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Veterinarios veganos nem todos D

Por que nem todos os veterinários são veganos?

Por Lauren-Elizabeth McGrath / Tradução de João Pedro Astolfi

Veterinarios veganos nem todos

Em um mundo ideal, eu levaria os animais que vivem comigo a um veterinário vegano. Confiaria que meus animais seriam bem cuidados e que estariam seguros com um indivíduo que não participa do especismo e que entende o quão intrinsicamente imoral é explorar e consumir tanto o corpo quanto os produtos de outras criaturas. Esse veterinário mítico consideraria que Caleigh e Micah estão no mesmo nível de respeitabilidade que as galinhas que têm os seus ovos roubados e que os porcos que são abatidos mesmo que não queiram. Infelizmente, esses profissionais imaginários são raros. Ser um veterinário ou um técnico veterinário não necessariamente quer dizer ser um especista e, infelizmente, muitos acham que é perfeitamente normal ajudar alguns animais enquanto prejudica outros.

É difícil saber quantos veterinários também são veganos, e a falta de recursos para os que são me leva a acreditar que a grande maioria dos veterinários segue o status quo.  Afinal, não é obrigatório que todo estudante de veterinária seja vegano…

Promover o bem-estar animal acima dos direitos dos animais é uma norma social nova, gloriosa e hedionda praticada por veterinários que não são veganos. Fazendas industriais devem prover cuidado veterinário para animais doentes (pelo menos na teoria), então veterinários podem acabar diretamente complacentes com o abuso animal. Muitos desses profissionais dependem de trabalhos antiéticos, tais como agricultura animal, reprodução de gatos e cães e trabalho laboratorial.

Patty Khuly estava muito alegre quando escreveu um artigo para a Pet MD em que descrevia o quão feliz era em consumir carne. “Frequentemente, após responder a temida pergunta, me perguntam como posso ter um dia-a-dia centrado em animais e ainda assim consumir proteína animal diariamente. E a resposta não é simples, mas aqui está: é claro que amo animais. E certamente entendo que a indústria da agricultura animal, do jeito que é praticada nos Estados Unidos da América, não se preocupa tanto com os animais. Mesmo assim eu como proteína animal na forma de ovos e carne. ” Doutora Khuly, é possível que a pergunta seja temida porque você mesma sabe o quão cruel é matar animais pelo prazer da comida? Ela cita alguns pensamentos arrogantes sobre como ela “faz o dever de casa” para que coma “humanamente” e sobre como isso quer dizer que ela deve deixar de comer carne quando janta fora. Eu acho que a Doutora Khuly é o reflexo perfeito do típico Americano que não é um veterinário e prova que não há nada de especial em ser um médico para cachorros. Claro, ela é interessada no bem-estar, desde que possa continuar comendo carne morta.

O célebre veterinário Pete justificou o consumo animal com ideias revoltantes. Como animais tem um lóbulo frontal menor e “vivem no momento” mais do que humanos, é justificável matar e comer animais. Embora tenha participado do “Veganário” desse ano, Pete não é vegano e não mostra interesse em manter um estilo de vida vegano fora do confinamento do projeto de um mês. Ele disse ao Veganário em uma entrevista, “Acho interessante que existem no mínimo três tipos de veganos: 1. Vegano ortodoxo – pessoas que acreditam nos direitos dos animais. 2. Veganos ambientais – pessoas que são mais motivadas por cuidar do nosso planeta do que pela consciência animal, ” e o mais absurdo, “3. Vagamente veganos – Pessoas como eu, que são motivadas pelo bem-estar animal e que acham cada vez difícil encontrar produtos de origem animal que não suportam fazendas industriais.” Pete, a última coisa que precisamos é desse terceiro tipo de vegano.

O veterinário vegano Randall Cannon compartilhou algumas ideias com o blog Vegans Are Cool sobre o porquê de nem todos os veterinários serem veganos. “Como é com a maioria das pessoas, veterinários têm a capacidade de ignorar o que sabem que acontece na indústria animal”, ele disse, e descreveu suas experiências ao jantar com veterinários onívoros. “Não meço palavras quando estou na mesa. Não os acuso de serem pessoas más, mas destaco a hipocrisia do especismo, que trabalhamos o dia todo para cuidar de gatos e cachorros, mas não nos importamos com os animais de fazenda. Quase sempre me fazem as mesmas perguntas estúpidas sobre proteína, sobre o sentimento das plantas, etc., mas eu mordo a língua e tento tocar os seus corações. Espero que chegue um dia em que os veterinários abracem a causa dos direitos animais ao invés de defender as instituições que nos doutrinaram a noção de que temos o direito de usar os animais”.

Aparentemente não existe um movimento oficial de veterinários veganos, ou uma rede disponível para clientes os encontrarem além de algumas fontes online em mídias sociais. Temos a The Veterinary Vegan Network no Facebook para os veterinários veganos compartilharem informações e interagirem, lutando contra o uso de animais. Com o crescimento do veganismo como um movimento, eu adoraria ver um número de veterinários maior mostrando ao mundo que existem animais que merecem cuidado além dos que escolhemos para serem nossos companheiros.

