Resposta à carta sobre a Libertação Animal, de Gilles Dauvé

Por Janos Biro Marques Leite

Esta carta foi publicada em português numa revista marxista, e me chamou a atenção. Por compreender um pouco sobre primitivismo e libertação animal, tentei dar uma resposta ao que me parece ser uma crítica injusta e inapropriada.

  1. Quanto ao primitivismo e à libertação animal

O mérito do texto talvez seja demonstrar o quão incipiente é o debate sobre primitivismo e libertação animal no meio marxista. Mesmo concordando com o raciocínio geral do autor e boa parte de suas afirmações, sua crítica não adentra realmente no debate do primitivismo ou da libertação animal, que são duas coisas bastante distintas. No texto, a crítica primitivista é acusada de elevar um único aspecto da vida alienada (no caso, a caça) como origem ou causa de todos os males, quando na verdade a crítica à caça não é uma base fundamental nem do primitivismo nem da libertação animal. John Zerzan, principal autor do primitivismo, critica o sistema de produção baseado em caça, não pelo consumo de carne, sendo que ele mesmo não é vegano, mas por sua crítica às origens da divisão de trabalho e do patriarcado. A predação humana em si também não é alvo de crítica central da libertação animal. Primitivistas criticam a caça entre muitos outros aspectos, e nenhum é considerado como origem ou causa de todos os males. A crítica à civilização não é apresentada a partir de um único aspecto da vida alienada, mas sim a partir de aspectos que ainda não têm sido levados em consideração pela crítica social convencional. O que o primitivismo traz de novo, o autor infelizmente descarta como irrelevante por uma unicidade que nunca foi afirmada por essa corrente.

Assim, o autor subestima a capacidade crítica dos autores primitivistas, ou talvez se limite a criticar certa interpretação de Perlman, como se este falasse pelo primitivismo como um todo. Dito isso, podemos demonstrar vários pontos em que a crítica do autor simplesmente não se aplica ao centro do pensamento primitivista. Um destes, que posso citar de passagem, é a relação entre técnica, determinismo e domesticação.

O autor parece às vezes recorrer também a uma redução ao absurdo para invalidar a libertação animal como um todo. Em certo momento do texto ele afirma que a dieta carnívora tem um papel decisivo na sociabilidade. Mas disso não podemos entender que a carne é a causa única da sociabilidade, assim como não é a causa única dos males sociais. Mas ter um papel decisivo na sociabilidade não implica em estar acima de qualquer consideração ética. Bonobos são primatas extremamente sociáveis e com baixo consumo de carne comparado aos chimpanzés. O que explica a diferença é a escassez de fontes de proteína. Defender o atual consumo de carne em meio a uma abundância de fontes de proteína é problemático, principalmente porque este consumo tem sido em grande parte incitado pela indústria pecuária, e seu papel na sociabilidade não explica o aumento no consumo.

Podemos concordar com a maioria das afirmações do autor sem comprometer as ideias centrais dos movimentos que ele critica. Concordamos, por exemplo, que a produção de valor transforma tudo em mercadoria. A libertação animal defende que animais não são mercadoria. São seres com interesses semelhantes, e para os quais também cabe consideração de interesses. Para muitos ativistas, a única coisa que nos impediu de considerarmos os interesses de outros animais são concepções idealistas, sem nenhuma base material, sobre a superioridade dos seres humanos. Algumas vertentes da libertação animal tem afinidade com o objetivo de superar a sociedade baseada em produção, e seus defensores são aliados em potencial da crítica ao capitalismo.

  1. Quanto à origem da preocupação com os animais não humanos

O autor afirma que a preocupação com o status dos animais surge necessariamente de um ambiente intelectual que poderíamos descrever como “eco-capitalista”. Longe dessa descrição estereotipada, a crítica à ecologia desenvolvimentista e capitalista também está presente nesses movimentos, assim como a crítica ao humanismo e à modernidade. Há algum tempo, autores utilitaristas como Peter Singer, autor do livro “Libertação animal” têm sido criticados pelo próprio movimento, sendo chamados de “bem-estaristas” e recebendo as mesmas críticas que o autor faz. Mas o autor subestima o alvo de sua critica, e acaba condenando a parte pelo todo. Em certo ponto, o autor chega a criticar a libertação animal com base na própria ideia de libertação animal. Para se distinguir das concepções, alguns autores preferem o termo “abolição animal”, e deixam claro que não se trata de lutar por melhores condições de tratamento para os animais que usamos, mas do fim do uso de animais como escravos e como propriedade, sendo isso não o resultado de uma nova dieta sem carne, mas de um novo paradigma ético. O autor se esquece de que, pelo menos para o primitivismo, uma das bases da crítica é o movimento indigenista. Índios matam animais e comem carne, mas estabelecem uma relação diferente com os seres da natureza. A base do argumento pela abolição animal não é a dieta, mas a política, a ética e a cultura por trás do uso de animais, não só no consumo como em experimentos ou para entretenimento, por exemplo. Ao longo da história do pensamento, diversos autores colocaram essa mesma questão em jogo.

  1. Quanto ao fato de que as condições de vida geral estão piorando.

Nem seria preciso dizer nada sobre esse ponto dado o que dissemos antes. Mas surpreende que o autor cite tantos benefícios da civilização sem considerar os custos ambientais e o aumento da dependência tecnológica. O autor parece reproduzir uma crença no mito do progresso civilizatório. Podemos concordar totalmente que o avanço do capitalismo pode levar a sociedade a afastar-se cada vez mais da violência direta, essa visão é comum também no primitivismo. A crítica ao uso de animais não deriva de nem implica numa crítica à violência. Concordamos plenamente que a luta por formas de exploração menos violentas só desloca a opressão de um nível para outro.

