Ética e dogma

Nas discussões acadêmicas e extra-acadêmicas referentes à bioética, vemos uma forte participação da Igreja nas tomadas de decisão, afinal, 74% dos brasileiros são católicos nominais, embora em grande parte não praticantes ou praticantes de outras religiões.

Mas os números não são importantes, o importante é que o Brasil é considerado um país católico e, embora haja separação entre o Estado e a Igreja, a Igreja ainda exerce forte influência.

Seja uma discussão sobre eutanásia, aborto, uso de células-tronco… lá estão representantes da Igreja emitindo opiniões dogmáticas, agora sob o nome de “ética”. Ora, a ética não tem nenhuma relação com dogmas e esse conceito deve ser rejeitado.

A ética é racional, fundamentada e frequentemente contrária aos dogmas da Igreja.

Vejam-se os casos de pedofilia que envolvem a Igreja. Por uma questão irracional e provavelmente dogmática, padres pedófilos não são submetidos a nenhuma pena seja dentro, seja fora da Igreja. Sua punição com frequência envolve a transferência para uma nova Paróquia, onde ninguém tem ciência de seus crimes do passado e onde o pedófilo tem liberdade para continuar praticando seu vício.

Esse último episódio que envolve o arcebispo de Olinda e Recife e a excomunhão das pessoas responsáveis pelo aborto em uma menina de 9 anos estuprada pelo padrasto fornece outra prova disso. Sob o nome de “ética” a Igreja, o próprio Vaticano, opôs-se ao aborto, alegando preservação da vida humana. Oras, exatamente para a preservação da vida humana, da menina violentada, que esse aborto foi recomendado e autorizado.

Se a excomunhão não ocorreu, se a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil resolveu voltar atrás desse processo, revogando um édito do arcebispo e do próprio Vaticano, isso não foi feito por piedade, mas porque o assunto chamou a atenção pública, e a Igreja já está com a imagem abalada. Ironicamente, a CNBB emitiu nota condenando o estupro, mas jamais cogitou excomungar o padastro estuprador. Aparentemente o estupro fere a ética mas não os dogmas da fé.

Para o dogma, o estupro não é o pecado, o pecado está em salvar a vida da mãe e livrá-la de uma gravidez indesejada; o pecado não é proliferação de doenças sexualmente transmissíveis, mas a distribuição de preservativos que “estimularão” as pessoas a praticarem sexo; o problema não está em nascer com malformação de algum órgão vital, o pecado é utilizar células congeladas e insensíveis para tentar alcançar a cura; não está em vegetar em cima de uma cama por décadas sem qualquer processo mental e sem nenhuma dignidade, o pecado está em desligar os aparelhos que mantêm o paciente preso a esse mundo.

A Igreja se coloca sempre em favor da preservação da vida e evoca sempre o mandamento não matarás, mas é óbvio que isso é apenas um argumento de retórica. Essa mesma preocupação incondicional com a preservação da vida e com o mandamento do Senhor não encontra eco quando se trata de outras vidas que não a humana e com frequência demonstra não se aplicar, tampouco, à vida humana.

O problema se encontra onde dogma e fé se confundem com ética e racionalismo.

As opiniões de qualquer grupo religioso são pertinentes apenas às pessoas que partilham aquele mesmo sistema de crenças. Para todas as demais pessoas, essas opiniões podem ser escutadas, à título de conselho ou por mera curiosidade, mas elas não devem pesar nas decisões finais aplicadas a toda a coletividade.

Fonte: ANDA – Agência de Notícias de Direitos Animais


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Por que ainda existe a experimentação animal?

Em minhas palestras frequentemente sou questionado sobre o porquê de, havendo tantas evidências de que a experimentação animal é inútil na promoção do bem-estar e da saúde da população e, pelo contrário, se é fato de ela frequentemente contribuir para o erro médico e o surgimento de novas doenças, ainda assim insiste-se na experimentação animal.

A resposta é bastante simples, correndo até o risco de ser simplista. Em resumo grande parte da explicação passa pelos interesses de instituições, governos e indivíduos que lucram com a experimentação animal. Não se trata de um pequeno grupo de indivíduos que defende uma pequena fatia lucrativa do mercado. Trata-se de um lobby muito bem estruturado que defende o interesse das indústrias mais lucrativas do mundo. E a argumentação para essa defesa com frequência passa longe da técnica.

Geralmente essas instituições, governos e indivíduos apresentam-se como preocupados com o bem-estar da população, com a saúde pública, etc. Invariavelmente colocam a experimentação animal como única forma possível de garantir esse estado de saúde e frequentemente pintam a imagem das instituições e indivíduos que se opõem à experimentação animal como inimigos da humanidade, insanos, obscurantistas e termos de mais baixo calão. Ou seja, o apelo utilizado é mais tendente ao emocional do que ao lógico, embora esse emocionalismo seja revestido de um viés cientifico (ou pseudocientífico).

Por melhor que seja a argumentação contrária à experimentação animal, ela não vence um título de doutorado em uma boa universidade estrangeira, um bom cargo em uma instituição de pesquisa de renome, dezenas de publicações em periódicos reconhecidos e, enfim, um currículo de muitas páginas, pois, afinal, é isso que impressiona a maioria das pessoas.

No entanto, isso não bastando, o grande lobby da experimentação animal conta com mais um importante aliado: se grande parte da argumentação contrária à experimentação animal refere-se aos direitos irrevogáveis e inalienáveis que os animais têm à vida, o lobby conta também com uma legião de autointitulados e autopromovidos defensores de animais que reconhecem “a importância da experimentação animal”, apesar de reconhecerem que “animais têm direitos” e que, dessa forma, buscam conciliar essas duas visões. Ou seja, a de que devemos continuar utilizando animais embora reconhecendo seus direitos.

Na prática isso significa diminuir ao máximo a quantidade de animais “necessários” para cada experimento e o refinamento das técnicas utilizadas, de modo a evitar o sofrimento animal, dentro do possível. Esse aparente posicionamento equilibrado, em verdade, não passa de um embuste. Porque como é possível que se reconheça que um indivíduo (seja ele um ser humano ou um animal) possa ter direitos e, ao mesmo tempo, defender que esses direitos podem ser revogados desde que para benefício de outros indivíduos.

É claro que qualquer pessoa que defenda essa ideia não reconhece, simplesmente, que animais têm direitos. Esses indivíduos podem até se envolver em passeatas antipele, em atividades antirrodeio, em campanhas de castração de cães e gatos, podem ser escolhidos por programas de TV como representantes da causa animal por sua empatia, sua postura perante as câmeras, por sua capacidade de oratória, ou por outro motivo que seja, mas a verdade é que essas pessoas não defendem a causa que dizem defender.

Esses “representantes da proteção animal” atacam as pessoas que realmente defendem os interesses dos animais acusando-as de insensatas e pouco realistas. Dizem lutar pela mesma causa, mas na prática lutam pela causa oposta. É curioso que, em alguns casos, esses defensores de animais componham bancas que literalmente autorizam cada experimento realizado em animais e, inclusive, sejam eles mesmos vivissectores.

Alguém poderia se questionar de onde provém o dinheiro que patrocina algumas das entidades “protetoras de animais” (e não raro enriquece sua alta cúpula). Ora, esse dinheiro vem de empresas como a Unilever, o McDonalds, a Glaxo, a Ciba-Geisy, a Purina, entre outras.

Contribuir com uma entidade de “proteção animal”, sem antes questionar a fundo sua ideologia e o seu posicionamento perante diferentes assuntos, pode significar promover o contrário do que se pretende. Mesmo uma entidade que abertamente proclame ser totalmente contrária à experimentação animal, promova métodos alternativos e produtos não testados em animais pode, por outro lado, trabalhar para a continuidade e a valorização da experimentação animal.

O público normalmente aceita de forma passiva o que declaram os especialistas: cientistas, em diversas áreas de especialização; “protetores de animais”, que aparentemente dedicam suas vidas a trabalhar pelos animais. Quando esses dois grupos defendem exatamente a mesma ideia, ou seja, que a experimentação animal é algo positivo e de alguma forma aceitável, aquele que tem posicionamento contrário aparece como radical ou insano.

Para o cidadão comum, preocupado com outras questões e sem disposição para se aprofundar no tema, o “caminho do meio”, sem “radicalismos” e “extremismos”, parece ser a melhor solução. Ao menos uma solução confortável, já que na prática não muda em nada a situação corrente.

Porém, o próprio senso de justiça impõe que nenhum julgamento seja feito sem considerar bem todos os fatos. E isso exige que nos aprofundemos no tema. Enquanto as pessoas insistirem em dar um tratamento superficial ao mesmo, a experimentação animal continuará existindo.

Fonte: ANDA – Agência de Notícias de Direitos Animais


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Uso de animais em práticas cirúrgicas – parte final

Simuladores que permitem que o estudante aprenda e pratique suas habilidades em microcirurgia básica, cirurgia microvascular, microneurocirurgia, cirurgia em órgãos e complexos de órgãos, suturas, pontos cirúrgicos, ou que permitem que cirurgiões já experientes possam praticar e assim manter suas habilidades. Essa ideia parece a visão de um mundo futurista distante, mas ela já é realidade atualmente.

Já estão disponíveis no mercado simuladores que imitam perfeitamente a pele, os ossos, todos os órgãos e os fluidos do corpo, sendo que alguns mimetizam até os odores naturais do organismo vivo. Esses simuladores podem ser construídos em diferentes materiais, mas todos eles tendem a imitar a textura e resistência do corpo ou de partes do corpo, bem como processos fisiológicos como a circulação sanguínea, o pulso, a respiração ou situações de órgãos cheios de fluidos.

