‘Carne limpa’?

Começaram a revelar detalhes da “engenharia do processo de produção da carne de laboratório”. Uma pena que não o fizeram a tempo de eu poder usar no livro “Carnelatria: escolha omnis vorax mortal”.

Homo e transfobia disfarçadas de compaixão humanitária

Por Dr. phil. Sônia T. Felipe

Rolando pelos perfis a foto com as cores do arco-íris, postada pela Casa Branca em reconhecimento pela aprovação do casamento entre pessoas que se amam e têm prazer na companhia uma da outra, sem restringir tal felicidade à oposição genital.

Ora, ora, eis que vejo gente que jamais se engajou em qualquer ONG de defesa de crianças pobres e negras, gente que conheço pessoalmente há pelo menos duas décadas, que jamais se engajou em qualquer movimento de defesa seja lá de qual for o grupo em situação política, moral e econômica vulnerável, a postar a foto de bebezinha negra e a frase: No dia em que se engajarem por esta causa, me avisa que eu tô nessa, ou algo do gênero.
Homofobia, transfobia, racismo e especismo, tudo junto e misturado. E bebês negras sendo usadas para bater em gays, lésbicas e transsexuais que agora podem oficializar sua união, casando-se de fato. É mais ou menos como usar animais para bater em mulheres, nas tantas frases de xingamento que não vou aqui escrever porque tenho repulsa por tais falas.

Pela minha experiência, todas as pessoas que te jogam na cara que deverias cuidar de alguma outra causa social e não da discriminação e matança de animais são pessoas que não fazem, nunca fizeram e não farão nadinha por qualquer dos humanos que, de repente, recebem delas tamanha compaixão.
Agora a lógica cínica se repete. Pessoas que nunca se engajaram por crianças vítimas das guerras, das chacinas, vítimas do racismo e da xenofobia, da fome causada pela comilança animalizada, usam de cinismo e hipocrisia para dizer que a luta contra a homo e a transfobia é luxo. Luxo é se entupir de carnes e queijos. Luxo e hipocrisia moral.

Cinismo e hipocrisia é o que não falta a essa gente. Comem e se empanturram de tudo o que é derivado de animais, bebem até encher a cara vinhos e espumantes, e depois postam a foto da pessoinha negra no arco-íris, dizendo-se compassivas com a fome dessas crianças, mas comem 80 a 90 por cento de toda a comida plantada no mundo, não sem antes fazer essa comida passar pelo estômago dos 70 bilhões de animais mortos por ano para elas comerem, enquanto a bebezinha africana está morrendo de fome por não ter um prato de feijão e farinha, combinação riquíssima em proteínas, dados de comer aos animais para virar bife e queijo no prato dessa pessoa tão compassiva e, provavelmente, algo acima do peso.

Céus, eu quero asilo ético!

Animastê!


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De sangue e de indignação

Por Dr. phil. Sônia T. Felipe

Pareceu estranho, na postagem anterior [A religião do prato] considerar que leite é sangue? Então explico um pouco mais. A carne é formada por sangue. Quem come carnes come sangues. Todos os componentes que estão no leite materno estavam no sangue que passava do corpo da mãe animal para o cordão umbilical enquanto o feto estava no útero e suas carnes se formavam.

Uma vez saído do útero e conseguindo respirar por conta própria, o mamífero recém-nascido ainda precisa do sangue de sua progenitora, mas não mais de todos os seus elementos, por exemplo, não precisa mais do oxigênio, pois já o obtém pela própria respiração, por isso o sangue muda apenas de cor — deixa de ser vermelho, por não conter mais a hemoglobina– e passa a ser branco.

O canal de fornecimento desse sangue branco também muda. Ele passa a ser fornecido pela mama e tem que ser sugado pela boca do bebê, o primeiro treino para o exercício digestório que acompanhará esse animal mamífero até seu último dia de vida, pois, para o resto de sua vida, os nutrientes que ingere serão transformados em sangue que seguirá formando e oxigenando suas carnes. Quando o sangue para de circular, o animal morre.

Leite da mãe é sangue dela. O sangue de uma fêmea forma seu leite, suas carnes, seus ovos e todos os demais tecidos. Sem sangue as carnes do bebê mamífero não podem formar-se.

O mesmo vale para todos os animais que matamos para comer as carnes, ou que escravizamos para extrair os leites. Tudo o que comemos de animais é feito com seu sangue.

É nisso que gostaria que as pessoas pensassem, antes de ficar malhando quem se alimenta de sangue, no caso, as entidades que se servem das oferendas dos terreiros nos ritos quimbandas. Todo mundo que come carne come sangue. Todo mundo que come laticínios come sangue. Todo mundo que come ovos come sangue. Continua sendo verdade que alimentar-se do sangue alheio não é coisa boa para qualquer das partes envolvidas na ação, os animais, o planeta e o comedor.

Fica difícil convencer os outros a pararem de tomar o sangue alheio, quando a gente não para de fazer isso a cada refeição. Os animais dependem de nós para que seja abolida a tradição de matança deles para nos saciar com matérias feitas de seus sangues. Infelizmente, a luta pelos direitos dos animais só tem força e coerência se quem luta já entendeu essas coisas e aboliu o consumo delas.

Não se pode lutar honestamente por direitos animais, quando se é testemunha viva e cúmplice da matança deles. Lembro aqui o trocadilho usado por um ativista do Veddas, nas intervenções da Paulista e da República. Questionado se os veganos não seriam iguais aos testemunhas de jeová, respondeu: sim, somos o testemunho “geovegano” (defendemos a vida dos animais, do planeta e dos humanos), com a diferença de que não invadimos a privacidade das pessoas para que nos ouçam, falamos em nosso espaço, aqui na rua, e as pessoas param e vêm ouvir e conversar sobre a defesa dos direitos dos animais. Esse é o testemunho dos geoveganos.

Veganos não se alimentam com alimentos hematogênicos (produzidos pelo sangue). Essa é a diferença! O resto é inconsciência cultural e moral, ou kakothymía (deficiência moral).

E porque escrevemos as coisas devidamente, sem rodeios, floreios, volteios ou roseios, há queixas de onívoros e de ovo-galactômanos de que ao escrever com todas as letras sobre essas questões silenciadas pela grande mídia, estaríamos sendo hostis aos onívoros. Não é verdade. Não temos repúdio por qualquer pessoa onívora, repudiamos as ideias que sustentam a matança.

Em primeiro lugar, repudiamos os argumentos furados, que algumas pessoas onívoras, agarradas aos nacos de carnes e fatias de queijos em seus pratos, cegamente, ainda insistem em apresentar, de que “precisamos de proteínas (entendendo a palavra proteína como sinônimo de carnes, leites e ovos)”, de que “somos feitos para comer animais”, de que “temos caninos (sem olhar-se ao espelho para ver qual dos dentes ali poderia rasgar o couro de um boi para lhe arrancar a carne)”, de que “somos o ápice da criação e por isso temos direito de matar os animais”, e, finalmente, de que “a alface também sente dor!”. É de doer mesmo, não na alface.

Refuto, sim, os pseudo-argumentos carnistas, pois eles contrariam a defesa ética dos direitos animais, além de esconderem para debaixo do tapete a verdade dietética já reconhecida pela OMS, pela ONU, pelas Associações Médicas Americanas mais importantes, como a do Coração, a do Diabetes, a do Câncer e o Comitê dos Médicos por uma Medicina Responsável PCRM, que creditam à dieta vegana não apenas maior saúde mas também a cura de praticamente todos os males que abarrotam os hospitais da medicina onívora. Então, não há mais razão alguma para se continuar a comer matérias hematogênicas (produzidas à custa de sangue), com o pretexto de que nos garante a saúde ou seja lá o que for.

