Floresta de Dean, Gloucestershire, Inglaterra

Controle populacional de javalis

Em 05 de dezembro de 2017 fui convidado a tomar parte da sessão da CPI de Maus-Tratos Contra os Animais que tratou da caça ao javali em SP. Infelizmente, o rito da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, onde deputados e autoridades tem o direito de fazer uso do tempo que quiserem, não me permitiu realizar a apresentação (disponível aqui).

Alckmin veta projeto de lei e libera uso de animais em faculdades de SP

Alckmin veta projeto de lei e libera uso de animais em faculdades de SP

Na data de hoje, 26 de julho de 2017, o governador Geraldo Alckmin está vetando o Projeto de Lei n. 706 de 2012 após este haver sido aprovado por unanimidade na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo. Este é o projeto que restringe a utilização de animais em atividades de ensino no Estado de São Paulo, do deputado Feliciano Filho.

Sérgio Greif

Manejo não letal de capivaras

Por Sérgio Greif

Desde que o ser humano se entende como tal necessitou classificar os demais seres vivos de acordo com a forma como estes se relacionavam com ele. Dessa forma, havia os animais e plantas comestíveis e os não comestíveis, os perigosos e os não perigosos. Esta forma de classificação não tinha qualquer base científica ou filogenética, tal como o sistema taxonômico organizado por Carl von Lineé (século XVIII) em seu Systema Naturae, mas se apresentava como um sistema pragmático que viabilizava ou facilitava a adaptação humana ao seu meio.

Embora vivamos em uma época em que praticamente todos estejam familiarizados com termos como mamíferos, anfíbios ou invertebrados, a classificação dos seres vivos utilizando o antigo sistema baseado em sua relação conosco persiste. É dessa forma que dividimos, por exemplo, os animais em silvestres, nativos ou exóticos, domésticos, domiciliares ou de exploração, ferais ou bravios, selvagens domesticados, sinantrópicos, invasores, peçonhentos ou não-peçonhentos, venenosos, comestíveis, etc.

É utilizando esta mesma classificação, desta vez de uma maneira menos precisa e mais espacializada e temporal, que podemos classificar os animais como “pestes” ou “pragas”:

Um rato solto em nossas casas é uma “praga”, um “vetor” de doenças; um rato preso na gaiola ou no aquário em nossas casas pode ser um “animal doméstico”, ou quem sabe uma “presa” para nossa serpente “de estimação”; um rato em uma ilha é um “invasor”; um rato na gaiola de um laboratório é uma “cobaia” ou “animal de experimentação”; um rato no espetinho de uma feira na Tailândia é uma “refeição” . . . Nós o vemos de formas diferentes dependendo do contexto, mas trata-se da mesma espécie de animal.

É desta forma que um cão pode passar de “animal de estimação” a “animal errante”, que um cavalo passa de “animal de tração” a “animal feral”, que um javali passa de animal “exótico” a “invasor”. Depende como os nossos olhos os encaram, de nossas perspectivas.

Se coelhos e ratos pudessem acumular traços culturais, conhecimento histórico e desenvolvessem um raciocínio como o nosso, diriam que não são eles as pragas. Se hoje eles estão em todos os continentes foi porque para todos os continentes eles foram levados por uma espécie que de fato se dissemina em uma velocidade que supera a velocidade de disseminação de todas as demais espécies.

O ser humano disseminou animais e plantas do Velho Mundo no Novo e no Novíssimo Mundo enquanto os descobria, derrubou as matas nativas, caçou as espécies nativas à extinção, cresceu demograficamente, construiu cidades, industrias, transformou completamente o ambiente . . . Mas por ironia foram os animais com eles levados que foram considerados “pragas” . . .

Não apenas isso. Animais nativos dos locais colonizados, quando por algum motivo se adaptavam ás novas condições impostas e proliferavam em número, passavam a ser considerados “excedentes de populações”, ou “pestes silvestres”. É o caso dos cangurus na Austrália e das capivaras no Brasil.

Vários fatores afetam o tamanho de uma população. Fatores que contribuem para o aumento no número de indivíduos são: alta taxa de natalidade, imigração ou recrutamento de novos indivíduos, abundância na disponibilidade de alimentos, abrigos e outros recursos, baixa mortalidade e retirada de indivíduos e a escassez de predadores e doenças.

Discutindo o controle de populações     

Poder-se-ia pensar que, sendo os fatores acima aqueles que contribuem para o aumento de uma população, bastaria se fazer o contrário para que uma população diminuísse. Se considerarmos apenas os aspectos teóricos que regem a dinâmica de uma população isso poderia ser verdadeiro, mas na prática não é assim que ocorre. Vejamos o exemplo das capivaras:

A população de capivaras prolifera em parques que possuem lagoas e áreas de banhados, muito próximo aos centros urbanos. Nestes locais não existem os predadores naturais destes animais, tais como onças, jacarés e sucuris, e este é um dos fatores que contribuem para seu crescimento descontrolado. Não faria sentido, porém, introduzir predadores naturais destes animais nos locais onde elas ocorrem, porque estes mesmos predadores poderiam atacar seres humanos, animais domésticos e outras espécies não alvo que frequentam estes mesmos lugares.

Um agente de controle mais direcionado, a exemplo de um vírus específico a esta espécie, também não faria sentido. Capivaras são atacadas pelos mesmos mosquitos, carrapatos, ácaros, vermes, protozoários, fungos, bactérias e vírus que atacam muitas outras espécies (Nogueira, M. F. & da Cruz, T. F. Doenças da Capivara Corumbá, MS: Embrapa Pantanal, 2007. 74 p.), não são conhecidos vírus espécie-específicos para capivaras.

A introdução de doenças em uma população, além de flagrante crueldade contra os próprios animais, pode resultar em descontrole da doença para outras populações, inclusive de outras espécies.

Mesmo que fossem vírus não letais, mas vírus recombinantes carreadores de proteínas semelhantes às presentes na superfície dos espermatozoides ou dos óvulos, de modo a atuar como vetores de uma imunoesterilização, não haveria como confiar em tal sistema. Em primeiro lugar porque, como já dito, não há um vírus espécie-específico para capivaras, de modo que o mesmo vírus poderia atuar em outras espécies, inclusive silvestres. Em segundo lugar porque, mesmo que tal vírus existisse e tivesse um grande sucesso em se disseminar nessa população, ele poderia levar toda a espécie à extinção, o que não creio que seja a intenção nem mesmo dos estimuladores do abate.

É certo, portanto, afirmar que a introdução de predadores e agentes etiológicos em um ambiente antrópico está fora de cogitação. São estas as duas principais causas de morte de capivaras, e o que mantém seus números dentro de patamares sustentáveis. Porém, no meio urbano esta mortandade se reduz drasticamente, limitando-se a alguns poucos episódios de atropelamentos outras causas, o que não chega a ser um fator expressivo na regulação do tamanho das populações destes animais.

Diminuir a oferta de alimentos e abrigo para animais em geral é uma proposta que funciona na regulação do tamanho de populações. Capivaras, como outros roedores, aumentam e diminuem o tamanho de sua prole de acordo com a disponibilidade de alimentos. Mas como impedir capivaras soltas em um parque de ter acesso ao seu alimento, quando seu alimento consiste basicamente de gramíneas (grama, capim, etc) e plantas aquáticas? Como impedir seu acesso a abrigos se para estes animais o abrigo é a própria lagoa do parque e a vegetação? Para diminuir a oferta de alimentos e abrigos para capivaras em um parque as áreas verdes necessitariam ser asfaltadas e as lagoas drenadas, descaracterizando a própria função do parque.

Tem-se proposto a liberação da caça de animais excedentes, o ser humano assim preenchendo o papel que caberia a um predador na natureza. Analisemos esta proposta:

A onça é um predador natural das capivaras, mas de um grupo com 30 capivaras, qual uma onça escolheria? Certamente o predador escolheria a capivara que lhe parecesse mais vulnerável, aquela que tivesse uma aparência fraca, debilitada, doente, que pesasse no máximo 25 ou 30 Kg.

Em um grupo de 30 capivaras, qual delas um caçador humano com um rifle com alcance de 800 m escolheria? Provavelmente um animal que lhe rendesse um bom troféu, ou cuja carne pudesse ser guardada na geladeira por muito tempo. Uma capivara de 70 kg.

Resulta que os predadores e vírus são elementos de manutenção da qualidade dos indivíduos de uma população. São agentes da seleção natural, que eliminam os indivíduos mais fracos e permitem a proliferação dos mais fortes. Caçadores com armas de fogo fazem exatamente o contrário, porque eliminam os indivíduos mais fortes, selecionando os mais fracos para que estes passem seus genes às próximas gerações.

De tempos em tempos ouvimos também a proposta de completa eliminação (ou extermínio) da população de capivaras de uma área ou um parque, visando o controle do carrapato-estrela (Amblyomma cajennense), vetor da bactéria riquétsia (Rickettsia rickettsii), que causa a febre maculosa. Analisemos esta proposta:

Suponhamos uma área verde onde exista um grupo de 15 capivaras. Este grupo provavelmente é composto de um macho alfa, várias fêmeas e alguns filhotes e juvenis. Eliminar o grupo significa deixar um nicho descoberto. Uma lagoa, abrigo, alimentos . . . e nenhuma capivara territorialista tomando conta. Não demorará muito e um outro grupo de capivaras surge de uma área contigua e se fixa no local.

Eliminar qualquer espécie de roedor de uma área, mas manter seus abrigos e alimentos, significa provavelmente em pouco tempo ter uma nova população de roedores da mesma espécie fixada na mesma área. É assim que funciona com ratos e camundongos, e assim também ocorre com as capivaras.

A ausência de capivaras cuidando de seu território permite a fixação de uma nova população da mesma espécie, e quiçá seja essa população a portadora do carrapato-estrela, ou quiçá seja essa população ainda não imune à riquétsia, e por isso mesmo com maior potencial de disseminação da doença, conforme veremos adiante.

Ademais, retirar toda uma população de capivaras de uma área não significa remover a população de carrapatos desta área.  O carrapato-estrela continuará ali na terra e na vegetação, podendo permanecer por 1 ou 2 anos sem se alimentar, até que encontre outro hospedeiro, podendo ser este basicamente qualquer outro animal, inclusive animais domésticos e o ser humano. Irônico que os frequentadores de um parque se sintam mais confortáveis por haverem eliminado o “depósito de carrapatos” e por isso mesmo se vejam parasitados pelos mesmos. Ou talvez os patos, gansos e cisnes para os quais eles levam páes.

Vemos, portanto, que o extermínio de capivaras além de não funcionar, poderá acarretar em maior risco de parasitismo de seres humanos e animais domésticos por carrapatos.

Não à toa a proposta de extermínio de capivaras gera tanta revolta na população. Além do flagrante desrespeito aos direitos animais, a proposta não é tecnicamente sustentável. Capivaras protegem a área de outros grupos de capivaras e chegam mesmo a evitar a contaminação de seres humanos e animais domésticos pela riquétsia, como veremos à seguir.

Capivaras protegem contra febre maculosa?

Parece um contrassenso que um animal acusado de transmitir uma doença possa servir, na realidade, como uma proteção contra esta mesma doença, mas como visto, o extermínio de capivaras em determinada localidade levaria os carrapatos, que se existissem certamente permaneceriam na área, a buscarem outros hospedeiros.

São hospedeiros destes carrapatos, além das capivaras, animais domésticos tais como cavalos, mulas, bovinos, búfalos, ovelhas, cabras, porcos, coelhos, cães, aves domésticas (galinhas, patos, marrecos e gansos), e animais silvestres como ratos, preás, cutias, pacas, tapitis, gambás, tatus, veados, catetos, lagartos e serpentes. Seres humanos funcionam como hospedeiros acidentais para estes carrapatos.

Qualquer destes animais pode ser hospedeiro de carrapatos, bem como pode ser reservatório da riquétsia, então não há motivos para se culpar, ou exterminar, apenas as capivaras. O correto, ética e tecnicamente, seria realizar um manejo dos carrapatos e das riquétsias e, sem duvida alguma, o correto é manter as capivaras nos locais onde elas já se encontram.

O que poucas pessoas sabem é que as capivaras infestadas por Rickettsia rickettsii dificilmente transmitem a febre maculosa. A transmissão por estes animais ocorre apenas durante a fase de bacteremia ou “ricketsemia”, quando a quantidade de bactérias no sangue da capivara aumenta consideravelmente. Após essa fase, que dura cerca de 14 dias, o animal já produziu anticorpos contra a infecção e deixa de infectar outros animais, ainda que seja parasitada por carrapatos.

Portanto, manter em um determinado parque um grupo de capivara cujos indivíduos sejam positivos para riquétsia é a garantia de que aquelas capivaras não poderão transmitir febre maculosa para outros animais e para o ser humano. Remover esta população significa deixar um nicho aberto para que outras capivaras, desconhecidas, venha a se fixar no mesmo local. Talvez algumas dessas capivaras não sejam ainda portadoras de anticorpos para a riquésia, e potencialmente serão estas que poderão transmitir a doença para seres humanos e animais, por pelo menos 14 dias após sua infecção.

Outra possibilidade é que os filhotes, mesmo de grupos completamente imunes à riquétsia, possam passar pela fase de ricketsemia, já que eles não nascem imunes à doença. Daí a importância, além de manter a população das capivaras na área, evitar os nascimentos de novos indivíduos.

Pode-se ver, portanto, que a presença de capivaras em uma área não é parte de um problema no que tange à febre maculosa. O problema real que existe, com relação a estes animais, é quando eles se reproduzem sem controle. 

Controle de fertilidade em capivaras

Há muitas formas de se realizar o controle de natalidade em uma população animal, sendo algumas delas: A castração física de ambos os gêneros, a castração física de apenas um dos gêneros, a castração química ou biológica dos animais, a esterilização de ambos os gêneros, a esterilização apenas dos machos (vasectomia), a esterilização apenas das fêmeas (laqueadura tubária), a remoção dos machos ou das fêmeas da população, etc.

Todos esses métodos podem ser efetivos para determinados grupos de animais, porém completamente inefetivos para outros grupos. As capivaras são animais gregários, que vivem em grupos coesos, com hierarquia social rígida e estável, poliginicos, com grupos constituído de um macho alfa, várias fêmeas geralmente aparentadas e filhotes, além de machos subordinados ou satélites.

Todos os membros adultos do bando, mas especialmente os machos alfas, lutam para manter seu território livre de outras capivaras adultas, especialmente outros machos. O que ocorreria se estes machos fossem castrados ou retirados do bando?

Fosse qual dessas duas interferências, o macho alfa perderia sua virilidade e sua função no bando, vindo a ser substituído por outro macho daquele ou de outro bando. A vasectomia, porém, manteria suas funções reprodutivas e manteria a integridade do bando e a manutenção de seu território, daí ser esta a melhor opção para o controle de capivaras.

Note-se, porém, que machos satélites também tem acesso sexual às fêmeas, e filhotes atingem a maturidade sexual antes de completarem 2 anos de vida, assim sendo, caso a opção seja pela esterilização apenas dos machos, por vasectomia, todos os machos do bando deverão sofrer o procedimento, e não apenas o macho alfa. A vasectomia nos machos é um procedimento menos complexo do que a ligadura de trompas nas fêmeas, mas para uma garantia de controle da fertilidade o ideal é que ambos os gêneros possam ser esterilizados.

Captura do grupo

A captura dos animais deve, tanto quanto possível, ser realizada de uma única vez para todo o grupo, de modo a não se criar nos animais não capturados que tenham presenciado a captura de indivíduos de seu grupo comportamento de evitamento.

O procedimento mais usual para captura do grupo consiste na utilização de alimentos que os atraiam, tais como bagaço de cana, milho em grão, rolão de milho (palhada e sabugo), rações peletizadas para roedores ou espécies de capins que não sejam encontrados na área. Estes alimentos deverão ser fornecidos diariamente e sempre no mesmo local, por determinado tempo, de modo que o grupo se acostume a se alimentar nesta área (ceva).

Após este período, será construído neste local um brete, cujo interior será o local de ceva das capivaras. Este brete será à princípio semiaberto, acostumando os animais a se alimentarem em seu interior. Durante este período o grupo terá de ser estudado para verificar sua composição, de modo a se saber se todos os indivíduos continuam participando da ceva.

O brete será então fechado, permanecendo apenas a porta aberta e por mais alguns dias se manterá a ceva dos indivíduos, fechando-se a porta quando puder ser constatado que todos os indivíduos encontram-se em seu interior. Esse é o procedimento de captura passiva dos indivíduos.

Uma vez capturados no brete os animais poderão ser manipulados com mais facilidade. Convém que para que esta manipulação ocorra com mais facilidade os animais sejam anestesiados com uso de dardos anestésicos lançados por uma zarabatana ou um rifle. Uma vez isolados estes indivíduos deverão ser marcados, identificados, tratados com carrapaticida e sarnicidas, bem como vermífugos, ou o que mais se julgar necessário, bem como será coletado material biológico para teste de febre maculosa. Os animais também deverão ser esterilizados, inclusive os filhotes.

A febre maculosa é uma doença para a qual ainda não se criou vacinas, mas as capivaras poderão ser imunizadas mediante contato com a Rickettsia rickettsii (que pode matar 100% dos infectados humanos, mas mata 0% das capivaras adultas), cujo risco de disseminação enquanto os animais forem mantidos no brete estará controlado, criando-se uma barreira contra o carrapato-estrela. Após 2 semanas, passada a fase ricketsêmica da doença, as capivaras poderão ser liberadas novamente no mesmo local.

