apartheid

Contra o apartheid das espécies – sobre a predação e a oposição entre ecologia e liberação animal

O homem mata animais para se alimentar; 
é uma das leis da natureza que o fez carnívoro. 
Claude Elsen1

Desde que abordamos o assunto de considerarmos igualmente os interesses de todos os animais, ou seja, de dar tanto peso aos interesses dos não-humanos quanto aos dos humanos, as pessoas contestam com uma série de argumentos que são sempre os mesmos. Principalmente aparece a referência a predação: “Mas os animais se comem entre eles; então por que não deveríamos fazer o mesmo?” – ou, ao contrário: “Se nos opusermos contra a exploração dos animais, também é necessário nos posicionarmos contra a predação da Natureza”.

Sabemos como é fácil responder a este tipo de argumento: os humanos possuem justamente esta especificidade tão glorificada pelos especistas de poderem mudar de comportamento, por razões morais, com maior facilidade do que os outros animais. Mas essa resposta, se é formalmente suficiente, evita uma questão fundamental: a predação representa em si própria um problema bem real e logicamente leva à reflexão aquelas pessoas que se preocupam seriamente com os interesses dos outros animais.

E trata-se de um problema que tentamos sempre evitar, pois ele faz parecer louco aquele ou aquela que tenta refletir calmamente sobre o tema, e porque divide de tal forma os consensos, inclusive no seio do movimento anti-especista2.

Apesar disso, é um assunto que deve ser abordado. E se ele pode dividir, pode também ajudar a fortalecer o movimento, principalmente ao esclarecer suas posições com relação ao ecologismo e ao naturalismo (esta crença religiosa na “Natureza”).

Minha posição é a mesma que S.F. Sapontzis argumenta em detalhe3: eu considero como justo, ajudar todo indivíduo que precise a menos, evidentemente, que o remédio seja pior do que a doença. Considero justo tentar modificar um estado de fato (uma sociedade ou um ecossistema) no sentido de um maior bem estar global dos seres implicados.

Creio que uma tal decisão desencadeie debates por, pelo menos, duas razões:

  • Ela parece implicar no fim das contas ,um domínio e uma gestão total da “Natureza” e da vida de seus habitantes, enquanto que os humanos dos países desenvolvidos apreciem, hoje em dia, nesta “Natureza”, a imagem do que eles não encontram mais em suas próprias vidas, submetidas a um fortíssimo controle social: a não domesticação, o caráter livre e selvagem de comportamentos não limitados por artifícios ou inibições sociais… Por outro lado, identificando-se facilmente apenas com os predadores, estas pessoas idealizam uma imagem paradisíaca da “Natureza”, imagem utópica e ilusória, digamos de passagem.
  • Mas sobretudo, há um forte caráter religioso associado à idéia de “Natureza” que a faz parecer intocável. Questionar a “Ordem Natural”, não mais se manter à distância habitual e respeitosa. Conceber a reforma dessa “Ordem Natural”! Ai ai ai! Ainda mais hoje em dia, pois para várias pessoas “a Mãe Natureza” substituiu Deus e lhe atribuímos, ao mesmo tempo, o papel de vítima da “violência humana4“.
“É natural!”: podemos dizer a mesma coisa sobre o infanticídio (leões, gorilas, por ex) ou sobre o câncer (todos os vertebrados), a menos que o “natural” queira dizer “que existe há milhões de anos”. O que não implica que seja bom. E vemos dificilmente porque seria algo bom para os não humanos se não o é para os humanos. Adesivo do “Comité national d’information chasse-nature” (“nacional de informação da caça e da natureza”).

O questionamento da predação é apresentado de forma caricatural, como se tratasse instantaneamente de intervir nos ecossistemas sem ter os meios de matar todos os predadores… enquanto nós nunca afirmamos dispor atualmente de soluções globais ou particulares para a predação, que não sejam ainda piores do que o mal da predação. Uma boa comparação que já foi feita5 me parece ser aquela sobre a Aids: neste caso também não encontramos até hoje a solução global, radical, mas já é necessário nos pronunciarmos contra a aids, é necessário nos opormos contra as pessoas que enxergam nessa doença uma justa punição de Deus: de um lado porque tais posições possuem em si próprias, um impacto ideológico importante e por outro lado, porque ao nos posicionarmos contra a aids, procuramos combatê-la cada vez que isso é possível, ainda que nossos esforços possam surtir poucos efeitos – cada pessoa que é salva conta.

Uma luta possível

Hoje em dia, o questionamento que podemos fazer sobre a predação continua sendo mais teórico que prático, pois, sem contar com os cães e os gatos vegetarianos e os camundongos que foram tirados de certas garras, os meios de ação são limitados e o conhecimento das conseqüências a longo termo é insuficiente. Mas tal é a dificuldade inerente a todo projeto de mudança radical. Assim, por exemplo, os mesmos problemas aparecem quando o capitalismo é questionado, assim como quando questionamos todo conjunto infinitamente complexo das relações sociais e econômicas que o fundamentam. O capitalismo existe e funciona e nos permite sobreviver – pelo menos a maioria de nós. Não possuímos uma solução de substituição já pronta e sabemos que existem remédios piores que a doença. Podemos tentar aqui e lá nos opor a algumas de suas engrenagens, seja em uma fábrica ou no Chiapas (México). Podemos tentar imaginar e mesmo construir, localmente e parcialmente, outras formas de relações interindividuais. Podemos convocar as pessoas de boa vontade a lutarem e refletirem sobre a maneira de trocarmos o capitalismo por algo que seja melhor.

A predação também é um problema complexo, que não podemos isolar de todo o conjunto formado por outras questões: demográficas (superpopulação), sanitárias (epidemias), de qualidade de vida em geral (meio ambiente), ou seja, a longo termo, evolutivas (estoque genético). Assim como o capitalismo ou qualquer outro sistema social cuja transformação somente pode ocorrer a partir de debates e tentativas, a predação não pode ser abordada com uma vara de condão. Somente quando a reflexão e a discussão se tornarem possíveis dentro da sociedade é que surgirão as soluções – ainda que estas sejam de pouca amplitude: pois o problema da predação não se resolve necessariamente em termos de tudo ou nada.

Com efeito, ao examinarmos a predação, podemos ficar com os braços cruzados, paralisados com a grandeza do fenômeno. Aconteceria o mesmo com a medicina se, ao invés de atacar as doenças e procurar curar ou abrandar as doenças reais que ocorrem, ficasse obcecada com a impossibilidade de vencer todas as doenças, ou com o terror de intervir no curso “natural” das coisas, de ir contra Deus ou a Natureza. Da mesma maneira, desde que nos liberamos do respeito paralisante da “ordem natural”, torna-se possível começarmos a refletir sobre as predações, sobre os inúmeros tipos de predação, a distinguirmos os casos mais graves – por exemplo, o das hienas que dilaceram suas vítimas vivas, impondo-lhes um sofrimento imenso – e aqueles que são menos graves ou que não o são – como a predação dos insetos se, como algumas pessoas pensam, eles não são sensíveis – e a distinguir entre os casos relativamente fáceis a serem resolvidos – como o caso dos lobos em relação aos cervos – daqueles que parecem fora de nosso alcance – como a predação de inumeráveis peixes no oceano; isso tudo procurando considerar, antes de cada intervenção, o conjunto das conseqüências previsíveis, assim como na medicina antes de prescrevermos um remédio.

Então, materialmente é possível começarmos a progredir na prática e reduzirmos a predação, sem que seja necessário termos estabelecido, anteriormente, a possibilidade de varrermos da Terra todos os tipos de predação.

Liberalismo, Estado-providência, ou revolução?

Uma analogia entre sociedade humana e “Natureza” permite pensar três grandes tipos diferentes de reações, imagináveis face à predação:

  • “Laisser faire”, o slogan do liberalismo hoje em dia triunfante, corresponde também à atitude que os humanos sempre tiveram frente às relações entre os não-humanos (exceto, por exemplo, quando um predador entra em concorrência por uma “caça”). A insistência sobre o direito à livre determinação individual, sobretudo a dos indivíduos dominantes, tem a vantagem – para estes- de lhes evitar ter que intervir nos negócios alheios. Sabemos, entretanto, que a liberdade formal mascara com freqüência um ambiente real, onde a “lei da selva” permite, aos melhores colocados, comer os outros. Por outro lado, esta opção concede um valor supremo à liberdade, ponto que mereceria pelo menos uma discussão rigorosa; há muitas chances que certos valores caros à maior parte dos humanos, como os sentimentos de dignidade, de liberdade, de autonomia, de responsabilidade, de individualidade, de identidade, etc, o sejam bem menos para muitos outros animais.
  • A opção oposta lembra sobretudo o “Estado providencial”, ampliado pelo recente “direito de ingerência humanitário”. É então um direito e um dever de intervir no desenrolar dos acontecimentos, tanto e quanto for possível: não revolucionando o mundo mas, administrando-o da melhor forma, pouco a pouco. Podemos então começar a luta contra a predação através de intervenções limitadas, nos casos mais urgentes. É verdade que esta atitude pressupõe sérios problemas políticos: sabemos que as intervenções “paternalistas” são, freqüentemente, a oportunidade para aqueles e aquelas que estão em situação de poder, socorrer outros impondo seus próprios interesses e dominando através de sua ajuda6. Entretanto, vemos mal quais interesses “privados” os humanos poderiam encontrar ao intervir para preverem ou aliviarem as doenças, as fomes, as predações, etc? A não ser o interesse de se sentirem moralmente superiores, o que não é algo diretamente nefasto.
  • Enfim, a terceira solução “proposta” que tenta ultrapassar a oposição entre as duas precedentes corresponde, para continuar na analogia, ao projeto de mudança revolucionário das sociedades humanas: a esperança ou a vontade de deixar cada um livre, sem correr riscos, sem ameaçar os outros em suas condições de vida e de liberdade, ao mudarmos as estruturas sociais de forma adequada. Mas a analogia revolucionária implica, no caso da “Natureza”, uma modificação total de tudo que existe na Terra. Infelizmente não vemos hoje em dia nem a sombra da possibilidade desta realização.

No caso da predação, a segunda opção e a terceira seriam mais ainda impensáveis enquanto as sociedades humanas continuem sendo sociedades de exploração, de opressão e de dominação. Atualmente as posições teóricas, quaisquer que sejam, não podem ter repercussões concretas bem limitadas: pois mesmo quando possamos imaginar soluções particulares e circunscritas para melhorar o destino dos animais selvagens, somos poucos a querer aplicá-las e continuaremos no mesmo ponto enquanto os seres humanos, que ainda praticam a predação sobre um número incalculável de indivíduos que estão sob seu jugo, continuarem especistas7. E por que estes seres humanos gastariam uma energia importante para regular problemas que não lhes afetam de forma alguma? Somente se motivações de altruísmo, o desejo de ajudar e fazer o bem, se tornassem as motivações de suas relações sociais.

Hoje em dia o que é importante é a contribuição teórica e ideológica do debate, pelo que este pode mudar em relação à nossa percepção dos outros animais, ao nos ajudar a considerá-los verdadeiramente como indivíduos cujos interesses realmente devam ser levados em conta: através do ataque frontal, que o debate pode ocasionar,contra a ideologia naturalista e especista.

O que é o naturalismo?

O que criticamos em particular na ecologia e em geral, no naturalismo, é o fato de somente considerarem a vontade dos humanos de verem a “Natureza” se perpetuar tal como ela é, sem se preocupar com os interesses dos indivíduos que são os mais tocados.

O naturalismo enxerga o mundo como sendo uma totalidade submissa a uma “ordem natural” onde tudo tem um lugar que é seu verdadeiro lugar, onde tudo está em ordem. Cada coisa “natural” possui então em si uma natureza particular, que é considerada como um tipo de programação interna, para ficar em seu lugar e cumprir bem sua função no meio do Todo. A natureza (com n minúsculo) de uma coisa é então aquilo que a Natureza (com um grande N) lhe dita para que seja realizada a “harmonia” de todas as coisas entre si. Por ser vista como uma totalidade, esta “Natureza” recebe um valor infinitamente superior ao valor que é concedido a cada um de seus mecanismos. De repente a “natureza” de cada um de seus mecanismos, por ser expressão da Natureza, torna-se uma coisa essencial e fundamental que não deve ser pervertida sob pena de subvertermos a ordem do mundo ocasionando o caos.

Reconhecemos sem fazer esforço, nesta descrição do naturalismo, uma variação sobre os grandes temas e mitos fundamentais de todas as religiões. Com efeito, a relação dos humanos com essa ordem imaginária é de tipo religioso: a “Natureza” é sacralizada, imaginamos suas intenções ou a personalizamos. Tal “ordem natural” é geralmente uma projeção de nosso próprio sistema social (ou daquele que desejaríamos instaurar) e os conceitos que os humanos tiveram dessa ordem variaram ao longo dos séculos. Assim, falamos mais facilmente hoje em dia do “equilíbrio natural” do que da “ordem natural”: pois a tendência que domina atualmente é mais ligada à idéia de democracia e participação do que ligada ao fascismo declarado. Uma tendência mais próxima da economia liberal do que de uma planificação do Estado. Mas se o tipo de ordem modifica, a ordem continua, quer dizer, a veneração que os humanos têm por ela continua existindo. Toda coisa que dizemos ser “natural” é pressuposta como pertencente à “ordem natural”, e consideramos que existe apenas por e para esta totalidade. As coisas “naturais”, quaisquer que sejam, encontram-se todas em um plano de igualdade: o pardal, a grama, a pedra, cada um ocupa seu lugar, concorre, ao seu modo, para o bom desenvolvimento do todo e será apenas percebido dentro deste esquema8. Seus interesses eventuais existem apenas com a condição de serem a tradução daqueles da Ordem, porque só estes são tidos como verdadeiros. Se porventura parecem transgredir, serão negados como verdadeiros interesses (desejos “contrários à natureza”: pervertidos, degenerados…). Ou bem, na honorável intenção de reabilitá-los, mostraremos que eles se integram, apesar de tudo, ao Grande Projeto9.

Ora, este discurso sobre os animais no seio da “Natureza” encontra um paralelo perfeito em certos discursos políticos, que proclamam um tipo de sociedade particular: onde os interesses dos indivíduos, inclusive suas vidas, são importantes apenas na medida em que vão no sentido da boa teoria da maquinaria social onde, com efeito, o valor dos indivíduos é puramente relativo ao da Ordem Social, este conjunto ao qual pertencem de corpo e alma, que os compreende e os transcende, onde é necessário que eles estejam e continuem imersos e dos quais são apenas os mecanismos. Esses discursos políticos são discursos totalitários, fascistas, nazistas, stalinianos, etc (se os democratas também consideram “necessário” terem o poder social sobre os indivíduos, quer dizer, a existência de uma ordem social, seus discursos acentuam mais a liberdade da pessoa do que sua sujeição autoritária à totalidade).

