respeito direto pelo animal (muito menos de respeito igualitário). É quase sempre: “seja vegano porque é bom para sua saúde”, “seja vegano porque é bom para o meio ambiente”, “seja contra a experimentação animal porque é um método que pode colocar a sua saúde em risco”, “esse experimento é errado porque não é necessário”, “não torture animais porque isso será um aprendizado para torturar humanos”, “por que não pega a faca e mata o animal você mesmo?”, “não coma animais porque não é natural”, etc.

Mas, essas mesmas pessoas, se tivessem que explicar o erro com o holocausto nazista, não diriam: “seja contra o holocausto porque é bom para a sua saúde”, “seja contra o holocausto porque a fumaça do incinerador prejudica o meio ambiente”, “seja contra os experimentos nazistas porque isso pode colocar sua saúde em risco”, “é errado fazer esse experimento em seres humanos porque já existem alternativas a esse experimento”, “torturar judeus é errado porque é um aprendizado para torturar arianos”, “quer matar um judeu? Pegue a metralhadora e mate”, “é errado matar outros humanos porque isso não é o natural da nossa espécie”. Claro que não. Isso seria absurdo. Quando as vítimas são os seres humanos, quase todo mundo reconhece que o erro fundamental com a discriminação está no fato de ela ser injusta para com as vítimas, e isso não tem nada a ver com o fato de ela ser ou não natural e beneficiar ou não o explorador, se é ou não necessária, ou se o explorador tem ou não coragem para matar a vítima com as próprias mãos, etc..

Nenhuma campanha contra o estupro diz que a razão para não estuprar é o perigo do estuprador pegar uma doença sexualmente transmissível. Nenhuma campanha anti-racismo diz que a razão para se respeitar os negros é que isso é melhor para os brancos. Imagine que absurdo seria uma campanha contra a discriminação de gênero dizer que a razão para se respeitar as mulheres é que isso seria vantajoso para os homens (e, imagine ainda o quão absurdo seria alguém esperar que uma campanha assim faria as pessoas mudarem a consideração que têm pelas mulheres).

Mas, quando as vítimas são os animais não humanos, quase todo mundo, incluindo muitos dos ativistas, parece acreditar que o sofrimento e morte dos animais não é suficiente para as práticas especistas serem injustas. Isso é perceptível na abundância do uso de argumentos indiretos. O que isso mostra? Em alguns casos, mostra que, embora as práticas dos ativistas veganos e dos consumidores de produtos de origem animal seja diferente, a mentalidade dos ativistas, infelizmente, parece ser tão especista quanto a mentalidade daqueles com quem eles visam dialogar. Isso é assim porque se essas pessoas consideram relevante para se adotar o veganismo outras considerações (se é ou não natural, se causa ou não impacto ambiental, etc.) que não simplesmente o enorme prejuízo para as vítimas, é porque não consideram esse sofrimento e morte como suficiente para a prática ser injusta, e pensam assim porque as vítimas não pertencem à espécie humana

(2) A estratégia dos deveres indiretos

Em outros casos, os ativistas reconhecem que a discriminação da qual os animais não humanos padecem é suficiente para tornar tais práticas injustas. Isto é, reconhecem que, independentemente do impacto ambiental da produção de animais, de se comer animais é ou não natural, de se a experimentação animal é ou não eficaz, a prática de discriminar contra membros de outras espécies é injusta, e deveria ser abolida. Contudo, na prática, adotam as mesmas estratégias de quem mantém que essas outras considerações indiretas são relevantes para se saber se a exploração animal deveria ser ou não abolida. E, o motivo para adotarem tal estratégia é que acreditam que, difundindo argumentos indiretos, seria mais fácil e rápido conduzir as pessoas a adotarem práticas que, por tabela, beneficiariam os animais. Por exemplo, eles pensam: “as pessoas não vão ligar para o sofrimento dos animais, mas ligam para o impacto ambiental, então, vamos mostrar que comer carne causa impacto ambiental negativo”.

A adoção desse tipo de estratégia mostra que os ativistas estão a querer mudar a prática das pessoas sem mudar os princípios morais (ou seja, os princípios que guiam a prática) que elas adotam. Isto é, mostra que os ativistas querem mudar o que as pessoas fazem aos animais, sem mudar o que as pessoas pensam dos animais. Acho muito misterioso como uma estratégia assim poderia ter sucesso, já que nossas atitudes são resultado do que pensamos. Inconscientemente, tais ativistas estão reforçando a visão especista de que só existem deveres indiretos com relação aos animais não humanos.

Os ativistas que usam desse discurso geralmente argumentam que o fazem por estarem preocupados em convencer as pessoas a respeitarem os animais na prática, independentemente do que elas pensem sobre os animais. Afirmam algo como “para o animal que não vai ser morto, não importa por qual razão você não o mate”. Segundo entendo, há pelo menos dois erros ao se pensar que essa é uma maneira eficaz de melhorar a situação dos animais.

O primeiro erro se dá por não levar em conta que princípios morais orientam todas as decisões práticas, e não apenas uma. Então, imagine que alguém acredita que o seguinte princípio é correto “só devemos respeitar animais não humanos se não fazê-lo for prejudicial ao meio ambiente”. Obviamente, vai haver algumas situações onde seguir tal princípio implica em respeitar os animais não humanos. Mas, haverá toda uma série de outras situações (a maioria, suponho), onde não acontece essa coincidência. Compare com alguém que segue o princípio “níveis iguais de dano merecem consideração igual, independentemente da espécie da vítima”. Obviamente que seguir esse último princípio tem maiores condições de fazer com que alguém melhore a situação dos animais em cada decisão.

O segundo erro se dá por supor que nossos deveres perante os animais não humanos se resumiriam a não utilizá-los como recursos. No movimento de defesa animal, prevalece a ideia de que “desde que a pessoa torne-se vegana, não importa o motivo, está igualmente bom”. Mas, a rejeição do especismo implica em reconhecer outros deveres diante de animais não humanos em situações nas quais eles não estão sendo usados como recursos (e, muitas vezes, infelizmente, por incrível que pareça, essas situações são até mesmo mais prejudiciais a eles do que situações de uso, e poderíamos fazer muito para tornar essas situações menos piores). Comento essas outras situações logo adiante, no item 5. Então, mesmo que o uso de argumentos diretos ou indiretos tivesse a mesma probabilidade de as pessoas se tornarem veganas e permanecerem veganas (o que já é ser bastante generoso com os argumentos indiretos), ainda assim há uma dimensão que os argumentos anti-especistas atingem, que nenhum dos argumentos indiretos discute (veremos um pouco sobre isso nos itens 3, 4 e 5).

(3) O especismo continua sem ser atacado

Poderia ser alegado que adota-se a estratégia dos deveres indiretos porque “as pessoas não ligam para o sofrimento animal mesmo, e não há como mudar isso”. Essa crença parece realmente vir da negligência quanto ao debate acadêmico em torno da ética animal. Realmente, é verdade que a maioria das pessoas não se importa com o sofrimento e a morte dos animais não humanos. Mas, isso acontece porque essas pessoas mantém determinadas crenças que as levam a acreditar que há relevância moral entre humanos e não humanos. Isto é: elas pensam assim por algum motivo. Por algum motivo, elas pensam que os humanos merecem uma consideração que os não humanos não merecem. E, é possível avaliar os argumentos que dão sustentação a essas crenças, discuti-los e refutá-los. Me parece que, por trás do jargão “as pessoas não ligam para o sofrimento animal mesmo, e não há como mudar isso”, está a crença de que juízos éticos não são passíveis de avaliação racional. Mas, qualquer pessoa que conhece um pouco do que vêm sendo discutido nas últimas quatro décadas em ética prática tem uma impressão contrária. Há centenas de livros e artigos discutindo as mais variadas questões éticas. Além disso, esse debate não é meramente teórico: muito do ativismo de defesa animal surgiu, em parte, devido às discussões da filosofia. Isso parece mostrar que a avaliação sobre a plausibilidade dos princípios morais que as pessoas mantém consegue fazer com que elas rejeitem alguns princípios implausíveis e adotem outros, modificando sua prática de acordo com isso.

Assim, um dos maiores problemas com essa estratégia dos deveres indiretos é exatamente o que ela não faz. Ela não discute o especismo, não apresenta as razões para rejeitar o especismo, não apresenta as razões do porquê é injusto discriminar com base na espécie, não apresenta as razões para a existência do dever de dar igual consideração aos animais não humanos. E, não devemos esquecer, a situação na qual se encontram hoje os animais não humanos deve-se ao especismo. Não há outra maneira de mudar essa situação: tem-se que atacar a raiz do problema. Isso nunca será feito se continuarmos com essas estratégias de deveres indiretos. Tais estratégias acabam por reforçar o especismo: as pessoas já mantém que o sofrimento/morte dos animais não é suficiente para se abolir sua exploração; quando vêem ativistas veganos defendendo também que isso não é suficiente para se abolir tais práticas (e isso acontece quando discutem se o veganismo é ou não natural, se tem ou não impacto sobre o meio ambiente, se a experimentação animal é ou não eficaz, etc.), isso provavelmente as faz pensar: “obviamente que o sofrimento/morte dos animais não conta; até os ativistas acham que isso não é suficiente para abolir o seu uso”. Agora, imagine se o especismo tivesse começado a ser questionado amplamente já desde antiguidade, e não apenas a partir da década de 1970. Imagine se os reformistas do século XIX tivessem já naquela época defendido abolição do uso de animais, e não meramente a regulamentação. As coisas seriam muito diferentes hoje. Isso é óbvio: o quanto antes uma ideia começa a ser difundida, mais cedo ela atingirá um maior número de pessoas. Isso só mostra a urgência de se questionar o especismo e abandonar, de uma vez por todas, o uso de argumentos de deveres indiretos, que reforçam o especismo.

(4) A veneração pelo que é natural

Não apenas no movimento de defesa animal, mas, em várias questões éticas, muitas pessoas pensam que é relevante, com vistas a saber se uma prática é ou não justificada, saber se ela é natural ou não. Muitas vezes, também aplicam o mesmo raciocínio na hora de avaliar se uma situação é boa ou ruim: se uma situação que causa, por exemplo, sofrimento e morte, é fruto de ações humanas, a consideram negativa; mas, exatamente a mesma situação, se tem origem em processos naturais, muitas pessoas a consideram como neutra ou positiva. Mas, todas as propriedades que poderiam ser endereçadas para se explicar o valor negativo do sofrimento/morte quando causados pelos humanos estão todas presentes quando estes acontecimentos são causados naturalmente.

Penso que talvez esta crença, muito mais do que as outras, deva-se a uma negligência do que se tem discutido em filosofia nos últimos séculos. Pelo menos desde 1874, com a publicação de On Nature, de John Stuart Mill, é amplamente aceito na filosofia que o fato de uma prática ser ou não natural é totalmente irrelevante para saber se ela possui ou não boas razões para ser feita (isto é, o que é natural é moralmente irrelevante), assim como o fato de se a origem de uma situação é natural ou causada deliberadamente é totalmente irrelevante para se saber se ela é positiva ou negativa (isto é, o que é natural é valorativamente irrelevante). Isso é assim porque o termo “natural”, no sentido em que é usado quando se faz um apelo ao que é natural como modelo de moralidade ou de valor, é apenas uma maneira de se referir a algo que não é resultado de deliberação racional. Mas, se é assim, por que isso deveria ser um modelo de ação ou um modelo do que é bom ou ruim? Faria mais sentido se fosse o contrário: “vamos nos inspirar nos comportamentos que são resultado de uma deliberação cuidadosa e não arbitrária, e não, comportamentos naturais (isto é, não deliberados)”. O apelo ao que é natural seria inofensivo se na natureza só acontecem coisas boas. Mas, se dá o contrário. A natureza produz estados de desgraça em graus muito mais altos do que costumamos imaginar (falaremos disso no item 5).

Uma objeção conhecida ao veganismo envolve apontar que, se temos dentes caninos, então que somos naturalmente carnívoros e que, por isso, comer animais está justificado. Responder a essa objeção seria uma ótima oportunidade de mostrar o erro com o pensamento de que o que é natural é moralmente relevante. Mas, o que normalmente fazem os ativistas? Ficam a discutir se conseguimos ou não realmente cortar a carne com nossos dentes. Isto é: dão a entender que saber o que é natural é sim, relevante para saber se uma prática é justa ou injusta (talvez eles até acreditem realmente nisso). Dão a entender, ainda que sem perceber, que, sim, se conseguíssemos cortar carne com os dentes, estaria justificado a matar os animais. Com isso, perdem uma grande oportunidade de questionar a veneração pelo que é natural que, como veremos no item a seguir, é uma das maiores fontes de desvalor  no universo.