Além da captura passiva do grupo de capivaras, há que se considerar que alguns indivíduos poderão ser resistentes à ceva, à entrada no brete, etc. Estes indivíduos deverão ser capturados ativamente, de modo que os mesmos procedimentos realizados com o restante do grupo possam ser realizados com estes.

São formas de captura ativa de indivíduos a sedação com dardos atirados por zarabatana ou rifle (atenção para o fato de que os animais poderão buscar refúgio na água e se afogar), bem como a utilização de redes e puçás ou cercamentos de outras maneiras.

Por mais paradoxal que possa parecer, uma área verde que contenha uma população controlada de capivaras que apresentem anticorpos anti riquétsia e com controle regular de carrapatos é mais segura do que uma área de onde as capivaras tenham sido simplesmente removidas, e esta é a mensagem principal do presente artigo.


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Olhar Animal – www.olharanimal.org

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Do simpósio sobre zoos na USP

Por Sérgio Greif

No dia 24 de maio de 2015 participei de um simpósio na USP cujo tema era “O papel de zoológicos e aquários na conservação”. Fui convidado para o evento para palestrar sobre o tema A conservação pelo olhar de um santuário de animais selvagens”, e assim poder proporcionar ao público, especialmente estudantes, uma visão em relação aos santuários de animais, pouco conhecidos de maneira geral. De modo geral considerei as pessoas, tanto os organizadores quanto a plateia, interessados e receptivos às ideias.

Embora após o evento algumas pessoas tenham me escrito para perguntar como havia ocorrido limitei-me a dizer que havia “ocorrido conforme o esperado”. Eu não pretendia escrever a respeito dos pontos negativos ocorridos durante o evento porque entendo que a hostilidade que recebi se originou de uma pessoa, ou de algumas poucas pessoas, e que tal atitude depôs muito mais contra essas pessoa do que contra mim ou minha defesa. Penso que o apoio que recebi dos organizadores e de grande parte da plateia, pessoas que provavelmente não concordavam totalmente com meus pontos (mas eu nem esperava por isso), tornaram o evento bastante positivo, embora muito desgastante.

Eu não pretendia escrever a respeito porque na minha opinião “o que se faz em um evento, fica no evento”. Logo após os incidentes terem se dado pessoas que nada tinham a ver com o caso vieram se desculpar comigo, afirmando sentir vergonha alheia. Não apenas pessoas ligadas à organização do simpósio, mas estudantes que estavam ali apenas para escutar e tirar suas próprias conclusões.

Também não escreveria porque a pessoa que me hostilizou fez, posteriormente, uso da palavra para me pedir desculpas em público, embora mesmo isso tenha feito em tom agressivo. Se desculpou dizendo que gostaria de ter voado em meu pescoço, o que sinceramente não penso que tenha passado despercebido por nenhum dos presentes. Não pretendia escrever porque uma vez que desculpamos, está desculpado.

E eu sinceramente entendo que uma pessoa se ponha nervosa quando uma atividade para a qual se dedica, e de onde tira seu sustento, é questionada em suas bases. A mesma hostilidade já recebi vinda de vivissectores, peões de boiadeiro, donos de circos que utilizam animais, pecuaristas, etc. Eu realmente entendo que essas pessoas considerem a oposição às suas atividades como uma afronta pessoal. Mas eu não busco afrontar ninguém, apenas coloco os direitos animais acima do direito que algumas pessoas pensam ter de explorar animais.

É natural que a moral da sociedade evolua e, entre outras mudanças, a população passe a questionar a exploração animal, de modo que esta seja cada vez menos bem vista. Meus textos e palestras não tem a pretensão de serem agentes de mudança, eles quanto muito catalisam um processo inevitável que de qualquer forma ocorreria (se é que fazem tanto).

Muitas vezes, nas conversas informais com pessoas que sequer tem relação com a causa animal, percebo que a população ganha essa consciência independente de campanhas e protestos promovidos por ativistas dos direitos animais. Creio que o reconhecimento dos direitos animais seja um processo que de qualquer forma ocorreria. Não quer dizer que não devamos promover a ideia, mas ainda que não o façamos, é uma tendência natural que as pessoas transitem nesse sentido.

Tão somente resolvi escrever a esse respeito, não por indelicadeza, mas porque recebi no dia 12/06/2015 um print screens de postagens do Facebook realizadas pela pessoa que mais faltou com a educação durante o evento, falando em meu nome e citando o ocorrido no evento. O Print encontra-se abaixo:

SERGIO simposio zoos1

Em outra postagem vemos conteúdo de teor semelhante: Sociedade de Zoológicos e Aquários do Brasil Roberto Parente, estivemos em uma mesa redonda com o autor deste texto, que não apresentou sequer um argumento consistente e afirmou que não visita um zoo há 18 anos, ou seja…não sabe do que está falando.”

Por outras postagens e textos oriundos da mesma fonte vemos que o apelo às falácias lógicas e aos termos esdrúxulos são uma constante dessa pessoa, mas não é sobre isso que pretendo escrever.

Eu não acesso o Facebook com frequência. Em minha vida percebi uma correlação positiva entre maior acesso ao Facebook e aumento de infelicidade, provavelmente por razões distintas daquelas verificadas no estudo conduzido por grupo da Universidade de Michigan e da Universidade de Leuven.

O Facebook é um lugar prazeroso para se estar e aumentar nosso círculo social, mas também é um local onde nos forçamos a ter de tolerar a falta de educação e deturpações do pensamento de pessoas que, em outras circunstâncias, até poderíamos gostar. Não preciso disso.

Mas ao mesmo tempo não acessar significa depender que outras pessoas que estejam atentas nos informem sobre atividades que nos digam respeito. E nesse sentido tenho que agradecer aos meus amigos fiéis, que mesmo em minha ausência do Facebook estão sempre me remetendo Prints e informações.

Respondo por meio deste texto aos Prints para ter espaço suficiente para expor de que forma se deu o evento.

Da preparação para o evento

Em primeiro lugar cabe esclarecer que na carta convite para o evento por mim recebida em 13 de março de 2015 constava o seguinte parágrafo: “Assim, gostaríamos de convidá-lo a ministrar uma palestra com o tema “A conservação pelo olhar de um santuário de animais selvagens” no dia 24/05/2015, às 14 horas e com duração de 1 hora e 20 minutos. Além disso, a sua presença na mesa redonda, às 17h30 no dia 24/05/2015 seria de extrema importância para aprimorar o debate.” Assim, minha palestra foi preparada para tratar especificamente deste assunto.

Ainda, no dia 30 de abril de 2015, recebi da organização do evento a seguinte carta de esclarecimento:

Prezados palestrantes,

O GEAS USP vem por meio desta carta esclarecer alguns pontos em relação ao II Simpósio: “O papel dos zoológicos e aquários na conservação”. Apesar do título, o evento não tem nenhuma intenção de contestar a existência de nenhuma instituição que possui e lida com animais selvagens, mas sim entender mais a fundo como essas instituições funcionam e pensam.

Acreditamos que o papel do médico veterinário, biólogo e demais profissionais que trabalhem com animais, tem como responsabilidade técnica instruir leigos e acrescentar argumentos em questões “polêmicas”, baseando-se em informações verdadeiras e fundadas. Não acreditamos que precisem se preocupar com nenhum tipo de exposição no evento, principalmente na mesa redonda. O objetivo dessa conversa final é simplesmente esclarecer dúvidas e ouvir o feedback dos ouvintes. Acreditamos que, com o apoio da nossa orientadora, professora Eliana Reiko Matushima, e de vocês, podemos construir um evento extremamente informativo, proveitoso e principalmente agradável.

Reiterando, estamos à disposição para o esclarecimento de quaisquer dúvidas e sugestões dos senhores. Muito obrigado por todo apoio e colaboração.

Atenciosamente,

Organização do II Simpósio GEAS USP.

Na mesma data respondi à organização do evento:

Prezada XXX

Boa tarde

Possivelmente a nota de esclarecimento se deve à minha participação no evento.

Com relação a esse assunto eu tenho a esclarecer que, de fato, questiono com veemência o alegado papel que os zoológicos tem na conservação ex-situ de espécies, bem como seu papel como educadores ambientais. Tenho-o feito com frequência em textos e apresentações onde me dão espaço para isso.

No entanto, para o presente evento o tema que estou preparando se refere ao título que me foi solicitado “A Conservação pelo Olhar de um Santuário de Animais Selvagens”, não sendo abordado o tema zoológicos.

Caso seja mais confortável para os demais palestrantes posso me abster de participar da mesa-redonda como disse que o faria, assim não haveria risco de alguém da mesa ou da platéia questionar minha posição em relação aos zoológicos.

Eu havia me prontificado a participar da mesa redonda, mas se houver algum desconforto posso me abster.

 . . .

cordialmente  
 
Sérgio Greif

No dia seguinte recebi a seguinte resposta da organização do evento:

Olá, Sérgio,

De forma alguma queremos que você fique fora da mesa redonda, pelo contrário, a participação de vocês é fundamental justamente por representarem uma instituição com outro cunho, além das que serão apresentadas, e acreditamos que a participação de vocês na mesa redonda será muito esclarecedora e de grande valia, principalmente ao público, visto que o grande objetivo do evento é fornecer informações aos ouvintes, sobre o papel de cada instituição, pois temos em mente que isso não é claro na cabeça das pessoas. E, em relação à carta, nós a enviamos em pedido da professora Eliana Matushima, a todos os palestrantes, para deixar claro que o intuito do evento não é desmerecer nenhuma instituição, e sim mostrar ao público o papel de cada uma delas, dando a cada ouvinte liberdade para formar sua opinião, mas a partir de informações corretas. Peço desculpas se não deixei claro o objetivo do GEAS ao enviar a carta de esclarecimento, mas achamos de bom tom enviá-la a todos os palestrantes convidados para não causar nenhum mau estar durante o evento e frisar mais uma vez que o intuito do evento não é criar polêmicas, e sim esclarecimentos.

Cordialmente,
XXX

À qual respondi:

Prezada XXX

Não se preocupe e também não precisa se desculpar por nada.

Eu não tive problemas com a carta, apenas quis esclarecer que se de alguma forma uma contestação quanto ao papel dos zoológicos for criar algum desconforto entre os palestrantes posso me abster de participar da mesa redonda, pois assim não há risco de alguém me perguntar e eu precisar esclarecer.

Minha apresentação se limitará a tratar do papel dos santuários de animais, sendo que apenas citarei os zoológicos para esclarecer sobre quais as diferenças conceituais existentes entre as instituições.

No entanto, há risco de que durante a mesa redonda perguntas me sejam dirigidas referentes aos zoos.

Foi isso que eu quis dizer.

abraços

Sérgio

No dia 13 de maio recebi, ainda, a seguinte mensagem:

Prezado Sérgio,

Envio este e-mail para fornecer algumas informações sobre a mesa redonda ao final do evento. O tema de discussão da mesa será “Como instituições que albergam animais selvagens podem trabalhar juntas para a conservação?” e contará com 4 representantes que deverão mostrar, no tempo máximo de 10 minutos, sem auxílio de slides, como a instituição representada trabalha para a conservação de espécies e propor uma ação em conjunto com as demais para que o objetivo final de todos seja alcançado.

Ao término dessas breves apresentações, abriremos espaço para os demais palestrantes do evento e ouvintes, para perguntas e colocações pertinentes ao tema da mesa.

Portanto, estava claro que o tema de minha apresentação seria “A Conservação pelo Olhar de um Santuário de Animais Selvagens” e que na mesa redonda eu deveria falar sobre de que forma as diferentes instituições poderiam trabalhar juntas.

Da palestra

Em minha apresentação iniciei dizendo que eu estava ali representando o Santuário Ecológico Rancho dos Gnomos apenas naquele evento específico tendo em vista que os representantes da instituição estavam muito ocupados envolvidos em uma campanha de Crowdfunding, que eu não trabalhava diretamente com eles e que durante a apresentação eu não me referiria apenas ao mesmo, mas citaria outros exemplos de santuários de animais mundo afora.

Comecei por definir os conceitos por trás dos santuários de animais, apresentando seus objetivos e sua missão, os tipos de santuários de animais existentes, o tipo de trabalho que eles desenvolvem e de que forma santuários de animais se distinguem de abrigos de animais e de zoológicos. Apresentei alguns exemplos de santuários existentes no Brasil, nos EUA, no Oriente Médio, na Ásia meridional e oriental, na África e na Austrália. 

Conforme eu já havia informado à organização do simpósio, o único momento em que me referi a zoológicos durante minha apresentação foi em um slide que distinguia os dois tipo de atividades:

  •  Zoológico =˃ animais em exposição, prioridade para a diversidade, foco no visitante;
  • Santuários de animais =˃ animais simplesmente são mantidos, prioridade para seu bem estar, não permitida a visitação publica como em um zoológico, foco no indivíduo (animal como indivíduo). Não dá importância à diversidade.

Um segundo slide apresentava uma situação de zoológico recebendo visitantes. A intenção era mostrar que o fluxo de visitantes e os comerciantes seriam, por si só, causa de estresse para os animais. A imagem apresentada encontra-se abaixo:

SERGIO simposio zoos2

Importante que ao apresentar a imagem frisei que muitas vezes os recintos de zoológicos e de santuários de animais possuem o mesmo tamanho e enriquecimento ambiental, mas que a visitação fazia a diferença sobre o estresse vivido pelos animais. Nada mais foi falado em relação aos zoológicos durante minha apresentação, em respeito à organização do evento.

Durante minha apresentação percebi que uma pessoa encontrava-se extremamente ansiosa e inquieta. Não parava em sua cadeira, deixava cair objetos, fazia caretas e se contorcia. Embora a pessoa se encontrasse sentada na primeira fila resolvi ignorá-la para não perder a concentração, mas ainda a percebia indiretamente por meio dos olhares que ela ainda atraía da plateia.

Com algumas poucas intervenções ao longo da apresentação, ao fim essa pessoa solicitou o microfone e quis questionar assuntos que eu havia tratado na apresentação, de modo que voltei alguns slides para mostrar ao que eu me referia e explicar novamente o que não havia sido entendido (expliquei com educação, embora as perguntas tivessem sido realizadas de forma agressiva).

Em relação à imagem do zoológico em dia de visitação ela questionou a presença de um palhaço, que zoológico não era circo. De fato, o palhaço colocado na imagem é um vendedor de balões. Ela me informou que a legislação não permitia palhaços em zoológicos, porque isso assustava os animais.

Eu de fato desconheço tal legislação, mas o palhaço na imagem era meramente um detalhe ilustrativo, em meio à multidão (e me estranha que não se possa ter um palhaço vendendo balões dentro de um zoológico, mas que a Meia-Maratona Internacional de Belo Horizonte possa passar por dentro dele, realmente . . .). Enfim, a presença ou ausência do palhaço não invalidaria o propósito da imagem.

Questionou, igualmente, uma imagem colocada para ilustrar o conceito de que em santuários de animais silvestres, como os animais não precisam ser expostos ao público, os recintos podem ser maiores (de modo que os animais podem se espalhar) e plantados com vegetação densa permitindo esconderijo aos animais, dizendo que eu não havia colocado grades em minha imagem.

Respondi que o conceito de grades estava lá, extrapolando os limites da imagem. Sim, a maioria dos santuários de animais também mantém animais em cativeiro, mas não havendo compromisso de exibi-los ao publico, os recintos não são preparados para esse fim.

A professora responsável pela organização do evento interveio, após a terceira pergunta, informando que pequenos detalhes da apresentação não eram relevantes e que o propósito ali não era discutir a minha apresentação slide por slide, que esta não era a proposta do evento.

Durante o intervalo que se seguiu os organizadores e muitos dos alunos presentes vieram se dizer constrangidos e envergonhados pela combatividade, que a proposta do evento era expor pontos de vista para que o público pudesse formar suas opiniões. Desculparam-se.

Da mesa redonda

Posteriormente, quando a mesa redonda se iniciou, recebi desculpas da própria pessoa, que disse que queria voar em meu pescoço. Informei que não apenas eu havia percebido, como que esse detalhe não devia ter passado despercebido por ninguém. Mas desculpas pedidas, desculpas aceitas. E se eu disse que as aceitei, aceitei de coração.

Em minha opinião, mais do que desculpas para mim, as desculpas deveriam se dirigir à organização do evento, porque mais do que eu, eles foram desrespeitados. Não foram todos os palestrantes que receberam a mensagem dizendo o evento não tinha nenhuma intenção de contestar a existência de nenhuma instituição que possui e lida com animais selvagens, mas sim entender mais a fundo como essas instituições funcionam e pensam?  Que eles não acreditavam que os palestrantes precisassem se preocupar com nenhum tipo de exposição no evento, principalmente na mesa redonda? Que eles pretendiam construir um evento extremamente informativo, proveitoso e principalmente agradável?

