Quem vai à caça não perde o lugar*

Em nosso imaginário a predação representa um papel importante. Tema de numerosos preconceitos, ela está carregada de significados tão potentes quanto emocionais que são dificilmente abalados.

Para contradizer os argumentos que nos são colocados e que fazem referência à predação, mas também para compreender melhor como funciona o naturalismo, é importante detalharmos, de um lado, como nossa sociedade encara a predação, o que ela significa quais mitos são representados, e, por outro lado, o que ela legitima.

Os humanos sentem respeito, admiração e uma grande fascinação pelos predadores. Vimos nos últimos meses, na revista Paris Match, um artigo Les animaux, nous les aimons, protégeons-les” (Os animais, nós os amamos, vamos protegê-los”) – um artigo sobre os animais. Onze espécies foram estudadas, dentre elas, 9 de predadores (leão, lobo, urso, águia, crocodilo…). Um outro exemplo é a publicação recente de uma revista chamada Prédateurs: l’encyclopédie des grands chasseurs du monde animal (“Predadores: a enciclopédia dos grandes caçadores do mundo animal”) – cada número é dedicado a um predador diferente (tubarão, lobo, leão…) e acompanhado com uma fita de vídeo. O assunto vende bem. Como se trata de produtos comerciais, tais edições mostram a predação sob o ângulo que o público espera encontrar, apenas apresentando os estereótipos e banalidades que o leitor deseja ver. Utilizarei várias citações tiradas desse tipo de publicação para ilustrar minha análise.

O teatro da predação

Como são então apresentados os predadores, a predação, as presas, qual função lhes é atribuída e que interesse isso representa para nós, humanos?

Predadores, policiais e faxineiros

Mesmo se beneficiando de uma bela imagem no seio do “reino animal”, de um lugar especial, os predadores continuam sendo animais e são percebidos como imersos na Natureza, como não (ou pouco) individualizados, como possuidores de uma natureza da sua espécie que corresponde a um lugar (função) no seio da Totalidade, no seio de toda Natureza1.

A revista Prédateurs é particularmente explícita: a verdadeira função do tubarão, por exemplo, como é explicada página por página é… de fazer reinar a Ordem na Natureza.

– Título: L’arme suprême des océans” (A arma suprema dos oceanos”)

– Subtítulo: Gendarme écologique” (Policial ecológico”)

– Introdução: …e esta fisiologia perfeita totalmente destinada a predação! O tubarão é uma arma magnífica a serviço dos equilíbrios marinhos fundamentais.”

Efetivamente, os predadores são sistematicamente apresentados como concebidos para realizar uma missão: a conservação da Natureza. São ferramentas perfeitamente adaptadas à realização de sua tarefa: máquina de guerra perfeitamente regulada”, perfeitamente programada”, matador perfeito”, predador impiedoso”, máquina para matar”.

E assim sobre os lobos:

Seu olhar dourado analisa de maneira tão precisa quanto um computador…

E sobre os leopardos:

Poderíamos dizer que um engenheiro aprofundou seriamente seus estudos antes de colocar a máquina para funcionar…

Sobre as águias:

A águia é a mais implacável e a mais suntuosa máquina voadora concebida para a caça…

Ou ainda sobre os crocodilos:

Esta mecânica rústica e preguiçosa nunca mata por prazer…

O indivíduo predador perde assim toda vida própria, sua existência inteira possuiu uma finalidade:

… a natureza produziu um animal blindado, anfíbio, sofisticado e perigoso predador. Tudo neles é previsto para ser ofensivo, não importa a situação em que se encontrem.

A mística humanista-naturalista nos autoriza a explorar a Natureza”, com a condição de não perturbarmos a ordem: caso contrário, a Natureza poderia se vingar. Somos então responsáveis por este equilíbrio”, e devemos garantir que estes policiais naturais” possam continuar cumprindo suas tarefas de manutenção da ordem, pois o farão necessariamente melhor que nós. Assim, as últimas páginas da revista Predateurs são sempre dedicadas a examinarem a proteção destes animais”.

As presas são lixo

Se os predadores são nobres e realizam uma missão da mais alta importância, as presas, por outro lado, são sistematicamente apresentadas como lixos contagiosos dos quais é necessário se livrar para que não se acumulem e degradem a superfície de nosso planeta:

Engolindo os cadáveres dos peixes, exterminando os doentes e os machucados, o tubarão contribui em larga escala para manter o equilíbrio do ecossistema. Os leões e os carnívoros têm uma função reguladora natural. Eles limitam os efetivos de herbívoros que, se numerosos, provocam uma rápida desertificação. Esta limitação intervém sobre os excedentes e só é exercida sobre os animais menos rápidos, os menos ágeis, os menos atentos ou mais velhos. Este equilíbrio que liga a cobertura vegetal, os herbívoros e os carnívoros é muito frágil. Mas, o lobo, ao atacar preferencialmente os animais fracos, doentes, jovens ou velhos, revitaliza, regula e trata das populações dos ruminantes, tal qual um verdadeiro veterinário natural”.

Porém os humanos não são presas

A ideologia do l’apartheid des espèces2 nos diz que, enquanto os outros animais são vistos como parte integrante da Natureza, de um sistema totalitário, fechado, hermético, repetitivo (cíclico”), imóvel à nossa escala de tempo, regido pela seleção natural”3 (dentro da qual se encontra particularmente a predação), por outro lado, os humanos, são considerados pertencer à esfera do social, de um sistema aberto, dinâmico, linear (o progresso da civilização), regido pelo Direito e pela Justiça. Os dois sistemas, o social e o natural, devem continuar bem separados. Não se deve intervir na Natureza, que está fora do social. Não podemos julgá-la com nossas categorias humanas pois Ela” é absolutamente diferente. Ela” deve continuar sendo sua própria referência, infinitamente outra, secreta, incompreensível e fundamentalmente sábia. Assim como Deus.

Nesta mitologia, os humanos nasceram da natureza, saíram dela, mas guardaram algumas ligações com “Ela”: principalmente foi a Natureza que lhes forneceu os meios (intelectuais propriamente humanos) para que se libertassem d'”Ela” – assim como Deus, nas mitologias monoteístas, lhes tinha dado a liberdade de provarem do fruto do conhecimento. É sobretudo pela sexualidade e por suas outras necessidades fisiológicas, dentre as quais o modo de se alimentar, que os humanos, estão supostamente religados à Natureza: é assim que a sexualidade ou o consumo (de carne, principalmente), que são práticas sociais ligadas entre outras a simbolismos de dominação, são profundamente sentidas como práticas naturais, que nem saberíamos questionar. Os humanos se consideram fora da Natureza mas uma de suas ligações continua existindo… a predação: eles/elas são (quer dizer: querem ser) predadores, inclusive, pelo fato de sua superioridade, querem ser super predadores.

Quando são os humanos que são predados por outros animais, trata-se de um erro da Natureza: não é função normal” da Humanidade a de servir de presa!

Assim, o número da revista Prédateurs dedicado aos tubarões nos tranqüiliza:

De vez em quando, seu zelo o conduz a atacar o homem. Entretanto ele não está programado para isto. Este predador supremo não seleciona o que abocanha.

Resumindo: seria por distração ou sob qualquer outro fator que lhe faça esquecer que não somos comestíveis (se ele for perturbado”, se ele se sentir ameaçado”…) que o tubarão, às vezes, agride os humanos.

Os comedores de homens, inclusive o grande tubarão branco, não estão, a priori, programados para atacarem os nadadores ou os mergulhadores. Os acidentes são provocados sobretudo pela atitude dos homens. Ou estes apresentam um comportamento que os tubarões julgam agressivo ou caçam, matando os peixes que sangram abundantemente, excitando os ardores dos tubarões.

Estes acidentes” não são imputáveis à Natureza (pois digerir a carne de humanos não está previamente programado): são os próprios humanos que se expõem, negligenciando as tais leis naturais”.

Para os naturalistas e humanistas isso é lógico e normal. Normal, pois a verdadeira natureza (função) do tubarão é de fazer reinar a Ordem nesta Natureza, de suprimir os membros doentios, sendo que os seres humanos, não consideram se situar nesta mesma Ordem.

Os humanos e a predação animal

Assim sendo, os humanistas se indignam logicamente, quando impedimos um gato de comer um rato ou um leão de comer uma gazela, desde que procuremos uma alternativa para um animal 100% natural” que aterrorize, mate e depois coma um outro. Sua natureza é a de caçar e seria antinatural intervirmos contra isso. Faz parte da natureza do camundongo, do rato, do animal caçado, de ser comido, de ser uma presa. Se o forte tem força por causa da natureza, o fraco também é fraco porque esta é sua natureza.

nas eras quando a natureza nos ditava ainda suas leis, tudo era ordem e beleza”, mesmo matar para viver, mesmo estar doente, mesmo morrer4.

