Matar barata, ter pena de abelha

Matar barata, ter pena de abelha

Por Marcio de Almeida Bueno

Quando criança na escola, lembro daqueles exercícios de ligar figuras afins. A gata com os gatinhos, a cadela com os cachorrinhos, a vaca com um copo de leite, a abelha com um pote de mel. Nessas lições também se falava sobre animais úteis e animais nocivos. A diferenciação era clara, e tudo isso valia nota na hora da prova. Eu era um bom aluno.

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Do prazer de sentar nas costas de uma vaca

A estofaria é em uma casa antiga, no Centro Histórico de Porto Alegre, onde há prédios pequenos e casarões de uma outra época. As portas ficam abertas, então os poucos que passam na apertada calçada podem ver o que está sendo montado e o que já está pronto e exposto, em meio ao maquinário e serragem. Emoldurado por uma porta antiga, um sofá feito com o couro peludo de uma vaca.

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Dia Mundial do Meio Ambiente: puxada de descarga e torta na cara da natureza

Por Marcio de Almeida Bueno

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Tal como no Natal, com aquelas deprimentes mensagens repassadas por gente que sequer conheço, o tal do Dia do Meio Ambiente também gera um frenesi extra em algumas pessoas. ‘Vamos nos conscientizar’ e outras frases bestas entopem a caixa de emails, o Tweeter e outros menos votados. Eu me pergunto se eu tenho algo a ver com isso. Que meio ambiente é esse, sempre apresentado em uma imagem com fundo verde, ou em papel reciclado, ou em anúncios de página inteira de revista? Tem algo a ver comigo? Nunca gostei de acampar, fazer trilha, dormir em barraca, sujar os pés ou sentir falta de um banheiro por perto. Não me considero ecologista, e olho com desconfiança a todo que se apresenta como tal.

Explico.

Todo caçador se apresenta como ‘o verdadeiro ecologista’, toda empresa que não sabe mais de onde arrancar simpatia/dinheiro, lança um produto ‘ecológico’, toda produção industrial fantasia em poder puxar a descarga e se livrar dos resíduos diários – alguns fazem isso, mesmo que tenha um projeto de educação ambiental em escolas, todo candidato a cargos políticos se diz um preocupado com o meio ambiente, mesmo que seja da bancada ruralista ou receba verbas de campanha das piores empresas poluentes, todo cidadão que se diz preocupado com a Amazônia, com a mancha de óleo no Golfo do México – sem abrir mão do automóvel – e com o futuro dos pandas, frita bife em uma liturgia cotidiana.

Selos de boi verde, carne orgânica e até ‘costela de ovelha ecológica’ – sim, juro que já vi isso – não são correntes na mesa de ninguém, e mesmo se fossem me parecem mais um ‘soprar o merthiolate para não arder’ na consciência das pessoas. Este boi nasceu para morrer e acabou no forno da casa de pessoas felizes, mas era verde.

O termo em si se desgastou horrores, e a parcela de bem-intencionados talvez perceba isso, e note que há outros botões a serem apertados, como o antiespecismo e o veganismo. Daí se pode encher a boca para falar que está começando uma vida que tende a ser correta dentro das relações. Pelo menos naquilo que é mais imediato, próximo, constante, como a alimentação. Os animais silvestres também padecem no momento que se abre espaço para pasto de animais domesticados. Todos vão empacotar, então não adianta usar camiseta com estampa de consciência ecológica no sábado de manhã, se não houve uma visão crítica de si e do impacto que a própria existência causa, ou pode causar, nos demais coabitantes do planeta – os que andam de quatro, voam ou nadam, por exemplo.

Cada vez que se puxa a descarga da privada, é uma torta na cara da natureza – mas, friso, não vejo natureza como um cartão-postal de fundo verde, mas um local onde estará um animal não humano, que não percebe que aquele chão está imundo e tem metais pesados, que aquela água está coberta de óleo ou meleca vindo de curtume. É complicado começar a pensar que o WC é um cadafalso para as paisagens que aparecem na National Geographic, mas esse pensamento é necessário. Mas o que já está disponível para consumo, como uma vivência vegana, não pode ser considerado algo utópico, ecochato, excêntrico e fanático. É subversivo, pois este é um mundo violento, indiferente, explorador, sem empatia ou compaixão, então toda postura ética passa a ser subversiva. Como cumprimentar com um sorriso aquele vizinho ‘com cara de poucos amigos’. Não vou deixar de ser quem eu sou por ele estar de cara amarrada, não vou jogar o jogo do outro.