(5) Visão idílica da natureza e negligência do sofrimento/morte dos animais na natureza

Por fim, o que penso que seja o principal erro do movimento de defesa animal atualmente, e o que tem as piores conseqüências possíveis para os animais:

Talvez motivados pela veneração pelo que é natural, a maioria dos ativistas acredite que o respeito pelos animais implica em respeito pelos processos naturais. “A exploração sobre os animais”, pensam, “é injusta e deveria ser abolida, mas, quanto aos animais na natureza, deveríamos deixá-los a sós, isto é, não intervir em sua situação, seja para atrapalhar, seja para ajudar”.

Acredito que há dois motivos principais pelos quais os ativistas pensam dessa maneira. O primeiro, é a veneração pelo que é natural. Muitas pessoas até sabem que na natureza as desgraças são maximizadas, mas, devido à veneração pelo que é natural, concluem que esse estado de coisas é bom porque é natural. Como vimos no item 4, essa visão é implausível. O segundo motivo, é que muitos mantêm o que vêm sendo chamado de visão idílica da natureza: acreditam que os animais que vivem na natureza, se os humanos não os prejudicarem com suas práticas, têm chances de ter uma vida acima do ponto onde esta vale a pena ser vivida. Reconhecem que existem coisas que causam morte e sofrimento extremo na natureza, como a predação, morte por inanição e parasitismo. Mas, acreditam que esses são episódios pontuais: acreditam que, no geral, viver na natureza, livre de intervenção humana, é viver uma vida acima das condições mínimas nas quais ela vale a pena ser vivida.

Infelizmente, a visão idílica da natureza é completamente falsa. Na verdade, infelizmente, se dá o oposto: na natureza, devido aos próprios processos naturais, os episódios onde os animais desfrutam de algum instante que não seja sofrimento extremo é que são extremamente raros. Como mencionado anteriormente, na natureza há predação, parasitismo, inanição, desastres, incêndios, congelamento, em abundância. Tudo isso é causado naturalmente; não é resultado de práticas humanas. Mas, o que realmente faz com que a vida na natureza, devido aos processos naturais, seja, literalmente, um inferno, é a predominância da estratégia reprodutiva conhecida como seleção-r. Essa estratégia maximiza o número de animais que nasce apenas para morrer de inanição e nada mais: tais animais nascem e vivem muito pouco, e experimentam unicamente sofrimento extremo desde o momento do nascimento até o momento da morte, lenta e dolorosa.

Basicamente, existem duas estratégias reprodutivas principais ocorrendo na natureza. Uma delas é a seleção-K, onde a espécie perdura ao longo de gerações (isto é, não se extingue) por ter muito poucos filhotes por vez (imagine animais de porte grande, como humanos, ungulados, elefantes, que tem geralmente um filhote por vez), o que permite o cuidado parental, aumentando as chances de o filhote sobreviver até à maturidade sexual e dar origem à próxima geração. Quando pensamos em animais na natureza, tendemos a pensar em animais de porte grande (isto é, animais de seleção-K), e adultos. É por isso que, erroneamente, as pessoas mantém a visão idílica da natureza: estão a pensar em animais que são a imensa minoria. Além disso, mesmo animais que adotam a seleção-K não necessariamente estão a ter uma vida minimamente ok: basta lembrar que a zebra que está a ser comida viva por predadores é um desses poucos “sortudos”. Além disso, tais animais padecem de doenças, deformidades, parasitismo, etc. Se, no caso dos animais domesticados como cães e gatos, onde existem protetores dando assistência e realizando esterilizações, tais animais já são constantemente vítimas de inanição ou parasitismo, imagine uma situação onde haja tudo isso, mas que não haja ninguém a prestar ajuda. Essa situação é a vida na natureza, mesmo para os “sortudos”.

 Agora, o que realmente maximiza o sofrimento e a morte na natureza é a seleção-r. Diferentemente da seleção-K, as espécies que adotam a seleção-r mantém-se ao longo das gerações não por prestarem cuidados aos filhotes, mas, por maximizarem o número de filhotes. Alguns animais tem centenas, milhares e até mesmo milhões de filhotes a cada gestação. Pensemos, por exemplo, no potencial reprodutivo de ratos, tartarugas, répteis, peixes. Etc. Mas, se tais animais têm tantos filhotes assim, por que não há uma superpopulação de tais animais? A resposta é simples: a grande maioria morre antes de chegar à maturidade sexual (principalmente de inanição, haja vista que a comida que há na natureza é extremamente escassa, muito menor do que seria necessário para nutrir os filhotes gerados pelas espécies que “adotam” a seleção-r). Em períodos de tempo onde a população de uma espécie permanece constante em determinado ecossistema, isso é sinal de que apenas um filhote de cada adulto (isto é, dois por casal) está a sobreviver. O restante nasce apenas para morrer de inanição.

Para se ter uma idéia da dimensão da desgraça, considere o exemplo dado pelo filósofo Oscar Horta, no artigo Debunking the Iddyllic View of Nature (pp. 81-82), disponível em: http://masalladelaespecie.files.wordpress.com/2012/05/debunkingidyllicviewhorta.pdf. Peguemos por exemplo apenas uma espécie, o bacalhau (gadus morhua) apenas em um local (golfo do Maine). São animais que desenvolvem senciência. “Adotam” a estratégia reprodutiva da seleção-r: colocam entre alguns milhares até vários milhões de ovos. Vamos supor, para efeito de argumentação, 2 milhões de ovos para cada bacalhau adulto. Em 2007, havia 33.700 toneladas de bacalhau atlântico, somente no Golfo do Maine. Um bacalhau adulto pesa entre 25 e 35 Kg. Vamos supor que pesem em média 33,7Kg (o peso assumido é alto porque se está a assumir que são todos adultos). Então, em 2007 deveria haver em torno de 1 milhão de bacalhaus no golfo do Maine.

Suponha que a população de bacalhaus permaneça estável por determinado tempo. Em média, apenas dois ovos de cada fêmea chega a se tornar adulto (porque a população se torna estável, então, isso significa que apenas sobrevive um filhote por descendente, isto é, dois por casal). 2 milhões x 1 milhão = 2 trilhões (2^12). Ou seja, em torno de 2 trilhões de ovos postos não chegaram a gerar bacalhaus adultos. Vamos conceder, para efeito de argumentação, que cada ovo tem uma probabilidade de apenas 10% de se tornar um filhote de bacalhau. Isto é, vamos supor que 90% dos ovos sejam destruídos antes de formarem seres sencientes. Ainda assim, 200 bilhões de seres sencientes nasceriam (2^11) apenas para morrer de inanição (isso apenas em uma espécie, apenas em um local!). Vamos assumir também (para efeito de argumentação) que os bacalhaus que chegam a nascer também tem apenas 10% de probabilidade de serem sencientes (o que é realmente fazer uma estimativa bastante conservadora). Ainda assim, seriam 20 bilhões de seres sencientes (2^10) que nasceriam apenas para morrer de inanição (apenas de uma espécie, apenas em um local!).

Todos que reconhecem que os animais são também prejudicados se morrerem (devido à morte impedir experiências positivas), tem uma razão a mais, além do sofrimento, para considerar esse estado de coisas uma desgraça gigantesca, já que há uma maximização não apenas de sofrimento, mas também de mortes prematuras. Mas, supondo que fôssemos levar em conta apenas o sofrimento. Vamos assumir também (para feito de argumentação) que os bacalhaus do exemplo anterior sofram por apenas 10 segundos até morrer (o que, novamente, é uma estimativa bastante conservadora). Ainda assim, seriam 200 bilhões de segundos de sofrimento experimentado. Em um ano há 31.536.000 segundos. 200 bilhões de segundos de sofrimento significa 6.341 anos de sofrimento. Suponha que decidamos não intervir nessa situação. Em apenas 6 décadas, teremos o equivalente a 380.517 anos de sofrimento extremo. Essas suposições são todas bastante conservadoras. O resultado real é, infelizmente, provavelmente, muito pior. Ecossistemas naturais são como uma gigantesca “granja industrial” natural.

Para se ter uma idéia do tamanho do problema, considere o seguinte. O número de animais utilizados para consumo faz quase desaparecer o número de animais utilizados em outras áreas. Contudo, o número de animais a padecerem de sofrimento extremo e morte prematura na natureza, devido aos processos naturais, é tão gigantesco que faz o número de animais utilizados como recursos, somando-se todas as áreas (incluindo o consumo), desaparecer. Se fossem humanos passando por 0,0001% do que os animais não humanos passam na natureza, com certeza essa situação seria vista como a prioritária frente a todas as outras. A maioria das pessoas não se importa com tal situação (infelizmente, incluindo a maioria dos ativistas da causa animal) porque não humanos são as vítimas.

Mencionei que alguns ativistas não pensam que a situação dos animais na natureza seja um problema porque eles mantêm a visão idílica na natureza: pensam, erroneamente, que os animais que vivem na natureza estão minimamente bem. Contudo, é muito comum também acontecer de, quando é mostrado que a visão idílica da natureza é falsa, prontamente as pessoas reconhecerem que tal visão é falsa, mas, ainda assim, manterem que esse sofrimento e morte não importa moralmente. Muito disso pode ser explicado pela veneração pelo que é natural. Defendem que tais danos favorecem a um equilíbrio natural, e que são causados por processos naturais, e que isso geraria em nós o dever de não minimizarmos tais danos. Contudo, essa perspectiva de veneração pelo que é natural, além de ter todos os problemas que pode ter uma teoria que enxerga valor no que é natural, é combinada com especismo. Quando somos nós as vítimas dos processos naturais (câncer, deformidades, vírus, predação, inanição, parasitismo, etc.) não consideramos que é algo absurdo nos defendermos de tais coisas; e muito menos evocamos uma preocupação com o equilíbrio natural.

Por vezes, para evitar se preocupar com tais danos, os ativistas alegam que não somos responsáveis por quem não temos uma relação direta; ou que não somos responsáveis por nossas omissões; ou que os animais domesticados necessitam de nós em maior grau; ou que não temos responsabilidade por problemas que são difíceis, etc. Todas essas pressuposições são altamente questionáveis, e o que se tem produzido na filosofia nas últimas décadas deveria guiar a discussão nesse tópico também. Mas, note que, mesmo que estivessem corretos esses pressupostos dos quais os ativistas muitas vezes partem para manter que é errado ajudar os animais na natureza, vítimas de processos naturais, eles ainda assim não poderiam fundamentar que é errado intervir para ajudar os animais. No máximo, negariam que existe tal obrigação. Mesmo se fosse esse o caso (o que já é altamente questionável), ainda assim seria permissível ajudar os animais na natureza.

A falta de acompanhar a discussão acadêmica que se tem feito na ética animal ao longo das décadas é esta: os ativistas estão, muitas vezes, a reproduzir preconceitos que já estão a ser, desde muito tempo, questionados no meio acadêmico (incluindo o especismo).

LIGA: Gostaríamos de terminar a entrevista pedindo que o sr. indicasse obras e artigos que são de fundamental importância para quem quer se tornar um educador vegano.

LUCIANO CUNHA:

1) Artigos e vídeos introdutórios ao tema, com a argumentação básica em ética animal

Artigo: “Levando a sério a consideração moral dos animais: para além do especismo e do ecologismo” (Oscar  Horta). http://seer.uniritter.edu.br/index.php/educacaoecidadania/article/view/537/459

“Por que temos o dever de dar igual consideração aos animais não-humanos e as implicações práticas desse dever” (Luciano Carlos Cunha). http://seer.uniritter.edu.br/index.php/educacaoecidadania/article/view/535/319

Palestra em vídeo: “Por que (e como) defender aos animais” por Oscar Horta. https://www.youtube.com/watch?v=Tkqbh4hCyos

Site da Animal Ethics: vários artigos curtos introdutórios com a argumentação básica em ética animal (em inglês): www.animal-ethics.org

2) Texto clássico refutando a idéia de que o que é natural deve ter alguma relevância para se determinar o que é justo/injusto, bom/ruim (agora traduzido para o português):

“Sobre a Natureza” (J. S. Mill): https://masalladelaespecie.files.wordpress.com/2014/06/sobre-a-natureza-mill.pdf

3) Sobre a oposição entre o movimento anti-especista e o movimento ambientalista, que freqüentemente são confundidos pelos ativistas da causa animal, o que conduz a conseqüências desastrosas para os animais:

Artigo “Sobre o bem de tudo e de todos: a conjunção impossível entre ambientalismo e libertação animal” (Cátia Faria). http://dspace.usc.es/bitstream/10347/7392/1/29-43.pdf

Artigo “Muerte entre las flores: el conflicto entre el ecologismo y la defensa de los animales no humanos” (Cátia Faria). http://www.academia.edu/4657939/Muerte_entre_las_flores_el_conflicto_entre_el_ecologismo_y_la_defensa_de_los_animales_no_humanos

4) Sofrimento dos animais na natureza:

Palestra em vídeo: “Reduzindo o sofrimento dos animais na natureza”. (Adriano Mannino e Ruairí Donnelly) (legendada em português): http://dotsub.com/view/0c569f74-b3d7-4b8b-b466-b46b42bc4803

– Artigo “La cuestión del mal natural: bases evolutivas de la prevalencia del desvalor (Oscar Horta). http://dspace.usc.es/bitstream/10347/7395/1/59-77.pdf

Artigo: “O princípio da beneficência e os animais não-humanos: uma discussão sobre o problema da predação e outros danos naturais” (Luciano Carlos Cunha). http://dspace.usc.es/bitstream/10347/7399/1/101-133.pdf

5) Discussão sobre as estratégias do movimento de defesa animal:

Palestra em vídeo: “About strategies” (Oscar Horta). 

https://www.youtube.com/watch?v=v_vsHlKZPFQ

Palestra em vídeo: “The Abolition of Meat” (David Olivier). 

https://www.youtube.com/watch?v=3kHsTrV3-PY

coelho wikimedia commons

ENTREVISTA: Sergio Greif comenta a importância da proibição em SP do uso de animais em testes para a indústria cosmética

O estado de São Paulo é o primeiro a ter uma lei que proíbe esse tipo de experimentação animal, e há outros projetos na Assembleia Legislativa que tratam do tema, buscando ampliar a proibição do uso de animais em todos os campos de pesquisa, como já acontece em países onde a prática não é mais permitida.