O uso de manequins (ou bonecos) permite, em muitos casos, além do treinamento cirúrgico, que o estudante aprenda farmacologia, fisiologia, anestesia e prática clínica. Esses bonecos possuem todas as características de um paciente real (pulso palpável, coração, respiração audíveis, circulação…). Além disso, manequins podem ser programados pelo professor para apresentarem reações adversas a medicamentos ou situações fisiológicas especiais, tais como bloqueios respiratórios, hemorragias, arritmias, edemas pulmonares, cetoacidoses diabéticas etc.

Cirurgias virtuais e telecirurgias já podem ser realizadas em ambiente virtual, simuladores em 3D ou em realidade aumentada. Estes são ótimos recursos para planejamento pré-cirúrgico, simulação de cirurgia laparoscópica, microcirurgia, neurocirurgia, treinamento de suturas, cateterismo, treinamento em trauma e cirurgia craniofacial. A garantia de aquisição de habilidade motoras vem do sistema háptico acoplado ao computador e que permite ao estudante experimentar a sensação de estar manipulando tecidos e órgãos vivos.

Não há como imaginar que estudantes de medicina veterinária de uma universidade federal (a UFU, de Uberlândia) tenham, por livre e espontânea vontade, se indignado em necessitar utilizar recursos tais como estes, em vez de animais oriundos do CCZ. É certo que muitos fatores os levaram a se indignar. Primeiro, é certo que os recursos que foram disponibilizados para eles são ultrapassados e incompletos: eles possivelmente foram expostos a um único recurso; em segundo lugar, é certo que o professor, descontente com a substituição dos animais por outros recursos, tenha agido de má vontade na aplicação de sua utilização. É possível que ele tenha disponibilizado o recurso de qualquer jeito e dito aos estudantes que, por força de lei, eles teriam que aprender com aquilo mesmo, já que não podiam utilizar animais.

Sem dúvida os professores exercem grande influência sobre os estudantes, não apenas porque transmitem conhecimento, mas também porque transmitem opiniões, valores e atitudes. Podemos, dessa forma, entender que mesmo um estudante que seja sensível ao sofrimento animal pode deixar de sê-lo se seu professor transmite, expressamente ou subliminarmente, mensagens em contrário. Essa sugestão é verdadeira não apenas no caso de crianças, mas também de adultos.

Alguns professores de ciências admitem mesmo que um de seus objetivos é dessensibilizar os estudantes, por esse motivo não sentem constrangimento em expor seus estudantes às praticas que utilizam animais. Dessa forma, o sofrimento infligido ao animal se justifica pelo potencial conhecimento que se pode adquirir da prática, e qualquer uso que se faça do animal é considerado simplesmente como sendo “ciência”

Essa dessensibilização, por algum motivo, foi no passado associada à formação de bons cientistas, de cidadãos que não se desviam da objetividade e qualquer sentimento em contrário foi associado com o sentimentalismo, a fraqueza e falta de cientificidade. Na prática, porém, isso não se mostra verdadeiro. Estudantes dessensibilizados se tornam profissionais insensíveis, e certamente não é isso que queremos quando levamos nossos animais ao veterinário ou quando nós mesmos recorremos ao médico.

Além disso, é compreensível que estudantes que alguma vez utilizaram animais para realizar treinamentos tenham mais afinidade por esse método. Diversas pesquisas mostram que estudantes tendem a preferir o aprendizado pelo método que lhes foi colocado. Um estudo realizado por Lock and Millet, em 1991, mostrou que a atitude de estudantes frente à dissecção e à pesquisa com animais tornava-se mais favorável a ela quanto mais expostos os estudantes eram a essas práticas. Em outro estudo, Strauss e Kinzey (1994) verificaram que colegiais melhoravam sua opinião em relação à dissecção de sapos quando dissecavam sapos, enquanto que melhoravam sua opinião sobre alternativas quando estudavam por meio desse recurso.

Estudantes de veterinária que praticam em cirurgias nas quais no final o cão se recupera tendem a apoiar esse tipo de prática, enquanto os que praticam cirurgias nas quais no final o cão é morto tendem a apoiar essa prática, conforme ficou evidente em um estudo realizado por Bauer e colaboradores em 1992. Um estudo de Arluke e Hafferty, de 1994, mostra que estudantes de medicina que no começo mostravam desconforto em realizar procedimentos terminais em cães vivos, acabavam se tornando cada vez menos sensíveis e culpados conforme realizavam tais procedimentos.

Há, porém, uma diferença entre o método preferido pelos estudantes e o melhor método de ensino. Mesmo que estudantes digam preferir utilizar animais para treinar técnicas cirúrgicas, não quer dizer que eles aprendam melhor utilizando esses métodos.

Fonte: ANDA – Agência de Notícias de Direitos Animais


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Uso de animais em práticas cirúrgicas – parte 2

A ideia de que o uso de animais em treinamento de novos cirurgiões é importante para que estes adquiram autoconfiança é discutida no presente artigo.

Em 1994, M. Pavletic e colaboradores, trabalhando na Tufts University, realizaram um estudo comparativo sobre a aquisição de habilidade cirúrgica por estudantes de veterinária que participaram de um curso alternativo de procedimentos cirúrgicos e médicos de pequenos animais, em relação aos seus colegas que não participaram do mesmo curso, mas que treinaram em animais.

Os resultados de seu estudo mostram que não há evidências de que existam diferenças significativas no que diz respeito à habilidade de conduzir cirurgias comuns, procedimentos médicos e diagnósticos, capacidade de realizar cirurgias ortopédicas e em tecidos finos, confiança e capacidade de realizar procedimentos sem qualquer assistência.

Da conclusão desse estudo: “o uso de cadáveres durante o terceiro ano do programa de laboratório, quando suplementado por treinamentos clínicos adicionais durante o quarto ano, pode prover treinamento comparável ao provido pelo programa de laboratório convencional.”

Em outro estudo, realizado em 1999, R. Fingland analisou a experiência de estudantes de veterinária que treinavam suas habilidades cirúrgicas por meio da castração de animais de abrigos e pertencentes à população carente, em vez de animais experimentais. Com relação a este assunto, o autor escreveu : “Estudantes no ‘novo’ currículo obtiveram melhor desempenho durante a realização de ovário-histerectomia e em alguns aspectos da secção lateral do canal auditivo. Mais importante, o ‘novo’ currículo não compromete a educação de estudantes veterinários, mas oferece formas melhores de se ensinar a habilidade cirúrgica.” O estudo conclui que estudantes que utilizam essa técnica são mais bem preparados para realizar cirurgias.

Treinamentos utilizando pacientes reais ou que têm um propósito superior como o da castração, não apenas transmitem o conteúdo técnico, como também trazem consigo uma mensagem moral. Quando estudantes lidam com pacientes reais, cuja intervenção tem propósito curativo; quando eles têm a oportunidade de tomar conta dos animais, antes e após a cirurgia e de fato se preocupam com sua recuperação e saúde geral, ao invés de matá-los ao fim do procedimento, então estão-se formando verdadeiros veterinários.

Estudantes de medicina veterinária não deveriam aprender das instituições de ensino que animais são meros produtos descartáveis. Que tipo de veterinários espera-se obter por meio dessa formação? Ainda que o uso de animais experimentais fornecesse a melhor formação técnica possível, ainda assim o aprendizado deixaria a desejar. Pois a razão para a escolha da carreira veterinária deveria ser, acima de tudo, o animal. Estudantes veterinários que veem animais apenas como números, como objetos ou como mecanismos estão na carreira errada; são, em verdade, médicos frustrados.

O melhor aprendizado ocorre quando o estudante é responsável não apenas por sua habilidade, mas pela saúde e bem-estar do animal para o qual o tratamento está sendo aplicado.

Já foi documentado que o estresse psicológico, como o experimentado por muitos estudantes de veterinária quando lidam com animais de laboratório, pode resultar em diminuição na capacidade de observação e raciocínio; o uso de animais não pacientes na educação veterinária pode resultar, portanto, em menor aprendizagem. Finalmente, o uso de animais não pacientes na medicina veterinária pode prejudicar os sentimentos de compaixão e empatia do futuro profissional. Existem registros que mostram uma variedade de situações em que a violência exposta e outros estímulos aversivos levam a uma dessensibilização; animais de laboratório podem dessensibilizar estudantes ao sofrimento animal.

Muitos outros estudos mostram resultados semelhantes. D. Holmberg e colaboradores observaram em 1993 que o sistema DASIE – Dog Abdominal Surrogate for Instructional Exercises – substitui com vantagens o uso de animais, respondendo aos instrumentos cirúrgicos de forma semelhante aos tecidos de cães vivos.

O sistema é bastante simples, construído em espumas e tecidos dispostos em camadas. Para um leigo que olhe o sistema sequer lembra um cão, no entanto, pelo ponto de vista técnico ele substitui completamente a necessidade de uso do animal em várias técnicas, proporcionando aos estudantes uma facilidade para aquisição das habilidades psicomotoras necessárias para conduzir uma cirurgia.

Esse sistema DASIE pode ser utilizado para o ensino de técnicas assépticas, cirurgia estética, instrumentação, padrões de suturas, cirurgia abdominal geral e principalmente procedimentos cirúrgicos abdominais, urogenitais e gastrointestinais. Os tecidos das camadas mais internas e mais externas, bem como a camada laminada do meio, são reforçados para resistir ao corte, para reagir aos instrumentos cirúrgicos e manter as suturas semelhantes ao que ocorreria em tecidos cutâneos e faciais. Os vasos sanguíneos, simulados, permitem ao estudante a prática de pinçar e ligar pontos específicos do tecido. Além disso, a aceitação de DASIE por estudantes de universidades americanas e europeias é muito boa.

