O que se ensina nas escolas de veterinária e biologia

Por Leonardo Maciel

A espécie humana é realmente distinta e capaz de coisas inacreditáveis, tanto coisas fabulosas quanto desastrosas. Nossa evolução tecnológica desenfreada, se direcionada de outra forma, poderia trazer benefícios inacreditáveis para o planeta e todas as consciências que nele estão. Mas todos sabemos que não é assim. Não conseguimos sair de nosso autocentrismo autodestrutivo.

Por mais que saibamos sobre a interdependência das espécies, não conseguimos parar de olhar para nosso umbigo e nos colocarmos acima de tudo o que há a nossa volta.

Em se tratando de biologia e preservação do nosso planeta, andamos de ré. O que se ensina nas escolas de veterinária e biologia ? Recebo diariamente muitos estagiários de ambas as profissões e testemunho a quase imutabilidade dos conceitos.

Nas faculdades de biologia e veterinária, andando na contra mão, ainda se ensina que apenas a vida humana é um valor a ser considerado, e que as outras estão aqui para nos servir, para fazermos uso dela em nosso benefício.

Ensina-se que a ciência é uma autoridade que não deve ser questionada, e que o progresso da ciência está acima de tudo. Não há argumentos que sustentem essa afirmação, mas mesmo sem argumentos tenta-se validá-la.

Ensina-se que a vida não é um valor em si, que os indivíduos não tem valor intrínseco e que o coletivo é uma justificativa. Isto apenas se justifica sob uma ótica muito simplista, rasa e carente de valores éticos mais amplos.

Afinal, é justificado coletar animais na natureza para estudos, museus, classificações, dimensionamento evolutivo, estudos de impacto ambiental. Coleta-se animais para museus como se fossem minerais ou objetos. Afinal não é um progresso para a ciência? Para progresso da ciência devemos justificar então a coleta de indivíduos pelo regime nazista para experimentos em medicina? Quanto se progrediu na medicina com as experiências nos campos de concentração? A primeira máscara que cai é que a ciência não é uma autoridade acima de qualquer suspeita. Então algumas espécies podem ser coletadas e outras não? Qual o parâmetro a ser usado para escolher? Simples : o do preconceito especista.

Que não devemos ter preconceitos é um consenso. Há algumas décadas atrás, dezenas de homens, mulheres e crianças negras, com diagnóstico de sífilis foram tratadas com placebo durante anos para se estudar a evolução da doença. Estas pessoas não sabiam que estavam tomando placebo e morriam. A ciência progrediu. Afinal a ciência não é uma autoridade ?

Se isto foi horrível para com as pessoas, por quê não é horrível com os animais? Por causa do preconceito especista. Por quê “nos achamos os tais”. Por que os animais não fazem passeatas e nem greves, porque não postam seus problemas nas redes sociais, porque se calam. . . . aliás não se calam, nós é que estamos surdos aos seus lamentos.

Ensina-se nas escolas de biologia e veterinária que a vida é escalonada em valor, que uns valem mais que outros , que uns podem pagar com a vida para o bem dos outros, que uma vaca pode ter uma existência miserável para que usufruamos de suas secreções e de seus filhos, que podemos injetar o que quisermos em ratos como se isso fosse explicar o que aconteceria se fosse em humanos.

Ensina-se que é válido sacrificar um ‘espécime’ e colocá-lo como uma caricatura mórbida em um museu para que possamos entender de onde viemos. Afinal . . . é a ciência. . . e o progresso!

Ensina-se a melhor maneira de engordar um boi para que o matemos e o comamos para nos tornar-mos também gordos e com as artérias entupidas, e para que possamos usufruir dos medicamentos para aterosclerose que testamos nos ratos.

Ensina-se que devemos ter ética na utilização de animais em pesquisas e formas humanitárias de abate, como se um lenço para enxugar o suor aplacasse a injustiça do trabalho de um escravo. Ética para quem ? Para aplacar a nossa consciência? A nossa ética não tem servido em nada para os outros seres .

Ensina-se que é justificado matar um cão de rua aprendendo técnicas cirúrgicas para que possamos aprender a cuidar de outros cães. Afinal, para as escolas de veterinária e biologia existem vidas . . . e vidas. Existe a vida humana e as outras vidas que são menos importantes.

O que se tenta ensinar nas escolas sobre igualdade, respeito, não- preconceito, consideração igual de interesses não tem funcionado. Não é estranho que tenhamos que ter leis para forçar as pessoas a terem atitudes respeitosas? Talvez seja porque o respeito não é realmente ensinado. O respeito é uma atitude total e vem de dentro. Não se pode ser mais ou menos respeitoso, não se pode respeitar uma coisa sim e outra não. Não se pode respeitar um ser e outro não. Ou se tem respeito ou não se tem. Enquanto formos seres parciais. . . especistas, caminharemos para um abismo. O abismo que criamos entre nós e os outros seres sencientes é o abismo onde nós mesmos cairemos.

Os próprios termos “especismo” e “senciência”ainda são mal conhecidos nas escolas de veterinária e biologia, e ignorada a relação entre não ter água na torneira e plantar um pasto.

Enquanto não abolirmos a escravidão animal ainda seremos escravos de nós mesmos. 


{article 957}{text}{/article}

Olhar Animal – www.olharanimal.org

Onde estão os veterinários?