E como funciona isso na ecologia?

Questionar as tradições de consumo de produtos de origem animal, testados em animais, causadores de tantos estragos ambientais como o couro, pensar nas conexões entre o consumo de embalagens, plástico, papéis, roupas, celulares etc. e aquelas imagens de lixão que aparecem na televisão e causam espanto aos incautos. Foi o vizinho que não nos dá ‘bom-dia’ que comprou tudo aquilo?


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Da violência contra éguas e mulheres

Por Marcio de Almeida Bueno

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No vídeo, o cavalo está caído no chão, com as patas amarradas, e preso a um poste de madeira. Ele se debate, tenta se levantar – sem sucesso. Um gaúcho se aproxima – aquele bem caricato, com roupa típica, bigodão – e, com o chicote, espanca o rosto do cavalo. A cena é brutal. A pessoa que filma dá risadas. Pela voz, percebe-se que é uma mulher.

Trata-se da doma, à moda tradicional do Rio Grande do Sul.

No outro vídeo de faça-você-mesmo, uma égua é presa pela primeira vez pela boca, em um campo cercado. A corda, firme, está em um palanque. O gaúcho dá um susto no animal, que sai correndo, na sua força, sem saber do resultado. A corda estica é dá um tranco daqueles, inesperado. Dor e pavor. O processo se repete, e a égua dispara pelo gramado e então recebe o impacto. Chama-se ‘quebra de queixo’, uma espécie de ritual que diverte certa parcela da população ligada ao RS.

Não, o cavalo não é uma motocicleta que já vem de fábrica com acelerador, freio, marcha-a-ré e embreagem. Esses comandos todos são aprendidos, à custa de dor e, dali pra diante, temor para o resto da vida. Claro que a patricinha-de-feicibúqui que ‘adora cavalos’ e volta e meia vai a um sítio com passeios de montaria, jamais ficou sabendo disso. Não foi aos bastidores ver o choro do palhaço.

Porque estamos acostumados a ver o cavalo já com os arreios, com os apetrechos todos, na boca, cabeça, pescoço, costas, barriga. A propaganda é pesada, e mesmo um cavalinho de pelúcia, fofo, para dar de presente à namorada, já tem um arreio na boca. Reparem.

E há quem se auto-intitule vegano, aboliticonista ou defensor dos direitos animais, algo cool, e ao mesmo tempo passeia no lombo de um equino. Falo aqui 1% da dor física – sim, já existe a ‘doma racional’, parente do abate humanitário – e 99% da dor moral, uma vez que aquele quadrúpede vai passar o resto da vida obediente, Joãozinho-do-passo-certo, temeroso da próxima vez em que *aquela* dor vai voltar. A prova é que o ‘freio’ do cavalo-motocicleta é um puxão nas cordas, com mais ou menos força.

NInguém ousa se mexer na cadeira do dentista, quando *aquela* dor apita, não é mesmo?

E não citarei aqui a parte, digamos, odontológica aplicada ao nosso amigo cavalo, a seco, para fins de encaixe dos acessórios apropriados.

Bem, em 1984 fez muito sucesso uma música gauchesca – sim, há que se ter trilha sonora para o narrado acima – composta por Roberto Ferreira e Mauro Ferreira, chamada ‘Morocha’, cantada por um conjunto intitulado Davi Menezes Junior e Os Incompreendidos.

“Aprendi a domar amanunciando égua / E para as mulher vale as mesmas regras / Animal, te pára, sou lá do rincão / Mulher pra mim é como redomão / Paleador nas patas e pelego na cara”, diz o refrão da música. Traduzindo para a língua falada no Brasil, mais ou menos quer dizer que o autor aprendeu a amansar éguas, e aplica o mesmo procedimento às fêmeas de sua própria espécie, inclusive com uso de uma espécie de algemas e venda para os olhos – que fazem parte da doma equina, conforme o caso.

No vídeo disponível no YouTube, o cantor se apresenta com chicote na mão, e uma elegante senhora da platéia – com uma estola no pescoço equilvante a umas quatro raposas – passa o tempo todo vaiando e xingando os músicos. As demais mulheres focalizadas pela câmera aplaudem ou permanecem comportadas.

