Saúde animal – Página: 21 – Olhar Animal
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Toxoplasmose humana, canina e felina

Por Leonardo Maciel 

A toxoplasmose é uma doença que acomete praticamente todos os animais de sangue quente, ou seja, os mamíferos e aves. Quando se fala em toxoplasmose, o mais comum é que se pense em gatos como os transmissores e culpados, o que precisa ser avaliado à luz de muita informação cientificamente embasada.

Existem basicamente duas formas de se contrair a doença: pela ingestão das formas infectantes no solo, frutas e verduras ou pelo consumo de carne e leite.

Os felídeos são os únicos onde ocorre a reprodução sexuada do parasita e os oocistos (infectantes) são eliminados nas fezes contaminando o solo, água, frutas, verduras e legumes. Estes oocistos são ingeridos pelos outros animais, inclusive o homem, causando a doença. A eliminação das formas contaminantes pelos gatos ocorre, porém, uma única vez na vida, na primeira infecção, normalmente quando são filhotes e esta eliminação ocorrerá por apenas quinze dias. Estas formas contaminantes, entretanto, poderão ficar viáveis no solo por anos. Depois disto, os gatos não eliminarão mais estes oocistos durante o resto da vida, a não ser que apresentem alguma doença muito grave e imunossupressora.

Os gatos por sua vez, adquirem a doença ao comerem a carne de ratos, esquilos e outras presas.

Os cães podem transmitir a toxoplasmose? Sim, porém atuando como vetores mecânicos, ou seja, carreando as formas contaminantes no solo nas patas e nos pelos. Desta forma, insetos, como baratas, também podem levar os parasitas dos locais contaminados até os alimentos. Pesquisas mostram que até 84% dos cães que vão à rua têm exames positivos para toxoplasmose, enquanto 58% dos cães que ficam apenas no domicílio mostraram a reação positiva. Isto mostra como a toxoplasmose está distribuída no ambiente. O fato de ser positivo não significa ter a doença ativa ou eliminar os parasitas no ambiente, apenas que houve um contato com o parasita.

O contágio humano se dá pela ingestão de frutas e verduras contaminadas e mal lavadas, pelo consumo da carne mal cozida e pelo contato com terra colocando a mão na boca em seguida. O contato direto com os gatos não aumenta o risco de infecção para humanos, lembrando que o gato eliminará o parasita durante apenas quinze dias em sua vida, e normalmente na infância.

Não se previne a toxoplasmose na mulher gestante impedindo seu contato com gatos, e sim através da manipulação adequada de alimentos e bons hábitos de higiene pessoal.

Estudos apontam que o consumo de carne é responsável por 30% a 63% dos casos humanos, contato com solo e verduras de 6% a 17% e contato direto com gatos improvável. É descrita também a forma aguda da doença em pessoas pela ingestão de leite de cabra cru. A toxoplasmose tem sido associada à esquizofrenia humana na opinião de muitos pesquisadores, ao causar alterações cerebrais.

Os gatos também sofrem com a doença? Sim, podendo apresentar problemas oculares, icterícia, anorexia, apatia, ataxia, perda de peso e convulsões.

Os cães contaminados podem apresentar paralisia de posterior, meningite, tosse, perda de peso, alterações oculares e hepatite. Normalmente os cães que apresentam sinais de toxoplasmose têm alguma doença que provoca deficiência imunológica como a cinomose ou leishmaniose.

Pelas poucas informações expostas acima, pode-se imaginar quão amplo é o tema e quantas informações devemos ter antes de firmar um conceito.

O preconceito é o principal inimigo no controle de qualquer doença. O importante é que tenhamos bons hábitos de higiene, principalmente com alimentos, e mantenhamos bem alimentados e saudáveis os cães e gatos que convivem conosco para que seu sistema imunológico possa conviver com os diversos agentes aos quais serão expostos.

O conceito que animais são transmissores de doenças é ultrapassado e especista. Eles podem padecer de doenças como nós e sejamos solidários com as outras espécies, pois se temos doenças em comum, temos também a mesma vontade de viver e compartilhar. 


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Castração, priorizar machos ou fêmeas?

Por Leonardo Maciel

A superpopulação canina e felina é uma questão urgente a ser resolvida, responsáveis que somos pelos animais que trouxemos para nosso convívio. Os órgãos de saúde pública avaliam o aspecto das zoonoses enquanto as entidades e pessoas que militam na proteção e respeito aos animais tentam minimizar sofrimento e abandono.

