Chega de safaris: desconstruindo ‘A Fazenda Africana’

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Por Liège Copstein

“Tive uma fazenda na África, no sopé das montanhas N´Gong…”. Assim singelamente a escritora dinamarquesa Karen Blixen, sob o pseudônimo de Isak Dinesen, inicia seu fantástico relato sobre os anos vividos no Quênia, assunto do best seller A Fazenda Africana, publicado em 1937. Existia uma boa razão para que Karen usasse um pseudônimo: nobre, aristocrata, herdeira de império – ainda que em decadência -, já seria bastante ruim que uma mulher qualquer se metesse a escrever; uma lady de estirpe, então… nonsense!

Mas se Karen ocultou sua identidade – pelo menos no começo, antes do sucesso estrondoso – foi sem pudor que entregou-se à impressionante narrativa das aventuras coloniais. Para o bem e para o mal, estava tudo lá. A contemplação lírica da natureza bela e feroz, misturada à sua crença na naturalidade dos privilégios da elite, a ambiguidade de sua relação condescendente com negros e animais, embolados no mesmo status de bens a colonizar.

Uma das passagens mais belas do livro diz respeito ao olhar da autora sobre a gazela Lulu, um filhote órfão que é encontrado nas proximidades de sua propriedade, e criado pela fazendeira até a idade adulta, quando então, gradualmente, retoma a vida selvagem. Diz ela:

“Lulu vinha do mundo selvagem que nos circundava para provar que as nossas relações eram boas, fazendo com que a minha casa se fundisse com o cenário africano – a tal ponto que ninguém saberia dizer onde começava uma e o outro terminava. Lulu conhecia o refúgio do grande javali da floresta e tinha visto o acasalamento dos rinocerontes. Na África existe um cuco que canta no meio dos dias mais quentes, no seio da floresta, como as sonoras batidas do coração do mundo. Nunca tive a sorte de vê-lo, nem tampouco o havia visto qualquer pessoa das minhas relações, pois ninguém soube dizer-me qual era seu aspecto. Mas é possível que Lulu tenha caminhado numa estreita trilha de veados justamente debaixo do galho onde o cuco estava pousado. […] Se é verdade que conheço uma canção sobre a África – pensei na girafa e na lua nova africana assentada em suas costas, nos arados dos campos, e nos rostos suados dos colhedores de café –, será que de seu lado a África conhece alguma canção minha? Estremecerá o ar sobre os plainos com uma cor que uma vez usei ou inventarão as crianças um brinquedo em que meu nome seja mencionado, ou lançará a lua cheia uma sombra sobre o cascalho do caminho, impregnado de mim, ou estarão as águias de Ngong me procurando nas montanhas?”

Ah, essa Karen, grande dama que descia dos pedestais nórdicos para unir-se ao povão aqui debaixo, imagine, gerenciando uma fazenda!… Bem que devem ter comentado à boca pequena, nos bons salões de Copenhagen, sobre as esquisitices da Karen. No entanto, ela era o que eles eram, reflexo de sua classe. Em suas memórias, negros e animais são descritos frequentemente como personagens da mesma esfera, irmanando-os, idealizados, numa suposta infantilidade primitiva e intransponível que os separa do branco colonizador.

A história de Lulu, por exemplo, é pontuada com referências ao cozinheiro nativo Kamante, ele também uma criança frágil que “surgiu”, em certo momento, ante os olhos da narradora, filho doentio de um dos agregados, e que só sobreviveu até a idade adulta graças aos cuidados da fazendeira. Na própria narrativa, Lulu segue-se a Kamante, com a seguinte introdução: “Lulu chegou à minha casa vinda da floresta, assim como Kamante veio das planícies”. E encerra-se assim: “Não tive notícias de Lulu desde que deixei a África, mas tive notícias de Kamante e dos outros meninos da casa”.

Você diria que a Karen amava animais, não é? Mas não. Pelo menos, não do ponto de vista dos próprios animais, ouso suspeitar. Na iminência de sua volta à Europa, Blixen cogita simplesmente executar seus bichos a tiros de espingarda, já que não pode levá-los com ela. “Eu também tive de cuidar do destino dos meus cavalos e cachorros. Desde o começo, minha intenção era abatê-los, mas muitos de meus amigos escreveram-me, pedindo para ficar com eles”. Jízuz. Até a galera do british club de Nairobi percebeu que o jeitinho com que ela ia “cuidar do destino” dos seus animais era meio drástico…

Karen tinha aquele probleminha, ainda comum hoje em dia apesar de todos os achados da Declaração de Cambridge sobre a senciência animal, de não conseguir diferenciar entre coisas e pessoas. Principalmente quando essas pessoas não são humanas, ou pelo menos brancas… Outra passagem significativa, que narra seu encontro com os lagartos, revela um desfecho bem infeliz para os últimos:

“Uma vez, abati a tiros um iguana. Pensei que seria capaz de fazer coisas bonitas com sua pele. Aconteceu então uma coisa estranha, que jamais esqueci. Ao aproximar-me dele na pedra em que estava caído, morto, e mesmo enquanto eu caminhava os poucos passos que me separavam dele, desbotou-se e ficou pálido, tendo toda a cor abandonado seu corpo como um longo suspiro. Quando cheguei a tocá-lo estava cinzento e inexpressivo como um pedaço de concreto. Era o vivo e impetuoso sangue pulsando dentro do animal que havia irradiado todo aquele brilho e esplendor. Agora que a chama se havia apagado e a alma se evolara, o iguana estava tão morto quanto um saco de areia. […] Desde então, ainda cheguei com alguma frequência a atirar em iguanas, sempre com a lembrança daquele da reserva. Em Meru, vi uma moça nativa com uma pulseira de couro de alguns centímetros, adornada com pequenas contas coloridas, que variavam na cor do verde ao azul-claro e azul-marinho. Era um objeto extraordinariamente vivo. Parece que respirava em contato com o braço da moça. Como eu o quisesse para mim, pedi a Farah que o comprasse da moça. Tão logo, entretanto, transferiu-se para meu braço, perdeu a alma. Não era mais nada, apenas um pequeno e barato objeto de bijuteria.”