Curiosamente, uma música similar foi lançada em resposta à primeira. Intitulada ‘Morocha, não’, de Leonardo, um dos mais conhecidos cantores-compositor da música regional do RS, já falecido, respondia às bravatas. “Ouvi um qüera largado, gritando em uma canção / que as regra pra um ser humano é a mesma dos animais / que trata que nem baguais / maneando patas e mão” diz um trecho. Nota-se, claro, o especismo. Não podemos ser ingênuos. O refrão é “morocha não, respeito sim / Mulher é tudo, vida e amor / Quem não gostar que fique assim / Grosso, machista e barranqueador”. Barranquear, traduzindo, é estuprar – isto vai ser contestado, mesmo que mentalmente, por muitos, que não vão se manifestar por vergonha – uma égua fazendo uso de um pequeno declive para que, digamos, os genitais fiquem na mesma altura.

Uma espécie de ritual que diverte certa parcela da população ligada ao RS.


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Dos cachorrinhos de madame ou ‘Um puxão na Condessa’

Por Marcio de Almeida Bueno

marcio de almeida bueno cachorros

Então se convencionou que este animalzinho aqui, mas este aqui, ó, vai emocionar a todos nós com sua fofura fotogênica. Vamos todos emoldurar sua foto, compartilhar nas redes sociais, e ensinar às crianças o valor do amor aos animais – apontando-se para a imagem deste animalzinho aqui, ó. Para ficar bem claro. Haverá quem diga ‘parece gente, né?’, e ‘até faz parte da família’. Apontando para o animalzinho em questão, fofo, fotogênico e, vá lá, com melhor sorte que outros. Está valendo o quanto custou, pensa o pai que passou o cartão na hora da compra.

Claro que vejo meus vizinhos arrastando seus animaizinhos-fofos-da-família-que-parecem-gente-né pela calçada enquanto esses ainda estão tentando fazer cocô. “Vamos, Condessa!”, bradou esses dias uma vizinha sessentona, enquanto puxava seu animalzinho favorito, que ousava – vejam só o disparate! – dar uma cheirada protocolar maior que o instante suportado por sua ‘dona’. Tudo isso em um passeio matinal na calçada, com aquela paradinha obrigatória em cada gramado, árvore ou canto carimbado por si ou similares, em rondas anteriores. O amor à Condessa convertera-se em uma coleira-peiteira que permitia sua, digamos, proprietária, dar os puxões necessários para que a distração não durasse mais que o instante permitido. É necessário apurar, para chegar logo em casa e ligar a televisão ou postar imagens bonitas no ‘cara-livro’.

Não preciso dizer que, ao me ver vindo pelo mesmo passeio público, o puxão na Condessa foi especialmente vigoroso. Nunca entendi bem o porquê dessa tutela reativa que inclui um safanão bem dado cada vez que uma outra pessoa – estranha, talvez, como presumo que eu seja – se aproxime ou cruze pela mesma calçada. Alguns chegam a levantar o animalzinho pela coleira mesmo, embora eu lembre de só ter brincado de ‘forca’ com caneta e papel, até hoje.

Mas é como aquelas mães que estão sempre ralhando – …ah, esperei alguns anos para poder usar este verbo… – com o filho pequeno. ‘Para, João Felipe’, ‘larga isso, Cauã’, ‘já falei para não mexer nisso, Maria Cristina, tu vai ver quando o teu pai voltar’. A impaciência rivotrílica é bastante similar: talvez apenas a sacudida extra seja guardada para a privacidade e inviolabilidade do lar, para não ficar chato na frente do porteiro ou dar dor-de-cabeça com o Conselho Tutelar. Enfim.

O animalzinho que ora observamos, sortudo até, no comparativo da tabela, preenche como massa de parede aqueles visíveis buracos da meia-idade, da síndrome do ninho vazio, da viuvez, da falta de assunto entre cônjuges, da aporrinhação familiar “e da solidão das pessoas / dessas capitais”, como canta Belchior. Não todos, mas vejo o que vejo, e anoto aqui para fins de registro no caderno da vida. Ponto.