As presas são raramente apresentadas como indivíduos. Quando isso acontece, é para melhor colocar em evidência o caráter ao mesmo tempo excessivamente cruel e intocável da predação: são as atividades interiores de um outro Reino, particularmente bárbaro, claro, mas ainda mais sagrado e dentro do qual não devemos intervir.

Se é excluído que intervenhamos, o humanismo ordinário nos convida a nos divertirmos com o espetáculo que a Natureza” nos oferece:

Quando perseguido por um leopardo marinho, o pingüim sobe até a superfície com uma velocidade incrível antes de se projetar a 2 metros acima da água. É um espetáculo maravilhoso. Em alguns instantes, o elefantinho, aterrorizado vai cair, mortalmente ferido pela leoa que está colada em suas costas. Desta vez, a fera mordeu o filhote cruelmente, na garganta e na boca, mas a vítima ainda respira pela tromba. Sua agonia será longa e dificilmente suportável para os fotógrafos. É o balé da morte, com sua crueldade magnífica.

Somente podemos achar magnífico o espetáculo da morte e do sofrimento (alheios) se nos colocamos fora da situação. Ou nos encontrávamos incapazes de intervir, ou, como no caso citado, um tipo de imperativo religioso de respeito” pela Natureza nos ordena que fiquemos passivos. A Ordem é uma ordem. A predação é o símbolo de que a Ordem reina perfeitamente, com uma dureza de ferro: o Equilíbrio natural” tira sua existência do fato de não deixar que nenhuma compaixão a influencie a favor desta gazela que corre sem fôlego diante da fera. Além do mais, quanto mais injusta a Ordem, mais é considerada como sendo uma Ordem. As coisas” são ordenadas, arrumadas, quando estão arranjadas em um nível de onde não devem ser retiradas. O sofrimento que é necessário semear para manter a ordem, para manter cada um em sua categoria (ou fazê-lo entrar em sua categoria), dá a medida da absoluta necessidade que esta ordem encarna5: É necessário que as coisas tenham um sentido, não é? Vendo um não humano se fazer predar, temos a impressão de assimilar a Natureza em ação, ou a chance rara de contemplar a Ordem natural cumprir sua obra. A Natureza é, para os humanistas contemporâneos, o que o Destino era aos olhos dos gregos antigos, e o espetáculo da predação não humana desperta em nós sentimentos similares aos que a tragédia antiga inspirava. A predação é o símbolo por excelência da ordem natural. Como é exaltante achar a Natureza tão organizada e ordenada, tão… equilibrada!

Este respeito pela Natureza/predação nos conduz a levarmos em conta apenas os interesses do mais fortes, e os da vítima são ignorados. Como vimos, os humanos se identificam quase sempre com o predador, e não com a presa. Recusar intervir significa que estamos do lado do predador. Sempre a funcionalidade (ou a utilidade para a totalidade – caso trate-se de uma Sociedade ou da Natureza) é colocada como sendo mais importante para impedir qualquer revolta contra o sofrimento: a ordem do Todo prima sobre o indivíduo sensível e seus interesses. O respeito pela Natureza é apenas uma manifestação particular do respeito – onipresente – (porque o mais forte) e do que existe (porque existente).

O respeito dos equilíbrios, das tradições e das hierarquias – independentemente do que elas implicam para os seres sensíveis que nelas estão inseridos – evoca bem as místicas da extrema-direita, as místicas da Ordem. As divisões políticas são freqüentemente mais falsas do que possamos imaginar, e afinidades profundas unem, sobre esse assunto, os pensamentos humanistas/naturalistas, sejam eles de direita, esquerda ou ecologistas.

Os outros predadores não são comidos

No teatro imaginário da predação, presas e predadores representam papéis. Natural e facilmente nós nos identificamos com os segundos, eles mesmos identificados por sua vez com os dominantes humanos da época feudal: rei da selva”, imperador das neves”, senhor dos céus”, majestade dos mares”… os predadores são nobres, de uma nobreza da espécie, e possuem uma dignidade que suas presas não possuem (desqualificadas por serem fracas, pelo simples fato de serem vítimas). Fora os peixes, não comemos os outros predadores. Além disso, nós os distinguimos cuidadosamente dos carniceiros, como as hienas, que merecem apenas nosso desprezo. Em nenhuma civilização humana os animais encontrados mortos são comidos. Sem dúvida isso lembraria demais os carniceiros, estes animais que aproveitam sem mérito algum a morte dos outros. Por outro lado, como é gratificante identificarmo-nos com a força, a grandeza daqueles que matam, que presidem a morte6! O humano deseja ser predador e, a justo título, sabe respeitar seus semelhantes, seus rivais7: ele os mata (se possível em um combate truculento, de modo leal”, como fazemos com alguém que estimamos, que consideramos como um igual), mas ele não os come. Comer alguém, pelo menos em nossa civilização, é tratá-lo como um animal, como carne sobre dois pés”, é desvalorizá-lo ao extremo. Engolí-lo equivale a rebaixá-lo. A que categoria? À categoria do não humano mais desprezível, aquele que serve para virar carne, que apenas tem interesse como matéria bruta. Então, não há canibalismo, nem o consumo de predadores. Na maioria das civilizações, a carne dos indivíduos das espécies predadoras é reputada impura, ou muito dura, ou muito forte, ou não comestível… Se às vezes acontece que um predador seja comido, trata-se de um ritual destinado à apropriação de sua força.

A dominação legitimada pela predação

Se a predação é tão admirada e evocada, é porque ocupa um lugar capital em nosso imaginário. Designada como representante privilegiada da Ordem natural”, ela contribui para legitimar diferentes tipos de dominações ou de sistemas sociais desiguais, dentre os quais, em primeiro lugar, evidentemente, o especismo.

Eis alguns exemplos:

Predação e carne

… nem o mais apaixonado defensor dos animais, nem o vegan mais obstinado, nem o zoófilo mais convencido, pensaram exigir do leão ou do tigre que estes se tornem vegetarianos. Por que então desejar, com obstinação, isso do homem? Por que o vegan recusa para ele mesmo e seus iguais a carne do animal morto, enquanto alimenta com carne seu cão e seu gato? … Muitas pessoas reconhecem simplesmente, e sem digressões, a necessidade para o homem, de comer animais. Pois existem espécies herbívoras, carnívoras ou onívoras, dentre as quais está a espécie humana; tal é seu patrimônio genético, sua história e seu destino. Para as espécies carnívoras e onívoras, é normal, natural e inevitável de matarem-se entre si para subsistirem, como é legítimo , além disso, que nos defendamos uns dos outros. Tal afirmação apóia-se essencialmente na fatalidade biológica que faz do homem um comedor de carne8

A predação serve então, em primeiro lugar, para legitimar a predação humana. Certo, mas não a consumação de humanos pois o canibalismo é certamente o ato que assusta e impressiona de forma profunda o humanismo: não há nada de mais degradante para nossa humanidade comum do que comer um outro ser humano!

Predação, dignidade humana e beefsteak

Visto a nobreza que confere-se à predação, não é surpreendente que a eminente dignidade que dizem ter sido conquistada pelo homem ao longo da evolução (ao longo do processo de “hominização”, como gostamos de dizer) tenha vindo em ultima instância… de seu comportamento de predador.

Tema presente também em F. Engels:

… Do mesmo modo que o costume de comer vegetais misturados à carne fez dos gatos e cães selvagens os servidores do homem, da mesma maneira, o costume de aliar a carne aos vegetais contribuiu essencialmente para dar ao homem em formação a força física e a independência (…) O homem se tornou homem devido ao regime carnívoro9

E também em J. M. Bourre, nosso cientista pró-carne já citado:

No reino animal, a atividade da caça e da predação estando ligada a performances intelectuais superiores, podemos deduzir que o homem, após o chipanzé, ao longo da evolução, se tornou uma espécie superiormente inteligente pelo fato de ter se transformado em caçador, e que, comportamentalmente, ele se assemelha aos carnívoros em muitos pontos. (…) É totalmente evidente que, no mundo vivo atual, as espécies carnívoras são mais ‘inteligentes’ do que as herbívoras. Este chamado à finalidade carnívora da espécie humana é uma conseqüência, uma passagem obrigatória, uma necessidade, uma obrigação ardente, para perenizar o corpo, o cérebro e o espírito10!

