Misturar política com animais

Algumas pessoas têm feito uma grande confusão quando o assunto são os animais e a política. Li em postagens que “não se deve misturar” essas duas coisas. Esse pensamento é um grande equívoco, fruto do mau entendimento sobre o que é a política. Uma coisa é alguém usar os animais e a causa para obter benefícios para SI PRÓPRIO. Estes usam mesmo métodos imorais para uma finalidade mais imoral ainda. Outra coisa, MUITO DIFERENTE, é atuar politicamente para DEFENDER OS INTERESSES DOS ANIMAIS. Como seria possível a luta pelo reconhecimento de direitos não ser uma ação política? É exatamente o que ela é! Não estou falando necessariamente de política partidária, eleições, etc, até porque grande parte dos ativistas não tem vínculos com agremiações, assim como eu também não tenho. Mas reivindicar direitos para os animais é essencialmente uma ação política, mesmo que motivada exclusivamente pelos sentimentos de compaixão e amor por eles. Fazer política é se organizar com outros para defender interesses e quem defende os interesses dos animais está automaticamente fazendo política, goste ou não deste nome. E quanto à política partidária? Ela também é via para a defesa dos animais. Como pensam que foi conquistado o artigo 255 da Constituição Federal, que protege os animais? Como seria a vida dos animais hoje se a atuação na política partidária não tivesse feito ser criada a Lei dos Crimes Ambientais 9605/98, que é a mais importante ferramenta jurídica em defesa deles no país? Eu mesmo procurei quem atua na política partidária muitas vezes. Em 18 anos de ativismo encaminhei propostas de lei visando a defesa dos animais para parlamentares de partidos de uma ponta a outra do espectro político e ideológico (PP, PTB, PSDB, PSOL, PCdoB, PT e outros), buscando articular ações com pessoas que pensam muito diferente de mim, mas que entendi que podiam viabilizar ganhos para os animais. Foram projetos sobre merenda vegana, proibição do aldicarbe (chumbinho), criação das promotorias de defesa animal, criação do Dia Estadual de Proteção Animal em SC, criação do Conselho Municipal de Proteção Animal em Florianópolis, criação de políticas públicas para controle populacional de animais, etc. Sim, a ação junto aos que atuam na política partidária é muito importante para os animais também.

Quando você dá seu voto faz uma escolha por possíveis ações e omissões relacionadas aos animais. O seu voto estabelece quem vai criar e implementar políticas públicas que terão impacto direto sobre os bichos. Também pode eleger quem vai desestruturar, fazer regredir, desarticular todas as ações construídas nestes últimos anos. Portanto, não há que estranhar ativistas defendendo este ou aquele candidato em nome dos animais, por entenderem que suas propostas para eles são melhores ou que o ideário que representam propicia melhores condições para a luta pelos animais. Esta repulsa a tudo que seja qualificado como “política” se deve muito ao entendimento de que política é necessariamente algo “sujo”. Mas ser “suja” depende do propósito de quem a pratica. Outras vezes, querer dissociar os animais da política se deve ao fato de que o candidato que a pessoa escolheu não tem propostas na área e isto revela que seu voto não levou em consideração os animais. Defender os direitos dos animais é agir politicamente em nome de seres vulneráveis que não têm como defender eles próprios seus interesses mais fundamentais.

É sempre bom lembrar que a omissão também é uma posição política. Melancólica, mas é.

Por Maurício Varallo

Fonte: Olhar Animal

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