Conheça Lucas, o ex-morador de rua que cuida de 100 gatos na orla de Salvador, BA

Após drama familiar, jovem se dedica a felinos e recebe ajuda de voluntários.

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Lucas Santos de Jesus, 24, é o 'rei dos gatos' da orla (Foto: Almiro Lopes / Correio)
Lucas Santos de Jesus, 24, é o 'rei dos gatos' da orla (Foto: Almiro Lopes / Correio)

Lucas Santos de Jesus, 24 anos, perdeu a mãe, o emprego e até o ano passado morava na rua, mas quando perguntado sobre o que deseja ele responde rapidamente: “Ficaria feliz se todos os gatos fossem adotados por pessoas que gostassem e cuidassem bem deles”.

Não é fácil encontrar os animais na tarde ensolarada de Salvador. Se escondendo sob a sombra das árvores ou dentro dos abrigos de papelão, plástico e até de concreto, todos doados por visitantes ou moradores do local, os filhotes e adultos descansam. A limpeza da zona ocupada impressiona. “Nem as fezes deles eu deixo no chão, limpo tudo”, diz Lucas.

Gatinhos são cuidados pelo ex-morador de rua Lucas (Foto: Almiro Lopes / Correio)

Os gatos não estão em uma ONG ou em um abrigo. Os cerca de 100 animais (“agora aqui tem entre 90 e 105 gatos”, diz o cuidador) ficam na rua, vizinhos a uma praia bastante frequentada em Salvador, próximos a pistas de caminhada e corrida e escondidos sob a vegetação que circunda o local. Os animais, todos com boa aparência, obedecem aos chamados de Lucas, que diz conhecer as individualidades de cada um.

Cuidado

Todos os dias, Lucas chega ao local pontualmente às 7h para cuidar dos animais. “Troco água, tiro o lixo, coloco ração todos os dias e leite para os filhotes”, relata ele. O local surpreende pela limpeza e organização, apesar da quantidade de animais. Muitos moradores e turistas chegam para trazer doações e fazer carinho nos bichos. “Eu procuro trazer ração para ajudar”, diz Júlia Virolli, estudante de 17 anos que mora no bairro.

Os animais são mantidos com a ajuda de protetores, dentre eles veterinários que pediram para não ser identificados. “A gente faz vaquinha para comprar remédios, ração, para vacinar contra raiva e para pagar a anestesia para castrar os animais”, conta Lucas. Por dia, são gastos 16 kg de ração, metade pela manhã e metade à tarde, além de um litro de leite para os 10 filhotes que estão no local.

O Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) informou que em 2017 o órgão esteve duas vezes no local para vacinar os animais – a última visita foi em dezembro. O número de felinos que foi vacinado não foi comunicado.

Criança brinca com animais; limpeza do local chama a atenção (Foto: Almiro Lopes / Correio)

Abandono

O local já chegou a abrigar mais de 250 gatos – Lucas conta que às vezes mais de 100 são abandonados no local em um único mês, número que supera o de adoções, que é de no máximo 40 mensais.

“Se a gente vê alguém trazendo animais para cá a gente não deixa. Anotamos a placa e denunciamos, porque abandono é crime”, adverte ele.

Ana Galvão, chefe do setor informação do CCZ, reitera a informação.

“Temos que fomentar na população a ideia de não abandonar os animais, é um maltrato para o gato e é crime”, diz Ana.

Daniela Coelho, que é protetora de animais e pesquisadora em Ecologia, afirma que o abandono é um problema enfrentado também por organizações não governamentais (ONGs) que cuidam de animais domésticos. “A maioria dos abrigos não informam endereço porque as pessoas tendem a abandonar os animais na porta”, lamenta.

Desequilíbrio

Nem todo mundo festeja a presença dos gatos no local. O professor José Carlos de Freitas, 54, espalhou na tarde desta segunda (15) cartazes para solicitar aos transeuntes a não alimentarem os gatos e incentivando a adoção. “Aqui não é local para criar os gatos. Eles são animais domesticados e destroem a fauna daqui”, argumenta.

O cartaz diz: “Protetores de gatos destroem a fauna praieira”. Carlos explica que aves que eram vistas no local desapareceram há cerca de um ano por causa dos felinos.

“Eu moro no bairro há 30 anos, sempre passei ali vendo aves como corujas buraqueiras por ali. Agora não tem nem rolinha, não fica uma”, reclama.

A pesquisadora em Ecologia Daniela Coelho, especialista em fauna silvestre, diz que a queixa tem fundamento. “Alguns artigos científicos documentam o impacto de gatos na fauna de animais silvestres de uma região, e mostram redução da abundância de aves e lagartos por causa da presença de gatos”. Ela explica que os felinos caçam os outros animais e comem até ovos de aves.

Apesar da ressalva, Daniela, que também é protetora de animais, elogia o trabalho de Lucas. “Ele faz um bom trabalho social, e é muito importante. Mas o ideal seria mantê-los em um local restrito e protegido, que não permita o trânsito livre deles para a rua”, sinaliza.