Embora eu me esforçasse em tratar do tema “Como instituições que albergam animais selvagens podem trabalhar juntas para a conservação?” o assunto continuou girando em torno do questionamento quanto aos zoológicos e eventuais ataques aos santuários de animais. Argumentos em defesa dos zoológicos íam na linha de que eles são instituições muito melhores do que eram no passado (não tenho duvida de que em certa extensão isso é verdadeiro e nem contesto). Realmente entendo que o conceito de direitos animais absolutos seja vago para pessoas que se empenham na senda do bem-estar animal, daí a dificuldade em se entender que jaulas maiores, enriquecimento ambiental e áreas mínimas de fuga são praticamente irrelevantes frente ao questionamento .

Alguém calculou rapidamente que havia 18 anos que eu não entrava em um zoológico e que, portanto, não sabia de que estava falando. Ora, em primeiro lugar eu não descrevi a situação atual nem passada dos zoológicos em minha apresentação. Em segundo lugar quando eu trato de qualquer tema referente à exploração animal eu evito ao máximo descrever um cenário temporal, para não correr o risco de incorrer em desatualização.

O mesmo posso dizer em outros temas relacionados à exploração animal: Pouco importa que em um biotério exista controle de temperatura, luminosidade, ração balanceada e água limpa. Não interessa que o animal seja manipulado pelo tronco ou pela cauda, que receba anestesia ou não. Interessa que animais de experimentação sofrem experimentos à sua revelia, que invariavelmente resultam em injurias e morte.

Não interessa se os cavalos que puxam carroça agora recebem feno de melhor qualidade e tem mais horas de descanso entre jornadas; que as vacas leiteiras escutam musica clássica; que os bois são atordoados antes de serem abatidos; tudo isso pode ser melhor do que nada, mas ainda é muito pouco. Mais, coitados dos animais quando nos damos por satisfeitos com esse maquiamento ético. Quando nos preocupamos com os direitos animais, o buraco é mais embaixo. 

Não lembro de haver proposto, em toda a minha vida, que as jaulas que aprisionam os animais devem ser maiores, que a alimentação que lhes é fornecida deve ser mais conforme ou que eles devem ter brinquedinhos para se distrair até que algum ser humano resolva proceder de acordo com sua vontade. O que já fiz foi descrever o bem-estarismo como não mais que uma distração que nos afasta de simplesmente reconhecer que animais possuem direitos.

Eu não vou a um zoológico há mais de 18 anos, e não tenho planos de voltar a ir em algum. Se puder evitar também não irei a um abatedouro, a um laboratório que realiza experimentos em animais e a um canil que reproduz animais de raça. Não ir não significa que não posso questionar, porque embora em muitos zoológicos os animais estejam magros e doentes, recebendo alimentação insuficiente ou inadequada, que os recintos possam ser pequenos ou sujos, não são essas coisas que questiono.

Também não como carne há 35 anos mas vou continuar pregando o vegetarianismo, porque não me interesse se os animais de corte agora possuem um manejo diferenciado, se durante o abate são insensibilizados com pistolas de dardo cativo antes de serem sangrados, etc. Essas são informações que considero irrelevantes no que diz respeito a  se devemos ou não comer carne.

Portanto, meus argumentos não foram inconsistentes durante a mesa redonda porque eu simplesmente não argumentei sobre zoológicos. Fui fiel ao tema que me foi solicitado: “Como instituições que albergam animais selvagens podem trabalhar juntas para a conservação?”

Defendi que embora santuários de animais e zoológicos, devido à sua própria natureza e objetivos antagônicos, sejam em certo sentido opostas, elas já trabalham muitas vezes juntas (mas nem sempre de forma sinérgica).

Santuários recebem dos zoológicos animais excedentes, animais feios demais ou inadequados para serem expostos ao público, animais oriundos de zoológicos falidos ou fechados e não desejados por outros zoológicos.

Na continuidade respondi às perguntas que me foram colocadas, mas novamente, sem entrar no mérito dos zoológicos.  Apenas questionei a defesa que se fez do abate da girafa no Zoológico de Copenhagen (Marius), que segundo a defensora poderia falar duas horas em defesa do feito, porque segundo ela a girafa não era um filhote (irrelevante), ela não foi morta na frente de crianças (irrelevante) e era um hibrido (irrelevante). Ser híbrido apenas significa que o indivíduo não se presta a um programa de reprodução e que não pode ser reintroduzido em seu habitat, não significa que ele deve ser morto. Várias entidades, pelo que me lembro na época, se prontificaram a ficar com a girafa.

Também procurei responder às perguntas direcionadas à rotina do Rancho dos Gnomos, ao conceito de santuários e aos direitos animais com a mesma educação, fossem elas feitas em tom curioso ou em tom agressivo, buscando achar pontos para lançar acusações. Enfim . . .

Finalização

Não pretendia escrever sobre o simpósio para não incorrer em indelicadeza, deixar o episódio no passado. Apenas o fiz porque recebi as postagens do Facebook em Print Screen, se referindo ao evento e alegando falta de argumentos consistentes. O evento em si foi positivo, mas desgastante por conta dessa hostilidade.


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Pesquisas envolvendo diferentes espécies animais na Universidade Federal do Pará (UFPA)

Por Sérgio Greif

Pesquisas envolvendo ensaios comportamentais, desenvolvimento cognitivo, memória espacial, testes eletrofisiológicos e morfologia de células nervosas conduzidos em diferentes espécies animais na Universidade Federal do Pará (UFPA).

O presente artigo descreve algumas pesquisas conduzidas por grupos de trabalho formados por pesquisadores da Universidade Federal do Pará – UFPA. São projetos que foram submetidos ao Comitê de Ética em Pesquisa com Animais de Experimentação e escritos em sua maior parte na forma passada e não futura (o que nos leva a crer que muitos dos procedimentos já tenham sido realizados nos animais, o que seria uma não conformidade com o estabelecido em lei).

Comitês de ética ao uso de animais em experimentos, ao contrário de comitês de ética na pesquisa com seres humanos, trazem o viés de considerar animais como objetos passiveis de serem utilizados em pesquisa, desconsiderando seus interesses pessoais. Nunca é demais lembrar que esses mesmos procedimentos, se fossem propostos a serem conduzidos em seres humanos seriam classificados como tortura, crime ou outros termos ainda menos elegantes. De toda forma, seriam considerados ilegais.

Por que, então, podemos conduzir esses mesmos procedimentos em animais que consideramos “de experimentação”? Animais, ao contrário dos seres humanos, não podem entender os propósitos dos procedimentos, nem podem consentir ou recusar tomar parte nos procedimentos.

Comitês de ética para a pesquisa com animais, portanto, trazem a palavra “ética” deslocada de seu significado, pois mesmo a presença de alguns poucos membros interessados realmente em defender os interesses dos animais não configura algum beneficio aos animais, visto que tais pessoas não tem poder para impedir a continuidade dos procedimentos. São sempre minorias frente aos interessados na pesquisa, direta ou indiretamente. São voto vencido.

Descreverei a seguir algumas propostas de pesquisa que circulam pelo CEUA da Universidade Federal do Pará UFPA. Novamente, não posso informar quais desses procedimentos foram já conduzidos antes mesmo dos procedimentos haverem sido descritos ao comitê (os protocolos encontram-se na forma pretérita). Tampouco sei quais dessas pesquisas receberam o aval do Comitê.

Espero com essa denúncia influenciar, por meio da familiarização da opinião pública, para que esses procedimentos sejam recusados pelo Comitê, e para que a população entenda que aval de um Comitê de Ética ao Uso de Animais não significa, de forma alguma, um bem aos animais.

Não poderei sempre denunciar cada procedimento que venha a ser submetido para cada Comitê de Ética de cada universidade ou centro de pesquisa do Brasil, mas espero com esse pequeno exemplo fazer com que as pessoas entendam que Comitês de Ética em nada zelam pela ética.

Projeto 1:

“Alteração e reabilitação da atividade mastigatória, memória espacial e avaliação da população astrocitária em modelo murino em desenvolvimento e senil.”

Objetivo: verificar se a privação da mastigação em ratos influencia no número de seus astrócitos (células nervosas em forma de estrela) e avaliar se ratos que não podem mastigar tem sua memória espacial influenciada.

Vitimas: 384 fêmeas de camundongos

Procedimento: as camundongos-fêmeas, após desmamarem de suas mães, foram divididas em diferentes grupos, de acordo com o tempo de vida que elas deveriam viver, o tipo de alimento que receberiam e se seriam criadas em ambiente pobre ou enriquecido.

Dessa forma, um terço dos animais viveu 6 meses, um terço viveu 12 meses e um terço viveu 18 meses (janela temporal). Um quarto dos animais recebeu somente ração em pellet, um quarto recebeu ração em forma de farelo, um quarto recebeu pellet metade de sua vida e ração farelada a outra metade e um quarto recebeu as sequências de pellet, farelada e pellet novamente em tempos equivalentes entre si, e proporcionais à idade.

Após completarem a janela temporal, os animais foram submetidos aos testes comportamentais e depois mortos (ou no eufemismo acadêmico, “sacrificados”) com overdose de Avertina e tiveram seus crânios cortados. Foram feitas lâminas histológicas de pedaços de seus cérebros e os astrócitos presentes na região CA1 do hipocampo foram contados e comparados

Crítica: Podemos facilmente entender que a pobreza ou o enriquecimento ambiental influenciam na memória e aprendizado espacial. Isso já está cansativamente demonstrado não apenas em animais experimentais, mas principalmente seres humanos (alguém duvida que o estímulo constante do cérebro mantém sua saúde por mais tempo?).

O que não dá para entender é de onde poderá se concluir que animais que mastigaram mais ou menos ao longo de suas vidas possuem maior capacidade de aprendizagem ou o que seja. Ainda que a pesquisa encontre alguma correlação estatística, jamais isso poderá provar que uma coisa cause a outra.

Como exemplo disso cito o site do estudante de Harvard Tyler Vigen (http://tylervigen.com/) que mostra várias correlações espúrias, como a que relaciona o aumento dos investimentos americanos em pesquisas na área de ciência e tecnologia e o aumento nas taxas de suicídio por enforcamento, estrangulamento e sufocação, ou as estatísticas que mostram que o número de afogamentos de pessoas que caíram em piscinas flutua de acordo com o número de vezes que o ator Nicolas Cage aparece na TV.

Não vejo como explicar cientificamente, ainda que se encontre uma correlação estatística, que a mastigação influencie no desenvolvimento mental de ratos, e que isso possa de alguma maneira ser aplicado aos seres humanos.

Projeto 2:

“Ensaios comportamentais e neuropatológicos na doença Príon com alteração e reabilitação da atividade mastigatória e enriquecimento ambiental em modelo murino senil.”

Objetivo: Essa pesquisa-irmã da anteriormente citada visou verificar as possíveis influências do ambiente, da idade e da redução da atividade mastigatória sobre o aprendizado e memória e comportamentos, acrescido do tratamento que pretende simular doenças neurodegenerativas em camundongos.

Vitimas: 348 camundongos-fêmeas com no máximo 15 meses de vida.

Procedimento: Da mesma forma que no projeto anterior, as camundongos-fêmeas, após desmamadas, foram divididas em grupos de acordo com o tempo de vida que elas deveriam viver (duas janelas temporais, de 9 e 15 meses), o tipo de alimento que receberiam (os mesmos tratamentos do projeto anteriormente descrito) e se seriam criadas em ambiente pobre ou enriquecido.

Os animais da janela temporal de 9 meses foram inoculados por via intra-cerebral aos 5 meses de idade com um homogeneizado cerebral contaminado pelo agente ME7 (para indução da doença príon, suposto modelo para doenças neurodegenerativas em seres humanos) e os animais da janela temporal de 15 meses foram inoculados aos 11 meses com o mesmo agente. Os animais do controle receberam homogeneizado cerebral normal (sem o agente ME7), para comparação.

Após completarem a janela temporal ou apresentarem a doença príon, os animais foram submetidos aos testes comportamentais e depois foram mortos e os procedimentos realizados no projeto acima descrito foram conduzidos também nesse caso, para comparar os astrócitos do hipocampo e as micróglias do giro denteado nos diferentes tratamentos (ou seja, a intenção é verificar se há diferença no desenvolvimento de estruturas cerebrais e diferenças comportamentais para cada um dos tratamentos).

Crítica: Novamente o questionamento quanto ao projeto anterior caberia a esse projeto, pois não parece haver justificativa científica para se relacionar mastigação e desenvolvimento de células nervosas.

No mais, já é conhecida a correlação entre desenvolvimento cerebral e estímulos ambientais e a correlação entre doenças neurodegenerativas e menor desenvolvimento cognitivo, não apenas em animais, mas também no ser humano.

Acrescento a essa proposta uma outra critica: A doença príon, ocasionada pela inoculação de agente ME7 em ratos e camundongos, pretende simular doenças neurodegenerativas em seres humanos, no entanto, esse modelo não condiz com a doença tal como ocorre em nossa espécie. Tal inoculação tão somente cria uma situação em que os animais manifestam sintomas semelhantes aos sintomas manifestados por seres humanos padecendo de uma doença neurodegenerativa (numa comparação burlesca, mas não falsa, seria como se considerássemos modelo válido para a gripe soprar rapé seco nas narinas da cobaia).

Projeto 3:

“Alterações comportamentais e neuropatológicas induzidas pela infecção por arbovírus Piry no camundongo senil albino suíço: impacto do ambiente enriquecido”.

Objetivo: verificar os prejuízos comportamentais aos camundongos da infecção pelo virus Piry, bem como em que extensão o enriquecimento ambiental auxilia na neuroproteção.

Vitimas: 80 camundongos fêmeas

Procedimento: Camundongos de 2 meses foram separados em dois grandes grupos, um que permaneceu em um Ambiente Enriquecido e outro que permaneceu em Ambiente Pobre (Padrão).  Os animais foram mantidos nessas colônias até completarem de 16 a 18 meses.

Assim que atingiram essa idade os camundongos passaram a ser considerados idosos, então eles começaram a ser submetidos a três testes de comportamentos diferentes, o Burrowing (um teste relacionado á remoção e estocagem de alimentos e que segundo o projeto é bastante sensível à instalação de infecções), o de Campo Aberto (que cria grande ansiedade nos animais) e o de Discriminação Olfatória (que verifica os prejuízos causados pelo vírus à memória olfatória dos animais).

Assim que realizaram todos os testes, esses animais foram inoculados, por via intranasal (A neuroinvasão pelo vírus Piry se dá pela via olfatória.), com homogeneizado cerebral infectado pelo vírus Piry, sendo 4 os grupos de estudo: 1. Animais criados em Ambiente Enriquecido e que receberam o vírus Piry; 2. Animais criados em Ambiente Enriquecido e que receberam homogeneizado cerebral sem o vírus (controle); 3. Animais criados em Ambiente Pobre e que receberam o vírus Piry; 4. Animais criados em Ambiente Pobre e que receberam homogeneizado cerebral sem o vírus (controle).

Posterior a essa infecção os animais foram monitorados para verificar o início dos sintomas clínicos ocasionados pelo vírus. Subgrupos dentro de cada grupo foram submetidos periodicamente aos mesmos três testes comportamentais que haviam sido submetidos anteriormente para verificar alterações em seu comportamento ocasionados pela infecção viral. Os animais submetidos a esses testes foram mortos e seus cérebros foram processados para análise neuropatológica.

Críticas: O vírus Piry, em camundongos, causa encefalomielite, miocardite, alterações do tecido conjuntivo e hiperplasia retículo-histiocitária em rins, fígado e baço. Mais da metade dos camundongos morrem nos primeiros dias após inoculação intracerebral ou intraperitoneal. Trata-se, portanto, de um vírus extremamente mortal para camundongos.

Em seres humanos esse mesmo vírus praticamente não incide. Embora em algumas regiões uma grande percentagem da população apresente anticorpos neutralizantes para o mesmo (o que significa que tiveram contato com ele), há apenas 6 casos reportados de infecção humana, sempre relacionados a acidentes no ambiente de laboratório e com quadro clínico completamente distinto do apresentado pelos camundongos. Não se trata, portanto, de vírus de importância médica.

Se não tem importância médica caem por terra declarações na linha de que o “sacrifício” desses animais de alguma forma salvará vidas humanas, recaindo essa pesquisa na categoria dos projetos acadêmicos que visam bolsas de agência de fomento e conferir títulos a estudantes de pós graduação.

Trata-se, aliás, de repetição de resultados já conhecidos, já que a literatura já mostra os efeitos que vírus Piry tem sobre o comportamento de camundongos e o papel protetivo do enriquecimento ambiental (ex. http://www.iec.pa.gov.br/newiec/pibic/pt/files/res2007-06.pdf; http://repositorio.ufpa.br/jspui/bitstream/2011/3204/6/Dissertacao_EstudoAlteracoesNeuropatologicas.pdf, etc), inclusive com a participação do próprio pesquisador que propôs o projeto.

Projeto 4

“Alterações Comportamentais, Histopatológicas e da Morfologia Microglial Induzidas por Inoculação Sequencial de VDEN1 e VDEN4 em Modelo Murino.”

Objetivo: estabelecer um modelo animal de infecção secundária e sequencial por dois diferente sorotipos do vírus da dengue (sorotipos 1 e 4), avaliar a progressão da doença, descrever as alterações comportamentais e histopatológicas em fígado e pulmão induzidas pela infecção sequencial pelos 2 sorotipose avaliar as mudanças da morfologia da micróglia (células nervosas).