Os ativistas pelos direitos dos animais sabem da importância da promulgação dessa lei no estado de São Paulo, onde estão concentradas as indústrias do país, e esperam que ela possa vir a agilizar o andamento de projetos de lei com o mesmo objetivo que já tramitam no Congresso Nacional, e que tornariam a proibição nacional.

Em entrevista ao Amazônia Brasileira nesta quarta-feira (29), o especialista em métodos alternativos Sergio Greif, também profundo conhecedor da legislação internacional sobre uso de animais em experimentações e que atuou ativamente no caso do Instituto Royal, comenta a importância da lei paulista dentro do contexto nacional e analisa os últimos eventos ocorridos no país em relação ao reconhecimento dos direitos dos animais.

O programa Amazônia Brasileira vai ao ar de segunda a sexta-feira, a partir das 08h na Rádio Nacional da Amazônia, em rede com a Rádio Nacional do Alto Solimões, onde é transmitido ao vivo às 05h. A apresentação é de Beth Begonha.

Fonte: EBC

Maurício Varallo (Foto: arquivo pessoal)

Entrevista: Maurício Varallo faz balanço de 2013 na defesa dos animais

O ativista Maurício Varallo, diretor da ONG Olhar Animal, foi o convidado do programa Visão Social para uma conversa com a jornalista Cris Guimarães sobre os acontecimentos relacionados à defesa dos animais em 2013.
 
No programa, veiculado pela Rádio da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS, trataram do importante episódio ocorrido no Instituto Royal, em São Roque, interior de São Paulo, das ações do Olhar Animal, e também da relevância das redes sociais no crescimento do movimento de proteção aos animais.
 
Para acessar o áudio da entrevista (com cerca de 20 minutos), clique aqui.

 

 

Entrevista de Luciano Carlos Cunha ao blog Camisa de Flanela

 

1– Acredito que a maioria das pessoas que são veganas desconhecem o quãoestá atrelada a relação entre ética, enquanto área da filosofia, e odireito dos animais. Qual sua opinião a respeito disto?

Penso que existem pelo menos dois motivos pelos quais isso acontece. Algumas pessoas pensam que as nossas decisões cujas consequências terão um impacto sobre os animais não-humanos não são questões éticas porque tais pessoas são especistas.

Como explico mais detalhadamente na próxima questão, um especista é aquele que acredita que as preferências, interesses e necessidades de um indivíduo não devem ser considerados moralmente (ou, que devem ser considerados como possuindo menor importância), pelo fato do indivíduo pertencer à espécie biológica que pertence. Da mesma maneira que, por exemplo, o racista pensa que os indivíduos da sua raça valem mais por pertencerem a determinada raça, o especista pensa que os indivíduos pertencentes a sua espécie biológica contam mais por pertencerem à determinada espécie. Racismo, especismo e sexismo, por exemplo, são preconceitos que se baseiam no formato do corpo da vítima. A maioria dos humanos é especista. Raça, gênero e espécie são características moralmente irrelevantes para se determinar como considerar as preferências, interesses e necessidades de alguém, haja vista que, se o que está em jogo são preferências, interesses e necessidades, a única capacidade realmente relevante nesse caso é possuir a preferência, interesse ou necessidade em questão, independentemente da espécie, raça, gênero. Por exemplo, supondo que estamos pensando sobre o que torna um erro assassinar. A razão mais óbvia pela qual o assassinato é um erro é o impedimento do desfrute futuro para a vítima. Reconhecemos prontamente essa razão quando o que está em jogo é o assassinato de seres humanos. Então, estamos logicamente obrigados a reconhecer que é errado assassinar (situações especiais à parte, como a legítima defesa) todos aqueles indivíduos que se enquadram no escopo dessa razão (a saber, todos aqueles cujo assassinato impedirá um desfrute futuro). Se queremos fazer jus a nossa capacidade racional, temos de olhar para quais preferências, interesses e necessidades estão em questão, e não quem possui tais preferências, interesses e necessidades. O especista é aquele que reconhece que, como nós, outros animais possuem determinados interesses que são moralmente significantes, mas responde “E daí? são apenas animais!”. O especismo é errado porque é uma violação da imparcialidade (trata casos relevantemente similares de maneira diferente), o que, por sua vez, é uma ofensa à razão. Outro motivo pelo qual a maioria das pessoas não associa as questões envolvendo animais não-humanos com a ética, e não associa a ética com a filosofia é que não fazem a menor idéia do que seja ética nem do que seja filosofia. Isso é extremamente prejudicial, pois, se a filosofia é um estudo racional, minucioso, cuidadoso e sistemático das questões pertencentes a áreas do pensamento que não podem ser respondidas com o método científico (e a ética é uma dessas áreas), então o resultado de não se saber isso é não fazer uma análise racional, minuciosa, cuidadosa e sistemática das nossas crenças e decisões morais. Aí que está o ponto mais prejudicial, pois, ao mesmo tempo que a maioria das pessoas enxerga a filosofia como uma atividade idiota sem utilidade prática (o que é o primeiro erro, já que, por exemplo, a ética, envolve exatamente o raciocínio sobre as questões práticas), essas pessoas não deixam de ter idéias filosóficas. Todos possuem idéias filosóficas, mesmo aqueles que acham filosofia uma perda de tempo. Todos possuem idéias, por exemplo, sobre o que é a realidade; o que é a mente; sobre se temos livre-arbítrio ou somos determinados; sobre qual o sentido da vida, e, principalmente; sobre o que devemos fazer, sobre como devemos viver (questões éticas) – e é sobre esses temas, dentre outros, que a filosofia se propõe a fazer um exame crítico. Penso também que parte da culpa da visão negativa que as pessoas têm da filosofia é também de alguns filósofos; a saber, daqueles que vêem a filosofia como uma ferramenta para escrever de maneira pouco clara com vistas a apresentar erudição sem realmente discutir os problemas filosóficos a que se propõe discutir. O problema é que, por pensarem (alguns leitores e alguns autores) que filosofia se trata de uma porção de frases de efeito escritas de maneira a ninguém entender, e não um estudo racional, cuidadoso e sistemático sobre essas questões importantes, essas pessoas tendem a não fazer uma análise crítica sobre as visões filosóficas que possuem. O resultado é que terão, provavelmente, as visões filosóficas (incluindo posições morais) mais indefensáveis e implausíveis possíveis. Sustentarão, como sustentam, posições morais que não aguentariam nem meia página de escrutínio crítico. Por exemplo, a crença de que a ética é impossível de ser discutida em bases racionais objetivas (a idéia de que “em ética, é tudo muito relativo/subjetivo”) seria muito menos defendida se as pessoas tivessem o costume de avaliar criticamente cada crença que possuem.

 

2- Poderia explicar como é possível essa análise objetiva das questões práticas da ética?

Há uma exigência que a razão coloca, que é a de tratar casos relevantemente similares de maneira similar. Quando afirmo que a razão coloca tal exigência quero dizer que nenhum ser racional pode inteligivelmente duvidar dessa exigência. Não estou afirmando que, de fato, todos os seres racionais, na prática, adotarão o que tal exigência implica. Quero dizer, deveriam reconhecê-la, do contrário tornariam incompreensível o argumento que usariam para colocar em dúvida tal exigência. Dentro dessa exigência, estão envolvidas, na verdade, duas: relevância e coerência. A coerência diz que, se reconheço que uma determinada razão é relevante em um caso, e reconheço que outro caso cai no escopo da mesma razão, então tenho que tomar decisões similares em ambos os casos. Quando falamos em razões, estamos apelando a algo que é compreensível não apenas para mim ou minha comunidade, mas para qualquer um que pudesse raciocinar bem (que não viole as regras da lógica, por exemplo) sobre tais questões. Se afirmo que um determinado caso não deve ser tratado de maneira similar, embora pareça com outros casos, tenho de apontar o que há de relevantemente diferente nesse caso, que justifica o tratamento diferente. Novamente, a diferença tem de ser relevante não apenas para mim ou minha comunidade, mas deveria fazer sentido para qualquer indivíduo dotado de razão. É isso que chamamos de generalidade das razões. Já a exigência de relevância aponta que é possível cometermos um erro moral ainda que sejamos coerentes. Isso porque, embora estejamos tratando todos os casos que são similares de maneira similar, ainda assim é possível que tenhamos elegido um critério que não é relevante para o caso em questão. Assim, há pelo menos quatro possibilidades para a forma de nossas decisões morais, sendo que apenas uma delas é correta quanto a essa forma: (1) É possível que sejamos coerentes (tratar casos relevantemente similares de maneira similar) baseados num critério irrelevante (tratamos todos os casos de maneira errada); (2) É possível que sejamos incoerentes baseados num critério relevante (tratar um caso de maneira correta e outro não); (3) É possível que sejamos incoerentes baseados num critério irrelevante; (4) É possível que sejamos coerentes baseados num critério relevante (é isso que a ética busca). Assim, supondo que estejamos discutindo qual o mal de assassinar alguém, e alguém afirma que a única razão pela qual é um erro assassinar se dá porque a vítima possui uma linguagem (como o português, por exemplo). Supondo que esse alguém aplica coerentemente esse critério, assassinando todos aqueles que não apresentam nenhuma forma de linguagem, incluindo animais não-humanos e animais humanos (crianças que ainda não aprenderam a falar, por exemplo). A forma adequada de se questionar uma postura desse tipo não é afirmar que é possível que animais não-humanos e os humanos em questão talvez possuam algum tipo de linguagem que não conhecemos. Questionar dessa forma é inadequado porque assume o erro presente no argumento criticado: de que possuir ou não linguagem é relevante para haver erro em assassinar. Assim, embora quem propõe tal critério, no exemplo, esteja agindo coerentemente, o critério mesmo é irrelevante para se determinar o erro em matar. Isso porque conseguimos imaginar razões muito mais básicas para o erro em assassinar, como a perda de desfrute para a vítima, que nada tem a ver com possuir ou não uma linguagem. Assim, embora se esteja agindo de maneira coerente nesses casos, se está errando em todos eles, por estar-se baseado num critério irrelevante (erro do item 1, acima). O mais curioso da adoção de critérios irrelevantes é que a probabilidade de se acertar em algum caso é proporcional à incoerência com que se aplica o critério. Supondo que alguém mantenha o critério da posse da linguagem, mencionado acima, e o aplique de maneira incoerente: embora alguns indivíduos não apresentem posse da linguagem, ele ainda assim não os assassina, por um motivo qualquer. Assim, o número de casos onde as vítimas foram prejudicadas é menor, mas devido à incoerência do agente, em não aplicar o critério irrelevante em alguns dos casos (erro do item 3, acima). Quando um critério é irrelevante, o erro é ainda maior quando o aplicamos de maneira coerente. É claro, deveríamos evitar o critério irrelevante de qualquer maneira, seja na sua aplicação coerente ou incoerente. Citei como o exemplo a posse da linguagem para o erro em assassinar, mas existem muitos outros critérios irrelevantes frequentemente adotados na prática tanto quanto a essa questão ética específica como a outras. Geralmente não percebemos porque não temos o costume de praticar o raciocínio ético e porque pertencemos à espécie que tira vantagem de argumentos ruins como este. Supondo então que esse alguém reconheça o erro e modifique o critério que adota quanto ao erro em assassinar, adotando a perda do desfrute para a vítima como razão mais óbvia que configura tal erro. Supondo que esse alguém passa a respeitar a vida apenas de animais humanos, mas continua consumindo corpos de animais não-humanos que foram assassinados para que ele pudesse consumir. Nesse caso, embora se esteja adotando um critério relevante, o erro se dá por incoerência: se o critério é a perda do desfrute, então temos de agir de maneira similar diante de qualquer caso que envolva perda do desfrute, e não apenas quando as vítimas são da nossa espécie. Aliás, o fato da vítima pertencer a nossa espécie biológica é irrelevante para haver ou não perda de desfrute com o assassinato, haja vista que tal perda acontece em qualquer indivíduo senciente (capaz de ter experiências mentais, como sentir dor e prazer, por exemplo). Assim, embora, nesse caso, adote-se um critério relevante, erra-se em alguns casos devido à incoerência (erro do item 2, acima). Assim, na ética, a meta é adotar um critério que seja relevante e aplicá-lo de maneira coerente (situação 4, mencionada acima). Quando afirmo que a exigência de tratar casos relevantemente similares de maneira similar é uma exigência que nenhum ser racional pode negar, é porque não há como inteligivelmente negá-la. Qualquer dúvida que possamos colocar sobre tal exigência, na verdade, a pressupõe. Assim, quando alguém cita um caso completamente diferente, e pretende com isso negar a própria exigência de coerência, está, na verdade assumindo-a. O que esse alguém está a fazer é mostrar que temos um caso que é relevantemente diferente, que precisa então ser tratado de maneira diferente. Isso só é possível assumindo-se a idéia de que devemos tratar casos relevantemente similares de maneira similar. Da mesma maneira, se alguém, por exemplo, pretende dizer negar a idéia de relevância mesma apontando que algum critério sugerido não é relevante, na verdade está assumir a idéia de relevância. De outra maneira, não seria possível fazer tal crítica. Se digo que a perda do desfrute é relevante para erro em matar e outra pessoa nega isso, não está a negar a relevância mesma; está, ao invés, sugerindo que o critério que adotei possa ser irrelevante (o que só é possível assumindo-se a importância da idéia de relevância). É auto-refutante dizer “a idéia de relevância não é relevante”. Existe toda uma família de críticas que são auto-refutantes porque assumem aquilo que pretendem negar. Vários tipos de relativismo se enquadram nessa categoria. Por exemplo, quando alguém defende o tipo de relativismo que diz “não existem argumentos objetivamente válidos, mas apenas, válidos para mim ou para minha comunidade”, pretende que essa afirmação seja objetivamente válida, e não apenas para ele ou para sua comunidade. Se pretende tal objetividade, a afirmação é auto-refutante (só pode ser verdadeira se for falsa); se não pretende, não precisamos dar ouvidos a ela. Outras formas de relativismo e subjetivismo, como por exemplo, com relação à ética, na prática implicam em posturas morais que só podem ser compreendidas como reivindicações objetivas. Se, por exemplo, um subjetivista afirma que “nenhuma decisão é melhor do que outra” pretende que a afirmação “qualquer posição moral é igualmente correta” seja objetivamente válida. E, se isso é verdadeiro ou não, dependerá das razões que ele oferece para a aceitarmos, o que só pode ser discutido com base nos critérios de relevância e coerência (critérios do próprio raciocínio ético). Se o subjetivista afirma, ao invés, que é igualmente correto caso você discorde de sua afirmação, então pretende que a afirmação “qualquer posição moral é igualmente correta inclusive a que nega essa afirmação” seja verdadeira. O que não é possível escapar é de se fazer uma afirmação que é, ela mesma, objeto de escrutínio crítico. E é isso que as pessoas em geral, querem fazer, para não se responsabilizar. Talvez seja por isso que o subjetivismo e relativismo pareçam tão atraentes a muitas pessoas.