Por Leonardo Maciel

Cada vez mais a mídia noticia maltratos contra animais e pessoas sendo punidas, muitas vezes mais pela sociedade do que pela justiça constituída. Acho que estamos lentamente evoluindo. Nunca se viu tanta denúncia e tanto espaço dedicado aos animais, apesar de pequeno em vista da necessidade.

Como médico veterinário e vegano, me pergunto onde está a classe veterinária neste contexto. Talvez seja o mesmo que me perguntar se todos os médicos humanos estão engajados com os direitos humanos.

Milhares de veterinários são formados a cada semestre no país. A maior parte deles estará envolvida com produção de alimentos de origem animal. Além de promover a criação de bovinos, ovinos, suínos, aves, peixes e animais selvagens, o veterinário também estará na inspeção do abate, na avaliação da carcaça e de possíveis doenças transmissíveis a humanos.

Também é função do médico veterinário participar na cadeia de produção industrial dos alimentos, tais como embutidos, apresuntados, salsichas, e todos os produtos que contenham carne.

Empresas que industrializam leite para produção de queijo, doces e yogurtes também empregam veterinários para inspecionarem sua cadeia de produção.

Uma parte dos veterinários estará atuando nos laboratórios de produção de medicamentos, alimentos para animais em fazendas de produção, vacinas e rações.

Alguns veterinários se tornam representantes de laboratórios e passam a visitar produtores rurais e hospitais veterinários apresentando as novidades do mercado.

Uma parcela dos profissionais atuará em órgãos de saúde pública, em planejamento de campanhas de controle e erradicação de doenças como a raiva e a brucelose bovina por exemplo.

Também é função dos veterinários participar de monitoramento do trânsito internacional de animais para evitar a circulação de doenças, como nos aeroportos na fiscalização das autorizações para viagem.

Muitos veterinários trabalham em empresas de genética e reprodução de animais para consumo humano, industrialização de sêmem, inseminação artificial para obtenção de animais com maior rendimento de carne, ovos e leite.

Por fim, uma parte dos veterinários estará envolvida com clínica de animais de companhia, controle populacional de cães e gatos, zoos e centros de triagem de animais selvagens.

O campo de atuação é extenso e muitas atividades não foram citadas, mas a medicina veterinária, como instituição, é totalmente voltada à produção de alimentos e os profissionais formados para atuarem em prol do ser humano. Benefício, bem estar e alimentação humana, pois mesmo quando se trata o cão de um “proprietário” que se encontra aflito, a saúde do cão trará benefício para o ser humano que o possui.

As mudanças de posicionamento em direção ao reconhecimento dos direitos dos animais é tímida. Paradoxalmente, apesar da classe reconhecer a senciência dos animais (através de “estudos científicos”) ainda permanece uma tradição especista de que os animais podem ser usados para nosso benefício. A medicina veterinária hoje sustenta um mercado, atende a uma demanda. A incoerência e o questionamento de valores parecem disseminados, pois muitas pessoas me questionam sobre a ausência do médico veterinário na luta pelos direitos animais enquanto comem carne, leite e ovos. Um bem- estarista com este questionamento deveria se abster de opinar, se informar e no mínimo rever seus conceitos.

Particularmente, acho a medicina veterinária um privilégio. Recuperar a saúde de um animal e cessar seus desconfortos e dores beneficia muito mais a quem faz. Há algum tempo escrevi algo sobre o que nos diferencia dos animais, o que nos torna humanos e acho que este é um ponto: poder usar tecnologia e conhecimento para restituir a saúde de alguém tão suscetível, tão vulnerável no mundo atual.

Recebemos muitos animais, sobretudo aves vítimas de queimaduras em incêndios devido ‘a estiagem. Chegam com dor. Dor de queimadura. Após recuperadas, vê-las voando pela primeira vez para bem longe em uma segunda chance na vida nos faz humanos, mesmo que tenhamos participação na seca.

Os animais precisam de médicos. Estão doentes por câncer e intoxicação por pesticidas, desequilíbrios populacionais, sequelas de cativeiro e de abusos, acidentes no meio ambiente antropizado irremediavelmente. A classe veterinária não se sentirá pressionada a mudar enquanto a maioria das pessoas preferir comer os outros seres do planeta ao invés de respeitá-los e reconhecer-lhes os direitos.


{article 957}{text}{/article}

Olhar Animal – www.olharanimal.org

Quem inventou o ‘chumbinho’?

Por Leonardo Maciel

O “chumbinho” faz parte de uma série de “pesticidas”que passaram a ser sintetizados na década de sessenta. Este produto é usado como defensivo agrícola, com comercialização autorizada, mas hoje é também traficado e o combate a este tráfico é tratado da mesma forma como se trata o tráfico de entorpecentes. Movimenta fortunas por ano. Ao que se sabe há uma única empresa fabricando em escala, que já anunciou várias vezes a interrupção da produção.

O “praguicida”é usado em concentrações permitidas para o controle de insetos e larvas na agricultura para produzir nosso alimento ou o alimento de bovinos, aves e suínos .No ambiente pode durar até 100 dias contaminando rios e o solo , mas normalmente é metabolizado antes. Dados médicos, subestimados, sugerem que milhões de pessoas que trabalham com produção de alimentos são intoxicadas todos os anos de forma aguda, com sintomas de dificuldade respiratória, náuseas, problemas dermatológicos e também de forma crônica, com alterações oculares, intestinais e musculares. Os efeitos do chumbinho são dose dependente, ou seja, se o animal ou nós, ingerimos uma pequena quantidade, ela será eliminada em 48 horas pela urina, mas se a dose for alta pode levar à morte ou deixar sequelas que se tornarão importantes ao longo da vida, com as sucessivas intoxicações.