Fato é que a educação humanitária e a sensibilização para a causa promovem mais resultado que qualquer programa de castração. O despertar da responsabilidade do tutor é entretanto um processo lento que envolve mudanças de paradigmas de uma geração a outra, e enquanto isto a castração evita muito sofrimento para nossos companheiros não humanos.

A castração de fêmeas, a ovariosalpingohisterectomia, é a abertura da cavidade abdominal para retirada do útero, trompas e ovários, sendo um processo mais delicado e que requer habilidade e prática. A castração do macho, a orquiectomia, é por sua vez, a abertura da bolsa escrotal para retirada dos testículos, e apesar de delicado, o processo é um pouco mais simples, menos oneroso e com menor risco se comparado ao procedimento nas fêmeas. Ambos os processos envolvem anestesia geral ou peridural.

Para o indivíduo, a castração das fêmeas traz os benefícios da diminuição da incidência do câncer de mama, o desconforto da gravidez psicológica, o risco de infecção no útero, o sofrimento na tentativa de alimentar e defender os filhos além de cessar o risco das doenças venéreas. Para os machos, a castração diminui a incidência do câncer de próstata que é raro, evita doenças venéreas além das disputas sangrentas pelas fêmeas. Pelos motivos acima, a castração traria mais benefícios para as fêmeas do que para os machos.

Devido à carência de recursos e à urgência da situação, muitas entidades de proteção animal procuram otimizar recursos e concentrar esforços em castração apenas de fêmeas, o que realmente produz resultados mais imediatos em termos de alívio de sofrimento. É óbvio que se os recursos estiverem disponíveis, castram-se machos e fêmeas igualmente.

Segundo experiências bem sucedidas, algumas expostas pela Organização Mundial de Saúde, para se ter sucesso em um programa de controle populacional de cães e gatos é preciso uma ação de castração de uma parcela significativa da população em questão num espaço muito curto de tempo, pelo menos 20%, para se estabilizar a curva ascendente do crescimento populacional. A partir de então parte-se para um processo contínuo de esterilizações com diminuição gradual da curva populacional. Se os procedimentos iniciais forem muito lentos, o efeito é enxugar gelo.

Uma proposta possível seria realmente, no início de um programa, ou quando a situação é crítica, canalizar os esforços para a castração de fêmeas. Se a opção de utilização de recursos iniciais seria disponibilidade para castrar dez machos ou três fêmeas, estas últimas proporcionariam melhores resultados.

Além disto, como vivemos em uma sociedade onde ainda prevalece a dominância do homem, branco , heterosexual e machista, a castração dos machos ainda enfrenta problemas de convencimento e um grande gasto de energia. A castração de fêmeas por outro lado, encontra menos impedimentos, porque com elas se pode tudo se depender dos homens e as mulheres se sentem solidárias ao saber da possibilidade de ficar livre das alterações hormonais e gestações indesejáveis. Priorizar as fêmeas no começo pode ser apagar o maior foco do incêndio.

A resposta para esta dúvida bastante frequente entre ONGs e protetores, pode estar na avaliação da fase na qual se encontra o processo e na meta estabelecida.

Para o controle populacional de sucesso, as metas devem ser traçadas para períodos curtos de tempo, como dois ou três anos em comunidades pequenas, caso contrário é enxugar gelo. Bastante difícil é saber, de início, a prevalência dos sexos em determinada comunidade ou localidade, pois as “estatísticas “ podem falhar enormemente. Na dúvida, aliviar as fêmeas priorizando-as, com certeza produz melhores resultados.


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A piometra (ou infecção uterina) em cadelas e gatas

Por Leonardo Maciel 

A piometra, ou infecção uterina, é uma afecção frequente, sendo uma das principais causas de morte precoce em cadelas e gatas. Primeiramente ocorre uma alteração no funcionamento dos ovários e em seguida um acúmulo de secreção no útero que causa sintomas de intoxicação e pode levar à falência renal.

A piometra geralmente ocorre durante ou após um cio, podendo ou não ser visto um corrimento vaginal amarelado ou avermelhado. As cadelas ou gatas terão prostração, dor abdominal, falta de apetite, beberão muita água e podem mostrar distenção abdominal. Se sua cadela ou gata apresentarem algum dos sinais acima, não se esqueça de informar ao veterinário se ela apresentou um cio nas últimas semanas, pois isto pode auxiliar em um diagnóstico mais rápido.

O diagnóstico pode ser clínico se o colo do útero estiver aberto, ou seja, se houver corrimento aparente. Quando não há secreção visível, um exame por ultra som confirma a suspeita, e o tratamento deve ser instituído o mais rápido possível, sendo considerado uma emergência.

