‘Carne limpa’?

Começaram a revelar detalhes da “engenharia do processo de produção da carne de laboratório”. Uma pena que não o fizeram a tempo de eu poder usar no livro “Carnelatria: escolha omnis vorax mortal”.

Homo e transfobia disfarçadas de compaixão humanitária

Por Dr. phil. Sônia T. Felipe

Rolando pelos perfis a foto com as cores do arco-íris, postada pela Casa Branca em reconhecimento pela aprovação do casamento entre pessoas que se amam e têm prazer na companhia uma da outra, sem restringir tal felicidade à oposição genital.

Ora, ora, eis que vejo gente que jamais se engajou em qualquer ONG de defesa de crianças pobres e negras, gente que conheço pessoalmente há pelo menos duas décadas, que jamais se engajou em qualquer movimento de defesa seja lá de qual for o grupo em situação política, moral e econômica vulnerável, a postar a foto de bebezinha negra e a frase: No dia em que se engajarem por esta causa, me avisa que eu tô nessa, ou algo do gênero.
Homofobia, transfobia, racismo e especismo, tudo junto e misturado. E bebês negras sendo usadas para bater em gays, lésbicas e transsexuais que agora podem oficializar sua união, casando-se de fato. É mais ou menos como usar animais para bater em mulheres, nas tantas frases de xingamento que não vou aqui escrever porque tenho repulsa por tais falas.

Pela minha experiência, todas as pessoas que te jogam na cara que deverias cuidar de alguma outra causa social e não da discriminação e matança de animais são pessoas que não fazem, nunca fizeram e não farão nadinha por qualquer dos humanos que, de repente, recebem delas tamanha compaixão.
Agora a lógica cínica se repete. Pessoas que nunca se engajaram por crianças vítimas das guerras, das chacinas, vítimas do racismo e da xenofobia, da fome causada pela comilança animalizada, usam de cinismo e hipocrisia para dizer que a luta contra a homo e a transfobia é luxo. Luxo é se entupir de carnes e queijos. Luxo e hipocrisia moral.

Cinismo e hipocrisia é o que não falta a essa gente. Comem e se empanturram de tudo o que é derivado de animais, bebem até encher a cara vinhos e espumantes, e depois postam a foto da pessoinha negra no arco-íris, dizendo-se compassivas com a fome dessas crianças, mas comem 80 a 90 por cento de toda a comida plantada no mundo, não sem antes fazer essa comida passar pelo estômago dos 70 bilhões de animais mortos por ano para elas comerem, enquanto a bebezinha africana está morrendo de fome por não ter um prato de feijão e farinha, combinação riquíssima em proteínas, dados de comer aos animais para virar bife e queijo no prato dessa pessoa tão compassiva e, provavelmente, algo acima do peso.

Céus, eu quero asilo ético!

Animastê!


{article 105}{text}{/article}

Olhar Animal – www.olharanimal.org

A religião do prato

Por Dr. phil. Sônia T. Felipe

A religião mais fascista do mundo é a do prato animalizado, porque defende a vida de uns poucos cinco bilhões de humanos que comem animais e condena uns 70 bilhões desses à morte, a cada ano. Do dogma religioso do consumo de sangue, sim, carne, leite e ovos são matérias hematogênicas, feitas com sangue, não há Papa que tenha se abstido até a presente data, nem sacerdotes, desde os tempos de Davi, nem bispos de qualquer credo, nem fiéis de qualquer tonalidade sacral.

Como esperar que venha das vontades políticas, recheadas da energia mortal que é ingerida em cada bocado de carne e de queijo, uma decisão de abolir a matança de animais? Religião significa religação. Segundo a epigenética, cada bocado de comida que ingerimos religa todas as células do nosso corpo, incluindo os neurônios da área cognitiva, ao que é digerido e assimilado.