A despeito do que se diz em relação à necessidade do uso de animais para aquisição de destreza profissional e autoconfiança, De Young & Richardson declaram: “… é nossa opinião que a autoconfiança dos estudantes é aumentada enormemente após trabalhar com modelos plásticos. Suas habilidades motoras e a compreensão de princípios biomecânicos de fixação de fraturas e aplicação de implantes são superiores àquelas resultantes do uso de animais de laboratório vivos…”

Há outras vantagens do uso de modelos plásticos. Em aulas de laboratórios que utilizam animais vivos não há tempo suficiente para que o estudante manipule o animal e, dessa forma, adquira as habilidades motoras necessárias. No caso do uso de modelos plásticos, essa manipulação pode acontecer a qualquer momento, sem a necessidade de um professor, técnico de laboratório ou mesmo de um laboratório. Esse mesmo fator representa uma vantagem quando do uso de softwares e outros recursos que permitem a calma para o estudante analisar todo o procedimento, revisar, se ativer aos detalhes, realizar o procedimento seguidamente, por inteiro ou passo a passo, em velocidade normal ou mais lentamente.

Programas gráficos, computadorizados, tridimensionais podem oferecer ao estudante uma variedade de treinamentos em diagnósticos e procedimentos cirúrgicos. Avaliações de pós-graduandos da Tufts University School of Veterinary Medicine demonstraram que estudantes treinados por intermédio dessas alternativas não diferiram significativamente em relação às habilidades, atitudes e confiança, de estudantes que foram treinados por meio de técnicas utilizando animais.

Se recursos alternativos servem ao propósito da formação de novos cirurgiões, por que se continuam utilizando animais? A resposta está no continuísmo e na falta de questionamentos. Cursos de caráter tecnicista ensinam a realização de determinada tarefa sem questionar o porquê desta e, por esse motivo, aulas práticas tornam-se excessivamente teóricas, já que as manipulações experimentais se resumem a demonstrações e ilustrações do que se encontra nos livros. Trata-se de um ritual de confirmação do que já se conhece, e não uma vivência do método científico. O aluno recebe verdades prontas de seu professor, sem qualquer questionamento. Portanto, embora se possa dizer que se está fazendo ciência, o que na verdade se está fazendo é propaganda dela.

Fonte: ANDA – Agência de Notícias de Direitos Animais


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Uso de animais em práticas cirúrgicas – parte 1

No mês de maio de 2009, cerca de 300 estudantes de Medicina Veterinária da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) invadiram a Reitoria da Universidade para protestar contra a proibição do uso de animais vivos oriundos do CCZ municipal em práticas de cirurgia. Segundo as alegações desses estudantes, seria impossível aprender a operar em cadáveres ou boneco, porque em animais vivos podem acontecer imprevistos, que preparam os estudantes para casos de operações reais.

Segundo ainda sua argumentação, a faculdade é o lugar onde eles podem errar e aprender. Matar animais agora para salvar animais no futuro. Esses estudantes se embasaram na Lei nº 11.794/08, a mal afamada Lei que regulamenta o uso de animais, para legitimar as cirurgias.

Obviamente que uma discussão jurídica, apoiada em uma lei criada para favorecer a experimentação animal, favorecerá o uso de animais, seja lá de onde provenham. O propósito do presente artigo não é discutir a questão legal, mas a técnica e a ética.

Em primeiro lugar as alegações:

I. É impossível aprender a operar em cadáveres ou boneco, porque em animais vivos podem acontecer imprevistos, que preparam os estudantes para casos de operações reais.
II. A faculdade é o lugar onde eles podem errar e aprender. Matamos animais no presente para salvarmos animais no futuro.

Como resposta à primeira alegação, o uso de recursos substitutivos tais como cadáveres e manequins de fato não possibilitam, por si só, a preparação do estudante para operar pacientes reais, mas eles nem têm a pretensão de fazê-lo. Estudantes que realizam seus treinamentos em animais experimentais também não saem preparados para realizar procedimentos em pacientes reais. Esse vácuo, essa desculpa, simplesmente não existem e nem fazem sentido. O treinamento cirúrgico em animais também não faz, por si só, dos estudantes cirurgiões.

Portanto, há que se entender que a defesa do uso de recursos substitutivos ao uso de animais não pretende trazer a noção de que um único recurso é capaz de conferir todo o treinamento necessário para estudantes de medicina veterinária ou de qualquer que seja a formação. A habilidade é adquirida, construída, mediante uma combinação de técnicas que inclui um somatório de recursos.

São alguns desses recursos, de fato, os cadáveres de animais frescos, mortos por causas naturais, ou preservados por técnicas que permitam a conservação dos tecidos como se estivessem ainda vivos; o treinamento fazendo uso de materiais biológicos retirados de pacientes reais, humanos ou animais, tais como veias com varizes (para treinamento de cirurgias vasculares), placentas ou tecidos oriundos de biópsias (podem ser utilizadas para treinamento em microcirurgia) etc; os simuladores realísticos, os manequins, as técnicas de cirurgias virtuais e telecirurgias e muitos outros recursos (para uma detalhamento maior sobre cada uma dessas técnicas ver “Alternativas ao Uso de Animais Vivos na Educação”.

Apenas após a utilização desses recursos, o estudante passa a trabalhar com animais vivos, não cobaias de laboratório ou animais oriundos de CCZ, mas pacientes reais. E esse trabalho deve ser feito sempre acompanhando o professor ou um cirurgião experiente. Na Europa e nos EUA, com raríssimas exceções, estudantes universitários aprendem técnicas cirúrgicas e de anestesia acompanhando, em pequenos grupos, cirurgiões experientes apenas como ouvintes. Conforme seu aprendizado progride, estes passam a desempenhar papéis secundários, como instrumentadores ou cirurgiões auxiliares, até que passam eles mesmos a desempenhar cirurgias.

Há muita diferença entre trabalhar com pacientes reais, que realmente necessitam sofrer um procedimento, e animais experimentais que de forma alguma necessitam sofrer o procedimento, a começar pelo fato de que as atividades realizadas em animais experimentais se limitam à técnica, mas não visam ao bem do animal, enquanto as técnicas realizadas em pacientes reais têm objetivos de cura e o estudante tem a oportunidade inclusive de acompanhar a recuperação do paciente.

De toda forma, quanto ao questionamento sobre a utilidade desses recursos substitutivos, diversos estudos têm comprovado que estudantes que utilizam esses recursos aprendem igualmente, ou em alguns casos melhor, do que estudantes que utilizam animais (para conhecer alguns desses estudos ver “Alternativas ao Uso de Animais Vivos na Educação”.

Como resposta à segunda alegação, a de que é importante que os estudantes tenham a possibilidade de errar em animais experimentais, com o objetivo de mais tarde salvar a vida de animais, essa relação simplesmente não existe. Aspirantes a se tornarem médicos não matam seres humanos em nome da formação acadêmica. Além disso, esse conceito de matar poucos para salvar muitos simplesmente não cabe. A diferença nitidamente se encontra no fato de que animais experimentais não possuem donos e, portanto, ninguém paga por sua manutenção; por outro lado, animais que sejam propriedade têm quem pague por sua saúde.

O uso de animais obtidos de CCZ ou oriundos de biotérios não tem potencial de transmitir ensinamentos significativos para os estudantes. Quanto muito, isso serve para aumentar sua autoconfiança, mas mesmo isso é questionável, visto que a morte do animal, por fim, pode ter o efeito inverso.

Com relação ao ganho de autoconfiança entre estudantes que aprendem utilizando métodos substitutivos a animais, ler “Uso de animais em práticas cirúrgicas II”.

Fonte: ANDA – Agência de Notícias de Direitos Animais


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Visita ao matadouro

Visita ao matadouro

Passei alguns de meus últimos anos no interior de São Paulo, fiscalizando fontes de poluição ambiental: usinas de açúcar e álcool, fábricas que processamento de polímeros, fundições etc. Mas nada me pareceu tão poluente e agressivo quanto os curtumes e abatedouros de animais. Estas atividades são, é claro, extremamente poluentes, mas pretendo falar sobre este assunto em outra ocasião. Gostaria de reservar este momento para falar sobre uma outra forma de violência, aquela que presenciei nos matadouros e abatedouros de animais.

Os cães de Banting e Best e a descoberta do diabetes em humanos

Introdução

O diabetes figura entre uma das mais citadas justificativas para a continuidade da experimentação em animais; muitos defendem que sem tais experiências, jamais teríamos hoje o conhecimento para compreender qual seria a causa do diabetes e encontrarmos a cura através da insulina. Curiosamente, o experimento conduzido por Frederich Grant Banting e seu ajudante Charles Herbert Best, considerados hoje os elucidadores do mistério, sofreu severas críticas de seus colegas na época. Segundo Roberts (1922), seus experimentos foram “mal concebidos, mal conduzidos e mal interpretados”.

O homem evoluiu como um animal carnívoro ou vegetariano?

O homem evoluiu como um animal carnívoro ou vegetariano?

É comum, atualmente, que no debate entre consumidores de carne e vegetarianos sejam utilizados argumentos relacionados aos “homens das cavernas”, uns argumentando que os homens evoluíram como carnívoros e outros argumentando que evoluíram como vegetarianos. O presente texto traz considerações com relação a esse assunto.