Um dia é dia de apanhar de jornal enrolado, outro é de ficar no Sol, outro é de ficar alguns dias no box do banheiro, ou esperando o resto da família voltar da praia, dias depois, outro dia é de espera, olhando pela janela. E às vezes a doença que chega no virar do calendário, a velhice, ou ambas de mãos dadas, caminhando com passos inicialmente miúdos, mudam a rota do animalzinho-fofo e lhe proporcionam – se não o apoio, o tratamento e o acolhimento misericordioso na hora do aperto final – a condição de presente para a faxineira, junto com umas roupas ‘que não servem mais em ninguém. Pode levar, Dona Fulana’.

Uma vida batida no martelo dos instantes, na gangorra do humor, na concessão de espaço, de comida, de cama quente. Ou castigo.

Fonte: ANDA 


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Festas de final de ano: não deixe tudo para a última hora

Por Marcio de Almeida Bueno

marcio de almeida buen natal frango

Então começou a vibração invisível que toma conta da maioria das pessoas, pela proximidade das festas de final de ano. A mídia bombardeia, as promoções lançam seus anzóis, chapeuzinhos de Papai Noel podem ser vistos em vitrines, e a palavra ‘panetone’ é escutada em conversas dentro do ônibus. Tenho horror a panetone, me parece um pão mumificado que só serve para presentear em amigo-secreto no trabalho. Ou para ser esquecido em um armário.

Eu não sei exatamente o que se apropria do HD mental de tanta gente ao mesmo tempo, mas vejo que o sistema sorri e palita os dentes, chupando os fiapinhos, satisfeito com o impacto de tsunami do consumo sobre o mercado. Uma família feliz parece estar obrigada a já se preocupar com o peru, tender, chester, bruster ou Frankstein similar. O carimbo de ‘vivemos bem mais um ano, né?’ só vale se houver uma ave peituda morta e temperada sobre uma mesa, senão é assumir o fracasso na vida. Meio-termo, nem pensar.

E a tradição, essa corrente em que todos incluem mais um elo antes de se prenderem, autoriza e justifica uma repetição chata, junto a parentes chatos e copos de cristal usados apenas uma vez ao ano, borbulhando no final de dezembro. Para combinar com o tamanho padrão do forno de cozinha, muito bebê-porquinho já entra no cadafalso que é para caber na bandeja, depois. Poupa-se de uma vida de engorda, confinamento, tédio & terror, merda & dor, porque os humanos decidiram que… digamos… ‘têm’ que comer porco na virada do ano porque o porco fuça para frente, ou qualquer outra frase-explicação séria candidata ao Nobel. Talvez a hipocrisia diminuísse 1% se essas pessoas todas assumissem sua superstição, TOC social e celebração pelo prazer do palato, ponto. Do que tentar dar contornos outros, risíveis para quem assiste a tudo isso de fora.

Não, eu não tomo parte. Me libertei, há alguns anos. Um processo desconfortável – pois todos os holofotes-perguntas-olhares voltam-se para si, mas que tem o efeito da bigorna deixada para trás, depois de muito carregar, do sapato apertado que finalmente é tirado do pé. Minha atitude terá traços de impacto a menos na marretada final em muitos animais, mas eu sou apenas um. Multiplicador, mas apenas um. Não vislumbro peru, não gasto em presente, não asso lombo, não produzo uma sacolada de lixo no dia seguinte à ‘festa’, não estouro champanhe no riso fácil, não pulo sete ondas nem escolho cor da cueca. Realmente é ridículo para quem vê de fora, e uma desgraça a menos para tantos animais cuja existência – desgraçada, no death row – é programada conforme as demandas das redes de supermercado.

Não, eu optei por não mais fazer parte dessa onda humana que se sente feliz & esperançosa conforme marca a data no calendário. Eu escolhi abrir mão de muita coisa, para não fazer o meu dinheiro pagar a marreta, a pistola pneumática, a gaiola, o brete, a ordenhadeira, o arreio, a facada, a degola, o ‘abate humanitário’, o ‘abate religioso’, a criação e procriação, a vida de tantos animais nascidos já como defuntos, o cronômetro em contagem regressiva para a morte e o estourar de champanhe. A última hora.

Fonte: ANDA / publicada em 23 de novembro de 2013


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O agradecimento dos animais pelo Natal ou ‘Hoje eu sou uma estrela’

Por Marcio de Almeida Bueno

marcio de almeida bueno   natal

Esqueça o oba-oba das lojas, os empurrões no trânsito e a expectativa de folga, bebida e comilança. Somente o olhar dos animais não humanos é verdadeiro, dentre o furacão que os engole com mais força, no final de cada ano. Os animais da pecuária encaram o fim de suas vidas – ‘eles nasceram para isso’ – enquanto contemplam o traseiro de um clone seu, nos bretes e corredores de concreto que antecedem a mesa farta preparada com tanto esmero pelas famílias de bom coração.