Suponhamos que admitíssemos uma tal obrigação ardente” (!) de sermos inteligentes, mas enxergo mal no que o fato de mastigar um salame possa representar uma tão grande ginástica mental! Mas se um cientista o diz…

Carne e dominação

Desta lógica cotidiana que declara que a humanidade/virilidade tenha se tornado dominante e digna de reinar ao se tornar predadora, induz-se logicamente a glorificação da carne como fator de dominação no seio da própria humanidade; pois os homens verdadeiros comem carne, enquanto os vegetarianos são legumes efeminados:

… os que comem carne sempre dominaram os que não comiam, pois a estes últimos faltava a dinâmica agressividade mental”. (…) Para Rodale, os carnívoros são os dominadores, assim como os lobos e as raposas, e os vegetarianos estariam submissos a eles, como os coelhos domesticados11.

Até uma época recente, o consumo de carne era usado para simbolizar relações de poder:

Os chefes sempre tiveram uma alimentação diferenciada da dos escravos. Os que conquistam, que comandam e que combatem se alimentam sobretudo com carnes e bebidas fermentadas, enquanto que os pacíficos, os fracos, os passivos, se contentam com leite, legumes, frutos e cereais12.

Atualmente tais alegações parecem um pouco forçadas: as relações sociais se transformaram e a expressão destes restos de ideologia feudal parece agora datada, exceto em alguns meios da extrema direita. Apesar disso, trata-se da formulação de um subtendido social que retorna com força, não somente vindo da extrema direita, mas também dos antifascistas satisfeitos desde que a alimentação carnívora é questionada: Paz, amor, liberdade, legumes” diziam as pessoas para ridicularizarem os antiespecistas13. Guerra, ódio, coerção, carne”, por outro lado, define relativamente bem a realidade do patriarcalismo e, infelizmente não é tido como ridículo. Seria isso que os antifascistas viris desejam?

Com efeito, ainda em nossos dias a maior parte dos homens come carne, os mais pobres desejam comer ainda mais, para assim ficarem persuadidos de seu status social… nos dois casos, trata-se, de preferência, do consumo da carne vermelha, que possui um simbolismo forte de violência e de dominação14.

À dominação geralmente é associada a volúpia do bom vivant; recusar comer carne, evoca penitência, a mortificação, a abstinência: os vegetarianos são quase sempre descritos como seres tristonhos, ascéticos, místicos (a abstinência), magricelas, nervosos, amorfos (legumes), femininos ou afeminados, passivos… eles não dominam a morte e se assemelham mais aos lixos doentios” que são os animais caçados.

Efetivamente, os dominantes se apropriam dos símbolos de dominação: o consumo de carne, o uso de pele, de couro… Em nossas sociedades, é geralmente o homem, o chefe da família” que corta a carne antes de servir a refeição…

Imaginamos sempre os grandes banquetes vitorianos, com o macho dominante celebrando o corte do rosbife, a mulher dominante servindo os legumes e a família enorme reunida ao redor de uma mesa sobre a qual tudo está em ordem15.

Talvez tenha-se notado que ao longo deste artigo eu falei progressivamente mais do Homem do que do Humano: com efeito, este caráter predador da humanidade é, acima de tudo, encarnada pelos seres masculinos. Em todas as civilizações as mulheres são dissuadidas de praticar a caça, pelo menos nas caças onde o sangue seja derramado16. E bem freqüentemente, elas também são excluídas do consumo da carne17.

Predação e sexismo

Desde o fim do Antigo Regime e do aparecimento do humanismo, a predação não serve mais aos potentes para legitimarem suas guerras nem aos grupos de bandidos para legitimarem seus roubos. Agora, as violências físicas entre os humanos parecem ser classificadas dentro do “natural”. Hoje em dia, a predação serve essencialmente de referência ideológica para nossa violência contra os não-humanos.

Mas é notável que as relações de predação humanos/animais sirvam ainda e sempre de quadro de referência consagrada para o relacionamento entre homens/mulheres; já notamos que, quando imaginamos o humano predador, pensamos em uma figura masculina. Para dizer a verdade, em nossa mitologia especista/sexista, as mulheres não são predadoras18, bem ao contrário, elas são presas no seio das relações sociais do gênero. É muito comum, por exemplo, que cartazes de festas estudantis apresentem fotos de um lobo humanizado na Tex Avery, que lambe os beiços ao ver uma mocinha bonita; Georges Moustaqui cantava os amigos de Georges caçam as moças nos parques”. Um homem que paquera uma mulher, é um homem que caça, etc. Trata-se realmente de um clichê do nosso imaginário. E as agressões e o medo continuam sendo a realidade comum das mulheres…

Predação e liberalismo

Um outro uso ideológico que é feito da predação e da referência à ordem das coisas” consiste a legitimar o capitalismo como transcrição na ordem do social da luta de todos contra todos” que existiria no seio da Natureza. E ainda bem mais, como Nossa Mãe Natureza funciona através da predação e da morte – mas nos permite assim de existirmos – o capitalismo e, geralmente a vida em sociedade implica, infelizmente, que haja perdedores. Sem dúvida é necessário que compreendamos que nós somos os sobreviventes no seio destes sistemas impiedosos; devemos, para sobreviver, continuar sendo cúmplices e calar nosso desejo de solidariedade. Não há alternativa possível, pois trata-se do sistema em seu conjunto. Ele foi criado assim, acreditar o contrário seria puro idealismo (irrealismo) e levaria ao caos.

Felizmente, neste terrível quadro, uma luz: aqueles que sofrem e sucumbem ao longo do caminho não sofrem inutilmente, eles se sacrificam para que o Todo continue a caminhar, quer dizer, e em última análise, para nós. Finalmente, tanta miséria trabalha de maneira escondida (mas de modo perceptível para quem quer enxergar) para a realização de um Bem superior:

Ainda que exista uma variedade imensa de criaturas e que cada indivíduo pareça agir como para si próprio, e ter em vista seus objetivos pessoais; entretanto… todos juntos… conspiram, neste caso, para a força ou a comodidade, e para a beleza, a harmonia ou a perfeição do todo; e, contribuem, de uma certa maneira, em um certo grau, para a vantagem e a felicidade uns dos outros19.

Este elogio da predação data de 1745 e é contemporâneo dos primeiros discursos ético-políticos de justificação do liberalismo: se deixarmos cada um vagar de acordo com sua vontade, disso resultará o melhor para a comunidade/totalidade, quer dizer, mais ou menos diretamente para cada um. É a mão invisível” (Adam Smith: Uma investigação sobre a natureza e as causas da riqueza das nações) que regula espontaneamente as coisas levando em conta o melhor interesse de todos. Que se trate do elogio liberal do capitalismo e da economia de mercado, ou do discurso a gloria da harmonia natural”, em ambos os casos insiste-se massivamente nos benefícios do jogo dos interesses privados (individuais), concorrência econômica em um caso, predação no outro, e esquecemos facilmente alguns de seus inconvenientes.

Aparentemente, o discurso do liberalismo é construído de acordo com o mesmo modelo que o da predação. Nos dois casos coloca-se em evidência sobretudo o interesse do Todo, Natureza ou Sociedade, sem definir o que poderia ser este interesse.

Mas, ao examinarmos de forma mais atenta, creio que há uma diferença importante entre as duas afirmações: o discurso liberal é uma justificativa e se refere ao Bem Comum para legitimar a liberdade individual, que é essencial. Aos olhos do humanismo, os humanos são considerados como indivíduos e seres livres, não o esqueçamos. O discurso sobre a predação, por outro lado, não é uma justificativa (porque a Natureza não tem que se justificar) e visa, sobretudo, demonstrar que a individualidade dos animais é uma ilusão, que quando acreditamos que eles procuram um benefício pessoal, isso acontece para o maior benefício, que é o funcionamento do Todo. Ao contrário, os não-humanos analisados dentro da ideologia naturalista, seriam apenas peças não individualizadas e naturalmente determinadas para contribuir à harmonia do Todo.

O especismo, um colosso de argila?

No presente artigo, repeti temas que já tinham sido abordados antes. Entretanto, há ainda muito a ser dito. Isso me parece necessário, por causa da importância do tabu que deve ser quebrado. É necessário que nos seja mostrado a que ponto a visão que temos espontaneamente” sobre a predação é, na verdade, uma percepção ideológica, e em que visão do mundo ela se integra e se impregna de sentido.

O discurso sobre a Natureza” diz livremente sobre seres infinitamente desprezados o que ninguém ousaria expressar abertamente e em voz alta sobre os seres humanos – mas o que cada um pensa (com força) e em silêncio: a força da hierarquia, o respeito pelo mais poderoso, o desprezo pelos fracos e perdedores, a relação de submissão mística à ordem das coisas” desigual… O modo como o humanismo representa a Natureza” também desnuda a ideologia cômoda mas bem real de uma sociedade fundada sobre dominações (das quais recusa, com artifícios, admitir a existência).