Fonte: Ecorazzi

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Catálogo diz que quem gosta de animais tem um desequilíbrio emocional

Por Rodrigo Guedes de Carvalho

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Um dos meus cães, o mais velho, está na recta final. O veterinário avisou-me, um dia; no passeio, o cão vai à frente ou ao lado do dono. Quando começa a ficar para trás… E o meu cão começa a ficar para trás. Estou a sofrer tanto que nem quero falar disto. Sim, bem sei, não me adianta sofrer por antecipação, e a vida é mesmo assim, blá-blá. Mas sofro. Naquelas curiosas (e dolorosas) coincidências que a vida nos traz a cada dia, dou de caras com a capa de uma revista, que me informa que há um negócio em expansão. Uma empresa que trata de funerais de bichos. Nasceu da percepção, simples como qualquer boa ideia, de que a morte de um animal carrega uma angústia suplementar aos donos. O que fazer com o cadáver? Foi para responder a isto que a empresa nasceu.

Ler o artigo nesta altura de sofrimento antecipado emocionou-me, claro, até de me dar pistas sobre o que fazer para uma despedida condigna, um dia destes. Mas nem é sobre isso que escrevo. Acontece que o artigo sobre a funerária animal, longo e explicativo, traz também depoimentos de donos de bichos e “psicólogos”, que se debruçam, à vez, e de pontos de vista diferentes, sobre o que é isto de se gostar tanto de animais. E é aqui que continuo a esbarrar com o simplismo com que me apresentam as coisas.

Não, o artigo não é condescendente nem insultuoso para os amantes de animais, mas está untado de um tonzinho paternalista. Em suma, quem gosta muito de bichos enquadra-se sempre numa categoria, e esse catálogo não consegue disfarçar que se trata de gente que tem um qualquer desequilíbrio emocional, ou pelo menos uma necessidade de preenchimento que nunca teria, digamos, se a sua vida fosse “normal”. Não exagero. Basta verificar que a explicação para o facto de hoje haver muitas pessoas que têm um amor “exagerado” por bichos se deve, segundo o artigo, a factores e situações muito específicas. Diz-se, a determinada altura, que o número de manter de animais tem subido porque hoje há “muita gente sozinha, muito idoso”, e muito adulto que por uma razão ou outra não tem ou não pode ter filhos (fala-se, neste particular, de homossexuais, o que me coíbo de comentar). O animal será então, e apenas, um substituto de algo que o mundo “humano” não consegue dar-nos. E serve, pelos vistos, apenas para isso. 

E é aqui que me sinto, de repente, um bicho estranho. Porque não me enquadro em nenhum dos cenários. E conheço muita, mas muita gente, que também não. Ora, se não vivo sozinho, ainda não sou idoso, tenho filhos, e assim de repente não tenho nenhum humano vazio para preencher, porque amo tanto os meus cães? Não sei, hei-de pedir aos especialistas que falam às revistas para me explicarem. Por mim, para o que quero da vida, dispenso explicações do foro da teoria. Adoro os meus animais, e respeito, com emoção, todos os seres vivos… porque sim. Porque isso está em mim, porque há matérias que, felizmente, só o coração conhece. Gosto de animais e respeito-os, e enfurecem-me os maus tratos, pela simples razão de que nasci e cresci com aversão, nojo e raiva à verdadeira lei da selva, os comportamentos em que os mais fortes subjugam os mais fracos, precisamente… porque sim, porque podem. Há uns tempos largos, comentei aqui uma frase de que discordo, e cada vez mais. Uma personalidade mediática, falando dos que gostam de animais, dizia que, para ele, a vida do humano mais criminoso e desprezível valeria sempre mais do que a do mais fofo dos animais. Continuo a discordar, e com um nojo crescente. E não tenho palavras para explicar. É matéria do coração. Ironicamente, matéria de humanidade, da qual, em princípio, somos os únicos capazes. E do que tenho visto, ultimamente, do que é capaz a natureza dos homens, mais do que nunca, mais do que nunca, sonho viver entre bichos.

Fonte: TV Mais / mantida a grafia lusitana original

Nota do Olhar Animal: A alegação de que aqueles que mantém animais sob tutela (ou de quem luta pelos direitos deles) o fazem necessariamente por conta de desequilíbrios emocionais, de carências afetivas, etc. têm sido uma das formas de desqualificar a atuação em defesa dos bichos. Situações assim não podem ser generalizadas, não podem ser atribuídas à maioria das pessoas que convive com os animais ou que se empenha na defesa destes seres. E, mesmo nos casos em que existe uma relação de dependência ou desequilíbrio, isto não caracteriza estas pessoas como “E.Ts.”. Este vínculo não difere muito da situação de gente que, pelos mesmos motivos, se dedica patologicamente ao trabalho, que come compulsivamente, que supre suas demandas emocionais com um consumismo desenfreado ou que expressa seus sentimentos de tantas outras formas. Vazios existenciais não são exclusividade de protetores e tão pouco afetam eles mais do que afetam as demais pessoas. Por outro lado, é manifestação do especismo dominante afirmar que os animais não humanos não devem ser alvo de sentimentos amorosos. Uma coisa é considerar estes sentimentos como fatores determinantes para que os interesses dos animais sejam defendidos, o que não são, pois a condição de senciência deles é suficiente para justificar isto. Outra coisa é considerar que os animais não podem ser alvo destes afetos. Se humanos podem, porque os demais animais não poderiam? 