Se ingerimos todos os dias nacos de corpos de animais mortos para compor nosso prato, como religar-se à vida, poupando cada célula da mensagem violenta da morte? A mente não pode nos dar algo diferente do que oferecemos ao nosso corpo. Somos o que comemos. E se comemos essa estranha matéria, da qual tiramos a vida antes de a abocanhar, como esperar que dela venham as informações para que tenhamos coragem de abolir do nosso prato tudo isso e desassinar esse contrato religioso de baixa frequência espiritual, moral e material? Mesmo os animais estritamente carnívoros comem a carne ainda quente, escorrendo sangue, cheia de oxigênio. Somente os abutres comem carnes mortas há dias ou mesmo em decomposição.

Dos comedores de alimentos animalizados ainda recebemos apenas o levantar de ombros, a zomba, a irritante argumentação de que “possuímos caninos” e “fazemos parte da cadeia alimentar”.

Aliás, há quem se ache ocupando o topo da cadeia, porque vê que seu corpo nunca é comido por qualquer outro animal. E, jamais questionando o batido mantra carnista, a pessoa cega. Não quer ver que há milhões e milhões de espécies que não se alimentam de cadáveres. Mas escolhe duas ou três para espelhar-se, ignorando as diferenças anatômicas, fisiológicas e genéticas que permitem a uns animais comer qualquer coisa e dela tirar o que é essencial para se nutrir e manter vivo, e a outros, comer certas coisas e abster-se de outras, sem pôr em risco sua saúde e vitalidade.

Quem alega fazer parte da cadeia alimentar jamais explica para a outra pessoa que a vaca não é carnista nem carnívora, a ovelha, a cabra, o cavalo, idem. Por que será que essas pessoas insistem em citar o tal do elo da cadeia carnista, justamente comendo animais que não estão na linhagem dos carnívoros?
Não faz sentido algum alegar que comemos carnes porque somos parte de uma cadeia alimentar. Não há cadeia alguma entre a vaca, o cavalo, a cabra, a ovelha e o humano. Somos semelhantes a esses, porque podemos obter tudo o que precisamos alimentando-nos de plantas e de seus frutos. Quando comemos carnes, o que fazemos, na verdade, é quebrar a natureza, para expropriar desses seres as carnes que constituíam seus corpos. Matamos para roubar. Latrocínio.

Mas a pessoa quer continuar a defender que come esses animais porque está escrito em seus genes que é uma comedora de cadáveres. Mas então esses genes só estão nela, porque todas as veganas estão aí provando que tudo não passou de engano para nos forçar a comer o que o agronegócio inventou de produzir.

E há quem apele à vontade de divindades para justificar a comilança e na sequência, a matança para outros fins. Para isso, usam uma das passagens do Gênesis, ocultando que essa passagem se refere somente a algum momento de escassez de vegetais, o momento pós-diluviano. Omitem que na passagem antediluviana a ordem divina foi vegana, do tipo: aí está o celeiro completo, com todos os grãos, cereais, sementes, frutos e frutas, tubérculos, raízes e folhas, para que todos vocês (essa ordem não foi especista, incluiu todos os animais) possam obter todas as proteínas, vitaminas, minerais e seja lá qual for o nutriente necessário para manter vivos e vitalizados os tecidos de seus corpos.

Em nenhuma das teogonias que já tive oportunidade de estudar encontrei uma instrução ou ordem divina para usar os corpos das fêmeas animais como meios para reprodução em massa de outros animais, para ter abundância na hora da chacina. Se uma divindade dessas existe, tô fora. Sem discriminação de rito na hora da matança. Todos os animais são iguais. Nenhum animal quer ser morto intempestivamente, inclusive os que matam os outros a rodo, a qualquer pretexto, seja da religião do prato, seja dos pátios ou dos átrios.


{article 105}{text}{/article}

Olhar Animal – www.olharanimal.org

De sangue e de indignação

Por Dr. phil. Sônia T. Felipe

Pareceu estranho, na postagem anterior [A religião do prato] considerar que leite é sangue? Então explico um pouco mais. A carne é formada por sangue. Quem come carnes come sangues. Todos os componentes que estão no leite materno estavam no sangue que passava do corpo da mãe animal para o cordão umbilical enquanto o feto estava no útero e suas carnes se formavam.