O tratamento de escolha é cirúrgico com a retirada do útero infeccionado. Além disto, a paciente deverá receber antibióticos, analgésico e soro venoso para evitar complicações renais. O tratamento sem a retirada do útero não é uma opção segura, pois os antibióticos podem resolver momentaneamente o problema, que voltará no próximo cio com maiores chances de óbito e complicações renais.

Milhares de cadelas morrem anualmente em consequência da piometra, que é totalmente evitável com a castração precoce. Não há preferência por raça ou classe social, não depende dos cuidados do tutor nem do estado nutricional. Mesmo quando não há intenção de gravidez, ou não existe o risco de gravidez indesejada, a castração é fortemente recomendada. A cadela ou gata não necessitam passar por uma gravidez e amamentação para serem saudáveis e a castração antes do primeiro cio é uma prova de responsabilidade. Infelizmente ainda perdemos muitas vidas devido ao conceito que algumas pessoas têm de que a castração é indicada para populações de baixa renda no controle populacional e de zoonoses. 

Em algumas localidades do país, castrações são oferecidas gratuitamente como mecanismo de controle populacional, mas na maior parte das vezes é o próprio tutor que se responsabiliza. Se você conhece alguém que ama seu companheiro não humano e não tem acesso a tratamento veterinário, ofereça uma castração solidária. O bem reverbera, independente de sexo, raça, cor, classe social e espécie.


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Cinomose, uma doença de inverno

Por Leonardo Maciel  

A cinomose é uma doença causada por um vírus que tem muitas similaridades com o sarampo humano. A doença está mundialmente distribuída e acomete não somente cães , mas também raposas, lobos-guará, leopardos, leões, furões, ursos, focas, golfinhos, além de muitas outras espécies .

Apesar de acontecer duramente todo o ano, no inverno geralmente há maior incidência. Os sintomas começam em torno de sete dias após o contato com o vírus e incluem diarréia sanguinolenta de curso rápido, secreção nasal e ocular purulentas, tosse, pneumonia, dor nos olhos por deficiência de produção de lágrimas e podem evoluir para convulsões, contrações involuntárias de grupos musculares, choro constante e compulsivo, confusão mental.

O diagnóstico clínico da cinomose pode ser difícil pois alguns sinais podem ser confundidos com os de outras doenças, então muitas vezes são necessários exames laboratoriais.

O tratamento para cinomose não é fácil e em uma porcentagem muito significativa dos casos ocorre o óbito, ou a eutanásia devido ao sofrimento. É uma doença altamente contagiosa, porque os doentes eliminam o vírus pela saliva, urina, fezes, secreções e o ser humano pode levar estes vírus de um animal a outro mesmo em casas diferentes, pela pele, roupas e calçados. Assim, se você teve contato com um animal com cinomose, deve trocar suas roupas e calçados, além de tomar um banho antes de ter contato com outros animais.

Os mais propensos são os filhotes, as grávidas, e os animais que estão com outras doenças debilitantes como leishmaniose e câncer. Estes últimos, mesmo vacinados podem contrair a cinomose.

Mas há boas notícias : existem vacinas de excelente qualidade que conferem proteção bastante significativa. Estas vacinas devem ser aplicadas por volta dos dois, três e quatro mese de idade, com reforço anual. As vacinas devem ser corretamente aplicadas e adequadamente estocadas para uma boa eficácia. Infelizmente estas vacinas não são oferecidas pelos órgãos de saúde pública ( apenas a vacina contra raiva é oferecida atualmente) uma vez que a cinomose não é considerada uma zoonose. Existem pesquisas sobre uma possível participação do vírus da cinomose em patologias humanas como a Esclerose Múltipla, a Doença de Paget e a Pancefalite Esclerosante, mas não conclusivas. A cinomose, quando não mata, pode deixar sequelas terríveis como paralisia e convulsões frequentes. Uma vacina anual evitaria muito sofrimento. Se você conhece alguém que não tenha condições , promover uma vacinação solidária salvaria não somente aquela vida em questão, mas muitas outras ao redor.

A cinomose tem adquirido importância mais ampla porque a colonização humana tem atingido cada vez mais as florestas e a doença tem acometido muitas outras espécies como lobos e raposas, podendo colaborar para a extinção destas espécies.

O importante então é agir responsavelmente com nossos animais e manter o cartão de vacinas sempre atualizado. Sempre que formos passear em áreas rurais , cachoeiras e caminhadas ecológicas, seria bom deixar os cães com amigos ou parentes, pois cães saudáveis podem eliminar o vírus nas fezes e promover contaminação ambiental, afinal, a nossa responsabilidade com os outros seres do planeta vai além do que está ao alcance da nossa visão. 


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