Em segundo lugar, repudiamos quem grita contra os outros, que derramam sangue animal, e está, no momento mesmo em que esbraveja contra os costumes alheios, com seu estômago cheio de restos de comida produzida pelo sangue do animal que foi sangrado no abatedouro. Gandhi disse uma frase muito simples: seja você primeiro a mudança que quer ver nos outros. Ou algo assim, com outras palavras.

O que repudio é a incoerência, a inconsistência moral, o ar de domínio de quem segue a dieta padrão, engolindo tudo o que o agronegócio pesticida, biocida e zoocida enfia goela abaixo, sem questionar o mal que está fazendo aos 70 bilhões de animais chacinados por ano, fora os das águas que são incontáveis, ao planeta e a si mesmo.

Não temos mais tempo para “tolerar” silenciosamente esse erro, porque a vida está ameaçada por essa dieta sangrenta insana. Toda a água do planeta está sendo canalizada para irrigar comida para 70 bilhões de animais fabricados para o abate, e para as indústrias que processam os derivados ou matérias forjadas pelo sangue desses animais: carnes, leites e ovos.

E quando faltar toda a água teremos matado todas as milhões de espécies, de sede e fome. Tamanha é a responsabilidade humana pela vida dos animais neste planeta que devastamos por sermos viciados em sangue, sem sermos morcegos hematófagos ou vampiros. E somos seres moralmente superiores?

Minha expressão é de indignação por tanta ideia errada. Não tenho hostilidade a não ser pelos argumentos furados que jogam na nossa cara, argumentos que caducaram há mais de um século, mas as pessoas continuam a reproduzi-los, como se suas ideias obsoletas fossem sustentáculos morais capazes de sustentar sua dieta animalizada indefinidamente. Não são. Não servem para mais nada. É hora de descartá-las. De desassinar o contrato sanguinolento. Hora de poupar a vida dos animais. Não apenas dos degolados nos terreiros da quimbanda. E essa hora também é chegada para todos os sacerdotes dela, comedores contumazes de sangue em seus formatos derivados. A falta de perdão é geral. Sem discriminação de raça, etnia, religião, sexo, ideologia ou classe. Porque a responsabilidade pela matança também é geral.


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A religião do prato

A religião mais fascista do mundo é a do prato animalizado, porque defende a vida de uns poucos cinco bilhões de humanos que comem animais e condena uns 70 bilhões desses à morte, a cada ano. Do dogma religioso do consumo de sangue, sim, carne, leite e ovos são matérias hematogênicas, feitas com sangue, não há Papa que tenha se abstido até a presente data, nem sacerdotes, desde os tempos de Davi, nem bispos de qualquer credo, nem fiéis de qualquer tonalidade sacral.

Sacrifício ou sacrilégio?

Por Dr. phil. Sônia T. Felipe

Quando um humano mata outro, chamamos de homicídio. Se a morte foi intencional preferimos chamar de assassinato. Quando matamos um cão não damos nenhum nome ao nosso ato. O mesmo vale para matar um porco, uma galinha, uma ovelha, uma vaca, um cavalo, um rato.

Todos os atos que não queremos ver espelhados ou refletidos na palavra, deixamos sem nome. Assim, não existem para nossa consciência, ainda que pesem nela para sempre. Mas, se não queremos ver ou saber o que fizemos, boa coisa não é.

Para ter noção de quem somos para os outros animais, sugiro que passemos a usar os termos canicídio (canicida), gaticídio (gaticida), avicídio (avicida), ovicídio (ovicida), equicídio (equicida), bovicídio (bovicida), raticídio (raticida, esse já existe mas nunca designa o humano, só o veneno), além de homicídio (homicida). Isso desnaturaliza a matança. Se praticamos um ato, o denominamos, para que apareça à consciência, devidamente distinguido de outros.

Se temos nomes para a morte de um humano, causada pela mão humana, a mesma mão que causa a morte de um animal deve assinar o que faz, nomeando tal gesto, desnaturalizando-o, tirando-o do escuro da insignificância.

Quando um humano mata outro para se aproveitar seja lá do que for chamamos de latrocínio. Quando um humano mata uma ave, um gato, um cabrito, ou seja lá qual outro animal for, nos referimos a isso como matar animais. Mas matamos um certo animal, de uma certa espécie, porque aquela espécie de animal tem algo que queremos tirar dele, sua vida. Mas tem que ser a vida de um certo tipo, não de outro. Assim vivemos, julgando que está tudo bem matar certos animais para extrair deles o sangue, as carnes, a pele, o couro, a lã (latrocínio, porque todos os animais são pessoas sencientes, apenas com formatos outros que não o nosso), ou depois de extrair delas o máximo possível de leite e de ovos.

Quando um humano mata um certo número de humanos de um mesmo grupo ou bagagem genética, seja qual for o método empregado, chamamos genocídio. Se mata vários de diferentes bagagens genéticas, derramando seu sangue, chamamos chacina. Mas matar 70 bilhões de animais todos os anos de modo institucionalizado não tem nome a não ser este: abate.

Quando humanos matam plantas ou insetos, usando venenos, chamamos de biocídio, pois dos insetos e das plantas a vida foi tirada.

Quando humanos matam animais, não casualmente, mas por compaixão ou para descarte de seus corpos exauridos por experimentos, seguindo métodos elaborados por médicos, cientistas e pessoas com autoridade, chamamos, erroneamente, de eutanásia.

Quando humanos seguem métodos institucionais de matança ritualizados, seja por religiões ou pela ciência médica, dizemos que os animais “foram sacrificados”. Essa expressão é usada tantas vezes que vira mantra da ciência vivisseccionista e de espaços de abate, sejam eles a céu aberto ou bem escondidos dos olhos de toda gente.

Entretanto, o termo sacrifício jamais deveria ser empregado quando um animal senciente sofre a morte pela mão alheia sem ter se oferecido para tal. Sacrifício, se quiséssemos usar o termo de modo apropriado, é o ato, o gesto ou a ação de oferecer-se para ocupar o lugar de outrem no abate, poupando-lhe a vida. Os Ungidos (significado original aramaico que mais tarde os romanos traduziram como Cristãos) sabem muito bem do que estou escrevendo, pois seu Messias se sacrificou por eles.

Os heróis se sacrificam para salvar da morte os outros. Nenhum ser senciente, a bem da verdade, pode ser “sacrificado”, pois tal passividade é própria de objetos ou oferendas, não de alguém dotado de vontade própria, cuja vontade é violada pelo ato violento. No máximo, pela vontade de matar alheia, o que um humano pode sofrer é genocídio, chacina ou assassinato. A vontade alheia jamais consegue “sacrificar” um animal, porque ninguém tem relato algum de um animal que tenha comparecido voluntariamente ao abate, portanto, se sacrificado, para ocupar o lugar de outro e poupá-lo do horror.

Então, se precisamos fazer algum “sacrifício” para atender ao nosso imenso amor por outros seres ou angariar benefício pessoal, o certo seria oferecermos algo nosso, bem precioso, por exemplo, nosso sangue, às divindades que clamam por sangue como clamam todos os que se alimentam de carnes e leites animais. Carnes são produtos do sangue. Leite, idem.