Estes compostos, usados na agricultura, atingem o solo e são absorvidos pelas plantas, fluindo através da seiva para todas as partes do vegetal. Lavar não resolve tudo. Sim, ingerimos produtos tóxicos com os vegetais que comemos. Aquele alface sem nenhum buraquinho nas folhas acontece porque os insetos que o comeriam morreram. Então, aquele que contém partes comidas seria o mais indicado.

O chumbinho usado criminosamente para envenenar animais e pessoas na verdade é uma mistura de vários compostos. É errôneo acreditar que o chumbinho mata ratos, porque o veneno pode matar em poucos minutos, e é o rato mais velho que vem comer primeiro na hierarquia social. Se este morre, os outros não comerão o produto. Uma armadilha só mata um único rato.

Por quê estas considerações? Mais uma vez estamos dando um tiro no próprio pé ao tratarmos os outros seres, mesmo ratos, como pragas, como pestes a serem eliminadas. Nosso antropocentrismo tem sido a explicação … e a nossa derrota. A produção orgânica seria a solução, mas a produtividade é mais baixa e os custos mais altos. O controle populacional humano ainda é um tabu referenciado pela maior parte das religiões. Afinal, crescei e multiplicai-vos, e é preciso produzir alimentos para esta população crescente.

É necessária uma tomada de consciência por parte de nossa civilização e que muitos paradigmas sejam questionados.Temos feito as coisas às cegas, inconsequentemente, pensando apenas no imediato. Onde vamos assim? Um bife num prato ou um alface na prateleira do supermercado podem ser muito mais do que parecem.O que muda nosso comportamento é a informação.

Na intenção de um mundo mais justo e mais saudável para todos os animais sencientes, nós vegetarianos devemos buscar alimentos livres de inseticidas e agrotóxicos. Informação é cada vez mais importante. Sabemos como são produzidos os alimentos de origem animal, mas poucas informações temos sobre como são produzidos os vegetais e frutos que consumimos. Saber o que se passa é o primeiro passo para reinvidicar um alimento honesto.É uma tarefa difícil porque o estabelecido por centenas de anos não muda rapidamente. Será que não muda mesmo?


{article 957}{text}{/article}

Olhar Animal – www.olharanimal.org

O cavalo no sinal de trânsito e o veganismo na prática

Por Leonardo Maciel 

Todos presenciamos, todos os dias, atos de falta de consideração para com os interesses dos animais não humanos. Nas redes sociais não faltam notícias de atos de crueldade e de punições, ainda que incipientes.

Paro no sinal de trânsito e ao meu lado para um cavalo atrelado a uma carroça pesadíssima. Ele pinga suor e arfa sob o sol do meio dia. Quando abre o sinal o chicote estala na pele dele e na minha cabeça. Aperto as mãos no volante com muita força e tenho vontade de sair partindo para uma agressão verbal e física. O sentimento de injustiça me cega. Consigo baixar o vidro e dizer apenas um: bate não moço que ele sofre como nós… Engulo seco e os olhos ardem. Resolveu para o cavalo? Teria eu plantado uma semente no coração do carroceiro ou plantado uma semente no asfalto fadada a não germinar?

Uma vez que consideramos o sofrimento dos nossos companheiros, passamos a sofrer com eles e muitas vezes esta solidariedade afeta nosso dia a dia. Vejo muitos veganos e ativistas se exasperarem com um sentimento de impotência e não raras vezes revolta, frente à aparente imutabilidade das coisas.

O que fazer na prática? Como tornar nossas convicções produtivas? Qual posicionamento nos traria o sentimento de estarmos progredindo e colaborando para uma mudança ?

Esta resposta não é fácil e terá muitas nuances de acordo com o tipo de vida e o entorno de cada um dos que acreditam na abolição da escravidão dos outros animais.

O primeiro passo acredito ser o exemplarismo. Sermos coerentes, verdadeiros, perseverantes, cuidarmos de nossa saúde física, sermos pacifistas e mantermos o equilíbrio. Sejamos a mudança que queremos ver no mundo, como já foi dito.

Para sermos coerentes, precisamos de informação de qualidade para rebatermos com assertividade os questionamentos que virão por parte dos defensores ou questionadores da escravidão animal.Precisamos ler e estudar sobre nutrição vegetariana, sobre a senciência dos animais, desequilíbrios ambientais causados pela produção e industrialização de produtos de origem animal. Estas questões tem se tornado tão óbvias que não precisamos ser especialistas para termos um argumento sólido e embasado. Argumentos com embasamento puramente emocional e apelando para uma ética sem fronteiras geralmente têm pouco resultado prático, porque os conceitos de ética dos que consomem animais é bem distorcido.

Uma outra atitude é indicar sites sobre o tema para as pessoas que conhecemos. A informação é um poderoso instrumento, porém indiquemos sites de qualidade, com artigos de pensadores e formadores de opinião que realmente façam a diferença.

Não nos afastemos do convívio com os onívoros. Passar a viver em guetos veganos não trará benefícios aos animais explorados. Em reuniões e confraternizações, não se exclua e fique sem comer, pelo contrário, leve opções veganas de salgados, sorvetes, bolos e churrascos, pois a maioria das pessoas não sabem da existência e benefícios destes produtos e compartilhar-los alegremente surte muito efeito.

