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Cães vegetarianos

Por Leonardo Maciel 

Os problemas dermatológicos em cães são um motivo frequente de preocupação dos tutores. As coceiras são a principal queixa e um desafio diagnóstico pela multiplicidade de causas. Podem estar envolvidos desde distúrbios hormonais até os de ordem psicogênica.

A principal causa de prurido é a alergia a picada de pulgas e o controle dos parasitas resolve o problema, porém, nem sempre o diagnóstico é fácil. Existem no mercado testes intradérmicos que verificam a sensibilidade a alergenos, desde o pólen até proteínas de origem animal, com proposta de tratamento de dessensibilização por vacinas. O tratamento é longo e pode ser bastante dispendioso.

Uma proporção significativa de cães têm apresentado alergias de ordem alimentar com sintomas que além do prurido envolvem flatulência, intestino irritado e inconstante, otites, propensão a infecções de pele, secreção ocular abundante e gastrites. Muitos cães têm sido tratados com mudanças drásticas na alimentação com diagnóstico de alergia a algum tipo de proteína de origem animal. A maior parte das rações comerciais são mistas, ou seja, são compostas por proteínas de origem animal de várias espécies, como suínos, aves,bovinos e peixes. Para os que apresentem sensibilidade específica, existem as rações compostas apenas por um tipo de proteína animal, como as rações compostas por carne de frango, cordeiro, peixe ou perú. O que tem sido observado, entretanto é que os animais que consomem as rações com fonte de proteína única, podem se tornarem alérgicos a ela também, levando a frequentes trocas de ração.

Muitos cães, diagnosticados com alergia de causa não determinada têm melhorado significativamente sua qualidade de vida, senão resolvido o problema, com a mudança de alimentação industrializada por alimentação natural, sem carne ou outros produtos de origem animal. Nestes casos supõe-se que o sistema imunológico destes indivíduos reconheça a proteína animal como um alergeno e passe a produzir anticorpos contra esta proteína, porém, estes anticorpos são maléficos para este mesmo indivíduo que os produziu, transformando-se em uma doença imunomediada. Estão sendo disponibilizadas rações que contém a proteína animal hidrolisada, como se fosse pré digerida ou fragmentada, o que dificultaria o reconhecimento do sistema imunológico do cão a estas proteínas.

Há que se supor também que a alergia possa ser devida a outros componentes da ração, como os palatabilizantes, estabilizantes, corantes, conservantes, anti- oxidantes, inibidores de crescimento de fungos e tantos outros.

Existe uma ração vegetariana para cães no mercado, porém ainda com limitações, não pela impossibilidade do cão ser vegetariano, mas pela falta de incentivo à pesquisa de rações, pouca demanda e falta de interesse pela classe veterinária. Sim, o cão e o gato podem consumir ração vegetariana e terem uma vida saudável. A discussão sobre alimentação ética dos animais que estão em nossas famílias é ainda incipiente apesar do grande número de informações das quais dispomos. Eu particularmente acho que deve ser tedioso comer a mesma ração com o mesmo gosto todos os dias, entretanto, em algumas situações ainda é útil, pois temos rações formuladas para diabéticos, hipertensos, nefropatas, hepatopatas e convalescentes de quimioterapia por exemplo. As pesquisas existem, porém não houve ainda interesse em colocá-las em prática e formular rações vegetarianas para as diversas condições clínicas.

Mudar a alimentação do animal sob sua tutela sem a devida orientação pode trazer consequências desastrosas, principalmente para os gatos. A responsabilidade do tutor vegetariano para com seu tutelado não humano deve ser encarada com a mesma responsabilidade com que encara a própria nutrição, com o agravante de que o cão não pode escolher.