O olhar de quem não sabe chorar, já que a reza na hora do desespero é exclusividade na lista da racionalidade – essa qualidade que separa a humanidade das bestas-feras. O olhar de quem viu o filhote ser puxado para longe de si pelos funcionários da fazenda, esse lugar bucólico onde os animais são tratados como reis, já que optaram por isso em troca de suas liberdades.

O olhar do frango que está encaixotado, empilhado em um caminhão que passa na nossa frente quando estamos na estrada, rumo às férias. Perdemos um segundo, apenas, pensando nisso. Não há espaço para que ele nos dê um tchauzinho, talvez agradecendo pelo doce toque da morte que o aliviará e abreviará sua existência marcada pela ausência de mãe, confinamento, horários alterados para ditar o ritmo da engorda e opressão no dia a dia.

‘Obrigado, Papai Noel ou menino Jesus, por me tirar de um aviário com outras milhares de aves. Obrigado pela ração e água que mantiveram este corpo vivo, pois ele vale pelo preço que alguém paga. Não tem o valor que minha mãe, animal como eu, instintivamente perceberia, e por isso me defenderia, em condições normais. Aqui sou um entre milhares, e não parece fazer muita diferença se eu morrer agora ou esperar o caminhão dos caixotes. Nasci de uma máquina de ovos, mas espero encontrar minha mãe, ciscando a meu lado, algum dia.

Obrigado, Deus humano, pela corrente que sempre existiu em torno do meu pescoço, que não me permite caminhar até o horizonte. Ou até o ponto onde há sombra, onde a água da chuva não está empoçada. Agradeço pelos dias que lembraram da minha existência, e sobras de comida chegaram até onde esta corrente permitiu alcançar. Obrigado, Papai Noel, por ter sido escolhido como animal de estimação por uma família de humanos.

Obrigado, espírito natalino, por eu ter puxado tanta carroça em meio à fumaça de óleo diesel, fraco, assustado e sedento, que enfim eu tombei no asfalto. A última surra que tomei do carroceiro, para que eu me levantasse, permitiu que enfim meu espírito pudesse cavalgar livre naquelas campos verdes onde quadrúpedes iguais a mim, porém belos e com longas crinas, correm sentindo o vento da natureza. Acho que o esforço que fiz diariamente para tirar meu condutor da miséria, ou pelo menos diminuir sua pobreza, foi menos do que eu poderia, entao eu aceito meu castigo.

Obrigado, família do presépio, por eu ter sido o escolhido para, ainda bebê, estar na mesa de tantas residências, para ter meu pequeno corpo saboreado em uma bonita bandeja, assado e servido à meia-noite. Ainda não entendi por que nasci e morri tão rápido, se fiz algo errado a ponto de não poder crescer um pouco mais em um lugar que, onde vi, havia outros como eu, alguns bem gordos. Mal lembro da minha mãe, mas lembro que ela não podia se virar, cercada em um gradeado enquanto mamávamos. Talvez tenha sido azar, talvez tenha sido sorte.

Obrigado, meu Deus, por eu poder ajudar tanta gente a usar um xampu que não irrite os olhos, uma maquiagem que não cause problemas, um produto qualquer a ser dado de presente neste Natal, que nunca vou saber direito, que atendeu os humanos em suas expectativas mais simples. Estive em um laboratório, cercado de pessoas de jaleco branco, durante tempo suficiente para saber que sou parte importante do progresso, que a Ciência evoluiu graças à minha dor, meu aprisionamento e tudo aquilo que os produtos geraram nos meus olhos e no meu corpo. Fico grato por ter ajudado.

Obrigado, Maria, mãe de todas as mães que, zelosas como eu, dão leite a seus filhos durante anos, mesmo após o fim de sua amamentação natural. Minha vida neste estábulo, com úberes gigantes e doloridos, plugados em uma máquina, é o sacrifício que faço para a saúde humana. Não percebi, ainda, em minha mentalidade abaixo da humana, porque o leite de meus filhos vai para os filhos de outra espécie, e até quando já são adultos. Meu filhote não está mais ao alcance de minha vista, foi retirado cedo de meu lado, mas sei que o papel dele, como vitelo, ocupa espaço de respeito junto aos humanos. É alvo de muitos comentários e elogios. Pelo menos é o que imagino, pois o sacrifício é doloroso o suficiente para, respeitosamente, ousar questionar o porquê de minha existência. Mas agradeço mesmo assim, Papai Noel.