Vitimas: 72 camundongos fêmeas

Procedimentos: Camundongos foram divididos em dois grupos. Um grupo foi inoculado por via intraperitoneal com homogeneizado cerebral infectado com vírus da dengue sorotipo 1 e após 28 dias foi infectado com homogeneizado cerebral com vírus da dengue sorotipo 4. Outro grupo recebeu homogeneizado cerebral não infectante e após 28 dias o mesmo tratamento.

Para intensificar as alterações clínicas ou comportamentais semelhante às obtidas sob o regime de múltiplas infecções, os animais foram inoculados na fase final do experimento com homogeneizado cerebral infectado com o sorotipo 1 ou sorotipo 4 em dias alternados, e após 24 horas inoculados com soro anti-sorotipo 2, durante 7 dias.Durante a fase de experimentação os animais foram submetidos a testes comportamentais (Burrowing e Campo Aberto). Ao término de todo o período de testes e inoculações os animais foram sacrificados e suas vísceras e os encéfalos foram analisadas histologicamente.

Crítica: é triste que em pleno século XXI ainda existam pesquisas cujo objetivo principal seja consolidar um modelo animal que pretenda mimentizar os efeitos de uma infecção natural do ser humano mediante uma infecção artificial de uma cobaia.

Ainda que as alterações provocadas pelo vírus no camundongo de alguma forma lembrem as alterações provocadas em seres humanos há uma série de outras variáveis que fazem com que o modelo seja pobre e pouco representativo da doença natural.

Há muitas pessoas que naturalmente já se encontram infectadas pelos sorotipos 1 e 4 da dengue, de modo que as alterações histológicas em seres humanos já são ou podem vir a ser conhecidas, sem a necessidade do uso de camundongos.

Projeto 5

“Investigação de efeitos lesivos na mucosa gástrica e lesão hepática de doses terapêuticas de salicitamol frente ao acido acetilsalicilico e paracetamol”

Objetivo:O objetivo do projeto é investigar o potencial toxicológico do “Salicitamol” (uma associação molecular entre o Ácido Acetilsalicílico e o Paracetamol) em bioensaios com larvas de Artemia salina (pequenos crustáceos aquáticos) e verificar, comparativamente, seu potencial ulcerogênico em ratos em relação ao acido acetilsalicílico, e seu potencial hepatotóxico em ratos em relação aos efeitos causados pelo paracetamol.

Vitimas: 40 ratos fêmeas e 40 ratos machos de 90 dias de idade e 100 artêmias salinas (pequenos crustáceos aquáticos).

Procedimentos: No bioensaio de toxicidade para as larvas de Artemia salina, elas foram expostas a concentrações diferentes de solução de salicitamol (1000 ppm, 500 ppm e 100 ppm) em tubos de ensaios. Apos 24 horas em contato com a solução foi feita a contagem do numero de larvas vivas em relação ao número de larvas mortas. Esse ensaio visa estabelecer qual concentração de solução mata que quantidade de crustáceos.

Na avaliação da toxicidade aguda do salicitamol e comparação ao efeito do ácido acetilsalicílico foram utilizados 10 ratos em jejum de 24 horas, que receberam 5 mg/kg de salicitamol e após 4 horas foram mortos. Seus estômagos foram retirados, abertos e sua mucosa foi inspecionada e comparada a um grupo de ratos que recebeu ácido acetilsalicílico e um grupo controle que recebeu apenas o veículo. O mesmo estudo foi repetido comparando os efeitos do salicitamol e do paracetamol para o fígado e rins dos ratos.

Na avaliação da toxicidade subcrônica ratos machos e fêmeas foram divididos em 2 grupos, sendo que um deles recebeu uma dose diária de 5 mg/Kg e o outro não (controle), por 28 dias. Durante o período experimental, todos os animais foram observados para a verificação de algum sinal de toxicidade (como capacidade exploratória). A cada sete dias amostras de sangue foram tiradas da cauda dos animais para verificar a glicemia. Apos o período experimental, os animais foram decapitados com uma guilhotina, seu sangue foi aproveitado para exames hematológicos e bioquimicos.

Além desses estudos também foram realizados testes eletrofisiológicos, onde os ratos tiveram eletrodos implantados no cérebro, com uma incisão cirúrgica de 3 cm, que expôs a superfície óssea do crânio e, após, foram feitas duas perfurações com aparelho odontológico para fixação dos mesmos. Após 24 horas alguns animais receberam salicitamol e outros receberam apenas o veículo (grupo controle), sendo o perfil eletrofisiológico dos animais acompanhados e comparados nos dias seguintes, por mais 28 dias de experimento. Após esse período os animais foram mortos.

Crítica: Ácido acetilsalicílico e Paracetamol são anti-inflamatórios que apresentam efeitos antipiréticos e analgésicos. Por serem também utilizados para o tratamento de doenças crônicas (artrite reumatoide, osteoartrite, doença renal crônica, doenças reumáticas, etc), que em geral acometem idosos, há uma preocupação em relação aos efeitos de seu uso prolongado, em especial em relação à sua toxidade gástrica e hepática.

Embora essas drogas também provoquem ulcerações e problemas renais e hepáticos em ratos não há uma equação que permita extrapolar que doses sendo prejudiciais ou letais  para ratos (ou Artemias salinas) seriam seguras para o ser humano. Não há uma linearidade que permita extrapolar os dados apenas com base em volume ou peso corpóreo. Animais diferentes podem apresentar especial sensibilidade a substâncias diferentes.

Além disso, para verificar simplesmente o potencial ulcerogênico e hepatotóxico de substâncias há vários modelos in vitro que permitem acessar essa mesma informação sem matar animais, a um custo mais baixo e com resultados em menos tempo. Não há justificativa para que se façam pesquisas com animais, ainda mais se existem métodos substitutivos que permitem obter a mesma informação sem o uso prejudicial de animais.

Projeto 6

“A resposta inflamatória microglial na ambliopia: estudo experimental em gatos.”

Objetivo: Analisar a resposta inflamatória no córtex visual primário e em áreas associativas que exibem função binocular, após indução da ambliopia experimental (indução de deficiência no desenvolvimento normal do sistema visual durante o período de maturação do sistema nervoso central) e verificar o papel do ambiente enriquecido sobre a acuidade visual binocular em gatos e o curso temporal de sua ambliopia mediante testes comportamentais.

Verificar alterações neuropatológicas e morfológicas no sistema nervoso de animais (células gliais e neuronais) criados em ambiente pobre e enriquecido, com e sem ambliopia experimental, com vistas a correlacionar às performances visuomotoras dependentes de interação binocular, assim como o seu possível impacto sobre funções cognitivas que requerem tais interações.

Vitimas: 24 gatos de ambos os gêneros

Procedimentos: Gatos com idade de 23 dias foram induzidos à ambliopia mediante administração forçada de sulfato de atropina a 1% no olho esquerdo (um grupo controle não sofreu o procedimento).

Quando completaram 60 dias os gatos foram divididos em dois subgrupos: animais criados em ambiente enriquecido e criados em ambiente padrão.

Aos 90 dias metade dos animais de cada subgrupo foi submetida a um teste comportamental de acuidade visual que induz uma escolha entre duas opções possíveis, obrigando o gato a detecção visual de uma grade composta por barras escuras e claras de frequência espacial conhecida. As pistas visuais (grades) vão diminuindo com a espessura da barra à medida que o animal alcança o índice de acerto nas escolhas de 70% das tentativas em cada série.

Ao fim dos testes comportamentais, todos os gatos foram pesados e mortos com overdose de cetamina e xilazina. Em seguida foram perfundidos por via transcadiarca com solução salina heparinizada, seguido de paraformaldeido. e foram analizados bioquímica e histológicamente.

Os demais gatos no qual supostamente se induziu a ambliopia foram submetidos a uma readaptação do olho privado e submetido novamente aos testes comportamentais para verificar se a acuidade visual melhorou após três meses.

 Por fim todos os gatos foram mortos para que se pudesse comparar a morfometria das células gliais e neuronais do grupo submetido à ambliopia e os que não foram submetidos (controle), bem como dos animais criados em ambiente pobre e criados em ambiente enriquecido.

Criticas: A ambliopia se caracteriza pela perda de visão causada por processos naturais ocorridos durante o processo de maturação do SNC, que não implicam em qualquer anomalia estrutural ao olho. Dessa forma, o procedimento adotado para induzir ambliopia em modelos animais, que seja costurando a pálpebra de um de seus olhos ou, como no caso do projeto, pingando sulfato de atropina no olho dos gatos, embora efetivamente cause prejuízos à visão dos gatos, não é representativo do que é ambliopia.

A escolha de gatos (ao invés de roedores) para o referido experimento se deu pelo fato destes animais apresentarem visão binocular (sendo uma das principais consequências da ambliopia o prejuízo na binocularidade e na percepção de profundidade), no entanto, a visão dos gatos é bastante distinta da visão humana.

Gatos possuem um campo visual e visão periférica muito maior, cerca de sete vezes mais bastonetes e cerca de 10 vezes menos cones que os seres humanos. Além disso, sua acuidade visual durante o dia é inferior à nossa devido a uma camada de células na retina que são muito sensíveis à luz e os ofuscam (se chama Tapetum Lucidum).

Resulta que eles têm melhor percepção de movimentos rápidos do que humanos, mas possuem menor acuidade para objetos estáticos, cores, texturas e para a visão à distância.  

Os testes comportamentais em gatos provavelmente estarão enviesados porque não é possível se determinar se os gatos em que supostamente se induziu a ambliopia manifestam dificuldade de visualizar em profundidade.

Além disso, faz-se necessário verificar se a UFPA possui um biotério para criar e manter gatos, o que caso contrário tornaria a proposta do projeto ilegal de acordo com o próprio artigo 14 da Lei Arouca, que exige em seu texto que o animal só poderá ser submetido às intervenções que constituem a pesquisa quando, antes, durante e após o experimento, receber cuidados especiais, o que demanda um biotério.

Projeto 7

“Memória espacial e morfometria tridimensional da micróglia de CA1 e do giro denteado do Cebus apela”.

Objetivos: correlacionar a morfologia de estruturas cerebrais (micróglia do hipocampo e giro denteado) e o desempenho cognitivo (aprendizado e memória espacial) de macacos prego.

Vitimas: 4 macacos-prego

Procedimentos: Detalhes dos procedimentos conduzidos nos animais não foram especificados no material submetido ao Comitê de Ética, mas pelo que se pode entender os macacos foram obrigados a desempenhar tarefas cognitivas hipocampo-dependentes, utilizando-se testes selecionados da Bateria Cambridge de Testes Neuropsicológicos (CANTAB).

Foram também utilizados testes motores de adaptação a tela para checar a adaptação dos indivíduos à tela sensível ao toque e o teste de aprendizado pareado (TAP) para avaliar aprendizado e memória espacial.

Para o estudo da correlação entre o desempenho individual no TAP da bateria CANTAB e a morfologia da micróglia, foi necessário reconstruir e analisar parâmetros morfométricos selecionados a partir de micróglias reconstruídas empregando microscopia tridimensional.

De que forma os animais foram manejados e posteriormente mortos foram omitidos no protocolo.

Criticas: O protocolo submetido informa que os animais foram fornecidos para a pesquisa pelo IBAMA. É uma vergonha que o órgão ambiental responsável por receber animais por entrega voluntária, resgate ou oriundos de apreensões de fiscalização, os tenha submetido à pesquisa biológica, algum laboratório que os irá torturar e por fim matar, ao invés de destiná-los para a reabilitação, soltura ou encaminhá-los para criadores conservacionistas.

As demais críticas quanto ao modelo animal também se aplicam aqui, pois tais alterações morfológicas poderiam ser observadas diretamente a partir da dissecação de seres humanos.

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O papel da pecuária em nossa crise hídrica

Por Sérgio Greif

Há anos escrevi alguns artigos denunciando os diferentes impactos ambientais – destruição dos ecossistemas naturais, eliminação de fauna e flora nativos, contribuição ao processo de desertificação, poluição ambiental, diminuição da capacidade suporte, etc – causados pela pecuária e comparando os custos ambientais da produção de diferentes itens alimentares, especialmente no que diz respeito ao uso da terra e da água.

Nesses artigos faço afirmações na linha de que são necessários entre 20 e 30 mil litros de água para produzir um quilo de carne bovina (mas apenas 150 litros de água para produzir um quilo de trigo) e que cada cabeça de gado consome 50 litros de água por dia apenas para dessedentação; que a limpeza de uma única carcaça bovina no processo de abate consome mais de 1200 litros de água e que a lavagem de uma única carcaça de frango consome mais de 120 litros de água.

Mais do que um artigo na linha do “Eu tinha falado que a água ía faltar”, ou um artigo que pretenda tornar as pessoas vegetarianas para que assim economizemos mais água (economizar água deve ser um motivo subsidiário e adicional para a adoção do vegetarianismo, sendo a razão principal o respeito aos direitos animais), esse artigo se constitui em resposta a tantos desenganos e tantas desinformações publicadas pelos defensores da pecuária, tentando eximi-la de culpa frente a atual crise hídrica.

Tentativas de eximir a pecuária de culpa

Recordo-me, em um primeiro momento, de opinião publicada anos atrás no Estadão pelo então Secretário do Meio Ambiente do Estado de São Paulo, Xico Graziano, onde ele defendia que a agropecuária não consumia recursos hídricos, pois a água que as plantas absorviam por intermédio de suas raízes voltava ao meio ambiente na forma de evapotranspiração, e a água que o boi bebia ao longo de 3 anos de vida (32.850 Litros de água) retornaria para o meio ambiente sob a forma de urina e transpiração (cabe informar que antes de Secretário do Meio Ambiente, o referido senhor tem formação em engenharia agrônoma e exercia cargos políticos sempre ligados à agropecuária).

Em seu artigo, ironiza o agrônomo: “Acontece que a urina dos animais, do homem inclusive, participa do ciclo da água na natureza, matéria elementar lecionada na quarta série do ensino fundamental.” Por outro lado, expõe o ex-secretário, a água utilizada nos processos fabris, no resfriamento de reatores, ou a “água virtual” que é exportada pelo Brasil para outros países sob a forma de matérias primas, sim, representariam um desperdício.

De forma semelhante, o Dr. Eduardo Pires Castanho Filho, também engenheiro agrônomo, escreve em seu recente artigo “Aquonegócio”:

Quem lê aqueles artigos, sem prestar-lhes muita atenção, acaba “vendo” a água sendo consumida pela agropecuária e “desaparecendo” nas “regas” da soja ou na sede inigualável dos bovinos. A soja não é “regada”, a água da chuva “passa” pela planta, onde 18% dela fica retida nos grãos na hora da colheita. O restante retorna ao ciclo novamente. Assim, apenas cerca de 640 litros ficam embutidos na produção anual de soja, ou 0,00005%!

O mesmo se passa com o gado. A pecuária bovina em São Paulo, a mais evoluída do país, é a atividade que mais produz água para a população paulista. Ouve-se muito que para se produzir carne bovina

se gasta muita água. É verdade. Para produzir um quilograma de carne, são consumidos cerca de 8 mil litros de água, que, entretanto, é continuamente reciclada. Não fosse assim, o boi teria no abate cerca de 2 mil toneladas! Pelo mesmo raciocínio, um ser humano, adulto aos 15 anos, pesaria 16 toneladas. Ao considerar a água para a sua sobrevivência, ele pesaria 600 toneladas. Mas, como nas terras paulistas se produzem, em média, 120 quilogramas de carne (com 70% de água) bovina por hectare por ano, a pecuária acaba sendo a atividade de menor extração de água da agropecuária paulista.

Além desses, é possível encontrar outros artigos nessa linha. Mas me questiono se esses respeitáveis senhores, técnicos, especialistas em suas áreas de formação, realmente acreditam naquilo que colocam de forma tão contundente, fazendo a questão parecer tão óbvia que mereça ser considerado um enganador quem diz em contrário.

O fato de que há um ciclo da água não significa que não exista desperdício

Se vamos pensar simplisticamente em termos de ciclo d’água, que como muito bem colocado, todos deveriam conhecer desde a 4º série, nenhuma atividade do planeta “desperdiça” água, pois a água do planeta é a mesma desde a formação da Terra. Assim, seguindo esse raciocínio torto, exceto pelas viagens espaciais, que tiram alguns milhares de litros de água do planeta para levar às estações espaciais, nenhuma atividade humana desperdiça água.

Curioso que, se fossemos levar a sério isso, não apenas as excreções animais, a transpiração e a evaporação estariam isentas da possibilidade de comparação, mas também outras modalidades de uso de água que os autores condenam como desperdício. Por exemplo, a água que é adicionada nos refrigerantes (que um dia voltará ao ambiente sob a forma de urina humana), a água utilizada para resfriar reatores nucleares (que em determinado momento evaporará ou resfriará e voltará para o ciclo), ou a água que usamos para o banho ou para lavar a calçada (que depois de lavar escorre toda ela pelo ralo e de alguma forma vai parar em uma estação de tratamento de esgotos ou em um curso d’água).

Percebemos, portanto, o quão falho esse raciocínio é, porque também serve para eximir de culpa uma pessoa que toma um banho de 2 horas. Se for comparada a uma pessoa que toma um banho de 2 minutos ela poderá argumentar: “Mas eu não estou desperdiçando a água, pois não estou sumindo com ela. Depois que sai de meu chuveiro a água bate em meu corpo, escorre e vai pelo ralo; do ralo ela escorre pelo encanamento e atinge o esgoto; do esgoto ela segue pelas galerias até uma estação de tratamento de esgotos e depois cai no rio. Essa água assim não sumiu do sistema, ela apenas está fluindo em seu ciclo.”