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Passo a passo para a organização de uma campanha de castração de cães e gatos

Por Leonardo Maciel 

Muitas pessoas têm solicitado, através do OLHAR ANIMAL, sugestões de como planejar e executar uma campanha de castração de cães e gatos. As sugestões a seguir podem ser úteis e obviamente não é uma questão matemática, ou seja, muitas serão as variantes a serem consideradas. A castração é um procedimento técnico que envolve um alto grau de responsabilidade por quem executa o procedimento e por quem o organiza. Quanto maior o planejamento maior será o sucesso e menores serão os problemas.

1. Sobre o local da ação

As castrações em massa ou processos de castração contínua geralmente ocorrem em locais com população de baixa renda, com uma população canina e felina em crescimento populacional desordenado e em baixas condições de saúde. O ideal é que haja um representante da comunidade, pessoa respeitada por todos e com acesso aos diversos segmentos desta população. Esta pessoa pode ser o responsável pelo cadastramento e difusão do conceito, ou seja, a porta de entrada. Este líder comunitário geralmente tem uma idéia do volume de animais ou pode apresentar um censo em um tempo pré determinado.

2. Estabelecer um objetivo

Uma vez conhecido o número aproximado de animais, é necessário estabelecer um objetivo a curto, médio e longo prazo. Para um controle populacional eficiente, um alto número de animais deverá ser castrado em um espaço curto de tempo. Há dados disponíveis na OMS e em vários sites, onde se preconiza que pelo menos 30% da população deve ser castrada em menos de um ano, ou seja, dois ciclos reprodutivos da cadela, para que se consiga pelo menos estabilizar o crescimento. Em seguida, um processo mais lento pode dar continuidade até o controle populacional definitivo, o que na verdade é uma utopia pois novos indivíduos serão sempre introduzidos de comunidades vizinhas ou por pessoas que não aderiram ao processo e permitem que seus animais se reproduzam. Estabelecer um objetivo é importante para não se criar falsas expectativas, contudo, cada castração realizada com sucesso já deve ser considerada um vitória pelo valor do indivíduo. Cada cadela ou gata castrada deixará de sofrer com a gravidez e a dificuldade em criar os filhos.

3. Sobre o planejamento dos custos

É uma questão crucial, senão a mais difícil. O custo de medicamentos em si, para uma castração é geralmente baixo, mas os custos adicionais são mais altos. Ao se estabelecer um objetivo numérico de castrações, deve –se ter a previsão dos custos antes do começo da ação para que não se crie falsa expectativa na comunidade e o processo não seja interrompido. A verba deve ser prevista para um tempo maior e recomenda-se começar com um número pequeno de indivíduos para se criar experiência na logística. No procedimento básico devem ser computados os custos da mão de obra dos cirurgiões, medicamentos de uso imediato como anestésicos, analgésicos, soro, anti-inflamatórios, transporte para a equipe e para os cães e gatos e medicações que serão distribuídas para o pós- operatório. Há também que se decidir sobre os materiais duráveis como o instrumental cirúrgico e sua esterilização, mesas de cirurgia e materiais de consumo como aventais, luvas e compressas cirúrgicas por exemplo. O desejável é que haja na equipe, pessoas que se ocupem da captação de recursos junto a laboratórios e empresas que desejem fazer doações e fazer parte de projetos bem delineados e consistentes.

4. Sobre a escolha do local para as atividades

Muitos locais onde são realizadas as cirurgias na verdade não correspondem ao preconizado pelos Conselhos de Medicina Veterinária. Por vezes se improvisa um centro cirúrgico em um local totalmente azulejado cujas paredes podem ser lavadas e que não disponha de móveis senão os estritamente necessários. Muitos projetos de sucesso têm parceria com clínicas veterinárias próximas que disponibilizam seus centros cirúrgicos em determinados momentos, o que é o ideal. Um local inadequado pode trazer problemas como infecções no pós- operatório e mesmo óbitos, o que além do dano irreparável da perda de uma vida, desestimula a população na continuidade do processo e cria um conceito negativo. É altamente recomendável que o Conselho de Medicina Veterinária local seja comunicado oficialmente e o processo seja apresentado detalhadamente antes do começo das atividades, pois podem haver questões jurídicas envolvidas. Além do centro cirúrgico, dois outros ambientes são necessários : uma ante sala onde os animais são sedados e é um ambiente contaminado com fezes e pelos e um outro local onde os recém operados retornam calmamente da anestesia antes de receberem alta para suas casas.

