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A ironia e contradição dos sacrifícios de animais em religiões de matriz africana

Por Juliano Zabka

JULIANO rituais

Um aspecto de leis abolicionistas ou protetivas do movimento pela igual consideração dos seres sencientes, como a lei que pretende impedir que animais sejam mortos em nome de crenças e cultos em religiões de matriz africana, é o caráter de analogia ou semelhança com as medidas protelatórias do passado, como as leis do ventre livre e dos sexagenários, por exemplo. Tais leis não resolviam todas as injustiças, mas sinalizavam o rumo histórico que ainda estamos em transição na direção de um contexto mais justo e igualitário.

Um dos pontos de “desanalogia” entre o movimento pelos animais e o Movimento Negro, talvez diria o filósofo Naconecy, é que aquelas pessoas do passado, ainda que terrivelmente exploradas, não tinham seus corpos comidos e nem eram trazidos à vida para serem mortos e comidos.

O irônico e triste é que esses crimes em nome de religiões tem voz e imposição justamente num movimento de matriz africana, representantes de um povo que tanto sofreu e sofre exatamente esse mesmo tipo de injustiça: o preconceito e desigualdades por serem “diferentes” nas irrelevâncias ainda que semelhantes nas dimensões realmente relevantes. E ser diferente na cor da pele é tão irrelevante quanto ser diferente no formato de corpo ou diferente por ter nascido em outra espécie que não a humana. E o relevante é que todos – nós e os animais – sofrem e que isso é ruim; e que todos desfrutam e que isso é bom.

Só que esse crime é um crime de toda a humanidade com todos os seus “tons” contra os animais. Não se trata de estigmatizar nenhum grupo, mas de avançar esse pequeno passo nessa tímida chance de tentar livrar os animais de apenas um desses destinos medonhos.

Nesse momento, retomo e colo abaixo o parágrafo de uma outra ocasião, pois sou tão contra os crimes em nome de cultos de religiões de matriz africana quanto os crimes cometidos em nome dos churrascos dos domingos. Acontece que é agora que temos a oportunidade de proibir um deles:

“Um crime não deixa de ser um crime só porque resolvemos chamar o crime de “liberdade de culto” ou outra coisa. E nem deixa de ser crime se a vítima é comida depois do ritual. O foco da justiça deve ser a vítima, e não o grupo que se sente injustiçado por não poder vitimar um inocente. E se ainda, infelizmente, cometemos o mesmo crime em nome da cultura culinária de comer animais, temos de lembrar que 2 errados não fazem 1 certo.”

Fonte: Blog do autor


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Fica na tua e me deixa em paz com a minha carne

Por Juliano Zabka

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As brevíssimas considerações que farei abaixo não são exatamente de minha autoria, pois a ideia de tratar o assunto na forma que farei aqui é originada de outras fontes – não recuperei as referências, mas é tema já tratado com exaustão e com muita competência por diversos autores. Ainda assim, creio que repetições e releituras são sempre enriquecedoras.

“Fica na tua e me deixa em paz com a minha carne” é, provavelmente, um tipo de frase muito proferida por aqueles que acreditam que comer animais é uma mera escolha pessoal ou um direito. O raciocínio seria mais ou menos esse: você escolhe não comer carne e eu escolho comer; não me meto na sua escolha e você não se mete na minha. Por trás desse pensamento nitidamente prejudicado pelo preconceito do especismo [1], está acoplada ainda uma avaliação equivocada sobre imposições, o que impede muitos de nós de compreendermos a existência de imposições justas e imposições injustas [2].

Num nível descritivo ou ilustrativo, podemos mesmo afirmar que comer animais é uma escolha pessoal, do mesmo modo que matar e ingerir uma idosa indefesa ou um bebê [3] é igualmente uma escolha pessoal: o observador descreve a escolha de alguém que está a praticar um ato imoral.

Já no nível da moralidade, de forma alguma tais escolhas podem ser assim tão facilmente justificadas – se é que podem. Dizer “eu escolho pela morte e ingestão do corpo do outro”, definitivamente não é uma frase encantada que dá permissão ao objetivo de comer alguém. Essa mágica não existe. Verbalizar isso não tem poder algum de tornar o ato algo minimamente decente e justo. Do mesmo modo, em nada se assemelha com uma inocente escolha pessoal como a de escolher a cor da escova de dentes.

“Me deixa em paz com a minha carne” é uma sentença que faz parecer que a carne em discussão seria a carne de propriedade de quem está a falar. Obviamente, tem algo muito atrapalhado nisso. Aquela carne não pertence a quem fala. É roubada. É roubada da pior maneira que podemos conceber um roubo, pois um animal, um ser capaz de experienciar o sofrimento e o desfrute de modo tão relevante quanto nós experienciamos, foi assassinado, seguramente após ter amargado uma vida miserável [4]. Teve seu corpo literalmente vampirizado por quem ainda se julga no direito de sugar a energia que pertencia ao portador do corpo e subjetividade – ou alma – que ali vivia, experienciava e se expressava.

Sou levado a pensar que mesmo se a carne fosse extraída do próprio corpo de quem nele vive, – como a imagem lá no topo ilustra –  desse modo fazendo ter sentido o slogan “me deixa em paz com a minha carne”, uma vez que esse alguém estaria a cortar ou amputar a “sua carne” e partes do seu próprio corpo para ingestão, teríamos fortes razões para impedir esse ato que arrisco a categorizar como gravemente patológico.

Se descarnar o nosso próprio corpo é coisa quase impossível de não julgar como uma séria patologia, desse modo, desde uma postura ética que nossa condição humana nos permite e exige, podemos constatar o quão doentio é o nosso contexto em que é quase regra requerer com contaminada exaltação até mesmo a carne que não nos pertence.

Referências:

[1]: O que é especismo?  Disponível em: http://www.olharanimal.org/pensata-animal/autores/luciano-carlos-cunha/616-o-que-e-especismo

[2]: A acusação de imposição. Disponível em: http://www.olharanimal.org/pensata-animal/autores/luciano-carlos-cunha/669-a-acusacao-de-imposicao

[3]: O caso do bebê eterno. Disponível em: http://www.olharanimal.org/pensata-animal/autores/juliano-zabka/759-o-caso-do-bebe-eterno

[4]: http://www.pecuaria.info/


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O retrato de um gaúcho covarde

Por Juliano Zabka

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Imagine dois homens covardes, cada qual montado sobre um cavalo. Numa arena projetada para encarcerar o mais fraco, eles perseguem um filhotinho, um cachorrinho aterrorizado. O cãozinho, meio descabelado e com olhar confuso, foi forçado a estar ali sob o sol ardente ou chuva incômoda, longe dos cuidados de sua mãe ou cuidador. É rejeitado pelos olhares indiferentes da arquibancada sedenta pela tortura: tem que encarar sozinho um único destino.

Os covardes atingem o objetivo inicial, que é encurralar o pobrezinho assustado que só tentava fugir em desespero. Montados sobre os cavalos, alinhados cada um de um lado, fazem com que os equinos submetidos esmaguem as costelas do cãozinho para que ele se renda e siga o caminho ditado pelos covardes. É a paleteada!

A parte final do espetáculo da patifaria, que é derrubar o castigado em desespero, amarrar suas pernas e extirpar seu saco escrotal a sangue frio com faca afiada, é apenas reservado para os mais achegados nessa cultura dantesca. Mas a parte verdadeiramente final é celebrada nas churrascarias da querência amada, quando os pedaços do corpo do filhote com morte matada, na base da degola cruenta, são comidos salgados aos nacos como se nada mais existisse para comer num mundo que clama por justiça e paz. Esvaiu-se, assim, gota-a-gota de sangue duma garganta rasgada em agonia, a vida de alguém que como nós sabia sofrer e só queria viver em paz.

Mas o leitor deve estar se perguntando: “mas por qual razão o título sugere que o tal gaúcho seria covarde, já que ele comete a covardia da paleteada só com os filhotinhos das vacas, mas não com os filhotinhos caninos?”