Obrigado pelas palmas cada vez que apareço no picadeiro. O olhar das crianças me faz esquecer a minha vida de tédio e imobilidade, viajando de cidade a cidade. Quem sabe um dia eu e os demais animais cheguemos ao lugar de onde viemos, que deverá ter muitas árvores, rios e espaços para correr. Enquanto isso, eu repito as manobras noite após noite, mostro os mesmos truques que, pela minha teimosia, eu custei a decorar. Quem sabe neste Natal eu ganhe uma última viagem, de volta ao habitat que jamais conheci em vida.

Obrigado, Natal, por eu poder aquecer tanta gente elegante em momentos de frio. Nasci peludo tal como minha mãe, e como ela pude participar da indústria humana, essa coisa que traz tanto progresso, dando de bom grado minha própria pele para que maridos mostrem afeto à esposa, presenteando-as com belos casacos. Muita gente famosa e rica usa a pele que pode ter sido minha. Isso me enche de orgulho e faz valer o tempo que morei em uma gaiola pouco maior que meu próprio corpo. Já estava cansado de andar em círculos, lembrando dos bosques que um dia corri de cima a baixo. Mas um dia veio a dor que, por pior que tenha sido, me libertou finalmente. Ainda relutei alguns minutos, já sem pele, mas vi que a liberdade me abraçava e escurecia minhas vistas. Acho que valeu a pena, pois sou fotografado e até apareço na televisão, durante o inverno – pelo menos acredito que aquelas partes sejam minhas, cobrindo o corpo de pessoas tão bonitas e famosas. Obrigado aos responsáveis.

Obrigado a todos que vieram me assistir nesta arena. Ainda estou zonzo e ofuscado pela luz após dias de escuridão, mas já entendi que, aqui, eu sou a atração. Há um semelhante a mim, porém sem chifres e mais magro, e nele está montado um humano, com roupas garbosas e armas tão afiadas como as que já furaram tantos iguais a mim. Eu espero que tudo isto termine logo, pois o cansaço está vencendo a euforia, há tanto sangue que já não sei se é meu ou de alguém antes de mim, e está difícil fazer levantar a plateia tantas vezes. Que a morte venha me tocar com a mesma doçura da última vez que fui tocado pela minha mãe. Ela deve estar orgulhosa de um filho que resistiu até o fim, cercado de espadas, aplaudido, sangrando ajoelhado, língua de fora mas fazendo questão de participar do show até o fim. Acho que os aplausos são para mim, já que os olhares convergem para onde estou. E eu não sei onde estou.

Obrigado, menino Jesus, por ter nascido e feito seus iguais perceberem a necessidade de haver uma festa em seu nome, para redenção e paz, onde eu seria assado em espeto e saboreado por tantas pessoas felizes, sorridentes e em clima de fraternidade. Jamais imaginei que, sem saber falar, sem ter tido escolhas, seria eu o ponto central dos churrascos de de final de ano de tantas empresas, entidades, famílias e grupos a confraternizar. Aguardei este momento sempre em espaços com arame farpado, tal como a coroa que um dia finalmente lhe puseram na cabeça, e usei argola no nariz para que um filho seu, fiel e devoto, me conduzisse para o lugar certo. Apanhei da vida, mas quem não apanhou? Sempre soube que uma vida de aperto, confinamento, marcação a ferro quente, castração a frio e morte sobre o concreto teriam um sentido maior. Obrigado por dar um norte a minha vida. Hoje, eu sou uma estrela.

Fonte: ANDA / publicada em 17 de dezembro de 2013


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Férias para alguns, gaiola e a ética do Lattes

Por Marcio de Almeida Bueno

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Chega o obrigatório final do ano e todo aquele que contribuiu para este nosso belo quadro social anseia por umas boas férias, uma parada estratégica na locomotiva que se exige para fins de viver. Praia, parentes, os pés para cima, bundar em casa ou similar.