5. Sobre a capacitação técnica dos envolvidos

O procedimento cirúrgico é um processo para o qual o veterinário deve estar altamente preparado. Não é admissível que haja estudantes ou mesmo médicos com pouca experiência participando do ato cirúrgico. Uma cadela candidata à cirurgia deveria ter exames pré operatórios como exames de sangue e eletrocardiograma, o que não é viável em processos de castração em massa e que torna o processo muito mais arriscado em termos de complicações e óbitos. Um veterinário experiente realiza uma castração em dez ou quinze minutos, enquanto um inexperiente pode demandar até duas horas, o que aumenta os riscos em todos os sentidos. Um programa de castração não admite estudantes em treinamento ou profissionais que desejam adquirir prática. Um veterinário com muita experiência pode coordenar uma equipe de auxiliares com menos vivência na aplicação dos medicamentos e no preparo dos pacientes, mas será o responsável técnico por tudo o que acontecer. Se a equipe não está bem preparada não comece as atividades.

6. Sobre a organização da equipe de apoio

A equipe da apoio é composta por voluntários que buscarão os animais E SEUS TUTORES na residência, aguardarão todo o procedimento e retornarão com os animais. O ideal é um veículo com dois voluntários para o transporte de cada animal e seu tutor. Estes voluntários estarão treinados para esclarecer dúvidas sobre o processo e sobre a medicação a ser administrada. Na receita deve constar um número de telefone celular disponível 24 horas para que o tutor possa contatar no caso de problemas como secreções e infecções no pós- operatório, reações aos medicamentos e necessidade de transporte para um local adequado caso o animal se sinta mal nos dias seguintes à cirurgia. No local do procedimento deve haver um voluntário que receberá o tutor e seu animal, fará o cadastramento e providenciará a assinatura das documentações necessárias, pois o tutor deve estar ciente de todos os riscos envolvidos. A seguir, um veterinário experiente fará um exame clínico detalhado no candidato à cirurgia, que poderá ser realizada ou não de acordo com as condições clínicas. O tutor deve esperar todo o procedimento, acompanhar o retorno anestésico e ter seu transporte garantido na volta. Muitas pessoas chegam com seus animais caminhando mas não devem voltar da mesma forma. Internamente há funções bem estabelecidas, quanto ao preparo e depilação,limpeza dos locais, anestesia e castração, retorno anestésico e apoio no retorno à casa.

7. Sobre as documentações sugeridas

Todo o projeto da campanha de castração deve estar documentado detalhadamente, passo a passo, com a distribuição das funções. Um termo de autorização para o procedimento, individual, constando todos os dados do tutor e do animal deverá ser assinado. Caso o tutor seja analfabeto ou incapacitado da leitura, o termo deverá ser lido na presença de testemunha e assinado com impressão digital. Todos os envolvidos devem assinar seus termos de compromisso com as responsabilidades detalhadas, inclusive o veterinário responsável.

8. Sobre os cuidados no pós cirúrgico

A responsabilidade sobre o processo termina em sua maior parte na retirada dos pontos cirúrgicos aos sete dias. Neste período o animal terá total assistência prevista no projeto, inclusive internação em clínica veterinária caso haja complicações na cirurgia. Estes custos eventuais, que podem ser altos, devem estar previstos.

9. Sobre a interação da equipe

Pelo exposto acima, a interação da equipe é fundamental e muitas reuniões são necessárias, antes, durante a após cada ação, quando todas as dificuldades são colocadas e as soluções discutidas conjuntamente. O aconselhável é que projetos de castração comecem bem pequenos, para que a equipe se fortaleça e adquira experiência para projetos mais ousados.