O discurso naturalista é explicitamente totalitário pelo fato de se colocar do ponto de vista de uma totalidade abstrata de seus componentes, ao mesmo tempo em que é visto como representante destes mesmos componentes. Será necessário sacrificar os interesses de certos indivíduos, ou mesmo de todos para que a “Natureza” (como a sociedade nas ideologias sociais) caminhe harmoniosamente. O sofrimento de alguns não importa, pois apenas a totalidade é que existe e conta realmente. Não concluímos que deveríamos refletir como viver de outra maneira e melhor. O sofrimento e a morte de alguns são neutralizados, transcendidos e sublimados por sua pretensa função no seio da tal entidade sublime e transcendente que é o Tudo.

Isso fica particularmente claro quando invocamos os famosos “equilíbrios”, que são mencionados em termos explicitamente místicos, como é o caso aqui:

… tudo o que a moral humana reprova com força, a injustiça, a desigualdade, a crueldade, não tem nenhum sentido para o animal. Para o animal a finalidade parece bem diferente: em primeiro lugar é a sobrevivência, sobrevivência individual e depois a sobrevivência da espécie. Talvez o animal esteja programado para melhor saborear o equilíbrio na Terra do que todas as espécies vivas em função de um destino mais vasto10,

Ou tentando apresentá-los de modo racional, dando-lhes uma roupagem pálida e cientifica:

As zonas úmidas formam então um meio bem equilibrado, onde cada espécie representa seu papel. Se algumas proliferam é para alimentar outras, predadoras. Este ciclo tão bem ordenado da Natureza11

A predação como último recurso ao serviço do bem comum?

Uma outra maneira de recusarmos levar em conta os interesses individuais dos animais, encontra-se na velha idéia de que a Natureza através da “seleção natural” produz seres superiormente sensíveis, dotados de hedonismo; na perspectiva de uma felicidade geral sempre crescente; seria necessário então não tocarmos na seleção natural, que opera através de epidemias, fomes ou predações12.

Talvez a “seleção natural” represente verdadeiramente um papel no aparecimento de novos indivíduos mais sensíveis (então vistos como sendo mais eficazes em termos de sensibilidade). Para dizer a verdade, vemos mal como ter certeza disso. Mas o que nos permite avaliar que estas eventuais aparições novas, valham bem a monstruosa carnificina cotidiana, o que permite decidir que a balança deva se inclinar a favor destes futuros super animais, em detrimento dos animais bem concretos que sofrem e morrem atualmente?

Que nos perguntemos, por que não? Mas que respondamos com segurança sem nenhuma prova tangível, isso é algo surpreendente. Trata-se, neste caso, ainda mais uma vez, de tentarmos atribuir uma função aos animais, de fazer deles novos meios para alcançarmos um fim que deva transcendê-los. Eles seriam então sacrificados sobre o altar da Evolução, cada cadáver suplementar marcaria uma etapa da Longa Caminhada em direção ao Melhor.

A idéia não é nova:

Karl Marx ia criticar Charles Darwin porque este representa o estado natural do reino animal, como aquele da livre concorrência e porque ele enxerga entre os animais e as plantas, sua própria sociedade inglesa, “com sua divisão do trabalho, sua competição, a abertura de novos mercados, as “invenções” e a “luta pela existência” malthusiana”. Ao descrever as formas mais ferozes da concorrência, como sendo da ordem natural das coisas, Darwin segue a tradição de todos os autores que o precederam e que alegaram que as classes inferiores devem aceitar de bom grado, uma vida difícil, pois a natureza lhes assegura que tudo tende para o melhor. Ele mostra que a fome e a morte são meios que asseguram a produção ininterrupta de animais superiores, durante este tempo, “nenhum medo é sentido, a morte é geralmente rápida e os vigorosos, os que possuem uma boa saúde, os que são alegres, sobrevivem e se multiplicam13“.

Com efeito, encontramos freqüentemente este discurso ainda hoje:

Jamais eu impedi um animal predador de pegar um pássaro,um rato ou uma lebre, jamais fiquei indignado ao ver uma serpente comer um pequeno mamífero: a natureza os fez predadores, eles a obedecem. Eu nunca os impedi pois, além do respeito que sentimos pela natureza, Scott e eu observamos o modo fulminante como o predador mata sua presa.

e:

Sou um adepto incondicional da seleção natural, pois a Natureza não pode se enganar14.

O discurso chega à mesma conclusão, seja ele imediatamente místico ou camuflado com um verniz cientifico como aquele de Darwin. Pois a Natureza, se é inflexível (ela é uma ordem!): ela é também harmonia, não o esqueçamos. Os naturalistas procuram legitimar a ordem, ficando em paz com suas consciências.

O naturalismo e as dominações intra-humanas

O discurso que prega que, os interesses de certos indivíduos, somente são importantes em função de sua utilidade por outra coisa do que para si mesmos, é o discurso típico de todas as formas de dominações15.

O efeito principal deste tipo de discurso, que é também seu fim e sua função, é o de negar a importância de seu próprio interesse, que aparece necessariamente derrisório e ridículo, de ser sempre associado/comparado com um “interesse” superior, o mais freqüentemente grandioso e sagrado: o interesse da “Natureza” por exemplo, ou da “Humanidade”, ou de qualquer outra noção sacralizada.

Com efeito, todas as dominações intra-humanas, tendem a centralizar os dominados a uma relação de pertencer à “Natureza”. Esta “ordem”, é o reino da funcionalidade, do determinismo, do valor relativo a outra coisa do que a si próprio, quer dizer, da não-individualidade. Os dominantes,ao contrario, são vistos como totalmente pertencentes à “Humanidade”,quer dizer, pertencem ao reino da autonomia, da liberdade, do valor em si, da individualidade, etc.16

Os testemunhos pululam de acordo com as fantasias das sociedades e das épocas, sobre a “naturalidade” dos escravos, das mulheres, das crianças, dos animais, mas também do povo, dos loucos, dos marginais, dos criminosos, dos homossexuais e, lógico, também dos negros e dos povos colonizados. Seu lugar natural, na ordem natural, corresponde sempre à função e ao lugar que lhes é destinado socialmente; se os dominantes são livres17, os outros, seres naturais, são ao contrario, programados pela “Natureza” para continuarem no mesmo lugar, geralmente para a glória da harmonia mundial.

Isso significa que as dominações sempre foram percebidas como sendo algo natural, como fazendo parte da Ordem natural das coisas: todas as dominações “pré capitalistas18” foram legitimadas por uma divindade ou pela Ordem natural e não devem ser questionadas, pois isso poderia provocar o caos. Assim sendo, a escravidão foi sempre considerada como uma instituição natural. Daí uma feminista contemporânea notou que, consideramos ainda o patriarcalismo, como um “equilíbrio” e como uma “ordem natural19“.

Por isso praticamente todos os movimentos reacionários fazem apelo ao naturalismo para manterem ou restabelecerem a ordem. Ou para legitimar o patriarcado, ou para justificar o racismo, o eugenismo, a monarquia, a guerra20 ou a volta das “hierarquias naturais”, ou para combater a liberdade moral, a homossexualidade, a perda do masculino e do feminino…

Os dominantes se referem maquinalmente à “Natureza” como argumento para cimentarem a ordem social e justificarem seu caráter de desigualdade:

Se isso acontece automaticamente em civilizações como as nossas, onde nenhuma seleção natural não elimina os fracos, os débeis mentais, os deformados, que deixamos viver, existe na natureza uma “injustiça”, uma desigualdade entre os seres sem a qual (desigualdade) a vida seria impossível21.

A conclusão “natural” é, “cada um em seu lugar” encontra naturalmente a solução nos animais, pois a “Natureza” age diretamente neles (a ‘natureza’ deles lhes dita diretamente a posição que devem ocupar), mas que ocorre com os humanos somente se eles se tornarem “submissos” e usarem a liberdade que têm de forma “sadia”, aprendendo a ficar no lugar que devem, dentro da hierarquia social, agora invocada também como sendo algo natural:

… ele era um bom chefe, um verdadeiro chefe, como um rei deveria sempre ser, como eles foram nas idades onde a natureza nos ditava ainda suas leis e tudo era “ordem e beleza”, mesmo matar para viver, mesmo ficar doente, mesmo morrer22.

O ser humano sábio é aquele que, colocando-se de acordo com a ordem fundamental, sabe minimizar a falta da natureza na vida em sociedade:

A repartição da população de um País em diferentes classes, não é o efeito de uma coincidência nem de convenções sociais, ela possui uma base biológica profunda. É preciso que cada um ocupe seu lugar natural. A presença de grupos estrangeiros indesejáveis do ponto de vista biológico, é um perigo certo para a população francesa23. e: Não há sobrevivência possível se o Ocidente não encontrar as fontes da ordem natural24

Humanismo, naturalismo, mesma moeda!

O naturalismo é fundamentalmente, como vemos, a ideologia do respeito da ordem e das dominações; se seu papel começa a ser conhecido e compreendido no tocante ao racismo, ou ao sexismo, ele passa sistematicamente desapercebido quando é relativo ao especismo; este parece algo tão natural! As melhores críticas geralmente não pensaram um segundo, que suas análises pudessem também se aplicar aos outros animais: os humanistas atacaram ao longo dos séculos e da evolução social, a idéia que os humanos pudessem participar da ordem da “Natureza”, mas essa crítica quase sempre parou nas fronteiras da humanidade. Simplesmente chegamos ao ponto onde há uma ordem humana, social, reino da liberdade e da individualidade,e uma ordem não humana, natural, reino do determinismo e da funcionalidade. Agora todos os humanos fazem tendencialmente parte do primeiro grupo, todos os não humanos são irrevogavelmente relegados ao segundo. Pelo menos é simples.

Aí está a construção ideológica típica, fundamental, através da oposição milenar entre “Natureza” e “Humanidade”, estes dois conceitos sendo puros produtos ideológicos e imaginários de um mundo fundado em dominações.

É esta cisão do mundo em “Humanidade” e “Natureza” que devemos questionar, não como as pessoas que desejariam recolocar os humanos na Ordem natural, mas suprimindo estes conceitos e em particular, a idéia de que existe uma Ordem natural. Somente com esta condição, poderão ser levados em conta, os interesses dos outros animais por si próprios. Poderíamos por acaso imaginar que a luta contra o racismo ou o sexismo, pudesse ter progredido se os Negros ou as Mulheres continuassem sendo vistos como seres que fizessem parte de uma Ordem natural, da qual os brancos tivessem escapado?

Por perceber os animais como pertencentes à “Natureza”, os humanos têm a impressão que os não humanos não intervem a favor ou contra o destino das coisas como o faz a humanidade. Acreditam que os animais não humanos estão e continuam imersos dentro, são prisioneiros disso, são obrigados a sofrer isso e – magnífica camuflagem da realidade- (- sem realmente sofrerem, pois são vistos como adaptados pela natureza – a Natureza é tão harmoniosa-).

É normal que se eu dou importância à vida de alguém e que por outro lado, não possuo nenhum sentimento religioso, eu não o deixarei se tornar uma presa da “Natureza” (quer dizer, do acaso das circunstâncias) mas procurarei intervir. Mas, com relação aos não-humanos, os humanos reagem freqüentemente de forma diferente, mesmo nos casos onde eles/elas os amam. Assim sendo, se muitas pessoas não cuidam de “seus” animais de companhia quando estes adoecem, não é apenas pelo fato de serem avarentos, mas também pelo fato do animal e de sua doença serem vistos como originários do mesmo mundo, a “Natureza”, e intervir seria se infiltrar nesta outra ordem que não é a nossa, nos negócios interiores de uma outra nação. Uma ordem da fatalidade e do destino (e paradoxalmente sempre, da harmonia); que seria perigoso subverter, desequilibrar, ao se intrometer nela.

Spinoza criticava já no século XVII a visão segundo a qual, a “Humanidade” seria como um Império dentro de um Império (a “Natureza”), o reino da liberdade no seio do reino do determinismo. Mas, com efeito, os humanos distinguem bem dois mundos, “Humanidade” e “Natureza”, mas justapostos, existindo lado a lado, em interação. Eles/ elas os colocam como sendo duas Ordens diferentes, como duas nações que mantenham um comércio, mas que estejam separadas por um fosso. De acordo com isso, é preciso que as vacas sejam bem guardadas: os animais devem continuar na “Natureza”, para obedecerem à natureza e preencherem sua vocação natural, e os humanos devem continuar humanos e continuar obedecendo à sua humanidade, à sua liberdade, dignidade: à sua grande idéia de si próprios.

Esta cisão ideológica nos impede de imaginarmos uma solução ao problema da predação, nos impede de pensar que os não humanos, possam ter direito ao progresso, possam avançar em direção a um maior bem estar ao qual aspiram os humanos. Ela impõe o desenvolvimento separado, o apartheid das espécies: de um lado, a “seleção natural”, a “lei da selva” e do outro, as exigências de justiça. Entretanto, qualquer solução ao problema da predação seria desejável, desde que não suscitasse problemas maiores do que aqueles que aliviaria, do ponto de vista dos principais interessados: mesmo um mundo controlado e administrado de A à Z pelos humanos seria um progresso, se esse mundo fosse por causa disso, mais agradável de se viver para seus habitantes, do que o mundo atual. E, efetivamente, sobre qual outro critério poderíamos seriamente julgar isso? Um tal mundo talvez perderia muito em termos de liberdade, em imprevisibilidade, em autonomia, em poesia, mas o que “nós” humanos perderíamos em uma tal empreitada, se confrontado com o tanto que outros seres teriam a ganhar?!

É então contra a divisão ideológica do mundo em duas Ordens, que deve se levantar o anti-especismo, contra o apartheid das espécies que daí é resultante.

Ecologia e liberação animal

Falamos freqüentemente nos Cadernos anti-especistas, de nossa posição face aos movimentos progressistas humanistas. Mas nunca abordamos a questão sobre as relações que podem ter os movimentos ecologista e anti-especista.

Em que medida os valores e as visões do mundo que veiculam estes dois movimentos, são compatíveis? E, uma pergunta diferente, em que medida eles podem ser aliados no mesmo terreno?