O especismo, ou naturalismo humanista, é uma ideologia total”, no sentido em que coloniza praticamente todos os aspectos de nossa visão de mundo: toda nossa civilização é construída sobre o pedestal de nossa dominação sobre os outros animais.

Hoje em dia este pedestal está rachando e isso mostra que o colosso é feito de argila; somos cada vez mais numerosos a afirmar, como Théodore Monod, no dia 9 de abril de 1997, no programa La Marche du Siècle:

Sonho com o fim das guerras, e não apenas daquelas que os humanos travam entre si; sonho com o fim das guerras que os homens engajam contra os outros animais, e sonho também com o fim das guerras que os animais travam entre si.

NOTAS

1 Cf. meu artigo L’Animal, l’Homme, la Nature, la Société… et moi dans tout ça?” no folheto Nous ne mangeons pas de viande pour ne pas tuer d’animaux, 1992. Cf. igualmente de minha autoria De l’appropriation… à l’idée de Nature”, Cahiers antispécistes n°11, décembre 1994.

2 Cf. Y. Bonnardel, L’Apartheid des espèces”, Cahiers antispécistes n°14, décembre 1996.

3 Cf. D. Olivier, La Nature ne choisit pas”, Cahiers antispécistes n°14, décembre 1996.

4 A. Lindbergh, Lorsque les singes hurleurs se tairont, Presses de la Cité, 1976, p. 152.

5 Creio que os adeptos dos regimes autoritários não preferiam a repressão unicamente para fazerem reinar realmente a ordem (social), mas também para satisfazerem sua busca mística da Ordem: para melhor fazê-la reinar simbolicamente.

6 David Olivier, Le goût et le meurtre”, CA n°9, janvier 1994.

7 ARAP (Amis des Renards et Autres Puants) é uma associação especializada de proteção dos pequenos predadores, que simula a sociedade unindo os humanos aos outros” predadores. Os caçadores utilizam o mesmo esquema, mas para defender o direito de caçarem. Os dois grupos fizeram campanhas de adesivos muito parecidas: uma raposa diz: Não atire, eu sou um caçador como você” (ARAP), uma outra raposa afirma A caça é algo natural!” (Chasse-Nature-Environnement). Caçadores e ecologistas comungam da mesma crença da existência de uma ordem natural, da qual a predação seria a peça principal.

8 Jean-Marie Bourre (Diretor de pesquisa do INSERM e especialista em neuro-biologia e em propaganda para a carne), De l’animal à l’assiette, éd. Odile Jacob, avril 1993, p. 233. Como nesta citação, suas frases não significam muita coisa por si próprias, e seus comentários valem o quanto pesam em termos de besteiras especistas.

9 Friedrich Engels, O papel do trabalho na transformação do macaco em homem” (1876), in Dialectique de la nature citado em Carnivorisme, hygiénisme et être humain” (pequeno texto místico naturalista traduzido em francês por F. Bochet) de Flaviano Pizzi, in Emergenza n°1, avril-août 1980.

10 J. M. Bourre, op. cit., pp. 240-241; sua primeira frase é a repetição idêntica de uma frase de Chapouthier (membro da Liga Francesa pelos Direitos dos Animais, promotor da Declaração Universal dos Direitos do Animal) em Au bon vouloir de l’homme, l’animal, Denoël, 1990, p. 153. Bourre em seguida explicita de forma desajeitada o que Chapouthier tinha preferido deixar implícito…

11 J. I. Rodale, System for mental power and natural health, USA, 1967, citado em Carnivorisme…”, op. cit. Rodale ele também sustentava a tese que os carnívoros são mais inteligentes… Ora, para o humanismo, a inteligência é signo de superioridade ontológica.

12 Alexis Carrel, L’Homme, cet inconnu, éd. Plon, 1935; citado por Coeurde Richard, Voyage en Lepénie”, revue Silence, n. 158, octobre 1992.

13 Nós não comemos antiespecistas para não matar animais”, Réflex n°40, oct. 1993.

14 Cf. mon La consommation de viande en France: contradictions actuelles”, Cahiers antispécistes n.13, décembre 1995.

15 Peter Farb e Georges Armelagos, Anthropologie des pratiques alimentaires, Denoël, 1985, p. 235. O narrador encontra aqui espontaneamente referências implícitas à predação através de um vocabulário geralmente usado para os não-humanos macho dominante” é a biologização/etologização do chefe de família”.

16 Alain Testart, Essai sur les fondements de la division sexuelle du travail chez les chasseurs cueilleurs”, Cahiers de l’Homme, éd. de l’EHESS, Paris, 1986, p. 89.

17 A tese da origem do poder masculino a partir do controle do alimento de origem animal foi exposta por Friedl Ernestine, Society and Sex Roles” (Sociedade e papéis sexuais”), em Human Nature, vol. 1, n°4, 1978; citado por Farb et Armelagos, op. cit.

18 Lembremo-nos, por exemplo, do sentimento de estranheza que sentimos quando tomamos conhecimento que são as leoas que caçam e não os leões. Mas tudo entrou na ordem (natural) de nossos pressupostos sexistas quando ficamos sabendo que os leões comem antes. As fêmeas devem esperar, juntamente com os filhotes, até que o macho esteja satisfeito. Ainda que não cacem, continuam sendo os dominantes.

19 Citado por Keith Thomas, Dans le jardin de la nature, La Mutation des sensibilités en Angleterre à l’époque moderne (1500-1800), éd. Gallimard, 1985.

* N. E.: O título original do artigo é “Qui va à la chasse garde sa place”, uma inversão do provérbio francês “Qui va à la chasse perd sa place”, cuja tradução literal é “Quem vai à caça perde o lugar”.

Tradução: Anna Cristina Reis Xavier


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Olhar Animal – www.olharanimal.org


Para acabar com a idéia de Natureza, e reatarmos com a ética e a política

As pessoas sempre repetem que o que é natural é bom1. A Natureza é uma ordem harmoniosa onde cada coisa está em seu devido lugar; e por isso não devemos nos intrometer. Ela inspira um sentimento religioso de respeito, no sentido de adoração e temor (como de submissão frente a tudo que nos parece poderoso e perigoso).

Entretanto, se a natureza designa tudo o que existe, nada pode ser considerado contra-natura. Se “contra natura” designa uma parte do que existe, então faz sentido falarmos de “contra natura” somente se supormos que esta natureza não apenas existe mas sim é o centro de uma finalidade. Ora, nada sustenta este ponto de vista. A ciência após Darwin não se manifesta sobre esse ponto2. O único apoio da existência de uma tal finalidade continua sendo a fé (a simples fé na ordem natural ou a fé religiosa). Além do mais, a existência de uma entidade “Natureza” munida de uma finalidade, não resolveria o problema ético: a existência da Natureza (ou de Deus) não implica que devamos nos submeter à sua vontade.

Cultivar em si um sentimento de “respeito” ao que parece ser uma potência, e de submissão a uma ordem (ainda que fantasiada como “vontade de harmonia”), não parece algo de bom augúrio… apesar disso, a idéia de natureza continua onipresente nos discursos normativos. Na prática, nossa atitude é mais ambígua: às vezes os humanos denunciam com indignação o que consideram contranatura, outras vezes celebram as conquistas que permitiram à humanidade escapar dos rigores de sua condição primitiva. Ninguém deseja realmente que imitemos a natureza em todos os sentidos, mas, por outro lado, ninguém renuncia de bom grado à idéia que a Natureza deva nos servir de exemplo ou de modelo. As considerações sobre o que seja contra-natura e o que é natural (considerado o que é normal, sadio, bom…) freqüentemente vêm impedir a reflexão sobre o que é bom ou mal de se fazer, sobre o que é desejável e porque, em função de quais critérios. A idéia da natureza “polui” os debates morais e políticos…

A reverência pela ordem natural

O natural continua fortemente associado a julgamentos de valor. A publicidade utiliza a palavra “natureza” para designar ou evocar aquela noção que possui uma conotação positiva: campo, saúde, tradição, eternidade, força, autenticidade, sabedoria, simplicidade, paz, esplendor, abundância… O sentimento da natureza traz um “suplemento de alma” bem vindo ao mundo mercantilizado e participa assim do “reencantamento do mundo” capitalista: quando se trata de vender algo, tudo se transforma em “natural”.