Uma vez saído do útero e conseguindo respirar por conta própria, o mamífero recém-nascido ainda precisa do sangue de sua progenitora, mas não mais de todos os seus elementos, por exemplo, não precisa mais do oxigênio, pois já o obtém pela própria respiração, por isso o sangue muda apenas de cor — deixa de ser vermelho, por não conter mais a hemoglobina– e passa a ser branco.

O canal de fornecimento desse sangue branco também muda. Ele passa a ser fornecido pela mama e tem que ser sugado pela boca do bebê, o primeiro treino para o exercício digestório que acompanhará esse animal mamífero até seu último dia de vida, pois, para o resto de sua vida, os nutrientes que ingere serão transformados em sangue que seguirá formando e oxigenando suas carnes. Quando o sangue para de circular, o animal morre.

Leite da mãe é sangue dela. O sangue de uma fêmea forma seu leite, suas carnes, seus ovos e todos os demais tecidos. Sem sangue as carnes do bebê mamífero não podem formar-se.

O mesmo vale para todos os animais que matamos para comer as carnes, ou que escravizamos para extrair os leites. Tudo o que comemos de animais é feito com seu sangue.

É nisso que gostaria que as pessoas pensassem, antes de ficar malhando quem se alimenta de sangue, no caso, as entidades que se servem das oferendas dos terreiros nos ritos quimbandas. Todo mundo que come carne come sangue. Todo mundo que come laticínios come sangue. Todo mundo que come ovos come sangue. Continua sendo verdade que alimentar-se do sangue alheio não é coisa boa para qualquer das partes envolvidas na ação, os animais, o planeta e o comedor.

Fica difícil convencer os outros a pararem de tomar o sangue alheio, quando a gente não para de fazer isso a cada refeição. Os animais dependem de nós para que seja abolida a tradição de matança deles para nos saciar com matérias feitas de seus sangues. Infelizmente, a luta pelos direitos dos animais só tem força e coerência se quem luta já entendeu essas coisas e aboliu o consumo delas.

Não se pode lutar honestamente por direitos animais, quando se é testemunha viva e cúmplice da matança deles. Lembro aqui o trocadilho usado por um ativista do Veddas, nas intervenções da Paulista e da República. Questionado se os veganos não seriam iguais aos testemunhas de jeová, respondeu: sim, somos o testemunho “geovegano” (defendemos a vida dos animais, do planeta e dos humanos), com a diferença de que não invadimos a privacidade das pessoas para que nos ouçam, falamos em nosso espaço, aqui na rua, e as pessoas param e vêm ouvir e conversar sobre a defesa dos direitos dos animais. Esse é o testemunho dos geoveganos.

Veganos não se alimentam com alimentos hematogênicos (produzidos pelo sangue). Essa é a diferença! O resto é inconsciência cultural e moral, ou kakothymía (deficiência moral).

E porque escrevemos as coisas devidamente, sem rodeios, floreios, volteios ou roseios, há queixas de onívoros e de ovo-galactômanos de que ao escrever com todas as letras sobre essas questões silenciadas pela grande mídia, estaríamos sendo hostis aos onívoros. Não é verdade. Não temos repúdio por qualquer pessoa onívora, repudiamos as ideias que sustentam a matança.

Em primeiro lugar, repudiamos os argumentos furados, que algumas pessoas onívoras, agarradas aos nacos de carnes e fatias de queijos em seus pratos, cegamente, ainda insistem em apresentar, de que “precisamos de proteínas (entendendo a palavra proteína como sinônimo de carnes, leites e ovos)”, de que “somos feitos para comer animais”, de que “temos caninos (sem olhar-se ao espelho para ver qual dos dentes ali poderia rasgar o couro de um boi para lhe arrancar a carne)”, de que “somos o ápice da criação e por isso temos direito de matar os animais”, e, finalmente, de que “a alface também sente dor!”. É de doer mesmo, não na alface.