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Gravidez humana e os animais

Por Leonardo Maciel 

Fato comum em um consultório veterinário é um casal recém-casado com um filhote de cão ou gato. Este ser é tratado como um filho humano, nos carinhos, na alimentação, nos cuidados com as vacinas e o bem estar. Geralmente acompanha um enxoval com roupinhas, brinquedos e frequentemente o veterinário é chamado carinhosamente de ‘o pediatra’ do filho peludo.

Observo que o animal muitas vezes é um treinamento para a futura maternidade da mulher. O casal recém-formado aprende a cuidar juntos de uma vida, dividem as responsabilidades, choram juntos com as doenças e montam painéis com muitas fotos da família feliz. Os três.

Esta lua de mel acaba normalmente quando a mulher apresenta um teste positivo de gravidez. O animal passa a ser então uma ameaça à saúde do bebê ainda por vir e muitos são abandonados, colocados para “adoção” ou são excluídos do convívio passando a viver em um quintal ou canil, amargando solidão e abandono sem ter noção do que aconteceu. Frequentemente estes animais desenvolvem auto mutilação de fundo emocional e comportamento agressivo ou depressivo.

A sacralização da gravidez humana, uma faceta de nosso antropocentrismo cego, leva a perda de uma excelente oportunidade de crescimento e saúde mental e física para as novas gerações. Mulheres grávidas e bebês humanos não são incompatíveis, muito pelo contrário. A maioria esmagadora das doenças contraídas por crianças são adquiridas dos próprios pais, parentes e amigos das creches ou escolas, porque a maioria dos agentes causadores de doenças na infância são espécie-específicos , ou seja, são bactérias e vírus que se desenvolveram e se adaptaram a crescer em determinada espécie. Dizendo de outra forma, a maioria das doenças de cães são doenças de cães e a maioria das doenças de humanos são doenças de humanos. Isto não é uma lei da biologia, pois existem doenças comuns a várias espécies.

Muitos médicos competentes, por não terem informação suficiente sobre zoonoses, preferem pecar por excesso e excluir o animal da família.

O convívio pacífico e saudável de humanas grávidas com animais é possível e salutar, principalmente se a pessoa tem bons hábitos de higiene pessoal. Mulheres grávidas devem evitar limpar caixas de filhotes de gatos, principalmente nos primeiros quatro meses de gestação pelo risco de contrair toxoplasmose, se bem que o contágio geralmente ocorre pela ingestão de frutas, verduras e legumes mal lavados e nas atividades de jardinagem sem luvas.

Outro mito é que criança que têm contato com gatos desenvolverá asma e que os gatos têm normalmente esta doença. Gatos não têm asma. Nenhum bebê se tornará asmático por contato com animais, mas se esta criança já for asmática (que é uma reação imunológica com a qual ela já nasceu) pode desenvolver os sinais ao ter contato com pelos ou secreções dos animais da família. Esta condição geralmente cessa com a idade e o amadurecimento do sistema imunológico, salvo casos especiais.

Dentre as doenças comuns entre espécies, que podem acometer bebês humanos, temos alguns problemas de pele como micoses, sarnas e parasitoses intestinais. Basta um bom exame clínico feito por um profissional atento e a manutenção da saúde do animal que participa da família, como já deveria ser de hábito e responsabilidade. O cão e o gato saudáveis não são uma ameaça para gestantes ou recém-nascidos.

A questão comportamental do animal após a chegada do recém-nascido pode demandar alguns cuidados pois são comuns as demonstrações de ciúmes que os pais podem interpretar como uma ameaça. Ora, se o cão foi tratado como bebê e centro das atenções, é de se esperar que ele estranhe e tenha ciúmes do novo ser que veio lhe tomar o lugar. A pior coisa a fazer é chamar a atenção de forma agressiva quando o cão se aproxima do bebê, porque este cão vai associar o bebê ao fato de ser rejeitado. Ele vai interpretar: todas as vezes que chego perto daquele ser, sou repreendido e rejeitado, então este pequeno humano não é bom para mim. Aja então naturalmente, sem palavras ou gestos agressivos, deixe que o cão se aproxime e sinta o cheiro do bebê e depois o afaste carinhosamente sem fazer alarde. Naturalmente. Nada mais emocionante do que uma criança interagindo com o animal que faz parte da família de forma feliz e saudável. Uma experiência que os próprios pais não podem proporcionar por si sós.

