David Olivier – Olhar Animal

A natureza não escolhe

Tradução: Nicolau Kouzmin-Korovaeff

Mais uma questão de palavras… Que importância podem, pois, ter as palavras? O que importa, são as coisas! Eu fico, no entanto, sempre impressionado ao ver até que ponto os raciocínios que engendramos são dependentes das palavras, são predeterminados por elas. As palavras deveriam ajudar-nos a raciocinar, mas às vezes, pelo contrário, elas nos impedem de fazê-lo.

Mais uma questão de palavras, portanto. Vivemos numa sociedade em que a predação é vivenciada como natural; e isto, tanto entre humanos, quanto entre animais não-humanos. É “natural” que “o melhor ganhe”, seja entre patroas e operárias, entre países industrializados e países pobres, entre lobos e cordeiros. E “o melhor” é o mais forte. Darwin disse-o, é científico, nada se pode fazer a respeito, é a ordem das coisas… é a seleção natural.

Pois bem, não. Simplesmente porque a seleção natural não existe.

“Dei a este princípio o nome de seleção natural1

A adesão à palavra do Mestre pode ser às vezes uma traição de seu espírito, do sentido da sua obra, uma vez que o dito Mestre, procedendo em termos de inovação e defrontando-se com mentalidades inicialmente hostis, escolhe com freqüência suas palavras pelo menos tanto por suas qualidades pedagógicas, conciliatórias, de transição, quanto por sua clareza. Isto é muito particularmente verdadeiro a respeito de Darwin, em quem se encontra, no mais alto grau, uma mistura de audácia e de prudência – como o ilustra, por exemplo, sua constante reticência no sentido de declarar publicamente a sua irreligião, no entanto consciente e assegurada.

Se for possível extrair um sentido maior, central, da obra de Darwin, é o seguinte: para explicar a diversidade da vida, não é necessário apelar nem às intenções de um criador – a uma criação divina – nem às intenções de uma força quase-divina, a Natureza, nem a um finalismo inerente às próprias formas vivas, a uma “enteléquia”, segundo a concepção dos evolucionistas lamarckianos. É esta a razão pela qual o darwinismo, que, sem implicar necessariamente a inexistência de Deus, minava uma grande parte das bases positivas da crença, foi combatido encarniçadamente e continua a ser combatido, em larga medida, pelo campo religioso.

Graças a Darwin, portanto, pensamos poder explicar o aparecimento e a evolução da vida sem finalismo, sem sentido preestabelecido – o que não quer dizer que o sentido não existe no mundo. O sentido existe em nós – em nós, os seres sensíveis, que damos um sentido às coisas através de nossos desejos e nossos prazeres e que aparecemos como produtos de mecanismos evolutivos que, esses sim, não têm sentido. Nós queremos, mas nada quis que quiséssemos. Queremos livremente, sem dever obedecer a um criador que nos ditaria uma natureza, um dever-ser, um dever-querer.

Nós queremos, mas nada quis que quiséssemos. Isto deveria estar claro, desde Darwin; ou, pelo menos, deveria estar claro que é possível pensar assim, já que é aí que reside o sentido da obra de Darwin, obra à qual a grande maioria dos cientistas se refere. Entretanto, a partir do momento em que se interroga esses cientistas sobre o darwinismo, depara-se com palavras cujo efeito global é de anular o darwinismo; palavras que nos reconduzem diretamente ao finalismo, a antes de Darwin, à época em que Darwin estava lutando por essas idéias quase sozinho. Particularmente, ao se perguntar aos biólogos de hoje como nós, os animais, aparecemos, eles respondem, retomando as palavras do próprio Darwin, que a natureza agiu por seleção natural.

Deveria ser possível falar em biologia sem finalismo. Mas a persistência, a onipresença de uma terminologia finalista permanece ainda hoje um problema maior, apesar do darwinismo alardeado de quase todos os biólogos. Já tratei do essencialismo inerente ao uso da palavra “espécie2” e me estenderei longamente aqui sobre o finalismo desta expressão central da “seleção natural”; para fazer perceber a onipresença sufocante do finalismo, darei, entretanto, primeiramente alguns outros exemplos.

Nós mal nos damos conta do finalismo por detrás das nossas palavras. Dizemos e ouvimos, sem pestanejar, frases como “as TRELETTES (*) se acasalam em fevereiro, para que seus filhotes nasçam em maio e gozem de dias bonitos”. Mas as TRELETTES têm por acaso a mais remota idéia da duração da sua gestação? O pensamento comum, que quando isso lhe convém, nega todo o sentimento e toda a inteligência aos não-humanos, lhes concede, às vezes, pelo contrário, capacidades de cálculo e de predição, assim como intenções totalmente inverossímeis. É que, de fato, esse pensamento comum, especista, nega aí ainda a realidade individual dos não-humanos; ele diz “as TRELETTES”, mas de fato pensa “a espécie TRELETTE”, “o finalismo natural em sua tradução TRELETTE”. As TRELETTES individuais não existem para ele senão como representantes3.

O finalismo também está sujeito à linguagem funcionalista. Dir-se-á, por exemplo, “os espinhos permitem à planta defender-se contra os pássaros”. Mas o verbo “permitir” implica uma vontade por parte da planta: ela gostaria de se defender; a realidade lhe opõe obstáculos; os espinhos lhe permitem levantá-los, eles são para ela um meio para um fim. A planta quer se defender, defender a sua vida; a sua vida é um valor para ela.

Sabe-se, desde Darwin, ou se deveria saber, que as coisas não se passam desta forma; ou, pelo menos, que há uma explicação mais simples, que permite poupar a atribuição, a priori pouco verossímil, de uma vontade, de uma consciência, à planta. Pode-se supor que, em certo momento, certas plantas tiveram, por alguma razão, alguma coisa que se assemelhava a espinhos; como daí resultava que os pássaros as comiam menos, elas produziram mais sementes, e pouco a pouco se espalharam, enquanto outras, que não tinham espinhos, produziam menos sementes e não deixaram mais descendentes. Dentre as primeiras, as que tinham os espinhos maiores ou mais duros, elas próprias foram menos comidas pelos pássaros, e, portanto, pelo mesmo mecanismo, as plantas de espinhos grandes e duros se generalizaram.

Tal é o mecanismo descrito por Darwin; para expô-lo, tentei eliminar rigorosamente toda e qualquer expressão finalista. Se eu não tivesse feito este esforço, eu teria dito, por exemplo, como todo o mundo: “…como isso protegia essas plantas dos ataques dos pássaros, elas tiveram mais sucesso reprodutivo e levaram a melhor sobre as suas concorrentes“; eu teria renegado pelo menos cinco vezes o caráter mecânico que eu tinha justamente começado a pôr em evidência!

Trata-se de uma fatalidade da língua? Acho que é sobretudo o sinal da nossa dificuldade, da nossa reticência, no sentido de integrar verdadeiramente o darwinismo, mais de um século após A Origem das espécies, e isto apesar da adesão alardeada da maioria dos biólogos… à palavra do Mestre.

O finalismo (mal)disfarçado da expressão “seleção natural”

Todo o mundo se lembra de que Darwin usou a expressão “seleção natural”, mas poucos se recordam de que ele só a justificou por analogia: “Dei a este princípio (…) o nome de seleção natural, para indicar as relações dessa seleção com a que o homem pode realizar4“. Ela está marcada pelo seu curso intelectual, pois é em grande parte através do estudo da seleção praticada pelos criadores em relação aos animais domésticos que ele chegou à sua teoria. Ela está, portanto, marcada por um período em que Darwin ainda não era darwiniano. Aliás, ela não satisfez tanto assim nem o próprio Darwin, que acrescenta imediatamente que uma outra expressão teria sido mais exata. Mas ela satisfez todo o mundo após Darwin. Preferiu-se se dar por satisfeito com ela.

Analisemos, a partir de um exemplo, o que é uma seleção.

  1. Eu debulhei ervilhas e acumulei-as numa saladeira. Fino gourmet, eu gostaria, no entanto, de rejeitar as mais farinhentas.
  2. Eu sei que as ervilhas mais farinhentas são também, geralmente, as mais graúdas. Eu as escolho, portanto, e só conservo as menores. Posso escolhê-las manualmente ou com uma peneira, pouco importa; o essencial é que tenho um objetivo de seleção – o caráter não-farinhento – e um critério de seleção, o tamanho. Eu seleciono as ervilhas em função do critério e tendo em vista o objetivo.
  3. Eu obtenho, no final das contas, um bom prato de ervilhas tenras, mesmo que algumas dentre elas, talvez, apesar do seu pequeno tamanho, acabem se revelando farinhentas.