A resposta é que o sofrimento é ruim, independente de quem está a sofrer. É injusto e covarde provocar sofrimento seja num cão, num bezerro ou em mim ou em você, leitor. O exemplo do cão, ao invés do filhote da vaca tão tradicionalmente torturado, serve apenas para revelar o poder que uma tradição tem de nos cegar para torturas que jamais aceitaríamos se as vítimas fossem nós ou aqueles que levamos em consideração com igualdade, como nossos amados cãezinhos que precisam muito do nosso zelo. Mas qual é a diferença quando o que está em jogo é a capacidade de sofrer? O formato externo dum corpo? O bezerrinho sofre menos apenas porque tem um formato de corpo diferente do cão?

Mas existem aqueles que vão esbravejar: “mas isso é parte da nossa cultura e da nossa tradição!” Eu responderia para esses: “mas desde quanto a tortura deixou de ser tortura só porque resolvemos chamar a tortura de cultura ou tradição?”


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O caso do ladrão de órgãos

Considere o seguinte dilema na forma de um experimento mental[1]:

“Suponha que você só pode sobreviver se conseguir órgãos novos. Então, você precisa de transplantes de órgãos. Na realidade, precisa continuamente de transplantes de órgãos, pois você é um tipo de ser que cada órgão perde a função a cada pequeno período de tempo. Digamos que agora 3 dos seus órgãos estão falhando e não existem doadores. Nunca existem doadores. Suponha que a única maneira de continuar vivo será assassinando algum semelhante desconhecido, roubando os seus órgãos e transplantando-os para o seu corpo. Apenas sobreviverá, até seu fim “natural”, se roubar partes dos corpos de outros para colocar no seu próprio corpo. Sempre.”

Essa é uma analogia para a condição infernal presente no mundo selvagem [2], onde animais obrigatoriamente carnívoros ou predadores precisam necessariamente matar, das maneiras mais horríveis, por estarem predispostos aos comportamentos “programados” pela aleatoriedade da “loteria da natureza”, os seres que tiveram o azar de vir ao mundo e acabarem sendo predados nessas situações macabras (fazendo dos frigoríficos, em comparação, lugares relativamente menos piores para alguém, seja quem for, ser morto).

Ao mesmo tempo, essa é uma falsa comparação para humanos comedores de animais da atualidade e que residem em locais não inóspitos, pois nós não somos obrigatoriamente carnívoros, ou seja, podemos optar moralmente entre sermos “ladrões de órgãos” ou não.

Se temos a opção de não sermos “ladrões de órgãos”, como podemos legitimar moralmente esse terrível “roubo” das carnes dos corpos de animais? Não estamos em dilema algum para sequer tentar justificar esses assassinatos.

Contudo, obviamente, esse pequeno texto apenas terá sentido para o leitor que já está começando a perceber (e para todos os leitores que já sabem disso) que temos todas as razões para considerarmos igualmente e com máxima seriedade todos aqueles que são capazes de sofrer e desfrutar, independente se a “loteria natural” os “trouxe” ao mundo como humanos ou não.

Referências:

[1] O experimento mental foi extraído de palestra sobre o sofrimento dos animais selvagens na natureza. Essa palestra está em fase de tradução e será oportunamente compartilhada.

[2] Uma compilação inicial de importantes textos e artigos nessa temática pode ser acessada aqui: https://www.facebook.com/photo.php?fbid=10152511008448475&set=a.10150351123078475.398150.558043474&type=3&theater

Fonte: ANDA


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Você, hipócrita, não salve os beagles! E seja um de nós!

Num desses jornais televisivos da madrugada, um comentarista fez o discurso padrão da defesa da tortura de uns para benefício de outros (discurso que julgo criminoso – termo que vou repetir aqui). Estou aqui também a falar da exploração de animais nas pesquisas em laboratórios e do caso do Instituto Royal, que é emblema atual desses crimes doutrinados na maioria das Universidades e com legislação que protege tais crimes e promove um corporativismo cego e horrendo.

Contudo, o comentarista está de parabéns por lembrar, em rede nacional, que os animais assassinados para serem comidos sofrem terrores tão perversos (ou mais) quanto os torturados em laboratórios, ainda que tenha dito isso para acusar de hipocrisia aqueles que defendem o fim das torturas em laboratório e consomem animais na alimentação.

De todo modo, o comentarista precisa ser advertido que uma pessoa que come animais pode e deve sim se manifestar contra as torturas de laboratório. O fato de essa pessoa estar errada na prática de condenar animais à morte para se alimentar dos corpos deles não invalida sua postura correta de se posicionar contra as torturas em laboratórios. Por não entender essa distinção básica, o comentarista apelou para o argumento da hipocrisia (como tem feito diversas outras pessoas equivocadas e, também, com exagerada frequência, as inúmeras pessoas inescrupulosas). Precisamos avisar que esse argumento ou falácia da hipocrisia apenas fala sobre as incoerências do agente, mas não monta um argumento para invalidar o que é o certo a se fazer. É o típico recurso raso, malicioso e enganador (e criminoso) de focar o discurso em como as coisas “são ou tem sido” no mundo, mas que não dizem nada sobre “como deveriam ser ou como seria mais justo que fossem”. E exemplos disso seriam infindáveis, basta ler os textos dos reacionários embrutecidos (e criminosos) tentando relativizar e eternizar o mal uma vez que ainda não encontramos todas as formas de evitá-lo.

Para exemplificar apenas o primeiro ponto sobre a incongruência de defender algo e agir diferente, penso que essa questão serve: será que um assassino está errado ao falar do erro de assassinar? Eu penso que não, não está errado em falar do certo. Mas o assassino diz o certo e age errado.

Por isso, não podemos parar aqui. Precisamos e devemos ir além.

Vamos supor que um pesquisador professe o erro de torturar animais sencientes (seres capazes de sofrer e desfrutar), seres únicos e insubstituíveis, para buscar benefícios para outros seres únicos e insubstituíveis (torturar uns para benefício de outros). O pesquisador estaria certo na sua defesa pelo fim das atrocidades nos laboratórios que torturam animais, mas continuaria a agir de forma errada. A índole dele estaria revelada como, no mínimo, uma fraqueza de caráter, ainda que isso não invalidasse sua postura correta no discurso. Mas, ainda assim, ele continuaria agindo na prática do mal.

Alguém poderia acusá-lo de ser hipócrita, com razão. Mas isso apenas revelaria a incoerência e condição dele, mas não teria o poder de derrubar o que ele professa, uma vez que o que ele professa é o certo e o justo (ele professa o erro de torturar seres sencientes).

O que quero dizer é que, ainda que seja assim, ainda que esse pesquisador professe o certo e se comporte de maneira errada, outros agentes cientes disso teriam todas as razões e o dever moral para impor e obrigar ele a não ter liberdade para continuar a agir do modo errado, embora preservando o direito e o dever dele de proclamar o que é certo.

Então, as pessoas que ainda consomem animais em busca de nutrientes e prazer gustativo e que são contra os experimentos, estão corretas em ser contra os experimentos, mas erradas em condenar animais à morte na alimentação. Porque uma coisa é justa e a outra não é. Essas mesmas pessoas precisam entender que é um dever buscar modos de erradicar a liberdade de decretar injustamente a morte de outros seres. Essa busca de justiça é a coisa certa a se fazer.

Para encerrar, meu objetivo, nesse momento, foi de colaborar com o tópico “O debate sobre a moralidade da experimentação animal: o que é relevante e o que não é” do Mestre em Ética e Filosofia Política pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Luciano Carlos Cunha, disponível em: http://www.anda.jor.br/20/10/2013/debate-moralidade-experimentacao-animal-relevante-nao

Fonte: ANDA


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juliano pernil

Pernas, pernil e o prazer

 

Na noite do dia 16 de agosto de 2013, editei e compartilhei no meu perfil do Facebook a imagem acima. Ainda que explicativa por si só, trata-se de pernas e nossas diferentes visões do mesmo tipo de membro, variando a espécie do animal dotado do membro e a finalidade empregada. Junto da imagem, escrevi o seguinte trecho: “Comparar para apelar ao nojo não é o foco. Até porque respeitamos interesses alheios por reconhecer a relevância e a existência de tais interesses nos outros, e não porque desrespeitar tais interesses seria nojento. A questão é: seríamos o tipo de gente que, ao colocar o egoísmo acima de tudo, precisa ser forçada a não desrespeitar interesses relevantes, independente de quem é o portador de tais interesses?”