A questão da utilização científica de animais e a formação dos comitês de ética

A experimentação animal tem sido debatida em todo mundo. Biólogos, médicos e outros cientistas têm se levantado para se pronunciar a seu favor ou contra ela. Seus prós e contras tem sido apresentados, às vezes por uma abordagem científica, às vezes por uma abordagem ética. Auto-denominados “comitês de ética” tem sido criados com o objetivo de prontamente resolver a questão, conciliando todas as partes e tornando a experimentação aceitável pelo ponto de vista ético.

Foto ilustrativa

O modelo animal

Se um pesquisador propusesse testar um medicamento para idosos utilizando como modelo moças de vinte anos; ou testar os benefícios de determinada droga para minimizar os efeitos da menopausa utilizando como modelo homens, certamente haveria um questionamento quanto à cientificidade de sua metodologia.

O que será dos animais domésticos em um mundo vegano?

O veganismo é o estilo de vida resultante da oposição prática a toda forma de exploração animal, não apenas na alimentação, como também no vestuário, no entretenimento, no teste de produtos, no trabalho, etc. Por conseguinte, o veganismo opõe-se à própria criação animal.

Entendemos por criação animal a reprodução de linhagens de animais que atendem a um ou mais interesses do ser humano. Geralmente as espécies domesticadas derivam de formas selvagens selecionadas por expressarem determinadas características vistas como de interesse e cuja procriação seletiva ao longo dos anos ou manipulação genética selecionaram essas características de forma a potenciá-las.

Dessa forma, a maior parte dos animais “de criação” são organismos selecionados pelo homem para serem explorados, e diferem significativamente de suas formas selvagens. Ainda, a maior parte desses animais, com a seleção de características favoráveis à sua exploração, acabaram por perder características selvagens que tornavam-nos aptos a sobreviver em seu ambiente natural. De maneira resumida, a maior parte dos animais domésticos desenvolveu uma dependência do ser humano, especialmente no que diz respeito à sua sobrevivência.

Nos casos em que essas características não comprometem a sobrevivência do animal no ambiente natural, a introdução (ou reintrodução) desses pode vir a comprometer as formas selvagens da espécie, à medida que domesticados e selvagens passam a competir entre si, ou pior, passam a cruzar entre si, comprometendo o perfil genético da forma selvagem.

Portanto, a opção de “libertação animal” para espécies domésticas que envolve sua soltura em um ambiente selvagem na maioria das vezes não fará sentido, pelas próprias características dos animais envolvidos ou do ecossistema. A introdução de animais em ambientes naturais só deve ser feita quando seu perfil genético condiz com o das populações do campo e quando um trabalho de reabilitação é feito, de forma a possibilitar sua sobrevivência sem a interferência do ser humano. Não é o caso quando tratamos de linhagens de animais domésticos, selecionados para produzir.

Para exemplificar, vamos supor o caso do gado bovino. O gado hoje existente difere significativamente das formas selvagens originalmente capturadas por nossos antepassados em 7.000 A.E.C., na Ásia. Bois e vacas foram, ao longos dos tempos, selecionados para fornecer mais carne e menos carcaça, mais leite, couro de qualidade, animais mais mansos que facilitassem o manejo e robustos o suficiente para serem utilizados como animais de tração ou para outros trabalhos. Toda essa seleção resultou que, atualmente, existem mais de 1.000 raças de bovinos, todas adaptadas a uma determinada região e com características produtivas que atendem a um determinado interesse.

Toda essa seleção, porém, tornou esses animais menos aptos à sobrevivência sem os cuidados do ser humano. Bovinos tornaram-se animais pouco ágeis, pesados, muito distintos dos ruminantes não domesticados. Para um predador de topo, uma vaca é um alvo praticamente imóvel. Libertar bovinos nos campos, em locais onde existam predadores, é condená-los à morte certa, pois por 9.000 anos esses animais contaram com a proteção do ser humano e não se pode esperar que sobrevivam repentinamente sem essa proteção.

De maneira oposta, poderia-se pensar na libertação de bovinos em locais onde não existam predadores. Essa situação já existe, de certa forma, quando pensamos na pecuária extensiva, em regiões onde o criador pouco precisa fazer para proteger seu rebanho1. No entanto, nesse caso, o próprio ser humano trabalha como um predador, recolhendo o gado de tempos e tempos e mandando-o para o matadouro, regulando assim o tamanho de sua população.

Em uma situação hipotética onde todos os seres humanos tornam-se veganos, apenas abandonando o gado nos campos, os bovinos e outros animais domésticos que vivessem em áreas onde não existem predadores reproduzir-se-iriam indefinidamente, degradando ainda mais os ambientes naturais e interferindo com outras formas de vida.

Não há como defender que essas populações acabariam por atingir um equilíbrio com seu ambiente porque qualquer acomodação a um ecossistema implicaria no deslocamento de outras espécies, na alteração de seu funcionamento. Bois podem estar vivendo na região do Pantanal e da Amazônia, mas apenas porque esses ambientes foram modificados para suportá-los. Pelo ponto de vista do Pantanal ou da Amazônia, muito melhor seria não haver ali animais domésticos. Dessa forma os ambientes tenderiam naturalmente a voltar ao que eram antes.

Creio que o gado bovino exemplifique bem o que acontece com outros animais chamados “de fazenda” — Cavalos, ovelhas, cabras, galinhas, porcos, etc. Esses animais dependeram do ser humano por milhares de anos para sobreviver e se reproduzir, e sua manutenção dependerá, para sempre, da interferência do ser humano. Sua introdução em ambientes selvagens compromete sua própria sobrevivência ou a sobrevivência de outras espécies existentes nesses ecossistemas.

Além disso, podemos nos questionar sobre o porquê de, em um “mundo vegano”, mantermos espécies desenvolvidas pelo ser humano com a única finalidade de exploração. Pode-se entender que haja uma preocupação em evitar a extinção de espécies selvagens, afinal, cada espécie está inserida em um contexto ambiental e desempenha determinada função dentro de um ecossistema. Romper um elo nessa corrente pode significar a extinção de outras espécies e o comprometimento do próprio ecossistema.

Mas, no caso de espécies domésticas, vemos que a extinção não significa uma perda, pois essas espécies não representam nenhum elo positivo para a funcionalidade dos ecossistemas, pelo contrário, são invasoras. Além disso, não há lógica em se pensar na “perda de biodiversidade” quando a existência de apenas 3 espécies de ruminantes domésticas (o boi, a ovelha e a cabra), por exemplo, compromete a sobrevivência de mais de 160 espécies de ruminantes selvagens, além de infinitas outras formas de vida.

Cada boi, cada ovelha, cada cabra, cada animal doméstico deve gozar de direitos enquanto indivíduos, mas realmente não devemos nos preocupar com a “preservação da espécie” desse indivíduo. Levar ou permitir a extinção de determinada espécie/raça animal não significa ir contra os interesses desses animais enquanto indivíduos.

Os interesses de indivíduos animais, enquanto organismo senciente, limitam-se basicamente a levar vidas condizentes com sua natureza, buscando o conforto e fugindo ao desconforto. Acima de tudo, animais tem interesse na continuidade de sua própria vida. Bois ou galinhas não estão preocupados se dali a 100 ou 200 anos sua raça continuará existindo, e tanto faz para eles se atualmente existem 1 bilhão ou apenas 10 indivíduos de sua espécie. Isso simplesmente não faz parte de seus interesses particulares, mas sim do interesse de seres humanos preocupados com sua exploração2.

De que forma o veganismo levará as espécies domésticas à extinção?

Pode parecer uma situação que depõe contra o veganismo o fato de que seu advento implicará na extinção de espécies animais, mas isso apenas quando analisamos a situação pelo ponto de vista do ser humano educado no sistema de crença antropocentrista.

As variedades de animais que serão extintas com o veganismo não contribuem para a biodiversidade em seu estrito senso. Pelo contrário, sua existência contrapõe a existência de outras formas de vida, essas sim capazes de uma vida independente do jugo humano. Além disso, dar continuidade a essas formas de existência é condená-las eternamente à dependência da boa vontade humana. Dessa forma, a extinção parece ser uma opção desejável por todos os pontos de vista, exceto daqueles que objetivam sua exploração.

O cenário mais provável é que as pessoas não se tornem veganas da noite para o dia. Assim, podemos entender que as populações de animais domésticos declinem “naturalmente”, pelas próprias forças do mercado. Em um mundo tendente ao veganismo, os criadores de animais e os funcionários que atualmente atuam em algum nível dessa cadeia produtiva teriam gradativamente de procurar por atividades mais promissoras. Quando diminui a demanda, diminui a oferta.

Em um cenário bem menos provável, mas apenas para considerar todas as hipóteses, suponhamos que amanhã a humanidade toda perdesse o interesse na criação de animais. De uma hora para a outra “perderiam a serventia” 1,3 bilhão de bois e vacas, 1 bilhão de ovelhas e carneiros, 700 milhões de cabras e bodes, 930 milhões de porcos, 110 milhões de equinos e 18 milhões de frangos e galinhas, entre outros tantos animais.

Certamente a forma mais rápida para se livrar de bilhões de “animais indesejáveis” seria também a mais truculenta e sádica: o extermínio em massa, a incineração, a vala comum. Presenciamos essa cena em eventos de epidemias zoonóticas e ela seria também possível no caso dessa perda repentina de interesse pelos produtos de origem se dar por uma súbita revelação no contexto da saúde, ecológica, etc. Mas supondo que esse súbito vegetarianismo tivesse motivos éticos, esse extermínio não seria uma alternativa viável.