Não há coincidência entre o objetivo de seleção e o critério de seleção. O objetivo de seleção (o paladar) é meu objetivo, resulta dos desejos e interesses de um ser sensível. Já o critério de seleção (o tamanho) é diretamente material, podendo ser posto em prática de forma inteiramente mecânica (peneira). Eu quis que ele fosse a tradução material mais fiel possível do objetivo de seleção (“eu sei que as ervilhas mais farinhentas são também, geralmente, as mais graúdas”); mas é bem possível que permaneça um descompasso. A seleção se pode enganar, ou mais exatamente, eu posso me enganar, ao escolher o meu critério de seleção.

Vejamos um outro exemplo, em que não há verdadeira seleção:

Uma erupção vulcânica de tipo explosivo projeta imensos blocos nos arredores da cratera. Uma vez acalmados os poderes do inferno, uma equipe de vulcanologistas se dirige ao local e observa certa gradação no tamanho dos blocos; quanto maior o distanciamento em relação à goela do vulcão, tanto menos graúdos eles são. Talvez isso lhes pareça bem natural, talvez eles/elas arrisquem uma explicação física, baseada, por exemplo, na relação entre a força exercida sobre um bloco, proporcional à sua seção, e sua massa, proporcional a seu volume. No caminho de volta, no entanto, a expedição encontra um bloco particularmente graúdo longe da cratera. Os cientistas anotam este fato em seus livros de apontamentos, e se perguntam como farão para ajustá-lo à sua explicação.

Ninguém, contudo, pensa que o deus Vulcão cometeu um erro. Nem mesmo ocorreu ao espírito dos vulcanologistas a idéia de que alguém tenha tentado escolher os blocos. Alguma coisa se passou, que teve por resultado certa repartição dos blocos; sendo o fenômeno complexo, a repartição resultante também o é, mesmo que, num primeiro momento, se possa dizer, para simplificar, que os blocos mais graúdos foram lançados menos longe. O resultado não pode ser comparado com algum objetivo. O processo não podia se enganar, pois enganar-se, é sempre em relação a alguma coisa que se teria querido. O processo não é uma seleção; ele é o que é. Ele não pode iludir as forças que o puseram em andamento; ele pode, no máximo, iludir os vulcanologistas. Assim, para que um processo seja uma seleção, não basta que ele seja um processo que produz certo resultado; é preciso que haja uma finalidade, um objetivo de seleção, do qual o processo não passa da realização. Ora, eu o disse, a contribuição central da obra de Darwin reside na explicação da evolução por um processo mecânico, destituído de finalidade; é, portanto, impróprio, até mesmo contraditório, conservar a expressão “seleção natural”.

Eu disse que Darwin tinha escolhido esta expressão por analogia. É que o processo que ela designa assemelha-se muito, não a uma seleção em geral, mas à dos criadores:

Um criador quer vacas que dêem muito leite. Ele sabe que, de modo geral, as crias tendem a parecer-se com os seus pais. Ele conservará, portanto, as crias fêmeas nascidas das vacas mais produtivas; as outras, ele as enviará ao matadouro5. Com efeito, dentre as crias fêmeas que ele conservou, muitas lhe darão satisfação, algumas até mesmo mais do que a sua mãe; algumas, em compensação, decepcioná-lo-ão. Dessas últimas, ele eliminará as crias.

O criador tem, assim, um objetivo de seleção (a quantidade de leite que as crias fêmeas darão), donde ele extrai um critério de seleção (a quantidade de leite produzida pela mãe). Trata-se, portanto, de uma verdadeira seleção, de um processo concluído. Mas qual é a analogia entre esse processo e aquele que ele chamou de “seleção natural”?

Para vê-lo, é preciso voltar-se para o aspecto positivo da teoria darwiniana, para os seus postulados falsificáveis6. Vou tentar enunciá-los aqui:

G1. Os caracteres dos seres vivos geralmente se transmitem aos seus descendentes7; existe, entretanto, certa parcela de variabilidade, os descendentes jamais se parecem exatamente com os seus pais. Pelo menos uma parte dessa variabilidade é, ela mesma, transmissível, isto é, num indivíduo, um caráter, mesmo novo, pode ser transmitido aos seus descendentes.
G2. Pelo menos uma parte dessa variabilidade transmissível é aleatória, ou seja, a sua ocorrência independe de toda e qualquer finalidade.
G3. Existem casos em que a variabilidade transmissível aleatória influi, em determinado ambiente, no número médio de descendentes do indivíduo (mais exatamente: sobre a esperança matemática desse número). Se o ambiente permanecer o mesmo, esses caracteres tenderão a ver a sua freqüência na população aumentar ou diminuir, na medida em que eles aumentem ou reduzam esse número médio de descendentes.
G4. Este processo é suficiente para explicar a evolução e a transformação das formas vivas no curso da história da terra.

A semelhança entre a seleção do criador e a “seleção natural” é grande:

E1. As crias fêmeas das vacas muito produtivas são elas próprias geralmente muito produtivas; o criador sabe, entretanto, que não esta não é uma regra absolutamente fiável: existe uma parcela de variabilidade. Além disso, às vezes esta é transmissível, razão pela qual o criador considerará, antes de mais nada, as qualidades da mãe, mais do que as da avó (isto é, levará em conta caracteres recém-aparecidos), para decidir se conservará ou mandará matar as crias fêmeas.
E2. O criador sabe de que mães ele optou por conservar as crias fêmeas, mas ele também sabe que ele não controla os caracteres exatos dessas crias fêmeas. Talvez ele tenha sorte, talvez não.
E3. O criador procederá sistematicamente de maneira que as vacas mais produtivas, estando aí incluídas aquelas em que essa produtividade é um caráter novo (não-herdado da sua mãe), tenham mais descendentes (não-destinadas rapidamente ao matadouro). Como os criadores agem assim há séculos, as vacas tornam-se cada vez mais produtivas.
E4. Parece plausível que este processo possa explicar a nítida diferença que se observa entre os animais domésticos e as formas selvagens mais próximas.

Assim, o paralelo se estende aos quatro pontos que pus em evidência. Compreende-se, nestas condições, que Darwin tenha querido lembrar a prática dos criadores no título da sua teoria. De fato, a seleção dos criadores E1 a E4 aparece como um simples caso particular do processo geral G1 a G4, constituindo os objetivos do criador um caso particular de meio ambiente, no qual uma variabilidade transmissível aleatória influi no número médio de descendentes do indivíduo (pontos G3 e E3). Simplesmente, o criador age com intenção, fazendo do processo uma verdadeira seleção. O erro de Darwin foi de retomar, para designar o caso geral, um termo que só se aplica ao caso particular.

Isto foi bastante lógico de sua parte, tanto mais que este é um procedimento corrente na língua. Em francês se diz “limoger [=despedir] alguém” desde que certos generais, eu creio, foram enviados, em reforma forçada, para Limoges. Então, sim, “seleção natural” é uma boa fórmula, sob a condição de ser compreendida neste sentido.

Infelizmente, isto só permaneceu uma fórmula. Tudo se passa como se, hoje em dia, os/as que falam de “seleção natural” acreditassem nisso tanto quanto se elas/eles pensassem que todos os empregados despedidos se reencontram em Limoges. Eis uma descrição da “seleção natural”, tal como ela é percebida, ainda e sempre:

A fim de promover certo número de qualidades – força, rapidez, inteligência, beleza, etc.-, a natureza realiza um processo de seleção, graças ao qual ela elimina “os fracos, os débeis mentais, os disformes”, como diz A. Lindbergh8. Colocando, por exemplo, um instinto de competição sexual nos cervos machos, ela leva estes últimos a se enfrentarem, obtendo assim que os mais fortes se reproduzam mais e suplantem os fracos, os débeis mentais, etc.