Primeiro ponto, o nível ideológico: o anti-especismo se preocupa com a sobrevivência e o bem estar dos indivíduos, o que não é o caso da ecologia – quando esta forja fazê-lo, é porque os indivíduos em questão são dotados de características que têm a ver com suas vidas apenas de modo acidental, como o fato dos ursos, das baleias, ou dos lobos de pertencerem a uma espécie em via de extinção e, de fazerem positivamente relevo e serem símbolos no imaginário dos humanos25. A ecologia adota e reforça valores naturalistas: a “Natureza” é um valor em si,não deve ser tocada, ou tudo pode desmoronar: é a posição “deep-ecologista”, partilhada pouco ou bastante pela grande maioria. Ou ela guarda os valores humanistas: a “Natureza” é nosso meio ambiente (é “nossa”), e é, como tal, um capital (financeiro, cultural, estético) que não devemos dissipar, mas preservar e fazermos frutificar, em vez de consumirmos sem julgar e destruirmos: esta é a posição dos meio ambientalistas. A “Natureza” é então, um patrimônio que devemos restaurar como fazemos com os antigos prédios carregados de história, ou que devemos salvar como os museus salvam e colocam à disposição do público, as obras de arte (é o que são as reservas naturais). Claro que isto se completa com o fato de levar em conta que o futuro da humanidade seja tributário de um meio ambiente não demasiadamente patogênico26.

Egocêntrica ou antropocêntrica, a ecologia continua sendo fundamentalmente especista27, seja situando os não humanos como partes da “Natureza”, ou ao lhes incluir na noção de meio ambiente.

Uma vez que a constatação das divergências políticas foi feita, será que convergências de ordem prática seriam possíveis?

O bem estar dos seres sensíveis precisa de um meio ambiente que lhes seja adaptado, e a crise “ecológica” atual implica um número incomensurável de animais dos quais quase nada ou nada sabemos, justamente porque eles não são nossos comensais. Bilhões de seres sensíveis vêm suas condições de vida serem deterioradas, seu meio ambiente habitual desaparecer, a alimentação faltar. Não é a “Natureza” que é vítima das chuvas ácidas que desertificam centenas de lagos, de irradiações que contaminaram vastos territórios (Tchernobyl), dos automobilistas, dos desflorestamentos, das repetidas poluições marinhas, dos inseticidas; as vítimas são indivíduos concretos, que não vemos esfomeados, envenenados, asfixiados (os peixes e demais animais nos lagos), irradiados, e que por isso, continuam abstratos em nosso imaginário.

Não creio de forma alguma, que a “Natureza” seja o meio ambiente ideal para a maioria dos indivíduos da maior parte das espécies. Por exemplo, há chances que “nossas” galinhas, vacas, cabras que estão em “nossos” pastos tenham uma existência mais tranqüila e alegre do que suas ancestrais selvagens que viveram quando os predadores pululavam: com exceção do fato que serão, no fim das contas, mortas, elas são muitas vezes protegidas, estão em lugar seguro, cuidadas, alimentadas, etc. Mas se um animal selvagem não está necessariamente em um paraíso nesta terra, acontece que “poluir28” seu meio ambiente, é uma maneira de torná-lo ainda mais perigoso (produtos nocivos) ou menos adaptado (desaparecimento ou diminuição de certos alimentos) e então, de reduzir seu bem estar29. Do mesmo modo, os perigos ligados ao nuclear, aos automóveis, etc., também o atingem; eis terrenos de ações e preocupações em comum que temos com os ecologistas.

Por outro lado, pode haver divergência e oposição, quando estes últimos querem reintroduzir predadores ou presas, se isso vai no sentido de um maior sofrimento geral. Ou se eles/elas querem conservar um ecossistema particularmente catastrófico (por exemplo, o exemplo já dado das hienas que estraçalham suas presas ainda vivas…) em nome do “isso é algo natural!”. E, se um dia, encontrarmos os meios de intervir em grande escala, é claro que as divergências se aprofundarão e se tornarão verdadeiros antagonismos práticos.

Mas, por enquanto, o problema relativo a uma aliança atual sobre as lutas práticas, nas quais a ecologia e a liberação animal possam se unir (como a luta contra as poluições dos rios ou a questão nuclear) é um problema de ordem ideológica: nós temos uma visão nova do mundo, ultra minoritária e muito mal aceita; como podemos evitar que essa visão não seja devorada dentro do naturalismo comum, mas que, ao contrário ela se destaque e apareça claramente?

Uma das mensagens que devemos divulgar é que: podem existir divergências entre os interesses dos indivíduos não-humanos e os interesses que atribuímos abusivamente ao “Sistema”, ao “Todo” (“Natureza”). Mostrar que os animais são indivíduos que possuem interesses próprios. Mas como difundir esse tipo de mensagem em uma luta pelo meio ambiente? Ainda que a margem de intervenção seja particularmente estreita, se quisermos que o anti-especismo seja compreendido precisamente, ainda persiste a possibilidade de refazermos um discurso puramente ecologista, dizendo que “nosso” meio ambiente desempenha um papel fundamental em “nosso” bem estar; mas, claro que, incluindo explicitamente os seres sensíveis não humanos neste “nós” /”nosso”. E não hesitemos em insistir que se a vida dos animais já é tão difícil (doenças, predação, procura de alimentação, problemas diversos de relações, etc.) não é necessário incluir que são geralmente mais vulneráveis que os humanos (pois têm menos possibilidades de dominar o meio ambiente onde vivem). Um discurso onde a noção de meio ambiente venha quebrar a tradicional dicotomia “Natureza”/ “Humanidade” (o que não torna o discurso ecológico antropocêntrico, pois a noção de meio ambiente toca, recupera a noção de “Natureza”), de um lado colocando todos os seres sensíveis na categoria daqueles que precisam de um meio ambiente adaptado e de uma certa qualidade de vida, e de outro lado não hesitando, quando for possível, incluir os humanos na noção do meio ambiente: as atividades humanas e os produtos destas atividades são uma parte de nosso meio ambiente, assim como o dos outros animais – da mesma maneira daquilo que chamamos “Natureza”.

Luta prática e luta teórica

Para certas pessoas, talvez tudo isso poderá parecer bem abstrato, e sem dúvida será invocada a urgência que há de se fazer uma intervenção que evite as destruições dos ecossistemas. Isso com o pressentimento de que as divergências de idéias paralisariam inutilmente as ações práticas que consideramos tão importante atacarmos: a idéia de Natureza, este “fantasma” naturalista. Acreditamos que, por enquanto, a luta ocorre no campo das idéias; e que ela durará decênios e que apenas poderá tirar sua força da justiça e da precisão das teorias e das análises que possamos elaborar. Não é o tempo de darmos a isso uma conotação política para agirmos concretamente (salvar alguns coelhos ou ratos): hoje, as ações devem ter como finalidade essencial, a divulgação das idéias e desta nova visão que queremos dar sobre os animais: as ações não são um fim em si mas, antes de tudo, um meio a serviço de nossas idéias. A prioridade não é a prática pela prática, mas sim a propagação de nosso ponto de vista, que passa pelas análises políticas e teorias morais, cujas ações práticas, atualmente devem ser os trampolins30. Por isso atribuímos tanta importância à crítica ideológica e cultural do especismo e, em particular, do naturalismo; é por isso que é tão importante nos distanciarmos do ecologismo, criticá-lo, colocarmos em evidência o que nos distingue e nos opõe a ele.

Não pensamos que a crítica, porque atualmente divida ao invés de conciliar, deva esperar dias melhores: a crítica contra a ecologia, por exemplo, nunca impediu os anti-especistas de lutarem contra a energia nuclear ou os carros, etc. Com certeza, a questão da predação é um dos rochedos mais perigosos sobre o qual a liberação animal corre o risco de escorregar, justamente porque ela (a questão da predação) afronta diretamente a ideologia dominante em um ponto extremamente sensível, mas naufragareamos mais cedo ou mais tarde, se ignorarmos este perigo e não formos capazes de aceitar o desafio.

NOTAS

1 J’ai choisi les animaux, éd. Stock, 1970, p.62.

2 Muitos militantes da liberação animal tendem a fugir da questão da predação com um ou os três argumentos que S.F. Sapontzis contesta nas primeiras páginas de seu artigo “Sauver le lapin du renard?” (Salvar a lebre da raposa?), nesta edição dos Cahiers, p.9.

3 Artigo citado.

4 Cf. Clément Rosset, L’Anti-Nature, coll. Quadrige, P.U.F., 1973 (livro indispensável, crítica radical do naturalismo); Robert Lenoble, Esquisse d’une histoire de l’idée de Nature, Albin Michel, 1969; Keith Thomas, Dans le jardin de la Nature: la mutation des sensibilités en Angleterre à l’époque moderne (1500-1800), NRF, Gallimard, 1985.

5 D. Olivier, “Pourquoi je ne suis pas écologiste” (Por que eu não sou ecologista), CA n°7, juin 1993, p.5 à 13.

6 As ingerências humanitárias servem freqüentemente de álibi a intervenções militares que possuem finalidades pouco filantrópicas; o Estado providencial é também uma ferramenta de dominação; enfim, se a “proteção da infância” protege em alguns casos crianças de conseqüências “abusivas” da dominação que lhes é imposta, ela permite melhor (com boa consciência) manter as crianças sob tutela e controle permanentes, e de submetê-las ao que “nós” (a sociedade em seu conjunto) esperamos delas.

7 Em um livro de ficção cientifica, Demain les chiens de Clifford D. Sidmak, são os cachorros que, daqui a alguns milhares de anos refletirão sobre o problema e, finalmente, o resolverão!

8 Cf. “L’homme, l’Animal, la Nature, la Société…” no folheto: Nous ne mangeons pas de viande pour ne pas tuer d’animaux.

9 A homossexualidade era claramente considerada como uma perversão no inicio deste século; hoje em dia, encontramos nela “funções naturais”.

10 Jean Hamburger, L’Homme et les hommes, éd. Flammarion, 1976, p.105; segue um exemplo de “regulação natural” pela predação que, associada a seus fantasmas de programação e de finalidade, não significam nada mais do que o famoso “eles são feitos para se comer entre si, para serem comidos”. O autor é um cientista conhecido e não é sem interesse encontrar em sua obra a famosa crença naturalista de que as coisas respondem a uma função,a um destino, vasto ou derrisório, a um programa, e possuem um sentido.

11 “La vie agitée des eaux dormantes”, em Ça m’intéresse n°16, juin 1982, p.50.

12 Este discurso lembra o de Kant, relativo às sociedades humanas: a Ordem natural, ao nos forçar a concorrência, nos impõe um contínuo progresso material e espiritual, e o mundo no qual vivemos é assim, no fim das contas, o melhor dos mundos possíveis… Cf. A bem naturalista e muito humanista Idéia de uma história universal do ponto de vista cosmo-político.

13 Keith Thomas, op. cit., p.115; os itálicos são meus.

14 A. Lindberg, ibid., pp.192 e 167; como se a morte fosse sempre rápida! Seria muito bom e seria efetivamente necessário que existisse uma “Natureza” bem intencionada para que reinasse tal “harmonia”!

15 …inclusive a dominação dos mais velhos, dos adultos sobre as crianças, na qual tudo se refere ao que eles serão no futuro, e é adiado em nome dos interesses socialmente supostos, do futuro adulto que eles serão um dia.

16 Cf. Y. Bonnardel, “De l’appropriation… à l’idée de Nature”, em Cahiers antispécistes n°11, artigo que apresenta uma tese de Colette Guillaumin, (Sexe, Race, Pratiques du pouvoir et idée de Nature, éd. Tierces, 1992) ampliando uma análise sobre o especismo.

17 Cf. Y. Bonnardel, Une liberté qui subjugue, livreto editado pelo autor, novembro de 1994.

18 A sociedade capitalista tira, ao contrario, uma grande legitimidade ideológica ao se colocar como produto da atividade e da vontade dos humanos e, justamente, não da “Natureza” e, ao se opor radicalmente a liberdade humana e instintos naturais. Cf. Broch. cit.

19 Amy, “Sous les cerisiers…”, na revista Marie pas Claire, n°8, maio de 1996: “…a razão pela qual vemos em todos os lugares um ódio imenso dirigido aos gays, às lésbicas e aos bissexuais é devido ao fato que estes ameaçam a estabilidade, o assim dito equilíbrio do patriarcado. O fato de existirem nega o que alguns gostam de chamar “a ordem natural da sociedade patriarcal”. Observação: é por isso, como nós já salientamos, fala-se muito da homossexualidade em termos de perversão ou de degenerescência…

20 “… Então é necessário dominar o medo e transformar a noite angustiante em cúmplice. Todos os sentidos em alerta, o chefe dirige seus homens, tanto com seu instinto quanto com sua ciência militar. Ele sabe onde quer ir e sabe se a estrada está livre. O chefe se torna caçador, encontrando um instinto animal primordial”. Artigo “Les commandos de chasse en Algérie” (As tropas de caça na Argélia) em um fascículo semanal de dezembro de 1985 em Troupes d’élite (éd. Atlas).

21 A. Lindbergh, militante da defesa animal e do Fronte Nacional, op. cit., p.107.

22 Ibid., p.152.

23 Alexis Carrel, février 1943, cité par Richard Cœurde em “Voyage en Lepénie: extrême-droite et écologie”, Silence n°158, octobre 1992.

24 Jean-Marie Le Pen, Les français d’abord, éd. Carère/Lafont, 1984, citado por R. Coeurde, ibid.

25 Um dia escutei dois ecologistas lamentarem com indignação, o fato de um camponês cortar árvores magníficas, que eram tão grandes e tão belas, depois passaram a conversar com grande entusiasmo sobre a pesca: que belo peixe um deles tinha pescado (e matado) e como era enorme!

26 O meio ambientalismo humanista é a ideologia e a posição oficial dos poderes nacionais ou internacionais: em 1969, as Nações-unidas e a União internacional pela Conservação da Natureza definiram a “conservação” como sendo a “utilização racional do meio ambiente permitindo atingir a mais alta qualidade de vida possível para a humanidade”.

27 Alguns deep-ecologistas param de ser especistas quando começam também a desvalorizar os interesses dos indivíduos humanos, em detrimento do interesse de “Nossa Mãe, a Terra”: infelizmente!

28 O termo “poluir” tem conotações quase-místicas, e não é um erro se o utilizamos para falar das interferências das atividades propriamente humanas com o resto do mundo: a “Natureza” é suposta como sendo feminina, virgem, vítima, agredida por uma Humanidade viril que a polui, sujando-a, tirando sua pureza e desnaturando-a. Nos encontramos aqui em plena mitologia patriarcal.

29 Ainda que… As “poluições” favoreçam freqüentemente alguns, ao desfavorecerem outros: Exemplo: os pesticidas, ainda que os insetos não fossem capazes de sofrer, causam provavelmente, por efeito indireto, situações atrozes”. Mas, por outro lado, por causa de sua utilização, as aves de rapina tendem a desaparecer: seus ovos simplesmente não eclodem. O sofrimento destas aves parece se limitar a uma eventual frustração de não ter filhotes enquanto, por outro lado, suas presas potenciais estarão mais tranqüilas.

