Eric Slywitch: Dieta rica e saudável

A alimentação vegetariana –dieta na qual não há consumo de nenhum tipo de carne– é adotada por quase 10% da população brasileira, segundo dados do Ibope.

A origem dessa dieta se perde no tempo. Foi adotada por diversas culturas orientais, regidas pelo princípio da não violência. Hoje, o número de pessoas que, além das carnes, também excluem os ovos e laticínios da dieta, tornando-se vegetarianas estritas ou veganas, é crescente.

Estudos populacionais que comparam grupos vegetarianos e não vegetarianos com estilo de vida similar mostram que os primeiros têm menor incidência de todas as doenças crônicas não transmissíveis (cardiovasculares, diabetes, diversos tipos de câncer e obesidade).

Retirar carnes da dieta é simples, pois em geral basta trocar 100 gramas de carne por uma concha de leguminosas (feijões, ervilha, lentilha, grão de bico, por exemplo).

Obter ferro na dieta vegana também é simples. Em 100 gramas de carne vermelha, há 2 miligramas do elemento. Absorvemos 18% dele, ou seja, 0,36 miligramas. Já em uma concha de feijão, temos cerca de 4 miligramas de ferro com uma absorção de 10%, resultando em 0,40 miligramas de ferro absorvido!

Ao retirarmos 100 gramas de carne de uma dieta comum (consumo diário máximo preconizado pelo Ministério da Saúde), a ingestão de proteínas (e todos os aminoácidos) ainda assim ultrapassa 10 gramas das recomendações para um homem de 70 quilos devido sobretudo aos cereais e feijões.

Sendo assim, se pensarmos apenas em proteínas, poderemos trocar carnes até por água. Os alimentos vegetais contêm todos os aminoácidos essenciais.

A retirada do leite da dieta pede apenas a inclusão de alimentos ricos em cálcio: couve, rúcula, agrião, mostarda, escarola, brócolis e tofu. Temos no mercado diversos leites vegetais com teor desse mineral idêntico ao do leite de vaca.

A vitamina B12 está ausente no reino vegetal. No entanto, mantê-la no nosso corpo depende mais do metabolismo do que da ingestão de alimentos-fontes. Cerca de 50% da população brasileira, mesmo comendo carne e laticínios, tem carência de B12. Não é o que se come que garante bons níveis da vitamina no organismo.

Os animais são seres sencientes, ou seja, são capazes de sofrer, sentir prazer e felicidade. Não faz sentido ter mais consideração moral por um cachorro do que por um porco ou galinha. Todos esses animais têm direitos fundamentais. Se amamos um, por que comer o outro?

Além disso, dados da ONU mostram que a pecuária é a principal atividade humana responsável pela contaminação de mananciais de água, desertificação de solos e destruição de florestas.

Por sua vez, a alimentação vegana já foi declarada saudável pelas maiores instituições de nutrição do mundo, e sobram razões nobres e sólidas para corroborá-la. Na verdade, são o “status quo”, o preconceito e a incompreensão que tendem a ser os maiores obstáculos apresentados aos vegetarianos e veganos. Na construção de uma sociedade cada vez mais sustentável e inclusiva, é essencial que haja consideração e respeito a esse estilo de vida baseado em princípios éticos.

ERIC SLYWITCH, 38, médico nutrólogo, é diretor do departamento de medicina e nutrição da Sociedade Vegetariana Brasileira

Fonte: Folha Online

 

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Criação de Conselho de Proteção Animal é aprovada pela Câmara em Florianópolis

A Câmara Municipal de Florianópolis aprovou na última quinta-feira, dia 12, em segunda votação, a criação do Conselho Municipal de Proteção aos Animais em Florianópolis. O projeto de lei segue agora para sanção pelo prefeito César Souza Jr.