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Lute pela Justiça

Por Fernanda Tripode

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Quando entramos na discussão, baseados na ética e moral, princípios que regem a vida como um todo, e questionamos o uso, exploração e morte de animais para o consumo humano, entretenimento, experimentação e demais usos, nos é dada a justificativa que é feito de forma ‘legal’, regras essas criadas pelos próprios seres humanos.

A regra geral é o Direito à Vida, obrigação com a ética e o respeito a todos, sejam humanos ou não humanos. Quando legalizamos o uso de animais, seja qual for o fim, apresentamos uma exceção à Lei da Vida.

Justificar uso, exploração e matança de animais, baseado em Leis dos humanos, nos esquecemos da regra geral à Vida, a ética e ao respeito para com todos os seres sensíveis (sencientes). Nem sempre o que está no Direito (legalizado) é justo. O antropocentrismo que predomina na sociedade, refletido no Direito, permite que o ser humano use, explore e retire a vida de animais para seu próprio deleite e interesse. E para tanto, esses atos foram legalizados.

É legalizado o uso de animais para experimentar. Mas, é justo?

É legalizado o uso de animais para entretenimento. Mas, é justo?

É legalizado confinar um animal e retirar sua vida, para alimentação e vestimentas. Mas, é justo?

Em alguns lugares é legalizado caçar animais. Mas, é justo?

Podemos usar, explorar e retirar a vida de animais, para nosso deleite e interesse, e temos amparo legal, regra estabelecida pelo ser humano. Mas, é justo infligir sofrimento e retirar a vida porque é legalizado e somos considerados superiores?

Por outro lado, criamos regras para proteção animal, mas na prática, aplicamos somente a determinadas espécies animais. Diz a Constituição Federal do Brasil:

Artigo 225 – Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as futuras gerações.

§ 1º Para assegurar a efetividade desse direito, incumbe ao Poder Público:

VII – proteger a fauna e a flora, vedadas, na forma da lei, as práticas que coloquem em risco sua função ecológica, provoquem a extinção de espécies ou submetam os animais a crueldade.

Ainda, a Lei 9605/98 é clara em seu artigo 32 ao estabelecer:

“Praticar ato de abuso, maus-tratos, ferir ou mutilar animais silvestres, domésticos ou domesticados, nativos ou exóticos:

Pena – detenção, de três meses a um ano, e multa.

§ 1º Incorre nas mesmas penas quem realiza experiência dolorosa ou cruel em animal vivo, ainda que para fins didáticos ou científicos, quando existirem recursos alternativos.

§ 2º A pena é aumentada de um sexto a um terço, se ocorre morte do animal.”

Em seu parágrafo primeiro, dispõe claramente que, em havendo recursos alternativos, não devemos realizar experiências em animais.

A Lei é clara ao estabelecer proteção a todas espécies animais, mas o ser humano estabelece exceções baseadas na cultura e no próprio princípio antropocêntrico que rege a superioridade do ser humano, em detrimento a vida e causando sofrimento aos animais, tudo para o seu deleite e interesse.

Maltratamos e matamos bois, porcos, galinhas, carneiros, coelhos, e demais animais para consumo e vestimentas. Maltratamos e matamos coelhos, cães, ratos, macacos, para experimentação, não obstante haver alternativas ou possuirmos a capacidade em buscá-las. Confinamos leões, elefantes, ursos, e demais animais para nos divertirem, mesmo que isso cause sofrimento e muitas vezes a morte de animais. Infringimos a regra estabelecida que é clara ao preconizar ser crime maltratar e matar animais. Desta regra, criamos exceções, em razão de nossa cultura, baseada no princípio antropocêntrico. Assim, desde que não seja para beneficiar humanos, maltratar animais é crime. 

Hoje as pessoas se indignam e clamam pela aplicação da legislação ambiental para quem maltrata e mata animais (normalmente cães e gatos), mas infelizmente se esquecem do animal que irão jantar, que também é um animal, tendo sido maltratado e morto. Embora o preceito legal proteja animais, na prática aplicamos somente a algumas espécies.

Em alguns casos, o judiciário tem aplicado a Norma a algumas espécies, ainda que de forma tímida, mas a mentalidade judicial está evoluindo, pois a sociedade, com uma consciência de proteção animal, tem exigido isso do legislativo e judiciário. Mas, ainda estamos em busca da proteção de todas as demais espécies, e para que isso ocorra, necessário a mudança da consciência da sociedade com relação a todas as demais espécies animais, deixando para trás o famigerado princípio antropocêntrico, que coloca os interesses humanos acima de outras espécies não humanas.

A legalização se contrapõe a obrigação ética e moral de “não infligir sofrimento aos seres sencientes”, tornando-se assim, injusta. O “Direito” que temos sobre os animais é questionável diante a visão ética e a regra geral do Direito à Vida.

O “Direito” busca a aplicação da justiça. Ao mudarmos a consciência e cultura de uma sociedade, mudamos o Direito, que é dinâmico e pode evoluir junto a uma nova consciência, e assim, seremos realmente justos. No caso, aplica-se o célebre pensamento do jurista Eduardo Juan Couture: “Teu dever é lutar pelo Direito, mas se um dia encontrares o Direito em conflito com a Justiça, luta pela Justiça.”

Que um dia o Direito esteja em igualdade com a justiça por todas espécies animais.


Fernanda Tripode é advogada vegana. 