3 – Por favor, explique o que é o Especismo e o que o torna esse preconceito tão invisível.

O especismo é um preconceito contra um indivíduo com base na sua espécie biológica. É um preconceito muito similar ao racismo, só que as vítimas são membros de outras espécies, e não de outras raças. Para entendermos bem o que é especismo, é importante antes entendermos o que é um preconceito. Preconceitos são necessariamente violações da exigência de tratar casos relevantemente similares de maneira similar, mencionada anteriormente. Os preconceitos geralmente se tratam de usar coerentemente um critério que é irrelevante para a questão ética em pauta. Preconceitos são necessariamente violações da imparcialidade. Para entendermos o que é imparcialidade, é preciso novamente olhar para a exigência de tratar casos relevantemente similares de maneira similar. Tal exigência implica que temos de chegar a princípios que são, eles mesmos, gerais – ou seja, que não fazem referência a indivíduos específicos. Por exemplo, se alguém chega em um hospital, e exige que seu caso receba prioridade, sua exigência só é justificável caso a razão que apresente seja geral o bastante para enquadrar qualquer outro caso do mesmo tipo, e não apenas o seu. Se esse alguém afirma, por exemplo, que, dentre todos os indivíduos ali presentes, é o que está numa situação pior, então o critério é “dar prioridade aos que estão na pior situação”. Isso implica que tal pessoa tem que admitir que, caso outro indivíduo, que não ele próprio, esteja numa situação pior, a prioridade deve, então, ser do outro. Compare com essa outra situação, onde a pessoa em questão fala que deve receber prioridade no atendimento apenas porque ele é ele mesmo. Faria todo sentido perguntar: “e daí?”, ou seja, perguntar o que há de relevante para a questão no fato dele ser ele mesmo. Assim, a imparcialidade não é a idéia de que nenhum dos lados da questão está correto, mas, ao invés, é a idéia de que temos de chegar a princípios que sejam gerais, ou seja, que não façam referência a indivíduos específicos. Com o que foi dito acima, podemos ver que a exigência de tratar casos relevantemente similares de maneira similar é forte o bastante para rejeitar o egoísmo, tanto na sua forma individual (a idéia de que eu sou mais importante do que os outros), quanto na sua forma universal (a idéia de que cada um é mais importante do que todos os outros – o que é logicamente inconcebível). Não é apenas o egoísmo que tal exigência é forte o bastante para rejeitar. A espécie biológica, a raça e o gênero de alguém, por exemplo, são fatores igualmente relevantes para se determinar quem deve ou não ter suas necessidades, interesses e preferências considerados. Se o que está em jogo é a consideração de necessidades, e reconhecemos que não considerá-las é algo ruim porque, dentre outras coisas, causa dano a alguém, então é a possibilidade de alguém ser danado o que é relevante, e não qualquer outra coisa. Faz todo sentido perguntar: “o que é que a cor da pele, o formato do órgão genital ou se alguém tem ou não um rabo tem a ver com considerar ou não os interesses desse indivíduo?”; como o filósofo Jeremy Bentham já perguntou, no século XVIII. A imensa maioria dos humanos é especista, mas, além disso, especista ao extremo. Isso porque, a maioria dos humanos não se limita a dar uma leve vantagem a interesses de humanos quando entram em conflito com interesses similares de indivíduos de outras espécies (o que já seria injustificável, por ser especista). Pior, a maioria dos humanos dá maior consideração aos interesses mais banais possíveis de humanos (como o desejo por comer ovos, laticínios e corpos de animais, por exemplo), sabendo que satisfazer esses interesses custará não realizar o interesse em viver e estar livre de sofrimento, de bilhões animais não-humanos; que são interesses amplamente reconhecidos como mais importantes. A prova de que tal atitude é especista, é que, se perguntarmos a alguém (sem fazer referência a indivíduos específicos que serão atingidos pela situação): “qual interesse deve receber prioridade no atendimento, o desejo por uma comida específica ou continuar vivo e livre de sofrimento?”, obviamente que ninguém escolherá a primeira opção; escolhem apenas quando o que está em jogo são as vidas de animais não-humanos. Isso mostra o quão impossível de ser defendido em bases racionais é o especismo; e ironicamente é algo praticado diariamente pela imensa maioria dos membros da espécie que se orgulha de ser capaz de razão.

4 – O dever de abolir o uso de animais depende de uma comparação entre o valor das vidas de animais não-humanos e humanos?

Mesma que alguém defenda a idéia de que as vidas de humanos valem mais, isso não justificaria o consumo de animais. Ainda assim, esse alguém teria de reconhecer o dever de praticar o veganismo, porque o que está em jogo não são as vidas de humanos; é o interesse banal de humanos de um lado, e necessidades e interesses muito básicos e vitais de membros de outras espécies, de outro. Contudo, precisamos olhar mais de perto a idéia de que a vida de seres humanos é mais valiosa. É possível de ser defendida com argumentos plausíveis? Uma olhada nos argumentos mais comuns utilizados para se defender essa idéia aponta exatamente para o lado contrário; ou seja, de que a idéia de que a vida de seres humanos é mais valiosa é uma das coisas mais difíceis de se sustentar racionalmente. Vejamos: um primeiro argumento é dizer que “humanos valem mais simplesmente por serem humanos”. Esse argumento é ruim porque é uma petição de princípio: afirma aqui que pretende provar. Imagine o quanto todo mundo acharia ridículo se alguém dissesse: “amebas valem mais por serem amebas”. Alguém iria querer saber o que há nas amebas que faz alguém achar que suas vidas são mais valiosas. Mas, podemos perguntar o mesmo do argumento acima: o que há nos humanos que tornaria suas vidas mais valiosas? O argumento acima não dá essa resposta, apenas reafirma aquilo que é chamado a provar. Um segundo argumento é apontar para alguma habilidade que supostamente apenas seres humanos possuiriam. As mais apontadas são as capacidades de: utilizar uma linguagem; reconhecer direitos/deveres; ter senso de justiça; firmar contratos; enfim, possuir uma capacidade plena racional. Esse argumento é ruim por dois motivos. O primeiro, é que é falso que todos os seres humanos possuem tais capacidades em maior grau do que membros de outras espécies; para além do fato que de existem milhares de humanos que sequer possuem tais capacidades, em grau algum. Basta nos lembrarmos que os bebês, as crianças muito pequenas, os senis e os portadores de determinados tipos de doenças mentais não apresentam tais capacidades. Não parece correto dizer, por exemplo, “vamos fazer experimentos em bebês”, ou “vamos abater deficientes mentais para comer sua carne”. E percebemos que isso não é correto quando as vítimas são humanos porque sabemos que o critério da posse da razão plena para fundar o erro em assassinar é irrelevante, mesmo se aplicado coerentemente. É irrelevante porque o que está em jogo é o valor da vida, e podemos reconhecer razões muito mais básicas de se fundar o erro em se tirar a vida do que a perda de um ser que é capaz de razão plena. Normalmente, quando alguém morre, pensamos que tal fato possui valor negativo devido à perda do desfrute que a vítima teria ainda no futuro. Quando alguém jovem morre, lamentamos dizendo “ele tinha tanto ainda a desfrutar!”, e não “ele tinha capacidade de firmar contratos!”. Segundo entendo, a perda do desfrute é a razão mais básica possível (ainda que não seja a única) de ser dada para se fundar o erro em assassinar e o dever de salvar a vida de alguém. Mas, veja o que isso implica: então temos de admitir que é errado matar todos aqueles com capacidade de desfrute (todos os seres sencientes), e não apenas os seres humanos.Uma terceira tentativa comum de se defender um valor maior na vida de seres humanos é apelar à idéia de potencialidade. Tal idéia afirma que os bebês, embora não sejam capazes de razão, um dia provavelmente serão; os idosos senis, embora não sejam mais capazes de razão, um dia o foram. Tal argumento é ruim pelos mesmos motivos do anterior. O primeiro é que existem seres humanos que sequer possuem tal potencialidade. Basta lembrar dos portadores de doenças degenerativas mentais permanentes. O segundo, é que essa não parece ser a razão pela qual pensamos que é errado matar seres humanos. Nunca vi alguém dizer (exceto quando se quer tentar justificar o uso de animais): “é errado você matar esse bebê porque um dia ele será um agente racional” ou “é errado você matar esse idoso senil porque um dia ele já foi racional”. Ora, quase todo mundo reconhece que o erro fundamental com o assassinato é a perda do desfrute para a vítima. A posse da razão plena pode configurar uma das razões pelas quais assassinar é um mal, mas obviamente que não é a única razão nem a razão fundamental. Assim, o segundo problema com esse argumento é que ele mantém um critério que é irrelevante.Um quarto tipo de tentativa é o argumento do grupo. Esse argumento diz: “embora reconhecendo que existem milhares de humanos que não têm a posse da razão, que tal tratá-los como se tivessem, já que pertencem a um grupo cujos membros normais a possuem?”. O argumento diz também: “embora reconhecendo que existem muitos animais não-humanos mais racionais do que os humanos em questão; que tal tratá-los como se não o fossem, haja vista que os membros normais de suas espécies não são mais racionais do que os membros normais da espécie humana?”. Enfim, o argumento diz: “não devemos tratar indivíduos como indivíduos, mas como membros de um grupo”. O primeiro problema com esse argumento é que ele abre portas para vários tipos de discriminação. Tal argumento foi utilizado, por exemplo, no século XIX para excluir as mulheres da vida acadêmica. Embora reconhecessem que muitas mulheres haviam tirado notas ótimas nas provas de admissão, afirmavam: “sim, mas a maioria das outras mulheres não conseguiu; então vocês devem ser tratadas iguais à maioria do grupo, embora tenham conseguido”. O segundo problema é que o grupo é divido com base numa característica que é irrelevante para o assunto em questão, com base naquilo que se deseja provar. Por exemplo, o argumento em questão ainda foca na posse da razão plena, e como vimos, tal critério não pode configurar a única razão pela qual é um erro assassinar, nem a razão fundamental. Pior, o argumento em questão divide os grupos com base na espécie, mas; o que é que a espécie tem a ver com o assunto em questão? É como se o argumento fosse desonestamente formulado com vistas a excluir os animais não-humanos da consideração moral, e não com vistas a esclarecer o que há de errado em assassinar. Primeiramente, se afirma: “é correto assassinar animais não-humanos porque eles não apresentam a característica x”, e, quando se aponta que mesmo a característica x, que é irrelevante para o assunto em questão, é possuída por alguns animais não-humanos (e não é possuída por alguns animais humanos), a resposta é “mas, apesar de possuírem a característica x, eles são animais não-humanos; então, é correto matá-los”. Não poderia haver argumento mais desonesto do que esse; é o exemplo paradigmático de especismo. Se quiséssemos honestamente dividir em grupos com base em algo relevante para o assunto em questão, mesmo que fôssemos admitir a posse da razão, a única característica relevante para se dividir os grupos seriam “os que a possuem” e “os que não a possuem”. Note que isso seria exatamente o mesmo que tratar indivíduos como indivíduos, e não como membros de um grupo, já que o grupo seria dividido no que é relevante para a questão. Assim, se queremos dividir honestamente em grupos naquilo que é relevante para a questão, os grupos precisam ser “os capazes de desfrutar a vida” e “os não capazes de desfrutar a vida”. Isso seria o mesmo que tratar indivíduos enquanto indivíduos. 

