Orcas do noroeste do Pacífico estão passando fome e desaparecendo

Orcas do noroeste do Pacífico estão passando fome e desaparecendo

Nos últimos três anos, nenhum filhote nasceu nos grupos cada vez menos populosos de orcas, as chamadas baleias assassinas, animais de corpo branco e preto que continuam a se movimentar em águas próximas ao território dos Estados Unidos, lançando jatos de espuma.

Normalmente, quatro ou cinco filhotes nasceriam a cada ano nessa população bastante singular de baleias urbanas — formada por grupos identificados como J, K e L. Mas, recentemente, o número de orcas presentes na região caiu a apenas 75, o ponto mais baixo em 30 anos, e a culminação de um declínio que parece inexorável e misterioso.

Classificadas como espécie ameaçada desde 2005, as orcas estão morrendo de fome porque sua presa preferencial, o salmão rei, ou chinook, está em extinção. No mês passado, outro integrante do grupo Southern Resident de orcas, conhecido pelo apelido Crewser, que não é visto desde novembro, foi considerado como morto pelo Centro para a Pesquisa da Baleia.

Em março, o governador do estado americano de Washington, Jay Inslee, promulgou uma ordem executiva instruindo as agências do estado a fazer mais para proteger as baleias, e em maio ele criou a Força-Tarefa das Orcas Southern Residents, formada por autoridades estaduais, tribais, provinciais e federais, com a missão de desenvolver maneiras de reduzir as perdas dessas criaturas muito amadas na região.

“Acredito, que neste estado, tenhamos as orcas no coração”, disse o governador. Ele escreveu mais tarde, sobre as orcas e os salmões chinook, que “o impacto de permitir que essas duas espécies desapareçam será sentido durante gerações”.

As orcas também estão enfrentando uma nova ameaça. O recente acordo entre o governo canadense e o grupo Kinder Morgan para a expansão do oleoduto Trans Mountain Pipeline multiplicaria em 700% o tráfego de petroleiros no habitat das orcas, de acordo com algumas estimativas, e as exporia a ruídos excessivos e a possíveis vazamentos de petróleo. A construção deve começar em agosto, a despeito da oposição do governador Inslee e de muitos ambientalistas.

No final da década de 1990, a população dessas baleias gigantes era de quase cem animais. Seguindo os salmões, elas migram no Salish Sea, para a costa norte da Colúmbia Britânica, e muitas vezes emergem no estreito de Puget, visível do centro de Seattle, especialmente nos meses de primavera e verão. Os machos, que podem pesar até 10 toneladas, tipicamente vivem cerca de 30 anos, e as fêmeas, que pesam até sete toneladas, têm vidas mais longas, de até 50 ou 60 anos. Uma integrante do Grupo J, Granny (ou seja, vovó), viveu até os 105 anos.

Não só o número de filhotes se reduziu nos últimos anos como indicações de cruzamentos consanguíneos também apontam para uma população debilitada. Nos anos 70 e 80, parques aquáticos como o Sea World capturaram quase quatro dúzias de orcas na região, o que pode ter causado um estreitamento do pool de genes. Nas três últimas décadas, apenas dois machos responderam por metade dos filhotes produzidos nos grupos, e apenas um terço das fêmeas estão procriando, e apenas uma vez por década, em vez de a cada cinco anos. Os pesquisadores se preocupam com a possibilidade de que as fêmeas em idade reprodutiva estejam começando a escassear na população, e que não sejam substituídas.

Alguns conservacionistas estão preocupados com a possibilidade de que o declínio das orcas represente mais um sinal de colapso do ecossistema marítimo. Desde 2013, um fenômeno conhecido como “a Bolha” — uma massa gigantesca de água muito quente e pobre em nutrientes – está aquecendo o Pacífico, do México ao Alasca, em até três graus Celsius. Anos atrás, os peixes-estrela sucumbiram a uma doença degenerativa e desapareceram das águas da região.

Não se sabe muito até agora sobre o problema das orcas, mas biólogos e especialistas em conservação apontam para diversos fatores principais, todos conexos.

O principal fator para o problema é o desaparecimento do grande salmão-rei — um peixe com mais de um metro de comprimento. “As orcas se especializam em chinooks”, disse Brad Hanson, líder de uma equipe de pesquisa do Centro de Ciências Pesqueiras do Noroeste, parte da Administração Nacional da Atmosfera e Oceano (NOAA) americana. “Se elas pudessem, comeriam só salmões chinook”, ele disse. As orcas devoram 30 salmões por dia. Caçar um volume suficiente de presas menores requer muito mais energia.

O mundo subaquático da região também está se tornando mais ruidoso, especialmente a área ente as ilhas San Juan e a ilha de Vancouver, conhecida como estreito de Haro. No verão, essa é uma das áreas preferenciais das orcas para alimentação.

“O lugar é uma longa fenda rochosa que permite que o som ecoe. Se você adicionar a isso o ruído dos navios comerciais que se encaminham a Vancouver, o dos barcos recreativos e o barcos de observação de baleias, o lugar se torna altamente barulhento”, disse Hanson.

Os pesquisadores estão estudando o nível de ruído da área. Eles acreditam que a cacofonia do tráfego de navios torne mais difícil para as orcas encontrar presas e comunicar a localização de presas umas às outras. O nível de ruído também pode causar perda de audição.

Nos últimos anos, as autoridades aumentaram a distância que as embarcações precisam manter das baleias, e isso inclui os barcos e caiaques de observação de baleias. E existe uma zona de restrição voluntária de acesso, perto das ilhas San Juan.