Refuto, sim, os pseudo-argumentos carnistas, pois eles contrariam a defesa ética dos direitos animais, além de esconderem para debaixo do tapete a verdade dietética já reconhecida pela OMS, pela ONU, pelas Associações Médicas Americanas mais importantes, como a do Coração, a do Diabetes, a do Câncer e o Comitê dos Médicos por uma Medicina Responsável PCRM, que creditam à dieta vegana não apenas maior saúde mas também a cura de praticamente todos os males que abarrotam os hospitais da medicina onívora. Então, não há mais razão alguma para se continuar a comer matérias hematogênicas (produzidas à custa de sangue), com o pretexto de que nos garante a saúde ou seja lá o que for.

Em segundo lugar, repudiamos quem grita contra os outros, que derramam sangue animal, e está, no momento mesmo em que esbraveja contra os costumes alheios, com seu estômago cheio de restos de comida produzida pelo sangue do animal que foi sangrado no abatedouro. Gandhi disse uma frase muito simples: seja você primeiro a mudança que quer ver nos outros. Ou algo assim, com outras palavras.

O que repudio é a incoerência, a inconsistência moral, o ar de domínio de quem segue a dieta padrão, engolindo tudo o que o agronegócio pesticida, biocida e zoocida enfia goela abaixo, sem questionar o mal que está fazendo aos 70 bilhões de animais chacinados por ano, fora os das águas que são incontáveis, ao planeta e a si mesmo.

Não temos mais tempo para “tolerar” silenciosamente esse erro, porque a vida está ameaçada por essa dieta sangrenta insana. Toda a água do planeta está sendo canalizada para irrigar comida para 70 bilhões de animais fabricados para o abate, e para as indústrias que processam os derivados ou matérias forjadas pelo sangue desses animais: carnes, leites e ovos.

E quando faltar toda a água teremos matado todas as milhões de espécies, de sede e fome. Tamanha é a responsabilidade humana pela vida dos animais neste planeta que devastamos por sermos viciados em sangue, sem sermos morcegos hematófagos ou vampiros. E somos seres moralmente superiores?

Minha expressão é de indignação por tanta ideia errada. Não tenho hostilidade a não ser pelos argumentos furados que jogam na nossa cara, argumentos que caducaram há mais de um século, mas as pessoas continuam a reproduzi-los, como se suas ideias obsoletas fossem sustentáculos morais capazes de sustentar sua dieta animalizada indefinidamente. Não são. Não servem para mais nada. É hora de descartá-las. De desassinar o contrato sanguinolento. Hora de poupar a vida dos animais. Não apenas dos degolados nos terreiros da quimbanda. E essa hora também é chegada para todos os sacerdotes dela, comedores contumazes de sangue em seus formatos derivados. A falta de perdão é geral. Sem discriminação de raça, etnia, religião, sexo, ideologia ou classe. Porque a responsabilidade pela matança também é geral.


{article 105}{text}{/article}

Olhar Animal – www.olharanimal.org

Sacrifício ou sacrilégio?

Por Dr. phil. Sônia T. Felipe

Quando um humano mata outro, chamamos de homicídio. Se a morte foi intencional preferimos chamar de assassinato. Quando matamos um cão não damos nenhum nome ao nosso ato. O mesmo vale para matar um porco, uma galinha, uma ovelha, uma vaca, um cavalo, um rato.

Todos os atos que não queremos ver espelhados ou refletidos na palavra, deixamos sem nome. Assim, não existem para nossa consciência, ainda que pesem nela para sempre. Mas, se não queremos ver ou saber o que fizemos, boa coisa não é.

Para ter noção de quem somos para os outros animais, sugiro que passemos a usar os termos canicídio (canicida), gaticídio (gaticida), avicídio (avicida), ovicídio (ovicida), equicídio (equicida), bovicídio (bovicida), raticídio (raticida, esse já existe mas nunca designa o humano, só o veneno), além de homicídio (homicida). Isso desnaturaliza a matança. Se praticamos um ato, o denominamos, para que apareça à consciência, devidamente distinguido de outros.

Se temos nomes para a morte de um humano, causada pela mão humana, a mesma mão que causa a morte de um animal deve assinar o que faz, nomeando tal gesto, desnaturalizando-o, tirando-o do escuro da insignificância.

