Leishmaniose: pesquisa aponta alternativa à matança em cães

Leishmaniose: pesquisa aponta alternativa à matança em cães

Em breve, Bauru pode ser modelo nacional para uma nova política de controle e combate à leishmaniose. Um estudo pioneiro realizado no município apontou, em resultados preliminares, que o uso de coleira impregnada com deltametrina em cães já infectados pode ser mais eficaz do que a eutanásia (hoje ainda preconizada pelo Ministério da Saúde) para evitar que a doença se espalhe.

Amostragem colhida no estudo aponta que a incidência da doença, que era de 4% na região do Isaura Pitta Garms (bairro escolhido para o estudo), diminuiu para 1,88% com o encoleiramento inverso, em um período de sete meses. O trabalho usou como comparativo a região do Núcleo Gasparini, onde a política de eutanásia, assim como no restante do município, continua prevalecendo. Lá, a incidência até aumentou no período, de 4% para 4,5%.

Inédita

Inédita no País, a pesquisa será encerrada em abril de 2020, quando os resultados finais serão apresentados. Se a queda no índice prevalecer, os pesquisadores irão propor a adoção da medida como política pública para controle e combate da doença no Brasil.

“O cão é visto, hoje, como um membro da família e muitas pessoas acabam não entregando o animal para a eutanásia. Por isso, estamos estudando alternativas”, cita o autor do estudo, Luiz Ricardo Paes de Barros Cortez, que também é diretor do CCZ.

A pesquisa, que foi noticiada pelo JC quando teve início em 2018, já foi até indicada para uma premiação nacional. A metodologia é a seguinte: hoje, as pessoas usam coleira com deltametrina em cães saudáveis como método preventivo para espantar o mosquito-palha, vetor da leishmaniose. A ideia do projeto é usar essa coleira em cães já diagnosticados com a doença para afugentar o mosquito e evitar que a doença se espalhe. Com isso, o animal teria tempo de ser tratado.

Amostragem

A amostragem do resultado preliminar colhido no Núcleo Isaura Pitta Garms e adjacências (Parque Giansante e Chácara São João), entre março e outubro do ano passado, examinou um total de 159 cães que não tinham a doença. Sete meses depois da distribuição das coleiras, apenas três foram contaminados, resultando em uma incidência de 1,88%.

No Núcleo Gasparini e adjacências (Núcleo Índia Vanuíre e Jardim Helena), dos 331 cães negativos para leishmaniose, 15 foram detectados com a doença depois dos sete meses de ações, totalizando 4,5% de incidência.

“Depois que iniciamos as medidas e houve a distribuição das coleiras para 64 cães positivos para a doença no Isaura Pitta Garms, a incidência diminuiu”, explica Cortez. “E a aceitação da coleira foi de 100%. Já no Núcleo Gasparini, onde a eutanásia era preconizada, somente 35% dos proprietários entregaram seus cães para os agentes depois de receberem os laudos positivos para doença. Lá, a incidência praticamente não mudou ao longo dos seis meses, mesmo com a morte de alguns animais”, compara.

Os bairros em questão foram escolhidos por possuírem características semelhantes: são mais afastados do Centro, possuem população canina grande e estão situados em região de mata.

Repelente e Inseticida 

O termo “encoleiramento inverso” é usado porque, atualmente, as pessoas usam coleira com deltametrina em cães saudáveis como método preventivo para espantar e matar o mosquito-palha, vetor da leishmaniose. O dispositivo, contudo, não traz o tratamento, mas o repelente e o inseticida presentes nela evitam que outros animais sejam infectados e ajudam no combate ao mosquito.

Na pesquisa, os cães encoleirados já apresentavam a manifestação da leishmaniose. Por isso, o termo “inverso”. Eles também foram tratados pelos próprios donos de acordo com recomendações veterinárias.

“A coleira não é tão barata, custa de R$ 70,00 a R$ 80,00 no mercado. Mas o tratamento que hoje é recomendado supera R$ 80 mil”, compara Cortez.

Com o mascote protegido do vetor, o dono consegue tempo para buscar outras alternativas de tratamentos sem colocar em risco a infestação da doença.

Realizado por meio da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP, o estudo também tem apoio do Instituto Adolf Lutz.

“Como recebemos ajuda de mão de obra dos agentes que atuam no combate da dengue, esperaremos o período de epidemia passar na cidade para colher uma nova amostragem. Acredito que até junho teremos algo”, explica Cortez, complementando que, como os resultados são apenas preliminares, é indispensável que a população continue seguindo a política preconizada pelo Ministério da Saúde, ou seja, entregando os animais para eutanásia.

