O perigo da construção de um gatil no Complexo do Maracanã, no Rio

O perigo da construção de um gatil no Complexo do Maracanã, no Rio

Tenho acompanhado o caso noticiado pela grande imprensa envolvendo atos de crueldade contra gatos no Complexo do Maracanã. Trabalhei no local durante os Jogos Olímpicos Rio 2016. O complexo do Maracanã tem seis colônias de gatos: Célio de Barros, Museu do Índio e mais quatro portões. Uma população que à época montava cerca de 200 animais.

As colônias são sistematicamente negligenciadas pelos administradores e maltratadas por vândalos. Um grupo de protetoras faz um incrível trabalho de proteção com poucos recursos.

Acho muito positivo o envolvimento de artistas e ONGs em torno de uma causa nobre, urgente e necessária, que é a defesa da vida e da integridade dos gatos de colônias do Rio de Janeiro.

Entretanto tem um senão, um problema sério e grave que identifico em uma das sugestões da corajosa juíza Rosana Navega Chaves: a construção de um gatil dentro do Complexo do Maracanã, custeado pela Odebrecht, seria muito danoso e poderia ensejar uma tragédia.
O confinamento dos gatos de vida livre que formam as colônias não extinguiria as colônias; a remoção daria oportunidade para uma nova população de gatos, que sairia da Mangueira e do entorno, ocupar os espaços, uma vez que as condições para a existência das colônias estarão intactas.

Isso se chama Efeito Vácuo. Quem pratica CEVD sabe da existência desse fenômeno.
Foi por esse motivo (tentativa de confinamento) que fiz apontamentos técnicos negativos para Comitê Olímpico e para a World Animal Protection (WAP), que queriam lançar mão desse recurso inadequado durante os Jogos Olímpicos Rio 2016. Reprovei à época e me oponho agora à ideia de confinar os gatos do Complexo do Maracanã.

Sei com certeza das boas intenções da juíza, mas a questão metodológica precisa se sobrepor à vontade de ajudar. É preciso direção nessa ajuda e me sinto compelido a avisar a autoridade bem-intencionada.

Há outras questões que atingiriam de maneira negativa a população de gatos por conta da construção de um gatil para confinar os bichos do Complexo do Maracanã: muitos animais teriam suas capacidades imunológicas comprometidas por conta do temperamento forte (uma parte considerável é feral). Eles adoeceriam, não aceitariam viver reclusos. Também a garantia de padrões de qualidade e normatizações de funcionamento do gatil seria um ponto sensível. Não gosto e não concordo com a prática e o conceito dos gatis, mas se são inevitáveis ou já existem, precisam estar dentro de normas e procedimentos rígidos para não submeterem os animais à penúria excessiva. Dentre outras exigências, um local adequado para quarentena é obrigatório e um médico veterinário deve estar presente como responsável técnico.

E se a Odebrecht deixar o local após os término das obras? E se a administração do Complexo do Maracanã for trocada e a que assumir quiser o desmonte do gatil? O que farão com os gatos? E se uma turma de torcedores enfurecidos sair do controle em um dia de jogo e acessar o local onde está o gatil?

Além disso como bem lembrou minha querida esposa Mariana Lança, a disseminação de doenças entre gatos de várias colônias colocaria em risco a população de gatos. E por fim a excelente observação da ativista Andréa de Oliveira Macedo, atentando para o fato de que os abandonos no local poderiam aumentar, uma vez que parte da população mal-intencionada veria na construção do gatil por parte de uma construtora um incentivo para se livrar de animais, sobrecarregando ainda mais o complexo.

Por Eduardo Pedroso

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