Quando um humano mata outro para se aproveitar seja lá do que for chamamos de latrocínio. Quando um humano mata uma ave, um gato, um cabrito, ou seja lá qual outro animal for, nos referimos a isso como matar animais. Mas matamos um certo animal, de uma certa espécie, porque aquela espécie de animal tem algo que queremos tirar dele, sua vida. Mas tem que ser a vida de um certo tipo, não de outro. Assim vivemos, julgando que está tudo bem matar certos animais para extrair deles o sangue, as carnes, a pele, o couro, a lã (latrocínio, porque todos os animais são pessoas sencientes, apenas com formatos outros que não o nosso), ou depois de extrair delas o máximo possível de leite e de ovos.

Quando um humano mata um certo número de humanos de um mesmo grupo ou bagagem genética, seja qual for o método empregado, chamamos genocídio. Se mata vários de diferentes bagagens genéticas, derramando seu sangue, chamamos chacina. Mas matar 70 bilhões de animais todos os anos de modo institucionalizado não tem nome a não ser este: abate.

Quando humanos matam plantas ou insetos, usando venenos, chamamos de biocídio, pois dos insetos e das plantas a vida foi tirada.

Quando humanos matam animais, não casualmente, mas por compaixão ou para descarte de seus corpos exauridos por experimentos, seguindo métodos elaborados por médicos, cientistas e pessoas com autoridade, chamamos, erroneamente, de eutanásia.

Quando humanos seguem métodos institucionais de matança ritualizados, seja por religiões ou pela ciência médica, dizemos que os animais “foram sacrificados”. Essa expressão é usada tantas vezes que vira mantra da ciência vivisseccionista e de espaços de abate, sejam eles a céu aberto ou bem escondidos dos olhos de toda gente.

Entretanto, o termo sacrifício jamais deveria ser empregado quando um animal senciente sofre a morte pela mão alheia sem ter se oferecido para tal. Sacrifício, se quiséssemos usar o termo de modo apropriado, é o ato, o gesto ou a ação de oferecer-se para ocupar o lugar de outrem no abate, poupando-lhe a vida. Os Ungidos (significado original aramaico que mais tarde os romanos traduziram como Cristãos) sabem muito bem do que estou escrevendo, pois seu Messias se sacrificou por eles.

Os heróis se sacrificam para salvar da morte os outros. Nenhum ser senciente, a bem da verdade, pode ser “sacrificado”, pois tal passividade é própria de objetos ou oferendas, não de alguém dotado de vontade própria, cuja vontade é violada pelo ato violento. No máximo, pela vontade de matar alheia, o que um humano pode sofrer é genocídio, chacina ou assassinato. A vontade alheia jamais consegue “sacrificar” um animal, porque ninguém tem relato algum de um animal que tenha comparecido voluntariamente ao abate, portanto, se sacrificado, para ocupar o lugar de outro e poupá-lo do horror.

Então, se precisamos fazer algum “sacrifício” para atender ao nosso imenso amor por outros seres ou angariar benefício pessoal, o certo seria oferecermos algo nosso, bem precioso, por exemplo, nosso sangue, às divindades que clamam por sangue como clamam todos os que se alimentam de carnes e leites animais. Carnes são produtos do sangue. Leite, idem.

Mas quem jamais se alimenta de carnes e leites à custa da vida dos outros animais que não podem se defender da chacina institucionalizada, entende muito claramente que abater a vida alheia jamais deve ser confundido com “sacrifício”, termo reservado ao gesto nobre de quem se entrega à morte para poupar outros, não o contrário.

Todas as religiões, em seus tempos primordiais, usaram de um modo ou outro matar humanos ou outros animais para agradar aos deuses. Mas parece que os deuses evoluíram e avisaram que não são vampiros, que não gostam mais de carnes sangrando, de vidas agonizando, de dar presentes em troca dessas cenas de dor, agonia e morte de inocentes.

Não se deve esperar o golpe da espada (a proibição da lei) para entender que atos sacripantas são indignos de nossa natureza, tanto do ponto de vista ético quanto espiritual ou estético. Na condição de animais somos todos iguais. Só temos vida enquanto o sangue circula por todos os tecidos do nosso corpo.