Para ver a presença, em tal descrição, da disjunção critério/objetivo de seleção, basta imaginar que um cervo aprenda a “trapacear”; que lhe seja dado o meio, por exemplo, de untar a extremidade de suas galhadas com uma substância tóxica que neutralize os seus adversários ao primeiro contato. Esse cervo, por mais franzino e cambaleante que ele possa ser, vencerá todos os combates e deixará um grande número de descendentes igualmente “disformes”. Ele passará no critério de seleção – a vitória nos combates-, ainda que ele não satisfaça o objetivo de seleção – a força. Ele terá trapaceado, dir-se-á, porque ele não terá obedecido às regras da competição que a Natureza tinha instituído “para que vença o melhor”. É, portanto, que, no pensamento comum, o melhor não é, por definição, aquele que vence; há um melhor a priori, correspondente ao objetivo de seleção, e um vencedor, correspondente ao critério.

Dir-se-á que o meu exemplo é artificial; como é que um cervo pode aprender a trapacear? É, no entanto, a “trapaça” que explica, em boa parte, o desprezo que os biólogos (e quase todo o mundo, de fato) exprimem, às vezes abertamente, por uma grande quantidade de seres, aos quais eles aplicam o belo nome de “parasitas9“:

Um preço foi pago no curso da evolução por esta proeza em perversidade. O estigma do parasita está sobre Teleutomyrmex [variedade de formigas pequenas, parasitas de outras formigas; vivem nos ninhos das outras formigas, pelas quais são alimentadas até se reproduzir]; o seu corpo é fraco e degenerado10.

Outro exemplo de “logro”: os pobres, os sem-teto, as desempregadas humanas, os “fracos, os débeis mentais, os disformes”, que “nenhuma seleção natural elimina”. Nós os “conservamos ciumentamente em vida”, “é assim forçosamente em civilizações como a nossa”; mas A. Lindbergh, que fala assim11, é, por outro lado, “um adepto incondicional da seleção natural, pois a Natureza não pode se enganar”. Não pode se enganar… Bela certeza, mas que mostra bem que para A. Lindbergh, como de resto para todo o mundo12, é ao menos conceptualmente imaginável que a Natureza se engane. Ela não diz “não tem sentido dizer que a Natureza se engana”; ela diz que a Natureza é bastante sábia para que o seu critério de seleção corresponda perfeitamente ao seu objetivo de seleção. Salvo quando intervém a “civilização”, o Homem, o artífice: é isso que permite o logro dos fracos, etc.

Seria necessário elaborar um histórico do darwinismo até os nossos dias, um histórico da recuperação, imediata, do darwinismo pela direita, através do “darwinismo social”. A esquerda se tem mobilizado muito contra isso, sobre o tema de “não é igual, os humanos são humanos, não são animais”. Ela teria feito melhor, dizendo, simplesmente, “o darwinismo social não é darwinismo. Isso não tem nada a ver”. Ela teria podido, para isso, começar mostrando que a “seleção natural” não é uma seleção. Mas ela não o fez, ela perdeu uma boa ocasião em relação ao darwinismo, porque ela também estava “atolada” no finalismo, no naturalismo, que ela não queria abandonar, porque ela era especista13.

Notas

1 Charles Darwin, A Origem das espécies], p. 107 (A Descoberta, 1980, trad. E. Barbier; a primeira edição de The Origin of Species data de 1859).

2 “As espécies também não existem”, Cahiers antispécistes n°11 (dez. 1994).

3Para mim também, aliás: pois eu inventei as “TRELETTES”. Eu teria podido tomar qualquer animal.

4 Ibid.

5Eu simplifico, certamente, ao não fazer intervir, por exemplo, também o pai; mas isso não altera nada no fundo do processo. Procederei da mesma forma em outros exemplos.

6 Fasificável = que pode ser posto à prova dos fatos, que pode a priori ver-se contradito (falsificado) pelos fatos (critério de cientificidade de Popper). Foi dito que o darwinismo não era falsificável; mas é porque se polarizou sobre certas formulações criptofinalistas do darwinismo!

7 A distinção entre caracteres adquiridos e caracteres herdados não interfere necessariamente aqui; esta questão não estava, aliás, claramente resolvida na época de Darwin.

8 Alika Lindbergh, citado no texto de Yves Bonnardel deste mesmo número dos Cahiers.

9 Haveria a dizer sobre o emprego do termo “parasita”, em oposição a “predador”. O predador é um nobre; o leão é o rei da selva. No que o parasita é menos nobre do que o predador? É que ele engana. Ele é menor do que a sua presa. Em lugar de enfrentá-la em combate singular, lealmente (“como um homem”, estou tentado a escrever!), como o lobo face ao coelho (!), ele a ataca dissimuladamente, por trás, aninhando-se em seus recônditos para sugar-lhe o sangue. Geralmente ele não mata a sua presa, ele seria bem incapaz disso, mesquinho e degenerado como é; ou então, se ele a mata, é submergindo-a sob a grande quantidade.

Faz-se muito hoje em dia para a reintrodução dos lobos e outros linces nas zonas em que esses animais desapareceram. Em contrapartida, eu não ouvi dizer que B. Bardot militasse pela reintrodução de tal ou tal espécie de pulga ou de solitária que anteriormente atacava os melharucos ou os coelhos, mas que desapareceu. Talvez não existam; mas se existissem, duvido que o desaparecimento de tais “parasitas” fosse sentido como um mal.

10 B. Hölldobler e E.O. Wilson,Voyage chez les fourmis (Viagem ao reino das formigas), , éd. du Seuil, 1996, p. 143.

11 Mesma fonte.

12 A. Lindbergh é de extrema direita, isto é, ela diz bem alto aquilo que, infelizmente, quase todo o mundo pensa bem baixinho.

13 Ela o é ainda, maciçamente… ainda que alguns progressos comecem a se fazer sentir.

Fonte: Cahiers antispécistes n° 14 (dezembro 1996)


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Mistura de gêneros

Em Animals’ Agenda (Agenda dos Animais), novembro de 1991:

Segundo Jared Diamond, professor de fisiologia na California Medical School (Escola Médica da Califórnia), em Los Angeles, “Os humanos não constituem uma família distinta, nem mesmo um gênero, mas pertencem ao mesmo gênero que o chimpanzé comum e o chimpanzé anão». Diamond detalha os dados genéticos que sustentam a sua tese em seu novo livro, The Rise and Fall of the Third Chimpanzee (A Ascensão e Queda do Terceiro Chimpanzé). 

Trata-se de uma questão de classificação, de ordenação em compartimentos. Atualmente, os zoólogos colocam a espécie humana, denominada Homo sapiens, num compartimento exclusivo dela, o gênero Homo. No sistema utilizado para classificar as espécies vivas, os gêneros são os compartimentos de primeiro nível, e estão eles próprios reagrupados em famílias, depois em ordens (aqui: os primatas), em classes (os mamíferos), em ramificações (os vertebrados1), e, por fim, em reinos (os animais). Às vezes se acrescentam níveis intermediários, como no presente caso a superfamília, que reagrupa algumas famílias. Na classificação atual, como se vê no quadro a seguir, a espécie humana tem direito não somente a um gênero, mas também a uma família inteira exclusivamente para si, o que é incomum, sem ser excepcional.

Família dos Hilobatídeos = gibões…
Família dos Pongídeos, 3 gêneros:

Gênero Pongo = orangotangos, 3 espécies
Gênero Pan = chimpanzé, 2 espécies:

Pan troglodytes = chimpanzé comum
Pan paniscus = chimpanzé anão
Gênero Gorilla, 1 espécie
Família dos Hominídeos, 1 gênero:

Gênero: Homo, 1 espécie:

Homo sapiens = humano
 
A classificação atual: O que ela poderia tornar-se :
Superfamília: Hominóides, com 3 famílias: Superfamília: Pongóidés, com 2 famílias:

Família dos Hilobatídeos = gibões…
Família dos Pongídeos, 3 gêneros::

Gênero Pongo = orangotango, 3 espécies
Gênero Homo, ou Pan3 espécies:

Homo, ou Pantroglodytes
Homo, ou Panpaniscus
Homo, ou Pansapiens
Gênero Gorilla, 1 espécie

Uma questão de nomes

A modificação proposta por Diamond implicaria suprimir não somente a nossa família (muitos zoólogos estão de acordo), mas também o nosso gênero. A espécie humana seria realojada no mesmo gênero que os chimpanzés. O ponto sensível da arrogância humana é que se trata não somente de compartimentos, mas também de nomes. Temos orgulho de chamar-nos Homo, “ser humano” em latim, e somos o único Homo, que além disso é sapiens, “sábio» em latim. Ora, neste sistema lineano, cada espécie é chamada pelo seu nome de gênero – um substantivo, portanto, que quer dizer aquilo que somos – seguido de um adjetivo, para dizer como nós o somos. Colocar-nos no mesmo gênero que os chimpanzés será obrigar-nos a usar o mesmo nome substantivo que eles, com apenas uma qualificação diferente. Assim sendo, atribuindo-se ao novo gênero comum o nome Homo, o nosso nome permaneceria Homo sapiens, mas as duas espécies de chimpanzés se chamariam: Homo troglodytes e Homo paniscus ; isto sugeriria que nos seus laboratórios os humanos mutilam e matam cotidianamente, em seu benefício, outros humanos. Se, pelo contrário, se conserva o nome Pan, seríamos Pan sapiens, o que pareceria dizer que somos, em substância, chimpanzés – que praticamos a vivissecção em outros dos mesmos, porque isto nos convém e porque somos mais fortes do que eles.