Mas quem jamais se alimenta de carnes e leites à custa da vida dos outros animais que não podem se defender da chacina institucionalizada, entende muito claramente que abater a vida alheia jamais deve ser confundido com “sacrifício”, termo reservado ao gesto nobre de quem se entrega à morte para poupar outros, não o contrário.

Todas as religiões, em seus tempos primordiais, usaram de um modo ou outro matar humanos ou outros animais para agradar aos deuses. Mas parece que os deuses evoluíram e avisaram que não são vampiros, que não gostam mais de carnes sangrando, de vidas agonizando, de dar presentes em troca dessas cenas de dor, agonia e morte de inocentes.

Não se deve esperar o golpe da espada (a proibição da lei) para entender que atos sacripantas são indignos de nossa natureza, tanto do ponto de vista ético quanto espiritual ou estético. Na condição de animais somos todos iguais. Só temos vida enquanto o sangue circula por todos os tecidos do nosso corpo.

Ferir um corpo, para forçar o vazamento do que é fonte do calor irradiado a todas as células, não pode ser chamado de “sacrifício”, é assassinato, pois quando fazemos tal coisa a vítima não está em condições de se defender. E se alguém está numa condição tão vulnerável que não pode se defender do golpe que força seu sangue a esvair-se, esse ser não está “se sacrificando”, porque sacrifício é gesto do forte protegendo o fraco e não o gesto do forte abatendo e destruindo o mais fraco. Esse é puro sacrilégio.


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O que quer dizer bem-estarismo animalista?

Por Dr. phil. Sônia T. Felipe

Quer dizer que se alguém trata bem um animal, mesmo que tratar qualquer animal já seja um manejo não natural e pressuponha interferência e domínio sobre o corpo dele, então a pessoa pode usá-lo, explorá-lo e matá-lo, compensando, assim, com o “abate humanitário”, o grande trabalho que teve para manter o corpo do animal em condições de uso e consumo futuro das carnes dele.

Para os bem-estaristas, o conforto dado ao animal é um investimento ou moeda de troca com o qual julgam quitar sua dívida de vida e morte para com o animal. Assim, parece não sentirem o peso de sua consciência por continuar a pensar que animais nascem para serem usados e mortos pelos humanos. É fato que os humanos querem porque querem esconder de si mesmos que também são animais, que também nasceram, vivem e morrerão sem ter galgado um degrau sequer além de sua condição material de vida animal. Matar animais é uma forma de despistar a própria consciência, distanciar-se da verdade dura que revela nossa condição material vulnerável, perecível. Ao matar o outro nos sentimos mais fortes, mais resistentes. Vivemos buscando na fantasia uma imortalidade que não combina com a natureza corpórea, na qual tudo é passível de passar de vez, sem retorno.

Abolicionismo animalista vegano, que causa é esta? É a concepção ética que reconhece, sem discriminar, a igualdade da condição senciente de todos os animais. Ela visa a abolição da crença milenar de que os humanos têm direito de vida e morte sobre todos os outros animais, incluídos aí o de usar, abusar, escravizar e matar animais outros que não os humanos para servir a quaisquer propósitos humanos, da alimentação à diversão, da ciência à moda e à cosmética, da guerra a novas tecnologias. Para tudo o que consumimos eliminamos as vidas de bilhões de animais.

Em meio a todas as diferenças encontradas ao redor do planeta entre todas as espécies animais e cada indivíduo animal, jamais se encontrou uma capacidade sequer que tornasse ético o uso de seres que sofrem os tormentos que os humanos lhes infligem por aprisiona-los, usá-los, explorá-los e matá-los para benefício próprio. Quem inventa tal diferença baseada em habilidades tidas por superiores na nossa espécie é a moral humana, padecendo há milênios de uma grave deficiência (kakothymía).

E o reducionismo de tanta dor não basta? Não mesmo. Reduzir a dor em alguns animais para continuar a causá-la logo em seguida ou continuar a causá-la em outros indivíduos não torna ética qualquer ação ou decisão, pois a não dor de um animal ou sua menor dor não é moeda de troca para legitimar que se a cause em outros. Nenhuma vida humana está aqui para ser usada no lugar de outra, pois não há uma vida sequer que valha por duas. Nenhuma vida animal de qualquer outra espécie não humana também. Toda existência animal é irrepetível. Nenhuma pode compensar a morte de outra. Em cada animal há uma consciência que registra de forma peculiar as experiências que lhe asseguram continuar vivo. Cada animal é um corpo único e uma mente singular. Nesse sentido, a morte de um animal é a morte de uma consciência existencial, ainda que os objetos impregnados nessa consciência e as emoções que permitiram tal gravação sejam singulares para cada indivíduo em cada uma das espécies animais. Do ponto de vista do animal, sua consciência é tão valiosa para ele quanto o é a nossa própria para nós.


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Todos os animais se comunicam, nós é que somos embotados demais para entendê-los!

Por Dr. phil. Sônia T. Felipe

Uma entrevista dada pelo astrofísico Dr. Neil deGrasse Tyson, sobre a limitação da inteligência humana especista e antropocêntrica, sobre a comunicação interespécie, empatia e a sugestão de que zoológicos virtuais funcionam muito bem para firmar nas crianças a empatia por todas as formas de linguagem animal, sem especismos eletivos ou elitistas.

Os astrofísicos e os neurocientistas, ao falarem sobre os sentidos da percepção animal humana e os limites de uma inteligência conceitual fundada em enganos para tratar de assuntos que sempre julgamos esclarecidos pela dogmática religiosa, estão fazendo a grande e inovadora Revolução Copernicana Animalista, enquanto nossos doutores em biologia, psicologia, filosofia, direito, antropologia, história ficam a dar ré na evolução moral da humanidade!

A Declaração de Cambridge sobre a senciência de todos os animais foi feita por neurocientistas, com o suporte de Stephen Hawking, também astrofísico, há cinquenta anos paralisado em uma cadeira de rodas, movendo-se pelo universo extraterrestre e agora também pelo da consciência animal, com a desenvoltura que seus pares andantes jamais conseguem seguir. Ainda bem que temos os astrofísicos, nesse momento da virada ética animalista na história, para nos dar sustento na luta em defesa de direitos fundamentais para todos os animais, sem discriminação de espécie.


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Morte humanitária? Onde, mesmo? Nem aqui, nem lá!

Por Dr. phil. Sônia T. Felipe

Só existem matadores de animais porque existem comedores de carnes. Quem é mais responsável por essa matança? Se não houver mais demanda por carne, essa vileza humana acaba em uma semana. E carnes com selo de qualidade não diferem dessas sem selo, o animal padece igual, sente igual e morre igual. Não adianta querer aliviar o peso da consciência. Se é carnista, faz parte disso tudo aí.

No sistema chamado de “abate humanitário” não há menos tortura não. Desde quando pendurar um boi por uma perna só, esfaqueá-lo para a sangria, passar uma motosserra em seus joelhos e uma lâmina para retirada de sua pele, outra para abrir o abdômen e eviscerar, tudo isso em menos de dois minutos, pode ser feito com o animal morto? Todos os animais ainda estão vivos quando tudo isso é feito neles, porque não há cérebro que morra em 120 segundos!