A ideologia do “respeito pela natureza” triunfa cada vez mais sobre a idéia da vitória sobre a natureza; ainda que uma seja o próprio espelho da outra. Os “progressos” das ciências e técnicas são habitualmente aplaudidos como etapas na Longa Caminhada do Progresso, enquanto que, ao mesmo tempo, repetimos palavras alarmistas sobre os riscos que corremos quando brincamos de “aprendizes feiticeiros”. Nos dois casos, recorremos aos mitos (o Progresso versus o “gênio do Homem”). Não se reflete muito sobre o caráter positivo ou negativo das conseqüências geradas para os seres que estão envolvidos no processo. A dosagem das duas atitudes parece totalmente arbitrária: hoje em dia, a genética e as biotecnologias são as principais vítimas do reflexo “prónatureza”, especialmente quando elas dizem respeito à reprodução humana. Outras inovações médicas são classificadas sem sentimento algum como estando do lado do progresso. Que esta distinção emane de uma reflexão sobre as conseqüências possíveis de umas e de outras seja suficiente para explicar por que ajudar um casal a colocar no mundo uma criança através de fecundação in vitro provoque “graves problemas éticos”, enquanto que, antes da concepção, corrigir problemas de esterilidade não provoca nenhum debate ético ? Tudo acontece como se tivéssemos decretado que alguns setores pertencessem à ordem do sagrado: a natureza previu um processo preciso de reprodução e estaríamos expostos a sanções terríveis se não nos conformarmos a ele.

Reações da mesma esfera são manifestadas episodicamente nos campos mais diversos. De repente, o temor inspirado por qualquer ameaça nova reanima a idéia que a Natureza é quem manda e pune. Assim, a inquietude suscitada pela transmissão aos humanos da encefalopatia espongiforme bovina (a “doença da vaca louca”, N.T.) fez as pessoas falarem que a desgraça ocorreu porque permitimos alimentar animais naturalmente herbívoros com farinhas animais3.

Atualmente ressurge um pensamento religioso laico graças à substituição da palavra Deus pela palavra Natureza. Este pensamento pode ser percebido nos discursos que tendem a valorizar o respeito dos equilíbrios naturais como um valor em si. Em um primeiro sentido, o equilíbrio é um termo puramente descritivo. Ele designa um estado de imobilidade ou de permanência: as relações que os elementos de um ecossistema mantém são tais que ele conserva sua estrutura, os seres que o3 compõem são invariáveis ou renováveis de forma idêntica4. Na linguagem familiar, entretanto, a palavra equilíbrio designa mais do que este estado particular (de repouso em relação ao movimento), para encarnar o sentido de um estado ideal. O equilíbrio dos ecossistemas se transforma em “ordem natural” ou em “harmonia natural”. A noção da ordem evoca um sistema onde cada ser ou categoria de seres se encontra em seu justo lugar. A de harmonia faz pensar em um estado de união ou concórdia, onde cada parte se acomoda da melhor forma com as outras para contribuir com a beleza do todo5. Estas palavras fizeram nascer a imagem de uma Natureza ordenadora do mundo para o bem de suas criaturas, ainda que fazendo-as sentir o perigo que ocorreria ao atrapalhar a perfeição. Na medida em que a crença não é formalizada, pensamos ser mais adaptado falarmos de mística da natureza em vez de imediatamente evocarmos a palavra religião. Onipresente, ela está como dissolvida na vida social: formando um dos barulhos de fundo de nossas existências, ela é formulada explicitamente como sistema apenas por alguns. Estes são a voz de uma religiosidade que se distingue das religiões tradicionais no que ela é perfeitamente em harmonia com a sociedade moderna: uma religiosidade individual mas comum, comum mas não coletiva. Uma mística difusa, que os indivíduos atomizados elaboram, e que celebram geralmente de maneira individual, em sua própria intimidade – na laicidade.

Tal mística vai bem: uma boa parte da população classifica as atividades ou as realizações humanas em “naturais” (ou boas, originais, autênticas…) e artificiais (degeneradas, desnaturadas, más…). Se alguns se agrupam em associações de “proteção da Natureza” ou nas lojas de alimentos orgânicos (e excomungam os remédios, as pílulas, a química e o cimento…) mais numerosos ainda são os crentes não praticantes. Várias pessoas sentem assim a crise ecológica atual em termos naturalistas: nossa espécie, vista como grupo biológico, proporcionaria um questionamento sobre si própria. De alguma forma a humanidade seria maldita e somente poderia, pela sua essência, “destruir a natureza”. Este modo de abordar problemas bem reais escamoteia a questão das relações sociais (é para isso mesmo que serve invocar a natureza) e não permite buscar soluções concretas, políticas: com evidência não são todos os humanos nem todas as atividades sociais que possuem o mesmo peso destrutivo sobre nosso meio ambiente e nossas vidas… Quanto ao fato de acreditar que os “primeiros” povos, aparentemente “próximos da natureza” (por que não dizer simplesmente, como no bom tempo da colonização: povos “primitivos” ou “naturais”?) poderiam nos ajudar ao nos legar uma espécie de “sabedoria original”… Talvez seria mais útil falarmos novamente das relações sociais, de exploração, de capitalistas, e das relações patriarcais, etc?

Quanto a nós, não vemos na natureza (na realidade) nem harmonia, nem modelo a seguirmos, nem fonte de castigos úteis ou merecidos: poderíamos detalhar “seus” malefícios para com os humanos ou outros animais. Poderíamos também detalhar as tentativas feitas para justificar as infelicidades que ela causa para justificar os benefícios que podem daí resultar; tentativas que podemos imputar ao esforço desesperado de teólogos que desejam apoiar que a Criação é sempre boa pois é obra de Deus. Na realidade, nós não pensamos que a Natureza exista, que o mundo seja ordenado, equilibrado, harmonioso, que as coisas tenham um lugar natural, nem que exista uma ordem natural das coisas. A noção da “realidade” é suficiente para nós, ela é descritiva e não prescritiva como o é a da “natureza”. Imaginamos atos que “contradigam a natureza”; mas atos que “contradigam a realidade”? Não violamos a realidade, nem a transgredimos: livres do temor religioso, somos livres para refletir sobre o que é bom ou mal para ser feito.

Natureza e ética : o salto do “que é” ao que “deve ser”

Imaginamos de bom grado que as coisas possuam uma essência que as faz como são e não outra coisa, que possuem uma tal propriedade e não outras; que elas têm uma outra “natureza” que lhes é própria, que organiza suas características, seu crescimento, seu destino e que garante que elas ficarão no lugar que lhes é destinado na “ordem do mundo” e que elas consolidarão seu papel; “Mãe Natureza” é vista como aquela que outorga a cada elemento considerado natural, sua natureza. Associamos uma finalidade a esta suposta “natureza” das coisas, os seres compõem uma categoria “de mesma natureza” são feitos para alguma coisa ou destinados a comportarem-se de uma certa maneira. Apenas ao realizarem aquilo para que são feitos que eles realizam sua verdadeira natureza. Assim, um gato deve realizar sua natureza de felino, ou de carnívoro. Se não age conforme esta natureza será visto como um “degenerado”…

As essências são fundamentais, não devemos mexer nisso. Assim, não devemos misturar as coisas declaradas de essência (natureza) diferente. O mesmo tipo de pensamento faz pessoas odiarem a miscigenação de raças. A natureza das coisas não deve ser “alterada” a não ser que se corra o risco que a ordem mantida seja dissolvida no caos. Este imaginário mitológico condena as biotecnologias pois elas criam quimeras, ao misturarem as fantasmagóricas fronteiras naturais entre as espécies ou, no caso da clonagem humana, são vistas como profanadoras de uma sacro- santa unicidade6. Aqui ainda, entretanto, o problema não é de saber se as conseqüências de nossas atividades são naturais ou artificiais, se elas “violam as leis da natureza” (se elas transgridem uma fronteira natural – como pressupõem-se ser a fronteira das espécies), mas sim avaliar se elas são nocivas ou não, perigosas ou não e para quem. Questionarmos, em termos de uma ciência artificial industrial moderna maldosa, que seria oposta a uma sabedoria natural artesanal tradicional boa, impede raciocinarmos em função de critérios racionais. Principalmente, no tocante às novas tecnologias, o que desvia com freqüência a atenção deste problema político fundamental que é o fato de não serem as populações que decidem do futuro que terão (poderíamos até falar o mesmo do futuro mundial). Essas populações não possuem meios para operarem. Uma crítica similar vale para o movimento da agricultura “biológica” que, apesar de sua boa vontade, acentua principalmente a crença do “que é natural é que é bom” e não em questões éticas e políticas de propriedade dos meios de produção e de distribuição, ou de diminuição sustentável do crescimento com fins ecológicos e para a partilha das riquezas.