O texto, apresentado pelo vereador Afrânio Boppré, prevê o Conselho constituído por representantes de cinco órgãos públicos (secretarias municipais de Saúde, Educação e Meio Ambiente, além da Guarda Municipal Ambiental e do Ministério Público Estadual) e de cinco associações de proteção animal distintas.
Na visão do vereador, Florianópolis é carente de políticas públicas que garantam respeito e bem-estar aos animais. “Nossa intenção é dar o start no debate e criar as condições para viabilizar a constituição do Conselho Municipal, sem dúvida um passo importante para que mais pessoas se preocupem e se envolvam com a causa da proteção animal em nossa cidade”, declarou.
Para ele, o Conselho será importante também para promover e estimular a participação em projetos e programas educativos que disseminem conhecimentos nas áreas da saúde pública e ambiental. “É necessário pautar e impulsionar a população a adotar comportamentos éticos, civilizados e praticar permanentemente a cultura de paz”, concluiu.
O projeto foi desenvolvido em colaboração com as associações de proteção animal e debatido em audiência pública realizada em abril último. Segundo Maurício Varallo, representante da ONG Olhar Animal e da ANDA – Agência de Notícias de Direitos Animais, o projeto aprovado tem aspectos inovadores em relação a conselhos similares em outros municípios. “Na maior parte dos conselhos de proteção animal, os órgãos públicos ocupam a maioria dos assentos. Alguns contam com a participação de entidades da classe veterinária, que nem deveriam fazer parte deles por conta do conflito de interesses. Outros chegam ao absurdo de excluir as ONGs. Isto tudo compromete a defesa dos interesses dos animais. O PL apresentado pelo vereador Afrânio estabelece um equilíbrio neste sentido, prevendo uma inédita paridade entre governo e sociedade civil em sua composição”, declarou o ativista.
Os ativistas  já se mobilizam para pressionar o chefe do executivo, solicitando a todos os protetores de animais e simpatizantes que escrevam para imprensa@pmf.sc.gov.br e agenda@pmf.sc.gov.br pedindo a aprovação do Projeto de Lei Complementar 1264/2013.

 

Tocar o corpo de um animal que não pediu?

Por Sônia T. Felipe 

Temos um impulso egoísta de tocar imediatamente o corpo de qualquer animal que caia em nosso conceito de “fofo”. E o fazemos sem parar para pensar se o animal tocado daria ou não seu consentimento para isso. Invadimos sua privacidade física e mental com nosso gesto carinhoso.

Outro dia, lendo um prospecto turístico, vi que anunciavam como parte do pacote entrar em um recanto de animais marinhos e ter o direito de pegar na mão e acariciar uma estrela do mar ou um cavalo marinho. Estrelas não podem ser tocadas por nós. Tocamos os cavalos somente quando eles não nos dizem com seu coice que detestam isso. Mas os pequenos cavalos indefesos e estrelas marinhas não recebem nosso respeito.
Nosso toque atende apenas a uma carência nossa. Não atende a qualquer carência dos animais em geral. Aliás, a maioria deles, incluindo boa parte dos humanos, detesta ser tocada. E quando querem nosso toque, buscam-no a seu próprio modo e então sabemos que é isso o que procuram. Cães e gatos inclusive. Nem todos gostam de ser abafados por nossas carícias. Muitos são arredios. Outros se esquivam à menor ameaça nossa de tocá-los.

Entretanto, continuamos a pensar que se temos um desejo tão ardente de tocar um animal, é impossível que ele não sinta o desejo de ser tocado por nós. Erramos. Basta nos colocarmos no lugar do animal. Imaginar que de repente, sem que o quiséssemos, alguém nos toca porque está com muita vontade de sentir a textura da nossa pele, o calor ou a densidade do nosso organismo. Quando alguém se apaixona por nós ocorre isso. Mas não ocorre o mesmo quando não nos apaixonamos pela outra pessoa.

E porque não imaginamos nunca que nosso toque pode ser extremamente desconfortável para o animal, especialmente para aqueles que não evoluíram ainda para o contato conosco, ou os que têm um formato não apropriado para sentir carícias, continuamos a crer que nosso toque é tudo de bom para eles. Não é.