Quanto à escalda e depilação em tanques de água fervente, não é diferente do que sofrem os porcos no “abate humanitário”. Segundo a médica veterinária Gail Eisnitz, em seu livro, Slaughtherhouse, de cada três porcos jogados no caldeirão de água fervente para depilação, um respira ainda. Como se sabe disso? Ao abrir o animal para evisceração, há água fervendo nos pulmões. Morte suave, uma dessas? Só pode crer nisso quem ainda crê na inocência da fatia de presunto que come no pão todo dia.


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Lei reducionista, migalhas para os animais!

Por Dr. phil. Sônia T. Felipe

Mais uma vez, textos reducionistas se fazendo passar por abolicionistas. Se lermos exatamente o texto da Lei 1352/2014 aprovada dia 26/3/15 na Câmara de Vereadores de Florianópolis, veremos que:

“Fica proibido o transporte de cargas que utilize a força animal superior ao peso do próprio animal”. Um texto desses não abole o uso dos animais coisa nenhuma, como foi divulgado nas redes sociais, apenas diminui o peso que se tem direito de forçar eles a puxar.

Mais uma lei reducionista fazendo-se passar por abolicionista, um texto que não leva em conta a agonia dos cavalos atados a artefatos de tortura contínua.

Lamentável. Mais uma vez, em vez de um texto de lei abolir o uso de animais para tração, ele regulamenta o uso, permitindo que cargas continuem a ser tracionadas por cavalos, desde que elas “não excedam o peso do animal”.

Quer dizer, se o cara resolve fazer o cavalo puxar 200kg, pode, desde que o cavalo pese 200 kg. Como os cavalos podem pesar mais, cargas mais pesadas continuarão a ser puxadas por esses escravos, normalmente.

E a pessoa diz que “pesquisou” sobre o assunto para apresentar o projeto de lei?

Vamos ao segundo texto dessa lei:

“As exceções são para locais privados, regiões periféricas, passeios turísticos e rotas ou baias que sejam autorizadas pela Prefeitura”.

Céus! Acabam de legalizar a escravidão eterna dos cavalos explorados para fins de todo tipo. É isso que dá fazer leis que parecem defender os animais mas defendem apenas a consciência bem-estarista e reducionista de quem os escraviza. E se apregoam defensores dos animais. Pode ser. Defendem os interesses dos animais humanos, isso sim. E mantêm as práticas de tração animal exatamente como sempre existiram, disfarçando aqui e ali, com um texto que é uma migalha para os animais, o que de fato já deveria estar sendo votado para abolir inteiramente. Aqui, as carroças são puxadas mesmo é para trás. E os cavalos não são culpados disso não. Quem dá ré na história são os políticos. Bem-estaristas na política animal dá nisso! Só dão “ré prá trás”, como gozam os manezinhos, em seu espírito inteligente.


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Xenoespecismo

Por Dr. phil. Sônia T. Felipe

Essa palavra formei no ano passado, juntando duas outras: xenofobia e especismo, para poder designar as reações iradas das pessoas formadas nas culturas ocidentais que se revoltam e xingam outras pessoas não criadas no ocidente, por conta de essas abaterem para comer animais beijados e acariciados aqui em nosso país, ou deste lado do mundo ocidental: cães e gatos.

Xenoespecismo é o que mais rola nos comentários às postagens sobre cães ou gatos sendo comidos por asiáticos: preconceito contra outros povos de outras etnias (xenofobia) e especismo em favor apenas dos “próprios animais de estimação”. Pragas são rogadas, esquecendo-se que elas valem para quem faz o mesmo aqui a outros animais, igualmente torturados e mortos para consumo humano.

Todos os animais são iguais em seu direito fundamental à vida, pois todos são sencientes e desejam viver, igualzinho a nós, ao nosso amado cãozinho e ao nosso magnificente gatinho.

Quando penduram uma vaca com mais de 400 kg por uma perna só, naquele gancho do abatedouro, ela está vivíssima e é assim que passam a motosserra nos joelhos dela e a apunhalam para extravasar o sangue, e suas carnes viram bifes, churrascos e outras iguarias que os asiáticos não tiveram como aprender a comer.

Quando jogam os porcos nos caldeirões de água fervente para depilação, um em cada três deles está vivíssimo (confirmado pela médica veterinária Gail Eisnitz, em seu livro Slaughterhouse) e morre por conta da água fervente que inspira para dentro do seu pulmão. Sensação deliciosa, não é mesmo? Apenas para quem come presunto, costela, torresmo, bacon, banha de porco, linguiça de qualquer marca, promovida ou não por estrelas da TV, enquanto acaricia seu cãozinho ou gatinho tão especiais.

Nada do que é feito aos porcos, aos frangos, às vacas, aos vitelos, aos perus comidos na ceia natalina, às ovelhas comidas agora na páscoa, comove os xenoespecistas (xenófobos especistas) que se alvoroçam apenas com o que é feito a um animal que eles escolhem para abraçar (cães e gatos), não com o que fizeram ao animal que escolheram para mastigar.

E em todas as culturas, não importa se a ideologia do mercado é capitalista ou comunista, tais atos são abomináveis contra os direitos fundamentais dos animais; de cada um deles, sem predileções pessoais, sem escolhas eletivas, sem especismos, racismos ou sexismos em qualquer tom de cinza ou de marrom. A morte é brutal para todo animal.


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Do espírito à letra da lei, para além do xenoespecismo

Por Dr. phil. Sônia T. Felipe

Propor um texto de lei para assegurar direitos fundamentais aos animais não humanos é tarefa tão ou ainda mais complexa quanto a de redigir uma lei para garantir novos, ou redesenhar antigos direitos humanos. Por um lado, o texto precisa ser claro para que os interesses a serem assegurados possam ser aceitos e respeitados. Por outro lado, o espírito desse texto deve expressar o direito do sujeito de modo universal, geral, imparcial e final.

Um texto de lei que nasce violando qualquer dos quesitos acima, dificilmente obterá o respeito devido. Ao contrário, trará em seu bojo o convite à violação, ao descaso e à desobediência. Ele ensejará o sentimento de que essa lei é “apenas para inglês ver”.

É o que acontece com, praticamente com todas, as leis animalistas aprovadas em nosso país até hoje. Por lei animalista entenda-se a que se propõe a garantir algum benefício para os animais não humanos, sejam eles da fauna não manejada ou da manejada.

O primeiro obstáculo à redação de uma lei animalista genuína é os legisladores pouco conhecerem da realidade animal, além do manejo. O segundo é que o conhecimento dessa realidade está obnubilado pelas convicções religiosas tradicionais acerca do lugar que qualquer animal ocupa no âmbito moral, jurídico e político.

Nossas crenças sobre o valor da vida dos animais estão dominadas por concepções religiosas milenares. Nelas, os animais são meros objetos de propriedade (de pessoas físicas e jurídicas). Na condição de objetos, os animais para os quais se legisla, não são tidos como reais sujeitos de direitos. Pelo contrário, estão sujeitados totalmente aos direitos de seus proprietários. As leis visam, portanto, regulamentar as liberdades desses, não as daqueles.

É com esse peso da tradição moral que objetifica os animais e desqualifica-os como não pessoas que as leis chamadas de proteção animal foram feitas em nosso país. Então já se pode ver o rolo de arame farpado que é esse emaranhado de leis pretensamente animalistas. Pretensamente, porque parece que vieram para defender direitos animais, mas, de fato, foram aprovadas para reforçar a defesa do direito de produzir, confinar e matar todo ano algo da ordem de seis bilhões de indivíduos, somente no Brasil, chegando a 70 bilhões ao redor do mundo.