Não pretendo desenvolver agora a grande quantidade de questões implicadas nesse tipo de abordagem com “imagens fortes”. Nem tenho conhecimento para isso. Também, não vou detalhar outras intenções embutidas no trecho acima em questão. Ainda assim, como pista para o que chamei de “outras intenções do trecho acima”, serei mais um [1] a sugerir esse texto [2] (em inglês) como capaz de revelar algumas dessas intenções e a importância disso dentro do movimento anti-especista.

Vou procurar tratar de duas repercussões que surgiram em comentários na própria postagem, apesar da natureza duvidosa de tais comentários.

Num dos comentários, foi levantada a possibilidade de as pernas humanas ficarem deliciosas se marinadas e defumadas. Num nível descritivo, acho que teríamos razões para acreditar que ficariam saborosas para quem sente prazer gustativo com carnes marinadas e defumadas. Talvez com algumas nuances diferentes, que poderiam ser corrigidas com temperos específicos e outras adaptações na forma de preparo. Nada longe do alcance de algum bom cozinheiro.

A grande questão aqui seria romper o tabu de apreciar cortes e preparados tradicionais com o diferencial de serem provenientes de humanos. E de como fazer isso de forma ética, já que não desejamos para nós o inferno que impomos aos outros animais, desde o nascimento deles até o momento da degola. Sabemos que com os outros animais não existe ética alguma, mas abusos e perversidades de todos os tipos.

Mas vamos entrar na brincadeira e supor que fosse diferente no caso de humanos, como sugerido no comentário (digo brincadeira porque não estou defendendo o consumo de carne humana, mas realizando um exercício hipotético e questionando se seria mesmo um absurdo esse consumo).

Vamos supor que numa sociedade onde esse tabu de comer carne humana já estivesse sido ultrapassado (que fosse padrão comer carne humana; que fosse um valor, cultura e tradição fazer isso e que fosse seguro o consumo) e que cada cidadão fosse livre não apenas para se declarar como doador de órgãos para fins de salvação na medicina (modelo que temos hoje), mas também para se declarar como doador de carne para fins comestíveis.

Em algumas estimativas [3], só nos casos de acidentes de trânsito no ano de 2010 teríamos um potencial de cerca de 2.842.700 quilos de carne humana geradas só nesse tipo de sinistro (considerando a estimativa de 40.610 mortes naquele ano; e supondo que cada indivíduo pesasse cerca de 70 quilos e que todos fossem doadores de carne e membros para fins gastronômicos diversos; e imaginando que a carne pudesse ser em tempo desossada e acondicionada de forma higiênica e segura, coisa que parece difícil nos casos de acidentes de trânsito, mas não para casos de óbitos em lugares controlados como hospitais – que provavelmente são mais exigidos e inspecionados que os frigoríficos de onde outras mortes são encomendadas em rotativa infindável).

Entretanto, aqui poderia se encaixar um argumento da ladeira escorregadia, supondo que evoluíssemos para esse modelo de sociedade onde comer mais esse tipo de carne (carne humana) fosse amplamente aceitável dentro dos limites éticos acima sugeridos: vai que grupos criminosos resolvessem fazer com vulneráveis humanos o mesmo que já fazemos com os vulneráveis animais em nome do lucro ou para satisfazer desejos banais e passageiros como os do paladar? Vai que a corrupção generalizada e o assassinato de inocentes com fins lucrativos e egocêntricos se instalasse dentro da comunidade humana num nível culinário, aos moldes que fazemos com os animais?

Talvez esse argumento da ladeira escorregadia seja importante para não fomentarmos esse tipo de quebra de tabu. Não suportamos imaginar em nós o mesmo desespero imputado ao animal que é forçado a percorrer o caminho de sua gaiola/prisão ao matadouro grotesco. De todo modo, esse argumento de ladeira escorregadia é plenamente enquadrado também na questão da doação de órgãos. Deveríamos incentivar o fim das doações de órgãos para que crimes contra inocentes não ocorram ou devemos aumentar a educação e vigilância sobre o respeito e consideração de interesses semelhantes?

Já no outro comentário, através do sentido e do vocabulário usado, percebi uma mistura de reacionarismo com o incômodo de um reacionário ter que notar intuitivamente que a comparação entre pernas de espécies diversas é válida. Pelo desconforto de notar essa validade na comparação, e pela carência e falência dos argumentos que pensava ter (o que pensava ter como argumento não passava de irracionalidade e preconceito), a saída desse foi apelar ao ad hominem [1]. No entanto, esse ataque pessoal não foi de todo vazio. Por acidente, trouxe uma questão intrigante e, muitas vezes, desagradável se assumida da forma errada.

No ataque, entendi que foi dito que as pessoas que propagam essas imagens chocantes para alcançar e influenciar outras pessoas que não tem a mesma percepção dos propagadores no fundo sentiriam muito prazer em fazer uso de tais imagens. Seriam dependentes de tais imagens tão horríveis em busca do prazer. Creio que, por acaso, acabou apontando uma questão profunda e tão inevitável quanto certeira, ainda que de forma atrapalhada. Mais uma vez, preciso deixar claro que estou estabelecendo uma conversa interna e com o leitor (que pode se manifestar nos comentários aqui da página), pois não tenho as qualidades plenas para tratar esse tema que é multidisciplinar e bem enraizado em outros. E, no momento que escrevo, não estou puxando muitas referências externas.

Mas antes de seguir, é importante salientar que esse tipo de reacionarismo em ver uma perna humana esfolada ao lado de uma perna animal esfolada se dá pela conjugação de diversos fatores. São confusões diversas somadas ao preconceito baseado em critérios irrelevantes para se avaliar o que está em jogo. Nesse caso, o que está em jogo é a capacidade de um ser poder ser beneficiado ou prejudicado. O que está em jogo é ser portador dessa capacidade, independente da espécie animal que o portador dessas capacidades pertença.

Normalmente, quando alguém se ofende com tais comparações é porque supõe que os seres humanos são seres superiores e que os demais animais são tão insignificantes que não merecem qualquer consideração em comparação com as considerações que exigimos para nós. A má noticia para quem pensa assim é que está enganado e está dando continuidade à um preconceito tão irracional e perverso (o preconceito do especismo) quanto aqueles que dão seguimento aos preconceitos semelhantes com gays, nordestinos, negros, judeus, mulheres etc. Estão imersos numa irracionalidade e confusão gigantesca. Não vou me prolongar aqui, e recomendo a leitura do texto [4]“Porque temos o dever de dar igual consideração aos animais não-humanos e as implicações práticas desse dever” para mais esclarecimentos sobre isso.

Retornando, quando foi dito de forma pejorativa que no fundo sentiríamos muito prazer em fazer uso de imagens com sofrimento exposto e que seríamos dependentes de tais imagens tão horríveis em busca do prazer, isso, acidentalmente, não foi de todo errado, mas ainda assim bem equivocado.

Penso que esse assunto está relacionado com as contradições internas do conceito de altruísmo, com conteúdos por trás de frases como “fazer o bem faz bem”, pela dependência dos opostos na configuração de uma identidade (bem x mal; claro x escuro etc), no tema da comiseração/autocomiseração (sentir dó, piedade, pena de outros ou de si mesmo) entre outros.

Tenho a impressão que, assim como no caso da vaidade [5], certas características nossas são praticamente inescapáveis (alguns autores defendem que tudo é vaidade e uma questão seria de como canalizar essa vaidade para gerar boas consequências também para outros). Buscamos sempre o prazer, e essa busca pode se manifestar das maneiras mais aparentemente contraditórias (como no caso do masoquismo).

Muitas vezes, desde que não sejamos nós as vítimas afetadas diretamente, algumas pessoas sentem um certo tipo prazer em sentir pena (comiseração) de alguém em situação angustiante. Ao mesmo tempo que reconhecemos a desgraça alheia, por meio de uma empatia enviesada, sentimos uma forma de alívio de não sermos nós em tal situação ruim ao mesmo tempo que desejamos que quem está na pior situação possa superar isso. O mais estranho é que, para muitos de nós, assistir de camarote um evento negativo (ainda que assistindo com boas intenções) pode acabar sendo algo prazeroso por despertar um sentimento de piedade, de sentir que se é alguém do tipo que gostaria que aquilo de ruim terminasse. É a inevitabilidade do contraste.