Se todos os animais fossem aptos ao prazer do toque, todos se comportariam do modo que desejamos que se comportem quando os tocamos. A maioria, se tiver chance, mostra claramente que não quer nada disso. Se não tiver como mostrar isso, acaba por sofrer o desconforto sem que sejamos nós capazes de perceber a invasão à sua privacidade sinestésica.

Para nos colocarmos no lugar de um pequenino animal que julgamos que gosta de ser tocado, quando esse não é o caso, imaginemos agora que um animal do tamanho de um prédio de 90 andares, com mãos que teriam a dimensão de uma sala de 36 x 15 metros nos pegasse de surpresa e nos fizesse ficar de costas, de bruços, de lado, de cabeça para baixo, ou nos pendurasse por uma das pernas para examinar nossas saliências e reentrâncias, não por maldade, por simples curiosidade. Sendo o monstruoso animal que é, pensa que seu toquezinho não nos pode fazer mal algum. Teríamos as dimensões proporcionais de uma minúscula formiga na palma de sua mão. O que sentiríamos não seria percebido por ele, porque seu aparato emocional não é o mesmo nosso e seus medos são de outra ordem.

Quem de nós gostaria desses toques amorosos de um ser gigantesco como esse? Quem quereria colocar-se à disposição para servir de objeto de carícias a um ser desses? Em sã consciência, ninguém se disporia a oferecer seu corpo para contatos com seres de outras espécies que tenham a conformação e o design de verdadeiros monstros. Sentiríamos medo, muito medo. Pavor. E caso nossa expressão corporal em pavor não dissesse nada ao ser amoroso monstruoso (em seu tamanho, não necessariamente em suas intenções), ele concluiria que não nos causa desconforto algum.
Quando nos depararmos com seres que não têm nossa configuração, melhor é observar se eles buscam tocar em nós. Se não o fizerem, o correto é deixar que se movam no ambiente sem que os ameacemos com nossas amorosas mãos. Isso vale para nossa interação com bebês humanos, que, por sinal, detestam aqueles beijos e chupadas nas bochechas, vale para nossa interação com gatos que não nos conhecem, com cães que poucas vezes tiveram a chance de estar conosco, com estrelas do mar, cavalos marinhos e pequenas tartarugas.

A invasão de privacidade não se limita a abrir a correspondência alheia, bisbilhotar no celular dos outros, em seu correio ou em suas gavetas. Ela diz respeito a não causar perturbações no corpo do outro quando ele não busca isso de nós. Contentemo-nos com a manifestação do desejo de ser tocado por nós, expresso por algum animal, seja da nossa espécie, seja de outra qualquer.

Quando não há expressão alguma desse desejo, fiquemos à distância, observemos o animal e deixemos que se mova sem ameaçar seu corpo com nossos toques. Isso é o que esperaríamos de um ser gigantesco de outra espécie, caso cruzássemos com ele. Isso é o que devemos a todos os animais de outras espécies quando cruzam nosso caminho ou estão no mesmo ambiente nosso. Ético. Sublime. Respeitoso. Sem ofender ninguém que pensa o contrário porque nunca foi tocado por um ser 160 ou 180 vezes mais alto e com 1200 vezes a mais de peso. Essa é a proporção entre um corpo humano e o corpo de um cavalo marinho, de uma estrela do mar, de uma tartaruguinha. Não é para menos que todos esses seres se esquivam do nosso toque. Nosso tamanho e peso não é nada promissor para seus minúsculos organismos.


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Animais descartados nas e coletados das ruas

Por Sônia T. Felipe

Estava lendo as notas dos amigos e dei com a do Márcio Linck sobre o lixo jogado nas ruas pelos cidadãos que depois xingam a prefeitura por não recolhê-lo. Foi inevitável a associação com o descarte de animais nas ruas por pessoas irresponsáveis e a coleta por outras, compassivas.

O que fazem com o lixo descartado é o mesmo que fazem com os animais jogados fora como lixo. Os irresponsáveis os descartam sem dó nem piedade. As compassivas os recolhem com o coração se esvaindo de dor pelo animal e raiva de quem faz isso a ele. Um jogo que há décadas é levado a efeito em todas as cidades do nosso e de outros países. Não vi mudança alguma de atitude até hoje. Nem dos descartadores de animais, nem das socorristas e protetoras. Mas há que mudar tudo.