Ao determinar uma natureza aos seres, afirmamos ou um direito, uma finalidade ou um dever de agir de certa maneira. E isto da maneira mais arbitrária possível. Assim, o fato que as mulheres possam gerar filhos, freqüentemente levou à idéia de que elas deveriam gerar filhos ou que a verdadeira natureza feminina apenas seria realizada na maternidade. O fato dos órgãos sexuais dos machos e das fêmeas permitirem a procriação foi interpretado como uma ordem da natureza (ou de Deus) exigindo que sirvam apenas a isso7. Por outro lado, o fato da boca ser um ponto de entrada para a ingestão de alimentos raramente conduziu os moralistas a desaprovarem os que servem da boca para tocarem clarineta. A natureza, é a norma.

Com a maior freqüência, o que é percebido como sendo natural é apenas o que é comum ou admitido no seio de uma determinada sociedade – em particular naqueles que se encontram em posição dominante: quando não é mais por direito divino, é por um fato da natureza que os adultos têm o dever de administrar a vida das crianças, os homens de dirigir a vida das mulheres, os brancos de “civilizar” os negros ou outras “raças”, os “humanos” de reinar sobre outras “espécies”, etc. Os dominados o são por natureza, os dominantes também são assim por causa de sua natureza8. O discurso é brutal, mas eficaz. Aí ainda, a evocação da Natureza permite fazer economia de uma discussão argumentada, sobre nossos valores e sobre as escolhas que daí decorrem. Não há mais o que debater, as escolhas estão feitas.

Natureza e discriminações intra-humanas

Peguemos a noção de raça; o problema não é que nos tenhamos divertido a distinguir as variedades dos humanos (os de pele negra, os de pele branca, os que possuem olhos rasgados ou não, as morenas e as castanhas, etc.), acontece que “naturalizamos” certas classificações (as que ofereciam um interesse político): a “pele negra” se tornava o sinal de uma raça, uma raça sendo, na realidade uma natureza (um modo de ser). Ter a pele negra deixava desde então de ser uma característica, uma propriedade entre outras de um individuo, para significar uma essência, uma afiliação a uma categoria englobante: o indivíduo pertence conseqüentemente a uma classe, que o determina por inteiro; ele se torna o representante dela. Ele não tem mais uma pele negra, ele é negro. Evapora-se assim toda individualidade, ele torna-se um espécime que exprime em primeiro lugar sua categoria. Isto vale, logicamente, sobretudo para os dominados: se os negros são essencialmente negros, os brancos são brancos, claro, mas eles não se reduzem à sua cor de pele.

Da mesma forma quanto à questão do sexo: eu não tenho tal ou tal sexo, que constituiria uma de minhas particularidades, mas eu sou de tal ou tal sexo. Estima-se que meu sexo diga tudo o que eu sou. E isso é ainda mais verdadeiro para as mulheres. Tota mulier in utero: a mulher é inteiramente definida pelo seu útero. Quanto aos homens, eles continuam plenamente humanos, encarnam a espécie, a universalidade, enquanto as mulheres são específicas, particulares, diferentes.

Do mesmo modo, as crianças são crianças, e suas reações são percebidas apenas como expressões de crianças, e não como de indivíduos; os adultos, eles serão plenamente humanos, individualizados. Eles são a norma…

Infelizmente muitos anti-racistas ou anti-sexistas recusam dar cabo à idéia de que temos natureza e tentam simplesmente desagregar a pertinência das categorias de sexo e de raça ao tornar seus contornos indeterminados, vagos. Esta tática é particularmente evidente no que diz respeito ao racismo quando ela se resume na fórmula: “as raças não existem, há apenas uma raça humana”. Quanto ao sexismo, a afirmação equivalente “os sexos não existem” é por demais abrupta, mas a proposição segundo a qual “nós todos temos um lado feminino e um outro masculino” é um substituto freqüentemente usado. Estas formas de argumentação têm em comum o fato de poderem ser feitas sem questionar-se duas características fundamentais do ponto de vista “naturalista”: a transformação dos indivíduos em seres que trazem em si a essência de sua categoria, e a justificação do status ético dos membros deste grupo pelos traços naturais que são considerados seus correspondentes. A opinião atual não quer renunciar a procurar sua justificação nas intenções da natureza, nem contestar a pertinência moral dos limites “naturais”.

Natureza e especismo9

De fato, existe um terreno onde a opinião majoritária não pode ser explicada de outra forma a não ser pela adesão a estes dois postulados, ainda que aqueles que estejam de acordo tenham raramente consciência disso. Trata-se da definição de quais seres deveríamos nos preocupar (os “pacientes morais”)? Quais deveríamos “não matar”, “não fazermos sofrer”, “não tratarmos como um simples meio para chegarmos a nossos fins”? Geralmente a resposta é: os seres humanos, enquanto deveria, logicamente ser: todos aqueles que possam sofrer com esses comportamentos. Há poucos indivíduos onde uma “diferença natural”, devido à espécie à qual pertençam10, seja usada com tão pouca precaução como uma fronteira moral. Para aqueles que excluímos dessa maneira, admitimos que seu bem se confunda com “aquilo que a natureza reservou para eles” mas também assimilamos com o que podemos obter deles: os gatos são feitos para pegar os ratos, os carneiros para serem tosados e os frangos para serem assados.

Há então uma ou várias particularidades naturais que justificam, de modo evidente, que não nos preocupamos nem um pouco com os interesses dos seres sensíveis desde que estes não sejam humanos11? O simples fato de questionarmos isso é freqüentemente julgado como um sacrilégio. Todavia, se consideramos os membros concretos da espécie, temos a maior dificuldade em encontrarmos uma particularidade que seja ao mesmo tempo exclusivamente humana e presente em todos os humanos. Os traços distintivos que são geralmente apontados não pertencem a todos os humanos. Eles caracterizam o “humain type”, uma natureza humana que satisfizemos em esboçar para as necessidades da causa (e que corresponde ao humano adulto e saudável mentalmente). Inclusive a própria definição do “humano” continua sendo extremamente vaga. Os fetos são humanos? Quid os espermatozóides ou os óvulos? Quid os indivíduos que se encontram em estado de coma irreversível, que somos obrigados a declarar em estado de “morte clínica” (que continuam indubitavelmente vivos) para que se autorize que as máquinas sejam desligadas? Assim, o critério do humano não corresponde em nada a uma definição científica que seria aceitável para cada um, independentemente de seus pressupostos filosóficos ou teológicos. É igualmente importante notarmos que os traços destacados para justificar a discriminação contra os não-humanos (a inteligência, a razão, a liberdade, o fato de ter “saído da natureza”, etc.), não apenas são bastante indefinidos mas, sobretudo, não mantêm nenhuma relação com o que esperam justificar. Devemos nos sentir felizes, porque tais traços não são levados a sério quando se trata de analisar vários seres humanos que não são nem inteligentes, nem racionais, nem livres… De forma estranha, estes mesmos argumentos são aceitos sem hesitação desde que se trate de animais: não temos nenhum escrúpulo em tratá-los de uma tal maneira, que, a cada dia, na França, milhões dentre eles sintam medo, angústia, sofrimento, tédio, cólera. Nossas práticas ocasionam sensações – dolorosas, cruéis ou insuportáveis – que nunca desejaríamos sofrer em nossa própria pele. Se levássemos a sério estas contradições, poderíamos mudar nossas práticas individuais e coletivas para, imediatamente acabarmos com a maior parte destes sofrimentos.

Há mais de dois séculos, Jeremy Bentham resumia nestes termos as objeções que suscitam uma atitude especista:

“Os franceses já perceberam que a pele morena não é razão para abandonar sem recursos um ser humano aos caprichos de um perseguidor. Talvez notem, um dia, que o número de pernas, a pilosidade da pele ou a extremidade do osso sacro são razões de longe insuficientes para abandonar uma criatura sensível á mesma sorte. (…). O que mais deveria determinar a linha insuperável? A faculdade da razão, ou, talvez, a capacidade de falar? Mas um cavalo ou um cão adultos são animais incomparavelmente mais racionais e mais falantes do que uma criança de um dia, de uma semana ou até mesmo de um mesmo. E ainda que não o fossem, o que isso mudaria? A questão não é saber se são capazes de raciocinar ou falar, mas, sim, se são passíveis de sofrimento”12

O dia da libertação ainda não chegou e hoje, assim como ontem, os animais continuam sendo vítimas de uma discriminação arbitrária tanto quanto as discriminações racistas e a exploração – onipresente, massiva, feroz – que daí resulta e por esta razão é tão injustificável quanto a escravidão. Essa discriminação é um pedestal sobre o qual nossa civilização foi construída. Podemos pensar que se o naturalismo ocupa ainda essa posição fundamental em nossa cultura, é em grande parte por que continua sendo insubstituível para justificar o especismo.