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Os peixes: uma sensibilidade fora do alcance do pescador

Por Joan Dunayer / Traduzido do inglês por David Olivier

Tradução: Juliana Marques

Este artigo apareceu na revista americana Animal’s Agenda (número de julho-agosto 1991), que deu-nos amavelmente a autorização para esta tradução.

Para certos nomes de peixes, não foi encontrado o equivalente em francês. Eles são, segundo o caso, deixados em inglês, ou traduzidos literalmente com o nome em inglês entre aspas.

Blackie, peixe vermelho da variedade kinguio, nadava com muita dificuldade devido a uma grave deformação. Big Red, peixe vermelho maior, notou sua angústia. Desde o instante em que Blackie foi colocado em seu aquário na loja de animais, Big Red começou a notá-lo. “Big Red supervisiona sem descanso seu amigo doente, levanta-o suavemente nas suas costas grandes e passeia com ele pelo aquário”, conta um jornal sul-africano em 1985. Cada vez que a comida é colocada na superfície da água, Big Red carrega Blackie para que eles possam comer juntos. Faz um ano que Big Red demonstra sua “compaixão”, segundo o proprietário da loja.

Por outro lado, os seres humanos demonstram ter bem menos compaixão para com os peixes. Trágica e ironicamente, os humanos não reconhecem a sensibilidade dos peixes, a qual, sob várias perspectivas, pode chegar a ultrapassar a dos humanos.

O mundo perceptível dos peixes

As orelhas internas dos peixes percebem todo o mundo aquático que os humanos não podem perceber sem ajuda de hidrofones. Como não possuem cordas vocais, os peixes “falam”comprimindo suas vesículas nadadoras, fazendo ranger seus dentes faríngeos. Ao esfregarem suas espinhas umas nas outras, eles produzem sons que podem variar de zumbidos e de barulhos a ganidos e soluços. Segundo descobertas de especialistas de biologia marinha, a “vocalização” dos peixes comunica estados como paquerar, dar sinal de alarme ou mostrar submissão, ao mesmo tempo em que comunicam a espécie, o tamanho e a identidade individual do “locutor”. O satinfin shiner macho, por exemplo, ronrona quando faz a corte e emite batidas surdas quando defende seu território. A linha lateral, órgão sensitivo que a maioria dos peixes possui de cada lado do corpo, forma uma série de filamentos sensíveis alinhados da cabeça ao rabo, detectando também as vibrações. Enquanto o peixe nada, este órgão sinaliza para o peixe os objetos próximos graças às vibrações que envia, autorizando assim a navegação e a localização precisa das presas no escuro. 

A sensibilidade dos peixes à luz é maior que a nossa. Muitos peixes das profundezas vêem na penumbra onde um gato não vê nada. As espécies de água pouco profundas têm uma visão em dois níveis ao nascer do sol; os cones da retina, sensíveis à cor, avançam e os bastonetes, sensíveis à luz fraca, retraem-se em profundidade; enquanto, ao por do sol, o processo se inverte. Durante a transição, numerosos peixes se beneficiam da percepção da luz ultravioleta, que é suficiente para lhes indicar a silhueta dos insetos na superfície da água. Uma luz viva repentina, vinda, por exemplo, de uma lanterna, surpreende e desorienta um peixe que tem visão adaptada para a noite. Isso pode provocar sua fuga, sua imobilidade ou mesmo sua submersão. A luz pode também destruir os bastonetes.

Na maioria dos peixes, as papilas gustativas se localizam não somente na boca e na garganta, mas também nos lábios e no focinho. Muitas das espécies que se alimentam no fundo têm receptores gustativos também na extensão das suas nadadeiras pélvicas ou nas barbatanas de seus queixos, que servem como línguas externas. Os peixes-gatos podem provar o alimento a certa distância graças a milhares de receptores gustativos.

Que sensibilidade os peixes têm ao odor? Os salmões podem percorrer milhares de quilômetros ao longo de suas migrações e, muitos anos mais tarde, reconhecer o odor do curso da água de origem. As enguias americanas detectam o álcool a uma concentração de uma fração de bilhão de gota em 90 m3 de água (o conteúdo de uma grande piscina). Através deste único odor, certos peixes podem determinar a espécie, o gênero, a receptividade sexual, ou a identidade individual de outro peixe.

Os peixes reagem fortemente ao fato de serem tocados. No momento de paquerar, eles freqüentemente se esfregam de maneira delicada uns nos outros. Os registros efetuados pelo Narragansett Marine Laboratory revelaram que o robin dos mares [sea robin] ronrona quando é acariciado. Ricardo Mandojana, fotógrafo submarino, ganha a amizade de um peixe-judeu inicialmente desconfiado coçando levemente a sua face. Com o passar dos meses, o peixe, aparentemente impaciente por ser acariciado, vem ao encontro do mergulhador durante seus passeios.

Numerosas espécies de peixes têm centenas de receptores elétricos na pele, o que lhes permite detectar a forma do campo que eles mesmos produzem. Um objeto menos condutor que a água, como uma rocha, forma uma sombra no campo; um objeto mais condutor, como uma presa, aparece como um ponto brilhante. A imagem elétrica que o peixe percebe indica o local, o tamanho, a velocidade e a direção do movimento do objeto. Um peixe elétrico pode também “ler”a carga produzida por um outro, a qual depende do tamanho, da espécie, da identidade individual e das intenções (que podem ser, por exemplo, o desafio ou a procura de um parceiro sexual) daquele que o produz. O peixe-faca listado macho afirma seu domínio por meio de uma série de impulsos rápidos; seu rival potencial se submete parando de “falar”.