5 – E, quanto àquela famosa objeção: “mas, e as plantas?”

Tal objeção diz o seguinte: “se é errado matar animais sencientes, então é errado matar plantas; não é errado matar plantas; logo, não é errado matar animais sencientes”. Esse argumento é ruim por diversos motivos. O primeiro, é que não há nada no argumento que funda o erro em assassinar animais sencientes que implique que seja errado matar plantas. Como mencionei antes, a razão principal contra matar animais sencientes se dá por impedi-los de desfrutar sensações. A razão não é que estão biologicamente vivos. Seres humanos sencientes e outros animais sencientes são capazes de desfrutar de sensações, portanto, se enquadram no escopo do argumento. As plantas não desfrutam sensações, portanto, não se enquadram no escopo do argumento. Segundo, imagine que no futuro alguém prove que alguma planta é capaz de sensação. Será que isso implica que, então, é correto matar animais e plantas? Não. Se o que está em questão é o erro em assassinar, e descobrimos que, por algum motivo, a classe de seres que imaginávamos possuírem a característica que torna errado assassinar é maior do que imaginávamos, o que temos de concluir? Que é correto assassinar todos os seres que possuem essa característica, incluindo animais humanos e não-humanos sencientes? Obviamente não. Se o que está em discussão é o erro em assassinar, então, caso plantas fossem sencientes, teria-se de concluir que também é errado matá-las, e não que é correto matar animais. Como um paralelo, basta imaginarmos um exemplo com humanos: hoje em dia, muitos de nós aceitam a idéia de que é errado assassinar seres humanos. Supondo que aceitemos que a razão fundamental que determina esse erro é a perda do desfrute. Se alguém dissesse: “mas, então também seria errado matar outros animais sencientes; logo, não é errado matar humanos”, prontamente viríamos o erro com o argumento. Perceber que a razão que funda o erro em assassinar um tipo de seres se aplica igualmente a outros não mostra que é correto assassinar os primeiros, mas sim, que a classe de seres onde há erro em matar é maior. Defendi acima a conclusão de que é a senciência que funda o erro em matar. Isso exclui as plantas (até onde sabemos) do escopo dessa consideração. Supondo que alguém diga que o critério da senciência (sentir, desfrutar) é um mau critério, e que deveria ser substituído pelo critério da vida biológica (o que incluiria animais sencientes e também plantas). Há uma boa razão para adotarmos o critério da vida biológica? Penso que não, por dois motivos. O primeiro, é que esse critério não explica o que há na vida biológica que torna um mal perdê-la. Comparece com o critério da senciência (sentir, desfrutar). É compreensível dizer que alguém sofreu uma perda ao ser impedido de desfrutar algo, ainda que não tenha consciência dessa perda (porque está morto). Mas, fica enigmático saber o que há de especial na vida biológica em si, mesmo em uma na qual seja impossível a senciência. No que isso seria diferente de destruir uma pedra, ou quebrar uma televisão, haja vista que, em nenhum dos casos, há possibilidade de sensações? O segundo motivo é que é possível imaginarmos experimentos mentais que parecem mostrar que a senciência é relevante para o erro em assassinar. Por exemplo, supondo que você tenha a oportunidade de escolher entre: (a) ou morrer agora ou; (b) ficar vivo biologicamente, mas na completa inconsciência (sem nem mesmo sonhos!) por mais vinte anos e depois morrer instantaneamente (sem possibilidade alguma de recobrar a consciência). Parece que não há, do ponto de vista de quem faz tal escolha, diferença moralmente significativa entre as duas opções. Algum de nós estaria disposto a pagar um seguro de suporte de vida biológica numa situação dessas? Qualquer argumento que diga que é preferível, numa situação dessas, manter a vida biológica, precisa apelar a desejos de parentes, amigos (não do ser não-senciente), seres que são eles mesmos sencientes. Isso mostra que a capacidade de sentir e desfrutar é relevante para se fundar o erro em matar (e não apenas este; é relevante para qualquer outra questão ética). Penso que o argumento das plantas é apenas mais uma tentativa de, a todo custo, se excluir os animais da consideração moral, e não uma preocupação séria com a questão.

6 – No seu entender, qual a razão principal para abolirmos o uso de animais?

Do que foi dito acima, penso que temos boas razões para supor que a razão fundamental que cria o erro em assassinar se encontra também nos animais não-humanos sencientes. Isso implica várias coisas, dentre elas, que não apenas é errado fazer uso dos animais quando interesses triviais dos humanos estão em questão, mas quando interesses semelhantes estão em questão. A imparcialidade requer darmos igual consideração a interesses que são semelhantes, independentemente de quem possua tais interesses. Isso tem implicações mais drásticas do que se pode imaginar. Se reconhecemos que é errado forçar um ser humano a servir de cobaia em experimentos, então temos de reconhecer o mesmo para outros seres sencientes. Isso porque os argumentos endereçados para se tentar provar a superioridade da vida humana falharam, e porque, mesmo que fosse comprovada a superioridade da vida humana (o que, como vimos, parece ser impossível) ainda assim isso não prova que não há erro em matar outros animais. Enfim, isso mostra que não apenas temos uma obrigação moral de aderir ao veganismo, mas de lutar pelo fim da exploração animal em todas as suas áreas (incluindo a experimentação animal). Essa é apenas uma implicação de se rejeitar o especismo; existem muitas outras.O especismo exclui da consideração moral os que apresentam o critério escolhido, só por serem de espécies diferentes, e não excluem aqueles que não apresentam, só por serem da mesma espécie. Além disso, o critério é irrelevante, e é escolhido com vistas a excluir os animais não-humanos. É uma tentativa desonesta de, a todo custo, manter o preconceito que se tem. Por isso, é uma ofensa à razão.O especismo é invisível porque não temos o costume de raciocinar bem. O especismo é indefensável por tratar casos relevantemente similares de maneira diferente (viola a imparcialidade). Tal preconceito fica invisível também porque as pessoas acham que não precisam da razão, nem de estudar argumentação, e não fazem idéia da função dos argumentos na ética (pensam que se tratam de tentativas de manipular os outros). Isso inclui muitos defensores dos animais, que acham que, porque amam os animais, são à prova de erros. Como resultado, não se fala muito do especismo. E, por isso, ele continua invisível e protegido.

7 – Porque se tornou vegano?

Foi por perceber que não há justificativa para atitudes especistas. E consumir animais é um exemplo de atitude especista extrema.

8 – O que acha da castração/esterilização dos animais, como podemos saber que tal prática é melhor para os animais-não humanos, temos esse direito?

Como argumentei acima, para descobrirmos a decisão correta, é preciso imparcialidade. Isso implica, entre outras coisas, levar em conta as consequências sobre todos aqueles atingidos, e não apenas um ou dois que queremos favorecer. Obviamente que, em determinados casos, alguns interesses não contam. Por exemplo, não faz sentido dizer que devemos levar em conta o interesse de um torturador em massacrar sua vítima, pois tal interesse é, ele mesmo, contrário à imparcialidade. Mas, excetuando-se essas situações, a imparcialidade implica em levarmos em conta o impacto sobre todos os atingidos. Temos de ter isso em mente quando analisamos qualquer questão ética, incluindo aí a da esterilização. Primeiramente, temos de perguntar quais os argumentos contra e a favor de se esterilizar. Se perguntarmos por que devemos esterilizar, temos o argumento de que tais animais não conseguem, eles mesmos, controlar sua taxa de reprodução, o que implica em um número alto de nascimentos num ambiente hostil. Sabemos, por exemplo, que os filhotes das ninhadas de cães, por exemplo, normalmente irão ter uma qualidade de vida baixíssima, e logo morrerão, ou de fome, ou de doenças (quando não por alguma atrocidade humana). Se perguntarmos por que não devemos esterilizar, existe normalmente o argumento de que intervir no corpo do outro, contra sua vontade, viola um direito. Penso que somente o primeiro argumento (a favor de esterilizar) está de acordo com a imparcialidade. Somente a posição pró-esterilização leva em conta as consequências sobre todos aqueles que nascerão e serão vítimas da morte por inanição ou doença. A posição contra esterilizar leva em conta somente o impacto sobre aquele que sofrerá a operação de esterilização. Assim, a implicação da imparcialidade entendida na forma de danar o menor número possível de indivíduos, pende a favor de esterilizar.É preciso notar ainda que o dano sofrido por ter-se que passar por uma operação de esterilização (que é feita com anestesia e envolve uma recuperação muito rápida), é pequeno, comparado ao dano que os futuros filhotes provavelmente sofrerão (morrer de inanição, por exemplo). A balança pende para esterilizar mesmo se computarmos o dano da perda do prazer sexual (que nem sempre acontece). Temos de lembrar ainda que as fêmeas nem sempre querem realizar tais atos, e muitas vezes são forçadas. Assim, em termos da quantidade de dano por indivíduo, a balança da imparcialidade também pende para o lado de esterilizar. Se levarmos em conta o nível de danos (sofrimento e morte) agregados, somando-se os danos de todos os indivíduos envolvidos, a balança da imparcialidade também pende para o lado de esterilizar. Assim, seja com relação à preocupação sobre o número de indivíduos danados, sobre o dano por indivíduo, e sobre os danos agregados (somados) de todos os indivíduos envolvidos; a imparcialidade, na situação onde se encontram os animais hoje em dia, pende para esterelizá-los. É possível que um dia essa situação mude, e que talvez hajam casos onde é melhor não esterilizar. Mas, na situação atual, parece ser rara a existência desses casos.Outro ponto importante é que os danos evitados com a esterilizados são danos provenientes do próprio comportamento do indivíduo que será esterilizado. É para evitar danos em outros, que surgirão de suas próprias ações. Obviamente que os animais não têm culpa pelo que fazem, porque não têm controle nem entendimento sobre isso. Contudo, isso é irrelevante. Supondo o seguinte exemplo fictício: alguém nasce com uma doença altamente letal para os outros (mas não para seu portador), mas, felizmente, facilmente curável. Suponha que o portador seja uma criança bem pequena, que não faz idéia que possui a doença. Faz todo sentido dizer que, nesse caso, seria justificável fazer uma operação na criança, para curar a doença, com vistas a proteger os outros indivíduos, mesmo que para isso fosse necessário fazer uma intervenção no corpo dela (o que envolve algum tipo de dano), e mesmo que a criança não tenha a menor culpa por ter nascido assim. Assim, o argumento contra a esterilização, na forma da acusação de violar um direito, parece se apoiar na idéia de que intervir no corpo do outro é sempre errado; o que é falso. Tudo dependerá do tipo de situação. Outro problema com a posição contrária a esterilizar é estar baseada numa distinção que também é irrelevante: entre ação e omissão. Aqueles que são contrários a esterilizar pensam que é maior nossa responsabilidade pelo dano menor proveniente de esterilizar um animal (a perda de sua função reprodutora), por se tratar de uma ação; e pensam que não temos responsabilidade alguma pelos danos infinitamente maiores a um número muito maior de indivíduos (a morte por inanição, doenças, frio, etc.), por se tratar de uma omissão. Para entender por que essa distinção entre ação e omissão é irrelevante, suponha o seguinte exemplo: alguém planeja afogar um bebê numa banheira; contudo, ao se preparar para fazer o afogamento, o assassino percebe que o bebê mesmo está a se afogar sozinho e decide não socorrê-lo. Faz sentido dizer que, nesse caso, o agente não assassinou o bebê, só porque se tratou de uma omissão? Parece que não. Então, esse exemplo parece sugerir que a moralidade de uma decisão depende unicamente das razões que podem ser oferecidas a favor ou contra ela, e não, sobre o tipo de movimento final que o agente terá que desempenhar. 