Quando tais leis restringem certas liberdades humanas em relação a animais ditos silvestres, elas mantêm o espírito da propriedade do Estado brasileiro sobre todos os animais que não possuem um “dono” privado.

Em meio a tantas tsunamis e marolas, formadas por interesses que vão do afetivo (animais eleitos para estima e companhia) ao mais puro lucrativo (animais criados para extração de leites, lãs, ovos, pele, couro, carnes, serviços, diversão etc.), temos ainda os de ordem religiosa.

O problema é que, de fato, não são os direitos genuínos dos animais que as leis procuram assegurar. Elas apenas regulamentam o direito dos humanos de possuírem e de destruírem “seus objetos de propriedade” animalizados.

Discute-se agora, em 2015, um Projeto de Lei na Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul, pelo qual o Parágrafo Único do 2º Art. da Lei 11.915/2003, criado em 2004 pela Lei 12.131, que deu caráter de excepcionalidade e legalizou a matança de animais em ritos religiosos de qualquer matriz africana, deve ser extinto.

O debate acalorado não está polarizado entre os seguidores dos ritos africanos, que matam animais e os oferecem às entidades, e os defensores de direitos fundamentais para os animais. Há argumentos contrários à matança ritual de animais que não têm nada a ver com convicções abolicionistas.

Não está fácil esse debate. No rolo compressor de arame farpado que a Lei 11.915/2003 criou, não dá para tomar partido dessa ou daquela posição, sem sair arranhado. Se defendemos os animais, somos taxados de racistas. Se defendemos a liberdade de expressão religiosa sem discriminar a matriz de origem (semita ou afro), somos taxados de incoerentes, e com razão, pois devemos defender o direito à vida dos animais, sem olhar quem perderá as regalias.

Mas a pior posição mesmo é a de quem se abarrota de carnes, ovos e laticínios, veste couro, frequenta rodeios e touradas, cavalga, visita zoos e aquários, e pede a revogação do direito de matança dos ritos afros. Maior incoerência não pode haver. Por isso, a posição vegana, mesmo sendo taxada de racista, ainda é a mais coerente. Mas, não se iludam os veganos com essa lei. A coerência não é possível manter dentro do espírito de tal lei.

A posição dos defensores abolicionistas dos animais está perfeitamente respaldada em princípios de justiça e de ética dos quais os animais jamais deveriam ter sido excluídos, mas, lamentavelmente, por conta exatamente de interesses econômicos milenares, protegidos por dogmas religiosos, o foram.

O que torna difícil tomar posição nesse rolo de arame farpado não é o fato de haver uns que querem continuar a matar animais para satisfazer demandas de entidades espirituais (que prestam favores quase sempre não espirituais aos humanos), convidados a “sacrificarem” vidas alheias para trocar esses favores pelas desditas dos aflitos.

O que dificulta o debate no caso dessa e de tantas outras leis é a incoerência do texto da lei. Ela regulamenta, portanto, limita, a liberdade de manejo e abate dos animais. Mas em momento algum atende ao direito do animal de não ser forçado a nascer, de não sofrer manejo e de não ser morto para atender interesses humanos, seja de empresários, de consumidores, ou de empresários consumidores exercendo seus sacerdócios.

E é a demanda pelos derivados dessa matança (carnes de todo tipo, laticínios, ovos, lã, couro, serviços e graças divinas) o que escraviza e mata os animais. Não é um “sistema” malvado e abstrato. É o consumo sem consciência.

Lendo o texto da Lei 11.915/2003, ao qual foi acrescido no artigo 2º um parágrafo único, eximindo os ritos afros de condenação judicial, por via da Lei 12.131, que ora se quer revogar, pode-se ver claramente que tudo o que ali está não está ali para assegurar direito algum aos animais.

O que foi redigido com aparência de defesa dos animais, o foi para regulamentar a prática de criar, escravizar e matar animais. Essa não é uma lei animalista genuína, muito menos tem ela um espírito abolicionista. Nada além disto: é uma lei reducionista com lampejos bem-estaristas para o “manejo e abate humanitários”. Os humanos são a finalidade da lei, não os animais.

Os interesses regulados pela Lei 11.915 são os interesses empresariais, interesses de proprietários de vidas com direito ao abate delas. Ninguém deve se deixar iludir, pensando ou mesmo crendo que tal lei, ou qualquer outra desse teor, defenda a vida dos animais, ao prepará-los “com bons modos” para o abate.

Se a vida de seis bilhões de animais, abatidos no Brasil para consumo humano e não humano, não está protegida por tal lei, não há como crer que a mesmíssima lei, apenas com a revogação de um de seus parágrafos, deva ser usada para proteger a vida dos animais abatidos em ritos religiosos de qualquer matriz, seja judaica, islâmica ou africana. Os abates kosher e halal, embora cobertos com véus espirituais, têm finalidade comercial como quaisquer outros.

O serviço sacrificial de animais, salvo melhor juízo, está tão imbricado em interesses comerciais, ainda que menos explícitos, quanto o estão os abates kosher e halal. Pelo menos na origem, é preciso haver alguém que cria um animal e o vende ao fiel que paga suas dívidas com as entidades, oferecendo a elas o sangue alheio.

Dado que o espírito original dessa lei é a preservação dos “bons modos” aparentes na criação e matança de animais para suprir demandas de mercado, não se pode pretender que ela seja uma lei de defesa de direitos fundamentais para os animais. Nunca foi e não é. E porque ela nunca o foi, foi possível, um ano após sua aprovação, criar uma outra lei para excetuar das penalidades também o abate de animais com matriz religiosa africana, algo que o texto havia deixado criminalizável, ao mesmo tempo em que amparava outros tipos de abate, regidos por técnicas definidas por religiões outras, como o kosher e o halal, de origem semita (judaica e islâmica).

Se os dois abates (kosher e halal)  foram autorizados como “legais” no texto original da Lei 11.915, e os abates ritualizados africanos haviam permanecido criminalizáveis, não há como não pensar que o resultado de tal discriminação tenha o viés xenoespecista (racismo e especismo conjugados).

Parece se repetir aqui o que ocorre nas redes sociais. Enquanto mastigam com prazer seu sanduíche de queijo com presunto (que mata vacas, vitelos e porcos), algumas pessoas rogam pragas aos asiáticos por seguirem a tradição de lá, de comer as carnes que aprenderam a comer, de cães, gatos e macacos.

Quer dizer, no xenoespecismo, o animal que escolhemos para estima tem direitos que os outros povos têm que respeitar, mas o que escolhemos para mastigar não têm direito algum. Se todos os animais têm direito à vida, nosso sanduíche de presunto e queijo é um ato de violação de tal direito, tanto quanto o é o bife de cão, de gato ou de macaco comido pelo asiático.

Entretanto, o que mais onera os defensores dos animais nesse debate não é argumentar que ao se defender agora a revogação da Lei 12.131, (a criminalização da matança para fins rituais afro-brasileiros) não se está sendo racista e sim abolicionista.

Torna-se praticamente impossível a qualquer abolicionista animalista posicionar-se com ética e justiça a favor da revogação de um único parágrafo dentro dessa lei, deixando-a, no mais, intacta. Isso é cair, literalmente, no xenoespecismo. É trair todos os outros animais não matados em ritos afros, que tanto se pretende defender. O problema não é dos abolicionistas. É que essa lei não foi criada para defender os animais da morte.

