Foto: Jean Paul Vermeulen/DR

Moçambique: Homens e animais enfrentam memórias da guerra civil

Vinte e cinco anos depois do fim da guerra civil moçambicana, o Parque Nacional da Gorongosa está a ajudar os elefantes mais velhos a cuidar das cicatrizes físicas e mentais, resultado de anos de violência.

O conflito provocou mais de um milhão de mortos e três milhões de refugiados, devastando a economia e o território do país. Mais de duas décadas depois, homens e animais ainda lidam com cicatrizes da guerra.

Áudio: Reportagem ‘Gorongosa: Memória de Elefante’, de Sara de Melo Rocha com sonoplastia de Luís Borges.

O Parque Nacional da Gorongosa, mesmo no coração de Moçambique, perdeu mais de 90% da vida selvagem. No caso dos elefantes, ficaram reduzidos a cerca de 100. Antes do início do conflito viviam na reserva mais de 2500.

Desde 2008, através de uma cogestão entre o governo moçambicano e a Fundação Carr, o parque tem vindo a fazer esforços para a reposição da vida selvagem, o desenvolvimento da região e o crescimento científico.

Vídeo: “Gorongosa: Memória de Elefante”

É tempo de reconstruir mas há lembranças que nem sempre são fáceis de esquecer, sobretudo para animais como os elefantes, reféns de uma memória eterna.

“Eles lembram de muito. Eles têm emoções”, explica Dominique Gonçalves, especialista em mamíferos terrestres de médio e grande porte.

Castro Morais é guia no parque e salienta que é preciso ter cuidado com os elefantes da Gorongosa. “Quando alguém está a conduzir a sua viatura e alguém aproxima dele, muito próximo mesmo, eles podem atacar. Eles querem sentir-se bem respeitados”, explicou.

Dominique Gonçalves garante que os elefantes da Gorongosa estão a recuperar mas continuam vulneráveis. “Somos muito cautelosos com os nossos elefantes, até para aproximar ou mesmo com os turistas”, referiu.

O elefante pode viver até aos 60 ou 70 anos. Os animais mais velhos escaparam à guerra civil mas ficaram com cicatrizes físicas e emocionais.

“Vemos que uma tem um buraco na orelha de uma bala. Outras têm a tromba um bocado cortada, a orelha rasgada. Mas antigas. São mesmo cicatrizes. Mas as emocionais que eu falo é esta lembrança toda. Nós tínhamos uma população tão grande que se reduziu quase a menos de 100. Eles são os sobreviventes”.

“Gorongosa: Memória de Elefante” é uma reportagem da jornalista Sara de Melo Rocha com sonoplastia de Luís Borges. Para ouvir esta quinta-feira, depois das 20h. Repete depois da 01h e no domingo depois das 14h.

Por Sara de Melo Rocha

Fonte: TSF

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