‘Top 20’ nacional

Apesar de ainda ter resultados preliminares, o estudo já está sendo reconhecido. Na semana passada, o JC mostrou que a pesquisa foi classificada entre as 20 melhores na 16.ª Mostra de Experiências Exitosas dos Municípios, que recebeu 995 trabalhos de outras cidades paulistas. O evento ocorreu em meio ao 33.º Congresso de Secretários Municipais de Saúde do Estado de São Paulo, em março. Com o nome “Nova Estratégia de controle da leishmaniose visceral americana utilizando coleiras impregnadas com deltametrina na cidade de Bauru”, a pesquisa recebeu menção honrosa do Prêmio David Capistrano, sendo indicada para a Mostra Nacional ‘Brasil Aqui Tem SUS’. O estudo bauruense concorrerá ao prêmio nacional no congresso do Conasems, que será realizado no mês de agosto, em Brasília. Em abril do ano passado, um pesquisador da Nasa esteve em Bauru para conhecer a pesquisa.

Por Marcele Tonelli

Fonte: JCNET


Nota do Olhar Animal: Muitas prefeituras fazem exames e, se diagnosticada a leishmaniose no animal, oferecem ao tutor a “opção” dele próprio fazer o dispendioso tratamento ou então seu animal deve ser deixado e exterminado. Grande parte dos tutores não pode arcar financeiramente com o tratamento. Seria razoável que as prefeituras exterminassem crianças humanas de famílias de baixa renda por estas não poderem custear tratamentos? Óbvio que não, e não há porque pensar diferente em relação aos animais não humanos. Com a transferência da responsabilidade da “decisão” para o tutor, as prefeituras procuram se eximir da responsabilidade pela morte dos bichos, oferecendo uma “escolha” impossível de ser feita por muitos tutores, carentes de recursos financeiros. Isto acaba, na prática, representando uma velada, odiosa e elitista política de extermínio contra os cães de tutores de baixa renda. Cabe às prefeituras oferecerem alternativa acessível para o tratamento e, caso isto não ocorra, resta aos tutores acionarem judicialmente todas as prefeituras que oferecem esta “escolha” impossível. Lembrando que os fortes laços dos tutores com os animais os fazem temer que seus bichos sejam abatidos pelas prefeituras e, por isto, estes acabam deixando de submeter os animais aos necessários exames, agravando a questão de saúde pública, além da condição de saúde do próprio animal e de todos em seu entorno.

Outro fato lamentável a se destacar é total perda de combatividade de algumas ONGs em relação a esta camuflada política de extermínio promovida pelas prefeituras. Estes grupos, seduzidos pelo clientelismo, por pequenos quinhões de benesses e de poder, ou até pelo simples afago no ego de seus dirigentes (com homenagens, por exemplo), acabam sendo controlados pelas gestões municipais, que assim neutraliza as críticas à escandalosa prática de controle populacional pela via da matança. Uma coisa é ocupar espaço político e administrativo participando das decisões e ações em parceria com o Poder Público, atuando efetivamente na solução das questões que envolvem os animais, num caminho reto para protegê-los. Outra é manter relações promíscuas e fazer vistas grossas às arbitrárias, incompetentes e preguiçosas ações governamentais. Manifestamos nosso repúdio a todos que se calam para manter sua “boquinha”, pois essa omissão é responsável direta pela morte de milhares de animais. Soluções éticas podem ser encontradas desde que haja pessoas éticas as exigindo.

Sobre a “eutanásia”, não é contra ela que os protetores lutam. Eles lutam é contra o EXTERMÍNIO, contra o MASSACRE de animais promovido comumente pelas prefeituras usando a leishmaniose como pretexto, ação essa tecnicamente equivocada e eticamente indefensável, e que é bem diferente da eutanásia. A eutanásia é um ato de caráter misericordioso e que deve atender aos interesses de quem o sofre, e não aos interesses de quem o pratica. Só pode ser chamado de “eutanásia” o ato de abreviar a vida de um animal com doença incurável e em estado irreversível de sofrimento, o que comumente não é a situação de um cão com leishmaniose. Os órgãos públicos de saúde disseminaram o entendimento errado do termo “eutanásia” a fim de tentar minimizar a IMORALIDADE de suas ações de extermínio. Infelizmente, até mesmo protetores usam erradamente esta terminologia.

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