Ao legalizar, regulamentar e lutar pela aprovação de leis que afetam os interesses dos animais, sem que os animais sejam de fato o sujeito dessa legislação, isto é, ao fazer leis para regulamentar o modo como os animais são tratados e impedir que sejam maltratados no curto e miserável período de suas vidas e na hora do transporte para a câmara de sangria, mas manter o direito de criá-los e matá-los, os defensores dos animais pisam na poça de sangue da qual esses animais não escaparam desde 2003, mesmo com tal lei em vigor.

Essas leis são reducionistas e bem-estaristas. O nascimento, a vida e a morte dos animais só contam se servirem para agregar valor à mercadoria final. O valor inerente à vida do animal não conta nessas leis que fingem protegê-los, quando protegem mesmo é o interesse de seus vendedores. O que conta é a agregação de valor à carne, ao leite, aos ovos, ao couro e à lã, produzidos com “bons modos”, ou aos serviços que prestam como escravos e reféns dos interesses humanos.

Se os abolicionistas querem, de verdade, o respeito legal à vida dos animais, hoje forçados ao nascimento dentro do sistema de criação e abate para atender demandas humanas, as leis devem ser redigidas de modo abolicionista do começo ao fim. Remendos não fazem uma boa obra.

Reduzir danos no manejo (sim, pois não há como abolir os danos, mantendo aprisionados os animais e matando-os enquanto são ainda bebês, porque sua vida abreviada é dentre todos o maior dano causado a eles) não é o que os abolicionistas veganos buscam em sua luta diária para conscientizar as pessoas sobre a tragédia dos animais criados para o abate. O que buscamos é abolir o direito humano de criar animais para a escravidão e o abate.

Regulamentar os “bons modos” da matança tayloriana de animais, levada a efeito em escala industrial fordiana, para que não choque os desavisados e não pareça ser o que de fato é, uma chacina praticada com motosserras, envernizada com a denominação “abate humanitário”, também não é a melhor forma de uma defesa abolicionista que resguarda direitos aos animais.

Defender a revogação de um parágrafo numa lei que expandiu a liberdade de matança para um novo grupo religioso, “esquecido” na redação inicial da lei, e relevar o fato de que a lei inteira já servia apenas aos interesses de mercado, tanto dos produtores de carnes, leites, ovos e lã, quanto dos produtores disso tudo sob a tenda de um ou de outro código tribal original, também não parece atitude sábia de quem luta pela abolição de todas as práticas de matança de animais.

É fácil deixar-se enganar pelas iscas, postas nos textos dessas leis reducionistas e bem-estaristas, especialmente quando elas são revestidas de uma regulamentação do manejo e da matança com os bons modos ditados com padrões médicos e técnicos. É fácil enganar as pessoas, pois só as palavras “médicos” e “científicos” já evocam um sentimento de respeito pela autoridade máxima em questões da vida, da saúde e da morte. E daí, essas mortes todas parecem “limpas”, porque são praticadas de jaleco branco.

O que os ativistas abolicionistas não podem perder de vista é que todos esses padrões reducionistas e bem-estaristas de manejo e abate humanitário foram criados e aprovados em primeiro lugar pelos médicos e cientistas pagos pelo agronegócio ao redor do mundo, para garantir que os consumidores comprem seus produtos sem se horrorizarem com as cenas do manejo, do transporte e da câmara de sangria, e sem temor de que esses resíduos estejam carregados de patógenos. É para vender bem que esses padrões existem. Não é para respeitar os direitos dos animais.

É muito difícil manter a ética abolicionista e defender a revogação de um parágrafo que introduziu tardiamente na lei o direito de um grupo matar animais para finalidades religiosas, quando a lei inteira é apenas uma regulamentação dos bons modos na produção e matança de animais para quaisquer outras finalidades. Para ser ético é preciso manter a imparcialidade, a generalidade no raciocínio (se vale para um tipo de matança tem que valer para todos) e a finalidade. Ou é a vida e a morte do animal que importam, ou são os interesses humanos em jogo. Quando isso se contrapõe, um dos dois sofre a pena de morte. E esse não é o humano.

O princípio da universalidade obriga a razão a expandir o círculo de validade daquilo que a lei mesma diz querer respeitar. A vida de um animal abatido para fins rituais em práticas protegidas por um direito constitucional vale tanto quanto a vida de um animal abatido dentro das técnicas apreciadas por outras religiões, quanto a vida dos animais abatidos com técnicas aprovadas pelos vivissectores, quanto a vida de cada animal abatido com técnicas humanitárias em qualquer matadouro industrial.

Há matança, matança e matança. Nenhuma delas deveria ter amparo legal. E lutar para que uma seja criminalizada, mesmo que esteja assegurada pela constituição, e as outras continuem a ser permitidas, mostra bem o limite moral de quem está implicado no sistema da matança, de quem consome produtos originados dessa matança.

As matanças, aliás, nada mais mostram do que a falha ou deficiência moral (chamada kakothymía, em grego) que precisamos abolir em todos nós. A falha em compreender que não foi por mérito nosso que aqui nascemos no formato da espécie Homo sapiens sapiens, e por não termos mérito algum nisso, não temos crédito moral para tirar dos outros animais aquilo que sequer conseguimos dar a nós mesmos: a vida e a liberdade inerente ao tipo de vida que cada um nasce para expressar.

Matar animais não é um direito humano. E discriminar alguém por ser de uma raça, e não de outra, nessa matança, também não. Dois erros não fazem um acerto. E não dá para consertar essa lei que nasceu antropocêntrica e especista, transformando-a agora numa lei xenoespecista. Os animais continuam perdendo suas vidas.


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Antropocentrismo: respeito pelo próprio umbigo

Nos diálogos entre pessoas que assumem a ética abolicionista vegana e atuam na defesa dos direitos animais sempre há não veganas pessoas que se queixam de que as pessoas veganas “dão mais importância aos animais do que aos humanos, tratam melhor os animais” do que tratam a elas, as não veganas, quando mostram a barbárie do consumo de derivados animais.

Direitos animais, uma exclusividade humana?

Por Dr. phil. Sônia T. Felipe

Tirar a vida dos animais é considerado um direito humano universal. Dez vezes a população de humanos é o número de animais mortos por ano ao redor do mundo para alimentar pouco mais de cinco bilhões de humanos que consomem, através de seus alimentos animalizados, 80% de toda proteína vegetal nobre cultivada ao redor do planeta e dada de comer aos animais que são mortos para virar bife, linguiça, presunto, salsicha e patê, ou que têm sua vida abreviada pela escravização de seus corpos na produção de ovos e de laticínios.

Manter uma dieta que representa a devastação de 80% de toda proteína cultivada no mundo, e das águas boas dadas de beber a esses 70 bilhões de animais, mantidos em confinamento, semiconfinamento ou mesmo soltos nos pastos, não parece evocar nos humanos super proteinizados qualquer questionamento de ordem moral. Seguir a dieta tradicional é um costume. E, costumes, costumam-se preservar sem questionar. É fácil confundir o que é mera repetição de práticas, com valores morais, que, supostamente, não devem abolidos. Entretanto, é sabido, a história nos ensina, que a maior parte das tradições são apenas traições aos direitos que não deveriam ter sido surrupiados dos inocentes.