Abandonar os animais nas fazendas à própria sorte também não seria uma alternativa justa, pois esses animais são frutos de nossas atividades e teríamos responsabilidades morais para com eles. Em fazendas abandonadas esses animais morreriam à mingua, de fome, de doenças ou indefesos, atacados por predadores. Nos raros casos em que sua sobrevivência fosse viável, que esses animais pudessem se alimentar e se defender de predadores, o ônus ficaria para o ambiente, na forma de interações inter-específicas desarmônicas, transmissão de doenças para espécies silvestres, degradação ambiental, etc. De uma ou de outra forma, simplesmente abandonar as fazendas cheias de animais seria um ato de irresponsabilidade para com a vida e o meio ambiente.

Supondo esse cenário, bastante improvável, da perda repentina de interesse em bilhões de animais domésticos, por um ganho súbito de consciência ética, o que acredito que aconteceria é que seres humanos voluntários se encarregariam de manter esses animais nas fazendas, alimentados e afastados de predadores. As fazendas, assim, se transformariam em santuários de animais.

Porém, torna-se difícil crer que uma confraria de voluntários se prontificaria a diariamente alimentar animais, limpar seus recintos e manter seus predadores afastados apenas para evitar que sua espécie fosse extinta, porque esse é por si um trabalho sem objetivo final.

Diferente dos santuários de animais silvestres, onde animais recuperados são colocados para se reproduzir e, se possível, serem reintroduzidos em campo (o objetivo final é reintroduzir o animal em campo), santuários de animais domésticos devem se destinar a garantir a sobrevivência de animais já nascidos, sem no entanto permitir sua reprodução ou acesso a áreas selvagens (o objetivo, nesse caso, é garantir a melhor vida possível para esses animais, e a morte o mais tardia possível).

Está claro que à medida que esses animais fossem morrendo — de morte natural — os campos antes por eles ocupados ou destinados a produzir alimentos para seu sustento estariam liberados para produzir alimentos para o ser humano, ou melhor ainda, para permitir que a sucessão ecológica restabelecesse na área degradada os ecossistemas naturais, voltando ao local as espécies animais e vegetais originais. A vida dessa forma não sucumbiria, mas floresceria.

Liberdade de reprodução e o viés da ecologia rasa?

Pode-se pensar que privar animais da possibilidade de produzir uma prole constitua-se, por si só, uma forma de crueldade, mas essa é uma análise bastante superficial da situação. Para compreender o porquê disso podemos analisar o caso dos animais ditos “de estimação”. As pessoas mantém em suas casas cães e gatos, mas quando não há controle sobre sua reprodução, animais acabam sendo abandonados, submetidos a maus tratos e ao sistema de controle de animais errantes que geralmente envolve a morte.

Por isso a castração e a esterilização em massa são vistas como formas éticas de manter a população de cães e gatos em níveis considerados aceitáveis pelos órgãos de saúde. As esterilizações já acontecem e não há questionamento em relação ao seu estado moral. É fato que matar animais em Centros de Controle de Zoonoses é muitas vezes pior. E não há como defender, eticamente, que o controle da reprodução priva os filhotes do direito de nascer, porque não se pode defender os direitos de um ente que ainda nem foi concebido.

E embora esse sistema, da forma como se encontra, não vise a esterilização de todos os cães e gatos, permitindo a reprodução de alguns indivíduos e garantindo a satisfação da demanda humana por animais de estimação, o controle é feito. De toda forma alguns animais são impedidos de se reproduzir.

Mesmo que esses animais não sejam castrados, o próprio fato de estarem contidos já é fator limitante para o cumprimento de seus impulsos naturais. E qualquer ser humano que descuide desse aspecto do cuidado do animal de sua família deve ser visto como um irresponsável, pois uma vez que os filhotes nasçam é difícil providenciar-lhes um lar adequado. Chamamos a esse controle “posse responsável”, embora em um mundo ideal a idéia de ‘posse’ de um animal devesse ser substituída pela idéia de tutela.

Portanto, a libertação animal, quando tratando de animais selecionados geneticamente pelo homem, trata sem duvida de uma “liberdade relativa”, pois no que concerne aos aspectos de reprodução e à liberdade de ir e vir, esses animais precisarão ser sempre controlados.

Nessas antigas fazendas, agora santuários, animais poderiam correr pelos campos, fuçar a terra, cavar, cobrir-se de lamas e esfregar-se nas árvores, levar vidas condizentes com sua natureza. Mas de forma alguma eles deveriam poder transpor os limites dessas áreas a eles destinadas. Eles poderiam engordar sem correr o risco de serem abatidos e emagrecer sem correr o risco de serem descartados, levariam vidas plenas e viveriam o tempo de sua longevidade natural, mas em um mundo ideal essa seria sua última geração.3

Pode parecer radicalismo falar em “última geração” quando mantemos uma estrutura de pensamento harmonizada com o conceito de ecologia rasa, onde tudo é analisado pela perspectiva do ser humano. De acordo com esse conceito, o cerrado não tem valor em si mesmo. O cerrado tem valor à medida que nele encontram-se recursos, conhecidos ou potenciais, que poderão de alguma forma trazer benefícios para o ser humano. Fomos educados a perceber a biodiversidade como uma fonte de recursos e associamos o conceito de preservação a essa percepção de mundo.

Em ecologia rasa não cabe a idéia de extinção de uma espécie que serve ao homem, e menos ainda o conceito de extinção voluntária humana, porque o objetivo da existência do mundo é o próprio homem e pensar isso parece tornar o mundo sem sentido. Mas quando se analisa a posição das espécies domésticas e do próprio homem no ambiente natural, pelo ponto de vista da natureza, falar-se em extinção começa a fazer todo o sentido.

Para a ecologia rasa o indivíduo animal não tem valor intrínseco. Ele vale o quanto sua carga genética pode contribuir para a preservação de sua espécie, o recurso conhecido ou potencial que beneficia o ser humano. Assim, a vida de animais pertencentes a espécies abundantes não tem praticamente valor, enquanto que a vida de animais pertencentes a espécies raras vale mais. A vida tem valor no conjunto da espécie, não no âmbito do indivíduo, e seu valor está diretamente relacionado ao quanto ela pode oferecer para o futuro do ser humano.4

Pensar animais domésticos emancipados no âmbito da biodiversidade é, de certa forma, dar continuidade ao seu processo de exploração, porque nada, senão sua exploração, dá sentido à sua existência. Em nenhum outro aspecto, senão na perspectiva de exploração humana, esses animais se encaixam no conceito de diversidade, pois essas variedades não existiam antes da seleção realizada pelo ser humano e eles jamais virão a fazer parte de nenhum ambiente natural. Portanto, não são “formas de vida” cuja espécie deva ser poupada da extinção. Essas variedades são, e sempre serão, dependentes do ser humano para sua sobrevivência.

Portanto, permitir a procriação desses animais significaria necessitar manter, indefinidamente, santuários de animais, com seres humanos voluntários para sempre cuidando de sua alimentação e proteção. E com as necessidade de alimentação e proteção fornecidas, sem o controle da população, 1 bilhão não tardaria a se tornar um trilhão. Os santuários, e não mais as fazendas, se tornariam responsáveis pela degradação ambiental e pelo aquecimento global.

No cenário do santuário onde os animais gozam de uma relativa liberdade, sendo seu limite a reprodução, a situação não se manteria por muitos anos — 20 ou 30 anos talvez — o tempo de vida do animal mais longevo.

Uma possível degeneração humana

Adicionalmente, manter “estoques” ou bancos genéticos de animais domésticos traria o grande risco de sujeitar uma futura prole ao que podemos chamar de “flutuação cultural do ser humano”. Pois não há nenhuma garantia de que o advento do veganismo persistiria por muito tempo, por mais que educássemos nossos filhos. Das religiões aos movimentos políticos e sociais, temos muitos exemplos que demonstram que as idéias tendem a perder força ou se corromper ao longo do tempo.5

Em poucas gerações, aquela cultura vegana fervorosa e fortemente enraizada poderia vacilar e então, esses animais domésticos ali disponíveis poderiam servir de estímulo à degeneração e ao retrocesso do gênero humano. Essa nova geração poderia vir a se perguntar, 100 ou 200 anos após o advento do veganismo, porque que os seres humanos estão “servindo” animais em santuários ao invés de colocar animais para servi-los?

Preservando esse perfil genético propício ao fornecimento desses “recursos”, apenas pelo capricho de não permitir sua extinção, estaria-se criando uma situação favorável ao retorno ao seu sistema exploratório, simplesmente porque uma nova geração de pessoas se questionaria se abolir a exploração de tal fonte de recursos não seria um desperdício.

Pelo contrário, a extinção dos animais domésticos dificultaria esse processo de degeneração, pois esses “recursos” não estariam facilmente disponíveis e, para recriar um sistema de exploração, dependeria-se de uma nova seleção de características desejáveis a partir de formas selvagens ou da clonagem de animais domésticos a partir de fragmentos de tecidos ainda viáveis, manipulação genética e outras tecnológicas por si só desencorajadoras.

Uma vez estabelecido esse novo sistema vegano, a extinção das espécies domésticas em 20-30 anos garantiria sua continuidade, pois tudo o que as futuras gerações conheceriam seria o veganismo, sem possibilidade de retorno à condição anterior.

Sobre os chamados “animais de estimação”

Cães e gatos, bem como outros animais ditos de estimação, gozam de um estatus diferenciado em nossa sociedade. As explicações psicológicas e antropológicas para esse fenômeno são muitas e não serão debatidas aqui. Restringiremos a discussão aos aspectos referentes às vantagens dessa interação.

A manutenção de animais como animais de estimação pode resultar em interações positivas ou negativas. É claro que se analisarmos apenas pelo ponto de vista do ser humano essa interação será quase sempre positiva, mesmo porque quando ela se torna inconveniente a tendência é se desfazer do animal. Portanto, a análise da interação entre homens e animais de estimação deve ser feita pelo ponto de vista do animal.

