Chega de safaris: desconstruindo ‘A Fazenda Africana’

“Tive uma fazenda na África, no sopé das montanhas N´Gong…”. Assim singelamente a escritora dinamarquesa Karen Blixen, sob o pseudônimo de Isak Dinesen, inicia seu fantástico relato sobre os anos vividos no Quênia, assunto do best seller A Fazenda Africana, publicado em 1937.

A fábula do bode e do tigre

Longe de causar um momento fofura, a notícia do bode colocado na jaula do tigre para que fosse comido, e que contrariando as expectativas (falaremos dessas “expectativas”…) desenvolveu com seu predador natural uma inesperada amizade, provocou-me muita inquietação.

Direitos animais: do que são feitas as meninas?

De que são feitos os meninos?
De que são feitos os meninos?
Rãs, caracóis, rabinhos pequeninos…
Disto são feitos os meninos!

De que são feitas as meninas?
De que são feitas as meninas?
açúcar, perfumes e outras coisas finas…
disto são feitas as meninas!

Protetor não é acumulador: cuidado com essa construção especista!

Na última edição do programa global Profissão Repórter, mais uma vez, foi abordada a síndrome do hoarding, ou do acumulador. É um tema chamativo, que desperta no público aquela agradável sensação de descobrir-se normal e bem adaptado aos padrões vigentes, pela simples contemplação das esquisitices alheias. E não poderia faltar, é claro, o maluco mor, o acumulador/colecionador de animais, o transgressor insano que escolhe enxergar o outro nas espécies não humanas.

Assassinato na GNT: um não saber sabendo…

Por Liège Copstein

Tinha uns oito ou nove anos quando me exportaram, por duas semanas, para a fazenda de uma tia. Minha irmã estava com sarampo complicado – naquele tempo todas as crianças tinham sarampo – e ninguém mais podia se ocupar de mim.

Ao Açougueiro Vegano: uma resposta ao ataque da National Hog Farmer contra o projeto vegano The Herbivorous Butcher

Por Liège Copstein

Em 25 de janeiro, a editora do blog National Hog Farmer (entidade americana que explora porcos para abate) Cheryl Day, publicou um artigo criticando a proposta do The Herbivorous Butcher, um bistrô vegano inaugurado nos EUA que oferece alternativas vegetais à carne e aos laticínios. (aqui: http://nationalhogfarmer.com/blog/vegan-butcher-just-plain-wrong#comment-374041)

Divino é não matar

Por Liège Copstein

Poucas dezenas de pessoas  compareceram à PUCRS em Porto Alegre, numa tarde chuvosa em meados de abril, para ouvir a palestra “Aprender a tocar o outro: uma ética Animal na filosofia de Derrida”, com o professor Patrick Llored, da Université Jean Moulin Lyon 3, na França.

Dia de matar o porco

Por Liège Copstein 

Venho de uma capital onde os pedaços de carne nascem nas bandejas e frangos felizes usam capacetes enquanto correm para as panelas. Aqui, existe o dia de matar o porco. É um evento social através do qual meninos tornam-se homens e homens certificam-se de que ainda são. Mulheres não comparecem, mas comentam entre si, com um sorrisinho condescendente ainda que orgulhoso: “eles foram matar o porco”. Não são porcos rosados e gordinhos, nem criados livres ciscando. São porcos escuros, peludos, deprimidos, magros. Viveram no fundo embolorado das granjas, em cercados minúsculos e imundos onde não bate sol e até a água dos cochos é pouca e barrenta. A morte para eles é um alívio.

Amigas convidam-me a visitar o rancho distante de uma velhinha solitária, onde há cães que precisam de socorro. Passam fome e maus tratos, comem apenas mandioca crua. (Mas “bichos de fazenda” não vivem na fartura?) Alguns já morreram. É com angústia que nos aproximamos, numa caminhonete emprestada pela prefeitura cujo motorista, de bom humor, ri da loucura dessas mulheres que num domingo de sol vão embrenhar-se no mato atrás de problemas.

Saímos da estrada e o carro cai num vão. O homem fica aguardando socorro, e seguimos a pé, carregando sacos de ração e uma cesta básica. A picada cai em declive, as árvores vão se fechando. De repente não há mais sol, nem mesmo capim, só terra escorregadia. Chegamos a um conjunto de galpões de madeira já preta. Um silêncio assustador nos diz que não há mais cães vivos, mas surgem três guaipecas, doentes de vermes e bicheira, com as costelas aparecendo.

E há também galinhas e porcos. Só que não são como as galinhas e porcos das granjas dos filmes e comerciais de TV, aqueles que correm livres e soltos até o dia que encontram o facão, as galinhas e porcos que não faz assim tanto mal comer, pois afinal, vivem felizes até o fim.