Matar um animal aos 40 dias de vida, quando, naturalmente, ele poderia seguir em vida por até 6.000 ou 7.000 dias (galinhas e galos), não parece assombrar quem se delicia com um bocado de frango assado ou ensopado. O tempo de vida do frango abatido não alcançou sequer 0,6% do que sua espécie lhe destinaria, caso não houvesse nascido sob o regime de propriedade e escravidão ao qual está atrelado sem perdão ou chance de vida.

Consideremos a média de 78 anos de vida humana, portanto, um viver que pode chegar a uns 28 mil dias. Caso fosse abatido para qualquer propósito alheio no tempo proporcional ao do abate de frangos, um bebê humano teria vivido seis meses, incompletos, até seu abate.

Um bezerro destinado à morte pela indústria de carnes vive por volta de um ano e meio a dois anos, de 550 a 730 dias, quando é empurrado, em estado de terror pânico, pelo corredor da morte, até chegar à câmara de sangria.

Mas um bovino, naturalmente, nasceu para viver uns 25 anos. Sua morte aos 550 dias de vida está mais do que longe dos 9.000 dias nos quais sua natureza poderia se desenvolver plenamente e seguir todos os processos para os quais a espécie bovina vem à vida. Comer carnes bovinas é alimentar-se dos restos de um animal que mal chegou a viver 6% do total da vida que lhe seria destinada. Isso equivale a uns 4,5 anos de vida de um humano.

A vida de um suíno pode passar de 4.000 dias. Mas, nascido e forçado a viver em prisão perpétua, sem direito de gozar os prazeres de sua espécie, um porco é morto aos 140 dias de vida, o que mal chega a 3,5% do tempo que sua natureza traçou para gozar plenamente “a dor e a delícia de ser (o suíno) que é”.

O presunto que compõe o sanduíche tão inocente, a “costelinha”, o “lombinho” (as pessoas usam o diminutivo quando se referem ao que comem, como se isso aliviasse o peso da morte alheia carreada para seus estômagos), são partes de um bebê suíno, morto numa idade que equivale a de um bebê humano com 2,7 anos de vida. A mais “tenra infância”.

Enfim, comemos os bebês das outras fêmeas. E estamos convencidas de que fazer isso é um “direito humano fundamental”. Não é. Para ser um direito humano fundamental precisaria ser algo que não prejudicasse nenhum outro ser senciente. E, para não deixar dúvida, precisaria não tirar de qualquer outro ser que se iguala a nós em todos os aspectos e peculiaridades que nos levaram a decretar para todos os humanos direitos fundamentais, seu direito também fundamental. Sem assegurar bens fundamentais universalmente dados, como é o caso da vida, não faz sentido declarar quaisquer outros direitos.

A verdade é que ter direito à vida humana não inclui o dever de se alimentar de pedaços de corpos de outros animais ou de secreções tiradas à força dos corpos das fêmeas de outras espécies. Se tal não é um direito, tampouco é um dever humano.

Bovinos podem viver até 25 anos em liberdade, seguindo seu éthos natural. No sistema de extração de leite, por ele ser, inerentemente, escravizador, as vacas não passam, a não ser exauridas, dos seis anos de vida. Quando seu metabolismo se esgota, elas são enviadas para o matadouro (viram carne de hambúrguer) e sofrem o mesmo tipo de morte que seus filhos sofreram aos 18 ou 20 meses de vida. As galinhas podem viver livres uns 16 anos (galos, 20), mas, no confinamento, as escravizadas pela coleta de ovos não passam dos quatro anos de vida, se é que isso ao qual foram forçadas pode se chamar vida.

Se, para qualquer desses animais não foram reconhecidos direitos fundamentais, em contrapartida, para nenhum humano foi declarado o dever de seguir o padrão da dieta estabelecida nos últimos 50 anos ao redor do mundo.

Então, se não é um dever alimentar-se de carnes, laticínios e ovos, os humanos o fazem por condicionamento mental e moral, algo que pensam ser uma “necessidade”, mas não é.

Se não é um “direito humano” alimentar-se de carnes, laticínios e ovos, então não há humano que possa exigir compor o seu prato com os restos mortais dos animais ou secreções tiradas de seus corpos através do manejo. Se alguém o faz, não é por direito, muito menos por ética, é por mero condicionamento. O que pode ser condicionado pode ser descondicionado, ainda que a baba escorra ao soar o sino, ainda que a saudade bata, ainda que o desejo se imponha. Toda essa pressão nada mais é do que condicionamento. Não é uma necessidade humana comer carnes, dado que os oito aminoácidos essenciais necessários à sintetização de outros 12 que formam a cadeia proteica completa podem ser obtidos de alimentos vegetais.

Se nos igualamos aos animais em sensibilidade e consciência, ainda que cada espécie as tenha a seu próprio modo, algo que a Declaração de Cambridge sobre a Senciência Humana e Animal reconheceu já em 2012, estamos, injustificadamente, adiando a decisão de parar de atormentar e de matar nossos iguais para compor nosso prato.

Mas a abolição virá. Os animais não são “nossos”. Tampouco são meros “objetos” semoventes. Ainda que nossas mãos e ardis possam se apropriar deles, tal poder não nos autoriza a fazer. Somos todos, igualmente, animais. O que não admitimos que nos seja feito por quem tem a força, a astúcia e o poder de fazer, por exemplo, abreviar ou tirar nossa vida, não podemos mais justificar moralmente fazer aos outros de outras espécies.

Afinal, os direitos humanos fundamentais nada mais são do que nossos direitos animais: à vida, à liberdade de ir e vir, de expressar a própria sexualidade, de não ser privado de abrigo, grupo social e demais cuidados específicos. Está na hora de reconhecer aos outros animais os direitos fundamentais dos quais, injusta e violentamente, os excluímos há milênios.

Fonte: Justificando 


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Senciência e direitos animais

Por Dr. phil. Sônia T. Felipe

Já está provado cientificamente, por análises feitas em laboratório, que a ostra libera endorfinas no transporte bruto, e não as libera quando transportada suavemente.

Ora, só há liberação de endorfinas para compensar algo doloroso ou estressante. Os estudos em neurologia estão a pleno vapor. É preciso dar atenção ao que os cientistas estão escrevendo sobre a mente, a consciência e a sensibilidade de todos os animais.

Enfim, se lemos atentamente a Declaração de Cambridge sobre a Senciência Humana e Animal, vemos que no último parágrafo eles nem usam o termo “animal”, apenas “criaturas sencientes”, justamente porque os neurocientistas estão a caminho de encontrar senciência em, digamos, pernilongos e minhocas, algo do qual nunca duvidei.

Quanto à fundamentar os direitos animais e de insetos no modelo humano, fundamentação que parece atrair algumas pessoas dedicadas ao debate dessas questões, é de alto risco.

Prefiro, hoje, falar de direitos vitais universais sencientes, pois estamos no limiar de um tempo no qual a questão da senciência está a ser revista. Melhor não antropocentrizarmos a ética.

Se o animal humano tem direitos, mesmo antes de nascer, isso se deve a alguma coisa digna de ser preservada. Por certo, antes do nascimento e muitos anos depois dele, os humanos não possuem habilidades mentais plenamente desenvolvidas, nem autonomia para tal. Então, pautar os direitos vitais universais sencientes no modelo humano pode ser arriscado para se assegurar os direitos de todos os seres sencientes, mesmo que não sejam animais.