  1. A questão animal é uma questão ética humana.

Não é preciso discordar do autor nesse ponto, estamos plenamente de acordo que a questão animal é uma questão ética. Estamos de acordo também com a crítica ao trabalho que produz valor. Nada disso, porém, elimina a consideração ética em relação ao ato de confinar e de tratar animais como propriedade, sem direito de viver no seu próprio ambiente, sem direito à sua própria vida. A crítica ao uso de animais não parte de uma comparação direta à exploração do trabalho humano. As implicações sociais de confinar, regular e se apropriar da vida de animais ao ponto em que suas características naturais são inibidas e selecionadas por critérios de utilidade para o uso humano são distintas das implicações da exploração do trabalho, mas ainda devem ser avaliadas.

  1. Libertação animal não é estilo de vida

Também não seria preciso dizer nada sobre esse ponto. O “veganismo de estilo de vida” também é criticado dentro do próprio movimento. A questão não se limita a hábitos alimentares ou de consumo, veganismo não é boicote. A crítica de que abster-se de carne é isolar-se do mundo é tão superficial que fica claro que o autor fez um exame muito raso daquilo que critica.

Citemos a crítica à ideia de que “a história tomou um rumo errado”. Nesse ponto, como em outros, o autor mistura argumentos da libertação animal com argumentos primitivistas. Esta ideia no caso vem do primitivismo, e com isso se quer indicar uma ruptura com um processo de centenas de milhares de anos. Enquanto alguns marxistas ainda enxergam a história humana como o desenrolar de um único processo, lento e gradual, centrado na luta de classes, que conduz tanto ao capitalismo quanto posteriormente ao comunismo, outros assinalaram que este processo descreve somente uma parte relativamente recente da história humana. Somente no século XX obtivemos dados que indicam que a humanidade tem cerca de dois milhões de anos. Os eventos que descrevemos no que chamamos comumente de “história” quase sempre se iniciam na invenção da agricultura, há dez mil anos atrás, ou da escrita, há cinco mil anos atrás. Alguns têm iniciado antes, falando dos vestígios de artefatos que podem indicar vida em “sociedade” ou o aparecimento de “cultura”. Não sabemos quase nada sobre como as pessoas viviam antes disso, e Marx sabia ainda menos. Sabemos, porém, que é muito estranho classificar 99% da história humana como “o primeiro estágio” de um processo histórico que, inexplicavelmente, se acelera num nível absurdamente distinto depois disso. Este último 1% de história, onde as mudanças parecem ocorrer num ritmo totalmente diferente, pode ser simplesmente considerado como continuação normal do primeiro estágio? Ao invés de considerar povos sedentários com o segundo estágio de um processo que leva até nossa sociedade, é razoável considerar este como o primeiro estágio de algo distinto, que chamamos de civilização. Mas esse é outro assunto.

  1. A concepção de natureza humana do veganismo

O autor se baseia numa má compreensão do que seja o “vegetarianismo”, ou melhor, o veganismo, repetindo a ideia de que veganismo é necessariamente uma negação da participação humana em qualquer ato de predação. Ora, a própria indústria da carne é uma negação da participação num ato autêntico de predação, já que não há violência direta da parte de quem come e a relação ‘presa-predador’ está completamente ausente. Enquanto o veganismo afirma que o ser humano é capaz de considerações éticas, isso não é necessariamente uma diferença radical mais do que a bioluminescência ou a capacidade de fazer fotossíntese seriam. Não há necessariamente nenhuma contradição entre a concepção vegana e a concepção marxista de natureza e cultura.

  1. Libertação animal não implica em pacifismo

O que já foi dito seria suficiente para responder esse ponto. O que se destaca nesse ponto do texto é a afirmação de que não podemos ignorar o destino dos animais, nem tratá-los como seres humanos. Estamos de acordo com isso, porém logo em seguida o autor retrata o veganismo como uma dieta sendo imposta ao mundo. O contrário é muito mais próximo da verdade. O autor reduz as considerações éticas do veganismo às consequências de uma apreciação incomum pela vida dos animais, ou de uma aversão por matadouros, ao mesmo tempo em que não problematiza o contrário disso. Chega a soar irônico quando diz que no comunismo não se impõe nenhuma dieta. E não é porque outros animais não são humanos nem devam ser tratados como humanos que temos o direito de separá-los de seus próprios habitats naturais.

É verdade que as pessoas não irão abandonar suas preferências “só” para acabar com o sofrimento animal. Se tudo a que a prevalência da indústria pecuarista causasse fosse um simples e ignorável “sofrimento animal”, talvez o veganismo fosse realmente irrelevante. Mas as consequências humanas disso são muito maiores que a participação num cotidiano ato cruel e violento. Estamos novamente de acordo em relação ao fato de que a tecno-utopia, o salvacionismo tecnológico, é tão equivocado quanto o mito de gaia, o salvacionismo ecológico. Porém, justificar o consumo carne, especialmente carne bovina, com a ideia de que a violência não pode ser eliminada do mundo, é não sair da superficialidade da questão. Com o mesmo argumento se justificaria muitos outros comportamentos que o autor provavelmente condena. Sua premissa parece ser que o uso de animais não é relevante para a sociedade, e nesse sentido qualquer movimento que se preocupe com a vida dos animais não pode ser relevante.

É uma pena que esta seja a posição de tantos marxistas, que desperdiçam oportunidades de uma aliança com diversos movimentos somente por desavenças menores, sem buscar o diálogo e julgando sem conhecer.


Janos Biro Marques Leite – janosbiroleite@gmail.com – www.janosbiro.com.br – Graduado em filosofia pela UFG, professor.