Este definitivamente não é o sítio da D. Benta. Num cercado bem pequeno estão dois leitões esqueléticos, sem água nem comida. Dentro de um pneu cortado, que deveria servir de bebedor mas está seco, outro porco está deitado – não sabia que porcos podiam ser tão magros -, gemendo, parece não conseguir sair. Viramos o pneu para tirá-lo dali, ele consegue se levantar. Vemos que foi castrado há pouco, tem uma ferida sangrenta. Jogamos ração de cachorro, e todos comem furiosamente; cães, porcos, galinhas… Procuro uma torneira ou um poço para servir água, mas não encontro.

Mas então, são assim as granjas felizes, tão diferentes do confinamento industrial? Tenho visitado outros sítios, esses ensolarados e floridos, sim. Só que em todos eles, os bichos que devem morrer não estavam andando despreocupados por aí, aproveitando enquanto podem suas pequenas vidas numa inocência abençoada. Porcos, e cabras, e codornas, e coelhos, e outros, eles estavam encarcerados em apertadas prisões sinistras, sujos, sem luz, sem conforto, sem nada… Apartados para sempre daquela alegria verdejante, pior, torturados pela visão dela. Como se devessem ser quebrados, desligados brutalmente da corrente da vida enquanto ainda respiram, privados de todo consolo para que a morte venha depois como decorrência natural de uma grande miséria. Onde está a dona da casa?

Continuamos propriedade adentro, para o galpão do fundo, onde há ruídos.

Passamos por mais um porco confinado, a quem jogo mais ração. Minha amiga adverte: “Não vai te impressionar…” Me impressionar com quê? Logo entendo. Lá bem atrás está a dona da casa. Não, nada a ver com D. Benta, esta é outra história. Tenho novamente cinco anos de idade. Ela está sentada, desgrenhada, de pernas abertas sobre um banco de madeira. Perto, começa a ferver a água numa panela preta e enorme que só posso chamar de caldeirão, sobre um fogo de chão. Ela segura um grande facão que afia numa pedra. Aos seus pés, um porco sangrado. Foi dia de matar o porco, e ela nos olha, hostil. Nem todo dia de matar o porco é um alegre acontecimento. Pessoas solitárias matam solitariamente, privadamente. Não gostam de testemunhas.

Minha amiga é diplomática. Pergunta primeiro da saúde dela. Muitas queixas, queixas de mulher velha e abandonada de tudo. A seguir, pergunta se ela permite que levemos para tratar a cadelinha doente que está acorrentada à parede do galinheiro. A mulher má diz que não. “Ela é boa caçadora, qualquer coisa “se bota”. Incapaz de calar quando devo, argumento que acorrentada a cadela não caça nada. Ela me olha furiosa, o facão ainda na mão. Levanta a voz: “mas solto quando EU quiser!”. Minha amiga sinaliza que fique quieta. “Ela é braba…”, sussurra.

Entregamos a cesta básica e a brabeza aplaca. Entregamos a ração de cachorro também, mas minhas amigas desconfiam que essa comida a partir de agora irá só para os porcos. “Não devíamos ter dado a ideia…” Agora, a mulher má só alimentará os porcos, os porcos que a alimentarão. Para os cães, mandioca crua. “Mas eles vão morrer de fome…”, arrisca minha amiga. “Nada. Eles se criam.”, encerra a mulher má.

Ela segue reclamando de dores, concordamos que é muito trabalho para uma senhora só. É a deixa para que eu pergunte onde pegar água, quero ajudá-la enchendo os bebedouros.

Ela se entrega diante dessa solicitude: “Mas imagina, uma moça vir da cidade pra ficar tratando bicho…”. Emoções muito contraditórias me atravessam. Me sinto bela e boa. Tenho pena da mulher velha, doente e sozinha que se desmancha diante de um gesto que interpreta como carinho. Tenho ódio dessa bruxa má, tirana, algoz e carrasco de todos esses bichos. Quero que ela morra. Insisto no oferecimento.

O encanto se quebra. Ela aponta um fio d´água quase nada que cai de um barranco, e um balde. “Água pros bichos pega ali”, diz seca. Ela sabe, agora, que não é por ela que faço isso. Está braba de novo, mas já vai se amansar. Vai se amansar, porque tiro da bolsa um spray de mata-bicheira, e peço para aplicar nos cães e na ferida do porco castrado. Ela olha fascinada e ávida para o tubo metálico que manterá seu porco intacto. (Mas gente do campo não sabe TUDO sobre essas coisas?)

Precisamos de ajuda e só então, lá do fundo, surge o neto adulto que estava de visita. Cabreiro, descalço, caminhando cauteloso. Peço duas vezes que segure o porco. Finalmente confessa que tem medo de porcos. “Mas quem castrou esse porco então?” “Meu tio”. Esse homem não é um caubói, não é Blau Nunes muito menos Capitão Rodrigo. Não tem mão firme nem laço forte. Lembro dos meus velhos tios gaudérios. Eles sabiam tudo do campo, dos bichos, das plantas. Acho que não tinham medo de porcos. Acho que matavam porcos. Tenho certeza que sim.