9 – E quanto à pergunta “por que não vão cuidar de criancinhas?”

Da discussão acima, podemos perceber uma implicação importante. Vimos que existem boas razões para pensarmos que a prioridade deve estar onde houver o maior dano por indivíduo e o maior número de indivíduos danados, além do dano total agregado. Isso dá uma resposta muito diferente ao “por que não vão cuidar de criancinhas?”. A resposta correta não é dizer “toda e qualquer causa é igualmente correta”, mas sim, que a prioridade deve estar nos casos citados acima. E, na situação atual, a prioridade está na situação dos animais não-humanos, porque é onde está o maior número de indivíduos danados, o maior número de danos por indivíduos e o maior dano agregado. Tal posição é imparcial, porque a prioridade está não por serem animais não-humanos (se fossem os humanos no lugar deles, a prioridade seria dos humanos), mas por estarem na pior situação. Apenas a título de ilustração, se tomássemos apenas o critério do número de mortes, e comparássemos a quantidade de humanos mortos (por toda e qualquer causa) com a quantidade de animais não-humanos assassinados (somente através do uso feito por humanos), teríamos o seguinte resultado, convertendo os resultados em um gráfico que simbolizasse 24 horas: as mortes humanas seriam 00:00:00″12 (doze milésimos de segundo), enquanto que os assassinatos de animais não-humanos seriam 23:59:59″88[1]. Então, a pergunta não é “por que não vão se importar com humanos?”, mas sim, que a escolha de prioridade aos problemas humanos, dentro de um quadro como esse, fere a imparcialidade, por estar baseada em especismo (prefere humanos mesmo quando o dano sobre os humanos é infinitamente menor). “Por que não deixam de ser especistas?”.

10 – E quanto a animais silvestres? Nosso dever é “deixá-los ser”?

A discussão sobre a esterilização dos animais domesticados tem outra implicação muito importante, no que diz respeito ao dano sofrido por animais silvestres, pois, todos os argumentos que mostram que devemos esterilizar os domesticados também mostram o mesmo para os silvestres. A maioria das pessoas não percebe ou não aceita essa implicação porque não faz idéia de como é a vida na natureza, que está próxima (ou além) de um verdadeiro inferno. As pessoas não percebem isso porque, em geral, ou possuem uma visão da natureza muito romantizada, ou, quando pensam em natureza, pensam logo nos animais de porte grande, e principalmente nos adultos (os que conseguiram sobreviver até chegar à maturidade sexual). Contudo, a vida na natureza está longe de ser esse paraíso imaginado. Aliás, está mais próximo do contrário; da maximização das desgraças.A vida selvagem, em geral, é marcada por intenso número de mortes e sofrimento. Se o número de animais mortos na pesquisa some frente ao número de animais mortos na alimentação, o número de animais usados em geral some frente ao número de animais mortos e sofrendo no mundo silvestre, devido a causas naturais[2]. Predação, morte por inanição, parasitismo, congelamento, entre outros danos, são a norma na vida selvagem. A vida dos animais silvestres contém em geral, muito mais sofrimento do que prazer[3]. Isso se deve, em grande parte, à alta taxa de mortalidade anterior à maturidade sexual. Para cada indivíduo que não morre de inanição e não é predado, existe um número muito extenso que foi. A morte por inanição é uma forma tipicamente lenta e dolorosa de se morrer, e acontece massivamente no mundo natural. Segundo Yew-Kwang Ng, num período de aproximada constância populacional, em média, de todos os filhotes nascidos de uma mãe em toda a sua vida, apenas uma fêmea consegue sobreviver até a maturidade sexual[4]. A partir do tamanho da ninhada de uma espécie, conclui Ng, podemos ter uma idéia do número de indivíduos que morrem de inanição ou são predados[5]. O tamanho da ninhada não é determinado por considerações sobre o bem-estar dos indivíduos da espécie, mas pela chance de sobrevivência dos genes[6]. Já que escapar da morte por inanição ou predação é algo difícil, algumas espécies conseguem manter-se porque produzem um número muito alto (altíssimo!) de filhotes. Mas, como aponta Ng, se os que não sobrevivem até à maturidade sexual sofrem de bem-estar negativo, como parece ser, então “esse resultado da seleção natural está longe da maximização do bem-estar das espécies, mas não tão longe da maximização das misérias[7]”.

Isso acontece porque existem dois tipos principais de “estratégias” reprodutivas, na natureza. “Estratégia” é aqui usada no sentido metafórico, porque obviamente que isso não é planejado nem almejado; simplesmente acontece. O primeiro tipo é a estratégia K, onde se maximiza a probabilidade de sobrevivência da ninhada (os pais prestam cuidados necessários aos filhotes). Quanto menor a ninhada, maiores chances disso acontecer. A outra, é a estratégia R, onde as espécies conseguem se manter não devido à maximizar qualidade de vida dos filhotes, mas a maximizar o número de filhotes. Isso impede que os pais prestem cuidados aos filhotes. Os animais que seguem a estratégia R (a grande maioria, na natureza) têm filhotes que possuem uma chance de sobrevivência mínima. Na estratégia R, a regra comum é se colocar milhares, dezenas de milhares, ou até milhões de ovos. Isso faz com que o número de animais que nasça simplesmente para sofrer terrivelmente 100% do tempo, e logo depois morrer, seja altíssimo.

Ng dá o seguinte exemplo: supondo que a seleção natural resulte em cada adulto de uma espécie deixando dez descendentes, sendo que apenas três conseguem sobreviver a ponto de atingirem a maturidade sexual e criarem a próxima geração. Os outros sete morrem antes, cada qual com um bem-estar negativo. O número de animais com bem-estar negativo triplica a cada geração, e triplica também o número de sofrimento total agregado. Supondo que cada indivíduo com bem-estar positivo esteja com felicidade +2 e os com bem-estar negativo com sofrimento de -1 (que é uma estimativa de sofrimento altamente modesta). Então, levando-se em conta os 10 descendentes de um adulto, o seu nível hedônico agregado será de (3×2) + (-1×7) = -1. “Esse bem-estar negativo agregado explode exponencialmente à medida que a população aumenta a cada geração, (por exemplo, -10, -30, -90, -270, -810… até -34, -867, -844, -910 depois de 20 gerações apenas)[8]”. O chamado “equilíbrio natural” não favorece aos indivíduos vivendo em tais ecossistemas, mas, sim, aos seus genes. O resultado é, para quem olha de fora, uma natureza bela e paradisíaca, mas, para quem está dentro, o inferno dos infernos.

Enfim, tal inferno poderia ser um pouco menor se os humanos repensassem a forma com a qual intervém na natureza. Até agora, só se intervém, ou visando benefício para humanos, ou visando manter o equilíbrio ambiental (que, como vimos, não é algo bom para os animais, devido a manter a situação de sofrimento intenso criada pela reprodução R). Enfim, penso que, se os desdobramentos de consequências forem estudados com cuidado, a esterilização pode representar um passo em direção à diminuição desse montante gigantesco de morte e sofrimento que ocorre na natureza. Já se faz esse controle há muito tempo, só que com preocupações ambientalistas (restaurar o equilíbrio natural, que, como vimos, não é um equilíbrio de bem-estar; é apenas uma maneira de deixar o inferno como está). É hora de deixarmos de lado as motivações especistas e ambientalistas na hora de intervir, e, ao invés, nos basearmos no bem dos seres sencientes. Penso que atualmente não há como intervir de maneira a obter resultados que tenham grande probabilidade de não fazer um estrago maior ainda. Contudo, isso não deveria nos impedir de começar a discutir a questão. Penso que essa seja a questão mais séria de toda a ética animal, pois envolve o maior número de animais sofrendo em condições extremas.

A posição que defendi normalmente é vista como absurda até mesmo pelos defensores dos animais. Contudo, penso que isso se deve a especismo e ao erro de se pensar que aquilo que é natural possui valor moral. Obviamente que existem outras dezenas de objeções à posição que defendi, que não responderei aqui por falta de espaço. Discuto com mais profundidade esse problema dos danos naturais em outro lugar: http://masalladelaespecie.files.wordpress.com/2011/01/luciano-carlos-cunha-sobre-danos-naturais.pdf

11 – Qual sua opinião sobre o movimento pelos direitos dos animais atualmente?

A primeira coisa a ser notada é que existem vários movimentos muito diferentes entre si, cada um com metas completamente distintas, que são geralmente classificados como movimentos de “direitos animais”. A maioria deles não é de direitos animais, nem anti-especista. Por exemplo, é comum o erro de se associar o movimento ecológico com direitos animais. Esses movimentos são distintos e, além disso, antagônicos. O movimento ecológico não valoriza os animais enquanto indivíduos. Ao invés, valoriza alguns tipos de entidades não sencientes tais como espécies, ecossistemas, processos naturais ou o meio ambiente em geral. O movimento ecológico pode ter um viés antropocêntrico ou não, sendo que, em ambos os casos a vida dos indivíduos sencientes não-humanos nunca tem valor em si. No primeiro caso, as coisas defendidas pelo movimento ecológico o são porque beneficiam interesses humanos. No segundo caso, os ecologistas enxergam valor naquelas coisas mesmas (processos naturais, espécies, etc.) e a vida dos indivíduos animais só é valorizada à medida que contribui para manter essas coisas. Por isso eles geralmente defendem apenas animais que estão em risco de extinção, pois pretendem impedir que a espécie desapareça; os indivíduos são valorizados nesse caso apenas porque essa é única maneira de manter a espécie. Na ecologia, seja rasa (antropocêntrica), seja profunda (holista), a vida de cada indivíduo animal não tem valor. Portanto, esse movimento não é de direitos animais; é contrário aos direitos animais.Outro movimento que é confundido com direitos animais é o da proteção animal. Embora a proteção animal enxergue valor em indivíduos animais, limita esse reconhecimento a alguns deles, de determinadas espécies. É o caso, por exemplo, de proteger cães e gatos (o que é uma atitude que está de acordo com o princípio da igual consideração) e, ao mesmo tempo, mandar assassinar outros animais para consumir seus corpos (o que viola a exigência de imparcialidade). Esse movimento não é de direitos animais porque viola a exigência fundamental de imparcialidade (considera apenas algumas espécies), sendo, portanto, especista. Outro exemplo de movimento especista é o chamado movimento bem-estarista, que geralmente é confundido com o de direitos animais. No bem-estarismo, é tolerado causar qualquer dano aos animais, pelo motivo mais trivial possível, desde que, no processo, o animal não sofra desnecessariamente. Assim, bem-estaristas serão a favor de assassinar um animal para comer carne (desde que não se torture demais o animal durante a criação e o abate), mesmo sabendo que o interesse em comer uma comida específica é um interesse trivial, comparado ao interesse de continuar vivo. Assim sendo, o bem-estarismo é um movimento extremamente especista, que tem como premissa a idéia de que os animais não-humanos estão no mundo para servir aos interesses humanos, inclusive os mais banais. Para os bem-estaristas, o único dever que temos para com os animais não-humanos é o de não causar sofrimento desnecessário. É um movimento que questiona a forma de explorar, escravizar e assassinar os animais, não a exploração, escravidão ou assassinato em si. Portanto, é um movimento contrário aos direitos animais.Existe também um movimento pelo vegetarianismo. Embora os defensores de direitos animais não comam animais, o movimento pelo vegetarianismo não é a mesma coisa que o movimento de direitos animais. É possível que alguém se torne vegetariano motivado por inúmeras outras coisas que não o respeito pelos animais (preocupação com sua própria saúde, por exemplo). É possível que alguém seja vegetariano e não reconheça tal atitude como um dever, e defenda um suposto “direito moral” de outras pessoas comerem animais; ou que não seja contra outras formas de se explorar os animais. Quando assim for o caso, tal atitude é extremamente especista, e contrária aos direitos animais (haja vista que, se defende um suposto direito moral de, quem assim desejar, comer animais, então é porque acredita que é correto matar animais; atitude que, como argumentei acima, não há como justificar). Penso que o que mais atrapalha uma melhoria na situação dos animais é o discurso de vegetarianos veganos que ainda são especistas. Quando afirmam que “quem quiser, tem o direito moral de comer animais” ou que “convencer os outros a não consumir animais é ser fanático religioso”, mostram uma total incompreensão do que configura uma questão ética; do que distingue uma questão religiosa de uma questão ética; do que distingue uma questão ética de uma questão de gosto pessoal; do que distingue uma decisão que é correta (opcional) de um dever (moralmente obrigatória); enfim, por sofrerem de uma confusão total com relação ao raciocínio ético (acham que a moralidade de uma decisão depende do gosto do agente que decide), e serem totalmente especistas, acabam, com seu discurso, prejudicando altamente os animais, pois, devido ao fato de serem vegetarianos/veganos, são percebidos como defensores dos animais. Não o são. São defensores de que os interesses mais banais possíveis dos humanos prevaleçam sobre os interesses mais básicos e importantes dos animais, desde que não sejam eles que estejam consumindo. São especistas extremos, apesar de não consumirem animais.Há o movimento pelo veganismo. Embora esse movimento se aproxime mais da idéia de direitos animais, não é exatamente a mesma coisa. Embora qualquer defensor de direitos animais pratique um modo de vida vegano (visa evitar ao máximo o consumo de produtos provenientes da exploração animal), é possível que alguém seja vegano e não seja a favor de abolir nem lute para abolir a exploração animal. É possível que pense, dentre outras coisas, que humanos tem um suposto “direito moral” de escolher explorar animais, como mencionei acima. Assim como o movimento anterior, quando assim for o caso, tal atitude também é especista, da mais extrema (defende interesses humanos triviais contra interesses básicos de não-humanos), e portanto, nega os direitos animais.Assim, podemos perceber agora algumas características do movimento de direitos animais: (1) Visa abolir, e não, regulamentar, a exploração sobre os animais; (2) Valoriza os animais sencientes (humanos ou não-humanos) enquanto indivíduos; (3) Essa valorização, no que diz respeito ao que é reivindicado (a abolição da exploração), é imparcial, não-especista; (4) Reivindica tal abolição como um dever para todo e qualquer agente; haja vista a regra de tratar casos similares de maneira similar, como vimos anteriormente, e o fato de ser eu ou qualquer outra pessoa que esteja assassinando não faz diferença para a moralidade do assassinato; (5) Reivindica que os animais sejam retirados da categoria jurídica de itens de propriedade, o que requer a declaração de direitos legais para os animais (o que implica, por sua vez, numa forma de coerção legal que impeça que a exploração aconteça). Embora o termo “direitos animais” seja mais corretamente aplicado ao movimento abolicionista, cabe salientar que não necessariamente um abolicionista se baseará numa teoria de direitos morais. Não quero entrar em detalhes sobre teoria ética no que diz respeito às teorias de direitos morais. Basta apenas lembrar que o nome “direitos animais” é uma abreviatura genérica, para se referir a qualquer posição que reivindique o abolicionismo. É possível que alguém reivindique o abolicionismo (e, assim, direitos legais para os animais) sem estar baseado numa teoria ética de direitos morais (é possível que se baseie, por exemplo, no igualitarismo, no prioritarismo, num utilitarismo de regras, no suficientialismo, ou em algum tipo de teoria das virtudes, por exemplo).