Não vejo saída para esse jogo de descarta-coleta, a menos que as protetoras e socorristas mudem sua postura frente àqueles que descartam animais como se fossem matéria abjeta. A única saída que vejo é uma manifestação em todas as cidades do nosso país, para mostrar a toda a sociedade e aos governantes que milhões de cidadãs estão praticamente indo à falência para dar socorro, abrigar e adotar animais, tidos como de estima, jogados fora nas ruas como lixo.

Enquanto houver protetoras compadecidas dos animais (algo louvável), haverá quem os descarte, crente de que as protetoras e protetores adoram coletar animais descartados. É preciso mudar a forma de luta. É preciso que as protetoras se organizem e digam um basta à coleta de animais descartados. Pelo país afora. Está mais do que na hora.

Cada dia aumenta o número de animais jogados fora. Aumenta a dor de quem os coleta. Diminui o poder aquisitivo de quem os coleta. E os que os jogam fora continuam livres do ônus e de qualquer responsabilidade, sacudindo os ombros e esfregando as mãos para se limparem do que fizeram.

E as protetoras aflitas tentam consertar o erro. Mas, porque não protestam, não o consertam. Não mostram nos jornais o total de gastos anuais com animais coletados das ruas. Não fazem nada além de deixarem seu coração sangrar e sangrar. Sofrem por si e no lugar dos que abandonam os animais e não se compadecem. É preciso dar um basta na irresponsabilidade de quem descarta animais nas ruas. E na impotência emocional e financeira de quem os coleta.

Precisamos organizar uma grande passeata nacional para mostrar o número de animais que hoje estão sob responsabilidade de pessoas que não os compraram nem os rejeitaram quando nasceram de uma mãe comprada. É preciso que se crie um site onde cada protetora ou protetor que socorreu, deu abrigo e adotou um animal ou vários deles possa postar a foto de cada animal, o nome, o estado em que o recolheu das ruas, o gasto que teve para recuperar a saúde do animal e que continua tendo para mantê-lo vivo e saudável.

É preciso que o total dos gastos das pessoas que socorrem e adotam animais descartados por outras seja uma vez publicado pelo Brasil afora. É preciso que o governo estabeleça políticas públicas para coibir o ato de jogar animais fora. Seja proibindo sua fabricação e venda, seja exigindo de quem os adota um registro completo de adoção para que a responsabilidade civil e penal seja definida.

Se alguém não quer mais o animal que comprou ou adotou, que pague pensão alimentícia para a pessoa que o acolher após o recolher. Sim. O dinheiro das socorristas está no limite. Pensão alimentícia, sim. Não quer cuidar? Então pague para que alguém possa cuidar do animal sem empobrecer.


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Dia Internacional dos Direitos Animais

Por Sônia T. Felipe

Há 65 anos, no dia 10 de dezembro de 1948, foram declarados os direitos humanos, uma carta que pôs limites ao poder de Estado de usar, abusar, explorar e matar cidadãos, seja lá com qual pretexto for. Essa carta concedeu a todos os indivíduos a liberdade de buscarem por conta própria a realização de seus anseios, e o direito de viverem em paz.

Ela tirou dos Estados o direito de impedir que um indivíduo, por conta de sua pele, seu sexo, sua religião, sua classe social, sua ideologia ou sua etnia, seja impedido de buscar a felicidade, ainda que esse conceito seja tão subjetivo quanto o são os demais motivos que levam alguém a se empenhar para conseguir o que almeja.

Diante de tantos direitos humanos, estabelecidos por essa carta de 1948, os animais ficaram sem proteção. Do mesmo modo ficou sem proteção frente a tantos direitos a natureza, ou o que se costuma chamar de meio ambiente. Ecossistemas naturais e animais não-humanos foram esquecidos pela Declaração Universal dos Direitos Humanos. Aliás, não há restrição alguma na declaração de direitos para humano, em relação ao uso e exploração de animais e de ecossistemas.