Numa sociedade do espetáculo, não é por acaso que no cinema as tramas de romance mal vividos causam tanta emoção, que os filmes apocalípticos são extremamente desejados, que os noticiários com tragédias tem os mais altos picos de audiência, que relembrar desamores são mais performáticos na frente de um espelho onde se pode ver o próprio choro, que ajudar ou salvar alguém de situação catastrófica mobiliza multidões e exemplos não faltam. Parece ser a paradoxal condição humana.

Entretanto, fazemos uso de imagens retratando situações extremamente negativas em campanhas contra os malefícios do cigarro, nos casos de acidentes de trânsito, nos abusos e agressões contra crianças e mulheres e também para denunciar os maus-tratos contra alguns animais (normalmente cães e gatos) que são tão iguais quanto os outros que estão agora na linha de desmontagem tendo suas patas amputadas antes do couro ser puxado por uma máquina ou antes de virar a picanha ou qualquer outro nome comestível.

Seriam todos esses outros também escravos do prazer em compartilhar tanta coisa negativa ou teriam alguma razão mais louvável em fazer uso de tais métodos em suas campanhas e objetivos? Ou esse fardo pesado  de ser “escravo do prazer em compartilhar coisa negativa” é restrito apenas àqueles que estão a denunciar os crimes, ainda enormemente invisíveis, que são cometidos contra os animais tais como aquele da perna temperada na foto lá no topo?

Mas temos de lembrar que o depoimento reacionário não foi de todo errado (como vimos acima), mas ainda assim bem equivocado. E qual a razão para afirmar que o depoimento que julguei como reacionário foi bem equivocado? A razão é que existe um grande abismo entre sentir prazer e se sentir dignificado por querer o bem e lutar por isso, ainda que isto dependa do inevitável contraste entre “bem e mal”, e que dependa de presenciar o mal e expor isso tal como ocorre na realidade, em contraste com sentir prazer em querer o que é ruim (o pior) para quem sofre, por simples egoísmo e descaso pelo outro, algo muito próximo da sociopatia ou psicopatia.

Para deixar isso bem claro, sugiro o seguinte experimento mental:

Uma vaca está prestes a ser assassinada. No local do crime, temos três tipos de pessoas (poderiam ter outros tipos, mas vou indicar apenas esses três). (1) os que estão a salivar, ansiosos que a vaca seja logo assassinada, desmembrada e assada para que possam sentir o prazer de comê-la, independente das alternativas existentes de alimentação e cientes do mal que isso significa para a vaca e ignorando isso por puro egoísmo; (2) outros que por clara ignorância inocente e repetição cega de costumes aguardam o mesmo destino da vaca (alguns até com desconforto pelo fato de a vaca ser assassinada, mas mesmo assim muito dependentes do paladar); e (3) aqueles que estão em agonia, querendo salvar a vaca, talvez sentindo um tipo de prazer em poder fazer isso por saber que os interesses da vaca são tão relevantes quantos os seus próprios interesses em não ter sua vida abreviada nem de serem submetidos ao sofrimento de ter seu corpo cortado por lâminas afiadas. Talvez o tipo (3) não venha a ter sucesso dessa vez, mas eles farão registros fotográficos da cena hedionda, e sentirão um tipo de prazer (possivelmente um tipo de prazer derivado de um dever moral ou missão) em saber que poderão mudar a forma de outras pessoas pensarem sobre a inocência e vulnerabilidade alheia mostrando isso publicamente. Poderão, quem sabe, mudar o destino de outros inocentes expondo o crime através das imagens captadas, textos educativos e com o uso de outras táticas. Os do primeiro grupo (os egoístas) vão acusá-los de sádicos por fazerem uso de imagens terríveis e darem sentido às suas vidas por meio desses recursos controversos. Mas quem seriam os sádicos de verdade?

* Agradeço à Adelina Maria Schu Zabka e ao Emanuel Zabka pelas críticas e sugestões.

Referências:

[1] http://www.anda.jor.br/10/12/2012/o-uso-de-estrategias-ad-hominem-para-continuar-a-se-desrespeitar-os-animais-nao-humanos

[2] http://fortheabolitionofveganism.blogspot.ch/

[3] http://www.dpvatsegurodotransito.com.br/noticia2.aspx

[4] http://olharanimal.org/porque-temos-o-dever-de-dar-igual-consideracao-aos-animais-nao-humanos-e-as-implicacoes-praticas-desse-dever/

[5] Gikovate, Flávio. A liberdade possível. São Paulo: MG Editores Associados, 2006.

Fonte: ANDA


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juliano ratos-olidario-ajuda-amigo

O inferno

Recentemente (final de março de 2013), a foto acima trouxe desconforto para muitos, algum senso estético para outros, veneração por processos para mais alguns e demais reações diversas.

A notícia ilustrada contava sobre um roedor sendo devorado por uma cobra enquanto outro roedor estaria tentando livrar o vitimado do destino aterrorizante. No final, ambos foram devorados por cobras distintas.

Contudo, temos aqui revelado também um conteúdo que incomoda: não existe vilão, mas seres que vieram ao mundo com características determinadas. Não pediram para nascer assim e precisam seguir o que o ‘acaso’ (evolução, seleção natural, criação etc) determinou. Porém, para os seres do tipo que são capazes de sofrer e de desfrutar, não faz diferença se o mal tem origem num “Einstein”, numa rocha rolando montanha abaixo ou tal como na agonia inimaginável dessa foto. É ruim igual.

Revela também que nossa visão ‘romântica’ da natureza como algo ‘bom’ é algo duvidoso do ponto de vista desse tipo de seres vitimados. Talvez estejamos enganados nessa interpretação da natureza. Mas, se tais processos naturais garantem o ‘equilíbrio’ e se concordamos que o equilíbrio tem valor ‘acima de qualquer suspeita’, isso pressupõe o equilíbrio como algo bom. Mas para algo ser bom ou ruim, é preciso um ser capaz de valorizar o bem e o mal. Nós e a grande maioria dos animais somos seres desse tipo. Mas que sentido faz um ‘equilíbrio’ que tem um custo tão alto justamente para os seres que são capazes de atribuir valor para isso?

Isso revela mais um aspecto: o ‘equilíbrio’, aparentemente, só tem valor porque seria bom para seres capazes de valorizar (seres capazes de experimentar o sofrimento e a felicidade). Caso contrário, não seria nem bom nem mal. Simplesmente ‘seria’, assim como a natureza é: o que chamamos de ‘natureza’ apenas é. Se algo é bom ou ruim no mundo natural é assim porque existem seres capazes dessa distinção.

Então, se nós e a grande maioria dos animais somos seres desse tipo, deveríamos continuar com a mentalidade de venerar a natureza, o equilíbrio, a evolução, a seleção natural, o gene egoísta, a carreira, o Currículo Lattes etc e whatever com tanta paixão cega? Não seria o momento de imaginar um mundo com intervenções responsáveis que eliminasse esses ‘acasos naturais’ que mais parecem uma caricatura do inferno, tal como a foto em questão? Já fazemos isso em alguns casos quando lutamos contra um câncer, vírus, enchente, verminose, etc. É preciso ampliar.

E se tudo der errado? Se tudo der errado, talvez (talvez) seja o fim da continuação daquilo de ruim que nenhum leitor aqui jamais experimentou. A eutanásia, em alguns casos, é um dever. Mas, antes dela, dar as costas para o sofrimento alheio deve ter algum nome inconveniente.

Quem tiver interessado em pensar mais sobre isso, sugiro esse texto.

Fonte: ANDA


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Os outros animais, nós e a reposição de copos na cristaleira

É aparentemente inevitável a nossa confusão no discernimento do que percebemos em nosso contexto, e os equívocos geram conseqüências diversas. Isso é potencializado pelos inúmeros fatores envolvidos nos processos de racionalização, interpretação, comunicação, nas ambigüidades, crenças (o que pensamos ser verdadeiro sobre alguma questão) e essa lista pode ser enorme. Assim, o nosso esforço em enterrar os preconceitos que não encontram mais justificativa perante a razão também pode ser prejudicado em virtude dessas confusões.