Me preocupa se os também animais, porém não-humanos, entram nesse oásis de férias. Sai o porco do confinamento em meio à merda e pressão, para ver como é a grama lá fora, durante trinta dias? E outros exemplos fantasiosos.

O que quero dizer – antes de uma proposta bem-estarista de defeso para os que estão a engordar, ou a puxar carroça, ou a latir para os eventuais ladrões que possam entrar no pátio – é que naturalmente a grande maioria das pessoas ainda vê os animais como máquinas azeitadas. Basta enfiar combustível correto pelo orifício apropriado, e a coisa anda. Simples assim. Sem cansaço, stress, medo, dor, opressão, saudade, pânico, exaustão, LER/DORT, angústia, raiva, desespero, sensação de impotência, falta de vontade de continuar vivendo ou qualquer coisa aí que você possa mentalmente acrescentar a esta lista.

Sem parar para fumar um cigarrinho, o cavalo de carroça pode trabalhar os quatro turnos – manhã, tarde, noite, madrugada – sob rédeas de até quatro condutores diferentes, enquanto as pessoas dão palpite sobre o assunto, sem saber que o kit equino-carroça-chicote é alugado e sublocado. Coisas do capitalismo selvagem, aquilo que todos os homens de terno defendem, até o momento que vão mal das pernas e aí pedem ajuda ao Estado. Mas este é outro assunto, apesar de pegar os animais pelo cangote e só soltar, mortos e empacotados, depois que o cliente digitar a senha do cartão de débito.

Ou a cobaia de laboratório, esse animal que se diz salvar a vida de milhões de criancinhas doentes, embora isso só seja dito por quem – justamente, vejam só! – está encastelado nas cúspides dos institutos de pesquisa. A ética do Lattes. E, claro, por alguns marionetes da TV que deitam-rolam-e-se-fingem-de-mortos na esperança de ganhar um petisco ou um cafuné na cabeça.

O fato é que uma corrente bem presa, um pote d’água e uma telha velha são o ponto máximo de ‘direitos animais’ que muitos se permitem cogitar dar para seus cachorros – porque para si mesmo, a subserviência frente a um patrão faz parte da liturgia do trabalho. Não será o cão ‘que serve para cuidar do terreno’ que irá experimentar a liberdade – e lamber os beiços – que o humano-médio pensa ser apenas dos passarinhos.

E, para isso, comprou uma gaiola.

Fonte: ANDA


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marcio oquepromete0

O que você promete aos animais?

Por Marcio de Almeida Bueno

marcio oquepromete

Diz você a palavra amor como acessório indissociável a toda referência que faz ‘aos animais’? Algo difuso, para alguns escolhidos sortudos. Mesmo que ignore, ou faça vista grossa de fiscal corrupto à concussão e pressão contidos naquele café com leite, inocente, e na fatia de queijo que bem lembra a infância? Repete, você, ‘compaixão’ a animais não-humanos distantes do ponto em que a vista alcança, tal como golfinhos, baleias, focas e ursos na China? Mesmo que não se permita abrir mão do sapato de couro, resíduo do esfolamento final de um cadáver que, em sua vida de expectativas, apenas engordou à força, a ferro & fogo? É ‘paixão’ o termo que melhor descreve as imagens idealizadas que compartilha na Internet, mostrando cãezinhos fofos, patinhos idem, porquinhos cor-de-rosa dormindo? Mas, à la Dr. Jeckyll / Mr. Hyde, não se furte a perder, no minuto seguinte, a promoção de grelhados em compra coletiva?

Acumula patologicamente cães e gatos embaixo de sua asa, dentro da lógica de que um campo de concetração é melhor que as ruas, e para tal empenha sua vida, sua saúde e seu crédito bancário? Argamassa é o que preenche seu vazio sentimental cada vez que seus asilados vibram na hora da ração?

Ou é você um herói da nova era, antenado e consciente, que toca o tambor do ovolactovegetarianismo o mais alto que consegue, ecoando um som que já aumenta e incomoda? Mas, em uma impotência de objetivos, falha ao romper o hímen dos ingredientes culinários ‘obrigatórios’ – leite, ovo, queijo, manteiga? Ideologiza, ainda, essa permanência com um pé em cada lado da fronteira, minimizando o terror vivo da produção leiteira e de poedeiras? Segue prometendo a si e aos animais, por remorso, uma vida de ‘galinha feliz’, ‘vaca feliz’, já que é escravo das próprias papilas gustativas sádicas, indiferentes, egóicas e ‘umbigo do mundo’? Acredita, então, na Vovó Donalda?