Produzindo ou não o mesmo sinal elétrico, numerosos peixes são sensíveis ao campo elétrico que produz todo ser vivo e podem, assim, detectar uma presa escondida na areia ou no cascalho. Theodore Bullock, especialista dos sistemas nervosos, notou que certos tubarões podem perceber um campo elétrico equivalente ao que produz uma pilha de 1,5V a 1500 km.

A capacidade que eles têm de sofrer

De acordo com outras sensibilidades, não há duvida sobre a capacidade dos peixes de sentir stress e dor. Quando são perseguidos, capturados, ou ameaçados de todas as maneiras, eles reagem como os humanos face ao stress pelo aumento da sua freqüência cardíaca, do seu ritmo respiratório e por uma descarga hormonal de adrenalina. O prolongamento de condições adversas, como grande confusão ou a poluição, ameaça lhes fazer sofrer de deficiência imunitária e de lesões orgânicas internas. Tanto pela bioquímica como pela estrutura, seu sistema nervoso central se parece intimamente com o nosso. Nos vertebrados, as terminações nervosas livres registram a dor; os peixes a possuem em abundância. Seu sistema nervoso produz também as encefalinas e as endorfinas, substâncias análogas aos opiáceos que possuem um papel contra a dor nos humanos. Quando estão machucados, os peixes se contorcem, ofegam, e exibem outros sinais de dor.

Fica lógico que os peixes sentem medo, e este tem uma função na aquisição do comportamento de fuga. Se um vairão for atacado uma vez por um brochet, ou se vir outro ser atacado, o odor de um brochet é suficiente para fazê-lo fugir. Os peixes que foram atacados por jovens brochets fogem assim que escutam o rangido de dentes desses últimos. O pesquisador R.O. Anderson mostrou que os Percas de boca grande aprendem a evitar rapidamente os anzóis simplesmente ao verem outros serem capturados. Centenas, talvez milhares de experiências foram feitas durante as quais os peixes foram levados a cumprir tarefas dentro do objetivo de evitar choques elétricos.

Numerosos cientistas reconheceram ter induzido os peixes ao medo. Entre as “observações do comportamento motivado pelo medo nos peixes vermelhos” feitos pelo psiquiatra Quentin Regestein, encontrou-se: “Um peixe assustado pode se enlaçar avançando ou fugir ou se agitar no mesmo lugar, ou ficar simplesmente mole se ele não suporta a situação”.

Os peixes gritam tanto de dor quanto de medo. Segundo Michael Fine, biólogo marinho, a maior parte dos peixes que produz sons “vocalizam” quando tocados, quando pegos, ou quando perseguidos. Numa série de experiências, William Tavolga fez murmurar peixes-sapos infligindo-lhes choques elétricos. Começaram também a murmurar logo que viam eletrodos.

Os peixes “animais de estimação”

Mesmo quando não há a crueldade da experimentação animal, a captura dos peixes negligencia as suas necessidades mais fundamentais. Nervosos e frágeis, eles estão mal adaptados a uma vida reclusa em aquário. Todavia, só nos Estados Unidos, centenas de milhões de peixes estão aprisionados.

Os peixes são mais sensíveis à temperatura do que qualquer outro animal de sangue quente. Uma variação brusca de apenas alguns graus pode matar um peixe vermelho. No entanto, alguns são colocados em pequenos reservatórios onde a temperatura pode variar rapidamente.

Os peixes de aquário não possuem nenhuma possibilidade de escapar das substancias tóxicas que penetram em sua água. Numerosos poluentes domésticos podem lhes prejudicar, entre eles a fumaça do cigarro, os vapores de pintura e as gotas de vaporizadores. Dentro de um bocal ou reservatório, o amoníaco que eles mesmos excretam pode se acumular e chegar a um nível tóxico. O próprio cloro em pequena quantidade pode, como o amoníaco, induzir a dificuldades respiratórias e espasmos nervosos. O nível de cloro da água da torneira pode facilmente ser fatal.

Os peixes de aquário são bombardeados em permanência por cenas e barulhos dos humanos. O simples fato de acender a luz num quarto escuro pode assustá-los ao ponto de lançarem-se contra o vidro, e se matarem. As vibrações vindas da televisão, do radio, ou de uma porta que bate podem também os assustar e machucar. Em You and Your Aquarium, Dick Mills previne que “qualquer choque ou batida no vidro do aquário pode facilmente chocar ou estressar os peixes”. Um pesquisador, H.H.Reichenbach- Klinke, descobriu que peixes freqüentemente expostos a musica forte desenvolvem lesões mortais do fígado.

Os peixes de aquário são deixados à mercê da agressão artificial, mas são privados da natural. Eles não têm necessidade de atividades como a procura de alimento através da vida diversificada dos recifes de corais. Ao contrário, eles percorrem as mesmas dezenas e centenas de litros, e aceitam passivamente dia após dia a mesma comida comprada pronta. Segundo Mills, os peixes de aquário sofrem seguidamente de tédio.