30 Cf. David Olivier, “Les humains sont des animaux”, nos Cahiers antispécistes n° 9 de janeiro de 1994.

Tradução: Anna Cristina Reis Xavier

Fonte: Les Cahiers antispécistes nº 16


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Olhar Animal – www.olharanimal.org


Quem vai à caça não perde o lugar*

Em nosso imaginário a predação representa um papel importante. Tema de numerosos preconceitos, ela está carregada de significados tão potentes quanto emocionais que são dificilmente abalados.

Para contradizer os argumentos que nos são colocados e que fazem referência à predação, mas também para compreender melhor como funciona o naturalismo, é importante detalharmos, de um lado, como nossa sociedade encara a predação, o que ela significa quais mitos são representados, e, por outro lado, o que ela legitima.

Os humanos sentem respeito, admiração e uma grande fascinação pelos predadores. Vimos nos últimos meses, na revista Paris Match, um artigo Les animaux, nous les aimons, protégeons-les” (Os animais, nós os amamos, vamos protegê-los”) – um artigo sobre os animais. Onze espécies foram estudadas, dentre elas, 9 de predadores (leão, lobo, urso, águia, crocodilo…). Um outro exemplo é a publicação recente de uma revista chamada Prédateurs: l’encyclopédie des grands chasseurs du monde animal (“Predadores: a enciclopédia dos grandes caçadores do mundo animal”) – cada número é dedicado a um predador diferente (tubarão, lobo, leão…) e acompanhado com uma fita de vídeo. O assunto vende bem. Como se trata de produtos comerciais, tais edições mostram a predação sob o ângulo que o público espera encontrar, apenas apresentando os estereótipos e banalidades que o leitor deseja ver. Utilizarei várias citações tiradas desse tipo de publicação para ilustrar minha análise.

O teatro da predação

Como são então apresentados os predadores, a predação, as presas, qual função lhes é atribuída e que interesse isso representa para nós, humanos?

Predadores, policiais e faxineiros

Mesmo se beneficiando de uma bela imagem no seio do “reino animal”, de um lugar especial, os predadores continuam sendo animais e são percebidos como imersos na Natureza, como não (ou pouco) individualizados, como possuidores de uma natureza da sua espécie que corresponde a um lugar (função) no seio da Totalidade, no seio de toda Natureza1.

A revista Prédateurs é particularmente explícita: a verdadeira função do tubarão, por exemplo, como é explicada página por página é… de fazer reinar a Ordem na Natureza.

– Título: L’arme suprême des océans” (A arma suprema dos oceanos”)

– Subtítulo: Gendarme écologique” (Policial ecológico”)

– Introdução: …e esta fisiologia perfeita totalmente destinada a predação! O tubarão é uma arma magnífica a serviço dos equilíbrios marinhos fundamentais.”

Efetivamente, os predadores são sistematicamente apresentados como concebidos para realizar uma missão: a conservação da Natureza. São ferramentas perfeitamente adaptadas à realização de sua tarefa: máquina de guerra perfeitamente regulada”, perfeitamente programada”, matador perfeito”, predador impiedoso”, máquina para matar”.

E assim sobre os lobos:

Seu olhar dourado analisa de maneira tão precisa quanto um computador…

E sobre os leopardos:

Poderíamos dizer que um engenheiro aprofundou seriamente seus estudos antes de colocar a máquina para funcionar…

Sobre as águias:

A águia é a mais implacável e a mais suntuosa máquina voadora concebida para a caça…

Ou ainda sobre os crocodilos:

Esta mecânica rústica e preguiçosa nunca mata por prazer…

O indivíduo predador perde assim toda vida própria, sua existência inteira possuiu uma finalidade:

… a natureza produziu um animal blindado, anfíbio, sofisticado e perigoso predador. Tudo neles é previsto para ser ofensivo, não importa a situação em que se encontrem.

A mística humanista-naturalista nos autoriza a explorar a Natureza”, com a condição de não perturbarmos a ordem: caso contrário, a Natureza poderia se vingar. Somos então responsáveis por este equilíbrio”, e devemos garantir que estes policiais naturais” possam continuar cumprindo suas tarefas de manutenção da ordem, pois o farão necessariamente melhor que nós. Assim, as últimas páginas da revista Predateurs são sempre dedicadas a examinarem a proteção destes animais”.

As presas são lixo

Se os predadores são nobres e realizam uma missão da mais alta importância, as presas, por outro lado, são sistematicamente apresentadas como lixos contagiosos dos quais é necessário se livrar para que não se acumulem e degradem a superfície de nosso planeta:

Engolindo os cadáveres dos peixes, exterminando os doentes e os machucados, o tubarão contribui em larga escala para manter o equilíbrio do ecossistema. Os leões e os carnívoros têm uma função reguladora natural. Eles limitam os efetivos de herbívoros que, se numerosos, provocam uma rápida desertificação. Esta limitação intervém sobre os excedentes e só é exercida sobre os animais menos rápidos, os menos ágeis, os menos atentos ou mais velhos. Este equilíbrio que liga a cobertura vegetal, os herbívoros e os carnívoros é muito frágil. Mas, o lobo, ao atacar preferencialmente os animais fracos, doentes, jovens ou velhos, revitaliza, regula e trata das populações dos ruminantes, tal qual um verdadeiro veterinário natural”.

Porém os humanos não são presas

A ideologia do l’apartheid des espèces2 nos diz que, enquanto os outros animais são vistos como parte integrante da Natureza, de um sistema totalitário, fechado, hermético, repetitivo (cíclico”), imóvel à nossa escala de tempo, regido pela seleção natural”3 (dentro da qual se encontra particularmente a predação), por outro lado, os humanos, são considerados pertencer à esfera do social, de um sistema aberto, dinâmico, linear (o progresso da civilização), regido pelo Direito e pela Justiça. Os dois sistemas, o social e o natural, devem continuar bem separados. Não se deve intervir na Natureza, que está fora do social. Não podemos julgá-la com nossas categorias humanas pois Ela” é absolutamente diferente. Ela” deve continuar sendo sua própria referência, infinitamente outra, secreta, incompreensível e fundamentalmente sábia. Assim como Deus.

Nesta mitologia, os humanos nasceram da natureza, saíram dela, mas guardaram algumas ligações com “Ela”: principalmente foi a Natureza que lhes forneceu os meios (intelectuais propriamente humanos) para que se libertassem d'”Ela” – assim como Deus, nas mitologias monoteístas, lhes tinha dado a liberdade de provarem do fruto do conhecimento. É sobretudo pela sexualidade e por suas outras necessidades fisiológicas, dentre as quais o modo de se alimentar, que os humanos, estão supostamente religados à Natureza: é assim que a sexualidade ou o consumo (de carne, principalmente), que são práticas sociais ligadas entre outras a simbolismos de dominação, são profundamente sentidas como práticas naturais, que nem saberíamos questionar. Os humanos se consideram fora da Natureza mas uma de suas ligações continua existindo… a predação: eles/elas são (quer dizer: querem ser) predadores, inclusive, pelo fato de sua superioridade, querem ser super predadores.

Quando são os humanos que são predados por outros animais, trata-se de um erro da Natureza: não é função normal” da Humanidade a de servir de presa!

Assim, o número da revista Prédateurs dedicado aos tubarões nos tranqüiliza:

De vez em quando, seu zelo o conduz a atacar o homem. Entretanto ele não está programado para isto. Este predador supremo não seleciona o que abocanha.

Resumindo: seria por distração ou sob qualquer outro fator que lhe faça esquecer que não somos comestíveis (se ele for perturbado”, se ele se sentir ameaçado”…) que o tubarão, às vezes, agride os humanos.

Os comedores de homens, inclusive o grande tubarão branco, não estão, a priori, programados para atacarem os nadadores ou os mergulhadores. Os acidentes são provocados sobretudo pela atitude dos homens. Ou estes apresentam um comportamento que os tubarões julgam agressivo ou caçam, matando os peixes que sangram abundantemente, excitando os ardores dos tubarões.

Estes acidentes” não são imputáveis à Natureza (pois digerir a carne de humanos não está previamente programado): são os próprios humanos que se expõem, negligenciando as tais leis naturais”.

Para os naturalistas e humanistas isso é lógico e normal. Normal, pois a verdadeira natureza (função) do tubarão é de fazer reinar a Ordem nesta Natureza, de suprimir os membros doentios, sendo que os seres humanos, não consideram se situar nesta mesma Ordem.

Os humanos e a predação animal

Assim sendo, os humanistas se indignam logicamente, quando impedimos um gato de comer um rato ou um leão de comer uma gazela, desde que procuremos uma alternativa para um animal 100% natural” que aterrorize, mate e depois coma um outro. Sua natureza é a de caçar e seria antinatural intervirmos contra isso. Faz parte da natureza do camundongo, do rato, do animal caçado, de ser comido, de ser uma presa. Se o forte tem força por causa da natureza, o fraco também é fraco porque esta é sua natureza.

nas eras quando a natureza nos ditava ainda suas leis, tudo era ordem e beleza”, mesmo matar para viver, mesmo estar doente, mesmo morrer4.

As presas são raramente apresentadas como indivíduos. Quando isso acontece, é para melhor colocar em evidência o caráter ao mesmo tempo excessivamente cruel e intocável da predação: são as atividades interiores de um outro Reino, particularmente bárbaro, claro, mas ainda mais sagrado e dentro do qual não devemos intervir.

Se é excluído que intervenhamos, o humanismo ordinário nos convida a nos divertirmos com o espetáculo que a Natureza” nos oferece:

Quando perseguido por um leopardo marinho, o pingüim sobe até a superfície com uma velocidade incrível antes de se projetar a 2 metros acima da água. É um espetáculo maravilhoso. Em alguns instantes, o elefantinho, aterrorizado vai cair, mortalmente ferido pela leoa que está colada em suas costas. Desta vez, a fera mordeu o filhote cruelmente, na garganta e na boca, mas a vítima ainda respira pela tromba. Sua agonia será longa e dificilmente suportável para os fotógrafos. É o balé da morte, com sua crueldade magnífica.

Somente podemos achar magnífico o espetáculo da morte e do sofrimento (alheios) se nos colocamos fora da situação. Ou nos encontrávamos incapazes de intervir, ou, como no caso citado, um tipo de imperativo religioso de respeito” pela Natureza nos ordena que fiquemos passivos. A Ordem é uma ordem. A predação é o símbolo de que a Ordem reina perfeitamente, com uma dureza de ferro: o Equilíbrio natural” tira sua existência do fato de não deixar que nenhuma compaixão a influencie a favor desta gazela que corre sem fôlego diante da fera. Além do mais, quanto mais injusta a Ordem, mais é considerada como sendo uma Ordem. As coisas” são ordenadas, arrumadas, quando estão arranjadas em um nível de onde não devem ser retiradas. O sofrimento que é necessário semear para manter a ordem, para manter cada um em sua categoria (ou fazê-lo entrar em sua categoria), dá a medida da absoluta necessidade que esta ordem encarna5: É necessário que as coisas tenham um sentido, não é? Vendo um não humano se fazer predar, temos a impressão de assimilar a Natureza em ação, ou a chance rara de contemplar a Ordem natural cumprir sua obra. A Natureza é, para os humanistas contemporâneos, o que o Destino era aos olhos dos gregos antigos, e o espetáculo da predação não humana desperta em nós sentimentos similares aos que a tragédia antiga inspirava. A predação é o símbolo por excelência da ordem natural. Como é exaltante achar a Natureza tão organizada e ordenada, tão… equilibrada!

Este respeito pela Natureza/predação nos conduz a levarmos em conta apenas os interesses do mais fortes, e os da vítima são ignorados. Como vimos, os humanos se identificam quase sempre com o predador, e não com a presa. Recusar intervir significa que estamos do lado do predador. Sempre a funcionalidade (ou a utilidade para a totalidade – caso trate-se de uma Sociedade ou da Natureza) é colocada como sendo mais importante para impedir qualquer revolta contra o sofrimento: a ordem do Todo prima sobre o indivíduo sensível e seus interesses. O respeito pela Natureza é apenas uma manifestação particular do respeito – onipresente – (porque o mais forte) e do que existe (porque existente).

O respeito dos equilíbrios, das tradições e das hierarquias – independentemente do que elas implicam para os seres sensíveis que nelas estão inseridos – evoca bem as místicas da extrema-direita, as místicas da Ordem. As divisões políticas são freqüentemente mais falsas do que possamos imaginar, e afinidades profundas unem, sobre esse assunto, os pensamentos humanistas/naturalistas, sejam eles de direita, esquerda ou ecologistas.

Os outros predadores não são comidos

No teatro imaginário da predação, presas e predadores representam papéis. Natural e facilmente nós nos identificamos com os segundos, eles mesmos identificados por sua vez com os dominantes humanos da época feudal: rei da selva”, imperador das neves”, senhor dos céus”, majestade dos mares”… os predadores são nobres, de uma nobreza da espécie, e possuem uma dignidade que suas presas não possuem (desqualificadas por serem fracas, pelo simples fato de serem vítimas). Fora os peixes, não comemos os outros predadores. Além disso, nós os distinguimos cuidadosamente dos carniceiros, como as hienas, que merecem apenas nosso desprezo. Em nenhuma civilização humana os animais encontrados mortos são comidos. Sem dúvida isso lembraria demais os carniceiros, estes animais que aproveitam sem mérito algum a morte dos outros. Por outro lado, como é gratificante identificarmo-nos com a força, a grandeza daqueles que matam, que presidem a morte6! O humano deseja ser predador e, a justo título, sabe respeitar seus semelhantes, seus rivais7: ele os mata (se possível em um combate truculento, de modo leal”, como fazemos com alguém que estimamos, que consideramos como um igual), mas ele não os come. Comer alguém, pelo menos em nossa civilização, é tratá-lo como um animal, como carne sobre dois pés”, é desvalorizá-lo ao extremo. Engolí-lo equivale a rebaixá-lo. A que categoria? À categoria do não humano mais desprezível, aquele que serve para virar carne, que apenas tem interesse como matéria bruta. Então, não há canibalismo, nem o consumo de predadores. Na maioria das civilizações, a carne dos indivíduos das espécies predadoras é reputada impura, ou muito dura, ou muito forte, ou não comestível… Se às vezes acontece que um predador seja comido, trata-se de um ritual destinado à apropriação de sua força.

A dominação legitimada pela predação

Se a predação é tão admirada e evocada, é porque ocupa um lugar capital em nosso imaginário. Designada como representante privilegiada da Ordem natural”, ela contribui para legitimar diferentes tipos de dominações ou de sistemas sociais desiguais, dentre os quais, em primeiro lugar, evidentemente, o especismo.