Cultive o hábito de presentear livros sobre o abolicionismo animal sempre e fora de datas específicas. Um presente oferecido com amor e sinceridade, de surpresa, tem um impacto enorme. Temos ricas opções de autores nacionais e estrangeiros como Sônia Felipe e Tom Regan para começar. Coloque uma dedicatória e peça ao presenteado para passar adiante com outra dedicatória, como uma corrente. A informação fluirá amorosamente.

Existem muitos e bons projetos de lei parados nas câmaras de vereadores e no congresso nacional. Estes órgãos podem ser acessados e aceitam pedidos para que estes projetos caminhem. Compartilhe estas informações com os amigos. Se os políticos o fizerem por puro interesse, não fará diferença para os que sofrem. Afinal eles não querem saber que quebrou as correntes, querem apenas a liberdade.

Sermos pacifistas não significa sermos complacentes frente às injustiças. Denuncie maus tratos às delegacias de polícia de proteção animal ou à polícia convencional. Não há resultados? Sim, há. As penalidades são fracas? Sim. Mas é um começo.Quanto mais pessoas denunciam, mais cria-se uma demanda e muda-se um paradigma. Uma punição, por menor que seja, não deixa de ser uma exemplificação, principalmente para as crianças.

Não sou a favor da violência, e muito menos ser conivente com a violência. Nossa atitude pacifista frente a um animal em sofrimento extremo estará muito próxima da omissão e da covardia. Como veterinário, mais de uma vez, comuniquei ao “tutor”que não devolveria o animal, e que se este quisesse reavê-lo teria que procurar um advogado. Ninguém nunca tentou reaver, pelo contrário, acho que se contentaram em ficar livres do “problema”.

Acho que como reconhecedor dos direitos animais, todas as opções pacíficas de resolver uma situação de sofrimento de casos específicos devem ser tentadas. O animal em sofrimento extremo e risco de vida iminente não poderá, entretanto, esperar mudanças de paradigmas e de uma legislação manca, ineficiente e antropocêntrica. Sim, sou a favor da invasão da propriedade alheia, pular muros, arrombar grades e tornar pública a situação de maus tratos. Isto é bem diferente de atos de vandalismo contra a propriedade alheia, mas como os animais não são propriedade alheia…

Muita gente tomou conhecimento das ações do Sea Sheperd em defesa das baleias apenas quando foram presos e a situação se tornou internacionalmente visível. Os rumos da libertação animal ainda não foram traçados ou sistematizados, e com certeza vai levar muito tempo para reconhecermos que a libertação animal será a libertação de nós mesmos da condição de tiranos. Por enquanto resta-nos sermos fiéis a nós mesmos, acima de tudo, e não desistirmos, mesmo se aparentemente lutarmos contra moinhos de vento. Não são.


{article 957}{text}{/article}

Olhar Animal – www.olharanimal.org

Quem conhece Zygmunt Bauman?

Por Leonardo Maciel

Todos nós, abolicionistas, protetores e pessoas sensíveis à causa animal vemos todos os dias os crimes, as atrocidades, violência física, violência sexual e demais agressões aos outros seres do planeta, humanos e não humanos. Talvez os questionamentos do porquê acontecem nos ajudem a entender.

As explicações devem ter múltiplas causas e consequentemente múltiplas opções de ações de mitigação.

Zygmunt Bauman, sociólogo que já foi agraciado com o prêmio Amalfi, concedido às melhores publicações na área de sociologia e teoria social, nos fornece interessantes ideias à respeito do comportamento de nossa espécie.

Em seu livro “Holocausto e Modernidade”, este fantástico pensador nos fornece uma análise de nosso comportamento sob a luz da máquina burocrática e discursa sobre como criamos, institucionalizamos , justificamos e perpetuamos ações maléficas.

Para o autor, a maioria dos participantes de um holocausto, genocídio ou ato social danoso não participou diretamente da ação. A maioria dos burocratas compôs memorandos, redigiu planos, falou ao telefone e participou de conferências. Podiam destruir todo um povo sentados em suas escrivaninhas.

Bauman cita um especialista técnico, Willy Just, em seus escritos sobre as câmaras de gás da segunda guerra:

“Um caminhão menor, totalmente carregado, poderia operar mais rápido. Uma redução no compartimento traseiro não afetaria prejudicialmente o equilíbrio do peso sobrecarregando o eixo traseiro, pelo fato de que a carga, na tentativa de abrir a porta durante a operação, situa-se na parte traseira. Para facilitar a limpeza, deveria ser feito um orifício de oito a dez polegadas no chão, com uma tampa aberta para fora. O chão deveria ser ligeiramente inclinado e a tampa equipada com uma peneira fina. Assim, todos os fluidos finos sairiam ainda durante a operação e os mais espessos poderiam ser retirados depois com um mangueira”.

No texto acima, o caminhão era utilizado como câmara de gás, a carga eram as pessoas, os fluidos finos eram a urina e os espessos as fezes das pessoas no desespero da morte. O técnico e o funcionário, entrevistados muitos anos após, não apresentavam qualquer drama de consciência ou dilema moral, porque estavam apenas cumprindo deu dever, ordens superiores. O que os chateavam eram as críticas à respeito do produto do trabalho.

