Seiva e sangue: “matéria combustível” e “matéria iluminada”

Em Seiva e sangue: outras vidas, outras mortes, do ano 2001, minha intenção foi responder às pessoas que – baseadas na idéia de que as plantas também “sentem” – consideravam moralmente admissível alimentar-se com animais não-humanos porque, no final das contas, sempre se precisa matar. Estabeleci que essa equiparação é errônea, mas que, se não fosse, a coerência da preocupação ética dessas pessoas deveria levá-las a deixarem de matar animais não-humanos e plantas. Elas poderiam, então, aceitar uma alimentação à base de frutos e sementes. No entanto, as discussões e os comentários a respeito dessa equiparação ofuscaram meu propósito principal: demonstrar o absurdo da solução onívora proposta por aqueles que faziam a equiparação.

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Bem-estarismo e Direitos animais

Em nosso sistema legal – e no da maioria dos países do mundo –, os animais são classificados como COISAS, com ou sem donos, e nesse último caso, suscetíveis de serem apropriados. Como seres sencientes com essa característica de serem propriedade de outros indivíduos, sua condição é comparável à de um escravo humano sob o sistema sócio-econômico da escravidão.

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Técnicas de apropriação discursiva

As empresas que experimentam em animais, os núcleos comerciais que conservam não-humanos para serem observados por um público pagante, os setores que os criam para vendê-los cozidos, e até esse horror – hoje multiplicado pela imagem televisiva – que é o negócio taurino começaram, há algum tempo, a usar o disfarce da preocupação com os animais ou com as pessoas, colando-se ao escudo do bem-estar animal, do cuidado do animal e da beneficência. A técnica tenta pulverizar – como o Alzheimer destruidor da memória – o conhecimento que permite, ao cidadão médio, distinguir entre a amargura do ser prisioneiro e a iluminação do ser livre, perceber a injustiça do inocente assassinado, entender a ética de não fazermos aos outros o que não quisermos que eles façam contra nós. Técnica desesperada, por certo, voltada a deter uma zoofilia crescente, ainda que às vezes confusa, a qual inunda de um sentimento de generosidade aquele que a cultiva. E este sentimento, como se sabe, faz muito bem.

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