Ferir um corpo, para forçar o vazamento do que é fonte do calor irradiado a todas as células, não pode ser chamado de “sacrifício”, é assassinato, pois quando fazemos tal coisa a vítima não está em condições de se defender. E se alguém está numa condição tão vulnerável que não pode se defender do golpe que força seu sangue a esvair-se, esse ser não está “se sacrificando”, porque sacrifício é gesto do forte protegendo o fraco e não o gesto do forte abatendo e destruindo o mais fraco. Esse é puro sacrilégio.


{article 105}{text}{/article}

Olhar Animal – www.olharanimal.org

O que quer dizer bem-estarismo animalista?

Por Dr. phil. Sônia T. Felipe

Quer dizer que se alguém trata bem um animal, mesmo que tratar qualquer animal já seja um manejo não natural e pressuponha interferência e domínio sobre o corpo dele, então a pessoa pode usá-lo, explorá-lo e matá-lo, compensando, assim, com o “abate humanitário”, o grande trabalho que teve para manter o corpo do animal em condições de uso e consumo futuro das carnes dele.

Para os bem-estaristas, o conforto dado ao animal é um investimento ou moeda de troca com o qual julgam quitar sua dívida de vida e morte para com o animal. Assim, parece não sentirem o peso de sua consciência por continuar a pensar que animais nascem para serem usados e mortos pelos humanos. É fato que os humanos querem porque querem esconder de si mesmos que também são animais, que também nasceram, vivem e morrerão sem ter galgado um degrau sequer além de sua condição material de vida animal. Matar animais é uma forma de despistar a própria consciência, distanciar-se da verdade dura que revela nossa condição material vulnerável, perecível. Ao matar o outro nos sentimos mais fortes, mais resistentes. Vivemos buscando na fantasia uma imortalidade que não combina com a natureza corpórea, na qual tudo é passível de passar de vez, sem retorno.

Abolicionismo animalista vegano, que causa é esta? É a concepção ética que reconhece, sem discriminar, a igualdade da condição senciente de todos os animais. Ela visa a abolição da crença milenar de que os humanos têm direito de vida e morte sobre todos os outros animais, incluídos aí o de usar, abusar, escravizar e matar animais outros que não os humanos para servir a quaisquer propósitos humanos, da alimentação à diversão, da ciência à moda e à cosmética, da guerra a novas tecnologias. Para tudo o que consumimos eliminamos as vidas de bilhões de animais.

Em meio a todas as diferenças encontradas ao redor do planeta entre todas as espécies animais e cada indivíduo animal, jamais se encontrou uma capacidade sequer que tornasse ético o uso de seres que sofrem os tormentos que os humanos lhes infligem por aprisiona-los, usá-los, explorá-los e matá-los para benefício próprio. Quem inventa tal diferença baseada em habilidades tidas por superiores na nossa espécie é a moral humana, padecendo há milênios de uma grave deficiência (kakothymía).

E o reducionismo de tanta dor não basta? Não mesmo. Reduzir a dor em alguns animais para continuar a causá-la logo em seguida ou continuar a causá-la em outros indivíduos não torna ética qualquer ação ou decisão, pois a não dor de um animal ou sua menor dor não é moeda de troca para legitimar que se a cause em outros. Nenhuma vida humana está aqui para ser usada no lugar de outra, pois não há uma vida sequer que valha por duas. Nenhuma vida animal de qualquer outra espécie não humana também. Toda existência animal é irrepetível. Nenhuma pode compensar a morte de outra. Em cada animal há uma consciência que registra de forma peculiar as experiências que lhe asseguram continuar vivo. Cada animal é um corpo único e uma mente singular. Nesse sentido, a morte de um animal é a morte de uma consciência existencial, ainda que os objetos impregnados nessa consciência e as emoções que permitiram tal gravação sejam singulares para cada indivíduo em cada uma das espécies animais. Do ponto de vista do animal, sua consciência é tão valiosa para ele quanto o é a nossa própria para nós.


