Os zoos como os conhecemos estão à beira da extinção?

Os zoos como os conhecemos estão à beira da extinção?

É o início de uma transição e é isso que deve acontecer. Os outros zoos também devem estar preparados para isso.” É Paulo Lucas, da direção da associação ambientalista Zero, que diz ao DN, sem meias-medidas, que Portugal devia seguir as pisadas de Barcelona que aprovou, no início deste mês, uma portaria que proíbe a reprodução dos animais do parque zoológico da cidade. A exceção vai para espécies que estão em vias de extinção e que podem ser reintroduzidas na natureza.

Uma mudança radical no papel que o zoo da capital catalã desempenha desde que existe, há 127 anos. Um passo histórico que muda o paradigma dos jardins zoológicos como sempre os conhecemos.

A norma aprovada dá prioridade ao habitat natural das espécies, nomeadamente com transferências para santuários ou refúgios. Os outros animais que não podem ser reintroduzidos na natureza irão permanecer no zoo sem que haja reprodução das espécies. Zebras, ursos, elefantes ou cangurus vão desaparecer quando morrerem os atuais exemplares no parque.

Mudança de paradigma

A Zero aplaude o novo modelo. Paulo Lucas tem a certeza de que vai ser replicado por mais zoos. “Não faz grande sentido manter as espécies que não estão em vias de extinção em cativeiro unicamente para que as pessoas as vejam ao vivo.”

A realidade já não é a que se vivia no século XIX, quando os zoos de Barcelona e de Lisboa foram criados, argumenta. Os zoos eram montras de animais exóticos para a população. Alguns destes espaços evoluíram, com destaque para as políticas de preservação e conservação da natureza, que é o que acontece com o zoo de Lisboa.

Movimento da sociedade civil

E é nesta área que deve ser reforçado o investimento dos zoos em todo o mundo, “na reprodução de espécies que estão efetivamente ameaçadas”, diz a Zero. “É para isso que os zoos devem ser vocacionados no futuro. As espécies estão a desaparecer da vida selvagem e, muitas vezes, só com a reprodução em cativeiro é que é possível salvá-las”, afirma Paulo Lucas. Estamos numa corrida contra o tempo, alerta.

Para o ambientalista é mais importante que as pessoas se desloquem aos zoos, vejam animais que estão ameaçados e tenham uma maior sensibilidade para o problema em vez de verem “espécies aprisionadas sem necessidade”. Só para mostrar o que é um leão, um urso ou simplesmente que eles existem. Já não faz sentido nos dias de hoje, defende.

Seguindo essa linha, foi aprovado o novo modelo para o zoo de Barcelona. Para animais que estão em vias de extinção e não podem ser reintroduzidos na natureza vão ser criados projetos especiais para cada um deles e analisada a necessidade de reprodução no recinto, tendo sempre em conta “benefícios quantificáveis para a conservação e a viabilidade da espécie”.

A portaria aprovada pela autarquia catalã resulta de uma iniciativa popular, o movimento Zoo XXI promovido pela associação Libera. O futuro das restantes espécies que ficam no recinto depende dos projetos criados pela direção do zoo. “Três anos depois da redação desses projetos, os animais que não podem viver na natureza – como os macacos – deixaremos de os reproduzir, mesmo que se encontrem em vias de extinção. Não podemos permitir que haja indivíduos que estejam destinados a viver em gaiolas”, defende Alexandra García, da Libera, citada pelo El País.

Uma posição polémica que o ambientalista Paulo Lucas classifica como sendo uma tentativa de “quase excesso”.

O exemplo do zoo de Lisboa

Mais novo do que o da cidade catalã, o zoo de Lisboa, com 135 anos, prefere não fazer comparações por considerar que se trata de decisões de “cariz político” na Catalunha. Até porque o zoo da capital, ao contrário do de Barcelona, que é municipal, é privado.

Pertence à Associação Europeia de Zoológicos e Aquários (EAZA, na sigla em inglês), que promove a cooperação e a preservação das espécies. Faz parte da rede da Associação Mundial de Zoológicos e Aquários (WAZA).

Com cerca de dois mil animais, de 300 espécies, o parque lisboeta faz parte do leque de zoológicos integrados nestas duas organizações que “mantêm os mais altos padrões de bem-estar dos animais, em prol da conservação das espécies, dos seus habitats, da investigação, da reprodução e da educação ambiental, sendo fulcral o papel que desempenham na luta contra a extinção”, refere ao DN o zoo de Lisboa, que participa em vários projetos do Programa Europeu de Reprodução de Espécies Ameaçadas. Tanto no habitat natural como em cativeiro.

Um caso de sucesso é o dos leopardos-da-pérsia. Numa primeira fase, o zoo de Lisboa enviou um casal para um centro de reserva natural no Cáucaso, Rússia. Nasceram depois duas crias que foram reintroduzidas no seu habitat natural. Uma espécie que não existia na Rússia há 50 anos.

Por Susete Henriques

Fonte: Diário de Notícias / mantida a grafia lusitana original

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