Eis alguns exemplos:

Predação e carne

… nem o mais apaixonado defensor dos animais, nem o vegan mais obstinado, nem o zoófilo mais convencido, pensaram exigir do leão ou do tigre que estes se tornem vegetarianos. Por que então desejar, com obstinação, isso do homem? Por que o vegan recusa para ele mesmo e seus iguais a carne do animal morto, enquanto alimenta com carne seu cão e seu gato? … Muitas pessoas reconhecem simplesmente, e sem digressões, a necessidade para o homem, de comer animais. Pois existem espécies herbívoras, carnívoras ou onívoras, dentre as quais está a espécie humana; tal é seu patrimônio genético, sua história e seu destino. Para as espécies carnívoras e onívoras, é normal, natural e inevitável de matarem-se entre si para subsistirem, como é legítimo , além disso, que nos defendamos uns dos outros. Tal afirmação apóia-se essencialmente na fatalidade biológica que faz do homem um comedor de carne8

A predação serve então, em primeiro lugar, para legitimar a predação humana. Certo, mas não a consumação de humanos pois o canibalismo é certamente o ato que assusta e impressiona de forma profunda o humanismo: não há nada de mais degradante para nossa humanidade comum do que comer um outro ser humano!

Predação, dignidade humana e beefsteak

Visto a nobreza que confere-se à predação, não é surpreendente que a eminente dignidade que dizem ter sido conquistada pelo homem ao longo da evolução (ao longo do processo de “hominização”, como gostamos de dizer) tenha vindo em ultima instância… de seu comportamento de predador.

Tema presente também em F. Engels:

… Do mesmo modo que o costume de comer vegetais misturados à carne fez dos gatos e cães selvagens os servidores do homem, da mesma maneira, o costume de aliar a carne aos vegetais contribuiu essencialmente para dar ao homem em formação a força física e a independência (…) O homem se tornou homem devido ao regime carnívoro9

E também em J. M. Bourre, nosso cientista pró-carne já citado:

No reino animal, a atividade da caça e da predação estando ligada a performances intelectuais superiores, podemos deduzir que o homem, após o chipanzé, ao longo da evolução, se tornou uma espécie superiormente inteligente pelo fato de ter se transformado em caçador, e que, comportamentalmente, ele se assemelha aos carnívoros em muitos pontos. (…) É totalmente evidente que, no mundo vivo atual, as espécies carnívoras são mais ‘inteligentes’ do que as herbívoras. Este chamado à finalidade carnívora da espécie humana é uma conseqüência, uma passagem obrigatória, uma necessidade, uma obrigação ardente, para perenizar o corpo, o cérebro e o espírito10!

Suponhamos que admitíssemos uma tal obrigação ardente” (!) de sermos inteligentes, mas enxergo mal no que o fato de mastigar um salame possa representar uma tão grande ginástica mental! Mas se um cientista o diz…

Carne e dominação

Desta lógica cotidiana que declara que a humanidade/virilidade tenha se tornado dominante e digna de reinar ao se tornar predadora, induz-se logicamente a glorificação da carne como fator de dominação no seio da própria humanidade; pois os homens verdadeiros comem carne, enquanto os vegetarianos são legumes efeminados:

… os que comem carne sempre dominaram os que não comiam, pois a estes últimos faltava a dinâmica agressividade mental”. (…) Para Rodale, os carnívoros são os dominadores, assim como os lobos e as raposas, e os vegetarianos estariam submissos a eles, como os coelhos domesticados11.

Até uma época recente, o consumo de carne era usado para simbolizar relações de poder:

Os chefes sempre tiveram uma alimentação diferenciada da dos escravos. Os que conquistam, que comandam e que combatem se alimentam sobretudo com carnes e bebidas fermentadas, enquanto que os pacíficos, os fracos, os passivos, se contentam com leite, legumes, frutos e cereais12.

Atualmente tais alegações parecem um pouco forçadas: as relações sociais se transformaram e a expressão destes restos de ideologia feudal parece agora datada, exceto em alguns meios da extrema direita. Apesar disso, trata-se da formulação de um subtendido social que retorna com força, não somente vindo da extrema direita, mas também dos antifascistas satisfeitos desde que a alimentação carnívora é questionada: Paz, amor, liberdade, legumes” diziam as pessoas para ridicularizarem os antiespecistas13. Guerra, ódio, coerção, carne”, por outro lado, define relativamente bem a realidade do patriarcalismo e, infelizmente não é tido como ridículo. Seria isso que os antifascistas viris desejam?

Com efeito, ainda em nossos dias a maior parte dos homens come carne, os mais pobres desejam comer ainda mais, para assim ficarem persuadidos de seu status social… nos dois casos, trata-se, de preferência, do consumo da carne vermelha, que possui um simbolismo forte de violência e de dominação14.

À dominação geralmente é associada a volúpia do bom vivant; recusar comer carne, evoca penitência, a mortificação, a abstinência: os vegetarianos são quase sempre descritos como seres tristonhos, ascéticos, místicos (a abstinência), magricelas, nervosos, amorfos (legumes), femininos ou afeminados, passivos… eles não dominam a morte e se assemelham mais aos lixos doentios” que são os animais caçados.

Efetivamente, os dominantes se apropriam dos símbolos de dominação: o consumo de carne, o uso de pele, de couro… Em nossas sociedades, é geralmente o homem, o chefe da família” que corta a carne antes de servir a refeição…

Imaginamos sempre os grandes banquetes vitorianos, com o macho dominante celebrando o corte do rosbife, a mulher dominante servindo os legumes e a família enorme reunida ao redor de uma mesa sobre a qual tudo está em ordem15.

Talvez tenha-se notado que ao longo deste artigo eu falei progressivamente mais do Homem do que do Humano: com efeito, este caráter predador da humanidade é, acima de tudo, encarnada pelos seres masculinos. Em todas as civilizações as mulheres são dissuadidas de praticar a caça, pelo menos nas caças onde o sangue seja derramado16. E bem freqüentemente, elas também são excluídas do consumo da carne17.

Predação e sexismo

Desde o fim do Antigo Regime e do aparecimento do humanismo, a predação não serve mais aos potentes para legitimarem suas guerras nem aos grupos de bandidos para legitimarem seus roubos. Agora, as violências físicas entre os humanos parecem ser classificadas dentro do “natural”. Hoje em dia, a predação serve essencialmente de referência ideológica para nossa violência contra os não-humanos.

Mas é notável que as relações de predação humanos/animais sirvam ainda e sempre de quadro de referência consagrada para o relacionamento entre homens/mulheres; já notamos que, quando imaginamos o humano predador, pensamos em uma figura masculina. Para dizer a verdade, em nossa mitologia especista/sexista, as mulheres não são predadoras18, bem ao contrário, elas são presas no seio das relações sociais do gênero. É muito comum, por exemplo, que cartazes de festas estudantis apresentem fotos de um lobo humanizado na Tex Avery, que lambe os beiços ao ver uma mocinha bonita; Georges Moustaqui cantava os amigos de Georges caçam as moças nos parques”. Um homem que paquera uma mulher, é um homem que caça, etc. Trata-se realmente de um clichê do nosso imaginário. E as agressões e o medo continuam sendo a realidade comum das mulheres…

Predação e liberalismo

Um outro uso ideológico que é feito da predação e da referência à ordem das coisas” consiste a legitimar o capitalismo como transcrição na ordem do social da luta de todos contra todos” que existiria no seio da Natureza. E ainda bem mais, como Nossa Mãe Natureza funciona através da predação e da morte – mas nos permite assim de existirmos – o capitalismo e, geralmente a vida em sociedade implica, infelizmente, que haja perdedores. Sem dúvida é necessário que compreendamos que nós somos os sobreviventes no seio destes sistemas impiedosos; devemos, para sobreviver, continuar sendo cúmplices e calar nosso desejo de solidariedade. Não há alternativa possível, pois trata-se do sistema em seu conjunto. Ele foi criado assim, acreditar o contrário seria puro idealismo (irrealismo) e levaria ao caos.

Felizmente, neste terrível quadro, uma luz: aqueles que sofrem e sucumbem ao longo do caminho não sofrem inutilmente, eles se sacrificam para que o Todo continue a caminhar, quer dizer, e em última análise, para nós. Finalmente, tanta miséria trabalha de maneira escondida (mas de modo perceptível para quem quer enxergar) para a realização de um Bem superior:

Ainda que exista uma variedade imensa de criaturas e que cada indivíduo pareça agir como para si próprio, e ter em vista seus objetivos pessoais; entretanto… todos juntos… conspiram, neste caso, para a força ou a comodidade, e para a beleza, a harmonia ou a perfeição do todo; e, contribuem, de uma certa maneira, em um certo grau, para a vantagem e a felicidade uns dos outros19.

Este elogio da predação data de 1745 e é contemporâneo dos primeiros discursos ético-políticos de justificação do liberalismo: se deixarmos cada um vagar de acordo com sua vontade, disso resultará o melhor para a comunidade/totalidade, quer dizer, mais ou menos diretamente para cada um. É a mão invisível” (Adam Smith: Uma investigação sobre a natureza e as causas da riqueza das nações) que regula espontaneamente as coisas levando em conta o melhor interesse de todos. Que se trate do elogio liberal do capitalismo e da economia de mercado, ou do discurso a gloria da harmonia natural”, em ambos os casos insiste-se massivamente nos benefícios do jogo dos interesses privados (individuais), concorrência econômica em um caso, predação no outro, e esquecemos facilmente alguns de seus inconvenientes.

Aparentemente, o discurso do liberalismo é construído de acordo com o mesmo modelo que o da predação. Nos dois casos coloca-se em evidência sobretudo o interesse do Todo, Natureza ou Sociedade, sem definir o que poderia ser este interesse.

Mas, ao examinarmos de forma mais atenta, creio que há uma diferença importante entre as duas afirmações: o discurso liberal é uma justificativa e se refere ao Bem Comum para legitimar a liberdade individual, que é essencial. Aos olhos do humanismo, os humanos são considerados como indivíduos e seres livres, não o esqueçamos. O discurso sobre a predação, por outro lado, não é uma justificativa (porque a Natureza não tem que se justificar) e visa, sobretudo, demonstrar que a individualidade dos animais é uma ilusão, que quando acreditamos que eles procuram um benefício pessoal, isso acontece para o maior benefício, que é o funcionamento do Todo. Ao contrário, os não-humanos analisados dentro da ideologia naturalista, seriam apenas peças não individualizadas e naturalmente determinadas para contribuir à harmonia do Todo.

O especismo, um colosso de argila?

No presente artigo, repeti temas que já tinham sido abordados antes. Entretanto, há ainda muito a ser dito. Isso me parece necessário, por causa da importância do tabu que deve ser quebrado. É necessário que nos seja mostrado a que ponto a visão que temos espontaneamente” sobre a predação é, na verdade, uma percepção ideológica, e em que visão do mundo ela se integra e se impregna de sentido.

O discurso sobre a Natureza” diz livremente sobre seres infinitamente desprezados o que ninguém ousaria expressar abertamente e em voz alta sobre os seres humanos – mas o que cada um pensa (com força) e em silêncio: a força da hierarquia, o respeito pelo mais poderoso, o desprezo pelos fracos e perdedores, a relação de submissão mística à ordem das coisas” desigual… O modo como o humanismo representa a Natureza” também desnuda a ideologia cômoda mas bem real de uma sociedade fundada sobre dominações (das quais recusa, com artifícios, admitir a existência).

O especismo, ou naturalismo humanista, é uma ideologia total”, no sentido em que coloniza praticamente todos os aspectos de nossa visão de mundo: toda nossa civilização é construída sobre o pedestal de nossa dominação sobre os outros animais.

Hoje em dia este pedestal está rachando e isso mostra que o colosso é feito de argila; somos cada vez mais numerosos a afirmar, como Théodore Monod, no dia 9 de abril de 1997, no programa La Marche du Siècle:

Sonho com o fim das guerras, e não apenas daquelas que os humanos travam entre si; sonho com o fim das guerras que os homens engajam contra os outros animais, e sonho também com o fim das guerras que os animais travam entre si.

NOTAS

1 Cf. meu artigo L’Animal, l’Homme, la Nature, la Société… et moi dans tout ça?” no folheto Nous ne mangeons pas de viande pour ne pas tuer d’animaux, 1992. Cf. igualmente de minha autoria De l’appropriation… à l’idée de Nature”, Cahiers antispécistes n°11, décembre 1994.

2 Cf. Y. Bonnardel, L’Apartheid des espèces”, Cahiers antispécistes n°14, décembre 1996.

3 Cf. D. Olivier, La Nature ne choisit pas”, Cahiers antispécistes n°14, décembre 1996.

4 A. Lindbergh, Lorsque les singes hurleurs se tairont, Presses de la Cité, 1976, p. 152.

5 Creio que os adeptos dos regimes autoritários não preferiam a repressão unicamente para fazerem reinar realmente a ordem (social), mas também para satisfazerem sua busca mística da Ordem: para melhor fazê-la reinar simbolicamente.

6 David Olivier, Le goût et le meurtre”, CA n°9, janvier 1994.

7 ARAP (Amis des Renards et Autres Puants) é uma associação especializada de proteção dos pequenos predadores, que simula a sociedade unindo os humanos aos outros” predadores. Os caçadores utilizam o mesmo esquema, mas para defender o direito de caçarem. Os dois grupos fizeram campanhas de adesivos muito parecidas: uma raposa diz: Não atire, eu sou um caçador como você” (ARAP), uma outra raposa afirma A caça é algo natural!” (Chasse-Nature-Environnement). Caçadores e ecologistas comungam da mesma crença da existência de uma ordem natural, da qual a predação seria a peça principal.

8 Jean-Marie Bourre (Diretor de pesquisa do INSERM e especialista em neuro-biologia e em propaganda para a carne), De l’animal à l’assiette, éd. Odile Jacob, avril 1993, p. 233. Como nesta citação, suas frases não significam muita coisa por si próprias, e seus comentários valem o quanto pesam em termos de besteiras especistas.

9 Friedrich Engels, O papel do trabalho na transformação do macaco em homem” (1876), in Dialectique de la nature citado em Carnivorisme, hygiénisme et être humain” (pequeno texto místico naturalista traduzido em francês por F. Bochet) de Flaviano Pizzi, in Emergenza n°1, avril-août 1980.

10 J. M. Bourre, op. cit., pp. 240-241; sua primeira frase é a repetição idêntica de uma frase de Chapouthier (membro da Liga Francesa pelos Direitos dos Animais, promotor da Declaração Universal dos Direitos do Animal) em Au bon vouloir de l’homme, l’animal, Denoël, 1990, p. 153. Bourre em seguida explicita de forma desajeitada o que Chapouthier tinha preferido deixar implícito…

11 J. I. Rodale, System for mental power and natural health, USA, 1967, citado em Carnivorisme…”, op. cit. Rodale ele também sustentava a tese que os carnívoros são mais inteligentes… Ora, para o humanismo, a inteligência é signo de superioridade ontológica.