Posso imaginar uma cristaleira (móvel onde ficam ou costumavam ficar guardados alguns itens da casa como copos, xícaras, pires e outras louças e cristais) contendo 15 copos. Numa fatalidade, deixo cair um dos copos que acaba despedaçado no chão. Prontamente adquiro outro e reponho no lugar do antigo. Tudo perfeito novamente. No dia seguinte, ao deixar cair outro copo, minha agilidade permite evitar que o copo atinja o chão. Um copo com detalhes em cor azul. Salvo o copo com detalhes em cor azul, mesmo com a possibilidade de comprar outro igual no bazar caso o acidente não tivesse sido evitado. Com esse copo na mão, lembro e penso: e se tivesse quebrado o copo com detalhes em cor azul? Ele tinha um valor único para mim, pois ganhei duma pessoa querida em ocasião rara e provavelmente não acharia outro igual. E ainda que achasse outro muito semelhante em aparência, o substituto não teria o valor simbólico que atribuí a esse em especial. Teria sido uma perda irreparável.

Considerando esse exemplo fictício da cristaleira com 15 copos, até esse momento não me foi demonstrado que do ponto de vista de qualquer um dos copos estar intacto seria um bem e quebrar-se configuraria uma perda (de desfrute, por exemplo; teriam uma boa existência abreviada) ou um mal para eles (estariam a sofrer enquanto não fossem totalmente despedaçados ou em agonia por estarem confinados na cristaleira), visto que copos não tem ponto de vista ou qualquer valor em si mesmos (inerente ou intrínseco) para que pudéssemos supor ou constatar isso; são coisas e todo e qualquer valor que possam ter são apenas valores atribuídos por nós e conforme nossos estados mentais ou práticos (indiretos), seja um valor instrumental, histórico, psicológico etc. Provar o contrário – que copos teriam um valor em si mesmos – é um desafio à luz de uma justificativa racional (ou, até esse momento, a aceitação de um convencimento por justificativas irracionais). Caso aquele copo com detalhes em cor azul quebrasse, seria uma perda irreparável para mim e não para o copo. Estando eu frustrado ou não, a cristaleira poderia acomodar 15 copos novamente (ou mais ou menos), cada um tão insignificante quanto o outro e quanto a própria cristaleira. Qualquer valor que esse conjunto ou itens individuais pudesse ter dependeria de mim ou da existência de alguém semelhante e seus estados mentais equivalentes.

Acontece que nosso planeta é numerosamente povoado por seres completamente o oposto dos copos, seres que tem valor em si mesmos independente do que eu ou qualquer um possa pensar ou atribuir a eles. Qualquer mal ou bem experimentado diz respeito inalienávelmente e primeiramente a eles, ainda que indiretamente possa gerar conseqüências em mim. Mesmo se não existíssemos, esse valor continuaria inabalado: basta imaginar que nossa ausência no mundo durante o século XV não teve o poder de anular o valor de Pero Vaz de Caminha para ele mesmo, ainda que, hipoteticamente, ele não soubesse da existência desse valor ou que desse o mínimo valor (ou valor algum) para a sua vida. Se algum dia Pero Vaz sofreu ao pisar num prego ou desfrutou de bem estar ao tomar banho de sol, foi uma experiência selada nele, mesmo que seu bronzeado tivesse desencadeado conseqüências na percepção alheia (e que seria uma experiência única desse afetado pela exposição visual ao bronzeado de Pero Vaz de Caminha). O mesmo não podemos afirmar sobre os copos, ainda que eles pudessem ter valor para alguém nesse mesmo século (um valor atribuído de fora por alguém e não uma experiência interna do próprio copo, algo impossível para uma coisa até hoje).

Então vamos imaginar que o copo está na área externa de um círculo – o círculo da consideração moral – e os seres vivos dentro. A distância entre o copo e ‘determinados seres’ que estariam mais próximos do copo é ainda polêmica, assim como seus possíveis desdobramentos caso ‘algum dia’ se prove que estávamos enganados quanto a esses ‘determinados seres’ e distâncias. No entanto, parece improvável que esse ‘algum dia’ chegará. Desse modo, o copo está do lado de fora; é uma coisa sem valor em si e só possui valor em virtude da nossa existência, pois somos seres capazes de valorizar alguma coisa; do lado de dentro, mas quase do lado de fora (perto do copo) estão os ‘determinados seres’ (vamos supor como exemplo plantas, bactérias e pessoas em estado vegetativo irreversível, ou seja – e até que se prove o contrário – são seres incapazes (ou agora incapazes) de valorizar qualquer coisa; supor que neles ocorrem instâncias de prazer e sofrimento, além de corromper o uso dos termos “prazer” e “sofrimento”, não faz sentido com base nos conhecimentos científicos vigentes, o que é totalmente diferente de demonstrar que respondem a certos estímulos).

Contudo, se muitos de nós humanos estamos no centro e nos arredores do centro desse círculo da consideração moral (portanto não apenas do lado de dentro como incrivelmente longe do copo), temos razões e elementos suficientes[1] para demonstrar que boa parte dos animais que temos conhecimento estão intimamente próximos de nós dentro dessa forma geométrica da consideração moral (possivelmente lado a lado ou ocupando virtualmente o mesmo lugar que nós). Dentre essas razões e elementos é irrefutável o fato de que para eles (os animais), assim como para nós, o prazer é um bem e o sofrimento é um mal (em resumo, essa capacidade de percepção sobre si mesmo é chamada de senciência) o que torna óbvio o mal em prejudicá-los.

Considerá-los como um copo ou como um ser próximo ao copo é um absurdo e um erro tão grande quanto considerar um de nós da mesma maneira (o que não significa que devemos tratar esses animais igualmente, mas sim ter a mesma consideração por eles quando o interesse em jogo é o mesmo que o nosso, independente de outras características irrelevantes presentes em cada ser; ex.: considerar o bem que é desfrutar a vida conforme sua espécie determina (desde que não cause mal maior a ele e a outros) e o mal que é o sofrimento imposto sem que isso possa desembocar num bem maior para ele mesmo, entre vários outros casos). De modo parelho para nós e para os animais, o desfrute de felicidade é algo bom e o sofrimento é algo ruim e não considerar igualmente essas semelhanças em virtude de diferenças que não dizem nada sobre o que está em jogo é um preconceito (especismo) sem qualquer justificativa imparcial e que dá continuidade aos crimes mais perversos que a história da humanidade já está a contar.

Desconsiderar o sofrimento alheio apenas porque ele se manifesta num ser nascido em outra espécie ou porque o ser em questão não tem a capacidade de raciocinar como um ser humano ‘padrão’ é avaliar o mal do sofrimento a partir de critérios irrelevantes à capacidade de sofrer e isso é inaceitável (independente de quais forem os critérios irrelevantes e por mais mirabolantes que possam parecer). Do mesmo modo, é inaceitável desconsiderar o bem que é poder desfrutar a vida e o mal que é ter esse desfrute interrompido simplesmente por, levianamente, eleger como balizador irrelevâncias que em nada dizem respeito a esse bem e mal. Qualquer criatura dotada de características que possibilite o reconhecimento de que o desfrute da vida em é um bem para ela e a interrupção disso é um mal deve ser considerada em pé de igualdade com qualquer outra criatura onde exista esse mesmo reconhecimento, seja esse ser um porco, uma criança, uma galinha entre outros, pois o que tem legitimidade não é a aparência externa (ou qualquer outro atributo irrelevante) do indivíduo, mas sim seu status íntimo já reconhecido e equiparado com outros semelhantes. Porém, desfrutar plenamente a liberdade em determinadas situações pode ser algo a ser contido.

Quando demonstramos que temos razões e provas suficientes para situarmos esses outros animais perto de nós dentro desse círculo de consideração isso não é arbitrário. É bem pelo contrário e incontáveis tratados sobre isso[2] aguardam refutação para dar continuidade ao debate de modo racional. Insistir na crença de que não existe problema em instrumentalizar os animais (fazer uso deles seja como for) ou que nossos deveres para com eles tem limites ingênuos é uma tolice (ou insanidade) tão grande quanto afirmar, nos dias de hoje, que a Terra é plana como uma moeda. Na verdade, é um crime sem precedentes que se prolonga a cada minuto e perpetua uma quantidade de agonia e sofrimento impossível de mensurar.