O homem adota como animais de estimação animais domésticos, silvestres ou exóticos. Outros artigos já discutiram a domesticação de animais silvestres e exóticos, eles são unânimes em esclarecer que, pelo ponto de vista do animal, a vida em liberdade é melhor do que o cativeiro. Portanto, restringiremos essa discussão às vantagens e desvantagens da domesticação de animais domésticos, ou seja, animais cujo perfil genético foi modificado por seleção antrópica e que diferem das populações selvagens.

Espécies domésticas, em geral, não repelem o jugo humano. Isso pode levar à dedução de que essas são espécies que apreciam e se beneficiam da convivência com seres humanos, no entanto, devemos considerar que esses indivíduos, após nascidos, não tem outra escolha senão se submeter aos cuidados do ser humano.

Uma outra evidência pouco fundamentada de que essas espécies se beneficiam da convivência com seres humanos é que suas populações existem em tamanhos superiores aos das espécies silvestres. Essa falsa vantagem, no entanto, apenas demonstra que a criação animal, como a maior parte das atividades antrópicas, tende a extrapolar a capacidade suporte das áreas, degradar e modificar os ambientes e desalojar outras espécies de seus habitats. Portanto, para as demais espécies do planeta, exceto o ser humano, a existência de muitos indivíduos de algumas poucas espécies domésticas é algo negativo.

O fato do homem manter essas espécies em grandes populações não deve ser considerado uma vantagem nem mesmo para elas, uma vez que o indivíduo, e não a espécie em si, é que é sujeito de direito. E para o indivíduo pouco importa o estatus de sua espécie, se abundante ou não. Pelo contrário, a grande população mantida predispõe os indivíduos da espécie à exploração ou no mínimo ao abandono.

Portanto, a análise das vantagens e desvantagens da domesticação deve ser feita pelo ponto de vista do indivíduo animal e do ambiente.

Sabemos que as pessoas podem manter cães, gatos e mesmo porcos, galinhas ou vacas como animais de estimação. Esses animais, enquanto indivíduos, certamente podem se beneficiar dessa convivência, dependendo tão somente da boa vontade de seu mantenedor. Se seu mantenedor cuidar bem deles, viverão bem; se cuidar mal, viverão mal, mas de toda maneira eles não estão livres dessa dependência e boa vontade.

Além disso, há uma grande distância entre dar abrigo a um animal que necessite e que depende da atenção humana e entre fazer nascer esse animal. E a diferença é, precisamente, que no primeiro caso age-se como a solução para um problema e no segundo caso age-se como a causa do problema.

Fazer nascer um animal que para sempre dependerá do ser humano, mesmo que com a intenção de dar-lhe cuidado ou transferir seus cuidados a terceiros é na verdade um ato que envolve grande responsabilidade. Com frequencia esses animais terminam em lares que não lhes darão o tratamento que merecem ou serão abandonados. O problema que envolve as populações de cães e gatos em todo o mundo apenas ocorre porque a decisão em relação à sua reprodução encontra-se na consciência de seus donos.

Diferente do caso em que o animal é adotado e nesse caso tutelado, a pessoa que adquire um animal mediante uma transação comercial torna-se seu proprietário. O animal é, então, um produto. Ele vale tanto quanto o comerciante cobra, e o propósito de seu nascimento é satisfazer a uma demanda, seja ela uma vontade ou uma carência humana.

Animais assim criados são trazidos ao mundo para servirem a um propósito humano, porque não há como defender que esse nascimento se deu para atender ao propósito do animal, visto que o animal não pode ter interesses antes de haver sido concebido. Seres humanos e outros animais só se tornam sujeitos de direito após sua concepção e aquisição de certa senciência. Portanto, fazer nascer animais de estimação é uma demanda humana e não uma demanda animal.

Cães e gatos, embora no ocidente na maioria das vezes não se prestem a fornecer carne, pele ou outros produtos, são como os animais de corte resultado de uma enorme cadeia de exploração. Esses animais são reproduzidos seletivamente de modo a aprimorar características consideradas pelos seres humanos como desejáveis. Além disso, dentro de uma ninhada, animais que não atendem a esses padrões são prontamente descartados ou abandonados.

Fêmeas são mantidas em canis e gatis apenas com o propósito de servirem como matrizes. Elas concebem ninhada após ninhada, até que, com a queda da fertilidade, são também descartadas. Seus filhotes são produtos empacotados em embalagens fofinhas, comercializadas em lojas de animais ou diretamente a particulares.

Na outra ponta dessa cadeia produtiva temos os animais que por um ou outro motivo tornaram-se indesejáveis, seja porque cresceram demais, não são mais fofinhos, seja porque os donos irão se mudar para um apartamento, seja porque os donos não sabiam que eles necessitavam comer e defecar todos os dias, seja porque adoeceram e o custo do tratamento excede o preço de um animal novo na loja, etc. Então esse animal é abandonado ou doado para uma pessoa que não se importa com esses seus “defeitos”.

Geralmente pessoas que adotam animais abandonados são conscientes de que uma coisa é manter animais recolhidos e outra é reproduzí-los. Quem recolhe animais geralmente os castra e os mantém, ou doa para quem se prontifica a mantê-los. Essas pessoas não vêem animais como produtos, mas como entes sencientes que já nasceram e que dependem de cuidados humanos.

A cadeia produtiva acima descrita é o caso extremo, que descreve o processo produtivo de um canil ou gatil comercial, mas é daí que provém a maior parte dos animais de raças puras. Particulares também podem procriar animais em suas casas e colocar os filhotes para venda ou doação. De uma ou de outra forma os animais acabam perdendo. Animais comprados, ainda que de particulares e não de canis e gatis comerciais, não escapam do mesmo destino.

E mesmo para o caso de animais que sejam doados, não podemos deixar de nos questionar: Será que esses animais precisariam ter nascido? Com animais abandonados nas ruas, em abrigos, faz sentido um particular colocar sua cadela ou sua gata para cruzarem, mesmo sabendo que seus filhotes serão adotados em outros lares? E mesmo que essa adoção seja certa, será que os novos proprietários não terão a mesma idéia de reproduzir seus animais, dando assim origem a uma prole que não poderá ser indefinidamente absorvida, indo muitos de seus filhos e netos ir parar nas ruas ou no serviço de controle de zoonoses?

Portanto, reproduzir animais, mais do que uma atividade de grande responsabilidade envolve um ato de grande irresponsabilidade.

Veganos e defensores dos direitos dos animais tendem a gozar dos benefícios da convivência com animais “de companhia”, mas na maior parte dos casos esses animais não foram gerados para satisfazer a essa demanda do indivíduo. Eles eram animais que já haviam nascido e que foram rejeitados pela sociedade, e então adotados.

Em um mundo ideal a sociedade cuidaria para que os animais já nascidos levassem vidas longas e felizes, mas cuidaria para que não nascessem outros. Fazendo-se isso seria quebrado o eterno ciclo de dependência. Essa seria a única maneira de evitar que cães e gatos fossem explorados e abusados.

Epílogo

Considerando que animais domésticos são organismos geneticamente selecionados para suprir o homem com determinado recurso; que esses organismos não existiam antes dessa seleção e que sua introdução em ambientes naturais é inviável por diferentes motivos; que sua existência será sempre dependentes de cuidados humanos; que sua existência atende apenas aos interesses do ser humano, mas não o de outras espécies ou do meio ambiente, entendemos que animais domésticos compõe um grupo especial de animais e que a preocupação conservacionista não se aplica em seu caso.

Por outro lado, considerando que a condição para o reconhecimento de direitos individuais é o atributo da senciência, e que não se pode defender os direitos de organismos que ainda não foram concebidos, entendemos que animais domésticos já nascidos são sujeitos de direito, e por isso devem ter suas vidas preservadas. No entanto, a procriação desses animais deve ser evitada.

A idéia de que em um mundo vegano ideal os animais domésticos não mais existiriam pode soar extrema e impopular mesmo para veganos. Isso ocorre porque tendemos a raciocinar com um forte componente emocional. E quem não gosta da companhia de um cão ou gato? Ou mesmo da oportunidade de conviver harmonicamente com animais de fazenda?

Nós, e a maioria das pessoas conhecidas, mantemos animais em nossas casas. Temos prazer em conviver com eles e sabemos que alguns deles sentem prazer em conviver conosco. A maioria das pessoas em nosso circulo de relações dá bom tratamento aos animais em suas casas, embora saibamos que essa pequena amostragem não reflete a realidade da maioria.

Essa relação, embora harmônica no nível individual, não justifica a defesa da domesticação animal em termos globais, pois estaria-se utilizando a exceção para criar uma regra. São realmente poucos os animais domésticos que levam vidas felizes e mesmo esses são produtos da exploração. Alguns frutos dessa exploração são animais rejeitados e que foram posteriormente adotados. Adotar animais rejeitados é um ato de amor, mas não reproduzí-los. Por outro lado adquirir animais de pessoas que propositalmente os fizeram nascer é ser condizente com seu ciclo de exploração.

De toda forma, seja qual for o tratamento que lhes dediquemos, animais domésticos serão para sempre dependentes do ser humano, e isso por si só coloca sua existência em uma condição frágil.

Parte de nossa luta por um mundo melhor envolve fazermos o exercício mental de pensar de que forma será esse mundo, aonde queremos chegar. Embora eu mesmo me beneficie da convivência com animais domésticos, todos adotados, sou consciente de que o mundo só será perfeito quando não houverem mais animais dependendo do ser humano para nada.