Somente uma questão de nomes?

Não li o livro de Diamond. Segundo Animals’ Agenda, sua tese se apóia em dados genéticos. Isso pode parecer que lhe dá um cunho de objetividade, mas não se deve iludir: não existem hoje em dia critérios objetivos universalmente reconhecidos para justificar a reunião ou não de duas espécies numa mesma divisão. O problema neste nível não reside na determinação das diferenças entre espécies, sejam elas genéticas, anatômicas, comportamentais ou outras, mas na importância a ser atribuída a cada uma dentre elas. Li assim, num livro sério, um biólogo sério2 propor seriamente não somente dar ao ser humano uma família exclusivamente para ele, mas criar também para ele uma ordem e uma classe – não seríamos mais mamíferos, como os porcos – e ainda uma ramificação à parte, e, mais ainda que isso, seríamos, segundo ele, o único representante de um reino, o reino humano, e isto, não ao lado dos reinos animal e vegetal, mas mais longe ainda, num super-reino nosso, o dos Noobiontes, dos seres vivos que pensam3. E esta extravagância – que vai mais longe ainda que o uso corrente da língua que classifica os humanos à parte dos animais – se basearia, para esse biólogo, no fato de que os humanos “sabem que eles sabem», quando os animais, lamentavelmente, quando muito, sabem, mas, diz ele, não sabem que sabem. O que é que isto muda? Em princípio, nada. Nós lutamos para que a consideração dos interesses de tal ou tal ser não dependa do número das suas patas, nem de sua capacidade de saber que ele sabe, nem do gênero ou do reino em que ele está classificado, nem do nome que lhe é dado. Para mim, não se trata de dizer que as diferenças entre os humanos e os outros animais não têm importância. Eu creio que o desenvolvimento das capacidades intelectuais dos humanos chegou, pela primeira vez na história da terra, a ultrapassar certo limiar crítico, permitindo a explosão da cultura, sendo esta explosão um fenômeno natural, mas único no dia de hoje. Esta cultura nos  permitiu, ao menos em certos pontos, melhorar a nossa própria sorte. Mas o que importa sobretudo é que, devido a este fato, adquirimos uma responsabilidade sem precedente, individual e coletiva, para com todos os seres sensíveis, quer isto nos agrade, quer não. Não somos substancialmente diferentes dos outros animais; o que faz a nossa vida, os nossos prazeres e os nossos sofrimentos, os nossos desejos e as nossas dores, muitos outros, além dos humanos, os experimentam. Mas temos a responsabilidade, não somente de acabar com a exploração brutal que impomos aos outros seres, mas também de fazer com que eles se beneficiem das nossas capacidades, sem que nos encerremos nesse apartheid das espécies, esse desenvolvimento separado que reivindica a maioria dos ecologistas (o apartheid, aliás, não excluindo, realmente, a exploração).

O perfume da espécie

O que podem, portanto, alterar essas questões de classificação e de denominação ? Agora, é verdade que, sob um outro nome, a rosa não tem o mesmo perfume. E uma vez que temos uma responsabilidade em relação aos outros seres sensíveis, não será classificando-nos o mais longe possível em separado deles que nós nos prepararemos para assumi-lo. Se o racismo é um erro, não é porque todos os humanos se classificam dentro da  mesma espécie; no entanto, a questão foi debatida acaloradamente no século XIX.  Hoje em dia, os humanos são colocados na mesma espécie porque são interfecundos. Isto, em si, não fez desaparecer o racismo, do mesmo modo que a tese de Diamond, se ela for reconhecida, não é uma varinha de condão contra o especismo. Entretanto, a vontade que tiveram os racistas de colocar alguns o mais longe possível em separado deles assemelha-se bem à que tiveram os especistas de afastar-nos, no seio da classificação dita científica, dessa “parentela vergonhosa” que representam para eles os outros animais e os outros macacos em particular. E o fato de mudar os nomes, de nos denominarmos chimpanzés ou de chamar os chimpanzés de humanos, certamente faria ranger muitos dentes, e sobretudo, talvez torne um pouco mais difícil ainda  sustentar que os nossos interesses devem contar infinitamente mais do que os de todo aquele que não é humano4.

Notas

1 Mais exatamente, a ramificação dos cordados – mas os cordados são quase todos vertebrados.

2 Georges Pasteur, artigo intitulado “Le foisonnement du vivant” (“O intumescimento do ser vivo”), em Histoire des êtres vivants : le monde animal (História dos seres vivos: o mundo animal), dir. Jean Dorst, Hachette, 1985.

3 Os dois super-reinos são, classicamente, os procariotos (bactérias) e os eucariotos (plantas, animais, fungos e protozoários) ; para G. Pasteur, parece que a distância entre uma vaca e um humano é tão importante quanto a distância entre uma bactéria e uma vaca.

4 “Os animais – dos quais fizemos os nossos escravos – nós não gostamos de  considerá-los nossos iguais. Os proprietários de escravos não desejam fazer do homem negro um outro gênero (kind)?» Charles Darwin, citado em “Darwin Unbuttoned” (“Darwin Informal”), J.R. Durrant, The New York Review of Books, 28 de abril de 1988.

Tradução: Nicolau Kouzmin-Korovaeff

Fonte: Cahiers Antiespecistes n° 2 (janeiro 1992)


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Foto ilustrativa

Porque eu não sou ecologista

Propusemos este texto em outono de 1988 para a revista ecológica Silence… que o recusou alegando-nos que este exprimiria apenas “uma determinada visão do mundo». Na França, éramos um pequeno grupo de militantes da causa que ainda não se chamava libertação animal, e nós pensávamos que o movimento ecologista — reputado pela sua “abertura de espírito» e do qual alguns de nós nos sentíamos próximos — fosse capaz de suportar tal debate. Face à censura e à violência das críticas, tivemos que desistir.

Na França, recentemente a ecologia foi atacada de forma bastante violenta e com sucesso, pois existe um certo público que alimenta o ressentimento antiecologista por desejar continuar poluindo sem limites. Espero que o leitor saiba fazer a diferença entre estes ataques e os meus. Eu atribuo uma grande importância à preservação da qualidade do meio ambiente na medida em que ela é necessária à vida, à felicidade dos seres sensíveis que o habitam. Mas não atribuo ao meio ambiente nenhum valor em si, não vejo nas “leis naturais” nenhum imperativo — elas são apenas enunciados de situações mais ou menos modificáveis. Até hoje, todas as ações de grande escala de intervenção no meio ambiente, foram motivadas pensando-se no bem dos seres humanos — quase jamais no bem dos demais “usuários”. Isso não implica em que a ideia de modificar a “Natureza” seja rejeitável, quando o objetivo for determinado levando-se em conta equitativamente os interesses de todos. Tais ações não são preocupações fundamentais atualmente, mas este debate me parece importante pelo menos no tocante ao plano dos princípios, pois a veneração pelas “leis naturais” é, em minha opinião, um obstáculo maior face às ideias da libertação animal.

Após ter circulado de mão em mão, este texto foi publicado na revista de Nantes Le Farfadet. Mesmo que, sob alguns aspectos, o texto tenha sido “datado”, o reproduziremos aqui com algumas pequenas modificações formais — pois se eu começasse a reescrevê-lo, não poderia dizer quando terminaria.

D.O.

Em geral, parece-me que os ecologistas divinizam a natureza e, ao mesmo tempo, fazem dela uma ideia medíocre e petrificada.