Seria uma maravilha se isso fosse verdade, mas não é assim que devemos pensar.

O Ciclo da Água não é tudo

Quando pensamos em desperdício de água não estamos nos referindo, de forma alguma, a água deixando de existir no planeta, mas sim em água utilizável deixando de ser utilizada para uma finalidade que consideremos nobre.

É claro que se as vacas e os bois estão consumindo água que falta aos seres humanos, essa água está sendo desperdiçada, não importando que posteriormente o gado bovino venha a urinar a maior parte dela, porque a urina não é água utilizável por seres humanos (se assim o fosse, o conceito de “poluição de águas superficiais” perderia todo o sentido).

De toda a água presente no planeta, 97,3% está sob a forma de água salgada, nos oceanos. Sim, ela ainda é água e ainda faz parte do ciclo, mas a menos que sofra um dispendioso processo de dessalinização, ela não pode ser considerada água utilizável por seres humanos. É por isso que, mesmo cercada pelo Mar Vermelho, pelo Golfo Pérsico e pelo Oceano Índico, a Península Arábica permanece um local desértico, impróprio para a agricultura. E é por isso também que uma pessoa pode morrer de sede se estiver à deriva em um bote inflável no meio do oceano.

Os restantes 2,7% da água do planeta estão sob a forma de água doce, mas a maior parte desta se encontra sob a forma de gelo e neve (68,9%) ou como água subterrânea (29,9%). Só uma fração muito pequena de toda a água doce do mundo está diretamente disponível ao homem e aos outros organismos, sob a forma de lagos e rios (0,3%), ou como umidade presente no solo, na atmosfera e como componente dos mais diversos organismos (0,9%).

Trata-se, portanto, de um recurso abundante se formos considerar que há mais superfície coberta por água do que por terra no planeta, mas ao mesmo tempo trata-se de um recurso raro se considerarmos sua disponibilidade para utilização e distribuição irregular ao longo da superfície do planeta.

Se há relativamente tão pouca água doce no planeta e menos ainda são águas que se encontram para pronta utilização por seres humanos, se constitui em um desperdício, de fato, que 92% de toda a água doce utilizável seja destinada à agricultura, especialmente quando essa agricultura é praticada em sua maior parte para alimentar não diretamente pessoas, mas animais que alimentarão pessoas em outros continentes – a chamada água virtual. Não há duvida de que a pecuária seja a vilã do desperdício de água, não entendo como que pessoas técnicas possam argumentar de forma diferente. 


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Zoos x Santuários

Por Sérgio Greif 

Li na data de ontem texto publicado pela Dra. Yara de Melo Barros (http://www.oeco.org.br/convidados/28902-zoos-x-santuarios-uma-disputa-sem-futuro-e-sem-utilidade), Presidente da Sociedade de Zoológicos e Aquários do Brasil, intitulado “Zoos x Santuários: uma disputa sem futuro e sem utilidade”, onde ela defende que zoológicos se justificam por motivos de conservação de espécies e pela possibilidade de que os visitantes possam ser sensibilizados para questões ambientais através do contato com os animais.

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O desafio do balde de gelo e os direitos animais

Por Sérgio Greif 

Confesso que não sei o que ‘beijinho no ombro’ significa. Sou alheio aos bordões de novela que vejo as pessoas repetirem, tampouco conheço os bordões do Zorra Total, do CQC, do Pânico ou de qualquer programa popular de TV que seja. Desconheço os memes que circulam na internet, eles para mim não fazem sentido, não sei como essas coisas pegam.

Escrevo isso porque não entendi quando um amigo me falou do tal do Desafio do Balde de Gelo, que foi o vídeo mais acessado na história do Youtube até hoje. Achei em princípio que se tratasse de uma competição auto-destrutiva, onde ganhava quem tirasse por último a mão de um balde cheio de gelo. Mas ele me disse que havia uma relação com a Esclerose Lateral Amiotrófica – ELA (ALS, em inglês), que eu já sabia ser a doença de que sofre Stephen Hawkings.  Me interessei e resolvi pesquisar.

O desafio em si é desinteressante como todo meme ou bordão, coisa da moda que vem e vai. Se a gente tiver de explicar perde toda a graça, que já não é nenhuma. Mas nesse caso a proposta tem uma suposta razão humanitária, pois pelo menos no início da brincadeira, desafiador e desafiado realizavam doações para a pesquisa da doença.

Uma provável origem para a brincadeira pode ter sido o “Cold Water Challenge”, onde ou o desafiado doava US$ 100 para a pesquisa do câncer ou pulava em uma piscina de água fria. Daí para o “Ice Bucket Challenge”, e sua vinculação à Esclerose Lateral Amiotrófica, foi um passo.

O movimento tornou-se viral nas redes sociais após o ex-capitão de beisebol norte-americano Pete Frates, portador da doença, postar na rede um vídeo na qual desafiava algumas pessoas a contribuir com a ALS Association.

Logo os famosos dos EUA (entre eles o ator Robert Downey Jr, a apresentadora Oprah Winfrey, o co-fundador da Microsoft Bill Gates, o executivo-chefe de Facebook, Mark Zuckerberg, o ex-presidente americano George W. Bush entre muitos outros) aderiram à campanha e publicaram no Youtube seus próprios vídeos entornando baldes de água gelada na cabeça.

O fenômeno foi replicado em todo o mundo: centenas, milhares de vídeos apareciam nas redes sociais. Em menos de 1 mês, a campanha já havia conseguido arrecadar mais de 16 milhões de dólares em doações e hoje, meses depois, são centenas de milhões de dólares.

Bem, não preciso dizer que o desafio já perdeu em grande parte seu sentido original, sendo agora usado para os amigos se desafiarem mutualmente, cobrarem antigas dívidas ou simplesmente não realizarem qualquer movimentação de dinheiro. http://f5.folha.uol.com.br/humanos/2014/09/1511846-internautas-usam-desafio-do-balde-de-gelo-para-cobrar-dinheiro-uns-dos-outros.shtml

A graça agora está em entornar um balde de água gelada na cabeça. A proposta inicial, de conscientizar as pessoas para a Esclerose Lateral Amiotrófica e arrecadar dinheiro para sua pesquisa se tornou secundária.

Mas mesmo para os casos em que as pessoas continuaram brincando e arrecadando fundos para a pesquisa, cabem as indagações: Que pesquisas são essas que estamos financiando? Animais estão envolvidos nelas?

A Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA)

Trata-se de uma doença rara (acomete 1,5 pessoa a cada cem mil pessoas no mundo) que se caracteriza pela degeneração progressiva dos neurônios motores (responsáveis pelos movimentos de contração e relaxamento muscular) que perdem sua capacidade de transmitir os impulsos nervosos, enfraquecendo a musculatura do indivíduo e causando atrofia e deterioração dos músculos.

Antes da morte completa dos nervos e músculos, os pacientes experimentam muitas cãibras, tremores musculares (fasciculação), reflexos exaltados, atrofias, espasmos e diminuição da sensibilidade. Em alguns casos mais agressivos o paciente perde o controle sobre a mastigação e a fala.

Interessante sobre a doença é que ela afeta tão somente os neurônios motores (sistema eferente) não afetando os neurônios sensoriais (sistema aferente). Assim, todas as funções sensoriais e intelectuais do paciente se mantêm, tanto que Stephen Hawking diagnosticou sua doença em 1963 e ainda hoje é considerado um dos homens mais inteligentes vivos, além de um dos mais proeminentes cientistas na ativa.

Não sabemos as causas da doença, possivelmente uma combinação de fatores genéticos e ambientais desconhecidos e a própria idade do indivíduo.  Sabemos que ela ocorre com maior frequência em homens caucasianos e, geralmente, mais velhos (entre 45 e 50 anos).

Possivelmente fatores ambientais de risco para o desenvolvimento da doença sejam o consumo excessivo de glutamato, atividades físicas intensas, o paciente ter sofrido algum tipo de trauma mecânico, ou ter sido vítima de choque elétrico, a exposição a determinados pesticidas agrícolas, entre outros.

Há uma lista de personalidades afetadas pela doença, em sua maioria atletas: Washington, jogador de futebol que jogou no Clube Atlético Paranaense, no Fluminense e na seleção brasileira; o jogador polonês Krzysztof Nowak, que também jogou no Atlético Paranaense; o jogador de baseball Lou Gehrig, entre outros.

Geralmente os pacientes que começam a apresentar sintomas da doença procuram ortopedistas, que os recomendam para outros ortopedistas, passando o paciente por 4 ou 5 médicos até que se desconfie da doença e se busque por um neurologista. Até o momento, o diagnóstico confirmado só pode ser obtido de 10 a 11 meses após o início das investigações. Não há tratamento, mesmo nas fases iniciais da doença, aliás não há diagnóstico precoce, e menos ainda uma cura.

O que a medicina pode fazer pelo paciente, nesse momento, é melhorar sua qualidade de vida, cuidando de sua alimentação adequada, hidratação, normalização de sua respiração, controle de salivação, de micção, evacuação, da dor, e também de seu controle emocional.

Os medicamentos riluzol e a gabapentina tem sido utilizados para retardar o avanço da doença, com alguma efetividade, mas não muita. Seus efeitos adversos também são bastante severos, sendo as mais comuns: fraqueza, náusea, dor de cabeça, dor abdominal, dores no corpo, vômito, tontura, batimento rápido do coração, sonolência e alteração na sensibilidade perioral.

Em grande parte, as pesquisas sobre Esclerose Lateral Amiotrófica se concentram em buscar uma formula mais efetiva e menos agressiva que o rizulol para deter o processo de degeneração dos neurônios motores, provavelmente com a utilização de vários fatores neurotróficos.

Pesquisas relacionadas à ELA

Nos últimos anos tem aumentado o número de pesquisas relacionados à Esclerose Lateral Amiotrófica, sendo parte dessa pesquisa realizada em pacientes reais, parte dela em tecidos in vitro e muitas dessas, infelizmente, pesquisas infrutiferamente realizadas em animais de laboratório.

É da pesquisa com pacientes reais e com tecidos humanos in vitro que deriva todo o nosso conhecimento sobre ELA. Foi mediante o estudo em pacientes reais que se observou que entre 2 e 3% dos acometidos pela doença possuíam uma mutação do gene SOD1, que produz uma proteína tóxica aos neurônios motores. Embora percentualmente essa quantidade seja baixa, ela auxilia na compreensão da forma como os neurônios se degeneram em todos os pacientes, com ou sem a mutação.

Foi também observando populações da etnia Chamorro, de Guam, cuja prevalência da doença é cem vezes maior do que das populações de forma geral, que os pesquisadores relacionaram a degeneração dos neurônios à neurotoxicidade do glutamato. O glutamato é o principal neurotransmissor excitatório do sistema nervoso central. Não se sabe exatamente como, mas o rizulol inibe os processos oxidativos relacionados ao glutamato, daí a ideia de utilizá-lo para retardar essa ocorrência.

Há alguns modelos para ELA in vitro, como os que utilizam culturas de neurônios motores, não sendo necessária a realização de qualquer tipo de pesquisa em animais de laboratório. Aliás, não existem modelos animais para a pesquisa de ELA. Utilizando  modelos in vitro foi possível, por exemplo, testar novos tratamentos, como verificar os efeitos neuroprotetivos da eritropetina.

Há defensores da pesquisa em animais que argumentam que foram as pesquisas em ratos que demonstraram uma correlação entre a lesão das células e a carência da proteína parvalbumina. No entanto, esses ratos utilizados nos experimentos não possuíam Esclerose Lateral Amiotrófica, mas quadros clínicos análogos provocados por outras degenerações neurológicas.

A correlação entre a carência de parvalbumina e alguma deficiência no processo fisiológico de contratação muscular é óbvio, dado o papel conhecido da proteína no organismo. Portanto, ainda que ratos tenham sido utilizados, os resultados obtidos não dependiam da utilização do modelo animal, nem se pode dizer que foram conclusivos. Esses estudos apenas atestaram que ratos com alguma degeneração neurológica apresentavam carência de parvalbumina, o que já se podia supor com base em conhecimento anterior.

O desperdício de tempo e dinheiro em pesquisas com animais apenas retardará a descoberta das causas e da cura para a Esclerose Lateral Amiotrófica. Apenas estudos em pacientes reais e suas famílias, aliado aos estudos in vitro poderá nos levar em direção à solução do problema e à melhoria na vida dos pacientes já acometidos pela doença.

Associações de Esclerose Lateral Amiotrófica e a experimentação animal

Ver uma pessoa publica ou um amigo entornar um balde de água gelada na cabeça certamente chama a atenção. Melhor ainda se essa ação chamar a atenção para uma causa nobre, como uma doença altamente degenerativa e debilitante, e puder levantar fundos para sua pesquisa. O problema está na forma como essa pesquisa é realizada e o potencial que essa pesquisa tem de ser extrapolada para pacientes reais, humanos.

Algo que os doadores e arrecadadores não sabem, mas grande parte dos recursos obtidos pelas Associações de ELA mundo afora, e isso inclui a Associação Brasileira de Esclerose Lateral Amiotrófica (AbrELA), destinam-se a tentar criar um animal modelo que expresse a doença. Animais “modelo”, mesmo quando “programados” para apresentar sintomas análogos à doença, não apresentam a doença de fato. Eles não são representativos dos pacientes reais. Não são “modelos” de fato.  

Outro grande sumidouro de recursos são as tentativas de se desenvolver novos medicamentos, mais efetivos e seguros para os pacientes, utilizando testes toxicológicos em animais de laboratório. Ora, é sabido que entre 80% e 90% das drogas que se mostram seguras ou efetivas para animais de laboratório se mostram inefetivas e inseguras quando aplicadas aos seres humanos.

De toda forma, os primeiros seres humanos a serem submetidos a determinado tratamento acabam sendo as verdadeiras cobaias. São eles a experimentar os efeitos e a  toxicidade dos diferentes compostos em seres humanos.

Conforme mostrado, as principais descobertas em relação à Esclerose Lateral Amiotrófica derivaram de estudos epidemiológicos, clínicos e in vitro, e não há porque acreditar que no futuro isso seja diferente.

Jamais a pesquisa em animais poderá estabelecer as causas que levam uma pessoa a desenvolver ELA. Jamais essa pesquisa trará benefício relevante na busca pela cura. A experimentação animal é um desperdício de vidas humanas, animais, recursos financeiros e tempo.

Infelizmente, as Associação de Esclerose Lateral Amiotrófica continuarão focando seus recursos na pesquisa com animais, tornando o desafio do balde de gelo um subsídio à experimentação animal.

Há outras associações que se dedicam ao estudo da doença sem fazerem uso da exploração animal. Essas associações tem maior potencial de ajudarem seres humanos, simplesmente porque sua pesquisa é completamente focada em descobrir as causas da doença e sua cura em seres humanos. Um exemplo de associação que trabalha nesse sentido é a “Compassionate Care ALS” (http://www.ccals.org/home.php)

Doar dinheiro para auxiliar na pesquisa de uma doença tão séria e debilitante vale um balde de água gelada na cabeça, em verdade vale um auto-sacrifício até bem maior. Mas certamente não justifica a utilização de animais em pesquisa. Pense nisso antes de doar para uma instituição, pesquise em que tipo de pesquisa seu dinheiro será utilizado.

E se o dinheiro será usado para prejudicar animais e atrasar a cura humana, jogue um balde de água gelada em cima da instituição. Não desperdice seu dinheiro doando para quem prejudica animais e atrasa o desenvolvimento da ciência. 


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Em defesa dos direitos animais: Uma análise crítica da argumentação de um filósofo bem-estarista

Por Sérgio Greif 

O presente artigo é uma análise crítica do artigo recentemente publicado por Carlos Naconecy “Bem-estar Animal ou Libertação Animal? Uma Análise Crítica da Argumentação Antibem-estarista de Gary Francione”. Cabe, no entanto, antes de iniciar essa análise critica, esclarecer que a defesa que faço nesse artigo é a defesa dos direitos animais e não do autor criticado em si. Pessoalmente não tenho porque defender Francione até porque creio que ele pode defender suas ideias melhor do que eu, no entanto, em sua análise critica Naconecy faz mais do que criticar um autor. Ele critica o conceito de direitos animais em si, e nesse caso cabe uma defesa de qualquer pessoa que seja partidária dessa ideia. Portanto, o presente artigo não é uma defesa de Francione, é a defesa do próprio conceito de direitos animais. A obra de Francione será citada apenas a título de ilustração, até porque foi também com seu exemplo que os direitos animais foram criticados.

Em seu texto Naconecy escreve que Francione apresenta em sua argumentação “falsas analogias” quando compara a exploração de animais à exploração de crianças, ou quando compara a regulamentação do uso de animais à regulamentação do estupro ou da escravidão, por exemplo. Essas analogias, porém, não são falsas. A diferença entre um e outro caso encontra-se precisamente na moralidade da sociedade, que em um preciso momento e um preciso local não aceitam a pedofilia ou a escravidão, mas aceitam a exploração animal. Ora, a aceitabilidade da sociedade não torna algo certo ou errado, apenas o torna aceitável ou não àquelas pessoas. Moralidade é um conceito bem mais mutável do que ética.