Acontece também que muitos coletivos humanos vivem numa estranha confusão, atribuindo um nivelamento ou semelhança entre os copos, a cristaleira, os animais e circunstâncias (logo, entre os copos, a cristaleira, eu, você que está lendo, todos os demais e nosso entorno). Para esses, “quebrar” algum animal é algo sujeito de reposição. O animal é tornado copo pela vontade de alguém (só que esse alguém não consegue explicar como um ser com valor em si mesmo é tornado coisa substituível como num passe de mágica; muito menos explicar como um ser único e insubstituível, com valor em si mesmo, portanto tendo valor inerente independente do que qualquer um possa pensar ou sentir por ele, pode ser substituído).

Estando a “cristaleira”, que como exemplo para esse caso pode ser um determinado bioma, com o número de copos/animais reposto satisfatoriamente conforme algum julgamento de classe, então estaria tudo bem. Essa, normalmente, é a visão ambientalista que gera confusões extraordinárias entre anti-especismo e ambientalismo e está muito arraigada dentro do próprio movimento de direitos animais. Que confusão magnífica misturar o domínio do raciocínio matemático ou descrição de determinadas interações ambientais com a vida alheia, individual, única e insubstituível. Essa “cristaleira” também pode ser imaginada como um plantel de gado de corte, ou um biotério de alguma universidade ou laboratório e mais exemplos não faltam. E os animais, de maneira maligna, tornados copos. Muito mais impressionante é que esses coletivos reconhecem que esses animais não são como copos, mas criam regras ou justificativas falaciosas para tratá-los como tal. Uma contradição suprema, outro ato mágico. Admitem eles: não são copos, mas com “essas regras” ou com “essas justificativas falaciosas” passam a ser quando conveniente. Um dilema calcado em miopia, oportunismo, nos “fins justificam os meios” e toda sorte de obscurantismo. Disso, surgem os famigerados comitês de “ética” em experimentação animal, o paradoxal abate “humanitário”, as atividades acadêmicas duvidosas em diversas carreiras universitárias e assim por diante.

Ainda, nesse emaranhado, mistura-se e falaciosamente procura-se justificar o mal em “quebrar” e fazer um animal sofrer e a impossibilidade de substituir um ser único com o bem que pode ser feito ao trazer outro ser único, insubstituível e com valor próprio para a vida (fazer nascer), como se esse novo ser fosse desfrutar de uma vida agradável de ser vivida. Podemos sustentar que trazer alguém à vida para sofrer é um mal. Antes nunca tivesse existido do que ser trazido para padecer. Mas mesmo que esse bem fosse feito (trazer um ser à vida para desfrutar positivamente no lugar do anterior), isso não neutralizaria nem anularia o mal prévio deliberado. Aquilo continuaria sendo um crime irreparável e que não deveria ter sido cometido contra a vítima antecedente. Pensar diferente é esvaziar o valor da própria (minha, tua) vida.

Fatalmente, todo esse composto também está impregnado naqueles que tentam se desvincular do preconceito do especismo e que procuram levar suas vidas com o mínimo possível de danos diretos (e indiretos) aos seus semelhantes animais. Dentro desse movimento político e social de justiça, o que é nomeado como veganismo é um exemplo emblemático onde os integrantes buscam em seus modos de vida esse objetivo de livrar os animais de toda a malevolência humana. Ainda assim, muitas vezes a mentalidade ainda está contaminada por confusões, preconceitos e ilusões.

Uma pessoa que opta em não se tornar uma assassina de outras pessoas não pode ter a ilusão de que sua postura ética (o dever negativo de não assassinar gratuitamente) salva alguém que nesse momento está sendo vítima de assassinato em algum lugar do mundo. Para salvar essa vítima (o dever positivo de evitar o dano) é preciso algo a mais que isso, mas a falta desse algo a mais não invalida essa postura ética duma pessoa que não está em condições de tomar essa decisão (pode estar do outro lado do planeta no momento do crime ou não ter condições de enfrentar o assassino), além de ser um a menos a cometer atrocidades injustificáveis contra inocentes por aí. Igualmente, não estar em condições de salvar alguém não pode ser um argumento para então iniciar a matança ou ser conivente com ela. Que adjetivo atribuiríamos a alguém que pensa que “já que não consigo evitar os assassinatos ao redor do mundo então vou começar a matar e financiar mortes por aqui também.”? Mas pensar que o fato de que não matar é salvar alguém (como se não matar e salvar fossem equivalentes) que está em vias de ser abatido por outras mãos e onde a nossa interferência para evitar isso não tem alcance é confudir deveres negativos com deveres positivos (nesse caso), não reconhecer as circunstâncias e as próprias limitações[3], além de criar um terreno inseguro para seu pensamento e argumentação, mas um solo seguro para uma decepção que não precisa ocorrer.

No exemplo hipotético, o copo com detalhes em cor azul, nesse sentido, foi “salvo” em decorrência da minha agilidade. Evitei que fosse despedaçado pelo impacto com o chão. Mesmo esse copo sendo uma coisa substituível, diferente de um animal, eu só pude evitar o evento de esfacelamento devido a sua existência prévia. Então aqui ouso fazer uma comparação entre a coisa, nós e os outros animais. Para limitar no âmbito da alimentação, dizer que ao parar de comer animais estamos “salvando” um animal (ou mais animais) é uma tremenda confusão. Deixar de comer é uma coisa e salvar é outra. A postura ética de deixar de comer animais, entre outras ocorrências valiosas decorrentes dela, tem o poder de diminuir ou extinguir a demanda. Assim, menos (ou nenhum) animais seriam trazidos à vida. Desejamos ver o dia em que menos (ou nenhum) animais sejam trazidos ao mundo para sofrer e esse mérito será “nosso” também (mas o dever urgente residirá em livrar do sofrimento os poucos que forem trazidos ao mundo em situação de exploração). Mas para salvar alguém é preciso algo a mais e é preciso que esse alguém (o animal) já exista e necessite ser salvo. Salvar é livrar um ser único já existente (eu ou você) duma circunstância que exige salvamento. Os únicos animais passíveis de salvamento são os que estão nas fazendas de criação e outros locais desgraçados nesse exato instante. Crer o contrário (que deixar de comê-los vai salvá-los) é, a partir de alguém que se julga afastado do especismo, afirmar que os animais são como os copos, uma vez que os animais que estão sendo arruinados nesse instante de leitura seriam passíveis de substituição por menos (ou nenhum) animais imaginários num futuro fictício.

Contudo, novamente, isso não é motivo de depreciação das posturas éticas urgentes e necessárias, nem motivo para alguém se sentir desanimado. Muito pelo contrário. É se afastar de ilusões e preconceitos, é solo seguro e a constatação de que estamos dando passos iniciais valiosíssimos, de que nos situamos no extremo oposto da lógica da dominação, opressão e destruição violenta de seres tão sensíveis quanto nós e de que muito mais tem de ser feito[3] para livrar-los do mal real, imediato e futuro.

Um passo inicial de extremo valor é não praticar nem ser conivente com um mal injustificado contra quem é submetido. Mas se de modo inadmissível o mal ocorre, bastaria eu me satisfazer com a crença de que se eu não pratico o mal então isso seria suficiente para que esse mal tivesse fim[4]? Eu não deveria procurar maneiras de erradicar esse mal, com o recurso peculiar que fosse, ao invés de encerrar o assunto na minha suposta não contribuição mesmo ciente de que o mal continuará a ocorrer?

Examinando tudo o que foi dito até agora, e sem a intenção de menosprezar qualquer avanço pessoal (por mais singelo que for), uma reflexão pertinente aqui é: se estamos mesmo a considerar as terríveis conseqüências que os animais estão a sofrer em virtude das decisões, sejam elas nossas ou de outros, ações ou omissões e circunstâncias do mundo, salvaremos qualquer um daqueles que estão agora, nesse exato instante, a clamar por salvação e/ou estamos mesmo empenhados em minimizar tanta barbaridade para além da nossa obrigação moral de não fazer, não fomentar nem ser conivente com esse mal?

