Libertar os animais é um dever humano, afirma professora

A maior parte desses necessários processos civilizatórios ainda está em curso: a extensão de direitos às mulheres, a proteção a crianças e a idosos, o reconhecimento das diferentes expressões da sexualidade humana, a inclusão de pessoas com deficiência e a compensação a vítimas de racismo. Porém o mais lento dos avanços na moralidade parece ser o reconhecimento dos animais como detentores de direitos. Assim como em outros casos, apresentam-se contra esse progresso moral: o lucro, obtusas tradições, comodismo, pouca empatia, a arrogância da supremacia, os limites no pensamento. Não melhoraremos como civilização enquanto não vencermos mais essa barreira ética, isto é, enquanto seguirmos concebendo animais como coisas, objetos, propriedade, mercadoria.

Animais são desprezados e mortos, quando não subjugados, torturados, roubados em sua dignidade.

Em toda terra, animais são desprezados e mortos, quando não subjugados, torturados, roubados em sua dignidade, levados desde o nascimento a uma existência que nega sua natureza. A exploração dos animais não humanos pelos humanos se dá nas fazendas, na indústria do vestuário, em zoos, rodeios e outros tipos de diversão, nos laboratórios e no ensino, nas casas e nas ruas. A paralisia moral vai ao ponto de acharmos que animais podem morrer para agradar nosso paladar, desconsiderando que nossa saúde independe da ingesta de seus cadáveres ou de produtos derivados de seus corpos.

Felizmente, paralelas à tecnologia da exploração, crescem as sensibilidades à causa animal. Seguindo, em alguns posicionamentos, ideias já defendidas ao tempo de Pitágoras, foi nas últimas décadas que se adensou a massa crítica em torno dos direitos animais. O avanço no campo da moral depende não só de sensibilidade e empatia, mas também da capacidade de pensar nos domínios da ética, o que exige rigor conceitual e condições de inferir logicamente, além, é claro, da coragem de romper a norma.

Os seres vivos são classificados pelo seu interesse em continuar a existir e pela sua capacidade de sentir dor, a senciência, em razão da qual devem ter reconhecidos os seus direitos a uma vida plena. A noção de direitos animais é incompatível com qualquer uso, mesmo quando tal uso causa menos dor ou dor alguma. A quem entende que a ausência de dor e desconforto legitima a posse e a exploração, cabe perguntar se aceitaria ser escravo se bem tratado, se desprezaria o fato de não poder ficar com seu grupo familiar, de não decidir quase nada do seu tempo, se bastaria não ser chicoteado. Não ser escravo é desejo e direito de todos os seres sencientes. Não sendo meios para fins humanos, eles devem ter garantido seu direito à vida e à satisfação de necessidades individuais e sociais. Apenas no interesse dos próprios animais é que em alguns casos, a exemplo dos animais domesticados, cabe sua tutela visando à proteção.

Se não queremos cometer diariamente injustiças com seres inocentes, resta-nos o caminho de repensar e alterar práticas, tendo como horizonte o fato de que cultura alguma é imutável; todas são, a seu modo, dinâmicas. É certo que o raciocínio ético se situa na base da mudança, mas de fato não é uma mudança fácil: é preciso ser verdadeiramente aguerrido e bravo para lutar pela liberdade alheia.

Por Maria de Nazareth Agra Hassen

Fonte: Zero Hora

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