É óbvio que quando Francione traça essas analogias ele está comparando nossa sociedade com uma sociedade onde o estupro, a escravidão e a pedofilia são permitidos, e em muitos casos no espaço/tempo eles de fato o foram. Mas não é apenas porque a moralidade da sociedade aceita que não podemos tentar mudar algo que contraria a ética. Nós não pensamos duas vezes em criticar sociedades onde a escravidão ou o estupro são aceitos e até regulamentados, não deixamos de criticar leis que prevêem o apedrejamento ou a castração de mulheres, por mais que sejam leis enraizadas em determinadas sociedades. Isso porque quando se trata de seres humanos, com os quais nos identificamos, tendemos a não sermos relativistas.

É claro que, como Naconecy escreve, existem leis contra o abuso infantil, o estupro e a escravidão, mas isso apenas se pensarmos que vivemos nos primeiros anos do século XXI, eu um país ocidental. Se vivêssemos nessa mesma época em um país muçulmanos que aplica as leis da Sharia veríamos que a escravidão nesses países ainda existe. Que igualmente ainda há lugares no mundo onde se uma mulher sai à rua com vestes consideradas inadequadas ela pode ser violentada, porque interpreta-se que se ela não estava vestida adequadamente, coberta com uma burka, por exemplo, está se oferecendo para os homens. Mesmo que ela esteja vestida adequadamente para aquela moral, se ela estiver desacompanhada de um homem já pode ser considerada uma mulher desgarrada. Há países onde ainda se aceita que um homem adulto se case com uma criança. Então está claro que a analogia de Francione não é um sofisma, pelo contrário, ela é bastante pertinente, basta apenas que o leitor tenha plasticidade mental suficiente para entender que se está tratando de lugares e épocas, e portanto moralidades, diferentes.

Lutar pelos direitos animais não significa não aceitar que as mudanças são gradativas. As mudanças podem ser gradativas, desde que sejam na direção correta. As reformas bem-estaristas não representam mudanças gradativas na direção da abolição da exploração animal, porque regulamentando o uso de animais tornamos essa exploração validada pela lei e pela sociedade. Uma analogia que caberia para explicar esse conceito (e espero que o leitor perceba que a analogia faz alusão a uma moralidade que não corresponde à contemporânea) poderíamos obter da própria Bíblia, e na influência que essa coleção de livros teve sobre todo o mundo ocidental.

A Bíblia, como já tivemos oportunidade de escrever, é “bem-estarista” (http://www.anima.org.ar/libertacao/animais/o-bem-estraismo-e-a-biblia.html). Ela poderia simplesmente dizer que Deus condena a escravidão ou o estupro, da mesma forma que ele terminantemente proíbe o adultério, o homossexualismo, a apostasia ou que se coma carne de coruja. Mas não é isso que a Bíblia faz.

Ao invés de simplesmente proibir a guerra, ou estabelecer que essa aconteça apenas com o objetivo de neutralizar uma ameaça externa, a Bíblia diz que podemos sitiar cidades, matar seus homens, pilhar seus bens e nos apropriarmos de suas mulheres, crianças e gado (Deuteronômio 20). Qual o objetivo de conquistar essas cidades? A pilhagem e a captura de escravos podem ser motivos em si. Mulheres e crianças, nos tempos bíblicos, eram bens como o gado.

Há uma discussão na exegese, de que a Bíblia não ordena a escravidão ou o estupro, ela apenas os aceita, fazendo uma concessão à moralidade da época. A explicação é que, nos templos bíblicos, os outros povos da região viviam envolvidos em conquistas, pilhagens, assassinatos em massa e violência sexual contra as mulheres conquistadas. Mas essa defesa não tem cabimento quando consideramos que os outros povos da região não tinham leis dietéticas, restrições quanto à prática de idolatria, quanto ao uso de combinações de roupas de tecidos diferentes, de práticas sexuais, de pureza etc. Está claro que se a Bíblia quisesse simplesmente proibir o estupro ou a escravidão ela o faria, e seria mais fácil justificar essas proibições do que justificar quaisquer outras.

A Bíblia, no entanto, não as proíbe, pelo contrário, regulamenta. Em Deuteronômio 21 (11-14), por exemplo, vemos leis que se referem ao que fazer com as mulheres capturadas em guerras. A Bíblia diz que se, ao saquear uma cidade, um homem ficar atraído por uma mulher em particular, ele poderá levá-la para sua casa. Ele deverá permitir-lhe, por um mês, chorar a morte de sua família. Depois disto ele poderá tomá-la sexualmente. Se depois disso ele não a quiser mais deverá deixá-la ir, mas não poderá vendê-la.

Se compararmos o que poderia acontecer com essa mulher se fosse capturada por um canaanita, um amorreu ou um heteu, ser estuprada apenas após um mês depois da morte de toda a sua família pode parecer melhor do que ser estuprada sobre o cadáver de seu marido. Ser estuprada e libertada pode parecer melhor do que ser estuprada seguidamente não apenas por seu captor mas por muitos outros soldados e depois vendida como escrava sexual para outros. Mas apenas porque essas leis tornam a violência algo um pouco mais brando não quer dizer que isso seja mais aceitável.

Quais foram os efeitos desse conceito de “bem-estar daqueles que estamos explorando” bíblico ao longo da história? O efeito negativo mais flagrante provavelmente diz respeito à escravidão. A Bíblia não proíbe a escravidão, ela a regulamenta. Assim como as mulheres e animais, crianças e adultos podiam ser considerados propriedades de outras pessoas. Havia muitas leis que versavam sobre a proteção dos escravos (Deut. 23:15; Êxodo 21). Uma proteção relativa, porque não questiona a base de seu sistema de exploração, nem proíbe a exploração em si.

O fato das Escrituras Sagradas trazerem leis que regulamentam, mas que não proíbem, a escravidão, foi por muitos séculos utilizado como justificativa para a própria escravidão. Um senhor de escravos no Brasil do Século XVIII poderia se justificar moralmente “Se o próprio Senhor diz a forma como devemos tratar nossos escravos, significa que podemos ter escravos”; “Se nos tempos de Jesus já havia escravos e ele nunca se pronunciou contra isso …”. E, de fato, essa argumentação foi seguidamente utilizada. Se o próprio Deus se empenhou em criar leis relativas à escravidão, mas não proibiu essa prática, isso a torna imediatamente válida, desde que praticada dentro dessas regras.

É possível que para um escravo vivendo no Oriente Médio no século XV a.C. essas leis bem-estaristas tenham representado alguma melhoria, mas para todos os escravos que se seguiram nos 30 séculos seguintes essas citações bíblicas representaram apenas a continuidade de sua exploração, dessa vez como mandamento divino, acima de questionamentos éticos.

A Bíblia serve como ótima analogia, para nós ocidentais, de como legislar sobre assuntos antiéticos pode condenar a injustiça à continuidade. Quando colocamos no papel leis injustas apenas para satisfazer a moralidade do contexto no qual estamos inseridos, corremos o risco de engessar o processo de evolução dessa moralidade. Leis injustas podem ser redigidas e representar algum ganho imediato a curto prazo, mas se elas não forem revogadas ou modificadas pouco tempo depois, sua existência coloca em risco o próprio processo que elas pretendem ajudar. Atualmente o mundo ocidental condena o Islã por não conferir os devidos direitos às mulheres, mas quando as leis islâmicas relativas às mulheres foram escritas elas representavam uma inovação aos seus direitos. O Alcorão, um texto do século VII, estabelece que as mulheres podem se divorciar de seus maridos, têm direito a receber heranças, podem se pronunciar em assembleias comunitárias etc. É muito mais do que as mulheres ocidentais podiam fazer até um século atrás. Mas quando comparamos mulheres ocidentais com mulheres muçulmanas, em pleno século XXI, vemos que um texto criado com a intenção de protegê-las, séculos antes, acaba prejudicando- as, séculos depois.

Essas analogias servem perfeitamente para demonstrar que nem sempre quando regulamentamos leis para atenuar o sofrimento de determinada classe que, de acordo com nossa moralidade, não goza de direitos, estamos agindo em benefício dessa classe. Outrossim, reconhecer que determinada classe deve gozar de direitos implica, imediatamente, que medidas devam ser tomadas com vistas a fazer valer esses direitos. Por outro lado, relativizar esse direito é reconhecer, em grande medida, que ele não existe.

Leis de bem-estar animal apresentam o principal problema de não reconhecerem, e dessa vez por escrito e com o apoio de proeminentes vultos da “proteção” animal, que animais têm direitos. Quando sociedades “protetoras” de animais ou pessoas de reconhecida militância na causa animal apoiam uma lei que diz que animais ‘de consumo” têm de ser abatidos de determinada forma, eles estão reconhecendo que existem animais que de fato nasceram para serem de consumo e que existe uma forma correta de abatê-los. Significa que não é errado matá-los, desde que isso seja feito da forma correta. O animal em si não tem direitos.

A analogia é perfeita, porque se a infalibilidade bíblica provém da ideia de que ela é uma revelação ditada pelo próprio Deus, a infalibilidade da sociedade protetoras dos animais provém da ideia de que elas, mais do que ninguém, defendem os interesses dos animais. E se a Bíblia que deveria ser usada para defender os direitos humanos pode, em outro contexto, ser usada contra esses direitos, as leis bem-estaristas, teoricamente elaboradas para defender os interesses dos animais, podem ser usadas contra esses direitos.

Naconecy escreve: “Essa analogia também resvala em outro ponto, quando estabelece uma semelhança entre o uso mais consciente de animais e, por exemplo, o estupro com maior zelo ou escrúpulo por parte do estuprador. Por quê? Porque propor reformas bem-estaristas para melhorar o tratamento dos animais não implica legitimar o uso deles – da mesma maneira que propor leis que impõem penas mais severas ao estuprador, que também espanca sua vítima, não significa reduzir a gravidade moral do crime do estupro (sem espancamento) .”

Se uma lei diz que leitoas devem ser criadas em cochos de tamanho igual ou maior do que 5 X 5 metros, essa lei está dizendo que porcas podem ser criadas quando atendem a essa condição. É claro que isso é uma legitimação da criação de porcos. Toda pessoa que organizar uma campanha para conscientizar outras pessoas sobre o erro que é consumir esses animais inteligentes e sensíveis será confrontada com a informação de que naquela pocilga as leis são seguidas à risca e os porcos recebem o tratamento que merecem. Uma sociedade que se diz protetora de animais ou até a Sociedade Vegetariana local podem emitir um certificado atestando que as carnes ali produzidas obedecem a rigorosos padrões éticos, o que pode enganar às pessoas que realmente não conhecem as intenções dessas entidades. É por esse motivo que a luta pela abolição da exploração animal passa, necessariamente, pela desconstrução da autoridade moral de entidades que dizem cuidar dos interesses dos animais quando na verdade não o fazem.

Se há algum erro em comparar a criação de animais em um sistema bem-estarista a uma amenização da pena de estupradores mais zelosos com suas vitimas, o erro está no fato de que em nossa sociedade, estupro é sempre um crime, variando apenas a intensidade desse crime. Por outro lado, a exploração de animais não o é, porque se por um lado a criação “com abuso” é visto como repulsiva, a criação “sem abuso” é vista como algo nobre, desejável, elogiável. A diferença está na moralidade da sociedade, mas podemos pensar sociedades onde o estupro não seja crime.

Em geral eu não precisaria apelar para a capacidade de abstração do leitor, ela é subentendida quando tratamos de exemplos que começam com frases do tipo “em uma determinada sociedade”, mas dado a origem da análise critica a Francione derivar justamente da falta de capacidade, proposital ou não, em realizar tal abstração, solicito que o leitor imagine uma sociedade onde o estupro não seja crime.

Essa sociedade não é, de forma alguma, uma sociedade fictícia ou extinta há muitos anos. Nesse exato momento, em muitas sociedades ao redor do mundo, o estupro em si não é considerado um crime. Há regras que o tornam aceitável. Em determinadas sociedades, o estupro deixa de se configurar como crime se o estuprador se comprometer a casar com a vitima; em outros casos, e isso inclui a maior parte das sociedades, não se reconhece o estupro conjugal ou matrimonial, pois entende-se que seja obrigação da esposa satisfazer o marido; há ainda os casos já citados de homens que podem argumentar que a visualização de alguma parte do corpo da mulher (que podem ser até uma mexa de cabelo, dependendo a interpretação) os levou a esse comportamento, e que nesse caso a culpa recai sobre a mulher que não se vestiu de forma apropriada.

Portanto, se somarmos todas essas sociedades, veremos que na maior parte do mundo o estupro em si não é um crime, o problema está na forma, no contexto em que o mesmo se dá. Isso porque nessas sociedades ainda não se reconhece que mulheres tenham direitos (representantes dessas sociedades podem fazer declarações formais de que mulheres gozam de direitos, à semelhança do que fazem entidades protetoras de animais em relação aos direitos animais, mas esse é um direito relativo e não um direito pleno. Portanto, não devemos considerá-lo) . Não há um conceito universal contemporâneo de que o estupro seja, por si mesmo, errado. E nesses casos, mais legítimo ele se torna quando leis o regulamentam. Não é tão impossível imaginar que, para aplacar pressões externas, legisladores nessas sociedades tentem criar regras para o estupro, inclusive substituindo esse termo por um mais brando, de modo a poderem continuar fazendo o que sempre fizeram. Seria a institucionalizaçã o do estupro.

Em todos os casos, apenas porque acontece assim não quer dizer que deva acontecer dessa forma. Essa é basicamente a diferença entre moralidade e ética. Essa é a diferença entre o direito consuetudinário e o direito baseado na justiça. Quando legislamos com base em moral e costumes, sem visar a justiça, condenamos a sociedade à imutabilidade de seus valores. Será mais difícil criticar o estupro se ele obedecer às regras da sociedade. Por outro lado, criar uma lei artificial que proíba o estupro nessa sociedade, sem que a sociedade esteja preparada para compreendê-la, sem que as autoridades concordem em fazê-la cumprir, também não faz nenhum sentido. Por esse motivo não devemos nos empenhar em aprovar leis de direitos animais que não condigam com a moral da sociedade em que vivemos, pois seriam legislações elaboradas para não serem cumpridas.

E que efeito positivo podemos esperar de leis que não proíbem, mas regulamentam, costumes que pelo bom senso deveríamos considerar crimes? Tomemos como caso a pedofilia. Naconecy poderia argumentar que não há razão para regulamentá-la, visto que nossa sociedade já a condena, porém, quando falamos em sociedade pensamos nas regiões sudeste e sul do Brasil, ou de regiões menos miseráveis da região norte, nordeste e centro-oeste. Para a maior parte dos brasileiros não há nenhuma restrição moral a que um homem adulto mantenha relações, ou mesmo se case, com uma adolescente de 12 anos. E em determinadas localidades, por acaso a maior parte do Brasil, a prostituição infantil acontece abertamente com conhecimento das autoridades. Então falar que a “sociedade” condena, por si só, é um engano, porque essa condenação é teórica.

Mas embora não atendam aos valores morais da maior parte de nossa sociedade, existem leis que proíbem categoricamente a pedofilia. Poderia-se pensar, seguindo a ideia de Naconecy, que se a pedofilia corresponde à moralidade de nossa sociedade ela poderia ser praticada, mesmo sendo errada. Ao invés de apenas proibi-la, a pedofilia poderia ser regulamentada.

Digamos que um grupo de legisladores entenda que, não sendo possível abolir de imediato a pedofilia, deva ser mais efetivo criar regras para que ela aconteça. Movidos por um profundo sentimento de compaixão pelas crianças, eles elaboram leis que tornem essa prática menos abusiva. Essa nova lei, que poderia ser chamada “Lei de Defesa das Crianças e Adolescentes” poderia trazer em seu texto uma declaração de que se reconhece que manter relações sexuais com crianças é errado, exceto nos casos em que a criança seja muito pobre e precise do dinheiro para comer. Ou que o ato sexual com adolescente aconteça apenas após a contração do matrimônio, civil, religioso ou por mera união estável.

Essa lei poderia então ser divulgada para a sociedade como um grande ganho na defesa dos direitos das crianças e dos adolescentes, afinal, além de diminuir os casos de abuso ela visa prover o sustento de centenas de brasileiros que não teriam, de outra forma, de onde tirá-lo. É uma lei que também fala de família, de matrimônio, de ideias reconhecidamente positivas. Porém, para qualquer pessoa sensata que olhe para essa lei, está claro que ela legitima a prostituição infantil e o casamento com menores de idade; não é uma lei boa de forma alguma, mesmo que ela restrinja a pedofilia a “apenas” esses casos. Pode-se pensar que muitos adultos que não são hoje considerados pedófilos pudessem recorrer a bordéis legalizados de crianças apenas para ter a experiência. A regulamentação da prostituição infantil aumentaria os casos de pedofilia.

Naconecy afirma que Francione comete o erro de desconsiderar o contexto de um problema moral na comparação entre escravidão humana e escravidão animal, mas é claro que Francione considera esse contexto. Ele o considera e o utiliza a seu favor, para mostrar que os julgamentos éticos que fazemos têm o viés de nossa moralidade e não são absolutos. Quando lutamos pelos direitos animais, aliás, quando lutamos por qualquer causa que seja, não consideramos a moralidade da sociedade em que vivemos, mas a moral da sociedade em que queremos viver. Se as feministas do início do século XX fossem derrotistas apegadas ao contexto moral de sua sociedade, não teriam lutado por seu direito ao voto, por seus direito a trabalhar fora, a salários compatíveis etc.