“A simples presença de embarcações pode fazer com que as orcas passem menos tempo se alimentando”, disse Lynne Barre, da NOAA, que está coordenando o projeto de recuperação das orcas. “E a comunicação fica mais difícil. Elas precisam fazer chamados mais longos e mais altos, quando há barcos por perto”.

Outro fator é a poluição do estreito de Puget. As baleias que vivem ao largo de Seattle, Tacoma e outras cidades são efetivamente baleias urbanas, afetadas por resíduos municipais e industriais e pelos vazamentos ocasionais para o oceano de eflúvios das usinas de tratamento de esgotos. As orcas apresentam uma das maiores presenças de poluentes no organismo, entre os animais marinhos.

Uma das maiores preocupações é o efeito persistente de produtos químicos e pesticidas como o DDT, agora proibido, e dos PCBs e PBDEs, usados amplamente como componentes para retardar chamas, e presentes no mundo inteiro. Os poluentes se acumulam nos salmões, quando eles se alimentam, e, quando as orcas comem salmões, ingerem ainda mais PCBs.

“São muito lipofílicos, ou seja, permanecem na gordura, e as fêmeas transferem proporção imensa dos contaminantes aos seus filhotes”, disse Hanson. “Cerca de 85% dos contaminantes são transferidos aos filhotes no aleitamento”.

E embora boa parte da poluição provenha do passado industrial da região, a Boeing revelou algumas semanas atrás que nos últimos cinco anos havia realizado descargas de PCB altamente tóxico no rio Duwamish, que flui para o estreito de Puget, em volume milhares de vezes superior aos limites legais.

Essas toxinas suprimem os sistemas imunológicos das orcas, tornando-as mais suscetíveis a doenças. Também podem atrapalhar a reprodução. Isso talvez explique os testes que demonstram que muitas fêmeas não produziram filhotes, embora tivessem conseguido engravidar.

Mas o declínio na população de orcas machos não pode ser atribuído apenas à contaminação, segundo os especialistas. Uma população separada de orcas, em trânsito nas imediações, come mamíferos que comem peixes, e assim consome contaminantes em nível ainda mais elevado – muito superior ao dos grupos residentes. E mesmo assim essa população transitória está prosperando, o que intriga os cientistas. A população mundial de orcas também continua robusta.

Uma possibilidade é que a escassez de salmões, somada à interferência do ruído de motores, igualmente capaz de afetar o sistema imunológico, tenha privado as orcas de alimentos em volume suficiente. Os corpos delas podem recorrer às suas reservas de gordura, e estas contêm produtos químicos que suprimem seu sistema imunológico e reduzem a fertilidade.

Mas os especialistas não estão seguros sobre o motivo da alta na mortalidade. Em muitos casos, quando orcas morrem suas carcaças afundam ou são lançadas a praias remotas, onde localizá-las e testá-las é complicado.

Nos últimos anos, os pesquisadores vêm concentrando suas atenções nas “antroponoses”, doenças que os seres humanos podem estar transmitindo à fauna. Cientistas navegaram junto aos grupos de orcas, carregando tubos de ensaio presos a uma vara de oito metros de comprimento. O objetivo era recolher amostras da espuma exalada pelos animais e determinar o que eles portam nos pulmões. Os pesquisadores identificaram diversos patógenos, entre os quais bactérias resistentes a antibióticos e estafilococos, que podem causar pneumonia.

“Não significa que estejam doentes; não temos provas disso”, disse Linda Rhodes, bióloga pesquisadora cuja especialidade são micróbios e toxinas marinhos, e participante do estudo. “O que sabemos é que elas sofrem exposição. Determinar se adoecerão ou não depende do volume de patógenos em cada ambiente e da capacidade do animal para se defender”.

Há profunda preocupação com a possibilidade de que uma doença humana ou animal fatal tenha cruzado ou venha a cruzar a barreira das espécies, e atinja as orcas que têm seu sistema imunológico comprometido. “Tenho pesadelos sobre isso”, disse o veterinário Joseph Gaydos, da SeaDoc Society, de Eastsound, Washigton, uma organização sediada nas ilhas San Juan que estuda as orcas residentes na região.

“A doença existe no ambiente, e pode irromper. Se surgir um vírus de alta virulência, aqui, ele poderia destruir boa parte da população e deter de vez os esforços de recuperação”, ele acrescentou.

Há inúmeras ameaças de doenças. Uma jovem orca morreu de uma infecção por fungo, no ano passado., A toxoplasmose é espalhada por parasitas presentes nas fezes dos gatos. É uma das grandes ameaças à foca-monge do Havaí, e já matou oito dos 1,4 mil, animais restantes da espécie, de 2001 para cá. Não se sabe se ela afeta as orcas.

A cinomose, uma doença canina, também é preocupação. É um morbilivírus, ou seja, um vírus de ARN e não de ADN. Cerca de 1,5 mil golfinhos foram mortos em um só surto da doença, na costa leste dos Estados Unidos, alguns anos atrás.

“Os vírus de ARN podem passar por rápida mutação e podem cruzar as linhas de espécie”, disse Gaydos.

Medidas estão sendo planejadas para ajudar as orcas a perseverar. Mais salmões chinooks estão sendo criados em cativeiro, como comida para orcas, mas a solução está longe de ser garantida.

“É um problema que afeta todo o ecossistema”, disse Hanson. “As coisas estão fora de esquadro, e temos de reconduzi-las ao ponto em que as orcas sejam sustentáveis. E o tempo está correndo”.

Perder esses carismáticos e inteligentes animais, com sua “pintura” preta e branca característica e sorriso permanente, seria um baque para a área.

“A sensação de perda seria imensa”, disse Rhodes. “Eles são parte importante de nossa identidade, aqui. O sentimento de fracasso seria grande”.

Por Jim Robbins

Fonte: The New York Times via Folha de São Paulo

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