Surpreende-me ver como poucos participantes de movimentos alternativos na França deram o passo e pararam de consumir carne. Comer carne é ordenar o abate de um ser sensível que vive e que dá todo valor ao único bem que a que ele pode dar; ao único bem que ele possui: sua vida.

Eu me oponho aos ecologistas pois, para eles, a raposa que come a lebre é algo bom, enquanto isso preservar o “equilíbrio natural”, enquanto eu, vejo o sofrimento da lebre. Para achar isso “bom” é preciso ter o espírito fechado e ser cego para não notar o que na realidade isso representa. Os ecologistas somente enxergam na natureza as espécies; sem a intervenção do homem, estas espécies variam pouco, pelo menos visivelmente falando; a impressão de estabilidade que daí resulta proporciona um vago sentimento de repouso, de segurança; e eles falam então de harmonia da natureza.

A tortura é permanente na América Latina, e por causa disso seria ela harmoniosa? Os ecologistas acham bom que a raposa mate a lebre porque isso preserva uma ordem. A tortura também preserva uma ordem.

Jean Dorst, naturalista renomado:

Aqueles que desejam abolir a caça frequentemente não têm muita consciência do fio estreito que une a vida e a morte. É então necessário julgar sem nenhum sentimentalismo a caça e considerá-la como uma atividade “normal” e como a exploração legítima de um capital natural para o benefício e a satisfação esportiva do homem1.

Vários ecologistas pensam assim. Entretanto esta atitude mostra um imenso desprezo pelo citado sentimentalismo; quer dizer, contra a compaixão por seres que nos são próximos, pois acreditam que devemos fechar os olhos para os sofrimentos daqueles que denominamos “animais”; enquanto que a lógica científica, assim como o simples bom senso, insistem que nós também sejamos denominados como animais.

Frequentemente, os ecologistas não gostam da caça. Geralmente, e eu tenho certeza, por causa da antipatia que sentem pelo prazer de matar. Mas quando o confronto ocorre, apenas um ponto é questionado: os caçadores degradam ou não a natureza? A simpatia pelos animais é colocada em surdina, como se este sentimento causasse vergonha. Assim, certos ecologistas tornam-se aliados com os “bons” caçadores ou, com maior frequência, com os pescadores (essas pessoas pacíficas que, depois de terem furado uma minhoca qualquer, um bicho inferior, sufocam o peixe que ainda treme e rasgam a carne de suas goelas). Para os ecologistas, são “bons” caçadores ou pescadores, quando preservam o equilíbrio natural.

pou1-2Este cartaz, que apresenta uma raposa segurando um camundongo entre os dentes é obra dos “Amis des Renards et Autres Puants” (ARAP – Amigos das raposas e outros fedorentos), ou seja, ecologistas que se apresentam como “amigos” de (certos) animais. Com a finalidade de incitar os caçadores (humanos) a não mais matarem as raposas, a ARAP saúda cada um deles “que protege a natureza e respeita os outros caçadores”. A idéia de que a predação poderia ser uma realidade funesta nem lhes passa pela cabeça.

Antes pelo contrário, os ecologistas são, frequentemente, fascinados pela predação. Os animais com os quais mais se preocupam são os predadores (raposas, lobos, linces, aves de rapina…). É raro que um programa na TV, sobre a natureza, não mostre cenas sangrentas — mas tão belas — de leões caçando gazelas. Os manuais de ecologia privilegiam o estudo das “cadeias tróficas” — enquanto que os animais fazem outras coisas além de se alimentarem.

O “equilíbrio natural”

Preservar, equilíbrio, natural: o credo ecologista. Mas, imaginem, a “natureza” nunca foi equilibrada:

a) A natureza é o todo, a realidade. Homo sapiens faz parte da natureza. O cimento armado, o carro, as centrais nucleares, tudo é natural.

Se o homem tem, sem dúvida, e em um sentido mal definido, uma inteligência superior a todas as outras formas de vida, é uma particularidade natural. A lebre corre mais, o ser humano raciocina melhor, e, caso ele destrua o planeta, nada mais seria do que o resultado da evolução natural.

Isso não altera nada da nossa capacidade de escolha. Podemos ser contra os automóveis, as centrais nucleares e o consumo de carne não pelo fato de eles não serem “naturais” mas por causa do sofrimento e da morte que provocam. Faço parte da natureza e qualquer escolha que eu fizer será instantaneamente natural. A natureza não me dita as minhas escolhas.

Quando digo que somos animais, eu não evoco uma “parte animal” que existe em nós. Nós somos 100% animais. Também somos 100% humanos. E isso não faz 200%, assim como se eu disser que a água é 100% um líquido e a 100% um composto de hidrogênio.

b) A natureza, com o homem ou sem ele, não é equilibrada. Ela é o reino da harmonia e da dissonância, da continuidade e das transformações lentas ou catastróficas, da memória e da inovação. Ela é o reino da adaptação e da inadaptação.

Todo ser vivo pluricelular morre um dia. Um órgão minado pelo tempo para de funcionar, o organismo se envenena com suas próprias toxinas, os pulmões param, os órgãos sufocam; os músculos ficam sem oxigênio e produzem ácido lático. Para sobreviver. Que bela adaptação à situação. Tudo morre na ruptura do equilíbrio, o pânico. O sangue da lebre estraçalhada pela raposa tenta coagular para curar as chagas de uma pele que está sendo digerida. Onde está a harmonia?

A “Mãe Natureza”, que tudo prevê, não previu nada para a morte. Salvo a exceção de que, o que acontece a um animal quando ele morre, não tem nenhuma influência no futuro de sua espécie. Ao longo do tempo não ocorreu nenhuma adaptação fisiológica a esta situação. Como um animal morre, isso não interessa mais à “Mãe Natureza”, que, entretanto, previu a morte em sua ordem. Que ele se vire, em seu sofrimento ou na tranquilidade, o importante é que morra, pois não serve mais para nada!

A harmonia, para a lebre, se encontra talvez em suas longas patas traseiras que lhe permitem, com frequência, escapar da raposa. Mas a sobrevivência da espécie da raposa ao longo das eras atesta os limites desta harmonia.

A adaptação dos animais a seu meio ambiente é bem relativa. No verão as andorinhas vêm para a França a fim de comerem insetos voadores, faz calor e o ar é seco. Mas, quando chove durante vinte dias sem parar? Elas não conseguem se alimentar e morrem aos milhares. Seus filhotes também, de qualquer maneira, mesmo em condições “normais”, poucos são os destinados a sobreviverem mais que alguns meses.

As mudanças climáticas são um fenômeno constante. As glaciações do quaternário destruíram grande parte das espécies de plantas e animais europeus.

Diferentes tipos de plantas crescem em solos e sob climas diferentes. A agricultura “orgânica” deseja “respeitar a natureza”, oferecendo a cada planta suas “condições naturais”. Com efeito, na natureza, raras são as plantas que crescem em suas “condições ideais”. Elas crescem lá onde podem, até o extremo limite das regiões onde podem sobreviver. As plantas raquíticas e defeituosas são um fato da natureza. Além disso, a noção de “condições ideais” não faz sentido. Fundamentalmente, um cactos tem tanta necessidade de água quanto qualquer outra planta. Ele não é “bem adaptado” ao deserto, ele é menos mal adaptado do que outras, e ele se instalou no deserto por causa da menor concorrência que aí encontra. Em segundo lugar, ele pode ter perdido suas defesas, contra, por exemplo, os mofos, pouco virulentos em meio seco; o resultado é uma planta que sofre permanentemente de sede e é incapaz de viver em meio úmido. Um inadaptado por natureza.

A natureza, é a inovação contínua. Na Inglaterra, as raposas, expulsas dos campos, se instalaram nas cidades. Nos campos, elas cavavam tocas. Na cidade, elas se viram. Você acha que o instinto que lhes levava a cavar tocas tenha desaparecido? Para sobreviver, elas vão contra seus instintos. A primeira causa de mortalidade é, massivamente, o atropelamento por carros. A espécie prolifera? Vá ver a harmonia, vá olhar os cadáveres esmagados (não é preciso ir longe, aqui na França temos os pombos e os gatos)!

