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O que está acontecendo com as baleias em Alagoas?

Por Severino Carvalho

AL baleias Baleia-Maragogi

Em menos de dois meses, três baleias encalharam mortas no Litoral Norte de Alagoas, na costa marítima dos municípios de São Miguel dos Milagres, Maragogi e Japaratinga. Foram duas jubartes (Megaptera novaeangliae) e um cachalote (Physeter macrocephalus). A GazetawebMaragogi ouviu especialistas para saber por que num período tão curto ocorreram esses encalhes na mesma região, dentro da Área de Proteção Ambiental (APA) Costa dos Corais, maior unidade de conservação marinha do país.

Para a médica veterinária Adriana Colosio, pesquisadora do Programa de Resgate do Instituto Baleia Jubarte (IBJ), com sede no município de Caravelas, Sul da Bahia, é comum em agosto o encalhe de indivíduos desta espécie, quando aumenta a concentração desses animais na costa brasileira saídos do continente antártico. Eles chegam em busca de águas quentes para se reproduzir.

“Ao longo dos anos, o número de encalhes tem aumentado gradativamente, devido o crescimento populacional da baleia jubarte. Portanto, é considerado normal esse aumento de encalhes”, afirmou a veterinária. De acordo com dados do IBJ, acontece anualmente uma média de 36 encalhes de baleias da espécie jubarte na costa brasileira.

Em 2010, entretanto, o número de ocorrências com óbitos se elevou para 96. Naquele ano, em Alagoas, foram registrados dois encalhes: um na praia de Ponta de Mangue, em Maragogi, e outro na de Morros do Camaragibe, em Passo do Camaragibe, Litoral Norte do Estado.

“O aumento excessivo (de encalhes) que aconteceu em 2010 ainda não foi elucidado, mas temos suspeitas de estar relacionado com algum evento na área de alimentação (Antártida) desses animais”, informou Adriana Colosio.

A jubarte saiu da lista de espécies ameaçadas de extinção, a população aumentou, mas as ameaças também cresceram quase que na mesma proporção, conforme o uso da área marinha, relacionado às interações humanas e a presença dessas animais no mesmo local, observa a veterinária.

“A saída da jubarte da lista de animais ameaçados de extinção é devido há mais de 10 anos de pesquisa do IBJ e de várias outras instituições que contribuíram pra melhorar as condições de sobrevivência desta espécie. Mas, isso não quer dizer que a população de jubarte não está em perigo”, alertou.

“Estamos trabalhando com a construção de políticas públicas que ajudem a proteger a sobrevivência desses animais em águas internacionais”, acrescentou Adriana Colosio.

Analista ambiental acredita em coincidência

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O analista ambiental Iran Normande, da base avançada do Centro de Mamíferos Aquáticos (CMA), em Porto de Pedras, informou que não foi possível identificar a causa da morte das três baleias que encalharam recentemente no Litoral Norte de Alagoas.

A impossibilidade se deu em virtude do avançado estado de decomposição desses animais que provavelmente morreram em alto-mar e foram trazidos à costa pelos ventos e correntes marinhas.

“Já são esperados esses encalhes nesta época do ano, inclusive das baleias cachalotes. Acontecem de dois a três encalhes por ano desta espécie em Alagoas. Acredito que foi uma coincidência esses três encalhes em período tão curto no Litoral Norte de Alagoas.

Ele explica que são várias as causas de mortalidade, desde as naturais (doenças), velhice ou por fatores antrópicos: emalhe em redes de pesca, colisão com embarcações, variações climáticas, contaminação por metais pesados ou hidrocarbonetos.

Marcas deixadas nos cadáveres dos animais podem evidenciar a causa da morte, mas nos três indivíduos que encalharam recentemente no Litoral Norte de Alagoas isso não foi possível. As baleias estavam em avançado estado de decomposição.

No caso do filhote de jubarte, que encalhou na foz do Rio Salgado, em Japaratinga, na quinta-feira (21), ele pode ter se desgarrado da mãe e morrido sem alimentação, desprotegido. O animal era do sexo masculino e tinha cerca de cinco metros de comprimento.

A ameaça dos navios

Embora não se possa afirmar que as baleias que encalharam sem vida no Litoral Norte de Alagoas morreram atingidas por grandes embarcações, esse é um fator preocupante, não só nestas águas.

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Dados divulgados pelas Nações Unidas revelam que o tráfego de navios de cabotagem provocado pelo comércio marítimo mundial cresceu 80% nas últimas duas décadas. Segundo a Organização Marítima Internacional, 90% do comércio global é feito através do mar.

Embora não existam estudos sobre os impactos causados às baleias, todo esse movimento de grandes embarcações torna-se um perigo em potencial às espécies que habitam os mares, inclusive no Atlântico Sul.

O aumento do fluxo de navios entre os portos de Suape (PE) e de Maceió também é uma ameaça aos mamíferos. Estima-se que mais de 20 embarcações cruzem a Área de Proteção Ambiental (APA) Costa dos Corais por mês – segundo levantamento realizado pelo Projeto Recifes Costeiros. E esse vaivém só tende a aumentar com o passar dos anos, em decorrência da instalação da Refinaria de Abreu e Lima, em Ipojuca, Litoral Sul de Pernambuco.

As únicas informações acerca do tráfego de navios de cabotagem dentro da APA Costa dos Corais foram levantadas pelo projeto Recifes Costeiros, que monitorou a movimentação de embarcações de grande porte no período de 10 de setembro a 03 de dezembro de 2003.

Nesse período, 65 navios singraram a maior unidade de conservação marinha do Brasil, levando cargas perigosas como petróleo, óleo diesel, nafta, soda cáustica e gasolina, embora nenhum acidente tenha sido registrado desde a criação da APA, em 23 de outubro de 1997.

“A colisão com navios cargueiros pode ser uma das causas, mas para afirmar isso, seria necessário examinar os animais que encalharam. Entretanto, a colisão com embarcações é uma, dentre as várias causas de mortalidade que podem afetar esses animais”, ponderou a veterinária Adriana Colosio.

Serviço

Em caso de encalhe, contactar:

Instituto Baleia Jubarte: (+55 71) 3676-1463 / (+55 73) 3297-1340
www.baleiajubarte.org.br

Base avançada do CMA, Porto de Pedras: (82) 3298-1388

Fonte: Gazeta Web Maragogi

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