12 Alexis Carrel, L’Homme, cet inconnu, éd. Plon, 1935; citado por Coeurde Richard, Voyage en Lepénie”, revue Silence, n. 158, octobre 1992.

13 Nós não comemos antiespecistas para não matar animais”, Réflex n°40, oct. 1993.

14 Cf. mon La consommation de viande en France: contradictions actuelles”, Cahiers antispécistes n.13, décembre 1995.

15 Peter Farb e Georges Armelagos, Anthropologie des pratiques alimentaires, Denoël, 1985, p. 235. O narrador encontra aqui espontaneamente referências implícitas à predação através de um vocabulário geralmente usado para os não-humanos macho dominante” é a biologização/etologização do chefe de família”.

16 Alain Testart, Essai sur les fondements de la division sexuelle du travail chez les chasseurs cueilleurs”, Cahiers de l’Homme, éd. de l’EHESS, Paris, 1986, p. 89.

17 A tese da origem do poder masculino a partir do controle do alimento de origem animal foi exposta por Friedl Ernestine, Society and Sex Roles” (Sociedade e papéis sexuais”), em Human Nature, vol. 1, n°4, 1978; citado por Farb et Armelagos, op. cit.

18 Lembremo-nos, por exemplo, do sentimento de estranheza que sentimos quando tomamos conhecimento que são as leoas que caçam e não os leões. Mas tudo entrou na ordem (natural) de nossos pressupostos sexistas quando ficamos sabendo que os leões comem antes. As fêmeas devem esperar, juntamente com os filhotes, até que o macho esteja satisfeito. Ainda que não cacem, continuam sendo os dominantes.

19 Citado por Keith Thomas, Dans le jardin de la nature, La Mutation des sensibilités en Angleterre à l’époque moderne (1500-1800), éd. Gallimard, 1985.

* N. E.: O título original do artigo é “Qui va à la chasse garde sa place”, uma inversão do provérbio francês “Qui va à la chasse perd sa place”, cuja tradução literal é “Quem vai à caça perde o lugar”.

Tradução: Anna Cristina Reis Xavier


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Para acabar com a idéia de Natureza, e reatarmos com a ética e a política

As pessoas sempre repetem que o que é natural é bom1. A Natureza é uma ordem harmoniosa onde cada coisa está em seu devido lugar; e por isso não devemos nos intrometer. Ela inspira um sentimento religioso de respeito, no sentido de adoração e temor (como de submissão frente a tudo que nos parece poderoso e perigoso).

Entretanto, se a natureza designa tudo o que existe, nada pode ser considerado contra-natura. Se “contra natura” designa uma parte do que existe, então faz sentido falarmos de “contra natura” somente se supormos que esta natureza não apenas existe mas sim é o centro de uma finalidade. Ora, nada sustenta este ponto de vista. A ciência após Darwin não se manifesta sobre esse ponto2. O único apoio da existência de uma tal finalidade continua sendo a fé (a simples fé na ordem natural ou a fé religiosa). Além do mais, a existência de uma entidade “Natureza” munida de uma finalidade, não resolveria o problema ético: a existência da Natureza (ou de Deus) não implica que devamos nos submeter à sua vontade.

Cultivar em si um sentimento de “respeito” ao que parece ser uma potência, e de submissão a uma ordem (ainda que fantasiada como “vontade de harmonia”), não parece algo de bom augúrio… apesar disso, a idéia de natureza continua onipresente nos discursos normativos. Na prática, nossa atitude é mais ambígua: às vezes os humanos denunciam com indignação o que consideram contranatura, outras vezes celebram as conquistas que permitiram à humanidade escapar dos rigores de sua condição primitiva. Ninguém deseja realmente que imitemos a natureza em todos os sentidos, mas, por outro lado, ninguém renuncia de bom grado à idéia que a Natureza deva nos servir de exemplo ou de modelo. As considerações sobre o que seja contra-natura e o que é natural (considerado o que é normal, sadio, bom…) freqüentemente vêm impedir a reflexão sobre o que é bom ou mal de se fazer, sobre o que é desejável e porque, em função de quais critérios. A idéia da natureza “polui” os debates morais e políticos…

A reverência pela ordem natural

O natural continua fortemente associado a julgamentos de valor. A publicidade utiliza a palavra “natureza” para designar ou evocar aquela noção que possui uma conotação positiva: campo, saúde, tradição, eternidade, força, autenticidade, sabedoria, simplicidade, paz, esplendor, abundância… O sentimento da natureza traz um “suplemento de alma” bem vindo ao mundo mercantilizado e participa assim do “reencantamento do mundo” capitalista: quando se trata de vender algo, tudo se transforma em “natural”.

A ideologia do “respeito pela natureza” triunfa cada vez mais sobre a idéia da vitória sobre a natureza; ainda que uma seja o próprio espelho da outra. Os “progressos” das ciências e técnicas são habitualmente aplaudidos como etapas na Longa Caminhada do Progresso, enquanto que, ao mesmo tempo, repetimos palavras alarmistas sobre os riscos que corremos quando brincamos de “aprendizes feiticeiros”. Nos dois casos, recorremos aos mitos (o Progresso versus o “gênio do Homem”). Não se reflete muito sobre o caráter positivo ou negativo das conseqüências geradas para os seres que estão envolvidos no processo. A dosagem das duas atitudes parece totalmente arbitrária: hoje em dia, a genética e as biotecnologias são as principais vítimas do reflexo “prónatureza”, especialmente quando elas dizem respeito à reprodução humana. Outras inovações médicas são classificadas sem sentimento algum como estando do lado do progresso. Que esta distinção emane de uma reflexão sobre as conseqüências possíveis de umas e de outras seja suficiente para explicar por que ajudar um casal a colocar no mundo uma criança através de fecundação in vitro provoque “graves problemas éticos”, enquanto que, antes da concepção, corrigir problemas de esterilidade não provoca nenhum debate ético ? Tudo acontece como se tivéssemos decretado que alguns setores pertencessem à ordem do sagrado: a natureza previu um processo preciso de reprodução e estaríamos expostos a sanções terríveis se não nos conformarmos a ele.

Reações da mesma esfera são manifestadas episodicamente nos campos mais diversos. De repente, o temor inspirado por qualquer ameaça nova reanima a idéia que a Natureza é quem manda e pune. Assim, a inquietude suscitada pela transmissão aos humanos da encefalopatia espongiforme bovina (a “doença da vaca louca”, N.T.) fez as pessoas falarem que a desgraça ocorreu porque permitimos alimentar animais naturalmente herbívoros com farinhas animais3.

Atualmente ressurge um pensamento religioso laico graças à substituição da palavra Deus pela palavra Natureza. Este pensamento pode ser percebido nos discursos que tendem a valorizar o respeito dos equilíbrios naturais como um valor em si. Em um primeiro sentido, o equilíbrio é um termo puramente descritivo. Ele designa um estado de imobilidade ou de permanência: as relações que os elementos de um ecossistema mantém são tais que ele conserva sua estrutura, os seres que o3 compõem são invariáveis ou renováveis de forma idêntica4. Na linguagem familiar, entretanto, a palavra equilíbrio designa mais do que este estado particular (de repouso em relação ao movimento), para encarnar o sentido de um estado ideal. O equilíbrio dos ecossistemas se transforma em “ordem natural” ou em “harmonia natural”. A noção da ordem evoca um sistema onde cada ser ou categoria de seres se encontra em seu justo lugar. A de harmonia faz pensar em um estado de união ou concórdia, onde cada parte se acomoda da melhor forma com as outras para contribuir com a beleza do todo5. Estas palavras fizeram nascer a imagem de uma Natureza ordenadora do mundo para o bem de suas criaturas, ainda que fazendo-as sentir o perigo que ocorreria ao atrapalhar a perfeição. Na medida em que a crença não é formalizada, pensamos ser mais adaptado falarmos de mística da natureza em vez de imediatamente evocarmos a palavra religião. Onipresente, ela está como dissolvida na vida social: formando um dos barulhos de fundo de nossas existências, ela é formulada explicitamente como sistema apenas por alguns. Estes são a voz de uma religiosidade que se distingue das religiões tradicionais no que ela é perfeitamente em harmonia com a sociedade moderna: uma religiosidade individual mas comum, comum mas não coletiva. Uma mística difusa, que os indivíduos atomizados elaboram, e que celebram geralmente de maneira individual, em sua própria intimidade – na laicidade.

Tal mística vai bem: uma boa parte da população classifica as atividades ou as realizações humanas em “naturais” (ou boas, originais, autênticas…) e artificiais (degeneradas, desnaturadas, más…). Se alguns se agrupam em associações de “proteção da Natureza” ou nas lojas de alimentos orgânicos (e excomungam os remédios, as pílulas, a química e o cimento…) mais numerosos ainda são os crentes não praticantes. Várias pessoas sentem assim a crise ecológica atual em termos naturalistas: nossa espécie, vista como grupo biológico, proporcionaria um questionamento sobre si própria. De alguma forma a humanidade seria maldita e somente poderia, pela sua essência, “destruir a natureza”. Este modo de abordar problemas bem reais escamoteia a questão das relações sociais (é para isso mesmo que serve invocar a natureza) e não permite buscar soluções concretas, políticas: com evidência não são todos os humanos nem todas as atividades sociais que possuem o mesmo peso destrutivo sobre nosso meio ambiente e nossas vidas… Quanto ao fato de acreditar que os “primeiros” povos, aparentemente “próximos da natureza” (por que não dizer simplesmente, como no bom tempo da colonização: povos “primitivos” ou “naturais”?) poderiam nos ajudar ao nos legar uma espécie de “sabedoria original”… Talvez seria mais útil falarmos novamente das relações sociais, de exploração, de capitalistas, e das relações patriarcais, etc?

Quanto a nós, não vemos na natureza (na realidade) nem harmonia, nem modelo a seguirmos, nem fonte de castigos úteis ou merecidos: poderíamos detalhar “seus” malefícios para com os humanos ou outros animais. Poderíamos também detalhar as tentativas feitas para justificar as infelicidades que ela causa para justificar os benefícios que podem daí resultar; tentativas que podemos imputar ao esforço desesperado de teólogos que desejam apoiar que a Criação é sempre boa pois é obra de Deus. Na realidade, nós não pensamos que a Natureza exista, que o mundo seja ordenado, equilibrado, harmonioso, que as coisas tenham um lugar natural, nem que exista uma ordem natural das coisas. A noção da “realidade” é suficiente para nós, ela é descritiva e não prescritiva como o é a da “natureza”. Imaginamos atos que “contradigam a natureza”; mas atos que “contradigam a realidade”? Não violamos a realidade, nem a transgredimos: livres do temor religioso, somos livres para refletir sobre o que é bom ou mal para ser feito.

Natureza e ética : o salto do “que é” ao que “deve ser”

Imaginamos de bom grado que as coisas possuam uma essência que as faz como são e não outra coisa, que possuem uma tal propriedade e não outras; que elas têm uma outra “natureza” que lhes é própria, que organiza suas características, seu crescimento, seu destino e que garante que elas ficarão no lugar que lhes é destinado na “ordem do mundo” e que elas consolidarão seu papel; “Mãe Natureza” é vista como aquela que outorga a cada elemento considerado natural, sua natureza. Associamos uma finalidade a esta suposta “natureza” das coisas, os seres compõem uma categoria “de mesma natureza” são feitos para alguma coisa ou destinados a comportarem-se de uma certa maneira. Apenas ao realizarem aquilo para que são feitos que eles realizam sua verdadeira natureza. Assim, um gato deve realizar sua natureza de felino, ou de carnívoro. Se não age conforme esta natureza será visto como um “degenerado”…

As essências são fundamentais, não devemos mexer nisso. Assim, não devemos misturar as coisas declaradas de essência (natureza) diferente. O mesmo tipo de pensamento faz pessoas odiarem a miscigenação de raças. A natureza das coisas não deve ser “alterada” a não ser que se corra o risco que a ordem mantida seja dissolvida no caos. Este imaginário mitológico condena as biotecnologias pois elas criam quimeras, ao misturarem as fantasmagóricas fronteiras naturais entre as espécies ou, no caso da clonagem humana, são vistas como profanadoras de uma sacro- santa unicidade6. Aqui ainda, entretanto, o problema não é de saber se as conseqüências de nossas atividades são naturais ou artificiais, se elas “violam as leis da natureza” (se elas transgridem uma fronteira natural – como pressupõem-se ser a fronteira das espécies), mas sim avaliar se elas são nocivas ou não, perigosas ou não e para quem. Questionarmos, em termos de uma ciência artificial industrial moderna maldosa, que seria oposta a uma sabedoria natural artesanal tradicional boa, impede raciocinarmos em função de critérios racionais. Principalmente, no tocante às novas tecnologias, o que desvia com freqüência a atenção deste problema político fundamental que é o fato de não serem as populações que decidem do futuro que terão (poderíamos até falar o mesmo do futuro mundial). Essas populações não possuem meios para operarem. Uma crítica similar vale para o movimento da agricultura “biológica” que, apesar de sua boa vontade, acentua principalmente a crença do “que é natural é que é bom” e não em questões éticas e políticas de propriedade dos meios de produção e de distribuição, ou de diminuição sustentável do crescimento com fins ecológicos e para a partilha das riquezas.

Ao determinar uma natureza aos seres, afirmamos ou um direito, uma finalidade ou um dever de agir de certa maneira. E isto da maneira mais arbitrária possível. Assim, o fato que as mulheres possam gerar filhos, freqüentemente levou à idéia de que elas deveriam gerar filhos ou que a verdadeira natureza feminina apenas seria realizada na maternidade. O fato dos órgãos sexuais dos machos e das fêmeas permitirem a procriação foi interpretado como uma ordem da natureza (ou de Deus) exigindo que sirvam apenas a isso7. Por outro lado, o fato da boca ser um ponto de entrada para a ingestão de alimentos raramente conduziu os moralistas a desaprovarem os que servem da boca para tocarem clarineta. A natureza, é a norma.

Com a maior freqüência, o que é percebido como sendo natural é apenas o que é comum ou admitido no seio de uma determinada sociedade – em particular naqueles que se encontram em posição dominante: quando não é mais por direito divino, é por um fato da natureza que os adultos têm o dever de administrar a vida das crianças, os homens de dirigir a vida das mulheres, os brancos de “civilizar” os negros ou outras “raças”, os “humanos” de reinar sobre outras “espécies”, etc. Os dominados o são por natureza, os dominantes também são assim por causa de sua natureza8. O discurso é brutal, mas eficaz. Aí ainda, a evocação da Natureza permite fazer economia de uma discussão argumentada, sobre nossos valores e sobre as escolhas que daí decorrem. Não há mais o que debater, as escolhas estão feitas.