{article 105}{text}{/article}

Olhar Animal – www.olharanimal.org

Todos os animais se comunicam, nós é que somos embotados demais para entendê-los!

Por Dr. phil. Sônia T. Felipe

Uma entrevista dada pelo astrofísico Dr. Neil deGrasse Tyson, sobre a limitação da inteligência humana especista e antropocêntrica, sobre a comunicação interespécie, empatia e a sugestão de que zoológicos virtuais funcionam muito bem para firmar nas crianças a empatia por todas as formas de linguagem animal, sem especismos eletivos ou elitistas.

Os astrofísicos e os neurocientistas, ao falarem sobre os sentidos da percepção animal humana e os limites de uma inteligência conceitual fundada em enganos para tratar de assuntos que sempre julgamos esclarecidos pela dogmática religiosa, estão fazendo a grande e inovadora Revolução Copernicana Animalista, enquanto nossos doutores em biologia, psicologia, filosofia, direito, antropologia, história ficam a dar ré na evolução moral da humanidade!

A Declaração de Cambridge sobre a senciência de todos os animais foi feita por neurocientistas, com o suporte de Stephen Hawking, também astrofísico, há cinquenta anos paralisado em uma cadeira de rodas, movendo-se pelo universo extraterrestre e agora também pelo da consciência animal, com a desenvoltura que seus pares andantes jamais conseguem seguir. Ainda bem que temos os astrofísicos, nesse momento da virada ética animalista na história, para nos dar sustento na luta em defesa de direitos fundamentais para todos os animais, sem discriminação de espécie.


{article 105}{text}{/article}

Olhar Animal – www.olharanimal.org

Morte humanitária? Onde, mesmo? Nem aqui, nem lá!

Por Dr. phil. Sônia T. Felipe

Só existem matadores de animais porque existem comedores de carnes. Quem é mais responsável por essa matança? Se não houver mais demanda por carne, essa vileza humana acaba em uma semana. E carnes com selo de qualidade não diferem dessas sem selo, o animal padece igual, sente igual e morre igual. Não adianta querer aliviar o peso da consciência. Se é carnista, faz parte disso tudo aí.

No sistema chamado de “abate humanitário” não há menos tortura não. Desde quando pendurar um boi por uma perna só, esfaqueá-lo para a sangria, passar uma motosserra em seus joelhos e uma lâmina para retirada de sua pele, outra para abrir o abdômen e eviscerar, tudo isso em menos de dois minutos, pode ser feito com o animal morto? Todos os animais ainda estão vivos quando tudo isso é feito neles, porque não há cérebro que morra em 120 segundos!

Quanto à escalda e depilação em tanques de água fervente, não é diferente do que sofrem os porcos no “abate humanitário”. Segundo a médica veterinária Gail Eisnitz, em seu livro, Slaughtherhouse, de cada três porcos jogados no caldeirão de água fervente para depilação, um respira ainda. Como se sabe disso? Ao abrir o animal para evisceração, há água fervendo nos pulmões. Morte suave, uma dessas? Só pode crer nisso quem ainda crê na inocência da fatia de presunto que come no pão todo dia.


{article 105}{text}{/article}

Olhar Animal – www.olharanimal.org

Lei reducionista, migalhas para os animais!

Por Dr. phil. Sônia T. Felipe

Mais uma vez, textos reducionistas se fazendo passar por abolicionistas. Se lermos exatamente o texto da Lei 1352/2014 aprovada dia 26/3/15 na Câmara de Vereadores de Florianópolis, veremos que:

“Fica proibido o transporte de cargas que utilize a força animal superior ao peso do próprio animal”. Um texto desses não abole o uso dos animais coisa nenhuma, como foi divulgado nas redes sociais, apenas diminui o peso que se tem direito de forçar eles a puxar.

Mais uma lei reducionista fazendo-se passar por abolicionista, um texto que não leva em conta a agonia dos cavalos atados a artefatos de tortura contínua.

Lamentável. Mais uma vez, em vez de um texto de lei abolir o uso de animais para tração, ele regulamenta o uso, permitindo que cargas continuem a ser tracionadas por cavalos, desde que elas “não excedam o peso do animal”.