É claro que não podemos ignorar o contexto social em que vivemos, mas apenas porque o consideramos não quer dizer que estamos presos a ele. Todas as lutas sociais visam justamente mudar a sociedade, e a defesa dos direitos animais é acima de tudo uma luta social. Apenas porque a sociedade não esteja hoje sensibilizada para a causa animal não quer dizer que isso não possa ser conquistado em pouco tempo. Não é porque aceitamos que animais são hoje produtos que não possamos trabalhar a educação para mostrar o contrário. Mas não podemos ao mesmo tempo educar as pessoas para o fato de que animais não são produtos e fazê-las consumir produtos certificados para tratamento humanitário porque isso sim seria confundi-las.

Se as leis que garantem o voto feminino estabelecessem que o voto de 10 mulheres corresponde ao voto de um homem, antes de um passo em reconhecimento à igualdade entre gêneros, seria uma afirmação de inferioridade feminina. Provavelmente as sufragistas não aceitariam tal lei, ainda que aparentemente ela representasse um passo na direção que elas querem ir. Parece bem claro, por esse exemplo, que nem sempre o que aparenta ser um avanço na direção correta o é.

Naconecy manipula esse conceito de modo a tentar transformá-lo em um paradoxo. O autor faz parecer, em seu artigo, que aqueles que lutam pelos direitos animais são contrários a que se instale sistemas de ventilação em granjas e outras bem-feitorias que visam garantir o “bem-estar” (e o rendimento agropecuário) dos animais de produção. Mas esse paradoxo simplesmente não existe. Primeiramente, não se vê ativistas pelos direitos animais protestando contra a instalação de sistemas de ventilação em granjas. Se protestos ocorrem contra as granjas, eles ocorrem apesar do sistema de ventilação ter sido instalado. O sistema de ventilação não agrava a situação das galinhas, não há porque se opor a ele. Por outro lado ele também não ameniza esse problema (ele pode amenizar, sob determinado ponto de vista e em caráter imediato, mas essa amenidade foge à discussão dos direitos animais). As críticas contra as bem-feitorias bem-estaristas são feitas quando elas são utilizadas para justificar ou para suavizar as criticas à exploração em si, em benefício dos exploradores. Não nos posicionamos contra essas reformas, apenas somos indiferentes à ideia de que elas representam melhorias e contrários ao seu mal uso.
Se o granjeiro instalar sistemas de ventilação em sua granja tanto melhor para ele.

Há estudos que mostram que o conforto térmico aumenta a rentabilidade da produção. Ele terá um lucro maior na sua produção de carne ou ovos. Menos mal também para as galinhas, que em vez de levar uma vida extremamente miserável levarão uma vida um pouco menos miserável. Mas lutar por esses supostos “avanços”, aplaudi-los, premiá-los, certificá-los . . . nada disso tem a ver com lutar pelos direitos animais, pelo contrário, incentivar esses sistemas não representa nenhum passo em uma direção boa, nem em direção à solução do problema.

Para usar um exemplo citado pelo próprio Naconecy em seu texto, é claro que Castro Alves, eminente abolicionista, não teria se oposto à instalação de janelas nas senzalas, mas ele certamente não teria abraçado isso como causa, nem teria elogiado os senhores de escravo que implementassem tais melhorias ou teria indicado para que as pessoas no mercado de escravos só adquirissem escravos provenientes dessas fazendas. Ele teria se oposto, certamente, a que senhores de escravos que colocam tais janelas em suas senzalas tomassem para si o título de Senhores de Escravos Éticos, ou que recebessem certificados de grupos de defesa dos direitos humanos. Nesse sentido é que as entidades que promovem o bem-estar animal (mesmo as que se dizem abolicionistas) procedem errado. Trabalhando para que o sistema de exploração seja reformado, e não abolido. Portanto, o pretenso paradoxo que Naconecy tenta criar simplesmente não existe.

O autor também coloca que, sob pena de incoerência, Francione deveria ser contrário à legislação bem-estarista voltada para seres humanos. Na argumentação do autor: “Se é eticamente correto aumentar o bem-estar de seres humanos, por que seria diferente em se tratando de animais? Tomemos o caso do salário mínimo no Brasil. A imensa maioria dos trabalhadores assalariados comemora quando o valor do salário sobe. Em 2009, o salário mínimo teve um acréscimo de R$50, passando para algo em torno de R$500,00. Seguindo a lógica de Francione, deveríamos ser contra a lei que concedeu esse aumento, pois apenas retardou a aprovação de um salário digno (digamos, de US$ 2000), que atenderia, assim, a todas as necessidades básicas humanas e asseguraria o direito fundamental do trabalhador a um tratamento digno. O mesmo vale para o aumento do seguro-desemprego e para os valores da aposentadoria. Pergunto: já que tais leis podem ser classificadas como “bem-estaristas” , elas seriam contrárias aos direitos dos cidadãos? A argumentação de Francione sugere que sim.”

Essa analogia apresentada não faz nenhum sentido e provavelmente foi colocada pelo autor em tom de ironia, na tentativa de ridicularizar Francione, no entanto, por menos sentido que ela faça cabe uma contra argumentação porque ela pode de fato parecer fazer sentido para o leitor menos avisado. Essa analogia bem-estar animal vs bem-estar humano apenas faria sentido em um sistema de exploração de seres humanos onde os direitos humanos fossem ignorados (escravidão, prostituição etc.). Só poderíamos considerar o aumento de R$ 50,00 no salário como uma afronta aos direitos humanos básicos se considerássemos que trabalhar por salário (por qualquer salário) é uma atividade de alguma forma degradante. Apenas nesse caso o aumento de R$ 50,00 representaria uma perda e não o ganho. Mas não é o caso que o autor nos apresenta. O que ele nos apresenta é que o trabalhador espera receber mais e recebe menos. Ora, só porque foi aprovada uma lei que aumenta o salário em um valor abaixo do que seria considerado ideal não há impedimento para que outra lei seja aprovada elevando o salário para um valor maior. Nos dois casos a diferença está no valor, é quantitativa.

No caso de uma lei bem-estarista vs. uma proposta abolicionista, a diferença é qualitativa. A primeira diz que podemos explorar animais se . . .; a segunda diz que não podemos explorar animais nunca. As duas propostas são antagônicas, antagonismo que não existe no caso do aumento de salário (a não ser que a lei que aumenta o salário em R$ 50 tivesse um artigo que diz que esse salário não poderá aumentar nos próximos x anos, o que não parece ser o caso).

Igualmente, carece de sentido o argumento de que corresponde às ideias de Francione a analogia de que uma lei que obriga a instalação de rampas para cadeira de rodas nos edifícios seja ruim para os cadeirantes. A argumentação de Naconecy é de que “As rampas apenas amenizam o problema da acessibilidade, não alterando a ideia de que cadeirantes são inferiores a outras pessoas, já que, em termos urbanísticos, suas necessidades têm menor valor em relação as dos não cadeirantes. Os deficientes físicos, afinal, têm direito, não só a rampas nos prédios, mas à igualdade de movimento em todas as calçadas e espaços públicos da sua cidade. Aquela rampa só suavizaria a discriminação contra deficientes físicos, portanto, de acordo com Francione, a lei em questão seria uma má lei em termos morais e deveria ser recusada pelos ativistas que militam a favor dos cadeirantes. ”

Essa distorção da realidade não acontece de fato e a analogia é bastante infeliz. Se houvesse uma sociedade onde seres humanos saudáveis fossem propositalmente transformados em cadeirantes, então lutar pela instalação de rampas para melhorar o acesso dessas pessoas não faria muito sentido, nem uma pessoa que se empenhasse nessa luta poderia dizer que está defendendo direitos humanos. Faria muito mais sentido lutar contra esse sistema que torna pessoas saudáveis em cadeirantes. Mas desde que as pessoas se tornam cadeirantes por motivos acidentais, e não propositais, não há uma instituição que deva ser combatida. Nesse caso o trabalho deve consistir em tentar minimizar os acidentes para não tornar novas pessoas cadeirantes, e para o caso dos cadeirantes existentes, melhorar seu acesso a todos os lugares.

Se o acesso hoje não existe isso não significa reconhecer que o cadeirante seja um ser humano inferior, propriedade de alguém ou privado intencionalmente de algum direito básico. As características construtivas dos edifícios e o planejamento das cidades não previram, em sua maior parte, a dificuldade de acesso que essas pessoas teriam, mas dentro do possível isso vem sendo corrigido. E apenas porque as modificações não podem ser realizadas em todos os lugares não quer dizer que não podem ser realizadas, pelo menos, em alguns lugares. A diferença é novamente quantitativa, enquanto que no caso dos direitos animais é qualitativa.

Igualmente, as demais comparações entre bem-estar humano e animal que Naconecy tenta fazer beiram ao ridículo. Os seres humanos os quais prezamos pelo bem estar não são explorados, e se o são, a luta pelo seu bem-estar é exatamente a luta pelo fim de sua exploração. Não se fala em bem-estar de prisioneiros de campos de concentração, porque seria ridículo que os nazistas se preocupassem com isso. Se eles reconhecessem que prisioneiros de campos de concentração têm direitos eles os libertariam e não os forçariam a trabalhar, nem os enviariam para câmaras de gás. Se o autor quer comparar o que fazemos aos animais com o que fazemos com seres humanos, é nesses casos que ele tem que pensar: Casos em que os direitos mais básicos desses seres humanos não são sequer reconhecidos.

E para compararmos a luta dessas entidades de proteção animal com o que teríamos no caso de seres humanos, pensemos uma entidade de direitos humanos certificando campos de concentração. Nazistas poderiam alegar que em determinado campo seus prisioneiros recebem uma alimentação melhor, trocam de roupas mais vezes, dormem em acomodações melhores, etc. Talvez, pela comparação com outros campos, algumas pessoas que reconheçam apenas direitos humanos relativos pensassem que esse campo em particular devesse receber comendas internacionais, ser até recomendado. Mas qualquer pessoa que reconhecesse os direitos humanos de fato veria esse campo como tão abomináveis quanto qualquer outro.

Qual seria o efeito de tal certificado de humanidade para campos de concentração? Pode-se pensar que, por um ponto de vista imediatista, prisioneiros vivendo nessas novas condições têm vantagens, pois sua vida poderia ser bem pior. Mas se a oposição ao nazismo fosse toda baseada no conhecimento em relação ao tratamento que os nazistas davam aos seus prisioneiros, e não em direitos humanos, então saber que o tratamento de prisioneiros em campos de concentração não era tão ruim assim teria feito diminuir a oposição ao nazismo. Com menos indivíduos e países opondo-se ao nazismo, este certamente prosperaria.

E note-se que não é necessário que uma pessoa goste de judeus e ciganos para sentir aversão ao nazismo, basta saber que o que foi feito na Alemanha foi um caso extremo de tratamento a outros seres humanos. Esses mesmos grupos étnicos já haviam sido perseguidos em outras situações (pogroms, exílios etc.) e o mundo sequer conhece essas histórias. Apenas a situação extrema despertou o mundo para os fatos. Se o nazismo tivesse sido mais brando ele não teria influenciado as pessoas que gostam de judeus, porque para elas o tratamento dispensado aos prisioneiros não é o cerne do problema, mas sim a própria existência de leis discriminatórias e campos de concentração.

Mas para as pessoas que são indiferentes aos judeus, um nazismo mais brando teria funcionado de forma efetiva. Desde que não houvesse “abusos” por parte dos nazistas, eles poderiam ter levado a cabo seus planos sem grande oposição.Esse é o caso das pessoas que não reconhecem direitos plenos para os animais, mas apenas direitos relativos. Saber que animais são mortos em abatedouros, matadouros e frigoríficos deveria bastar para tornar as pessoas vegetarianas, mas quando o problema é desviado de seu cerne para a forma como é feito, isso tem o poder de influenciar negativamente as pessoas.

Se a oposição ao abate de animais para consumo se desvia para a oposição ao jeito como esse abate é feito, então somente as pessoas que reconhecerem que animais possuem direitos plenos, e não relativos, se tornarão vegetarianas. Para as pessoas que não se aprofundam tanto nessas questões, a certeza de que não ocorrem abusos, ainda mais quando atestado por uma reconhecida entidade de defesa animal, será suficiente para “autorizar” o consumo de carne. Toda a questão se resume a uma confusão do que sejam direitos animais.

Pessoas que já são vegetarianas podem voltar a comer carne de animais “felizes”, se tudo o que as leva ao vegetarianismo é uma impressão ruim do sistema intensivo de exploração animal. Particularmente já conheci ‘ex-vegetarianos’ que, por exemplo, não conseguem comer o bife, mas conseguem comer carne moída, ou carne disfarçada de outra coisa – tipo presunto – porque o problema é visualizado desviando o foco da exploração do animal em si, e passa a ser o fato de ele haver sofrido excessivamente ou não.

A maioria dos vegetarianos não são “firmes”, porque não fundamentaram suas escolhas em considerações referentes aos direitos animais. Um vegetariano que fez sua opção devido à yoga poderá voltar a comer carne quando parar de fazer yoga. Um que o faz pela saúde deixará de sê-lo quando novas pesquisas médicas mostrarem que a carne faz bem. Um que o é por influência de amigos deixará de sê-lo quando conhecer novos amigos. E aquele que o é porque certa vez se sensibilizou com a imagem de um animal sofrendo excessivamente deixará de sê-lo quando alguém lhe mostrar que nas fazendas x e y os animais não são criados daquela maneira. Portanto, é claro que reformas bem-estaristas atrasam o crescimento do vegetarianismo, especialmente no caso de vegetarianos recentes ou vegetarianos sem grande aprofundamento.

No item 6 de sua argumentação, portanto, Naconecy erra ao divulgar que leis bem-estaristas não estimulariam o consumo de carne. Erra também em argumentar que leis bem-estaristas não iriam criar a opção de produtos orgânicos, “animais felizes” ou “freerange”, já que esses produtos já estão disponíveis no mercado. Essas opções existem graças ao bem-estarismo e as campanhas bem-estaristas são a melhor propaganda para eles. Erra também em relacionar o consumo desses produtos a pessoas mais conscientes. Eu chegaria mesmo a sugerir que pessoas que consomem esses produtos são menos conscientes, já que declaram entender o problema mas enganam a si mesmas, contornando- o de um jeito fugidio.

Naconecy chega a argumentar que a repercussão que a mídia daria a medidas bem-estaristas poderia dar maior visibilidade à causa abolicionista, convertendo eventualmente as pessoas ao veganismo, mas essa ideia é impensável. Se a mídia mostrasse que galinhas não mais botarão ovos em gaiolas de baterias, mas ciscarão livres no chão, é claro que isso será mostrado como algo positivo. As pessoas comerão mais ovos e não menos ovos.

A ideia de que a implementação de normas bem-estaristas aumentariam com os custos da produção e desestimulariam o consumo de produtos de origem animal também não é verdadeira. Primeiramente que aumentar o conforto dos animais reflete em sua produção. Vacas menos estressadas produzem mais leite; galinhas menos estressadas botam mais ovos; bois menos estressados engordam melhor. O criador economiza em medicamentos utilizados para amenizar os efeitos desse estresse e tem uma maior rentabilidade. Além disso, tais produtos têm um diferencial e por isso podem ser comercializados por preços superiores. O bem-estarismo não precisa ser imposto ao criador, e na verdade não o é, porque ele não representa gastos, ele representa investimentos. Ao contrário do que escreve Naconecy, a carne oriunda de criação extensiva não é mais cara que a carne de criação intensiva, pelo menos não no Brasil.

No item 7, o autor argumenta que Francione erra ao defender que um abolicionista que é a favor de leis bem-estaristas a curto-prazo não é realmente um abolicionista, mas, sim, o que ele chama de “novo bem-estarista” . Defende por outro lado que “Qualquer pessoa que almeja a abolição da escravidão animal é, por definição, um abolicionista, não importa que a estratégia adotada por ele seja eventualmente errada, e merece, portanto, esse nome”. O autor tem razão em crer que Francione erra ao criar o termo “novo bem-estarismo” , mas sua razão se encerra nisso.

Concordo com o autor na crítica ao termo porque não vejo nenhuma diferença prática em defender o bem-estarismo como fim em si mesmo ou defender o bem-estarismo como meio para chegar ao abolicionismo. Não existe nenhuma argumentação lógica que sugira que se queremos ir para o norte é para o leste que devemos caminhar, então não importa o que a pessoa tenha em seu coração ou em sua mente, mas se ela defende o bem-estarismo ela é bem-estarista.

Abolicionistas não se fazem de autodeclarações. Um senhor de escravos poderia se dizer “abolicionista, mas só quando chegar a hora” e continuar com seus escravos enquanto essa hora não chegasse. Para Naconecy, tal escravagista seria um abolicionista verdadeiro apenas por almejar a abolição da escravatura em seu devido tempo, mesmo que por hora ele continuasse comprando e vendendo seus escravos. É claro que essa argumentação é inconsistente. Um “abolicionista” que defende ideias bem-estaristas é como um vegetariano que além de vegetais come também carne. Só será abolicionista em sua mente.

Um observador de meados do século XIX poderia dizer que criticar esses “abolicionistas” que são ao mesmo tempo escravagistas apenas faz dividir o movimento pela abolição da escravatura, mas a verdade é que a presença de escravagistas autointitulados abolicionistas apenas comprometeria a saúde do movimento pela abolição da escravatura.