Quando uma pessoa retira uma caixa de leite da prateleira de um supermercado, não há drama de consciência, porque segundo Balman, com a produção social da distância, a moralidade parece conformar-se à lei da perspectiva ótica. A moralidade parece grande e espessa quando perto dos olhos. Com o aumento da distância, a responsabilidade sobre o outro encolhe e as dimensões do objeto se embaçam, até que ambas atinjam o ponto de desaparecimento e somem de vista. Entretanto, os efeitos da ação humana alcançam muito além do ponto de desaparecimento e da “visibilidade moral”.

O médico veterinário que projeta o curral de leite também não tem dramas de consciência. Planeja o escoamento dos fluidos finos, dos fluidos espessos e do sangue, calcula o espaço do corredor de abate para evitar fugas no desespero do cheiro da morte, o corredor deve ter a largura do corpo da produtora de leite para que ela não consiga virar o corpo e voltar… o caminho é sem volta e sem escolha. Apenas intermediários da ação burocratizada fazendo seu papel. Quem consome o leite não dá a martelada na cabeça da vaca e deve achar que o leite brota nas prateleiras e que as vacas o doam por altruísmo. A burocratização e a divisão das tarefas afetam a percepção da cadeia de produção.

Bauman ainda postula, em se tratando da “ciência”, que esta é uma alta autoridade, raramente contestada e moralmente respeitada… e que o que não é assinalado porém é que, mais do que qualquer outra autoridade, a ciência é autorizada pela opinião pública a praticar o princípio, de outra forma extremamente odioso, de que os fins justificam os meios. A ciência é o mais completo exemplo da dissociação entre meios e fins, que é o ideal da organização social humana: os fins é que são submetidos à avaliação moral e não os meios.

Ao que parece, nossa organização social é bem mais complexa e ampla de que podemos perceber em nossas ações autômatas do dia a dia. Filósofos e sociólogos nos mostram muitas vezes o que não temos tempo para parar e pensar. Na nossa divisão de tarefas, entretanto, é raro um veterinário ler um livro de filosofia, um arquiteto ler algo sobre medicina veterinária ou um candidato a presidente ler algo de um nutrólogo sobre a evolução dos hábitos alimentares na nossa espécie. Sabemos cada vez mais sobre cada vez menos, e perdemos, por exemplo, ao não ler os textos de Sônia T. Felipe que são um bom deleite. Por vezes, evoluímos como computadores. Os filósofos e sociólogos deveriam ser uma luz e não uma lamparina à óleo na tomada de decisões sobre nossos caminhos. Termino este texto longo que poucos vão ler propondo um brinde ao pensamento… com um bom copo gelado de leite de amêndoas. 


{article 957}{text}{/article}

Olhar Animal – www.olharanimal.org


Eutanásia nos animais

Por Leonardo Maciel 

Uma questão bastante controversa e dolorosa é a eutanásia de animais. Como médico veterinário, em mais de 20 anos de profissão, cada morte é como se fosse a primeira, pelo profundo impacto que causa. A morte sempre vem carregada do sentimento de que houve um fracasso na tentativa de preservar a vida física.

Como não somos os donos da vida alheia, porque teríamos o direito de interrompê-la? Esta questão ainda se impõe mesmo sobre a espécie humana e o próprio Peter Singer já foi alvo de críticas e agressões ao discutir a eutanásia.

A morte do animal de companhia por si só já pode causar grandes alterações psicológicas nas pessoas, talvez por nos lembrar de forma clara e dura o quanto somos finitos, ou seja, encararmos a morte do animal amado nos lembra da nossa própria morte, da qual temos pavor.

Agrava-se este fato na nossa cultura ocidental materialista onde as questões da vida após a vida não fazem parte do nosso cotidiano. A morte como uma passagem não faz parte de nossa cultura.

Já presenciei muitos tutores de animais que rejeitaram veementemente a recomendação da eutanásia porque se diziam “contra” simplesmente e que o ser tinha que cumprir a missão ou evolução dele de forma natural. O que como médico vejo, é que morte natural pode ser lenta e dolorosa. Extremamente dolorosa. Que evolução seria esta?

Já realizei milhares de eutanásias e fui contra todas elas. Diz-se que se evolui pela dor e pelo amor, então acredito que todas as eutanásias que realizei foram por amor, exceto as criminosas que participei quando era estudante de medicina veterinária. Quando recomendo uma eutanásia, é porque todas as possibilidades médicas já foram tentadas, e quando realizo sempre penso que algum dia a medicina terá uma outra solução que não seja aquela. Os leigos, ao endeusarem falsamente os médicos e veterinários, na verdade não têm consciência do quão limitada ainda é a medicina.

Prefiro acreditar que a morte não seja uma coisa ruim para quem vai. A dor será de quem fica? O espiritismo e a conscienciologia, (cito estas duas porque são as únicas que conferem individualidade e senciência aos animais) ao atestarem a continuidade da vida, postulam que os seres amados podem sofrer após a morte porque presenciam o sofrimento e o apego de quem fica.

Temos diversas provas que os animais entendem, em diferentes graus, ou com distintas percepções, o que seja a morte e que demostram luto. Elefantes velam seus mortos com uma serenidade comovedora, primatas carregam seus filhotes mortos e mostram depressão no luto. Nosso antropocentrismo cego não nos deixa perceber mais as reações dos outros animais porque a morte deles na maioria das vezes não é importante para nós, aliás, vivemos da morte deles.