Quer dizer, se o cara resolve fazer o cavalo puxar 200kg, pode, desde que o cavalo pese 200 kg. Como os cavalos podem pesar mais, cargas mais pesadas continuarão a ser puxadas por esses escravos, normalmente.

E a pessoa diz que “pesquisou” sobre o assunto para apresentar o projeto de lei?

Vamos ao segundo texto dessa lei:

“As exceções são para locais privados, regiões periféricas, passeios turísticos e rotas ou baias que sejam autorizadas pela Prefeitura”.

Céus! Acabam de legalizar a escravidão eterna dos cavalos explorados para fins de todo tipo. É isso que dá fazer leis que parecem defender os animais mas defendem apenas a consciência bem-estarista e reducionista de quem os escraviza. E se apregoam defensores dos animais. Pode ser. Defendem os interesses dos animais humanos, isso sim. E mantêm as práticas de tração animal exatamente como sempre existiram, disfarçando aqui e ali, com um texto que é uma migalha para os animais, o que de fato já deveria estar sendo votado para abolir inteiramente. Aqui, as carroças são puxadas mesmo é para trás. E os cavalos não são culpados disso não. Quem dá ré na história são os políticos. Bem-estaristas na política animal dá nisso! Só dão “ré prá trás”, como gozam os manezinhos, em seu espírito inteligente.


{article 105}{text}{/article}

Olhar Animal – www.olharanimal.org

Xenoespecismo

Por Dr. phil. Sônia T. Felipe

Essa palavra formei no ano passado, juntando duas outras: xenofobia e especismo, para poder designar as reações iradas das pessoas formadas nas culturas ocidentais que se revoltam e xingam outras pessoas não criadas no ocidente, por conta de essas abaterem para comer animais beijados e acariciados aqui em nosso país, ou deste lado do mundo ocidental: cães e gatos.

Xenoespecismo é o que mais rola nos comentários às postagens sobre cães ou gatos sendo comidos por asiáticos: preconceito contra outros povos de outras etnias (xenofobia) e especismo em favor apenas dos “próprios animais de estimação”. Pragas são rogadas, esquecendo-se que elas valem para quem faz o mesmo aqui a outros animais, igualmente torturados e mortos para consumo humano.

Todos os animais são iguais em seu direito fundamental à vida, pois todos são sencientes e desejam viver, igualzinho a nós, ao nosso amado cãozinho e ao nosso magnificente gatinho.

Quando penduram uma vaca com mais de 400 kg por uma perna só, naquele gancho do abatedouro, ela está vivíssima e é assim que passam a motosserra nos joelhos dela e a apunhalam para extravasar o sangue, e suas carnes viram bifes, churrascos e outras iguarias que os asiáticos não tiveram como aprender a comer.

Quando jogam os porcos nos caldeirões de água fervente para depilação, um em cada três deles está vivíssimo (confirmado pela médica veterinária Gail Eisnitz, em seu livro Slaughterhouse) e morre por conta da água fervente que inspira para dentro do seu pulmão. Sensação deliciosa, não é mesmo? Apenas para quem come presunto, costela, torresmo, bacon, banha de porco, linguiça de qualquer marca, promovida ou não por estrelas da TV, enquanto acaricia seu cãozinho ou gatinho tão especiais.

Nada do que é feito aos porcos, aos frangos, às vacas, aos vitelos, aos perus comidos na ceia natalina, às ovelhas comidas agora na páscoa, comove os xenoespecistas (xenófobos especistas) que se alvoroçam apenas com o que é feito a um animal que eles escolhem para abraçar (cães e gatos), não com o que fizeram ao animal que escolheram para mastigar.

E em todas as culturas, não importa se a ideologia do mercado é capitalista ou comunista, tais atos são abomináveis contra os direitos fundamentais dos animais; de cada um deles, sem predileções pessoais, sem escolhas eletivas, sem especismos, racismos ou sexismos em qualquer tom de cinza ou de marrom. A morte é brutal para todo animal.


{article 105}{text}{/article}

Olhar Animal – www.olharanimal.org