Podemos comparar o valor inerente da vida de todos os animais. Do ponto de vista da bagagem genética e da expressão do tipo de vida específico de cada indivíduo nascido, não há como hierarquizar nem para mais, nem para menos. Portanto, todas as vidas de seres sencientes, sejam animais vertebrados, invertebrados, mamíferos, aves ou insetos, devem ser igualmente respeitadas, por uma questão de coerência com o princípio moral que dita que um interesse valioso para um indivíduo deve ser respeitado do mesmo modo como o deve ser para outro, não importando o formato no qual a vida se expressou no corpo desse indivíduo.

O debate não deve se restringir à questão do valor da vida por conta de habilidades cognitivas ou de outra ordem, mas à questão do tipo de vida, da carga de dor, sofrimento e morte infligida, à qual condenamos todos os animais que estropiamos, escravizamos e matamos para nossos propósitos.

Enquanto não abolirmos o direito de propriedade sobre todo tipo de vida animada senciente, não importando o formato no qual a senciência aparece em cada animal, não poderemos respeitar inteiramente o princípio da igual consideração de interesses semelhantes.

Enfim, Gary L. Francione e Peter Singer não podem ser estudados separadamente.

E, para quem ainda não sabe das implicações da Declaração de Cambridge sobre a Senciência em Animais Humanos e não Humanos, aqui está o link com a entrevista feita com o cientista Philip Low, que liderou o congresso no qual a questão da existência da senciência em todos os animais e outras criaturas foi declarada oficialmente pela primeira vez na história humana: http://naofo.de/31s7


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Brinquedos são estiletes poderosos de formatação moral

Por Dr. phil. Sônia T. Felipe

Marca renomada de bonecas produz boneca negra com espanador: “neguinha do espanador”, desenhada por uma mulher, que, ao receber críticas dos negros e de outros movimentos sociais, diz que cada pessoa interpreta o que ela fez de acordo com seu nível cultural, tipo: se você critica minha boneca, você é pouco culto, pois se eu sou artista eu tenho o direito de fazer o que bem entendo, pois a liberdade de expressão me assiste, ou algo desse teor.

Marca famosa de brinquedos lança caminhão carregando animais criados para o abate. “Ora bolas, são apenas brinquedos inocentes!” Não são.

Brinquedos são instrumentos como o estilete, poderosos na formatação mental, moral, estética e política. Como assim? “Assim ó” (como usa falar essa manezinha sem nível cultural, aqui na ilha): “quando a gente aprende algo brincando, aprende com prazer, e então tudo é melhor memorizado e dificilmente esquecido. O que é gravado com prazer vai para aquela área do cérebro, o sistema límbico profundo, na qual o que mais emociona fica estruturando de modo associativo o resto que entrar naquela mesma frequência daí por diante.” Expliquei. De acordo com o meu “nível cultural”.

O prazer é a porta por onde entra o design moral, o prazer é o filtro que estrutura tudo em nossa mente, todos os conceitos, dos mais ferrenhos religiosos aos mais anárquicos políticos, tudo, tudo mesmo, entra e se fixa ali com um único adesivo: o prazer sentido.

Boneca negra com espanador de pó. Mulher. Negra. Brinquedo para ensinar que espanador é objeto apropriado para mãos de mulheres. Para as mãos de mulheres negras, é bom que isso fique muito bem claro. Boneco branco, de olhos azuis, com espanador na mão? Ah! Só se for para desmerecer alguém branco que não tenha resguardado seu valor de branco de olhos azuis. Todos os brancos, de olhos não azuis, poderiam entrar na lista. Mas não entram, porque está claro para os designers, está claro para os empresários que aprovam um projeto de uma nova boneca que homenageia as negras de forma discriminadora, que eles não querem um mundo no qual o único objeto apropriado para estar nas mãos de um branco de olhos azuis seja um espanador de pó. Mas está mais claro ainda, para essa gente, que um espanador de pó é um objeto apropriado para estar nas mãos negras.

Fico aqui encasquetando com a resposta da artista. Ela diz que, com sua arte, quer homenagear as mulheres negras. Mas na foto de sua entrevista ela aparece diante de uma tela com um pincel na mão, porque, ora bolas, ela é descendente de afros e pinta telas. Mas para homenagear as negras ela desenha uma boneca com espanador e não com pincel nas mãos. Quanta promessa de formas de expressão da mulher negra ela sugere às meninas negras que mal nasceram? Ser faxineira, ou ser pintora? Ser faxineira, claro.

Eles não querem isso para um homem branco de olhos azuis. Eles querem isso para uma negra. Espanadora de pó.

A menina ganha uma boneca dessas e brinca com ela. O que dirá ela à boneca, em sua atividade lúdica? Dirá a ela que está na hora de tirar o pó dos objetos. Duas mulheres. Uma princesa branca e uma boneca negra em posições hierárquicas bem distintas: uma manda a outra tirar o pó dos objetos, limpar a casa. Não há reversão de papeis.

Como se o racismo e o machismo embutidos nesse nada inocente brinquedo não bastassem, aproveitaram o impulso fortíssimo de discriminação e já compuseram a cena com outro brinquedo, certamente não destinado às meninas brancas, mas aos meninos brancos: um caminhão carregado de animais em viagem. Mas, bem o sabemos, aquele tipo de animal ali representado faz apenas uma viagem de caminhão: à câmara de sangria.

Racismo, machismo e especismo não nascem na cabeça da pessoa depois que ela se torna adulta. Não mesmo. Essa forma de desenhar o mundo hierarquizando as vidas, estabelecendo fins para as vidas dos outros, sempre em função dos próprios interesses a serem atendidos, é algo construído desde antes de o bebê humano nascer. Desde a cor das roupas, dos detalhes da decoração, das figuras que comporão o cenário no qual essa bebê ou esse bebê abrirão pela primeira vez os olhos para olhar algo que não seja o seio da mãe, tudo é matéria formatadora de conceitos, preparando a mente para um mundo cheio de divisórias, de divisões, de cisões, de cizânias, um mundo no qual uns manejam a vida dos outros até os exaurirem e em seguida os abatem sem o menor pudor, mas sempre “humanitariamente”.

Os brinquedos, assim como os primeiros livros infantis e, especialmente, os livros didáticos, aí estão para formatar a mente nos moldes da moralidade racista, machista e especista. Justamente essa mesma moralidade está levando à ruína o planeta, devastando as reservas de grãos, cereais e de água, esse mundo que está tão carregado de excrementos dos 70 bilhões de animais criados todos os anos para o abate, que não há espanador nas mãos de bonecas negras que conseguirá abater tanta sujeira desse mundo.

E a imundície do mundo não está depositada na forma de pó sobre livros, mesas e estantes. A imundície do mundo está depositada na mente formatada para reproduzir sem perceber e sem sentir o que o mundo tanto gosta de ver reencenado: o especismo, o machismo e o racismo, na verdade uma forma única de ser preconceituoso contra tudo o que não puder ser enquadrado na “espécie certa de vida” na qual nascem os que têm essas ideias, essas, as de fazer bonecas negras com espanadores na mão e caminhões com animais transportados para o abate.

É assim que ensinamos as crianças a naturalizarem formas de torturar seres que não podem se defender da opressão e do domínio tirânico que se abate sobre suas vidas.

Os brinquedos que damos às crianças são armas para construção de um mundo no qual uns acham que são dignos de viver somente se tiverem o poder e o prazer de abater os outros. Obviamente, a “neguinha do espanador” e o caminhão da fazenda cheio de animais para o abate não “pretendem” defender o racismo e o especismo. Mas o fazem, sem que seus designers o percebam, o que é mais assustador ainda.


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