Um fato interessante, por mim presenciado muitas vezes é que, quando dois cães convivem e são muitos companheiros, se um sai a passeio ou ao veterinário, o outro fica extremamente ansioso e o procura pela casa e dentro do carro quando este não volta naquele momento. Porém, quando um cão vê o companheiro morto, este comportamento não é observado. Eles sabem o que é a morte. Pode parecer óbvio para muitos, mas a maioria não pensa nisto ao supor que a morte animal e a morte humana são coisas distintas, separadas por um abismo especista.

A eutanásia de um animal deve ser um procedimento extremo, quando não há mais condições de qualidade de vida, realizada com respeito, amor (num sentido bem amplo), medicamentos adequados, indolor e se alguém tem que sofrer nesta hora, que seja o responsável pelo animal. Vejo muitos animais sofrendo terrivelmente com doenças terminais graves porque o “dono” não tem condições de arcar com a própria dor e autorizar a eutanásia. O difícil para um médico veterinário nesta hora é não ter preconceito especista e entender que o tutor também precisa ter respeitado seu momento de abrir o coração e entregar o ser amado. 


{article 957}{text}{/article}

Olhar Animal – www.olharanimal.org


Porque os animais nos zoológicos estão nus

Por Leonardo Maciel

Após os últimos acidentes em zoos, o assunto volta à tona. Muito tem se falado sobre a extinção destas instituições que acredito vão acontecer um dia porque ainda acredito que a nossa espécie vai evoluir e não voltar às cavernas.

Vejo vários aspectos sendo discutidos sobre todas as razões que justificariam o fechamento de zoos, e para fornecer mais argumentos, coloco olhar veterinário, como médico especialista em animais silvestres e exóticos.

Em primeiro lugar, um animal em exposição normalmente vem da natureza ou de outro zoológico. A retirada de um indivíduo de seu meio familiar é um processo danoso e traumático que não é de conhecimento das pessoas. Um exemplo rápido e prático, através de uma espécie que todos conhecemos são os calitriquídeos (micos) que hoje estão cada vez mais urbanizados mas vale o exemplo. A organização destes animais segue padrões rígidos há milhares de anos. São grupos familiares grandes, onde apenas os pais se reproduzem. As filhas não engravidam, não há acasalamento entre irmãos, o pai carrega e cuida dos filhos cabendo à mãe apenas amamentar. Após uma certa idade, os pequenos são cuidados pelos irmãos mais velhos que os carregam e cuidam até a independência. Depois de adultos, os filhos mais velhos são afastados pelos pais e as filhas mais velhas são afastadas pelas mães, tornando-se solteiros sozinhos até que encontrem outros solteiros e formem nova família. Os papéis de cada indivíduo na família são bem estabelecidos e a quebra de um elo desta corrente pode trazer consequências desastrosas para o grupo, e mesmo o desaparecimento do mesmo. Este comportamento social é aprendido, ou seja, o indivíduo não nasce sabendo e aprende tudo com os pais. Nem tudo são rosas e claro ocorrem disputas, desentendimentos e problemas familiares. Cada espécie tem sua organização social característica. A retirada de um animal do seu grupo, pelo menos no momento errado, pode trazer consequências desastrosas para o indivíduo, para o grupo e para os animais das outras espécies com as quais se relacionava.

Um animal em exposição, além da óbvia falta de liberdade, torna-se um zumbi com comportamento estereotipado, uma sombra do que realmente seria. Não há comportamento social ou familiar, ou se a vida é em grupo, está totalmente alterada pela constante observação e intervenção humana. A visitação não é ” educativa” porque os animais que ali estão não são eles mesmos, e sim uma tentativa de adaptação ao cativeiro.

Os zoos possuem normalmente um chamado “setor extra”, que é um local separado da visitação pública onde ficam definitiva ou temporariamente os que não devem ser expostos, ou seja: os mutilados, os doentes físicos, os doentes mentais como um primata que perdeu a sanidade mental e se masturba 24 horas por dia, os altamente estressados pela visitação pública e aqueles que se entregam a um torpor e prostração depois de anos de prisão e falta de expectativa (incentivo/ estímulo).

Outro fator a ser considerado são as enormes quantias em dinheiro investidas em zoológicos por algumas prefeituras, mesmo que insuficientes para o bom andamento do local. Os valores investidos são voltados para as condições de visitação, passeios, jardins públicos, grades de proteção e embelezamento dos recintos para visualização das pessoas, quando a prioridade seria a remuneração adequada dos funcionários, biólogos, veterinários, tratadores e alimentação adequada dos animais. Uma opinião é que os zoos sejam fechados à visitação pública e transformados em centros de triagem e reabilitação. Existem excelentes profissionais trabalhando nos zoológicos, tentando corrigir os problemas advindos do estresse causado pela visitação, enquanto poderiam estar desenvolvendo estudos que poderiam realmente colaborar para o conhecimento e a minimização dos danos que temos causados aos outros habitantes do planeta.

Os recintos de exposição são na maior parte das vezes sem vegetação adequada, sem esconderijos imitando o natural. É comum uma grama rala ou chão batido pelo andar em círculos, sem local para que o animal possa se esconder quando não quisesse ser visto e ter sua privacidade. Se eles ficam escondidos as pessoas reclamam que não conseguem vê-los; assim eles têm que estar constantemente expostos, psicologicamente nus para o deleite dos que ainda têm o prazer doentio de ver alguém preso.