Conseguimos que ela entregue um dos cães, o mais magro. Medicamos os restantes. As meninas ameaçam: “vó, a gente volta, mas os cachorros têm que estar mais gordos da próxima vez, tá?” No reencontro com o motorista, comentamos sobre a desolação presenciada. Ele conhece a história da mulher, conhece a história de todo mundo por ali. “Ela nem precisa desses bichos, ganha duas pensões, nem consegue cuidar deles, mas é teimosa, está caduca”. Não é isso, penso comigo. É tudo sobre poder. A última migalha de poder que uma mulher velha, doente e sozinha consegue reter.

Nos limites, mas já dentro da cidade, todo dia é dia de matar o porco. É onde fica o frigorífico, menina dos olhos de qualquer prefeito. Quase todos os veterinários locais trabalham no frigorífico. Durante a manhã, curam cães e gatos no espaço claro do consultório. Durante a tarde, fiscalizam o “abate”. Um deles procura sessões de ioga após jornadas especialmente sangrentas. Outro não deseja ser transferido de setor. “É aqui que me realizo”.

Quando mudei para cá, o cheiro da carne queimada impregnava o ar, incomodava. Agora já não sinto. Na vida, acostuma-se com quase tudo. Mas um dia, sem querer, acabei na rua do frigorífico. Quatro caminhões-gaiola, lotados, aguardavam a ordem para entrar. Fazia muito calor, os porcos – estes bem gordos – babavam uma espuma branca. Estavam feridos, sangravam. No pânico do caminhão cheio, no desespero da viagem sem fim, atacam-se uns aos outros. Mesmo agora, finalmente parados, ainda explodem gritos e a massa se agita em torno dos mais inconformados. Contam que alguns chegam mortos.

Penso em pedir água na vizinhança e pelo menos aliviá-los da sede. (Isso não passou num filme?) Logo desisto. Não há tantas garrafas, nem tantas mangueiras, não haveriam tantas mãos. Eles parecem horrorizados com a minha proximidade. E confesso… Confesso que o medo de parecer louca também me afeta. Pondero que aquele que ganhasse água seria atacado pelos outros sedentos. Estupidamente, começo a tirar fotos, observada pelos motoristas que conversavam, fumando e contando piadas. Um deles se aproxima.

“Desculpe perguntar, mas por que a senhora está tirando tantas fotos?” Boa pergunta, nem eu mesmo sei. Nada de especial aqui, nada de interesse jornalístico. Não costumo ter presença de espírito, mas acho que dou uma boa resposta: “Porque eu nunca tinha visto uma coisa assim. De onde o senhor trouxe esses porcos?” A velha tática de rebater uma pergunta com outra. “Ah, às vezes a gente traz lá de Mato Grosso”. “Longe né?” “É, uns três dias de viagem às vezes”. “E eles não ganham água nem comida no caminho?” “Quando a gente para no posto joga água neles.”. Resolvo apelar: “O senhor não tem pena?”. Um segundo de hesitação. Pode ser um segundo ensaiado, uma pausa dramática. “Tenho… Mas cada um com sua sina, né?” É.

Uma vez li que no início da implantação da “solução final” nazista, os presos eram mortos em caminhões, cujas caçambas eram câmaras de gás adaptadas, acionadas simultaneamente com o motor. A “carga viva” deveria morrer suavemente, a medida que o andar do veículo fosse liberando o gás. Depois, era só chegar no destino e descarregar na vala. Prático, inteligente. Mas não deu certo. Motoristas, incomodados com o acúmulo da função de carrasco, corriam demais para concluir logo a tarefa. E por isso, a “carga” recebia o gás muito rápido, sofria demais, desesperava, esmurrava as paredes do caminhão. A ideia foi abandonada por “falha humana”.

Repentinamente, os portões se abrem, meu amigo corre para seu caminhão. Deram ordem para que entrem. Será por minha causa? Acho que não, não sou tão importante, e não há nada de errado aqui, certo? Olho para os porcos pela última vez. Não posso evitar; saber que em breve não estarão sofrendo me consola. Em casa, abraço meus gatos. Quero começar na ioga.


Liège Copsteinliegecopstein@gmail.com

Jornalista freelancer, graduada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Porto Alegre. Vegetariana, protetora independente – seja lá o que isso significa -, abolicionista. Mestranda em Literatura Comparada pela URI-FW, onde desenvolve pesquisa sobre os mecanismos do discurso especista na literatura contemporânea e na mídia. Escrava de sete gatos.

Ansiedade de Separação

Por Liège Copstein

Max, o akita da vizinha, passou a noite chorando. Há semanas uiva ininterruptamente, dia e noite, pois perdeu a mãe e única companhia com quem dividia o espaço diminuto do pátio onde vive.