Parece que nossa humanidade se valoriza na proporção em que desprezamos os animais. Ela se define inteiramente como diferente da “animalidade”, quer dizer, com estes representantes designados de uma Natureza à qual ela se opõe metodicamente: os humanos são indivíduos que possuem um valor intrínseco, têm uma história, são racionais, conscientes e livres. Emergiram brilhantemente do “estado de natureza” enquanto os animais são os mecanismos funcionais da ordem (a Natureza), amostra de sua espécie, inteiramente guiados por seu instinto13 e prisioneiros de sua naturalidade, sem esperanças de remissão. Recortamos, no mundo real, dois impérios que se definem um por oposição ao outro: um, reino da liberdade e da individualidade, de dignidade exclusiva; o outro, reino do determinismo e da funcionalidade, da falta de valor próprio. Nós aceitamos então uma moral dupla, vinda do essencialismo cristão: uma moral de igualdade no seio do grupo “biológico” da espécie humana e uma moral inteiramente elitista, hierárquica, em relação aos indivíduos de outras espécies. É sobre a base do “elemento” hierarquizado de nossa moral que são elaboradas as discriminações racistas ou sexistas: basta minimizar o grupo dos “iguais” naturalizando as categorias visadas para excluí-las, fazê-las passar do outro lado da barreira. Prova suplementar do extremo arbitrário (e da grande periculosidade) destas noções de Humanidade e de Natureza, entretanto imaginadas como fundadoras de nossa ética e nossa política.

De fato, se há diferenças radicais a serem estabelecidas, estas não residem nas oposições entre natural e humano, natural e social, natural e artificial, inato e adquirido14, etc. De um ponto de vista científico, filosófico, tanto quanto ético, não é esta distinção entre supostos “seres de liberdade” e “seres de natureza” que agora parece pertinente, mas sim a diferenciação estabelecida entre uma matéria sensível e uma inanimada, entre estas coisas reais que sentem sensações e desejos e por causa disso agem em função dos fins que lhes são próprios, e estas outras coisas que nada sentem, não possuem interesses, para as quais nada tem importância, que não imputam nenhum valor aos acontecimentos e nenhuma finalidade à sua própria existência. Entre os seres sensíveis e as coisas insensíveis, para resumirmos: entre os animais e as pedras ou as plantas. Mais ainda do que a existência de uma consciência reflexiva, o “simples” fato que a matéria possa, em alguns casos se revelar capaz de sentir sensações e, além disso um impressionante enigma, e a explicação deste mistério será sem dúvida o desafio que as ciências ao longo deste início de século terão que resolver.

São as coisas vivas sensíveis que dão valor ao fato de viverem. Os únicos valores que existem objetivamente são os que cada ser sensível dá à sua própria vida, a seus momentos vividos e ao mundo que o circunda. Neste sentido, o mundo não é provido de sentido, não é absurdo, mas possui um sentido; ou melhor, possui vários! Sentidos que não resultam de uma totalidade, mas de cada um dos seres que, separadamente, porque sensíveis, dão um sentido ao mundo que lhes é próprio (ao seu próprio mundo). As únicas coisas que possuem um valor por si próprias são estes seres sensíveis: nós todos que sentimos o mundo, que sentimos nossa vida, que sentimos dor e prazer, o desejo e a repulsão, que conhecemos a intenção, a vontade e a recusa. Todos nós: não apenas os humanos, mas o conjunto dos seres dotados de sensibilidade.

A sensibilidade foi desvalorizada pois foi excluída dos valores destacados pelo Humanismo (a Razão, a Liberdade, etc.). Nestas últimas décadas, constatamos, entretanto, uma evolução em direção à uma conscientização maior com o sofrimento e com o prazer enquanto tais. Sabemos que hoje em dia os tratamentos paliativos para os humanos e também para os animais de estimação se desenvolvem, enfim, e que não se quer mais, por exemplo, operar os recém nascidos sem anestesia15. Do mesmo modo, as pessoas começam a se preocupar com o bem estar dos animais da pecuária. Estamos, lógico, longe de uma reivindicação de igualdade de consideração dos direitos, mas é notável que uma nova preocupação apareça no campo das afeições, das sensações e das emoções, uma valorização do sensível enquanto tal. Pensamos que trata-se do surgimento de um movimento que tem suas raízes nos séculos precedentes, que admitiram principalmente a sensibilidade ao sofrimento (o próprio e o dos outros) e que vem progressivamente crescendo em importância. Este movimento de atenção crescente à nossa vida sensível poderia ser qualificado de “sensibilista”… mas não procure no dicionário, a palavra ainda não se encontra nele.

Acabar com a idéia que fazemos da Natureza e nos reconciliarmos com a ética e a política

A regra “obedecer à natureza” é vazia em termos de sentido. Através de amálgamas (especialmente a mudança quase imperceptível e ilegítima entre dois sentidos perfeitamente distintos da palavra “lei”, que designa seja uma regularidade, seja um comando) que uma corrente de pensamento multiforme pretende fundar uma ética sobre o “respeito” da “ordem natural” ou sobre a obediência às “leis da natureza”. Voltar a esta idéia de natureza é apenas uma retroação ou um lembrete sobre a ordem.

As idéias recebidas se propagam escapando a todo questionamento crítico. Mas as proposições vazias ou falsas não se tornam verdadeiras só por estarem sendo muito repetidas. Elas constituem um perigo pois oferecem uma linha de conduta ilusória ou falsa frente a problemas bem reais. Invocar a natureza em vez de invocar princípios claros de julgamento é uma das maiores enfermidades que aleijam numerosos movimentos contemporâneos que desejam melhorar o mundo.

Invocar um critério de naturalidade em vez de evocar um critério de justiça, permite o estabelecimento de todas as injustiças. A ética é a procura do bem. A única ética digna deste nome é a que se aplica a todos os seres, a quem podemos fazer bem ou mal, quer dizer, a todos os seres conscientes (sensíveis). Isto emana do princípio de justiça ou de eqüidade: a igualdade, por definição, recusa toda discriminação arbitrária.

Atualmente muitos preferem ficar mergulhados na nostalgia de uma “idade de ouro” ou de “modos de vida tradicionais harmoniosos” que jamais existiram, em vez de lutarem aqui e agora para o começo de mundos que se preocupem com outros mundos, com todos os outros. A política, se quer se fundar na ética, não tem mais nada a ganhar ao basear seus valores no sentimento da natureza.

Felizmente, não há nenhuma fatalidade naturalista: não faz parte da “natureza” de se preferir uma pequena reverência à Ordem do que um debate aberto e contraditório sobre o que é justo ou não de se fazer.

NOTAS

1 Este artigo contem passagem tiradas – com o acordo da autora – do prefácio de Estiva Réus sobre sua análise feita sobre o ensaio A natureza de John Stuart Mill (A Descoberta, 2003). Esta análise de Mill, cuja primeira edição apareceu em 1874, oferece uma incrível análise crítica das doutrinas que “fazem da Natureza um critério do justo e do injusto, do bem e do mal, ou que de uma maneira ou em um grau qualquer aprovam ou julgam meritórias as ações que seguem, imitam ou obedecem a natureza” (p. 55). Geralmente, as análises desenvolvidas a seguir devem muito às reflexões feitas no seio do movimento pela igualdade animal.

2 Ver a obra coletiva “Espèces et éthique. Darwin, une (r)évolution à venir”, éd. tahin party (“Espécies e ética. Darwin, uma (r)evolução futura”, edições tahin party), 2001. As versões da biologia, da ecologia ou da teoria da evolução que aprendemos na escola, cujos resumos vulgarizados lemos nas revistas (inclusive naquelas científicas), aquelas que escutamos falar no rádio ou na televisão, são geralmente saturadas de menções naturalistas, finalistas e holísticas.

3 Por outro lado, a prática rotineira da inseminação artificial feita nas mesmas vacas não escandalizou nem a opinião publica nem agitou os comitês de ética. Quem se incomoda com o que as vacas sofrem?

4 Apesar de seu sucesso quanto ao pensamento ambientalista, a noção de equilíbrio natural não corresponde provavelmente a nenhuma realidade. Cf. Daniel Botkin, Discordant Harmonies, A New Ecology for the Twenty-First Century, Oxford University Press, 1990.

5 É interessante constatarmos que a noção de “ordem natural” é contemporânea aos regimes políticos e sociais explicitamente autoritários, enquanto que a noção de  “equilíbrios naturais” é mais contemporânea das democracias parlamentares. A idéia da natureza foi, com muita freqüência, uma projeção de nosso próprio modo de vivermos em sociedade. Mantemos uma visão da natureza praticamente totalitária, onde os indivíduos existem apenas enquanto mecanismos e funções no seio de uma ordem totalizadora.

6 Para uma crítica dos implícitos contidos nos discursos humanistas contra a clonagem humana, verifique o artigo de David Olivier, “Alors, on pourra les manger?” nos Cahiers antispécistes n°15.