Pois é, certas coisas, Karen, “perdem a alma” quando transplantadas do seu contexto original, e se repetem como farsa. Você, e outras herdeiras de impérios decadentes pelo mundo afora, não conseguem entender isso até descobrirem da pior forma. Animais arrancados de seu habitat, enfiados à força num arremedo de África chamado, por exemplo, “Pampas Safari”, esses então perdem a alma até no sentido literal, tem suas alminhas bem arrancadas do seus corpos tão logo deixem de ser bom negócio. E tem outras coisas que se repetem como farsa, quase comédia, não fosse seu potencial destruidor. Por exemplo: a finesse das elites, das famílias “antigas” cujas árvores se entrelaçam com as de fidalgos lendários, essa finesse almejada por cada aventureiro pobre vindo do velho continente que desbravou no novo mundo seu caminho para a riqueza, essa finesse não se compra nem se imita, sorry to say.

Se não, vejamos. É verdade que vejo muita parecença entre o discurso da advogada Anelise Febernati, herdeira da família proprietária do Pampas Safari (leia entrevista da doutora sobre a “finalização do empreendimento”, e dos animais que nele vivem, no link abaixo), e a escritora Karen Blixen. Quando veio a público a intenção da empresária de simplesmente exterminar os bichos, circulou até o boato de que madame andaria naquele momento pela África, caçando… Mas não, please, não deve ser verdade, a vida não pode ser assim tão óbvia. Ainda assim…

Ambas “cuidam do destino” dos seus animais a bala. Ambas não diferenciam seres sencientes de coisas, e nisso, é preciso ressalvar, estão amparadas pelas arcaicas leis que ainda regem as relações entre humanos e não humanos: “o proprietário pode nos termos do art. 1.228 do Código Civil, potestativamente, usar, gozar e dispor da coisa, e o direito de reavê-la do poder de quem quer que injustamente a possua ou detenha…” , recita a doutora. Usar, gozar e dispor da coisa, bem como faziam senhores de escravos no passado, igualmente ao abrigo da lei. Leis que mudaram, pois leis devem acompanhar a ética possível no momentum social, e não o contrário.

Doutora Anelise também acredita devotar grande respeito aos animais, quando afirma que “A causa animal é inspiradora. Ao promovermos a criação comercial de animais selvagens, reduzimos a caça ilegal e auxiliamos na perpetuação de espécies, antes ameaçadas. O mesmo com a exibição destes exemplares em sistema de safári, sem jaulas. Colaboramos para o desenvolvimento da consciência ecológica das pessoas, durante 40 anos. Nós nos consideramos militantes da causa animal.”

É, Karen Blixen, que tanto se enternecia com a gazela Lulu, igualmente devotava aos animais esse amor a la Hannibal the Cannibal, e certamente também, como a doutora, não tinha a menor noção do que significa “causa animal”, um movimento de sólidas bases teóricas, que objetiva incluir os indivíduos animais na comunidade dos portadores de direitos. Pouco ou nada tem a ver com o ecologismo tal como é praticado, um ecologismo essencialmente muito parecido com a própria predação dos recursos naturais que tanto propõe combater, visto que ambos só se pautam por interesses humanos, antropocêntricos.

Karen Blixen não sabia de nada, a pobre. Perdida em sua fazenda africana, no longínquo ano de 1914, o que podia a coitada exceto ser o que era, uma aristocrata falida, tentando desesperadamente manter o nariz empinado? Muito tempo e duas guerras ainda se passariam antes que a voz das minorias começasse a ser ouvida, efeito do colapso dos ideais iluministas feitos em picadinho pela escalada nazista – aquele pessoal que executava inocentes como se fossem coisas, e tudo dentro da lei, lembram?

Não, finesse não há dinheiro que compre. Já informação, sim. O mundo girou, girou, como o príncipe Falconeri valsando com a plebeia interesseira no filme O Leopardo, de Luchino Visconti, e até ele sabia que alguma coisa tinha que mudar, nem que fosse que para que tudo ficasse como está. Aventureiros tomaram o lugar dos fidalgos, e o mundo dourado das elites, onde cada um sabia muito bem o seu lugar, ficou para trás. Quando tenta-se imitá-lo, sabe o que acontece? Em vez da fazenda africana, acaba-se num Pampas Safari.

Link da entrevista:
https://gauchazh.clicrbs.com.br/tecnologia/noticia/2017/10/donos-do-pampas-safari-falam-pela-primeira-vez-nao-ha-norma-que-proiba-o-abate-de-animais-exoticos-sadios-cj8kcocm000rg01olds97t0g5.html

Fonte: Olhar Animal


Liège Copstein

Liège Copstein liegecopstein@gmail.com

Jornalista freelancer, graduada pela UFRGS, Porto Alegre. Vegana, protetora independente – seja lá o que isso significa -, abolicionista. Mestra em Literatura Comparada pela URI-FW, com ênfase na pesquisa sobre os mecanismos do discurso especista na literatura contemporânea e na mídia. Escrava de treze gatos.

Os comentários abaixo não expressam a opinião do Olhar Animal e são de responsabilidade exclusiva dos respectivos autores.

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