12 – É possível que uma determinada posição seja abolicionista, e ainda assim seja especista?

Outro ponto importante a ser notado é o que estava em itálico no item 3, acima. É possível que uma posição abolicionista seja ainda especista em outros assuntos que não o da abolição. Podemos entender melhor esse ponto com um paralelo sobre o racismo: hoje em dia existem raras pessoas que defendem que a escravidão de membros de outras raças volte a existir, mas existem inúmeras delas que ainda são racistas (desconsideram outros interesses de membros de outras raças, que não o interesse na liberdade corporal). Assim, é possível que alguém defenda abolir a exploração sobre os animais não-humanos, e, ao mesmo tempo, seja especista e desconsidere outros interesses que os animais possuem. É possível, por exemplo, que reivindique a abolição, mas não reconheça o dever de prestar ajuda. Isso é extremamente problemático, quando lembramos da irrelevância ética da distinção entre atos e omissões, e quando lembramos que a quantidade de sofrimento e mortes que os animais sofrem por causas naturais é imensamente maior do que a quantidade de sofrimento e mortes causados pela exploração (e isso, levando em conta que o sofrimento e mortes causados pela exploração é já um número extremo). Assim sendo, penso que a única maneira adequada de reconhecer moralmente os animais não-humanos é através de um movimento anti-especista, pois isso implica em ir além dos outros movimentos, inclusive além do abolicionismo. Animais não-humanos possuem inúmeros outros interesses relevantes, que não apenas o de não serem explorados por humanos. Para o animal, não faz diferença quem lhe será o causador final do dano.

13 – Há tempos que existe um debate envolvendo bem-estarismo x abolicionismo. Qual das posições de fato pode desenvolver a melhor mudança à vida dos animais?

Penso que as chances de se conseguir algo para melhorar a situação dos animais com regulamentações bem-estaristas é mínima, senão inexistente. Fica mais fácil de entender o motivo se olharmos para como é organizado o sistema jurídico que enxerga os animais não-humanos como itens de propriedade. O jurista Gary Francione é conhecido por ser um dos maiores críticos do bem-estarismo. Em um livro chamado Animals, Property and the Law, ele explica o seguinte: o que a regulamentação bem-estarista vai proibir é o sofrimento desnecessário e vai exigir o tratamento humanitário. Ou seja, nenhuma dessas regulamentações proíbe assassinar. É preciso lembrar que, perante a lei, o animal é um item de propriedade; uma coisa. Uma coisa não tem direitos legais; pelo contrário, ela é exercício do direito legal que seu proprietário (dono) tem, de fazer uso de sua propriedade. Se os animais tivessem direitos legais, obviamente que seria proibido o seu uso. Não faz sentido dizer que alguém tem direitos legais e ao mesmo tempo dizer que é permitido fazer uso desse alguém como se fosse uma coisa (inclusive assassinar). Então, a regulamentação bem-estarista não cria direitos (como veremos a seguir, nem mesmo o direito de não sofrer). Quando entendemos como é definido sofrimento desnecessário e tratamento humanitário, na regulamentação bem-estarista, fica muito claro por que não há como ajudar os animais com tais regulamentações. A regulamentação bem-estarista, segundo Francione, define sofrimento desnecessário como todo aquele sofrimento que é desnecessário para o proprietário atingir o fim que estipulou, em explorar sua propriedade. Assim, por exemplo, se alguém pretende criar galinhas para fabricar ovos, e para obter mais lucro é necessário debicá-las a ferro em brasa, espremê-las 10 numa única gaiola (o que implica em quebrar os seus ossos) e confiná-las a vida inteira, dando injeções de hormônios e com uma luz intensa que as impeça de dormir (para que produzam mais ovos), então a lei bem-estarista considera sofrimento necessárioTratamento humanitário é definido na lei bem-estarista, segundo Francione, como o tratamento que é prática comum dos proprietários naquele tipo de uso. Assim, já que fazer com as galinhas o que foi descrito acima é prática comum da indústria de ovos, assim como castrar os animais sem anestesia é prática comum da pecuária, então a lei bem-estarista considera tratamento humanitário. Assim, é fácil entender por que as empresas exploradoras de animais orgulham-se de serem aprovadas pelos certificados de bem-estar animal. Tais certificados permitem quase tudo que tais exploradores queiram fazer. A única coisa que não é permitida é o explorador usar seu item de propriedade de maneira tola, que não vá maximizar seu lucro. Além do mais, em muitos casos, quem determina os padrões de fiscalização são os próprios exploradores. Eles criam as regras e eles mesmos fiscalizam. Assim, a lei bem-estarista ajuda muito o explorador e nada os animais: ela avisa se o explorador está ou não usando sua propriedade da maneira mais lucrativa possível, além de ajudar a criar uma boa imagem do explorador junto aos consumidores, que podem então continuar mais tranquilos em suas práticas especistas, criando a ilusão de que os animais são bem tratados. E, supondo que fossem realmente bem tratados, a pergunta ainda é: é possível justificar a exploração em si? Como vimos anteriormente na pergunta sobre especismo, parece que não.Se realmente as regulamentações bem-estaristas diminuíssem consideravelmente o sofrimento dos animais utilizados talvez fosse uma estratégia a se considerar, promover tais regulamentações, dependendo do tempo e energia colocados nesse tipo de atividade, e nas alternativas de estratégia disponíveis que fossem mais eficazes. Contudo, como mencionei acima, não parece ser esse o caso, nem parece ser o caso de que tais regulamentações levariam gradualmente a abolição. As regulamentações bem-estaristas reforçam o especismo e reforçam a ilusão de que temos justificativa para explorar os animais. Não há nada nessas regulamentações que sugira abolir o uso.

14 – No seu entender, qual a melhor estratégia para melhorar a situação dos animais não-humanos?

Penso que a melhor estratégia (ainda que não a única, mas, sem dúvida, a essencial) é apostar numa educação não-especista. Isso implica em não apenas em reivindicar que o especismo é injustificável, mas, acima de tudo, explicar por que é injustificável. Somente quando oferecemos argumentos que expliquem o porquê das conclusões que tiramos é que podemos fazer um debate sério em torno dessas questões. Isso depende essencialmente do uso da razão. Para entendermos por que o especismo é injustificável, temos que entender os movimentos básicos do raciocínio ético (tratar casos relevantemente similares de maneira similar, por exemplo). Para avaliarmos os argumentos é necessário termos uma noção mínima (mínima mesmo!) de lógica. Diante disso, muitos ativistas pensam então que o melhor é abandonar a tentativa de raciocínio ético e partir para a estratégia de “qualquer coisa que convença está bom”. Aí que penso que está o grande erro. As pessoas são especistas porque não sabem aplicar as exigências básicas do raciocínio ético, e não sabem raciocinar eticamente porque não sabem avaliar argumentos. Enquanto não se estimula e ensina as pessoas a fazerem isso, nada é questionado na sua raiz. Continua-se tirando conclusões nas questões éticas (que são as questões mais importantes que alguém se depara na vida, afinal de contas, alguém está decidindo de que modo deve viver) com base em intuições que, muitas vezes, não aguentariam dois parágrafos de exame crítico para se mostrarem totalmente indefensáveis. Infelizmente, a maioria das pessoas vive suas vidas inteiras com base em regras desse tipo. Por isso, penso que aprender a avaliar argumentos e a aprender as regas básicas do raciocínio aplicado à ética é essencial. Mencionei que devemos direcionar nossas campanhas e energias para questionar o especismo (para além do abolicionismo, como vimos). Penso que essa é uma via obrigatória para se conseguir mudar a situação que os animais não-humanos se encontram. Isso porque, apenas entendendo as razões pelas quais o especismo é indefensável (não há bons argumentos a seu favor) é que as pessoas entenderiam por que existe o dever de considerar os animais não-humanos como iguais em estatura moral. Uma vez que se reconhece a igualdade de estatura moral do outro, o resultado é que vemos o dano sobre esse outro como tão grave e urgente de ser minimizado quanto se feito a nós próprios. O resultado disso é que as pessoas, uma vez rejeitando o especismo, se tornariam ativistas muito mais comprometidos, e, o que é melhor, entendendo muito mais profundamente as razões do por que pensar dessa maneira.

15- Porque o movimento ambiental difere tanto do movimento anti-especista?

Como mencionei anteriormente, uma característica essencial do movimento ambientalista/ecológico, é que não vê valor nos indivíduos. O que é valorizado são sempre entidades não-sencientes: espécies, ecossistemas, comunidades bióticas, biosfera, equilíbrio natural, processos naturais, etc. Os indivíduos são valorizados apenas instrumentalmente, ou seja, apenas na medida em que sua existência e bem-estar contribuir para a manutenção dessas outras entidades. Existem dois tipos principais de posições ecológicas: as antropocêntricas e as não-antropocêntricas. A antropocêntrica considera apenas o valor dos indivíduos humanos, e considera o restante dos indivíduos animais sencientes como meros meios para manter o equilíbrio natural, espécies, etc; sendo que preserva essas últimas entidades instrumentalmente aos interesses humanos. Tal posição é especista. Mantém que os humanos devem ter seus interesses considerados, enquanto mantém que deve-se desconsiderar os interesses de animais não-humanos (e, só valorizá-los instrumentalmente). Como expliquei anteriormente, tal posição é injustificável por tratar casos relevantemente similares com consideração diferente. Se o interesse em não sofrer é relevante quando aparece em humanos, o é devido ao fato do sofrimento ser uma experiência intrinsecamente ruim, e não pelo fato do sofrimento de um humano. Isso implica então que o que cria o dever de não permitir o sofrimento é a ruindade do sofrimento mesma, independentemente de quem o sente. Assim, a posição ambientalista antropocêntrica viola a exigência de imparcialidade. Já a posição da ecologia profunda não é antropocêntrica. Mas, isso não significa que considere o valor dos indivíduos humanos e não-humanos. Pelo contrário, desconsidera igualmente o valor de todo e qualquer indivíduo. Proponentes dessa visão, como Pentti Linkola, defendem, por exemplo, praticar o genocídio sobre humanos e sobre animais sencientes, com vistas a restaurar o “equilibro natural”. Tal posição não padece da incoerência da primeira (haja vista que desconsidera o valor de todo e qualquer indivíduo), mas isso não significa que seja justificável. É possível que, apesar de coerente, seja até mais injustificável do que se fosse incoerente. Por exemplo, do ponto de vista das consequências, um número maior ainda de indivíduos são danados.O movimento anti-especista, pelo contrário, se funda no reconhecimento igualitário do valor dos indivíduos sencientes, sejam humanos, sejam não-humanos.