7 Lemos, por exemplo, no Catequismo da Igreja Católica sobre as relações homossexuais: « Apoiando-se na Santa Escritura que os apresenta como depravações graves, a Tradição sempre declarou que “os atos de homossexualidade são intrinsecamente desordenados”. São contrários à lei natural. Neste tipo de ato sexual fica limitado o dom da vida. Tais atos sexuais não resultam de uma complementaridade sexual e afetiva verdadeira. Em caso algum tais atos poderiam ser aprovados (Mame/Plon, 1992, p. 480).

8 Efetivamente, os dominantes imaginam, por causa de suas próprias qualidades, que eles se destacaram da natureza (contrariamente aos dominados, que os dominantes enxergam como ainda imersos na natureza), salvo quanto se trata de legitimar a dominação: assim eles se tornam novamente “homens naturais” (machos) com necessidades irrepreensíveis caso trata-se de justificar estupros (cf. D. Welzer-Lang, Le viol au masculin (O estupro ao masculino) L’Harmattan, 1988); assim tornam-se carnívoros por natureza para justificar o consumo da carne (cf Clém Guyard, Dame Nature est mythée, edições carobella ex natura, 2002), etc. Sobre o discurso da natureza e das práticas sociais sobre a apropriação, leremos com utilidade Colette Guillaumin, Sexe, Race et Pratique du pouvoir. L’ idée de Nature (Sexo, Raça e Prática do Poder. A idéia da Natureza), Indigo et Côté-femmes, 2000 [1978].

9 O termo especismo foi inventado através das palavras “racismo” ou “sexismo”. Ele designa a discriminação arbitrária dos indivíduos sensíveis que não pertencem à nossa espécie. Deduz-se do especismo uma exploração de uma extrema brutalidade, pois a maioria dos humanos de nossas sociedades consideram os animais como mercadorias,  utilizáveis para fins tão negligenciáveis como criá-los e depois matá-los para consumir suas carnes!

10 Cf. David Olivier, “Les espèces non plus n’existent pas” (“As espécies também não existem”), Cahiers antispécistes n°11, déc. 1994.

11 Um inventário e uma análise crítica das teorias que defendem esta distinção são também propostos em “Animal, mon prochain”, de Florence Burgat (Éditions Odile Jacob, 1997). Na filosofia ética profunda, a fronteira “natural” que delimita a espécie humana é raramente apresentada de modo assim tão resumido como constituindo, enquanto tal, um critério moralmente pertinente. Afirma-se, de preferência, que os seres que pertencem a esta espécie são os únicos a possuírem outras características que, à eles, são pertinentes. Esperamos assim, através de meios mais apresentáveis, chegar a conclusões equivalentes. Estas posições foram sistematicamente analisadas e verificadas pela crítica ao longo dos últimos trinta anos, principalmente por autores anglo-saxônicos (P. Singer, T. Regan, J. Rachels…) que revelaram assim toda sua inconsistência. Textos destes autores – e de outros que tratam o mesmo tema – estão disponíveis em língua francesa no site dos “Cahiers antispécistes” (http://cahiers-antispecistes.org) e no das edições tahin-party (http://tahin-party.org).

12 “An Introduction to the Principles of Morals and Legislation” (1789).

13 O instinto continua sendo um elemento central da retórica naturalista quanto aos animais, mas nenhum etologista ousa, atualmente, referir-se à uma noção que evoque a “vertu dormitive” (virtude dormitiva do remédio que faz dormir), de Molière (a noção de instinto nada explica)… A principal vantagem da noção de instinto é a de evacuar a idéia de uma subjetividade animal (ou, não faz muito tempo, de outras classes de dominados como as mulheres ou os negros) e de evocar (e não explicar!) uma transmissão da espécie ao indivíduo da função natural que ele deve encarnar.

14 A tradicional controvérsia sobre o que seria adquirido ou inato nos humanos (por exemplo, em relação aos sexos ou às “raças”) explica-se apenas pela crença na idéia de  natureza; o “inato” e o “adquirido” resultam em cada caso de causas extremamente numerosas e heterogêneas que torna-se sem sentido querermos distinguir duas categorias. Por outro lado, as qualidades que qualificamos de inatas não implicam de forma alguma uma natureza, contrariamente ao que parece esperado ou, ao contrário, temido. Caracteres inatos não implicam nem uma essência nem um destino (dever-ser), e é falso pensarmos que o que julgássemos inato fosse sempre imutável, definitivo (e, em alguns casos, “inconsciente”, não requerendo uma percepção subjetiva, nem uma decisão do indivíduo para se executar) enquanto que o que fosse adquirido continuaria flexível, modificável, passível de ser melhorado (e consciente, submisso à vontade, etc.).

15 Claude Guillon, “À la vie à la mort. Maîtrise de la douleur et droit à la mort”, Noêsis, 1997.

Tradução: Anna Cristina Reis Xavier


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A predação, símbolo da Natureza

A fim de contestarmos a visão de mundo totalitária e fascista que é a visão que cada um de nós tem em nossa sociedade fundamentalmente naturalista e para reafirmarmos a importância dos interesses dos não-humanos justamente onde a ideologia dominante a nega com a maior força, que é importante analisarmos especialmente o tema da predação.

A predação, mais do que a fome, a doença ou a superpopulação, aparece para os seres humanos como a marca por excelência da subordinação/afiliação dos outros animais à Ordem Natural, à Totalidade, porque é o melhor exemplo do preço que eles pagam; é, pelo menos, o exemplo que mais faz trabalhar nosso imaginário. Assim sendo, a predação é o melhor símbolo desta Ordem Natural à qual nós, animais humanos, supostamente escapamos graças à nossa vontade moral e aos nossos Direitos: se alguns sentem nostalgia por uma Natureza onde cada um tinha seu lugar e vivia em harmonia com os outros e com o Todo, e desejam, em um desejo de fusão mística reencontrar essa Natureza, a maior parte das pessoas prefere prosaicamente saborear a posição de privilegiados, pelo fato de serem humanos, e desejam que os outros animais continuem a se fazerem predar e parecerem imersos em uma “Natureza” de onde os humanos e super predadores teriam saído.

Se em vez de nos questionarem sobre os outros males naturais, as pessoas preferem nos perguntar sobre a questão da predação, é porque sabem que nós mesmos não a praticamos. Se, como nós pensamos, a alimentação carnívora é o símbolo fundamental da supremacia humana, a referência prática central da dominação especista, então não é surpreendente que a predação natural seja objeto de um tabu tão resistente e continue incriticável. Ela é análoga, na Ordem Natural, do nosso consumo de animais na ordem da sociedade, e ela parece ser a última justificativa. O que também acontece, como mostra a situação seguinte, com outras formas de exploração dos não humanos:

O importante, é que os pesquisadores se conscientizem que podemos tratar um animal de outra maneira. Nós queremos inculcar a noção de respeito do animal. O animal é necessário para a pesquisa científica, da mesma maneira que a lebre é necessária para a sobrevivência da raposa. A espécie humana luta utilizando as outras espécies.
Jean-Claude Nouët1

Nota

1 Professor da faculdade de medicina (Paris – VI), vice presidente da Liga Francesa pelos direitos do Animal (fundada por Alfred Kastler, prix Nobel); citado por  Lea di Cecco, «Expérimentation : peut-on se passer des animaux ?», em Science et Avenir n°511, setembro de 1989, p. 35. Sobre esta Liga profundamente especista, podemos ler meu «Droits de l’Animal, “version française”» («Direitos do animal, “versão francesa”»), Cahiers antispécistes n°2, janvier de 1992, assim como meu “Pour un monde sans respect” («Por um mundo sem respeito»), Cahiers antispécistes n°10, setembro de 1994.

Cito aqui voluntariamente uma pessoa que, como A. Lindberg, C. Elsen  e muitas outras, lutam por uma melhoria das condições de vida dos animais, mas contra a supressão da exploração e do estatuto inferior que a ela está ligada. É difícil saber se elas utilizam a referência feita à «Natureza» e à existência da predação para justificar seu ponto de vista especista, ou, ao contrário, se elas são incapazes de sair do próprio especismo pois estão coladas ao naturalismo – e à idéia de que os animais fazem parte desta «Natureza», e estão entregues a «suas leis» (das quais a predação é o emblema).

Tradução: Anna Cristina Reis Xavier

Fonte: Le Cahiers antispécistes n° 14 (dezembro 1996)


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Coelhos sem documentos

As pessoas dizem que não se deve interferir no curso natural das coisas. Mas quando os interesses humanos estão em jogo, e são suficientemente importantes, eles/elas não hesitam e agem. Tanto os ecologistas quanto os “amigos (as)” dos animais, como os outros.