Os cães não substituem filhos e filhos não substituem cães porque não se ama um mais do que outro. Os amores são diferentes, os espaços que ocupam em nossos corações são diferentes. Todos temos um grande vazio interno a ser preenchido, uma parte por amigos, uma parte por filhos para quem os tem, uma parte por animais, uma parte por namorados e uma parte não será preenchida em nosso interior pela inquietação própria de nossa espécie.

Há quem diga que os animais são uma oportunidade de estabilidade emocional para nós. As relações que temos com nossos familiares, amigos e parceiros sempre tem chance de ser uma relação de amor e ódio. Com certeza alguém de nosso convívio já nos magoou causando dor e decepção. Nós também já magoamos alguém que amamos. Nossos cães e gatos porém nunca nos causaram mágoa. É uma relação estável em nosso dia a dia conturbado. Seu cão pode ter provocado momentos de raiva porque comeu seu sapato ou o controle da TV, mas ele nunca te magoou, por isto é uma ilha de estabilidade em nossos relacionamentos e que nos dá força para suportar outras interações tumultuadas. É o amor livre de mágoa. Raiva passa, mas mágoa marca mais e é mais difícil de trabalhar internamente. Ao proporcionar convívio saudável de animais e crianças, estaremos dando a elas a chance de uma estabilidade emocional que não podemos oferecer por mais que tentemos, pois não somos perfeitos.

Para um convívio saudável, feliz e proveitoso para todas as espécies, às vezes basta lavar as mãos com água e sabão, pena que o preconceito e a desinformação não possam ser lavados da mesma forma.


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Toxoplasmose humana, canina e felina

Por Leonardo Maciel 

A toxoplasmose é uma doença que acomete praticamente todos os animais de sangue quente, ou seja, os mamíferos e aves. Quando se fala em toxoplasmose, o mais comum é que se pense em gatos como os transmissores e culpados, o que precisa ser avaliado à luz de muita informação cientificamente embasada.

Existem basicamente duas formas de se contrair a doença: pela ingestão das formas infectantes no solo, frutas e verduras ou pelo consumo de carne e leite.

Os felídeos são os únicos onde ocorre a reprodução sexuada do parasita e os oocistos (infectantes) são eliminados nas fezes contaminando o solo, água, frutas, verduras e legumes. Estes oocistos são ingeridos pelos outros animais, inclusive o homem, causando a doença. A eliminação das formas contaminantes pelos gatos ocorre, porém, uma única vez na vida, na primeira infecção, normalmente quando são filhotes e esta eliminação ocorrerá por apenas quinze dias. Estas formas contaminantes, entretanto, poderão ficar viáveis no solo por anos. Depois disto, os gatos não eliminarão mais estes oocistos durante o resto da vida, a não ser que apresentem alguma doença muito grave e imunossupressora.

Os gatos por sua vez, adquirem a doença ao comerem a carne de ratos, esquilos e outras presas.

Os cães podem transmitir a toxoplasmose? Sim, porém atuando como vetores mecânicos, ou seja, carreando as formas contaminantes no solo nas patas e nos pelos. Desta forma, insetos, como baratas, também podem levar os parasitas dos locais contaminados até os alimentos. Pesquisas mostram que até 84% dos cães que vão à rua têm exames positivos para toxoplasmose, enquanto 58% dos cães que ficam apenas no domicílio mostraram a reação positiva. Isto mostra como a toxoplasmose está distribuída no ambiente. O fato de ser positivo não significa ter a doença ativa ou eliminar os parasitas no ambiente, apenas que houve um contato com o parasita.