Castração

A maior preocupação em relação aos animais que vivem na rua é o controle populacional.

“Um gato macho pode gerar até 1.000 filhotes por ano”, conta Daniela.

A pesquisadora frisa a importância da castração dos animais também para evitar a caça das aves. “A castração pode até amenizar o instinto de caçador do gato”, aponta.

Castrar os animais é a solução para estes e outros problemas, segundo Ana Galvão, do CCZ. “A importância é enorme. Os animais castrados, principalmente os semi-domiciliados, ficam menos agressivos e assim também se consegue o controle populacional, evitando cria indesejada”, indica.

A castração dos animais é uma questão não só de saúde pública. “O animal muda o comportamento e tende a ficar mais tempo dentro da residência, e assim tem menos contato com doenças na rua. Em fêmeas, o procedimento reduz a chance de câncer de mama ou de útero, sendo uma vantagem para a saúde do animal”, explica a representante do CCZ.

“Muita gente pensa que castração é maltratar o animal, mas é o contrário”, conclui Daniela Coelho.

Lucas afirma que quando filhotes são adotados, ele orienta as pessoas sobre os procedimentos que devem ser tomados. “A gente indica clínicas onde a pessoa deve levar o animal para castrar e vacinar, e pedimos para trazer o animal aqui pelo menos duas ou três vezes, para vermos se estão cuidando bem”, conta.

Abrigo improvisado, que tem até decoração temática, recebe ajuda de voluntários (Foto: Almiro Lopes / Correio)

Desemprego e perdas

Lucas cuida dos gatos há mais de um ano. Os animais ajudaram o protetor a superar a morte da mãe, há 10 meses.

“Eu fiquei perdido. Acompanhava minha mãe ao hospital, e por isso perdi meu emprego como garçom. Quando minha mãe morreu fomos morar na rua. Encontrei os gatos aqui e comecei a cuidar deles. Agora eu tô com a cabeça no lugar de novo”, lembra ele, que vive com o irmão.

Antônio, 22, limpa parabrisas no semáforo, sob vigia do mais velho Lucas, que já perdeu outros dois irmãos para o crime – o último foi enterrado no sábado (13). “Fico perto aconselhando ele, pra não se juntar com gente errada, e ajudando, caso ele precise de água ou de um apoio”. Eles nunca conheceram o pai.

Os dois viveram na rua até novembro passado, quando voluntários que ajudam os gatos passaram a pagar o aluguel de um quarto, por R$ 200, e contribuir com metade da feira do mês dos irmãos. “Eu já fazia o trabalho sem as pessoas me ajudarem, porque eu gosto. Desde criança gosto de animais”.

O CORREIO tentou entrar em contato com os protetores que ajudam Lucas, identificados como dona Sônia e seu Feu, mas não obteve resposta.

Lucas leva 20 minutos para chegar no local onde os gatos ficam – disse que muitas vezes pega carona com motoristas de ônibus que já o conhecem ou de moradores, que ajudam os gatos, e que vão buscá-lo. “Se chove demais, eu saio de casa de madrugada e venho ver como os gatos estão”, relata.

Ele chegou a rasgar um edredon que ele dividia com o irmão, na calçada, para ajudar os animais.

“Resgatei três gatos ensopados uma vez. Eles tremiam muito, então rasguei um pedaço do forro do edredom e coloquei eles. Rapidamente eles se recuperaram”, lembra Lucas.

Ele disse que não pensa duas vezes quando o assunto é ajudar os animais

Veja onde castrar gratuitamente seu gato ou cachorro (macho ou fêmea):

A Secretaria Municipal de Saúde (SMS) recomenda que o tutor ligue para 156 ou 160, para receber as orientações para o serviço, um número de protocolo e encaminhamento para uma das 27 unidades de saúde espalhadas por Salvador.

Na unidade de saúde, o tutor irá agendar o procedimento em uma das três clínicas conveniadas, localizadas nos bairros da Graça, Bonfim e Amaralina, ou na sede do CCZ, no Trobogy.

Há ainda a opção de levar o animal para o Castramóvel, que a cada mês fica localizado em um bairro de Salvador – atualmente, o serviço está no campus da Uneb, no Cabula. São distribuídas 100 fichas por dia. O cadastramento e a triagem são realizados às segundas e terças-feiras.

Para realização do procedimento, são requisitados o cartão do SUS do tutor do animal, além de RG, CPF, comprovante de residência e a carteira de vacinação anti-rábica do bichinho atualizada.

O animal precisa ter entre seis meses a cinco anos de vida e estar em jejum no dia do procedimento. Se fêmeas, não podem estar em período gestacional. Além disso, o bicho não pode ter peso inferior a 1 kg.

Durante as segundas e terças-feiras são realizados os cadastramentos e triagens, período em que o animal faz uma avaliação antes de passar pela cirurgia. O procedimento de castração ocorre às quartas, quintas e sextas. Todos os atendimentos acontecem sempre de 8h às 12h.

Fonte: Correio 24h

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