Os peixes vermelhos e outros peixes sociais necessitam da companhia de membros de sua espécie, sem a qual, comenta ainda Mills, “podem perecer”. Quando perdem um companheiro, observamos nos peixes sociais os sinais de depressão, tal como letargia, palidez ou nadadeiras moles. O zoólogo George Romanes comenta em Animal Intelligence o seguinte incidente: quando um proprietário de aquário se desfez de um dos seus dois ruff, o que ficou parou de comer durante três semanas até o dia em que trouxeram seu companheiro.

O mal que os aquarófilos infligem aos peixes ultrapassa amplamente o aquário. Inúmeros são os peixes que morrem antes de chegarem ao varejista, durante o transporte desde o local de captura, ou desde a “fazenda de peixes” (onde nascem atualmente 80% dos peixes ditos “ornamentais” dos Estados Unidos). Somente a captura mata ou machuca milhões. Eles são imobilizados com o auxilio de anestésicos, de dinamite ou de cianeto, depois capturados com a mão ou redes. William McLarney, biólogo de pesca, observou uma captura com bomba de cianeto:

Uma dúzia de peixes-esquilos vermelhos rapidamente foge em bando do seu habitat de coral a 8 metros de profundidade e se lança, sufocando e trepidando, até a superfície. Seu impulso os leva a até trinta centímetros acima da superfície, de onde caem com pequenos ruídos secos, e ao final bóiam, cansados, girando fracos em círculos. Sobre eles, um Mero de três libras tosse violentamente, as brânquias ardendo. Ele tenta nadar mas é derrubado, depois bóia sem ruído como uma bóia sinistra.

Nesse meio tempo, no fundo, peixes mais “comuns” para interessarem aos clientes “entram em convulsão ou escorregam sem movimento”.

A pesca comercial

A pesca comercial também dizima os peixes, matando milhares a cada ano. Em geral, para eles, a morte não é rápida nem indolor.

dunayer poi2Na pesca de arrastão, o barco fecha, com uma rede, um círculo em torno de um cardume, depois iça, suspende o cardume e o joga dentro da salmoura líquida que é mantida a O grau Celsius. Aqueles que não morrem esmagados ou estrangulados são vitimas do choque térmico. Este método, empregado por pescadores que caçam os atuns de nadadeiras amarelas, provoca uma tempestade de protestos a favor dos golfinhos que nadam por baixo dos atuns e se enroscam nas redes com eles. Mas poucas vozes se elevam contra a morte dos próprios atuns. E os atuns são também animais sensíveis às vibrações, portanto é claro que eles também ficam aterrorizados e feridos pelos barcos motorizados e pelas explosões submarinas que levam os golfinhos a se agruparem em um lugar. A onda de pressão de uma detonação submarina pode romper a vesícula nadadora de um peixe.

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Na pesca com rede, um barco se movimenta carregando atrás dele, na água, uma enorme rede. Todos os peixes que entram são empurrados pelo movimento de tração em direção à sua extremidade que possui a forma de um saco rendado. Durante uma ou mesmo quatro horas, os peixes capturados são puxados e pressionados uns contra os outros, juntamente com outros fragmentos e seixos que a rede colhe do fundo. Em Distant Water: The fate of the North Atlantic Fisherman, William Warner fala de uma captura: “o atrito dos peixes uns contra os outros devido à agitação e a compressão prolongada da rede lhes enfraquece as escamas incisivas”. “A fricção, de fato, deixa-os em carne viva”.

A descompressão à qual são submetidos torna-se insuportável quando são forçados a subir depois de certa profundidade. A queda da pressão provoca uma dilatação do gás encapsulado em sua vesícula nadadora, que não pode ser compensada rapidamente pela absorção da circulação sanguínea. Em seguida, a pressão interna faz com que a vesícula nadadora arrebente, ou os olhos saiam da órbita, ou o esôfago e estomago saiam pela boca. “Muitos dentre eles têm buracos onde deveriam estar os olhos”, comenta Warner numa de suas observações sobre um barco pesqueiro. Em outro momento, ele nota que, dentro da rede, há “uma grande espuma de bolhas… provindas de milhares de vesículas nadadoras rompidas”1“.

Os peixes relativamente pequenos, tais com as solhas espinhosas, são comumente esparramados sobre a pilha de gelo; a maioria morre sufocada ou esmagada pelas camadas seguintes de outros peixes. Os peixes maiores tais como os hadoques ou bacalhaus têm suas vísceras arrancadas imediatamente. William MacLeish descreve o método de triagem que ele viu ser praticado: a equipe de pescadores esfacela os peixes com bastões afiados, “jogando de um lado os bacalhaus, de outro lado os hadoques, lá ainda os rabos-amarelos” [Yellowtail] . Em seguida, os peixes não desejados (“lixo”), que representam muitas vezes a maioria da captura, são jogados sobre a margem, muitas vezes com um tridente (ancinho).

Somente numa tarde, os pescadores podem jogar no mar até 60000 km de redes; dentro das águas profundas do Pacifico, usam-se sobretudo redes móveis, mas pode-se também usar redes amarradas dentro das águas costeiras. Trata-se geralmente de redes de plástico que possuem bóias em uma de suas pontas e pesos na outra ponta. Essas bóias balançam como cortinas na superfície, geralmente até uma profundidade de 10 m. Além de provocarem a morte não intencional de mais de um milhão de mamíferos, de tartarugas e aves a cada ano, estas redes infligem um sofrimento enorme aos peixes.