Entretanto, quando lemos os artigos de abertura dessa declaração, não há neles nada que impeça de serem aplicados na defesa de todos os seres vivos que tenham interesses sencientes. São eles: o direito de nascer com dignidade. O direito de crescer de modo favorável à realização plena de sua natureza específica. O direito de não ser aprisionado quando não ameaça ninguém com seu movimento. O direito de ter a integridade física preservada. O direito de não ser abusado psicológica, sexual ou emocionalmente. O direito de não ser ameaçado de morte. O direito de criar os próprios filhos de acordo com o éthos de sua espécie. O direito à alimentação saudável. O direito de ir e vir. O direito de se reproduzir e de escolher com quem o fazer. O direito de receber ajuda na doença e na velhice. O direito de receber proteção contra todo tipo de ameaça na infância. O direito de não ser assassinado.

Quem nunca pensou que todos esses direitos humanos são simplesmente direitos animais ainda não percebeu que todas as ameaças à felicidade e à integridade de qualquer indivíduo animal são ameaças que não podem ser concretizadas a não ser atravessando-se o corpo. Portanto, os direitos animais humanos são direitos instituídos para proteger os cidadãos de qualquer ataque somatofóbico, um ataque ao corpo dele, seja vindo do Estado, seja de outro indivíduo.

Reconhecer os Direitos Animais nada mais é do que reconhecer que eles precisam ter seus corpos tão protegidos de qualquer ataque destrutivo quanto os humanos precisam.

O Dia dos Direitos Animais é, portanto, o dia de se reconhecer que nenhum animal deveria sofrer ataque ou limitação alguma à liberdade de expressão de seu organismo animal em todas as etapas do seu desenvolvimento até a morte. Não há razão alguma para se conceder toda proteção ao corpo dos humanos e condenar os animais a todo tipo de exploração e abuso que culminam em seu abate ou morte.

Os Direitos Humanos Fundamentais nada mais são do que Direitos Animais. 


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Especismo eletivo 2

Por Sônia T. Felipe

No outro texto trato da xenofobia. Ela é a alma gêmea do especismo eletivo. Neste, vou tratar do especismo eletivo, o irmão mais velho da xenofobia, o ódio ao que nasce em outro território que não o nosso. É preciso mergulhar na própria formatação mental dos conceitos morais herdados da tradição, para poder entender por que tratamos os animais do jeito que os tratamos. Nós os tratamos sempre como coisas. E nos achamos os tais. Mesmo diante da montanha de carnes, sangue, urina, fezes, vômitos, vísceras, peles, patas e focinhos, acumulada todos os dias ao redor do mundo por conta da matança de animais para virar bifes e toda sorte de “produtos” industrializados destinados ao consumo humano.

Especismo eletivo é isto: eleger uma ou duas espécies animais como prediletas para estima e compaixão. Apegar-se a esses animais e pensar que essa mera predileção por uma espécie de animal, uma raça de animal ou por um pedigree é tudo o que “devemos” moralmente aos animais em geral, aos que não se enquadram nessa espécie eleita, nem atendem aos requisitos da raça predileta.

Quem pratica o especismo eletivo não se dá conta de que todo seu amor “pelos animais” (uma categoria tão abrangente que chega a reunir formigas, baratas, aves, répteis e vertebrados, como se entre uma e outra dessas milhões de espécies não houvessem mistérios sequer estudados, traduzindo em cada indivíduo uma singularidade não repetível) de fato se esgota na fronteira do modelo no qual o corpo do animal eleito para estima veio à vida.

E as pessoas que se agarram a “gatinhos” (sempre no masculino e diminutivo!) ou a “bichinhos” (idem), se dizem protetoras “dos animais” em geral, como se “seu” cãozinho ou o “seu” gatinho fossem representantes de todos os indivíduos animais de todos os tipos e formatos espalhados por todas as regiões do planeta. Cães e gatos não representam todos os espíritos animados transeuntes em corpos desenhados conforme a necessidade de cada um daqueles espíritos. E, especialmente os cães e gatos domados pela convivência com humanos já não representam sequer o espírito genuíno canino ou felino evoluído naturalmente para expressar sua singularidade enquanto espécie animal.