Notas

1 No Pantanal e na Amazônia, por exemplo, ocorre predação do gado por onças, mas essa predação é resultado de uma situação extrema onde as onças não mais encontram suas presas naturais. Se houvesse uma recuperação dos sistemas naturais as onças desprezariam o gado, grande demais para suas necessidade de caçadora solitária.

2 A preocupação com a preservação de outras espécies frequentemente passa pela conscientização de sua importância atual ou futura para a preservação da própria espécie humana. Assim, a biodiversidade do cerrado vale pelos seus recursos em plantas medicinais com princípios ativos ainda desconhecidos, com potencial para produzir curas para a AIDS, o câncer ou outra doença humana. Essa chamada “consciência ecológica” é, na verdade, ecologia rasa.

3 Esse conceito de levar vidas longas e proveitosas, porém sem deixar filhos, vem tomando forma em sua versão aplicada a seres humanos. Em sua manifestação mais organizada encontra-se o Movimento de Extinção Humana Voluntária (http://www.vhemt.org/pindex.htm). Ao contrário do que se pode pensar, não são indivíduos anti-sociais e misantropistas, mas pessoas bem humoradas e que amam aproveitar a vida. Seu slogan é “Para que possamos viver muito . . . e desaparecer.”

4 A vida de indivíduos sencientes tem valor inerente, mas esse valor se aplica ao indivíduo, não à espécie. Uma espécie vale pela função que ela desempenha em determinado ecossistema. Se determinada espécie não desempenha nenhuma função em nenhum ecossistema, não há porque preservar a espécie, embora os indivíduos devam ser preservados.

5 A história mostra que nem sempre a tendência da humanidade é o progresso cultural; algumas vezes retrocessos ocorrem. Igualmente, a história demonstra que praticamente nenhuma forma de pensamento, nenhuma revolução, sobrevive às gerações sem corrupção da idéia original. Mesmo as mais antigas religiões são constantemente reformuladas, renovadas e revistas. Inocência crer que com o vegetarianismo seria diferente.


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Olhar Animal – www.olharanimal.org


Direitos animais e o caminho a seguir

Por ocasião do 1º Encontro Nacional de Direitos Animais (ENDA), ocorrido em Porangaba – SP, entre os dias 1º e 4º de maio de 2008, tive a oportunidade de proferir 4 palestras sobre temas diversos. Duas dessas palestras tratavam de aspectos relacionados ao posicionamento ideológico daqueles que lutam pelos direitos dos animais, sendo uma referente ao dito “movimento abolicionista” e a segunda uma tentativa de estabelecer de que forma se daria o ativismo pelos direitos animais no futuro. O artigo que se segue refere-se a essas duas apresentações realizadas.

Vem ganhando popularidade em nosso meio as alusões e referências a um tal “abolicionismo animal”. Mais e mais pessoas vem se auto-denominando abolicionistas, escrevendo mensagens de e-mail destinadas aos “Prezados Abolicionistas” (independente de quem sejam os destinatários) e se despedindo em suas mensagens com “abraços abolicionistas”. Abolicionismo parece ser a nova palavra da moda, seja lá o que ela queira dizer para a maioria das pessoas.

Embora “abolicionismo animal” seja uma terminologia popularizada relativamente em tempos recentes, a idéia que ela encerra não é de forma alguma nova. Abolicionistas não inventaram nada que já não se soubesse; essa não é uma nova seita, sem um passado, e que surgiu para acabar com tudo o que se tinha até então, como querem fazer parecer muitos “protetores de animais das antigas”. Se hoje o termo abolicionismo é necessário, se foi preciso “inventar” uma palavra, foi porque as antigas terminologias – direitos animais, proteção animal, defesa animal – ou qualquer outra que tenha vindo a ser utilizada, foram corrompidas pelo desgaste e mau uso.

Se pessoas que reproduzem animais, criam-nos para seus fins, fazem uso de sua carne, couro ou outras partes, etc. – se pessoas, enfim, que não possuem nenhum compromisso para com a vida animal repentinamente passam a se autodenominar “protetores de animais”, “defensores de animais”, etc., então é certo que as pessoas que realmente protegem e defendem animais, que lutam por seus direitos, precisarão adotar uma outra denominação. Se muitas pessoas entendem que lutar pelos direitos animais significa lutar para que as galinhas tenham jaulas maiores ou para que o vitelo possa deitar em um cocho um pouco mais largo, esticando as pernas, então de fato entendemos porque da necessidade de se criar uma nova palavra. Assim popularizou-se o termo “abolicionismo”.

Mas essa popularização, quando não seguida de uma definição clara e amplamente entendida e aceita, pode ser algo ruim. Basta analisarmos a forma como muitos auto-denominados abolicionistas levam a vida ou se embrenham no seu ativismo para vermos que o abolicionismo de agora nada tem a ver com o que devíamos entender por abolicionismo, e que ele muito mais se aproxima da proteção animais outrora criticada. Aliás, é óbvio que apenas se autodenominar abolicionista sem seguir a isso uma critica ao bem-estarismo é uma colocação vazia. Não há porque utilizar essa palavra senão em oposição ao movimento tal qual existia e existe até hoje.

Abolicionismo nada mais é do que direitos animais. Não há nada somado, não há nada subtraído. Direitos animais em sua forma mais pura. Não é novo porque o conceito estava lá desde o começo. Se reconhecemos que animais possuem direitos e que esses direitos são inalienáveis então não podemos utilizar animais como meios para nossos fins. O conceito é simples, não há mais o que se argumentar sobre isso. Mas tudo o que é diferente disso, ainda que parecido para os menos avisados, não é mais direitos animais.

No meu entender, visto o mau uso do termo abolicionismo, caminhamos para a eleição de uma nova palavra para definir a forma como pensamos. Direitos animais já foi bom, mas foi corrompido, abolicionismo já começou com um emprego ruim… que palavra virá agora? Minha opinião é que deixemos de neologismos, deixemos o abolicionismo de lado e nos voltemos novamente para os direitos animais, mais lógico e explicativo. Com o perdão das palavras, mas para o inferno os protetores de animais, falsos defensores de animais – se eles comem frango ou apóiam o uso “ético” de animais em pesquisa, eles não defendem nada senão seus próprios interesses. Sou pelos direitos animais e só me denomino abolicionista quando preciso fazer uma crítica específica ao bem-estarismo.

O ideal abolicionista não é novo, nem saiu do movimento de defesa animal, como muitas vezes colocado pelos críticos. Estiveram ambos os movimentos engendrados um ao outro desde o começo, atrapalhando-se e confundindo-se mutuamente. A cisão que surgiu recentemente não veio para enfraquecer, mas para fortalecer cada movimento em suas opiniões, cada qual em sua maneira de agir. E as diferenças são tantas que ambos os grupos chegam a ser opostos, embora por um ponto de vista bastante superficial, ambos lutem pela mesma coisa.

Entender a evolução deste movimento é entender seu próprio funcionamento. Não pretendo aqui escrever muito mais do que já foi escrito sobre essa evolução. Outros artigos nessa mesma publicação o fazem muito melhor. Mas como uma rápida retrospectiva dos fatos, precisamos entender que, no mundo ocidental, grande parte do pensamento humano com relação aos animais baseou-se na passagem de Gênesis 1:28 “E Deus os abençoou (Adão e Eva), e Deus lhes disse: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a; e dominai sobre os peixes do mar e sobre as aves dos céus, e sobre todo o animal que se move sobre a terra.”. Essa passagem, invocada em praticamente toda discussão referente aos direitos animais, predominou no pensamento humano durante as Idades Antiga, Média e Moderna.

Mesmo atualmente ainda há quem a use para justificar o direito do homem sobre as demais espécies, o que de fato atesta contra a racionalidade do argumentador, visto que outras passagens bíblicas autorizam a escravidão, o saque, o estupro, etc (para mais informações sobre esse tópico leia o ensaio “O bem-estarismo e a Bíblia” – www.anima.org.ar/libertacao/animais/o-bem-estraismo-e-a-biblia.html). Note-se que muitas vezes quem utiliza tal argumento sequer conhece ou segue a Bíblia. Apenas a utiliza para defender um ponto de vista que serve aos seus interesses.

A defesa da idéia de que animais são meros recursos a serviço dos seres humanos atingiu seu ápice com René Descartes, que em 1637 defendia que os corpos eram apenas máquinas, autômatos. Embora Descartes tentasse ser perfeitamente racional em sua argumentação, ou como mais tarde popularizou-se dizer – Cartesiano – sua lógica não estava desvencilhada do pensamento da época. O homem é também máquina visto que possui corpo, mas possuindo também alma e pensamento, torna-se sujeito de direito. Animais não possuíam alma nem pensavam, pelo menos esse era o pensamento da época, logo, não eram mais do que robôs. E robôs podem ser usados para qualquer coisa, inclusive destruídos sem qualquer justificativa.

O Iluminismo surgiu como uma crítica a diversos pressupostos religiosos, entre os quais a idéia de que animais não possuíam alma ou não raciocinavam. Jean-Jacques Rousseau em 1755 defendia que os animais possuem sim sentimentos, e que por isso não devem ser “desnecessariamente mal tratados”. Vemos aqui que Rousseau não chega a realizar uma defesa verdadeira aos direitos animais. Ele reconhece que animais sofrem e que, portanto, é moralmente errado fazê-los sofrer. Mas se ele cita o “sofrimento desnecessário” é porque pressupõe a existência do “sofrimento necessário”. Embora referido como vegetariano pelas sociedades vegetarianas pelo mundo afora, Rosseau jamais foi vegetariano nem se posicionou contra qualquer uso de animais. Apenas sugeria que houvesse maior critério nesse uso.