Eles não vêem as redes e nadam diretamente para elas. Se são muito grandes para atravessá-las, os peixes geralmente ficam com a cabeça presa numa das malhas. Eles tentam então recuar, mas a malha lhes prende pelos opérculos das brânquias ou pelas nadadeiras. Muitos destes peixes vão então morrer sufocados. Outros lutam desesperadamente nas malhas cortantes e seguidamente sangram e morrem vazios de seu sangue, quer consigam ou não se libertar. Muitos dos pescadores não retiram as redes todos os dias,e a morte pode levar dias. Em Sports Illustrated (16 de maio 1988), o jornalista Clive Gammom descreve os bacalhaus pegos depois de dois dias. Muitos dentre eles estavam “sem olhos, sem nadadeiras, sem escamas”; numerosos outros foram devorados pelas pulgas do mar. Os peixes imobilizados são uma presa sem defesa (os predadores que eles atraem ficam seguidamente presos também às redes). Quando uma rede é erguida, os peixes são extraídos com gancho.

Certos pescadores comerciais pegam ainda os peixes maiores e preciosos (os peixes-espadas, os atuns e tubarões) com arpão, ou com anzóis individualmente. Mas comumente eles os prendem por longas linhas flutuantes. Este método, igualmente empregado para os peixes menores, consiste em desenrolar uma grande quantidade de fio (até 50 km) contendo centenas ou milhares de anzóis munidos de iscas.

A pesca de lazer

Em torno de 40 milhões de habitantes dos Estados Unidos – 16% – maltratam os peixes por “esporte”. Muitos adeptos da pesca de lazer afirmam que as vitimas não sofrem. Todos os dados conhecidos indicam o contrário.

O pesquisador John Verheijen e seus colaboradores estudaram a reação das carpas ao anzol num fio. Assim que são presas, as carpas agitam a cabeça, cospem como se tentassem cuspir a comida, pulam pra frente e mergulham. Obtemos a mesma reação inicial administrando-lhes choques elétricos dentro da boca. Quando são presas e mantidas numa linha estendida durante o período de alguns minutos, elas cospem o gás de sua vesícula nadadora; assim que a linha é solta, elas entram na água. Fazem exatamente o mesmo quando submetidas a um choque elétrico intenso e prolongado. De uma maneira incrível, elas reagem do mesmo modo quando as assustamos lhes prendendo num espaço reduzido ou lhes fazendo sentir o cheiro de um membro ferido de sua espécie. Os pesquisadores concluíram que o anzol suspenso num fio provoca certa combinação de terror e de dor.

dunayer poi4Durante a luta do peixe preso ao anzol, seu glicogênio muscular (forma de estoque de glicose) é consumido e exterminado, assim como o acido láctico se acumula rapidamente em seu sangue. Em alguns minutos, a metade das reservas de glicogênio de uma truta arco-íris é desgastada pelo esforço violento que ela fornece. No número de maio de 1990 do Field and Stream, o cronista Bob Stearns reconhece que o acido láctico pode “imobilizar” um peixe “de modo bem mais rápido e intenso que as câimbras e outras dores musculares que nós, humanos, sentimos quando exercitamos demais os músculos”. Quanto mais o peixe luta, maior é a acumulação de acido láctico. Porém, os pescadores sentem prazer em “trabalhar” duro durante a pesca. No numero de julho de 1990, Stearns exalta uma “pequena esposa de pescador” que pesca um peixe espada durante mais ou menos cinco horas: “Cada vez que o peixe ficava lento, ela aproveitava a ocasião: puxando-lhe, pressionando e forçando-o a gastar suas próprias reservas de energia, não lhe dando um único instante de descanso”. Antes de ser tirado da água, muitos peixes morrem de cansaço. 
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Para muito outros, o pior dos sofrimentos ainda está por vir. Tipicamente, o pescador puxa os peixes médios e grandes para dentro do barco fisgando-os com a ajuda de um arpão. Às vezes eles são esfolados vivos. Muitos pescadores têm o habito de fisgar as presas ainda vivas numa corda ou uma rede que eles deixam por horas na água. Uma corda é fincada em cada peixe, geralmente pela boca e saindo por uma abertura das brânquias. Uma rede, munida de fechos que parecem enormes alfinetes, serve para emparelhar os peixes, geralmente através da mandíbula. A maioria dos peixes da pesca de lazer morre sufocada. Mesmo fora da água a morte pode ser lenta. Na edição de outubro de 1980 de Field and Stream, Ken Schulz descreve uma Perca depois de uma hora fora da água: ela tinha as nadadeiras e brânquias vermelhas e “continuava a sufocar”.

A pesca em que o pescador libera a presa inflige, no mínimo, terror, dor e uma incapacidade temporária ou seguida, permanente ou fatal. O editor adjunto de Field and Stream, Jim Bashline, admite em um artigo do número de maio de 1990 que é freqüente ver o peixe “se debater violentamente quando o pescador puxa o anzol, que ele foge e bate brutalmente no fundo do barco ou do solo rochoso”. As quedas, a manipulação dos fios ou a mão e outras agressões ainda machucam a pele superficial delicada e transparente do peixe. Esta camada mucosa externa o protege contra infecções e protege os tecidos subjacentes contra a entrada ou saída excessiva de água; todas as condições que podem ser fatais. Experiências que também foram feitas confirmam que os peixes podem morrer de envenenamento por causa do próprio ácido lático, e isso muitas horas depois de estarem exaustos, e terem ficado muito tempo completamente paralisados. O próprio anzol é sempre uma fonte de machucados. O peixe que tem a boca gravemente dilacerada pode ficar incapaz de se alimentar. Muitos peixes são ainda soltos com o anzol preso nas brânquias ou nos órgãos internos, no caso de o terem engolido.

