Em SC, tucano recebe transplante de bico após ser baleado

Em SC, tucano recebe transplante de bico após ser baleado

Dos três mil animais atendidos por ano no Núcleo de Tratamento e Recuperação de Animais Silvestres (Nutras), no Parque do Rio Vermelho, em Florianópolis, pelo menos mil são vítimas diretas de tráfico ou caça. As aves são as que mais sofrem com isso – na última semana, um tucano precisou receber um transplante de bico após ser baleado.

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Ave teve bico dilacerado por tiro (Fotos: R3 Animal/Divulgação)

O tucano-de-bico-preto chegou ao Centro com o bico dilacerado, provavelmente vítima de um caçador. O animal só conseguia se alimentar de líquidos através de seringas.

Depois de meses de tratamento, na última semana ele recebeu um novo bico, que era de um tucano-fêmea que havia morrido. O órgão foi fixado por parafusos, e a cirurgia foi motivo de comemoração entre os funcionários.

Tucano teve novo bico implantado em cirurgia
Tucano teve novo bico implantado em cirurgia

“Nosso maior e mais comum problema são as aves”, afirma Marcelo Duarte, sub-tenente da Polícia Militar Ambiental, que trabalha há 26 anos na área e foi um dos que encabeçaram a criação do núcleo de tratamento de animais silvestres em Santa Catarina, gerenciado pela Fundação do Meio Ambiente (Fatma), com apoio da ONG R3 animal e da Polícia Militar Ambiental.

“A forma de transporte desses animais é muito cruel, sempre em caixas pequenas, malas, amontoados, acabam morrendo por asfixia ou matando uns aos outros. E quem está por trás disso é o consumidor, quem compra. As pessoas alimentam este sistema. Esta é a parte mais doída para nós. O problema está longe de ser resolvido”.

Tráfico de animais

Para a Polícia Militar Ambiental, o mercado do tráfico de animais silvestres se mantém de forma amadora e também profissional em Santa Catarina, onde há uma forte estrutura para que este sistema funcione e, consequentemente, renda lucro.

Aves são a classe que mais sofrem com o trágico de animais no estado (Fotos: Melina Castro/G1)
Aves são a classe que mais sofrem com o trágico de animais no estado (Fotos: Melina Castro/G1)

“Há anos houve a denúncia de uma solicitação de 30 cobras cotiaras a um criador de Joaçaba. O pedido teria vindo de uma indústria farmacêutica que tinha interesse no veneno do réptil. O criador foi preso e, posteriormente, solto para responder em liberdade. No dia seguinte o homem foi assassinado. O buraco é mais fundo do que parece”, ressalta Duarte.

Além de criar e vender alguns animais típicos da região, os catarinenses também são grandes compradores deste mercado. Tatus, tamanduás, macacos e aves são trazidos do Cerrado do país, em sua maioria, para criação doméstica e o consumo da carne.

“Antigamente o consumo da carne destes animais era uma necessidade para muitos. Hoje, não passa de capricho.”

Vulneráveis

A bióloga do Parque, Josiele Felli, explica que, na primavera, o número de animais em tratamento costuma aumentar. Isso porque este é o período de acasalamento e de nascimento dos filhotes. “As mães ficam mais vulneráveis pois precisam sair para caçar”.

Com isso, aumentam os casos de atropelamento, ataques de outros animais e também de caça. “Os caçadores saem à procura do bando e assim que o encontram, matam a mãe para conseguir vender os filhotes. A maioria dos que estão aqui são órfãos justamente por esses motivos”, explica Josieli.

Infraestrutura

Santa Catarina possui apenas uma unidade do Centro de Triagem de Animais Silvestres (Cetas), que é uma parte do Nutras e funciona como um centro de triagem. Isso acaba concentrando todo o trabalho em um único lugar. Enquanto isso, estados como o Rio Grande do Sul e Paraná, por exemplo, possuem três unidades cada do Cetas.

O centro acolhe e trata todas as espécies de animais silvestres encontradas em solo catarinense. Atualmente 700 estão no parque – destes, mais de 100 estão em tratamento. Os demais aguardam por soltura ou não podem ser reintroduzidos na natureza, justamente pelo risco de não sobreviverem. “Depois de conviver com humanos eles não se reconhecem como bicho”, diz.

Duarte acredita que falta uma legislação específica para a fauna do estado, o que garantiria um recurso fixo anual para a reabilitação destes animais.

Além disso, destaca a importância da conscientização. “Temos que trabalhar a questão da educação para evitar que isso continue. Precisamos mudar a cultura do zoológico, do cativeiro. Os bichos que tiveram suas vidas destruídas por, nós humanos, deveriam servir de lição.”

Macaco bugio está entre as espécies ameaçadas pela prática de comercialização de animais silvestres
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Fonte: G1

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