No ínicio desse texto, sugeri que o nosso esforço em enterrar os preconceitos que não encontram mais justificativa perante a razão também pode ser prejudicado em virtude das confusões e crenças que temos (o que pensamos ser verdadeiro sobre uma questão). Mesmo que não possamos fazer nada (ou quase nada) de substancial para modificar certas questões urgentes nesse período em que vivemos, um passo fundamental é o exercício de questionarmos até que ponto ainda estamos imersos no especismo. Então, imaginando uma imensa cristaleira repleta de copos como metáfora para nós e os outros animais nesse mundo, recomendo o texto “Sobre danos naturais”[5] do mestre em Ética e Filosofia Política Luciano Carlos Cunha como ferramenta para esse questionamento.

* Agradeço ao mestre em Ética e Filosofia Política Luciano Carlos Cunha pelas revisões, críticas e sugestões.

Sugestões de referências:

[1] Declaração de Cambridge sobre a Consciência em Animais Humanos e Não Humanos. Disponível em http://www.ihu.unisinos.br/noticias/511936-declaracao-de-cambridge-sobre-a-consciencia-em-animais-humanos-e-nao-humanos

[2] Porque temos o dever de dar igual consideração aos animais não-humanos e as implicações práticas desse dever. Disponível em http://olharanimal.org/porque-temos-o-dever-de-dar-igual-consideracao-aos-animais-nao-humanos-e-as-implicacoes-praticas-desse-dever/

[3] Os limites do veganismo (série de vídeos do Consciencia.VLOG.br). Disponível em http://consciencia.blog.br/os-limites-do-veganismo#.UO2ZyeT7IhU

[4] Omitir-se de praticar o mal não basta. Disponível em http://www.anda.jor.br/16/05/2011/omitir-se-de-praticar-o-mal-nao-basta

[5] Sobre danos naturais. Disponível em http://olharanimal.org/sobre-danos-naturais/

Fonte: ANDA


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Os que fazem e os que só falam

O título sugere, erroneamente, que vou também endossar uma forma de preconceito fundada por aqueles que, deliberadamente e arbitrariamente, elegem a sua própria maneira de agir ou a sua habilidade desenvolvida, enfim, sua forma de ser nesse mundo, seja ela qual for, mesmo que exemplar para boa parte dos que estão ao redor, como balizadora para hierarquizar todos os demais que ali não se encaixam como inferiores ou como maneira de desprezar ou fazer pouco caso dos que não se enquadram no grupo dos que se acham no direito de eleger sem muita atenção os critérios do que é “certo”, louvável, digno e adjetivos não faltam para esse sectarismo que julgo inadequado e que não passa de uma autoproclamação para atribuir uma suposta superioridade aos que se negam a refletir sobre isso com um pouco mais de profundidade. Esse preconceito é recorrente nos diversos setores da nossa sociedade que parece sofrer de uma complicada doença ou carência tipicamente imatura de seus membros ensandecidos pela notoriedade, pela necessidade de pertencer a uma pretensa casta dos importantes, dos bons, dos detentores de potenciais que outros não seriam capazes de obter e muitas vezes desejam mesmo que “os de fora” não possam fazer parte dos “escolhidos”, pois, assim, não seriam mais tão bons ou tão importantes uma vez que estariam diluídos numa multidão. Então, fazendo uso dos recursos que dispõem, desde os de ordem intelectual, profissionais, práticos, artimanhas maliciosas e sejam quais forem, acabam por traçar linhas divisórias as mais intransponíveis possíveis para defender seus altares e proteger uma fragilidade e fraqueza óbvias. Muito duvidoso. Tudo isso não é muito diferente dentro do movimento que pretende livrar os outros animais da selvageria assassina imposta pela espécie animal a qual pertencemos.

O que virá a seguir pretende ser a exposição de algumas perspectivas e exemplos reais e hipotéticos, ainda que perfeitamente observáveis no cotidiano, e de forma alguma será uma defesa da estagnação, da inércia ou da indiferença, pois é vital que possamos sempre, cada qual no seu momento mais propício, desbravar novos caminhos, descobrir em si capacidades, habilidades, motivações entre outras qualidades antes adormecidas ou não desbravadas. Mas também é extremamente importante perguntarmos a nós mesmos se tais qualidades estão mesmo adormecidas em níveis mais profundos ou se estamos fingindo não tê-las, fingindo não dar atenção para questões urgentes como as que envolvem a tortura e assassinato de animais para os diversos propósitos que o bicho homem ainda insiste em dar prosseguimento mesmo que tenha alternativas e que seja possível viver sem fazer parte de toda essa maldade, pois como já disse Jonathan Safran Foer no seu livro “Comer Animais”, você até pode acordar alguém adormecido, mas é impossível acordar quem finge estar dormindo.

Retornando aos que fazem e aos que só falam, amparados no entendimento inicial desse texto, mesmo que essa classificação em dois pólos não tenha uma contrapartida justa com a realidade ou não tenha contrapartida alguma, vamos incluir alguns outros nesse universo forçosamente e beneficamente plural.

É sensato e mais comum, ainda que as exceções sejam também sensatas e nada incomuns, esperarmos que alguém tenha mais afinidade e competência na área em que se especializou ou que tenha optado em exercer, ainda que seja possível sempre ampliar os horizontes ou simplesmente levar a vida fora dos padrões mais disseminados uma vez que viver é infinitamente mais antigo que as regras, muitas delas toscas, que regem a história do animal humano.

Alguns enveredam para atividades embasadas em etapas diversas envolvendo as, por exemplo, teóricas e práticas, e que culminam em procedimentos mais práticos num sentido de intervenções corpo a corpo, vamos dizer. Outros, para produções de certo modo intangíveis, ainda que tenham o potencial de produzir modificações ou até revoluções nas estruturas de seu entorno, que pode ser seu grupo de amigos, familiares, sociedade, time de futebol, e tais entornos são muito numerosos, basta estar disposto e com a mente aberta para imaginá-los. Apenas para exemplificar rapidamente, para o primeiro caso poderíamos citar um médico veterinário e para o segundo um escritor ou poeta, ainda que em ambos os casos, dependendo da vontade de prosseguir cumprindo os requisitos demandados, seja possível a mesma pessoa desempenhar as duas atividades. Mas não é esse o ponto que quero destacar agora.

No contexto dos defensores dos animais que são signatários do preconceito irrefletido mencionado no começo desse texto, o médico veterinário que dedicasse parte de seu tempo, recursos e expertise numa assistência voluntária aos animais ao seu alcance seria uma pessoa que “faz”, não fica falando, de fato faz. Isso bem que é verdade e deve ser devidamente reconhecido e incentivado. Precisamos, os animais precisam, de muitos mais assim. Mas dessa premissa evoluir para uma conclusão que o coloca, o médico veterinário, acima, que tenha superioridade sobre ou seja usado como exemplo para desprezar os que “apenas falam” não faz sentido algum, uma vez que o poeta ou escritor desse nosso caso fictício, ainda que com muitas semelhanças na nossa realidade, não empreitou sua vida para atuar no âmbito do médico veterinário, mas no universo das palavras escritas e faladas. Seria absurdo esperar do poeta ou escritor um bom desempenho num procedimento cirúrgico. São universos diferentes e cada um exerce uma função própria. O contrário também é verdadeiro. Não é porque o escritor ou poeta produza obras literárias ou científicas fantásticas que colabore ou dê os fundamentos da causa animal, e precisamos de muitos desses até como meios para inspirar para a causa os médicos veterinários sensíveis às palavras dos que “só falam”, que ele estaria numa forma de pedestal acima do médico veterinário que faz seu trabalho com competência, mas não tem ou não desenvolveu aptidões na esfera das artes das letras. Não faz sentido algum pregar esse tipo de ranço. Incentivar o avanço de cada um, de forma construtiva e positiva, na direção de novas colaborações possíveis de se empregar já é outra coisa, e, tristemente, não vemos muito isso tanto quanto desejamos. Na verdade tudo faz parte de um intrincado complexo interligado de maneiras que mal podemos tentar adivinhar.