O contágio humano se dá pela ingestão de frutas e verduras contaminadas e mal lavadas, pelo consumo da carne mal cozida e pelo contato com terra colocando a mão na boca em seguida. O contato direto com os gatos não aumenta o risco de infecção para humanos, lembrando que o gato eliminará o parasita durante apenas quinze dias em sua vida, e normalmente na infância.

Não se previne a toxoplasmose na mulher gestante impedindo seu contato com gatos, e sim através da manipulação adequada de alimentos e bons hábitos de higiene pessoal.

Estudos apontam que o consumo de carne é responsável por 30% a 63% dos casos humanos, contato com solo e verduras de 6% a 17% e contato direto com gatos improvável. É descrita também a forma aguda da doença em pessoas pela ingestão de leite de cabra cru. A toxoplasmose tem sido associada à esquizofrenia humana na opinião de muitos pesquisadores, ao causar alterações cerebrais.

Os gatos também sofrem com a doença? Sim, podendo apresentar problemas oculares, icterícia, anorexia, apatia, ataxia, perda de peso e convulsões.

Os cães contaminados podem apresentar paralisia de posterior, meningite, tosse, perda de peso, alterações oculares e hepatite. Normalmente os cães que apresentam sinais de toxoplasmose têm alguma doença que provoca deficiência imunológica como a cinomose ou leishmaniose.

Pelas poucas informações expostas acima, pode-se imaginar quão amplo é o tema e quantas informações devemos ter antes de firmar um conceito.

O preconceito é o principal inimigo no controle de qualquer doença. O importante é que tenhamos bons hábitos de higiene, principalmente com alimentos, e mantenhamos bem alimentados e saudáveis os cães e gatos que convivem conosco para que seu sistema imunológico possa conviver com os diversos agentes aos quais serão expostos.

O conceito que animais são transmissores de doenças é ultrapassado e especista. Eles podem padecer de doenças como nós e sejamos solidários com as outras espécies, pois se temos doenças em comum, temos também a mesma vontade de viver e compartilhar. 


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Castração, priorizar machos ou fêmeas?

Por Leonardo Maciel

A superpopulação canina e felina é uma questão urgente a ser resolvida, responsáveis que somos pelos animais que trouxemos para nosso convívio. Os órgãos de saúde pública avaliam o aspecto das zoonoses enquanto as entidades e pessoas que militam na proteção e respeito aos animais tentam minimizar sofrimento e abandono.

Fato é que a educação humanitária e a sensibilização para a causa promovem mais resultado que qualquer programa de castração. O despertar da responsabilidade do tutor é entretanto um processo lento que envolve mudanças de paradigmas de uma geração a outra, e enquanto isto a castração evita muito sofrimento para nossos companheiros não humanos.

A castração de fêmeas, a ovariosalpingohisterectomia, é a abertura da cavidade abdominal para retirada do útero, trompas e ovários, sendo um processo mais delicado e que requer habilidade e prática. A castração do macho, a orquiectomia, é por sua vez, a abertura da bolsa escrotal para retirada dos testículos, e apesar de delicado, o processo é um pouco mais simples, menos oneroso e com menor risco se comparado ao procedimento nas fêmeas. Ambos os processos envolvem anestesia geral ou peridural.

Para o indivíduo, a castração das fêmeas traz os benefícios da diminuição da incidência do câncer de mama, o desconforto da gravidez psicológica, o risco de infecção no útero, o sofrimento na tentativa de alimentar e defender os filhos além de cessar o risco das doenças venéreas. Para os machos, a castração diminui a incidência do câncer de próstata que é raro, evita doenças venéreas além das disputas sangrentas pelas fêmeas. Pelos motivos acima, a castração traria mais benefícios para as fêmeas do que para os machos.

Devido à carência de recursos e à urgência da situação, muitas entidades de proteção animal procuram otimizar recursos e concentrar esforços em castração apenas de fêmeas, o que realmente produz resultados mais imediatos em termos de alívio de sofrimento. É óbvio que se os recursos estiverem disponíveis, castram-se machos e fêmeas igualmente.