Precisamos pensar profundamente sobre nossa condição animal. Talvez seja bom começar imaginando a hipótese de ter nascido com a sensibilidade, a inteligência, a racionalidade, a afetividade, a emocionalidade animal-humana, mas com um corpo desenhado de outro modo, do tipo jacaré, onça, porca, perua, ovelha, cabra, lagarta, sabiá, galinha, pata, égua, girafa ou outra qualquer.

Todas as demais espécies animais possuem uma linguagem singular. Mas, do alto de nossa soberba e com tamanha inteligência, ainda não fomos capazes de traduzir para a linguagem humana o que os animais estão a dizer o tempo todo.

Portanto, tudo o que a gente quisesse comunicar aos humanos sobre o que se passa em nossa mente, confinada ao formato material do corpo visto como diferente do humano pelos humanos, bateria nessa muralha física e mental da surdez humana para todo tipo de linguagem animal que não seja a humana em suas diferentes línguas.

Imaginemos isto: que nascemos com a mente animal, mas em um corpo cujo formato os animais humanos foram treinados a desdenhar como digno de respeito. E ali estaríamos, enquanto espíritos, confinados a essa cápsula que é o corpo material de cada animal. Estaríamos o tempo todo a dizer aos humanos o que sentimos com o que eles nos fazem de mal. Mas nosso dizer, por não se traduzir em nenhuma das línguas da linguagem típica dos humanos, que têm palavras para todo tipo de sensação, nunca seria ouvido.

Ao longo da história, nos textos religiosos que tratam os animais de modo especista elitista, os filósofos e teólogos afirmam que os animais são seres mudos. Projetam nos animais sua surdez seletiva.

Para superar o especismo elitista, esse que diz que o único animal digno de respeito é o humano, e o especismo eletivo, esse que abraça um animal mas passa a faca no bife do outro, é preciso imaginar-se nascido com um corpo cujo formato externo difere do formato dos corpos dos indivíduos da espécie humana. E ali dentro, aprisionado a esse corpo, há um espírito animado. Um espírito senciente, pulsando pela vida. Mas, confinado e ameaçado todo tempo pela lâmina da morte. Os humanos, com seus corpos desenhados de outro modo que não o daquele a quem entregam a senha da morte na esteira do abatedouro, se acham os tais. Eles simplesmente se apoiam sobre duas patas com cinco dedos. Eles têm as outras duas patas, as dianteiras, também com cinco dedos, livres, para manipular o mundo, transformá-lo, e, com isso, transformar-se continuamente.

Mas o que os humanos mais têm feito não é transformar-se, transformando sua mente carregada de conceitos obsoletos em uma mente aberta, que acolha todos os animais no sentimento do respeito pela vida e sua singularidade. O que os humanos mais têm feito, tendo duas das patas livres para operar, criar e recriar seu espírito, é usar essas duas patas livres, com seus cinco dedos cada, para matar e empilhar restos mortais de animais que não nascem no formato material considerado digno de respeito. Todos os corpos materiais merecem respeito. É neles que o espírito singular se manifesta. Não há escolha eletiva que torne um corpo mais digno de respeito do que o outro.


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Há quem se choque quando vê imagens do que fazem aos animais no abate

Por Sônia T. Felipe

Choca-me a vida que o animal foi forçado a levar, em galpões, currais e baias fedorentas, tendo que permanecer o tempo todo, comer, defecar, urinar, descansar e dormir, em contato com centenas ou milhares de outros indivíduos que não fariam parte do grupo ao qual esse animal teria se afeiçoado caso estivesse vivendo livre.

Choca-me o processo de captura desses animais (frangos, perus, porcos, ovelhas, cabras, vacas, cães, cavalos e peixes) na hora de colocá-los nos caminhões e barcos para serem transportados.