Dizem que, o que não é escolha, não é mérito nem derrota, então acho importante a discussão e a difusão de informações sobre a realidade dos zoológicos, porque a partir disto só haverá dois caminhos para as pessoas: serem contra ou serem coniventes. 


{article 957}{text}{/article}

Olhar Animal – www.olharanimal.org


Cuidando bem do animal que é seu

Por Leonardo Maciel

A presença dos animais em nossa vida remonta a tempos imemoriais. Primeiro deve ter sido como alimento, depois como força de trabalho e companhia. Estamos unidos aos outros seres da planeta tão intimamente que não há como imaginar nossa civilização sem eles.

Uma parte destes seres mantemos em nossa companhia muito próxima, dentro de nossas casas. São cães, gatos, papagaios, canários, periquitos, hamsters, porquinhos-da-índia, coelhos, ratos, gerbis, jabutis, peixes, cabras, cobras, rãs, gekos, furões, iguanas e mais uma infinidade de silvestres. Nós os amamos, cuidamos, alimentamos com o que gostamos de comer também e tentamos fazer o melhor. Ou o que achamos ser o melhor. São “nossos “, nominados, fotografados e vestidos. Fazemos muitas vezes casinhas bonitinhas para agradá-los ou compor o ambiente. Às vezes gastamos muito dinheiro com eles.

Em meu consultório, recebo muitos “proprietários” que realmente se importam com seus animais e ficam chocados quando descobrem que seu papagaio foi alimentado anos com girassol e por causa disto está com pressão alta, aterosclerose, insuficiência hepática e que por isto tem poucas chances de vida longa. A falta de informação foi o crime. Vejo também furões que são carnívoros estritos e foram alimentados com frutas e guloseimas e agora estão condenados.

Acredito que muitas pessoas são sinceras e achavam que estavam fazendo o melhor, e que realmente amam seus pets. As pessoas acreditam que estão cuidando bem deles, quando na verdade estavam adotando seus próprios parâmetros de bem estar, ou seja , acham que o melhor para elas seria o melhor para os animais.

Em primeiro lugar, acredito que nos equivocamos ao acharmos que somos os “proprietários” deles. Ninguém é dono da vida de ninguém. Como já foi dito, as mulheres não foram feitas para os homens, nem os negros para os brancos, nem os animais para os humanos. A vida é preciosa demais para ficar enclausurada, domesticada, talhada ao nosso prazer, moldada para nos satisfazer e preencher nosso infinito interno. O animal não “serve” a nos ajudar psicologicamente. Quem tem algo a resolver que procure um psicólogo, psiquiatra ou um tarja preta; mais honesto que jogar suas insatisfações em um ser indefeso e que não teve escolha.

Se o outro está sob nossa responsabilidade (irresponsabilidade) é muita pretensão achar que estamos cuidando bem dele, porque só pelo fato de estar preso já não há como cuidar bem. Ninguém é feliz ou completo sem liberdade. Não há nenhum cuidado de nossa parte que possa compensar a falta de liberdade. As gracinhas que ensinamos aos nossos pets são na verdade uma humilhante distorção da nossa esquizofrênica distorção da realidade alheia.

Sei de um papagaio que passou 23 anos numa gaiola cantando ilariê. Prazer equivocado para o que se achava o dono e não para a ave. Foi resgatado, passou mais de um ano em reabilitação e foi libertado. Foi difícil pois o coitado nem sabia o que era um papagaio porque foi abduzido do seu ambiente muito jovem.Uma vez libertado , se acasalou com um fêmea de vida livre e teve filhos. Seus filhos livres cantavam ilariê também. Que triste!

Os animais têm comunicação entre as espécies. É maravilhoso. Quando uma ave emite um som, todos os animais das outras espécies sabem o que significa, ou seja, uns entendem a linguagem dos outros, e sabem se há perigo, predador, chuva, fogo. O que será que os outros animais devem ter “imaginado” vendo um papagaio cantando ilariê no meio da mata? As marcas que deixamos são indeléveis e têm um efeito em cadeia .

Um animal em nossa companhia, é uma responsabilidade imensa. Uma vida preciosa, insubstituível, única, e que tem anseios, necessidades com as quais nem sonhamos porque olhamos apenas para o nosso umbigo. Nossas necessidades não são mais importantes que as necessidades deles. Ninguém é proprietário da sua vida como você não é proprietário da vida alheia. Não interessa se esta vida tem penas, pelos, escamas, se pia, grasna, muge ou se não emite sons audíveis.Informe-se sobre quem está ao seu lado sem escolher e procure fazer o melhor para ele, lembrado que a liberdade é tão importante para ele quanto para você.


{article 957}{text}{/article}

Olhar Animal – www.olharanimal.org


Soltar pipas é cultural

Por Leonardo Maciel  

Chegam as férias escolares de julho, este ano antecipadas pela copa do mundo, e começa o festival de pipas. Crianças correndo por todo lado, os parques cheios e os céus coloridos de pipas de todas as cores. Afinal, soltar pipas é cultural e um programa para pais e filhos. Ensina-se que não se deve soltar pipas perto da rede elétrica e que não se deve usar o cerol. Muitos motociclistas foram vítimas do cerol e hoje ele é combatido pelo risco à vida humana.