Segundo experiências bem sucedidas, algumas expostas pela Organização Mundial de Saúde, para se ter sucesso em um programa de controle populacional de cães e gatos é preciso uma ação de castração de uma parcela significativa da população em questão num espaço muito curto de tempo, pelo menos 20%, para se estabilizar a curva ascendente do crescimento populacional. A partir de então parte-se para um processo contínuo de esterilizações com diminuição gradual da curva populacional. Se os procedimentos iniciais forem muito lentos, o efeito é enxugar gelo.

Uma proposta possível seria realmente, no início de um programa, ou quando a situação é crítica, canalizar os esforços para a castração de fêmeas. Se a opção de utilização de recursos iniciais seria disponibilidade para castrar dez machos ou três fêmeas, estas últimas proporcionariam melhores resultados.

Além disto, como vivemos em uma sociedade onde ainda prevalece a dominância do homem, branco , heterosexual e machista, a castração dos machos ainda enfrenta problemas de convencimento e um grande gasto de energia. A castração de fêmeas por outro lado, encontra menos impedimentos, porque com elas se pode tudo se depender dos homens e as mulheres se sentem solidárias ao saber da possibilidade de ficar livre das alterações hormonais e gestações indesejáveis. Priorizar as fêmeas no começo pode ser apagar o maior foco do incêndio.

A resposta para esta dúvida bastante frequente entre ONGs e protetores, pode estar na avaliação da fase na qual se encontra o processo e na meta estabelecida.

Para o controle populacional de sucesso, as metas devem ser traçadas para períodos curtos de tempo, como dois ou três anos em comunidades pequenas, caso contrário é enxugar gelo. Bastante difícil é saber, de início, a prevalência dos sexos em determinada comunidade ou localidade, pois as “estatísticas “ podem falhar enormemente. Na dúvida, aliviar as fêmeas priorizando-as, com certeza produz melhores resultados.


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A piometra (ou infecção uterina) em cadelas e gatas

Por Leonardo Maciel 

A piometra, ou infecção uterina, é uma afecção frequente, sendo uma das principais causas de morte precoce em cadelas e gatas. Primeiramente ocorre uma alteração no funcionamento dos ovários e em seguida um acúmulo de secreção no útero que causa sintomas de intoxicação e pode levar à falência renal.

A piometra geralmente ocorre durante ou após um cio, podendo ou não ser visto um corrimento vaginal amarelado ou avermelhado. As cadelas ou gatas terão prostração, dor abdominal, falta de apetite, beberão muita água e podem mostrar distenção abdominal. Se sua cadela ou gata apresentarem algum dos sinais acima, não se esqueça de informar ao veterinário se ela apresentou um cio nas últimas semanas, pois isto pode auxiliar em um diagnóstico mais rápido.

O diagnóstico pode ser clínico se o colo do útero estiver aberto, ou seja, se houver corrimento aparente. Quando não há secreção visível, um exame por ultra som confirma a suspeita, e o tratamento deve ser instituído o mais rápido possível, sendo considerado uma emergência.

O tratamento de escolha é cirúrgico com a retirada do útero infeccionado. Além disto, a paciente deverá receber antibióticos, analgésico e soro venoso para evitar complicações renais. O tratamento sem a retirada do útero não é uma opção segura, pois os antibióticos podem resolver momentaneamente o problema, que voltará no próximo cio com maiores chances de óbito e complicações renais.

Milhares de cadelas morrem anualmente em consequência da piometra, que é totalmente evitável com a castração precoce. Não há preferência por raça ou classe social, não depende dos cuidados do tutor nem do estado nutricional. Mesmo quando não há intenção de gravidez, ou não existe o risco de gravidez indesejada, a castração é fortemente recomendada. A cadela ou gata não necessitam passar por uma gravidez e amamentação para serem saudáveis e a castração antes do primeiro cio é uma prova de responsabilidade. Infelizmente ainda perdemos muitas vidas devido ao conceito que algumas pessoas têm de que a castração é indicada para populações de baixa renda no controle populacional e de zoonoses. 