Choca-me o fato de tirarem a água e a comida das aves, porcos, bois e vacas dois dias antes de serem mortos, para diminuir a imundície na hora do transporte e depois na esteira da morte, quando passaram seus miseráveis dias de vida sendo forçados a comer em demasia e a beber muita água para dar conta do lixo que dão a eles. Na hora da captura e na hora da lâmina cortante, o animal, igualzinho aos humanos em estado de terror, se desfaz em vômitos e diarreias. Se tiver comido normalmente, a montanha de urina, fezes e vômito fará com que os lucros diminuam, porque requererá água para ser limpa e mão-de-obra para o serviço. Então, privar o animal de água e comida é prática em todos os sistemas de produção mecânica de carnes vivas em carnes mortas para consumo humano (vejam o documentário Terráqueos).

Choca-me o transporte abarrotado desses seres sencientes em estado de pânico, a descida na rampa do caminhão até a esteira da morte, a espera na esteira enquanto os companheiros já foram trespassados pelas lâminas, a amputação de pernas, a abertura da pele e do ventre para retirada das vísceras, o sangue escorrendo na câmara, a carcaça pendurada seguindo agora morta para o talho, as pessoas talhando talhando e talhando pedaços de carne (vejam o documentário CarneOsso) como se fossem massa de pão ou cenouras, os pacotes seguindo para os distribuidores, baixando nas gôndolas e milhões de zumbis agarrando-os e colocando-os em seus carrinhos de compra.

Choca-me todo o processo de desmonte do corpo vivo de seres sencientes, até que seja apenas um naco de matéria morta, o processo de tornar ausente o referente (leiam da Carol J. Adams, A política sexual da carne), até que o pedaço de carne no prato não contenha mais nenhuma informação de que o sujeito desse corpo dilacerado em bifes foi um animal inteligente, sensível e consciente, como nós, os que agora comemos seus restos mortais sem piedade.

E choca-me ver que toda gente segue comendo isso com a maior complacência, e se achando moralmente superior ao animal que abocanha. É simplesmente visceral. Não é moral.


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Porcos e cães: especismo eletivo

Por Sônia T. Felipe

Quase todos os dias circulam notícias sobre o modo como os chineses usam animais em sua dieta. Também quase sempre aparece alguém xingando os chineses e os amaldiçoando por fazerem o que fazem com os animais, sem a menor piedade. As pessoas xingam os chineses, xingam o povo todo, querem a morte e a tortura de todos, para pagarem pelo que fazem aos cães, aos macacos ou sabe-se-lá a qual outro animal que matam para virar comida.

Quando as pessoas xingam pessoas de outra cultura, geralmente praticam o especismo eletivo. Os outros são xingados e amaldiçoados porque fazem isso ou aquilo aos cães, os únicos animais pelos quais muita gente sente algum afeto, porque pelos outros animais o único afeto ou impulso que sentem é mesmo o da gula. Pecado da luxúria.

Cuidado com a maldição que rogam sobre os chineses. O universo não vê diferença entre o mal praticado por um povo contra um tipo de bicho e o mesmo mal praticado por outro povo contra outro tipo de bicho. Sendo todos os animais sencientes, algo declarado em julho de 2012 em Cambridge, na Inglaterra, por toda comunidade de neurocientistas de todas as especialidades, não há distinção entre torturar um cão até a morte para comer suas carnes ou torturar um porco do mesmo modo e com o mesmo propósito.

Para o universo, a natureza e nossa consciência abolicionista vegana, todos os animais sofrem, e não comemos suas carnes por essa razão e pela outra, a de que todos os animais, se foram forçados a nascer, querem mesmo é continuar na vida a seu próprio modo, para atender aos apelos e ao destino de sua própria natureza, não para servir aos propósitos humanos.