O que não é divulgado é que nesta época, os acidentes envolvendo aves crescem assustadoramente. Centenas delas são vítimas das linhas de pipas em suas asas e chegam aos centros de triagem de animais selvagens, recolhidos por populares e pelas polícias ambientais presos em um emaranhado de linhas. Não se computa os que não chegam sequer a ser recolhidos, morrendo lenta e dolorosamente por feridas e inanição. Muitas destas aves são sacrificadas por perderem a capacidade de vôo, uma vez que não há santuários em número suficiente para recebê-las.

leonardo pipas cerol1

Existe atualmente uma grande quantidade de espécies de aves que se adaptaram ao meio urbano, como corujas, gaviões, falcões, bem-te-vis, pombas, rolinhas, sabiás, urubus, garças, entre outras. Nós, porém, não temos o hábito (ou tempo) de observá-las em nossa rotina alucinante. Elas chegam feridas, sangrando, desidratadas e com muita dor. Em apenas uma ONG de apoio à polícia militar ambiental na região metropolitana de Belo Horizonte, no ano de 2013, foram acolhidas mais de 1500 aves, a maioria feridas com linha de pipa.

Não é somente o cerol a causar ferimentos. A linha pura igualmente fere a pele delicada das aves e é também uma armadilha fatal espalhada pelas árvores urbanas, como um campo minado.

leonardo pipas cerol2

Há um tempo atrás, considerava-se cultural soltar balões e devido aos incêndios que causavam foram banidos. Hoje ensina-se às crianças que soltar balões não é legal, mas não se ensina que soltar pipa é maléfico porque na nossa cultura antropocêntrica a dor do outro não importa muito, principalmente quando o outro não é da nossa espécie.

Temos a tendência de colocar acima de qualquer suspeita o que identificamos como “cultural “, que na verdade se tornou uma justificativa para nossos prazeres ou atitudes nem sempre justificadas se analisarmos por uma ética mais ampla. A nossa espécie já deveria estar suficientemente crescida para saber decidir o que é culturalmente aceitável, o que queremos que nos represente ou não. Os questionamentos sobre o que é culturalmente aceitável acontecem quando nossa espécie é a prejudicada, direta ou indiretamente. Um exemplo bem claro são as queimadas, que são combatidas por prejudicarem o solo que usamos e não por matar de maneira covarde e dolorosa os animais.

Talvez seja a hora de questionarmos o que seja cultura na espécie humana porque podemos decidir, escolher, modificar e fazer de nossa cultura uma cultura de paz ampla.

leonardo pipas cerol3 


{article 957}{text}{/article}

Olhar Animal – www.olharanimal.org


 

O que nos separa dos animais?

Por Leonardo Maciel   

Prepare o seu coração….Pras coisas que eu vou falar….Eu venho lá do sertão…..E posso não te agradar…Então não pude seguir…Valente em lugar tenente…E dono de gado e gente…Porque gado a gente marca…Tange, ferra, engorda e mata…Mas com gente é diferente.

Por que com gente é diferente? O que nos separa dos animais? A fala? Eles também têm sua linguagem. A inteligência? Eles realmente não têm capacidade para construir uma bomba atômica. A dor? Os mecanismos fisiológicos são os mesmos. Por quê com eles é diferente?

O que nos aproxima dos animais? Quando alguém é burro como uma anta? Forte como um cavalo? Ladrão como um rato? Idiota como uma toupeira?

Nos diferenciamos dos animais porque nos espelhamos neles para nos afirmar como espécie. Tudo que não gostamos em nós é o que rejeitamos neles, como se tivéssemos vergonha de nosso passado e tivéssemos evoluído e eles não. Eles nos lembram o que queremos esconder. Eles são o nosso espelho e nosso avesso.

Historicamente, a loucura humana antes de ser encarada como uma patologia era identificada quando adotamos comportamentos que não nos são adequados, como ficar nús, comer no chão, gritar descontroladamente, morder os outros e babar. Ainda hoje, quando alguém “perde a razão“ dizemos que ficou louco e parece um animal. Parecer um animal não é adequado, é uma vergonha.

O filósofo franco- argelino Derrida sentiu-se incomodado ao se ver observado por um gato enquanto estava nú. O outro o estava observando e este outro está na verdade muito perto de nós, separado apenas por um olhar. O olhar que não realizamos. O abismo que criamos entre nós e os ”outros” está em não nos reconhecermos mais como animais também, e acharmos que já evoluimos tanto que somos uma categoria superior.

O que nos separa dos animais entretanto, pode ser o que nos deixa sem identidade, uma vez que ao tentarmos negar nossa animalidade, negamos a nós mesmos. A evolução da nossa consciência, capacidade de discernimento e mudanças pensadas não deveria nos separar das outras consciências. Deveríamos ter evoluído para uma espécie onde valores como respeito aos outros e seus níveis evolutivos fosse a regra e não a exceção. Dentre as muitas coisas que nos separam dos outros animais, uma que não nos traz orgulho é o fato de sermos escravagistas para com os outros, porque é o que nos torna menos evoluídos ao contrário do que pensamos. Em algum momento erramos o caminho.

Quando será que veremos com o mesmo horror comermos os outros animais, como vemos com horror a antropofagia hoje? Quando isto acontecer seremos uma espécie melhor, muito melhor…inclusive para nós mesmos.  


{article 957}{text}{/article}

Olhar Animal – www.olharanimal.org