16 – Quais as principais razões do porque deveríamos adotar a posição anti-especista e não a posição ecológica?

Podemos perceber a fraqueza das visões ecológicas quando perguntamos por que ela valoriza as entidades não-sencientes que valoriza (equilíbrio natural, espécies, processos naturais, etc.). Uma possível resposta é que tais entidades são naturais. Ora, tal resposta não é um bom argumento. Teria de haver uma razão para enxergarmos valor em algo por ser natural, para além do fato dele ser natural. Não há nada de especial em algo ser natural; isso não cria uma razão para preservar esse algo. Alguns tipos de deformidades, como a neurofibromatose, são naturais, mas isso não cria uma razão que proíba alguém de fazer uma cirurgia e corrigir a deformidade. Os processos naturais criam as coisas mais terríveis que poderíamos imaginar. Coisas que consideraríamos imediatamente hediondas caso fossem criadas por seres humanos. Considerar que uma mesma consequência que causa dano (por exemplo, desastres) muda o seu valor moral (se é natural, é vista como digna de ser preservada, se é causada por um humano é considerada hedionda) de acordo com o tipo de coisa que deu origem ao processo que termina nela é um erro moral. O erro se dá porque o valor moral de uma consequência está no tipo de conseqüência que é (no impacto que tem sobre suas vítimas), e não no tipo de processo que a causa. Assim, dizer que uma coisa deveria ser preservada porque é natural, ou ainda, que uma mesma consequência que prontamente reconhecemos como hedionda quando causada por humanos deveria, contudo, ser preservada porque foi causada naturalmente, é cometer o que chamo de fontismo (um preconceito com base na fonte inicial do processo que termina na consequência, quando a fonte não é relevante para o tipo de impacto que a consequência terá sobre suas vítimas).Quando perguntamos as razões pelas quais existem questões éticas, se torna mais implausível ainda, a atribuição de valor a processos naturais, presentes na ecologia. Só existem questões de ética porque alguém pode ser prejudicado/beneficiado por alguma decisão. Imagine um mundo onde, de todas as alternativas disponíveis para cada uma de nossas decisões, todas essas alternativas fossem igualmente boas, sendo que nenhuma delas causasse prejuízo a ninguém e beneficiasse o máximo possível todos aqueles que fossem atingidos pela decisão. Num mundo assim, não existiriam questões éticas; haja vista todas as alternativas de escolha serem igualmente indiferentes no que diz respeito a prejudicar/beneficiar os atingidos pela decisão. Obviamente, um mundo assim não existe. Mas, imaginá-lo ajuda a compreender que as grandes questões éticas existem porque faz diferença, dependendo da escolha que façamos, na vida de outros indivíduos. Faz todo sentido falar disso quando seres sencientes são atingidos por nossas decisões (sejam ações, sejam omissões). Seres sencientes são exatamente aquele tipo de seres capazes de ter sensações, e cada uma dessas sensações vêm acompanhada de uma valorização (pode ser uma sensação boa ou ruim). Agora, compare com um pedaço de tijolo. Qualquer coisa que decidamos fazer, do ponto de vista do tijolo, lhe é indiferente, haja vista não haver “alguém” ali dentro (o tijolo não é senciente). Tudo o que podemos dizer em termos de “deixar o tijolo nessa temperatura fará mal a ele”, é metafórico. Estamos querendo com isso dizer que o tijolo não terá mais as características que julgamos boas para um tijolo, não que faz diferença para o tijolo. Não há um “ponto de vista” do tijolo. Mas, se isso é verdade em relação ao tijolo, por ser um objeto não senciente, o mesmo é verdade para qualquer outro objeto não senciente, incluindo aí tudo que é valorizado pela perspectiva ecológica (equilíbrio ambiental, espécies, etc.). Não existe “alguém”, que é uma espécie, que será prejudicada caso deixe de existir. Existem são indivíduos pertencentes àquela espécie, que podem ser prejudicados. Ironicamente, são exatamente aqueles que podem ser prejudicados (os indivíduos) que a perspectiva ecologista despreza. Do que foi dito sobre espécies, o mesmo pode ser dito sobre processos naturais, comunidades bióticas, vida biológica, etc. Nenhuma dessas entidades é “alguém” que pode ser prejudicado. São os ecologistas que as valorizam, e não, elas que tem valor. Não quer dizer que anti-especistas achem errado preservar o meio ambiente. Acham correto na medida que isso ajude os animais sencientes (e apenas nessa medida). Preservar a qualidade de vida mínima para os animais inseridos nos ambientes silvestres é muito diferente de, e geralmente contrário a, manter o equilíbrio natural. Como vimos, o equilíbrio natural não é um equilíbrio de bem-estar dos indivíduos, e sim, populacional – se é que tal equilíbrio existe. Em termos de bem-estar, o equilíbrio natural está mais perto da maximização das desgraças para os seres sencientes ali inseridos. Tal equilíbrio favorece aos genes, não aos seus portadores.Voltemos ao exemplo que mencionei anteriormente. Você precisa escolher entre: (1) ou morrer agora ou; (2) ficar em coma irreversível por mais 20 anos (sem nenhuma sensação, nem mesmo sonhos) e depois morre. A pergunta é: faz diferença do seu ponto de vista, alguma das duas opções? Parece que não. Do seu ponto de vista, tudo o que dá sentido a sua vida (sensações) acaba na hora que acaba a sua senciência. Tudo o que poderíamos apelar para dizer que faz alguma diferença essas duas opções (seja lá qual for a escolhida) diz respeito aos desejos dos seus amigos, parentes (que são seres sencientes). Para você, não faria diferença alguma. Então, a mera vida biológica não-senciente não parece ser relevante no que diz respeito a algo ser digno de consideração moral. Se fosse relevante, as pessoas pagariam seguro para ficarem em coma irreversível. As pessoas só aceitam o coma na esperança de sair do coma e voltarem a ter senciência, ou porque esperam que ainda haja algum tipo de senciência no coma. Isso mostra que as entidades valorizadas pela perspectiva ecológica não possuem valor moral, muito menos que seu valor é tão grande que nos coloca o dever de desconsiderar o valor dos indivíduos sencientes. Penso que os argumentos acima apontam boas razões para pensarmos que tudo aquilo do qual depende a perspectiva ecológica (valorizar entidades não-sencientes e desconsiderar o valor dos indivíduos sencientes) é altamente implausível e eticamente injustificável. E, não apenas o que acontece na visão ecológica. Penso que qualquer posição normativa que desconsidere o impacto de nossas decisões sobre os indivíduos é altamente implausível. Existem várias dessas perspectivas morais que são amplamente aceitas no dia-a-dia. Um bom exercício seria identificá-las e avaliá-las a partir do raciocínio ético, para ver se resistem ao escrutínio crítico. Como conclusão, pode-se dizer que o movimento ecológico é tão diferente do movimento anti-especista porque o primeiro geralmente é especista, e, quando não é, é porque também desconsidera os indivíduos humanos; enquanto que o segundo tem como base a rejeição do especismo e a consideração pelos indivíduos. Diante dos argumentos apresentados acima, penso que é a posição anti-especista, de consideração pelos indivíduos sencientes, que devemos adotar.

17 – Muita gente acha que o veganismo foi algo criado há pouco e que sua prática é bem mais acessível a pessoas de classe média branca. Existe de fato ligação entre ser vegano e ter grande poder aquisitivo? Ele surgiu junto á elite?

Sinceramente, não faço idéia de quanto tempo existe a prática do veganismo, nem em que classe social surgiu. Me parece que os jainistas, que pregam, dentre outras coisas, uma vida sem luxos, são veganos há séculos. O que é importante lembrar aqui é que isso não é relevante. O modo como surge uma prática não serve para justificá-la, nem para descartar sua justificação. Se algo é um dever ou não, tem de ser mostrado com argumentos independentes. Explicar o surgimento de algo é uma coisa; justificar esse algo é outra. Argumentei acima explicando as razões pelas quais o especismo é injustificável. Se alguém dissesse que o especismo ajudou a humanidade a sobreviver enquanto espécie, ou que surgiu de determinada maneira, em determinada época, nada disso contribui para sua justificação. Explicações descritivas não resolvem a questão normativa. Ainda temos de perguntar, depois da informação acrescentada sobre seu surgimento: “temos justificativa para continuar fazendo esse algo?”. Como argumentei antes, penso que todas as respostas plausíveis são “não” ao especismo. Isso implica, dentre outras coisas, no dever de não assassinarmos animais não-humanos sencientes, o que, por sua vez, implica na prática do veganismo. Além disso, uma dieta a base de vegetais (legumes, verduras, grãos, frutas), é geralmente muito mais barata do que a dieta padrão a base de produtos de origem animal. Se alguém reclama que o leite de soja, ou o chocolate sem leite está caro, é fácil resolver isso. Não os coma. Ninguém precisa disso para sobreviver. No que é necessário para sobreviver, a dieta vegana é muito mais barata. E, penso que, mesmo que fosse (não é) um pouco mais cara, ainda assim haveria o dever de adotar um modo de vida vegano. Isso porque, mesmo que isso representasse um prejuízo financeiro para os consumidores, esse prejuízo não se compara, nem de longe, com o prejuízo para os bilhões de animais assassinados. Para entendermos melhor, basta fazer um paralelo com questões envolvendo humanos. Se tivéssemos que gastar algum dinheiro para acabar com o estupro, o trabalho escravo e a prostituição infantil, não deveríamos fazê-lo? Ninguém argumenta que “se eu tiver que gastar uns centavos a mais, então não há dever de combater essas coisas”. As pessoas só dão desculpas assim nos casos envolvendo animais não-humanos porque são especistas. Sinceramente, eu só vejo pessoas que gastam em coisas supérfluas darem a desculpa de que gastariam uns centavos a mais (o que é falso) se fossem veganas. Esse argumento é apenas uma desculpa.O mesmo acontece com relação ao argumento da saúde. A dieta vegana é, em geral, muito mais saudável do que a dieta padrão onívora. Mas, no que isso é relevante para a questão ética? Imagine se a dieta vegana fosse um pouco menos saudável do que a dieta padrão onívora. Ainda assim haveria o dever de nos tornarmos veganos. Isso porque o dano envolvido nesse processo, para nós, ainda assim seria infinitamente menor do que o dano para os bilhões de animais assassinados para mantermos a dieta padrão. Ética exige imparcialidade. Tanto do ponto de vista da quantidade de dano por indivíduo e do número de indivíduos prejudicados, teríamos o dever de nos tornarmos veganos mesmo que a comida vegana fosse menos saudável (o que é falso) e mesmo que fôssemos gastar mais com ela (o que também é falso). Assim, o argumento da saúde é totalmente irrelevante para se determinar a moralidade do especismo. Só se pensa que é relevante porque estamos ainda imersos e muito especismo.


[1] Para um estudo mais detalhado dessas comparações, ver HORTA, Oscar. Questions of Priority and Interspecies Comparisons of Happiness. In: Ética mas Allá de la Espécie: La Consideración Moral de los Animales no Humanos. 2010. http://masalladelaespecie.files.wordpress.com/2010/05/questions_priority_interspecies.pdf. A analogia com 24 horas aparece em uma palestra sobre o artigo, disponível em http://vimeo.com/25316618.  

[2] DAWRST, Alan, “How Many Animals are There?”, In: Essays on Reducing Suffering, 2009, http://www.utilitarian-essays.com/number-of-wild-animals.html

[3] NG, Yew-Kwang, Towards Welfare Biology: Evolutionary Economics of Animal Consciousness and Suffering. In: Biology and Philosophy, 10 (3), 1995, pp. 255-285.

[4] Ibid., p. 270.

[5] Ibid.

[6] Ibid., p. 271.

[7] Ibid.

[8] Ibid., p. 273.

 Entrevista concedida ao blog Camisa de Flanela em 02/10/2011.