É flagrante que um único indivíduo com ideias bem-estaristas dentro de um movimento de direitos animais tem o poder de prejudicá-lo significativamente. Explicando isso de uma maneira gráfica, pode-se colocar em um reservatório 20 litros da água mais pura, mas se a esse reservatório for acrescentado meio copo de nanquim, a água toda ficará imprópria para uso. Não é uma questão de proporção, de volume, porque a água é muito mais abundante que o nanquim; é uma questão de pureza e clareza. Como diz o ditado, “uma única maçã podre no cesto tem o poder de apodrecer todas as outras maçãs”; pelo contrário, uma maçã boa no cesto não tem o poder para conservar as demais.

Particularmente não me vejo à vontade para usar esse termo abolicionismo, por dois motivos:

i) Já existe uma terminologia que explicita o reconhecimento de que animais têm direitos – chama-se ‘direitos animais’. Esse termo foi, propositalmente ou não, mal empregado no passado, mas cabe aos ativistas dos direitos animais resgatá-lo. Em nenhum aspecto direitos animais é diferente de abolicionismo;

ii) O termo abolicionismo, originalmente criado para distinguir pessoas que lutam pelos direitos animais das pessoas que visam apenas regulamentar sua exploração, foi introduzido no Brasil de maneira errada, apropriado por grupos que não defendem de fato a abolição animal. Então se o propósito era fazer tal distinção, o termo não atende a esse propósito.

Sobre a argumentação utilizada pelo autor em seu item 8, Francione não considera que porque as leis bem-estaristas não levam a abolição, então elas devem ser rejeitadas. O que ele considera é que porque as leis bem-estaristas levam a uma situação de conforto em relação à exploração animal, elas não devem ser consideradas. São coisas bem distintas. Argumento melhor em relação a isso em meu texto ‘Uma questão de “tudo ou nada”?’ (http://www.pensataanimal.net/artigos/43-sergiogreif/132-uma-questao-de-tudo).

Quando o autor sugere que o livro de Peter Singer, Libertação Animal, influenciou o veganismo em muitas pessoas, mesmo não sendo abolicionista, o faz bem. Algumas pessoas têm o ideal do veganismo e dos direitos animais latente dentro de si. Esse ideal pode aflorar até mesmo assistindo ao desenho animado A Menina e o Porquinho (Charlotte´s Web) ou ao filme A Revolução dos Bichos (Animal Farm) mesmo não sendo o veganismo a intenção de seus autores. Mas apenas porque isso acontece não significa dizer que proposições bem-estaristas podem nos aproximar da posição abolicionista. Elas podem, mas também podem nos levar na direção contrária. O mais importante é que elas, por si só, não sejam confundidas com direitos animais.

Naconecy defende que “leis bem-estaristas influenciam favoravelmente a formação de mentalidades e de culturas compassivas, possibilitando trazer a noção de Diretos dos Animais para o interior delas”. Que é “difícil de acreditar que a promoção da bondade e da compaixão numa sociedade se torne um obstáculo ao Direitos dos Animais. Muito pelo contrário: em sociedades com altos teores de violência e crueldade, falar da imoralidade de possuir e usar criaturas sencientes irá obter uma adesão praticamente zero entre os ouvintes”.

O autor aqui comete dois erros crassos. O primeiro é crer que uma lei bem-estarista tem o potencial de criar uma mentalidade e uma cultura compassiva na sociedade. Nenhuma lei tem tal potencial. As leis bem-estaristas surgem apenas porque tal mentalidade já existe em uma parcela importante da população. Se essas leis fossem impostas a sociedades que não estão dispostas a cumpri-las, seriam letra morta. O segundo erro é crer, ou querer fazer crer, que bem-estarismo tem alguma relação com a promoção da bondade e da compaixão.

Quando falamos de bondade e compaixão para com seres humanos jamais incluímos nesse cenário sua exploração, seu assassinato, nem nada que contrarie seus interesses. Está claro que bondade e compaixão para com os animais deveriam implicar em garantir para estes condições de vida compatíveis com sua natureza, a continuidade de suas vidas e a defesa de seus interesses. Essa é a proposta dos direitos animais (abolicionista) , não do bem-estarismo. O bem-estarismo está alinhado com a exploração de animais, ele não tem relação nem com bondade nem com a compaixão. Aliás ele não tem relação nem mesmo com o bem-estar dos animais, se nos ativermos ao que esse termo deveria realmente significar.

Com o objetivo de defender o bem-estarismo, Naconecy compara a China à Suécia, dois “casos diametralmente opostos”. De acordo com o autor, na China não existem leis bem-estaristas e por isso a abolição da exploração animal está mais distante do que na Suécia, onde existem muitas leis bem-estaristas já sendo praticadas. Não faz sentido, novamente, atribuir essa distância que os chineses têm dos direitos animais a uma inexistência de leis bem-estaristas; nem tampouco atribuir a uma suposta maior proximidade que os suecos têm em relação à essa ideia à existência de tais leis.

As leis existentes na Suécia apenas surgiram como reflexo da sociedade que ali já existia. Não se pode, porém, dizer que porque tais leis existem, suecos estão mais próximos de acreditar que animais tenham direitos. Ainda que as galinhas sejam criadas com um pouco mais de espaço e as porcas tenham cochos um pouco mais confortáveis, o consumo per capita de carne na Suécia é, ainda, altíssimo. De acordo com a International Vegetarian Union, em 2006 apenas 0,75% dos suecos eram vegetarianos, e nesse número foram considerados também ovolacto e lactovegetarianos. De acordo com a Djurens Rätt, principal organização de direitos animais do país, vegetarianos são 3% da população (cerca de 270 mil pessoas), entre vegetarianos verdadeiros e ovolacto/lactovegetarianos. Outras fontes citam que na década de 1990, entre 0.27% e 1.6% dos suecos eram veganos e se essa última fonte estiver correta, houve um decréscimo nos números de veganos entre as décadas de 1990 e 2000. Embora os números apresentados sejam variáveis, de acordo com a fonte, vemos que se há algum crescimento no vegetarianismo ele é tímido e não pode ser vinculado às leis (a primeira citação ao abuso de animais na lei sueca é de 1857 e a lei de proteção animal é de 1988).

Frequentemente, na Escandinávia, a adoção de hábitos alimentares vegetariano ou semi vegetariano ocorre com estudantes que saem de casa para cursar a universidade. Quando o jovem na Suécia passa a necessitar ele mesmo comprar a carne, manipulá-la crua e prepará-la, frequentemente ele passa a fazer a opção de consumir menos carne. Esse vegetarianismo, que pode se manifestar durante a semana nos alojamentos mas não necessariamente nas opções da lanchonetes e aos fins de semana na casa dos pais, não é muitas vezes motivado pelo reconhecimento de que animais têm direitos, mas por nojo de associar os tecidos de animais com alimentos e pela conveniência na hora de preparar alimentos.

Não há como comparar suecos com chineses, porque por razões culturais chineses não sentem nojo de carne crua. Há que também se considerar outros aspectos de ambas as culturas. Na Suécia é bonito ser vegetariano. Na China, berço do taoísmo e de várias correntes do budismo, o vegetarianismo foi por longo tempo praticado. Mas décadas de comunismo ateísta, de aceleração da economia e de associação entre os produtos de origem animal e a prosperidade fizeram com que o vegetarianismo voluntário fosse praticamente extinto da China. Por motivos econômicos, muitos chineses em áreas rurais pobres acabam sendo vegetarianos, ou seguindo hábitos dietéticos bem próximos disso. Com efeito, o consumo de carne por pessoa é maior na Suécia do que na China.

Pensando sobre a aprovação de leis bem-estaristas na China: Fazer passar tais leis para chineses despreparados para entendê-las não faz sentido. Se essas leis seguissem o modelo das leis aplicadas nos países ocidentais, apenas com o objetivo de satisfazer pressões externas, elas não seriam cumpridas pelos chineses. Leis bem-estaristas na China, à maneira que acontece no ocidente, teriam de respeitar os costumes e as vontades dos chineses. Seriam, por princípio, leis que não proibiriam os chineses de continuar fazendo o que já fazem; elas apenas modificariam a forma como o fazem. Ursos continuariam sendo criados para extração de biles, mas dessa vez seriam criados em jaulas maiores; cachorros continuariam sendo mortos para consumo, mas eles não poderiam ser apinhados em jaulas nos mercados; a exploração de chifres de rinocerontes também teria suas regras, mas não seria banida, e assim por diante.

Naconecy escreve que “a condição dos animais na China é deplorável”, mas em que país do mundo ela não é? Um erro recorrente dos bem-estaristas é crer que os padrões de exploração animal nas sociedades nas quais eles estão inseridos devem ser respeitados, mas que por algum motivo não se deve respeitar os padrões de exploração de outras sociedades. Assim, porque bem-estaristas no ocidente amam cães e gatos, comer esses animais é sempre errado; qualquer pessoa que o faça, seja de que modo for, praticará um ato repugnante ou em muitos casos um crime. Por outro lado, comer vacas, galinhas e outros animais considerados “de consumo” não é errado, desde que isso seja feito da forma como eles consideram correta. Uma campanha pela abolição do consumo de carne de cachorros na China recebe, de pronto, milhares de assinaturas no Ocidente, mas essas mesmas pessoas que assinam a essas petições torcem o nariz se a campanha for pela abolição da pecuária bovina no Brasil. Realmente não faz sentido.

Novamente Naconecy recorre a comparações enganadoras na tentativa de confundir o leitor, quando argumenta que “Neste ponto, um leitor de Francione irá objetar que, se alguém não aprova ou não deseja comer carne, não deveria concordar com leis que permitem a ingestão de animais, mesmo que envolva menos crueldade. Aquele que consente com o bem-estarismo a curto prazo visando à abolição a longo prazo é acusado de uma cumplicidade com a injustiça e colaboração com o mal. Ora, podemos rebater isso evocando situações semelhantes. Acredito que Francione não tenha aprovado a política militarista do governo George W. Bush. Mas alguém, então, poderia argumentar que, já que Francione vivia nos EUA e sabia que parte dos seus impostos financiava as operações militares do governo Bush, isso significa que o filósofo dera seu apoio, na forma de uma cumplicidade tácita, à invasão do Iraque. Da mesma forma, parte dos impostos de um vegano brasileiro vai para a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, envolvida diretamente com a exploração de animais para consumo humano. Já fica clara aqui a resposta à acusação de cumplicidade tácita: Francione simplesmente não podia parar o exército americano a curto-prazo, tanto quanto um abolicionista pragmático não pode parar a indústria da carne a curto-prazo. Mas isso não significa estar aprovando ambas as situações. Note que a defesa de um gradualismo pragmático em direção à abolição não significa que as etapas que separam o Bem-Estarismo da Libertação Animal devem ser percorridas obrigatoriamente, lentamente e com muita cautela. Ao contrário, devemos pular qualquer etapa nessa aproximação, assim que isso se mostrar possível.”

O autor não conclui seu raciocínio, mas posso derivar que, seguindo sua ideia, um americano que se oponha à invasão do Iraque deva, já que não consegue impedir a guerra, empenhar-se em promovê-la de modo a torná-la mais correta. Ele poderia chamar seus vizinhos e amigos, e passar abaixos assinados, esticar faixas em frente à Casa Branca, mas ao invés de pedir o fim da guerra, seu “objetivo a longo prazo”, ele poderia pedir nessa campanha que se criassem regras de modo a tornar essa guerra mais humana. Poderiam, por exemplo, haver regras para que os soldados não adentrassem cidades com mais de 100 mil habitantes; que eles não utilizassem submetralhadoras com velocidade de saída de projétil inferior a 400 metros por segundo e que sempre que atirassem em um inimigo o fizessem na cabeça, para promover-lhes uma morte “humana” e rápida; que não passassem com seus tanques por cima de casas onde houvesse mais de 6 habitantes etc. É claro que essas pessoas não estariam lutando contra a Guerra do Iraque, estariam quanto muito reformando-a.

O autor, em seu texto, dá apoio à PeTA, uma entidade que “defende leis bem-estaristas, ao mesmo tempo em que advoga o veganismo e proclama, com todas as letras, o ideal moral abolicionista no seu mote: Os animais não são nossos para comer, para vestir, para fazer experiências, para nos entreter ou para explorar de qualquer modo que seja.” Há muito material já produzido, porém, que demonstram que a PeTA não é, de forma alguma, uma entidade com uma “agenda abolicionista” . A PeTA, sob pretexto de eutanásia, mata cães saudáveis apenas porque não quer se dar ao trabalho de promover sua adoção. A entidade após anos promovendo boicote às grandes cadeias de fast food, como o McDonalds, a Kentucky Fried Chicken e o Burger King, aceitou baixar o boicote quando as mesmas se comprometeram a colocar dentro do pão apenas a carne de animais abatidos de forma mais “humanitária” . A entidade também premiou Temple Grandin, projetora de matadouros de bovinos, por seu trabalho “visionário”. Há muitas críticas à PeTA na internet, inclusive em relação ao uso excessivo de nudez e manifestações de mau gosto.

A crítica presente no item 11 do texto de Naconecy creio que respondo em meu texto já citado ‘Uma questão de “tudo ou nada”?’ (http://www.pensataanimal.net/artigos/43-sergiogreif/132-uma-questao-de-tudoartigos/43-sergiogreif/132-uma-questao-de-tudo), mas em resumo ninguém está propondo que, do dia para a noite, todos os seres humanos serão veganos, abolicionistas e antiespecistas. Essa ideia de “tudo ou nada” simplesmente não existe no movimento abolicionista.

E não é porque não nos empenhamos em promover gaiolas maiores hoje que estamos contrariando algum direito de movimentação das galinhas. Como defendi anteriormente, se o granjeiro aumentar o tamanho das gaiolas de seus frangos tanto melhor para ele, ganhará em produção. Mas como defensores dos direitos animais temos de reconhecer que isso nada tem a haver com o direito das galinhas, nem essa é uma luta dos defensores dos direitos animais. Naconecy também se engana ao afirmar que Francione se utiliza da miséria dos animais de hoje com o objetivo de abolir a exploração animal no futuro, o que o tornaria utilitarista. No entanto esse argumento é enganoso e não condiz com a realidade em absoluto.

Menos ainda faz sentido acusar qualquer partidário dos direitos animais de totalitarista ou fascista. Naconecy acusa Francione de sê-lo, mas ele mesmo deveria fazer uma autoanálise. Tão especista quanto um racista, divulgador do bem-estarismo, partidário do consumo consciente de produtos de origem animal . . . quem pode acusar quem de totalitarista e fascista? Quem concorda e ativamente participa do martírio animal, quem concorda que animais possa ser mortos com o único objetivo de satisfazer ao apetite humano. Animais esses cuja única culpa foi não haverem nascido como pertencentes à nossa própria espécie.

E que ideia é essa de defender a existência de “dois abolicionismos” ? É óbvio que um abolicionista que não seja abolicionista não será um abolicionista pragmático. Chega desse neologismo para tentar contornar aquilo que as pessoas realmente são. Um “quase vegetariano” que come carne só de vez em quando não é um vegetariano. Ele pode até querer ser, mas ele é um onívoro. Poderíamos chamar os vegetarianos que nunca comem carne de vegetarianos fundamentalistas e chamar os vegetarianos que comem carne de vez em quando de vegetarianos pragmáticos, mas isso descaracterizaria o significado do que quer dizer vegetariano. Isso porque não importa quanta carne se coma, o vegetarianismo é um atributo qualitativo.

Igualmente o é o dito ‘abolicionismo’ . Não importa muito que a pessoa tenha um discurso abolicionista, se ela se comportar como um bem-estarista ela será bem-estarista. Aqui retorno ao conceito do cesto de maçãs, ou da pequena quantidade de nanquim em um volume de água. Não existem abolicionistas pragmáticos, porque quem luta pelas reformas bem-estaristas são os bem-estaristas, e quem lutar pela abolição será abolicionista.

Considerações finais

Creio que com essa análise crítica os argumentos bem-estaristas de Carlos Naconecy tenham sido desconstruídos. Analisar item a item seu artigo tornaria essa análise mais cansativa e repetitiva. O bem-estarismo não deve ser visto como um meio caminho para o abolicionismo. Ele é um caminho diferente do abolicionismo. Algumas medidas que visam o “bem estar” dos animais de produção podem levar à abolição da exploração animal, mas podem também levar na direção oposta.

A defesa que fiz foi do ponto de vista de alguém que acredita e prega os direitos animais. Com essa análise crítica mostro que as analogias colocadas por Naconecy não têm cabimento e que a linha de pensamento por ele seguida não é lógica. Os animais são incapazes de pedir por seus direitos, mas se o pudessem certamente não pediriam jaulas maiores, água limpa, comida balanceada ou música ambiente. Eles pediriam para não serem submetidos aos nossos sistemas de exploração, não serem abatidos seja porque forma seja.

É por esse motivo que as pessoas que lutam por essas supostas melhorias, mesmo que sejam melhorias a curto prazo, não estão lutando pelos interesses dos animais. As ideias do autor não têm relação com os direitos animais, tampouco ele pode tomar para si, com esse pensamento, qualquer reivindicação de pertencer a um pretenso movimento abolicionista.

Artigo publicado originalmente em 03/11/2009.


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