O homem destrói a fauna e a flora; há, se não me engano, uma espécie a menos por dia. Fenômeno novo, escandaloso, contra a natureza? Quando a deriva dos continentes uniu a América do Norte à do Sul, uma boa parte da fauna sul americana foi exterminada pelos predadores vindos do norte, que ela não conhecia. Fenômeno talvez detestável, mas antinatural?

A natureza evolui indo contra o natural. As raposas e os ratos nas cidades, as vacas homossexuais, os pássaros ingleses que tiram as tampas das garrafas de leite deixadas pelo leiteiro, são antinaturais. A lebre que corre para escapar da morte também vai contra sua preguiça, contra a parte de sua natureza que é hostil ao esforço.

Tenho dores nas costas, porque os ancestrais do homem agiram “antinaturalmente” e ficaram em pé.

Eu não nego inteiramente a harmonia natural. Ela existe pela força das coisas. Os peixes possuem brânquias, e vivem debaixo da água. É bom, é adaptado, é harmonioso, mas essa harmonia não me conduz a nada. Nenhum animal “obedece” à natureza. Se ele tem instintos é porque ele é assim, ele não obedece a seus instintos. Não há um deus-peixe que comande o indivíduo peixe. A natureza não obedece à natureza, ela é a natureza.

As leis naturais

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Eu não nego as especificidades do Homo sapiens, pois é uma espécie. Elas são para mim coisa importante. Eu posso ir contra meus instintos, contra uma parte de mim mesmo. Eu posso escolher. Eu creio que todo ser vivo escolhe, em um sentido, pois nele há contradições. Mas o homem o faz de modo mais claro. Amarrar-me a um deus-natureza, seria também ir contra minha natureza.

Gosto muito da natureza, quer dizer, da realidade. Amo a vida, que faz parte desta realidade, amo o prazer e a felicidade e também amo a felicidade alheia. Para mim o porco é um animal totalmente simpático. É insuportável pensar o que fazem com esses seres enquanto são criados e nos abatedouros. Que desperdício! Que inconsciência reduzir um ser sensível a pedaços de carne! E isso pelo pequeno prazer de comer carne!

Para mim isso é escandaloso, se eu achar ou não o animal simpático, se ele for ou não inteligente, bonito ou não; eu não reduzo a natureza a minhas simples afinidades pessoais.

Eu não acredito nos vegetarianos que dizem que comer carne não é algo natural. Parece-me provável que o homem, através da evolução, tornou-se adaptado para comê-la. Isso não muda nada, pois podemos viver muito bem sem comer carne.

Eu amo muito a natureza, amo o que ela traz: a vida, o prazer, e não gosto do que ela tira: o sofrimento, a morte. Eu amo os gatos e os ratos.

Eu não gosto da caça porque não gosto que matem as perdizes. “Sentimentalismo”, diz Jean Dorst? Não, mas a consciência do valor da alegria da vida da perdiz.

Tenho plena consciência da existência da morte. Quanto ao “fio estreito” entre a vida e a morte do qual fala Jean Dorst, com uma conotação um pouco mística, realmente eu não o vejo, eu apenas constato que todo ser vivo pluricelular morre um dia, eu lamento, mas até hoje eu não posso fazer nada contra isso. Assim como não posso fazer muito contra a fome no mundo. A fome é, talvez natural, mas não vou, por causa disso, pegar um fuzil para matar quatro ou cinco etiopianos para meu benefício e minha satisfação esportiva. Este benefício e esta satisfação esportiva são coisas bem sérias, aos olhos de Jean Dorst. Eu não as desprezo, todo prazer para mim é algo sério. Mas que desprezo ele e tantas pessoas mostram em relação a tudo que não corresponde a uma atividade humana produtiva, institucionalizável, econômica! Sentimentalismo! Jean Dorst é um homem sério. Um general também e o soldado que não quer matar o soldado “inimigo” demonstra sentimentalismo.

Jean Dorst tem razão ao dizer que a caça é uma atividade normal. A predação e o câncer também — mesmo se o fato desagrada aos místicos da natureza — existem há milhões de anos.

Eu não sou ecologista, porque não estou de acordo com a preservação do “equilíbrio natural”. Eu já disse que não acredito, como eles, neste equilíbrio. E acredito que o que existe é bom, mas desejo que seja ainda melhor. Aqueles que têm um câncer desejam viver, mesmo se vivendo podemos ter um câncer.

Um problema de ética

Se vivermos sem questionar muito as coisas, podemos criar uma ética simples, mesmo que ela não se fundamente em nada. A ética pode ser a de ir à missa e de voltar para casa para dormir tranquilamente. Pode ser a de seguir as leis, a de ser um bom comerciante e de vender as laranjas da África do Sul sem roubar os fregueses. Pode ser a de tentar seguir as “leis da natureza”, depois de tê-las inventado, assim como criamos Deus.

Eu não tenho uma ética simples. Minha ética é baseada na busca da felicidade, no fato de evitar a infelicidade. Eu creio que esta é a única base séria para uma ética. Mas não sei muito bem o que é a felicidade ou a infelicidade. Sei claramente que estas palavras têm um sentido para mim e os outros humanos, e não duvido que também tenham para as vacas e os peixes. Acho que têm também um sentido para as lagostas e os insetos, e não sei se têm para as plantas.

É fácil ter uma ética que, em vez de questionar as coisas difíceis a serem mudadas, decide classificá-las como sendo “boas”. A minha moral, eu quero considerá-la como construída sobre coisas reais; a alegria e o sofrimento são para mim coisas reais, como a água ou as pedras, mesmo que a física atual não as conheça. Eu não quero, então, por convenção, classificar qualquer coisinha de “boa”. E isso implica também o fato de viver na inconstância, na insegurança ética. É bom o fato de matar uma cobra, para salvar um grande número de rãs? Mas as rãs comem tantos insetos… Estes últimos se devoram entre si ou fazem mal para as plantas. Eu não sei se elas sofrem, se elas têm dores quando se sufocam reciprocamente, se envenenam, fazem sombras umas para as outras. Em muitos casos, eu não sei dizer o que é justo. Ou então, o que é justo é muito difícil de ser assumido: a cada passo que dou, arrisco de matar formigas. Talvez eu deveria suicidar-me para salvar as formigas? Não o farei.

Isso não impede que existam coisas simples que possamos fazer. Não comer carne é uma delas. Mas em minha incoerência infalível, aceito a crítica dos comedores de carne que frequentemente me perguntam “Mas você come as plantas, elas também são seres vivos” e isso sempre dito por pessoas que não se preocupam nem um pouco com o destino dos animais e das plantas. É verdade que é muito mais fácil, muito mais coerente ser 100% canalha do que um canalha pela metade.

Pergunto-me como é possível que com uma ética baseada na “ordem natural das coisas”, “a harmonia sendo resultante da competição e da seleção”, a maior parte dos ecologistas seja de esquerda, socialmente progressista. A ecologia à moda de Pétain, à moda de Hitler me parecem mais lógicas. Um(a) ecologista homossexual escutará frequentemente o comentário: “mas… a homossexualidade, é algo contra a natureza!” Alguns responderão que o homem, não é como a natureza; pois ela continua, em seu espírito, sendo o campo do imobilismo, das “leis naturais” às quais é necessário obedecer, um campo finalmente muito pobre, onde a liberdade não existe, apesar de sua diversidade impressionante.

Quando eu renuncio a criticar alguém é que, no fim das contas, o desprezo. A gente se pergunta se os ecologistas respeitam a natureza ou se estão sobre seu domínio. Não renunciei a criticar a natureza. Eu a estimo muito mais do que a maior parte dos ecologistas.

Em geral, os ecologistas são progressistas, mas sua adoração pela natureza deixa traços profundos. Sem falar da tendência deep ecology (“ecologia profunda”), pela qual (eu acho) a França foi pouco atingida (é a ecologia que acha que devemos deixar os etiopianos morrer em nome do equilíbrio natural), basta examinarmos o tratamento dado à imigração pelo programa do partido Verde francês “lamentando” (eles são contra a abertura das fronteiras, e isso por razões sociais, econômicas, etc.). Podemos logicamente deduzir que eles seriam a favor das expulsões das pessoas que entraram no território, a favor dos controles de passaporte e da “carte de séjour” (documento que controla e permite os estrangeiros viverem e trabalharem em solo francês), etc. Tudo isso, porque, são servis às “leis sociais”, às “leis da economia”, não enxergam que nada pode justificar a discriminação das pessoas por causa do lugar onde estas nasceram. Chegam a afirmar que desejam esta proibição visando o bem das pessoas, assim como um número da revista La Hulotte qualifica não sei mais qual médico predador pela sua vítima, sem parecer estar consciente do cinismo que isso representa.

