Morador de Águas Claras (DF) convive com carcarás na janela do apartamento

Animal resolveu morar no local há três meses. Biólogos explicam que a ave de rapina procura lugares altos na cidade para criar os filhotes.

376
Ave pode atacar animais pequenos, diz diretora de aves do Zoológico. (Foto: Arquivo pessoal)
Ave pode atacar animais pequenos, diz diretora de aves do Zoológico. (Foto: Arquivo pessoal)

Há três meses, o engenheiro José Delfino da Silva Lima, 72 anos, escutou um barulho vindo da caixa de ar condicionado no 10º andar do prédio onde mora, em Águas Claras. Ao olhar pela janela, lá estava empoleirado um enorme carcará, ave de rapina típica do cerrado que pode chegar a 1,23 metro de envergadura. “Havia uns galhos de árvore em cima, e percebi que o bicho estava construindo um ninho”, relata. A partir daquele dia, o pássaro aparece todo dia no local, que se tornou a nova casa do animal.

Animal se empoleira na varanda do apartamento onde mora o engenheiro (Foto: Arquivo pessoal)
Animal se empoleira na varanda do apartamento onde mora o engenheiro (Foto: Arquivo pessoal)

Casos como o de José Delfino são comuns no Distrito Federal, onde a expansão das cidades misturou áreas urbanas e de cerrado. Vez ou outra, corujas-buraqueira, carcarás, gaviões e quero-queros resolvem se instalar nas casas dos brasilienses. “Lugares altos, como varandas e caixas de ar condicionado, lembram penhascos e montanhas onde alguns desses animais costumam viver”, explica o professor Miguel Angelo Marini, especialista em ecologia de aves da Universidade de Brasília (UnB).

Na avaliação do pesquisador, o melhor a fazer é deixar o pássaro viver no local. “A não ser que cause algum dano ou a pessoa se sinta em perigo”, acrescenta. Marini argumenta que os bichos somente param para construir ninhos em determinado lugar quando se sentem confortáveis ali. “Se, ainda assim, o morador não quiser a companhia do animal, ele deve procurar a Polícia Militar Ambiental”, indica. Somente a corporação pode capturar ou desfazer tocas de animais silvestres.

Ainda assim, José Delfino teme que a família de carcarás transmita doenças à família. Segundo Marini, os pássaros trazem insetos como carrapatos, piolhos e aranhas com os galhos ao construir o ninho. “Mas os animais mesmos limpam a sujeira. Se o ser humano não mexer na toca, há pouco risco de contaminação”, minimiza o especialista.

O carcará é uma ave de rapina que, apesar de nativa do Cerrado, se adaptou bem às áreas urbanas. No DF, o pássaro geralmente aparece procurando por comida em caçambas de entulho. Porém, trata-se de um exímio caçador. “Donos de animais de pequeno porte, inclusive filhotes de cachorro, devem tomar cuidado ao se aproximar”, alerta Ana Cristina de Castro, diretora de aves do Jardim Zoológico de Brasília.

Caso José Delfino decida aguardar todo o ciclo de reprodução dos novos inquilinos, ele deverá esperar um pouco mais. Enquanto pássaros pequenos ficam por volta de seis semanas, um carcará pode levar meses para mudar de casa. “Primeiro, eles constróem o ninho para depois colocar os ovos e encubá-los. Quando os filhotes nascem, o carcará ainda alimenta a cria por meses”, descreve o professor Marini, da UnB.

Por Lucas Vidigal

Fonte: Correio Braziliense

Os comentários abaixo não expressam a opinião do Olhar Animal e são de responsabilidade exclusiva dos respectivos autores.