Em algumas localidades do país, castrações são oferecidas gratuitamente como mecanismo de controle populacional, mas na maior parte das vezes é o próprio tutor que se responsabiliza. Se você conhece alguém que ama seu companheiro não humano e não tem acesso a tratamento veterinário, ofereça uma castração solidária. O bem reverbera, independente de sexo, raça, cor, classe social e espécie.


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Cinomose, uma doença de inverno

Por Leonardo Maciel  

A cinomose é uma doença causada por um vírus que tem muitas similaridades com o sarampo humano. A doença está mundialmente distribuída e acomete não somente cães , mas também raposas, lobos-guará, leopardos, leões, furões, ursos, focas, golfinhos, além de muitas outras espécies .

Apesar de acontecer duramente todo o ano, no inverno geralmente há maior incidência. Os sintomas começam em torno de sete dias após o contato com o vírus e incluem diarréia sanguinolenta de curso rápido, secreção nasal e ocular purulentas, tosse, pneumonia, dor nos olhos por deficiência de produção de lágrimas e podem evoluir para convulsões, contrações involuntárias de grupos musculares, choro constante e compulsivo, confusão mental.

O diagnóstico clínico da cinomose pode ser difícil pois alguns sinais podem ser confundidos com os de outras doenças, então muitas vezes são necessários exames laboratoriais.

O tratamento para cinomose não é fácil e em uma porcentagem muito significativa dos casos ocorre o óbito, ou a eutanásia devido ao sofrimento. É uma doença altamente contagiosa, porque os doentes eliminam o vírus pela saliva, urina, fezes, secreções e o ser humano pode levar estes vírus de um animal a outro mesmo em casas diferentes, pela pele, roupas e calçados. Assim, se você teve contato com um animal com cinomose, deve trocar suas roupas e calçados, além de tomar um banho antes de ter contato com outros animais.

Os mais propensos são os filhotes, as grávidas, e os animais que estão com outras doenças debilitantes como leishmaniose e câncer. Estes últimos, mesmo vacinados podem contrair a cinomose.

Mas há boas notícias : existem vacinas de excelente qualidade que conferem proteção bastante significativa. Estas vacinas devem ser aplicadas por volta dos dois, três e quatro mese de idade, com reforço anual. As vacinas devem ser corretamente aplicadas e adequadamente estocadas para uma boa eficácia. Infelizmente estas vacinas não são oferecidas pelos órgãos de saúde pública ( apenas a vacina contra raiva é oferecida atualmente) uma vez que a cinomose não é considerada uma zoonose. Existem pesquisas sobre uma possível participação do vírus da cinomose em patologias humanas como a Esclerose Múltipla, a Doença de Paget e a Pancefalite Esclerosante, mas não conclusivas. A cinomose, quando não mata, pode deixar sequelas terríveis como paralisia e convulsões frequentes. Uma vacina anual evitaria muito sofrimento. Se você conhece alguém que não tenha condições , promover uma vacinação solidária salvaria não somente aquela vida em questão, mas muitas outras ao redor.

A cinomose tem adquirido importância mais ampla porque a colonização humana tem atingido cada vez mais as florestas e a doença tem acometido muitas outras espécies como lobos e raposas, podendo colaborar para a extinção destas espécies.

O importante então é agir responsavelmente com nossos animais e manter o cartão de vacinas sempre atualizado. Sempre que formos passear em áreas rurais , cachoeiras e caminhadas ecológicas, seria bom deixar os cães com amigos ou parentes, pois cães saudáveis podem eliminar o vírus nas fezes e promover contaminação ambiental, afinal, a nossa responsabilidade com os outros seres do planeta vai além do que está ao alcance da nossa visão. 


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