…Os ecologistas estão cegos no nível humano por causa das “leis da sociedade” assim como estão cegos por causa das “leis da natureza”.

Possibilidades de ação

Na Inglaterra há mais de três milhões de vegetarianos. Pelo que eu saiba Silence nunca falou disso. Uma boa parte dessas pessoas têm como motivação principal recusar a violência cometida contra os animais. Os movimentos alternativos franceses acham natural falar de convivialidade, de outras relações humanas, imaginando friamente que, em uma sociedade ideal cada um mataria seu leitão, crescido de forma orgânica e descentralizada. Enquanto isso, eles comem bezerros criados em indústrias, ainda que continuem sensíveis ao problema dos hormônios, pois poderiam ameaçar a saúde, ou ainda compram seus coelhos orgânicos na cooperativa orgânica da esquina.

Na Inglaterra e na América do Norte há poderosos movimentos de anti-vivissecção, há a ALF (Animal Liberation Front), e grupo anti-vivissecção. A imprensa alternativa francesa se desinteressa completamente deste assunto. Entretanto parece que um pequeno movimento começa a se desenvolver na França: o FLA, e o grupo que recentemente liberou os cães da INSA de Lyon também existe.

O sofrimento que o homem impõe aos animais é, também, com efeito, a vivissecção, esta tortura cotidiana que acontece nos laboratórios. Sou contra, mesmo quando ela traz um benefício real ao homem. Se me demonstrassem que através do sacrifício de um gato poderíamos salvar milhões de pessoas da AIDS, eu hesitaria, sem dúvida; mas não é nisso que o problema se baseia. Sem falarmos da experimentação militar (os testes feitos com os gases de combate), que é fácil de ser condenada, constato que todas as experimentações feitas com animais são feitas para a conveniência e o benefício dos humanos; se eles querem um tal medicamento anti-cancerígeno, porque seria anormal que assumam o risco de testá-lo em si próprios? Se os seres humanos estão suficientemente motivados em ter um adoçante artificial para suas bebidas gasosas, por que não arriscam um pouco sua própria saúde, sua própria pele para obtê-lo? Em vez de condenar à morte e ao sofrimento os camundongos que, a priori, não têm nenhuma vontade de se entupir de ciclamato. Eu não nego o caráter de várias experimentações humanas, freqüentemente realizadas sem o consentimento do outro, mas como podemos achar menos escandaloso o sacrifício cotidiano de milhões de animais por grandes ou pequenas causas que nada têm a ver com suas vidas, e que são feitos com experimentações covardes, encorajadas por um público covarde que não ousaria sofrer nem mesmo dez por cento do que impõe a outros seres.

As barreiras que tranquilizam

Talvez vocês tenham compreendido: coloco no mesmo nível a vida de um ser humano e a de um animal. A vida humana, para mim, não possui nada de particularmente sagrado… Nada mais, em todo caso, do que o prazer de beber uma bebida com gás. A vida é feita de pequenos e grandes prazeres e desgostos e, arriscamos nossa vida e também a dos outros porque consideramos mais cômodo andarmos de carro. Arriscamos nossa vida pelo prazer de fumar. Mas colocar no mesmo nível a vida de um animal e de um ser humano! Que escândalo!

Na verdade, temos medo. Este “caráter sagrado” da vida humana aparece como uma conquista, uma garantia contra o nazismo, contra a “eutanásia” imposta, contra as execuções, etc. Que garantia eficaz! O automóvel: 11000 mortos por ano na França, frequentemente vítimas completas de uma escolha que outros fizeram por puro utilitarismo. No tempo de guerra, este “caráter sagrado” parece, de repente, ser relativizado. Sem falar das fomes mais ou menos programadas e que até deixam as pessoas bem indiferentes.

A “nova direita” francesa teve problemas em parecer como a campeã da liberdade de pensamento, face à quantidade de bagatelas às quais as pessoas “da esquerda” se fixam com desconfiança. Ao revisionismo responde-se com uma tentativa de proibir examinar contraditoriamente à história; à tortura proíbe-se o exame dos direitos dos homens… À vivissecção alguns respondem acenando com os “direitos dos animais”, noção absurda, não apenas porque a ideia de direito me parece ela mesma absurda — eu não vou discutir isso aqui — mas, enquanto acharmos normal que a raposa coma a lebre, em que consiste o direito da lebre? Alguns esboços dos “direitos dos animais” lhes proporcionam o direito de serem abatidos humanamente!

Para explicar porque sou contra o nazismo ou o racismo, preciso de mais palavras do que se eu lançasse um slogan sobre o “caráter sagrado da vida humana”. Minha explicação parecerá talvez mais longa e mais complicada, talvez menos evidente. Azar. Mas qual foi a eficácia do tabu que lançamos sobre o racismo durante anos? Hoje em dia este tabu cai por terra. Se ele limitou ou atrasou os estragos, melhor ainda, mas parece-me sobretudo que tenha evitado às pessoas “da esquerda” de refletirem.

A distinção fundamental que fazemos entre os homens e os outros animais tranqüiliza. Cada um em seu devido lugar nesta sociedade, cada um é reconhecido, tem sua carta de identidade, é protegido pela lei. Presume-se que essas leis garantem que nem mesmo o pior mendigo seja tratado como um cão. A segurança trazida pelas normas sociais, tem, apesar das aparências, pouco a ver com a segurança física. Temos mais medo, em nossa sociedade, de nos tornarmos fora da lei, de perdermos a “segurança social”, ou a aposentadoria, do que morrer dentro das normas em um hospital. Se as pessoas têm mais medo de serem atacadas na rua do que morrerem em um acidente de carro, é porque têm medo de se encontrarem face a face com alguém que não respeita as normas, e de não saberem como devem se comportar nesse caso.

Devemos aceitar viver na insegurança intelectual e ética. Não por prazer, mas porque o mundo é cruel e desconhecido e porque devemos ser honestos. Atualmente não tenho nenhum ideal imaginável a propor. O fim do capitalismo, uma sociedade igualitária, convivial, mesmo que habitada unicamente por vegetarianos, isso não significa muito para mim enquanto no reino animal existirem lebres mortas por raposas.

A boa consciência ecológica

Face à destruição do meio ambiente pelo homem, os ecologistas se agarram ao mito da preservação da Mãe Natureza. Eu fico revoltado com o extermínio das raposas; isso pode parecer contraditório com minha revolta contra o que as raposas fazem com as lebres. E aqui tenho um problema que não sei resolver. E tenho muitos outros, mais difíceis ainda. Porque eu deveria, pelo fato de chamar um problema um problema, ter a capacidade de propor uma solução, se possível imediatamente? Ninguém ainda conseguiu a cura para a Aids, isso não impede que sejamos conscientes que a aids é um problema e que procuremos soluções.

Mas isso amedronta. Se vamos contra a ordem da natureza, até onde chegaremos? Por medo, decidimos que a natureza é o bem. Por definição. Minha atitude é realmente perigosa, tenho a consciência disso. Não quero transformar o universo em um mundo planificado, regrado pelo homem. A alimentação sintética para as raposas, a contracepção para as lebres, esse tipo de idéia me agrada apenas pela metade. Tenho um problema que não sei resolver e tenho poucas chances de encontrar uma solução, ainda que teórica, enquanto eu for (quase) o único a procurá-la.

A divinização da natureza me parece não apenas estéril, mas algo também um pouco cínico. Poucos ecologistas “seguem” a natureza quando isso lhes atrapalha pessoalmente. Preservar a natureza é uma boa pedida, mas fazer-se predar por um leão, não, muito obrigado! Isso é bom para as gazelas. Pois a espécie delas sobrevive apesar de tudo. Mas, um ecologista a menos, será que isso colocaria em perigo a espécie humana?

A preservação das espécies, sob uma aparência de sabedoria-profunda-ligada-ao-cosmo, frequentemente esconde uma simples e dura atitude utilitária em relação à natureza. Nenhuma compaixão pela gazela que é um animal bonito a se observar, sendo apenas necessário se assegurar que sempre existam outras. Jean Dorst o diz claramente: a natureza é um capital de diversões para o homem. É necessário preservar os passarinhos: eles protegem nossas colheitas contra os insetos. Abaixo as centrais nucleares: seus lixos passam na cadeia alimentar e através dela até nós. Ninguém pensou em evacuar os coelhos que viviam ao redor de Chernobyl, condenados a uma morte terrível.