Natureza e discriminações intra-humanas

Peguemos a noção de raça; o problema não é que nos tenhamos divertido a distinguir as variedades dos humanos (os de pele negra, os de pele branca, os que possuem olhos rasgados ou não, as morenas e as castanhas, etc.), acontece que “naturalizamos” certas classificações (as que ofereciam um interesse político): a “pele negra” se tornava o sinal de uma raça, uma raça sendo, na realidade uma natureza (um modo de ser). Ter a pele negra deixava desde então de ser uma característica, uma propriedade entre outras de um individuo, para significar uma essência, uma afiliação a uma categoria englobante: o indivíduo pertence conseqüentemente a uma classe, que o determina por inteiro; ele se torna o representante dela. Ele não tem mais uma pele negra, ele é negro. Evapora-se assim toda individualidade, ele torna-se um espécime que exprime em primeiro lugar sua categoria. Isto vale, logicamente, sobretudo para os dominados: se os negros são essencialmente negros, os brancos são brancos, claro, mas eles não se reduzem à sua cor de pele.

Da mesma forma quanto à questão do sexo: eu não tenho tal ou tal sexo, que constituiria uma de minhas particularidades, mas eu sou de tal ou tal sexo. Estima-se que meu sexo diga tudo o que eu sou. E isso é ainda mais verdadeiro para as mulheres. Tota mulier in utero: a mulher é inteiramente definida pelo seu útero. Quanto aos homens, eles continuam plenamente humanos, encarnam a espécie, a universalidade, enquanto as mulheres são específicas, particulares, diferentes.

Do mesmo modo, as crianças são crianças, e suas reações são percebidas apenas como expressões de crianças, e não como de indivíduos; os adultos, eles serão plenamente humanos, individualizados. Eles são a norma…

Infelizmente muitos anti-racistas ou anti-sexistas recusam dar cabo à idéia de que temos natureza e tentam simplesmente desagregar a pertinência das categorias de sexo e de raça ao tornar seus contornos indeterminados, vagos. Esta tática é particularmente evidente no que diz respeito ao racismo quando ela se resume na fórmula: “as raças não existem, há apenas uma raça humana”. Quanto ao sexismo, a afirmação equivalente “os sexos não existem” é por demais abrupta, mas a proposição segundo a qual “nós todos temos um lado feminino e um outro masculino” é um substituto freqüentemente usado. Estas formas de argumentação têm em comum o fato de poderem ser feitas sem questionar-se duas características fundamentais do ponto de vista “naturalista”: a transformação dos indivíduos em seres que trazem em si a essência de sua categoria, e a justificação do status ético dos membros deste grupo pelos traços naturais que são considerados seus correspondentes. A opinião atual não quer renunciar a procurar sua justificação nas intenções da natureza, nem contestar a pertinência moral dos limites “naturais”.

Natureza e especismo9

De fato, existe um terreno onde a opinião majoritária não pode ser explicada de outra forma a não ser pela adesão a estes dois postulados, ainda que aqueles que estejam de acordo tenham raramente consciência disso. Trata-se da definição de quais seres deveríamos nos preocupar (os “pacientes morais”)? Quais deveríamos “não matar”, “não fazermos sofrer”, “não tratarmos como um simples meio para chegarmos a nossos fins”? Geralmente a resposta é: os seres humanos, enquanto deveria, logicamente ser: todos aqueles que possam sofrer com esses comportamentos. Há poucos indivíduos onde uma “diferença natural”, devido à espécie à qual pertençam10, seja usada com tão pouca precaução como uma fronteira moral. Para aqueles que excluímos dessa maneira, admitimos que seu bem se confunda com “aquilo que a natureza reservou para eles” mas também assimilamos com o que podemos obter deles: os gatos são feitos para pegar os ratos, os carneiros para serem tosados e os frangos para serem assados.

Há então uma ou várias particularidades naturais que justificam, de modo evidente, que não nos preocupamos nem um pouco com os interesses dos seres sensíveis desde que estes não sejam humanos11? O simples fato de questionarmos isso é freqüentemente julgado como um sacrilégio. Todavia, se consideramos os membros concretos da espécie, temos a maior dificuldade em encontrarmos uma particularidade que seja ao mesmo tempo exclusivamente humana e presente em todos os humanos. Os traços distintivos que são geralmente apontados não pertencem a todos os humanos. Eles caracterizam o “humain type”, uma natureza humana que satisfizemos em esboçar para as necessidades da causa (e que corresponde ao humano adulto e saudável mentalmente). Inclusive a própria definição do “humano” continua sendo extremamente vaga. Os fetos são humanos? Quid os espermatozóides ou os óvulos? Quid os indivíduos que se encontram em estado de coma irreversível, que somos obrigados a declarar em estado de “morte clínica” (que continuam indubitavelmente vivos) para que se autorize que as máquinas sejam desligadas? Assim, o critério do humano não corresponde em nada a uma definição científica que seria aceitável para cada um, independentemente de seus pressupostos filosóficos ou teológicos. É igualmente importante notarmos que os traços destacados para justificar a discriminação contra os não-humanos (a inteligência, a razão, a liberdade, o fato de ter “saído da natureza”, etc.), não apenas são bastante indefinidos mas, sobretudo, não mantêm nenhuma relação com o que esperam justificar. Devemos nos sentir felizes, porque tais traços não são levados a sério quando se trata de analisar vários seres humanos que não são nem inteligentes, nem racionais, nem livres… De forma estranha, estes mesmos argumentos são aceitos sem hesitação desde que se trate de animais: não temos nenhum escrúpulo em tratá-los de uma tal maneira, que, a cada dia, na França, milhões dentre eles sintam medo, angústia, sofrimento, tédio, cólera. Nossas práticas ocasionam sensações – dolorosas, cruéis ou insuportáveis – que nunca desejaríamos sofrer em nossa própria pele. Se levássemos a sério estas contradições, poderíamos mudar nossas práticas individuais e coletivas para, imediatamente acabarmos com a maior parte destes sofrimentos.

Há mais de dois séculos, Jeremy Bentham resumia nestes termos as objeções que suscitam uma atitude especista:

“Os franceses já perceberam que a pele morena não é razão para abandonar sem recursos um ser humano aos caprichos de um perseguidor. Talvez notem, um dia, que o número de pernas, a pilosidade da pele ou a extremidade do osso sacro são razões de longe insuficientes para abandonar uma criatura sensível á mesma sorte. (…). O que mais deveria determinar a linha insuperável? A faculdade da razão, ou, talvez, a capacidade de falar? Mas um cavalo ou um cão adultos são animais incomparavelmente mais racionais e mais falantes do que uma criança de um dia, de uma semana ou até mesmo de um mesmo. E ainda que não o fossem, o que isso mudaria? A questão não é saber se são capazes de raciocinar ou falar, mas, sim, se são passíveis de sofrimento”12

O dia da libertação ainda não chegou e hoje, assim como ontem, os animais continuam sendo vítimas de uma discriminação arbitrária tanto quanto as discriminações racistas e a exploração – onipresente, massiva, feroz – que daí resulta e por esta razão é tão injustificável quanto a escravidão. Essa discriminação é um pedestal sobre o qual nossa civilização foi construída. Podemos pensar que se o naturalismo ocupa ainda essa posição fundamental em nossa cultura, é em grande parte por que continua sendo insubstituível para justificar o especismo.

Parece que nossa humanidade se valoriza na proporção em que desprezamos os animais. Ela se define inteiramente como diferente da “animalidade”, quer dizer, com estes representantes designados de uma Natureza à qual ela se opõe metodicamente: os humanos são indivíduos que possuem um valor intrínseco, têm uma história, são racionais, conscientes e livres. Emergiram brilhantemente do “estado de natureza” enquanto os animais são os mecanismos funcionais da ordem (a Natureza), amostra de sua espécie, inteiramente guiados por seu instinto13 e prisioneiros de sua naturalidade, sem esperanças de remissão. Recortamos, no mundo real, dois impérios que se definem um por oposição ao outro: um, reino da liberdade e da individualidade, de dignidade exclusiva; o outro, reino do determinismo e da funcionalidade, da falta de valor próprio. Nós aceitamos então uma moral dupla, vinda do essencialismo cristão: uma moral de igualdade no seio do grupo “biológico” da espécie humana e uma moral inteiramente elitista, hierárquica, em relação aos indivíduos de outras espécies. É sobre a base do “elemento” hierarquizado de nossa moral que são elaboradas as discriminações racistas ou sexistas: basta minimizar o grupo dos “iguais” naturalizando as categorias visadas para excluí-las, fazê-las passar do outro lado da barreira. Prova suplementar do extremo arbitrário (e da grande periculosidade) destas noções de Humanidade e de Natureza, entretanto imaginadas como fundadoras de nossa ética e nossa política.

De fato, se há diferenças radicais a serem estabelecidas, estas não residem nas oposições entre natural e humano, natural e social, natural e artificial, inato e adquirido14, etc. De um ponto de vista científico, filosófico, tanto quanto ético, não é esta distinção entre supostos “seres de liberdade” e “seres de natureza” que agora parece pertinente, mas sim a diferenciação estabelecida entre uma matéria sensível e uma inanimada, entre estas coisas reais que sentem sensações e desejos e por causa disso agem em função dos fins que lhes são próprios, e estas outras coisas que nada sentem, não possuem interesses, para as quais nada tem importância, que não imputam nenhum valor aos acontecimentos e nenhuma finalidade à sua própria existência. Entre os seres sensíveis e as coisas insensíveis, para resumirmos: entre os animais e as pedras ou as plantas. Mais ainda do que a existência de uma consciência reflexiva, o “simples” fato que a matéria possa, em alguns casos se revelar capaz de sentir sensações e, além disso um impressionante enigma, e a explicação deste mistério será sem dúvida o desafio que as ciências ao longo deste início de século terão que resolver.

São as coisas vivas sensíveis que dão valor ao fato de viverem. Os únicos valores que existem objetivamente são os que cada ser sensível dá à sua própria vida, a seus momentos vividos e ao mundo que o circunda. Neste sentido, o mundo não é provido de sentido, não é absurdo, mas possui um sentido; ou melhor, possui vários! Sentidos que não resultam de uma totalidade, mas de cada um dos seres que, separadamente, porque sensíveis, dão um sentido ao mundo que lhes é próprio (ao seu próprio mundo). As únicas coisas que possuem um valor por si próprias são estes seres sensíveis: nós todos que sentimos o mundo, que sentimos nossa vida, que sentimos dor e prazer, o desejo e a repulsão, que conhecemos a intenção, a vontade e a recusa. Todos nós: não apenas os humanos, mas o conjunto dos seres dotados de sensibilidade.

A sensibilidade foi desvalorizada pois foi excluída dos valores destacados pelo Humanismo (a Razão, a Liberdade, etc.). Nestas últimas décadas, constatamos, entretanto, uma evolução em direção à uma conscientização maior com o sofrimento e com o prazer enquanto tais. Sabemos que hoje em dia os tratamentos paliativos para os humanos e também para os animais de estimação se desenvolvem, enfim, e que não se quer mais, por exemplo, operar os recém nascidos sem anestesia15. Do mesmo modo, as pessoas começam a se preocupar com o bem estar dos animais da pecuária. Estamos, lógico, longe de uma reivindicação de igualdade de consideração dos direitos, mas é notável que uma nova preocupação apareça no campo das afeições, das sensações e das emoções, uma valorização do sensível enquanto tal. Pensamos que trata-se do surgimento de um movimento que tem suas raízes nos séculos precedentes, que admitiram principalmente a sensibilidade ao sofrimento (o próprio e o dos outros) e que vem progressivamente crescendo em importância. Este movimento de atenção crescente à nossa vida sensível poderia ser qualificado de “sensibilista”… mas não procure no dicionário, a palavra ainda não se encontra nele.

Acabar com a idéia que fazemos da Natureza e nos reconciliarmos com a ética e a política

A regra “obedecer à natureza” é vazia em termos de sentido. Através de amálgamas (especialmente a mudança quase imperceptível e ilegítima entre dois sentidos perfeitamente distintos da palavra “lei”, que designa seja uma regularidade, seja um comando) que uma corrente de pensamento multiforme pretende fundar uma ética sobre o “respeito” da “ordem natural” ou sobre a obediência às “leis da natureza”. Voltar a esta idéia de natureza é apenas uma retroação ou um lembrete sobre a ordem.

As idéias recebidas se propagam escapando a todo questionamento crítico. Mas as proposições vazias ou falsas não se tornam verdadeiras só por estarem sendo muito repetidas. Elas constituem um perigo pois oferecem uma linha de conduta ilusória ou falsa frente a problemas bem reais. Invocar a natureza em vez de invocar princípios claros de julgamento é uma das maiores enfermidades que aleijam numerosos movimentos contemporâneos que desejam melhorar o mundo.

Invocar um critério de naturalidade em vez de evocar um critério de justiça, permite o estabelecimento de todas as injustiças. A ética é a procura do bem. A única ética digna deste nome é a que se aplica a todos os seres, a quem podemos fazer bem ou mal, quer dizer, a todos os seres conscientes (sensíveis). Isto emana do princípio de justiça ou de eqüidade: a igualdade, por definição, recusa toda discriminação arbitrária.

Atualmente muitos preferem ficar mergulhados na nostalgia de uma “idade de ouro” ou de “modos de vida tradicionais harmoniosos” que jamais existiram, em vez de lutarem aqui e agora para o começo de mundos que se preocupem com outros mundos, com todos os outros. A política, se quer se fundar na ética, não tem mais nada a ganhar ao basear seus valores no sentimento da natureza.

Felizmente, não há nenhuma fatalidade naturalista: não faz parte da “natureza” de se preferir uma pequena reverência à Ordem do que um debate aberto e contraditório sobre o que é justo ou não de se fazer.

NOTAS

1 Este artigo contem passagem tiradas – com o acordo da autora – do prefácio de Estiva Réus sobre sua análise feita sobre o ensaio A natureza de John Stuart Mill (A Descoberta, 2003). Esta análise de Mill, cuja primeira edição apareceu em 1874, oferece uma incrível análise crítica das doutrinas que “fazem da Natureza um critério do justo e do injusto, do bem e do mal, ou que de uma maneira ou em um grau qualquer aprovam ou julgam meritórias as ações que seguem, imitam ou obedecem a natureza” (p. 55). Geralmente, as análises desenvolvidas a seguir devem muito às reflexões feitas no seio do movimento pela igualdade animal.

2 Ver a obra coletiva “Espèces et éthique. Darwin, une (r)évolution à venir”, éd. tahin party (“Espécies e ética. Darwin, uma (r)evolução futura”, edições tahin party), 2001. As versões da biologia, da ecologia ou da teoria da evolução que aprendemos na escola, cujos resumos vulgarizados lemos nas revistas (inclusive naquelas científicas), aquelas que escutamos falar no rádio ou na televisão, são geralmente saturadas de menções naturalistas, finalistas e holísticas.