Esses foram apenas dois exemplos. Muitos outros poderiam ser dados, onde profissões ou aptidões diferentes acabam por serem indevidamente comparadas ou usadas maliciosamente para autopromover determinado grupo às custas de outro. Os resultados dessa prática que não me agrada em que os propósitos parecem ter um compromisso mesmo é com a autopromoção que amenizaria ou aplacaria um possível sentimento de desalento, fraqueza, pobreza de espírito ou por pura ignorância podem ser imprevisíveis, tanto para o bem quanto para o mal. Uma coisa é certa: existem alternativas para incentivar as pessoas a irem além sem fazer chacota com a sua área de escolha, inata ou própria de atuação. É possível sentir-se bem e ter sua atuação reconhecida sem ter que rebaixar os demais que optaram pelos outros caminhos indispensáveis que também fazem parte dessa complicada engrenagem.

Será que devem muitos ainda insistir nesse estranho interesse em rebaixar os que “só falam” em prol dos que “fazem”? Sabemos que o silêncio por si só já diz muito, chega a ser insuportável em determinadas ocasiões, comunicando muito mais que mil palavras ou ações. Então, se por via do silêncio alterações significativas podem ocorrer entre os envolvidos, como insistir em querer criar essas hierarquias sem função clara, além das duvidosas e já descritas lá no topo, uma vez que até o “não falar” repercute na realidade prática até com mais força que muitas ações que são irmãs gêmeas do “fazer”?

Claro que determinadas pessoas congregam ou combinam uma gama de aptidões, habilidades e disposição para, por exemplo, atuar na sua profissão em prol da causa (tanto o médico veterinário como o escritor), levantar bandeiras em manifestações, conversar, educar, escrever, participar de discussões, ser ativista em grupos organizados, advogar e a lista é longa. E isso é bom! Mas a questão principal permanece: isso concede algum direito de rebaixar quem atua de forma diferente seja por opção seja por singularidade? Será que o esperado não seria um incentivar, mesmo que através de provocações respeitosas, os passos adiante de quem pode caminhar, porém tendo consideração pela diversidade necessária e importante para todo o complexo que nos encontramos e dependemos dentro da causa animal? Qual poder mágico foi concedido ao acusador preconceituoso que o permite invadir o espaço íntimo e subjetivo de alguém para desvendar e julgar negativamente as suas formas bem peculiares de agir, simplesmente por serem diferentes das que o acusador pretensamente, arbitrariamente e deliberadamente elegeu como as “certas”, sejam elas quais forem? Conheço pencas de pessoas que no maior dos silêncios, sem fazer parte de organização alguma, o que faz com que sejam mal vistos ou desprezados pelos preconceituosos em questão, colaboram da sua maneira quando se indispõem em encontros gastronômicos familiares, o que causa um ruído no tabu estabelecido e dá visibilidade para a causa dentro desses núcleos, que em algum momento apresentam algum trabalho acadêmico para sua turma em sala de aula tratando da questão e despertando consciências ou, pelo menos, trazendo o assunto para o debate, que pedem para algum dono de restaurante incluir opções sem animais e explicam o porquê disso e o rol de atitudes quase invisíveis aos olhos de quem não quer enxergar para poder manter seu status superior fantasioso é enorme. Como mensurar os resultados ou repercussões de cada peça dessa formidável engrenagem? Quem aí se arrisca? Sabemos hoje que pessoas que fazem trabalhos fantásticos, de maior vulto vamos dizer, sem desprezar os também fantásticos silenciosos e indiscutivelmente vitais, seja no universo do “fazer” ou do “falar”, foram influenciadas ou tiveram suas vidas transformadas em momentos completamente singelos mas, ainda assim, fundamentais dentro do todo, como conseqüência de ter assistido um documentário ou filmagem apresentado por um amigo, em decorrência de um bate-papo na hora de um almoço qualquer, por ter tido a oportunidade de ajudar um animal em apuros e ter visto a “vida” ou gratidão em seus olhos, e aqui também a lista é extensa. Mais uma vez repito que não estou defendendo a estagnação ou inércia, pois passos adiante podem e devem ser dados, mas colocando em perspectiva um paradigma extremamente rico e necessariamente diversificado que exige reflexão e consideração antes que pessoas se achem no direito de pregar hostilidades e preconceitos descabidos.

Alguns podem não ter entendido a mensagem até agora e dizer ou pensar algo nesses termos, mesmo que esses termos não passem da minha fantasia para ilustrar: “então não vamos fazer mais nada e vamos ver no que dá. Vamos deixar nas mãos dos que não fazem nada, só sabem falar”. Para esse caso fantasioso, nada me restaria a não ser pedir que o texto seja lido novamente com mais atenção tendo em mente que cada coisa tem seu lugar e sua função numa saudável e necessária interdependência. É como uma orquestra completa. Cada instrumento, por mais inaudível que possa parecer para um ouvido não treinado, está cumprindo exatamente o seu papel na sinfonia. 

Fonte: ANDA


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Nem amor, nem gostar

Quando o outro não tem um “rosto”, como sentir algo de destacada importância?

Nesse caso, defino o “rosto” como alguém de proximidade tal a ponto de mobilizar nossos mais fortes sentimentos nas diversas ocasiões da vida. O pai e a mãe ou a pessoa que amou e cuidou, o irmão ou irmã, o parceiro e a parceira, o amigo, entre tantos outros, nos casos das relações agradáveis e chamadas de saudáveis.

“Rosto” em uma definição arbitrária para o momento. Impossível não ser, além de estar, de certo modo, me apropriando do termo que serviu a Emmanuel Levinas – o que não significa que saiba algo sobre ele ou aplique aqui o mesmo sentido.

Essa parece ser uma das nossas “pobrezas mais miseráveis”. O outro ter de ter rosto. O imperativo de o outro ter um rosto para que o conjunto de minhas decisões, sejam elas ações ou omissões, passe a considerá-lo nas conseqüências dessas decisões.

Desde que o outro sem rosto não faça parte dos “meus”, dos meus rostos, caso lhe acontecesse algo de mortal, por exemplo, não poderia esperar de mim sentimento avassalador. Na hipótese, e em geral, ainda que abalado, poderia esperar algo raso e muito passageiro. Experimentamos isso diariamente através dos noticiários que trazem ao nosso conhecimento várias das situações que nomeamos de desgraças. Se o que escrevo fosse algo muito longe das nossas vivências, não suportaríamos tamanho sofrimento ininterrupto. E acredito que isso não configura frieza nem qualquer outro atributo com intenção pejorativa.

Contudo, seria difícil de concordar, aceitar e dar suporte a qualquer ação que resultasse num absurdo para a integridade do outro sem rosto. O outro não precisa ter um rosto, não necessita ser um próximo para que eu me oponha, que eu desaprove e não contribua nem aceite que lhe coloquem em situação indigna. Não preciso ter sentimento algum por ele para defender e lutar de alguma maneira para que não lhe recolham de sua dignidade e autonomia mais cara. A não ser por um sadismo doentio, defenderia o contrário. E se assim fosse, não poderia protestar quando aplicassem em mim e aos meus próximos aquilo que aprovo que seja aplicado aos outros – aos outros sem rosto.

Os produtos oriundos de animais inevitavelmente carregam um simbolismo e realidade repulsiva em sua “gênese”, pois são provenientes de uma das indústrias mais perversas e abomináveis em nível planetário. Quem duvida, basta querer ver. Mas, em geral, “nossas barrigas não tem olhos nem ouvidos”. Talvez teriam se os animais submetidos fossem aqueles com rosto, os próximos como os que fazem parte de algumas famílias: os cães, gatos, cavalos entre outros. Repito aqui o que chamo de nossa pobreza mais miserável: o outro ter de ter um rosto – ser próximo – para receber alguma consideração. Os que estão fora desse círculo de considerações ficam entregues àquilo que poderíamos chamar de nosso pior pesadelo.

É através da aquisição e consumo desses que ousamos chamar de “produtos” que aprovamos e financiamos essa “maquinaria de transformação de coisa viva em coisa morta”. É dessa forma um tanto banal e corriqueira que nos tornamos cúmplices e coniventes com a incessante e permanente exploração de nossos semelhantes que tiveram o azar de ser como são, apesar de sua biologia, sensações e emoções terem um rosto tão familiar. 

Fonte: ANDA


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