Gatos de vida livre

Por Eduardo Pedroso

Todos os dias recebo solicitação de gente que quer retirar gato de vida livre das ruas para trancafiar nos mais variados lugares.

Explico de maneira muito clara e didática que essa não é a melhor solução.

Os gatos ferais quando retirados de seu ambiente sofrem absurdamente e têm seu sistema imunológico abalado. Doenças preexistentes tornam-se sintomáticas e a saúde do animal se deteriora. Ele adoece e morre. Na imensa maioria das vezes é isso o que acontece.

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“Ah, mas o meu gato era super bravinho e hoje vê TV comigo no sofá.” Seu gato não era um feral. Existem vários matizes de temperamento de gatos. Ferais são uma categoria especial e não se adaptam nunca a locais fechados. Seu bem-estar e saúde estão condicionados à vida livre que possuem. Isso é importante e necessário entender quando se quer lidar com gatos de rua.

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Conheci anos atrás uma protetora que praticava CED (Captura, Esterilização e Devolução) e demorava quase 10 dias para devolver o gato para a colônia. Entre o sétimo e o oitavo dias muitos gatos estavam espirrando, lacrimejando, com diarreia, deprimidos e sem fome. A conclusão que ela chegava era a seguinte: “se eu não tivesse resgatado esses animais eles adoeceriam e morreriam na colônia”.

Uma vez passávamos de carro próximos a uma das colônias que ela monitorava e fiz a pergunta: ” Amiga, por que os gatos que você ainda não capturou e vivem na colônia não adoecem como os que você capturou?”
Ela ficou em silêncio. Até hoje.

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No final de junho de 2017 fui contratado para capturar uma colônia de um condomínio na Zona Sul da cidade de São Paulo e entregar para uma senhora que mantém uma abrigo na Moóca, na Zona Leste.

Meu procedimento de trabalho me obriga a saber da rotina da colônia, da história, entender a situação, perguntar, pesquisar e propor soluções. Retirar os animais, deslocar a colônia, é algo proibido dentro do meu mundo.

Isso só acontece quando se esgotam as opções de negociação visando a permanência dos gatos no local. E mesmo assim…

Nesse caso a pessoa que me contratou foi desleal. Pintou um cenário horrível envolvendo condôminos dispostos a matar os gatos e um síndico irredutível. Nada disso era inteiramente verdade. Seu intento não ficou claro até hoje. Não sabemos se ela queria se livrar dos animais, sumir com os bichos para sempre, ou amedrontada além da conta serviu aos propósitos de alguém que realmente queria a extinção da colônia do condomínio.

Infelizmente seis gatos foram deslocados para o abrigo da Moóca. Uma semana após a entrega dos gatos o próprio abrigo divulgou publicamente que animais estavam morrendo de panleucopenia no recinto.

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O positivo dessa história é que os verdadeiros protetores da colônia apareceram e imediatamente proibiram a senhora que me contratou inicialmente de botar as mãos nos gatos.

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Os protetores, um casal, a Patrícia e o Erico, castraram dezenas de gatos do condomínio e monitoram e protegem os gatos. Na última sexta-feira,19 de janeiro, estive no local para uma intervenção de CEVD. Três filhotes e uma mãe foram capturados, esterilizados, vacinados contra a raiva e devolvidos para a colônia no sábado.

Fonte: Olhar Animal


Eduardo Pedrosoedu_520@hotmail.com

Agente de CED (Captura, Esterilização e Devolução), idealizador da ONG Bicho Brother, especializada em controle ético de gatos de rua. Ajudou a produzir e dirigiu o 1º Seminário Brasileiro de CED. Formando em Gestão Ambiental pela Universidade Unicsul. Vegetariano estrito. Pai do Emanuel.

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