“O ser humano em primeiro lugar” dizem os ecologistas, os poderes públicos, quase todas as pessoas. Na Inglaterra, isso recebeu um nome: trata-se do “especismo” (speciesism), como “racismo” ou “sexismo”.

Uma outra compreensão da natureza

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Acredito, e isso é algo pessoal, que a natureza, quer dizer, a realidade, tem um sentido, ou mesmo vários sentidos. E o sentido que me parece importante, é o desejo tão amplamente difuso de aproveitar a vida. Este desejo deve representar um papel na evolução, mas não se confunde, nem de longe, com a preservação da espécie. Os cervos que se masturbam contra as árvores não estão buscando preservar a espécie.

O único respeito que tenho pela natureza, e este respeito é grande, é o respeito deste desejo de saborear a vida. Isso implica problemas. Mas eu creio que é dirigir-se, se não na direção da natureza, pelo menos em uma de suas direções. A única que me interessa.

Nota

1 Citado em Que choisir?, número especial “Week-ends, vacances : éclatez-vous”, été 1985, rubrique “Chasse”.

Por David Olivier / Desenhos de Doudou / Tradução de Anna Cristina Reis Xavier

Fonte: Cahiers antispécistes nº 7 (junho de 1993)


Defesa animal / libertação animal

A defesa animal, enquanto movimento organizado, existe há cerca de um século e meio; ainda que, logicamente, sempre existiram pessoas que demonstraram atos de amizade e de compaixão sem distinção de espécie. A libertação animal, que questiona os pressupostos fundamentais do especismo, nasceu como movimento a partir de 1975, ano da publicação por Peter Singer de Animal Liberation1.

Tais ideias não datam de 1975 pois o especismo já tinha sido analisado e questionado ao longo da história humana, por pessoas isoladas ou em pequenos grupos. Se para muitas pessoas este tipo de análise parece algo absurdo, isso pode ser atribuído aos dois milênios de cristianismo que sufocaram toda nossa vontade de levar em conta interesses dos não humanos enquanto tais2 (isso pode parecer paradoxal às pessoas que, como eu, foram criadas com a ideia que o cristianismo, pelo menos substancialmente, professe um amor extremo para os mais desfavorecidos). 

A carne

Poderíamos acreditar que o movimento atual de libertação animal seja simplesmente o prolongamento, ou mesmo a vitória do movimento precedente, de defesa animal. É o que pensávamos quando, há dois anos, quatro amigos e eu produzimos o folheto Nous ne mangeons pas de viande pour ne pas tuer d’animaux (Nós não comemos carne para não matar os animais)3. Sabíamos que poucas pessoas das associações de defesa animal eram vegetarianas, mas entramos em contato com elas, porque, pensávamos que o propósito delas era, pelo menos teoricamente, o mesmo que o nosso.

Ficamos decepcionados. Sentimos imediatamente que estávamos desagradando – em alguns grupos fomos abertamente insultados (“comedores de grama”). Os únicos membros que nos ajudaram pertenciam a uma minoria, pequena mas não negligenciável, de militantes já vegetarianos. Se nosso folheto convenceu algumas pessoas a pararem de comer carne, isso sempre aconteceu fora dos grupos de defesa animal. Por outro lado, dentro do movimento de defesa animal, aqueles que comem carne sabem muito bem o que estão fazendo e não têm a intenção de parar.

Esperávamos encontrar aliados entre os poucos vegetarianos que atuavam no movimento de defesa animal, esperávamos que eles nos ajudassem a impor ao movimento como um todo, uma análise sobre a questão da carne. Mais uma vez ficamos decepcionados. Alguns nos ajudaram a divulgar nosso panfleto Nós não comemos carne…, mas nunca se engajaram pessoalmente; de forma absurda, eles pareciam sistematicamente considerar que o vegetarianismo apenas poderia ser fruto de uma escolha pessoal.

Tudo acontece como se, no mesmo seio da defesa animal, existisse um acordo tácito para não questionar as regras de base que determinam as relações dos humanos com os outros animais; e, se é permitido não comer carne, isso deve representar ao máximo um questionamento limitado aos aspectos não essenciais das práticas especistas, como a criação industrializada de animais. Pior ainda, apenas devem ser evocados a ética, a dieta ou o caráter “não natural” do consumo de carne pelos humanos, para evitar contestar a justiça da utilização dos animais não humanos quando bem entendermos desde que possamos obter lucro disso. Se alguns admitem que não comem carne pelos animais, ninguém estima que esse tópico mereça que o consenso do grupo seja modificado, pois o grupo elege o inimigo número um: o monstro vivisseccionista e sua luta se dirige contra ele.

A vivissecção

Poderíamos esperar que os dois movimentos estivessem de acordo sobre o tema da vivissecção. Mesmo se para nós, esse tema seja apenas um aspecto “exótico” do problema, assim como as touradas ou o consumo de cães pelos coreanos, enquanto que todos os dias os cordiais seres humanos comuns ainda comam carne.

Mais uma vez ficamos decepcionados. Em vez de questionarem o princípio da utilização dos animais para qualquer finalidade humana, a defesa animal insiste sobre a “inutilidade” das experiências – inutilidade para os humanos, claro.

Os advogados dos animais

A defesa animal é, realmente, como a defesa na justiça. O advogado (o defensor) de um ladrão pode defender seu cliente, quer dizer, pedir que ele não seja punido ou que ele seja pouco punido, sem contestar as leis que punam os ladrões. A defesa animal defende os animais, no seio de um dado sistema. Ao defender os cães, ela dirá que eles fazem companhia para os idosos. Ao defender os gatos, dirão que estes matam os ratos. Ao defender os ratos, argumentam que o uso deles em experiências não é confiável. Ao defender os patos, argumentam que o patê de fígado de ganso (foie gras) é impróprio para consumo; ao defender as lebres, argumenta que a caça pode matar seres humanos, com balas perdidas ou desviadas.

Sobre o advogado de um ladrão pesa sempre, apesar de tudo, a ameaça de ser considerado como o advogado dos ladrões, como amigo deles ou adepto do roubo. É vital para sua defesa que o juiz não tenha a impressão que, se liberar este ladrão, ele esteja liberando todos os ladrões. Do mesmo modo, a defesa animal sente que é vital não analisar o especismo.

Radicalismo?

A distinção que fazemos entre defesa e libertação animal não é apenas uma simples questão de radicalismo. Os adeptos de Hans Ruesch, por exemplo, são radicais em sua recusa de conceder o mínimo valor que seja à vivissecção, e assim são abolicionistas puros e duros. Por outro lado, são extremamente retrógrados, por causa da estrutura de seus argumentos. Grande parte do tempo é usada para proibir qualquer análise do especismo (os argumentos éticos são, para eles, ineficazes ou não científicos, ou sentimentalóides, etc.). Do mesmo modo, os ataques contra os laboratórios de vivissecção quase sempre foram feitos por comedores de carne. Enquanto isso, os liberacionistas, publicam panfletos para difundir suas ideias. E não comem carne.

Se sou a favor da liberação animal, não é por causa de seu radicalismo. Eu não critico a defesa animal de ser “mole” ou “moderada”, eu a critico porque ela defende o especismo. Eu não procuro o extremismo das ideias, eu sou a favor da justiça das ideias. E o especismo não é uma ideia justa.

Notas

1 Peter Singer, éd. Jonathan Cape, Londres, 1975 et 1990; ver também Le mouvement de libération animale (“O movimento de liberação animal”), P. Singer, éd. F. Blanchon, Lyon, 1991.

2 Cf. a encíclica Solicitudo Rei Socialis do Papa João Paulo II, 1988, que parece esboçar uma ideia, mas que na verdade não leva em conta os animais, apenas os considera como componentes do “mundo natural”, e não como seres que têm seus próprios interesses e sua própria vida a ser vivida.

3 Panfleto coletivo, éd. Y. Bonnardel, Lyon, 1989.

Tradução: Anna Cristina Reis Xavier

Fonte: Cahiers antispécistes nº1 (outubro de 1991)


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