Assim, lançar pragas e maldições sobre um povo, porque consome carne de cães escaldados vivos, pode ser o tipo de feitiço que um dia virará contra a feiticeira que o lança. Xingar os chineses pedindo que uma catástrofe se abata sobre o país como punição porque eles comem carne de cães, pode reverberar e levar o universo a entender que deve aplicar a mesma lei sobre o território brasileiro, porque aqui há animais mortos para extração de carnes com o mesmo método usado na China: porcos escaldados vivos.

Sim, bem debaixo do nosso nariz, fazem a mesma coisa com porcos no abatedouro. Segundo a médica veterinária Gail Eisnitz, que investigou por cinco anos 240 abatedouros norte-americanos, de cada três porcos lançados no tancão de água fervente para depilação, um ainda vive e respira. Respira, portanto, essa água fervendo do tanque para dentro do pulmão. Morre com o pulmão escaldado. Que dor!

Quem come sanduíche de presunto, rabada, costela, toucinho, bacon, linguiça, torresmo, banha ou qualquer alimento que contenha esses ingredientes ou derivados deles, come isso. Se os come, mesmo se for um simples pastel da 10 Pasteis, que bota banha de porco na massa, já está no alvo da maldição que rogou sobre os chineses.

Xenofobia não combina com abolicionismo animalista. Especismo eletivo, condoer-se de cães e não de porcos, também não. Todos os animais sofrem igual. Sejam cães, porcos, chimpanzés ou humanos.

Aliás, segundo a tese mais recente de Eugene McCarthy, somos descendentes mesmo é da cruza de uma chimpanzé com um porco, nossos genes não nos enganam mais. Que tal? Porcos morrerem por respirar água fervendo, pode? Não pode. Porcos são nossos ancestrais, como o são os chimpanzés. Vai faltar perdão para a xenofobia e o especismo eletivo!


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O mal e o bem

Por Sônia T. Felipe 

Quando morre uma pessoa muito amada, admirada ou idolatrada, sem que essa morte resulte dos atos diretos da pessoa, as pessoas que a amam se revoltam e indagam como é que o mal pôde atingir uma pessoa tão boa. É que o mal não tem destinatário definido. Uma vez solto, ele se liga a qualquer ser capaz de senti-lo, sem perguntar se esse ser o merece ou não. Por isso temos responsabilidade imensa em não espalhar o mal que está dentro de nós, porque uma vez solto por nossa boca, nosso pensamento ou nosso gesto, já não o podemos mais conter.

O mal está solto, porque cada vez que dizemos algo para magoar, fazemos algo e magoamos ou agimos de forma malévola, libertamos o mal que havia dentro de nós e o lançamos ao universo. Então o universo fica mais cheio ainda do mal espalhado que, não tendo destino certo, ataca a primeira criatura inocente que passar por ali desavisada.

Quanto ao bem, ah! esse existe apenas junto ao coração de alguém. Por isso o bem não está solto por aí. Temos muito zelo por nossos sentimentos de amor, por nossa ternura, nossa bondade. E de tanto zelo acabamos por retê-los junto ao nosso coração, porque nem sempre recebemos o amor, a ternura e a bondade dos outros, então mantemos cá uma reserva desses sentimento bons, consolando-nos da friagem que nos assola quando não recebemos isso através de uma palavra, de um pensamento ou de um gesto reais da outra pessoa. Assim, o bem ou a bondade depende de uma pessoa que o pratique, para que ele crie asas e possa voar, depende se alguém que o expresse, o exponha ao mundo. Assim, todas nós dependemos de um gesto para que em suas asas o bem possa chegar até nós. E a outra pessoa, humana ou não, também depende de nossos gestos para que o bem possa chegar até ela.

Isso vale para a dieta, na cama e na mesa. Escolher comer animais matados para virar bife, ou laticínios extraídos de mamas inflamadas e infectadas é espalhar dor, tormento e sofrimento no mundo, afetando de volta a todos os seres sencientes. Escolher uma dieta sem dor e tormento é abolir o sofrimento que a dieta ovo-galacto-carnista espalha no mundo. Escolha comer apenas luz. Espalhe a bondade que há em você. Poupe o mundo da dor da maldade e da dor da perda da vida.

 


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