Alivia a culpa assinando tsunamis de petições virtuais que, via de regra, se perderão no mesmo ralo eletrônico?

Ou lê os autores recomendáveis, apropria-se dos jargões abolicionistas, informa-se, discute com colegas e com desconhecidos nas redes sociais, idolatra a ALF, mas a portas fechadas, sem ninguém olhando, defeca sobre o auto-propalado veganismo? Trai os animais, ao fazer questão de comrpar este ou aquele produto industrializado, tapando o rótulo com uma peneira? Caga e anda para testes, e ainda acha que os demais não verão que esqueceu de puxar a descarga? Não resiste e come guloseimas que trazem ‘um ovinho’, ‘um pouquinho só’ de leite, cochonilha, traços? Esforça-se por ignorar, em restaurantes, que naquele prato estão itens que você publicamente combate, mas intimamente consome, espelhado nas pequenas hipocrisias que todos, afinal, carregam em si?

Relativiza certas situações, para condenar a pecuária industrial mas não quem ‘tem um porquinho no quintal’, concorda com ‘A Carne É Fraca’ mas sustenta que no sítio do próprio tio é diferente, e crê que liberdade é sinônimo de usar um animal tratando-o bem? Engole muitas arapucas do consumo por medo de perder a convivênia social? Tolera no parceiro carnista tudo o que diz condenar nas demais pessoas, com medo da solidão? Tem medo de parecer idiota? Vê no espelho um tirano, um populista, um bipolar ou um anti-especista de ocasião?

Afinal, o que promete aos animais? E o quanto você se compromete?

Fonte: ANDA


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Sobre ter um animal de estimação ou ‘Tenha fé, meu filho’

Por Marcio de Almeida Bueno

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Então há a posse, essa coisa que permite ao dono brincar de divindade com o animal de estimação. Comprei, paguei, achei, adotei, ganhei, prendi lá no fundo do pátio. Dou comida e água, ‘é bem tratado’. Mas às vezes o Deus dos animais acorda de ressaca, ou fica dois dias fora de casa, ou precisa descontar em alguém a raiva do patrão, esposa, sogra, presidente da República, time de futebol ou imposto. E há um fiel só, que reza em boa parte do dia, no fundo do pátio ou mesmo em cima do sofá, ‘como se fosse da família’. Pode sobrar castigo para esse devoto, ou não. A divindade chutou a porta, mas não o cachorro. Deu meia-volta e deixou comida para o gato, em plena saída para a praia.

Em ambos os casos, exerceu seu poder sobre a vida em quatro patas que sua vontade dita os desígnios. Um bom Deus, ou não. O que socorre ou o que deixa morrer embaixo do Sol – não por desconhecimento, mas por decisão. Um fiel ganha banho e tosa e lacinho nas orelhas, o outro ganha um osso quadrado do churrasco se tiver sorte. Ambos olham para cima e esperam o que virá. Objetos que comem e fazem cocô diariamente, mas com um papel pré-fixado desde o começo e esta é a hora de comer, este é o lugar para ficar, este não é o lugar para ficar, esta é a hora de latir para o ladrão, esta é a hora de não fazer barulho, seu desgraçado, que eu quero dormir.

E há divindades que escolhem sua rêmora pelo fetiche do que é fofo, do que cabe melhor no apartamento, do que é para patricinha, do que é para lutador de jiu-jitsu, do que está na moda – o pitbull de hoje já foi dobermann nos anos 80, que já foi pastor alemão nos anos 70. Só muda o nome de quem assina o cheque.

E os animais ainda estão presos à escolha do encaixe na vida das pessoas, ‘um cão bom para ter no sítio’, ‘um gato que não incomoda’, ‘um passarinho pra fazer companhia pra vó, tadinha, né?’. À espera de que seu destino, que não mais lhe pertence desde que viraram alvo, fotos de catálogo, nicho de mercado, escravos patetas que trabalham independente de condições. Anos à frente de seus focinhos, uma linha reta sem escolhas, mas o eterno aguardo pela mão divina que vai lhes tocar carinhosamente o cangote por alguns segundos. Se a reza foi com fé.

Fonte: ANDA


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