3 Por outro lado, a prática rotineira da inseminação artificial feita nas mesmas vacas não escandalizou nem a opinião publica nem agitou os comitês de ética. Quem se incomoda com o que as vacas sofrem?

4 Apesar de seu sucesso quanto ao pensamento ambientalista, a noção de equilíbrio natural não corresponde provavelmente a nenhuma realidade. Cf. Daniel Botkin, Discordant Harmonies, A New Ecology for the Twenty-First Century, Oxford University Press, 1990.

5 É interessante constatarmos que a noção de “ordem natural” é contemporânea aos regimes políticos e sociais explicitamente autoritários, enquanto que a noção de  “equilíbrios naturais” é mais contemporânea das democracias parlamentares. A idéia da natureza foi, com muita freqüência, uma projeção de nosso próprio modo de vivermos em sociedade. Mantemos uma visão da natureza praticamente totalitária, onde os indivíduos existem apenas enquanto mecanismos e funções no seio de uma ordem totalizadora.

6 Para uma crítica dos implícitos contidos nos discursos humanistas contra a clonagem humana, verifique o artigo de David Olivier, “Alors, on pourra les manger?” nos Cahiers antispécistes n°15.

7 Lemos, por exemplo, no Catequismo da Igreja Católica sobre as relações homossexuais: « Apoiando-se na Santa Escritura que os apresenta como depravações graves, a Tradição sempre declarou que “os atos de homossexualidade são intrinsecamente desordenados”. São contrários à lei natural. Neste tipo de ato sexual fica limitado o dom da vida. Tais atos sexuais não resultam de uma complementaridade sexual e afetiva verdadeira. Em caso algum tais atos poderiam ser aprovados (Mame/Plon, 1992, p. 480).

8 Efetivamente, os dominantes imaginam, por causa de suas próprias qualidades, que eles se destacaram da natureza (contrariamente aos dominados, que os dominantes enxergam como ainda imersos na natureza), salvo quanto se trata de legitimar a dominação: assim eles se tornam novamente “homens naturais” (machos) com necessidades irrepreensíveis caso trata-se de justificar estupros (cf. D. Welzer-Lang, Le viol au masculin (O estupro ao masculino) L’Harmattan, 1988); assim tornam-se carnívoros por natureza para justificar o consumo da carne (cf Clém Guyard, Dame Nature est mythée, edições carobella ex natura, 2002), etc. Sobre o discurso da natureza e das práticas sociais sobre a apropriação, leremos com utilidade Colette Guillaumin, Sexe, Race et Pratique du pouvoir. L’ idée de Nature (Sexo, Raça e Prática do Poder. A idéia da Natureza), Indigo et Côté-femmes, 2000 [1978].

9 O termo especismo foi inventado através das palavras “racismo” ou “sexismo”. Ele designa a discriminação arbitrária dos indivíduos sensíveis que não pertencem à nossa espécie. Deduz-se do especismo uma exploração de uma extrema brutalidade, pois a maioria dos humanos de nossas sociedades consideram os animais como mercadorias,  utilizáveis para fins tão negligenciáveis como criá-los e depois matá-los para consumir suas carnes!

10 Cf. David Olivier, “Les espèces non plus n’existent pas” (“As espécies também não existem”), Cahiers antispécistes n°11, déc. 1994.

11 Um inventário e uma análise crítica das teorias que defendem esta distinção são também propostos em “Animal, mon prochain”, de Florence Burgat (Éditions Odile Jacob, 1997). Na filosofia ética profunda, a fronteira “natural” que delimita a espécie humana é raramente apresentada de modo assim tão resumido como constituindo, enquanto tal, um critério moralmente pertinente. Afirma-se, de preferência, que os seres que pertencem a esta espécie são os únicos a possuírem outras características que, à eles, são pertinentes. Esperamos assim, através de meios mais apresentáveis, chegar a conclusões equivalentes. Estas posições foram sistematicamente analisadas e verificadas pela crítica ao longo dos últimos trinta anos, principalmente por autores anglo-saxônicos (P. Singer, T. Regan, J. Rachels…) que revelaram assim toda sua inconsistência. Textos destes autores – e de outros que tratam o mesmo tema – estão disponíveis em língua francesa no site dos “Cahiers antispécistes” (http://cahiers-antispecistes.org) e no das edições tahin-party (http://tahin-party.org).

12 “An Introduction to the Principles of Morals and Legislation” (1789).

13 O instinto continua sendo um elemento central da retórica naturalista quanto aos animais, mas nenhum etologista ousa, atualmente, referir-se à uma noção que evoque a “vertu dormitive” (virtude dormitiva do remédio que faz dormir), de Molière (a noção de instinto nada explica)… A principal vantagem da noção de instinto é a de evacuar a idéia de uma subjetividade animal (ou, não faz muito tempo, de outras classes de dominados como as mulheres ou os negros) e de evocar (e não explicar!) uma transmissão da espécie ao indivíduo da função natural que ele deve encarnar.

14 A tradicional controvérsia sobre o que seria adquirido ou inato nos humanos (por exemplo, em relação aos sexos ou às “raças”) explica-se apenas pela crença na idéia de  natureza; o “inato” e o “adquirido” resultam em cada caso de causas extremamente numerosas e heterogêneas que torna-se sem sentido querermos distinguir duas categorias. Por outro lado, as qualidades que qualificamos de inatas não implicam de forma alguma uma natureza, contrariamente ao que parece esperado ou, ao contrário, temido. Caracteres inatos não implicam nem uma essência nem um destino (dever-ser), e é falso pensarmos que o que julgássemos inato fosse sempre imutável, definitivo (e, em alguns casos, “inconsciente”, não requerendo uma percepção subjetiva, nem uma decisão do indivíduo para se executar) enquanto que o que fosse adquirido continuaria flexível, modificável, passível de ser melhorado (e consciente, submisso à vontade, etc.).

15 Claude Guillon, “À la vie à la mort. Maîtrise de la douleur et droit à la mort”, Noêsis, 1997.

Tradução: Anna Cristina Reis Xavier


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A predação, símbolo da Natureza

A fim de contestarmos a visão de mundo totalitária e fascista que é a visão que cada um de nós tem em nossa sociedade fundamentalmente naturalista e para reafirmarmos a importância dos interesses dos não-humanos justamente onde a ideologia dominante a nega com a maior força, que é importante analisarmos especialmente o tema da predação.

A predação, mais do que a fome, a doença ou a superpopulação, aparece para os seres humanos como a marca por excelência da subordinação/afiliação dos outros animais à Ordem Natural, à Totalidade, porque é o melhor exemplo do preço que eles pagam; é, pelo menos, o exemplo que mais faz trabalhar nosso imaginário. Assim sendo, a predação é o melhor símbolo desta Ordem Natural à qual nós, animais humanos, supostamente escapamos graças à nossa vontade moral e aos nossos Direitos: se alguns sentem nostalgia por uma Natureza onde cada um tinha seu lugar e vivia em harmonia com os outros e com o Todo, e desejam, em um desejo de fusão mística reencontrar essa Natureza, a maior parte das pessoas prefere prosaicamente saborear a posição de privilegiados, pelo fato de serem humanos, e desejam que os outros animais continuem a se fazerem predar e parecerem imersos em uma “Natureza” de onde os humanos e super predadores teriam saído.

Se em vez de nos questionarem sobre os outros males naturais, as pessoas preferem nos perguntar sobre a questão da predação, é porque sabem que nós mesmos não a praticamos. Se, como nós pensamos, a alimentação carnívora é o símbolo fundamental da supremacia humana, a referência prática central da dominação especista, então não é surpreendente que a predação natural seja objeto de um tabu tão resistente e continue incriticável. Ela é análoga, na Ordem Natural, do nosso consumo de animais na ordem da sociedade, e ela parece ser a última justificativa. O que também acontece, como mostra a situação seguinte, com outras formas de exploração dos não humanos:

O importante, é que os pesquisadores se conscientizem que podemos tratar um animal de outra maneira. Nós queremos inculcar a noção de respeito do animal. O animal é necessário para a pesquisa científica, da mesma maneira que a lebre é necessária para a sobrevivência da raposa. A espécie humana luta utilizando as outras espécies.
Jean-Claude Nouët1

Nota

1 Professor da faculdade de medicina (Paris – VI), vice presidente da Liga Francesa pelos direitos do Animal (fundada por Alfred Kastler, prix Nobel); citado por  Lea di Cecco, «Expérimentation : peut-on se passer des animaux ?», em Science et Avenir n°511, setembro de 1989, p. 35. Sobre esta Liga profundamente especista, podemos ler meu «Droits de l’Animal, “version française”» («Direitos do animal, “versão francesa”»), Cahiers antispécistes n°2, janvier de 1992, assim como meu “Pour un monde sans respect” («Por um mundo sem respeito»), Cahiers antispécistes n°10, setembro de 1994.

Cito aqui voluntariamente uma pessoa que, como A. Lindberg, C. Elsen  e muitas outras, lutam por uma melhoria das condições de vida dos animais, mas contra a supressão da exploração e do estatuto inferior que a ela está ligada. É difícil saber se elas utilizam a referência feita à «Natureza» e à existência da predação para justificar seu ponto de vista especista, ou, ao contrário, se elas são incapazes de sair do próprio especismo pois estão coladas ao naturalismo – e à idéia de que os animais fazem parte desta «Natureza», e estão entregues a «suas leis» (das quais a predação é o emblema).

Tradução: Anna Cristina Reis Xavier

Fonte: Le Cahiers antispécistes n° 14 (dezembro 1996)


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Coelhos sem documentos

As pessoas dizem que não se deve interferir no curso natural das coisas. Mas quando os interesses humanos estão em jogo, e são suficientemente importantes, eles/elas não hesitam e agem. Tanto os ecologistas quanto os “amigos (as)” dos animais, como os outros.

Os coalas “proliferam” na Austrália do Sul, e entram em competição com os produtores de “gomme de manne”. O governo visou então, em 1996, massacrar 2.000 dos 5.000 coalas que viviam na região. Os coalas têm a sorte de causarem uma meiga impressão no imaginário dos humanos. Numerosas associações protestaram. De um lado, os coalas “excedentes” foram encaminhados a outras regiões onde foram plantados eucaliptos para alimentá-los, “enquanto foi elaborado um programa de esterilização de coalas que ficaram no local, para controlar o número de nascimentos” (fonte: Orizzonti). São finalmente os ecologistas, eles mesmos que mostrarão como, se valer a pena, poderemos intervir nos famosos desejáveis equilíbrios naturais, em se preocupando com os interesses dos indivíduos animais.

Mas, como estamos na Austrália, e falamos da intervenção no “equilíbrio natural”, falemos dos coelhos. Sabemos (30 milions d’Amis, n° 101, julho de 1995) que o Centro de Pesquisa para o Controle de Vertebrados Nocivos (que de fato é uma empresa particular australiana) , lançou um programa de pesquisa sobre a “imuno-contracepção”, pela qual um vírus contagioso, mas tornado inofensivo, se faz o vetor de um meio contraceptivo. Não é pela preocupação desinteressada no bem dos coelhos (ou das raposas…) que tais pesquisas são efetuadas, mas porque os “métodos convencionais de controle” são ineficazes; sejam eles, o fuzil, o veneno, a armadilha, as epidemias (a mixomatose, por exemplo, perdeu sua virulência com o passar dos anos, e a população de coelhos recuperou seu valor inicial)… “Tal método de controle de populações será aplicado a certas espécies ditas selvagens, a fim de amenizar os problemas locais ou, no caso onde as dificuldades intervirão no quadro da vacinação contra a raiva, por exemplo”, diz Marc Artois do Centro nacional de estudos veterinários e alimentares(!) de Nancy. Claro, tais métodos são também potencialmente perigosos, e é necessário ficar particularmente atento se utilizados. Mas eles apresentam perspectivas interessantes.

Infelizmente, para “controlar” a população australiana de coelhos, há um outro método particularmente horrível, que finalmente foi escolhido: um outro programa de pesquisa foi destinado a testar o calicivirus VHD como arma biológica, para substituir o esfumaçamento de áreas e o tiro à carabina (os coelhos utilizam em seu próprio proveito as colheitas dos humanos, se destacam com relação à fauna indígena…). De fato, o laboratório deixou escapar o vírus (voluntariamente ou não). Sobre uma boa quarta parte do continente, 95% da população foi exterminada. Já, nos anos 50, um humano tinha espalhado a mixomatose (cujo vírus provoca uma morte lenta e particularmente dolorosa), com resultados mortais similares. Aqui a doença leva dois dias para matar cada individuo e ela é incrivelmente contagiosa. No ano passado, a população australiana total foi de 300 milhões de indivíduos. Deixo você calcular o alcance e o horror do massacre…

Lembrando que os coelhos são mal vistos na Austrália, também porque eles não são “naturais”, “indígenas”, “autóctones”; a espécie foi introduzida pelos humanos em 1859, e o número de indivíduos cresceu muito rápido, fazendo concorrência com os animais “nativos”, que são considerados “naturalmente legítimos”. Os coelhos não fazem uma boa impressão no imaginário naturalista, nacionalista e especista dos australianos (as).

O jornal Le Figaro de 23 de janeiro de 1997 anunciava: “Coelhos australianos massacrados com armas biológicas: fazendeiros felizes, ecologistas inquietos: novo equilíbrio ou ameaça de desequilíbrio? ” (artigo de Fabrice Nodé-Langlois) . De fato, além dos ecologistas, certo número de “antiespecistas” locais se inquietaram! “Associações tais como a de Libertação Animal duvidam muito da transmissão do vírus a outras espécies, assim como os desequilíbrios ecológicos que possam levar a uma erradicação também brutal.” Ainda que esta inquietação sobre a transmissão do vírus aos animais de outras espécies fosse fundada, seria obsceno coloca-la em evidência, pois este vírus está matando e, enquanto isso, coelhos reais agonizam aos milhões em condições atrozes! Você acredita que são estas mortes e estes sofrimentos bem reais, que os ativistas dos direitos dos animais vão priorizar nas suas manifestações? Imagina que eles e elas vão exigir dos outros, que soluções não geradoras de sofrimento e de morte sejam pesquisadas com urgência? Não, o que transparece no discurso deles é simplesmente que o vírus não deveria pular de uma espécie para a outra! Isto dito em todo caso na medida em que certas pessoas reclamam da libertação animal, o respeito da ordem natural prima sobre a consideração dos interesses dos seres sensíveis. A ecologia é também um vírus, de uma terrível doença: o naturalismo.

Tradução autorizada: Juliana Marques

Fonte: Cahiers antispécistes nº15


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