A pesca constitui também uma tortura infligida a aqueles que são empregados como isca. Os pequenos peixes, como os Vairões (ou Tanictis) utilizados com este fim, são geralmente presos pelas costas, lábios, ou mesmo pelos olhos. Já que as feridas tendem a atrair as espécies predatórias que são procuradas, certos pescadores infligem ainda outras às suas iscas, cortando as nadadeiras ou quebrando-lhes as costas.

A administração dos peixes para a pesca de lazer

A fim de assegurar a estabilidade do número de presas, os criadores de alevinos nos Estados Unidos soltam, por ano, nos estuários das águas centenas de milhões de peixes, principalmente salmões e trutas. Ted Williams, que se descreve ele mesmo “um antigo cão de guarda dos administradores”, qualificou as criações de peixes de “lixos genéticos”. Num artigo publicado em setembro de 1987 no Audubon, ele escreve: “Depois de anos de reprodução consangüínea, as trutas dos criadores tendem a ser deformadas. Os opérculos branquiais não fecham mais, as mandíbulas são tortas, as caudas são esmagadas”. Certas más mutações são cultivadas intencionalmente; assim, a agência governamental de gestão da fauna selvagem do Estado de Utah tem produzido massivamente albinos, sensíveis à luz, para servirem de presas fáceis de serem capturadas.

Williams deplora as condições de criação de trutas dos criadores e fala de “tanques de concreto infectos e superlotados, que eliminam as escamas e as nadadeiras dos peixes”. Ele adiciona que os peixes são despreparados para a vida selvagem. Mesmo se as trutas fogem quando sentem um movimento acima delas, as que vêm dos criadouros ficam lá, esperando para serem alimentadas (os pescadores não reclamam). Williams, ele mesmo apaixonado pela pesca de linha, abre a barriga de uma truta de um criadouro, e encontra numerosos tocos de cigarro que o peixe, habituado a comer granulados, tinha engolido.

Mark Sosin, adepto da pesca de lazer e John Clarke, biólogo de pesca, escreveram um livro para os pescadores de linha, Through the Fish’s Eye: An Angler’s Guide to Gamefish Behaviour (“Através do olho do peixe: um guia sobre o comportamento dos peixes”) , no qual eles ingenuamente definem como objetivo da administração da criação dos peixes: “fornecer o melhor peixe para o prazer do pescador”. Com o objetivo de reduzir a população dos pequenos peixes que não lhes interessam e aumentar a claridade da água, os administradores esvaziam parcialmente com freqüência certos lagos e tanques, deixando assim as espécies não desejadas sofrer da falta de alimento, da falta da cobertura de água, de espaço para evitar os predadores. Friamente, Sosin e Clarke aconselham: “Quando um lago ou tanque fica fortemente povoado de espécies não desejados, a melhor solução pode ser aniquilar todos os peixes e recomeçar de novo. Podemos geralmente secar o lago, ou envenenar todos os peixes (…) Uma vez todos os peixes mortos, a bacia pode ser cheia de novo e povoada segundo a combinação desejada de espécies predatórias e presas”. A combinação desejada é, deve-se compreender, aquela que desejam os pescadores de linha e “administradores da fauna” cujos salários vêm em grande parte das licenças de pesca.

A maioria dos humanos sente pouca simpatia pelos peixes. Porque os enxergam como uma massa, ou como idênticos através de espécie, as pessoas negligenciam facilmente os peixes como indivíduos. Porque o mundo deles é um mundo aquático cujos meios de comunicação escapam aos nossos sentidos, porque sua aparência física difere tanto da nossa… Por todas essas razões, muitos humanos não lhes reconhecem a sensibilidade. O resultado é que o mau trato destes animais é socialmente aceitável. À medida que o número de pessoas conscientes acreditar na sensibilidade dos peixes, estes começarão a receber a compaixão e o respeito que merecem.

No domínio dos sentimentos, Big Red tem muito a nos ensinar.

Nota

1 “Os peixes que são largamente consumidos- atuns, arengues e bacalhaus pequenos- são todos pescados entre a superfície e em torno de 800metros de profundidade. Mas a concorrência e a raridade de bancos obrigam os barcos pesqueiros a mergulharem os fios cada vez mais profundamente. Resultado: os peixes que até agora desconhecíamos chegam ao mercado. Como o Peixe rato (ou Peixe prego), que vive a mais de 1400 metros de profundidade.

“Para responder às necessidades dos novos pescadores, uma sonda acaba de ser colocada por Micrel, uma sociedade da Bretanha, em colaboração com o Ifremer (Instituto francês de pesquisa e exploração do mar)”.

Libération, 16 de outubro de 1991; NdT.

Texto publicado nos Cahiers antispécistes n° 1 (outubro 1991)


Joan Dunayer

Escritora, editora e defensora dos direitos dos animais. Graduada de Princeton University, tem mestrados em literatura inglesa, educação inglesa e psicologia. Seus artigos e ensaios apareceram em revistas, jornais, livros universitários e antologias. Ela é a autora de Speciesism and Animal Equality.