Outro iluminista, Voltaire, em 1764 fez críticas mais específicas às colocações de Descartes, defendendo que animais pensam e tem sentimentos. Embora defendesse isso, acreditava que tínhamos o direito de usar animais, ao mesmo tempo que tínhamos obrigação de defendê-los. Esse antagonismo, um contra-senso, é o cenário que ainda encontramos no movimento de “proteção animal”. Protetores de animais até hoje defendem essa mesma idéia, a de que podemos utilizar animais para nossos fins, mas temos obrigação de defendê-los.

Immanuel Kant, outro filósofo iluminista bastante prolífico, defendia em 1781 que o ser humano devia se abster de maltratar animais porque o homem que se acostumava com o sofrimento animal mais facilmente se tornava indiferente ao sofrimento humano. Na opinião de Kant os animais em si não gozavam de direitos, nem o sistema moral que devia ser aplicado a todos os homens deveria ser estendido aos animais. Apenas devíamos nos compadecer dos animais porque assim nos compadeceríamos do próprio ser humano.

O filósofo e jurista inglês Jeremy Bentham, maior representante da ideologia utilitarista, escreveu em seu livro de 1789 An Introduction to the Principles of Morals and Legislation: “Pode um dia vir a ser reconhecido que o número de pernas, a vilosidade da pele, ou a terminação do osso sacro são razões igualmente insuficientes para abandonar um ser senciente à mesma sorte.

O que mais seria isso que poderia traçar a linha insuperável? É a faculdade da razão ou talvez a faculdade do discurso? Mas um cavalo ou um cão bem crescidos são sem comparação mais racionais, bem como mais comunicativos, do que um bebê de um dia ou de uma semana ou mesmo de um mês de vida. Mas suponhamos que eles fossem de outra maneira, o que isso valeria? A questão não é, Eles pensam?, nem Eles falam? Mas, Eles sofrem?”

Muitos se referem a essa passagem de Jeremy Bentham como o início do pensamento com respeito aos direitos animais, mas costumo vê-la como apenas mais um degrau em direção a esse pensamento. Bentham não era ele mesmo um vegano, e embora fosse opositor da escravidão humana, acreditava que animais podiam ser escravizados. A contribuição verdadeira de Bentham não foi com relação aos direitos animais, mas sim em reconhecer que animais possuíam interesses iguais aos do homem no que se refere à capacidade de sofrer e sentir dor.

Embora seus escritos sejam referidos como tendo dado início ao movimento de direitos animais, sua influência foi mais forte dentro do movimento de bem-estar animal. Por influência de Bentham, em 1822 foi promulgada a primeira lei de bem-estar animal da história, a British Anti Cruelty Act, que pretendia prevenir a crueldade contra os animais habitualmente utilizados pelo homem. A lei em nenhum momento questionava se animais devem ser utilizados, apenas estabelecia que uma vez que seu uso existe, os animais deveriam ser tratados seguindo princípios não-cruéis. Essa lei não era extensiva a todas as espécies animais, mas aplicável apenas a animais domésticos de grande porte.

Em 1824 foi fundada, também na Inglaterra, a Society for the Prevention of Cruelty to Animals – SPCA, rebatizada em 1840 de Royal Society for the Prevention of Cruelty to Animals. Esses dois eventos servem de marco histórico para o bem-estarismo enquanto movimento, e embora em determinados aspectos isso tenha influenciado o movimento pelos direitos animais, não se pode considerar que o reconhecimento de que animais que devem ser utilizados pelo homem merecem alguma consideração devido à sua capacidade de sentir dor seja um passo em direção ao reconhecimento de que animais não devem ser utilizados pelo homem.

O bem-estarismo, compatível com a filosofia utilitarista, difere da filosofia dos direitos animais em tantos aspectos que apenas por ignorância ou superficialidade as pessoas podem confundi-los. Como nos direitos animais, o bem-estarismo também reconhece que animais são seres sencientes, ou seja, capazes de sentir dor e sofrer. Mas as semelhanças acabam por aqui, pois com essa informação em mãos, ambos os grupos tomam caminhos opostos.

– Bem-estaristas reconhecem que animais podem sentir dor, logo, não devem jamais sofrer desnecessariamente. Mas, quando o sofrimento for necessário, animais podem ser usados. Bem-estaristas crêem que existem formas éticas de utilização de animais, a que chamam de “tratamento humanitário”, onde alega-se que o sofrimento é minimizado. Bem-estaristas defendem que a prevenção da crueldade contra animais deve ser regulamentada por leis.

– Os defensores dos direitos animais, como os bem-estaristas, reconhecem que animais são seres sencientes. Exatamente essa senciência lhes torna sujeitos de direito. Animais têm interesse em não sofrer, em não sentir dor, em continuarem vivos. Portanto, fazê-los sofrer ou matá-los é moralmente errado. Animais não devem ser vistos como recursos, como meios para nossos fins, e independente do valor que o ser humano lhes atribua, animais possuem um valor inerente que não pode ser expresso em termos monetários ou negociados de alguma maneira.

A diferença fundamental entre bem-estaristas e defensores dos direitos animais é que os primeiros não se opõe ao uso de animais e apenas lutam pela sua regulamentação, enquanto que os segundos querem abolir toda forma de exploração animal. São movimentos que trabalham por causas opostas, pois regulamentar determinado uso significa torná-lo aceitável, mais longe de ser abolido. Apesar disso, ambos os movimentos se confundem entre si, gerando por vezes atritos e desavenças.

O filósofo australiano Peter Singer, discípulo de Bentham, é muitas vezes referido como pai do movimento de direitos animais. Embora seu livro Animal Liberation, de 1974, tenha popularizado a idéia de que animais sofrem, em nenhum momento Singer nele defende que não devemos utilizar animais. O nome “Libertação Animal”, do título, não condiz com o conteúdo do livro. Singer tem um posicionamento utilitarista, onde o prazer deve ser maximizado e o sofrimento minimizado, tanto para os homens quanto para animais. Ele também tem uma argumentação coerente no que se refere ao princípio da igualdade entre espécies. Mas, por outro lado, ele também defende que vidas – humanas ou animais – podem ser negociadas em troca de “um bem maior”.

Na concepção de Singer, animais podem ser usados desde que isso beneficie a um grande número de animais ou de seres humanos. A vida e o direito individual não têm aqui valor, indivíduos podem ser sacrificados pelo bem da coletividade. Singer reconhece que animais tem interesse em não sentir dor, mas não tem interesse na vida e na existência continuada. Assim, não há nada de errado em matar um animal, o errado está em fazê-lo sofrer. Singer não defende o veganismo, mas sim um “onívorismo consciente”, onde os produtos de origem animal sejam oriundos de sistemas de criação que dêem aos animais “tratamento humanitário”. Defendendo idéias referentes ao bem-estar de animais de criação, Singer não reconhece que animais tem direitos.

O bem-estarismo falha em sua alegada missão de proteger animais em diversos aspectos, especialmente por:

– supor que em algum momento a exploração de animais pode ser eticamente justificada;

– supor que o julgamento humano de fato pode contrapor os interesses de animais (propriedades) e humanos (proprietários) com justiça;

– permitir que o “sofrimento necessário” imposto aos animais seja, na prática, todo uso que se queira fazer do animal;

– supor que leis anti-crueldade de fato protegem os animais ou previnem abusos sendo que elas sequer tipificam o que sejam crueldades ou abusos;

O bem-estarismo em verdade conduz a um lugar bastante diverso do que se desejaria para os animais. Promovendo o consumo de produtos de origem animal do tipo carne de boi orgânico, frango caipira, leite de “vaquinhas felizes”, etc. o bem-estarismo cria uma sensação de conforto com relação à exploração animal. O erro não está na exploração de animais, mas na forma como o fazemos. Pessoas deixam de se tornarem veganas para consumir esses produtos mais caros e valorizados, mas que na praticam não são sequer resultados de sistemas de exploração menos sofríveis para os animais. O manejo valorizado pelo bem-estarismo, além de resultar em melhoria na produção pecuária, apenas elimina o sofrimento inútil do sistema de criação. O “sofrimento útil”, que se converte em dinheiro para criador, é mantido, até porque ele é inerente a essa atividade.

E porque valoriza a exploração animal, o bem-estarismo tem como ícones de seu movimento indivíduos e organizações que se destacam explorando animais, desde que adotando a mesma ótica de minimização do sofrimento “desnecessário” e otimização do manejo. Por esse motivo organizações de bem-estar animal tendem a premiar cadeias de lanchonete que se comprometem em usar hambúrgueres de vacas que sofreram menos pra morrer, ou cientistas que se comprometem em reduzir o número de animais usados em seus laboratórios, ou refinar a técnica de modo a diminuir significativamente seu sofrimento. O bem-estarismo não cogita uma campanha de eliminação dessas formas de exploração animal porque eles mesmos se beneficiam desse uso. O bem-estarismo tem, enfim, objetivos diferentes dos direitos animais, e não faz sentido defender que a adoção de uma estratégia bem-estarista levará a abolição do uso de animais. Nós chegamos aonde estamos tentando ir.

Embora a concepção de direitos animais seja antiga, podendo remontar ao século XVII (para mais detalhes, ler O homem e o mundo natural, de Keith Thomas), sua caracterização enquanto movimento distinto do de bem-estar animal só tomou forma mediante os escritos de Tom Regan e Gary Francione. O processo ainda está em curso e depende das pessoas envolvidas reconhecerem que as diferenças existem e que as distinções são necessárias.

O movimento de direitos animais caracteriza-se pelo reconhecimento de que animais possuem os mesmos direitos que o ser humano à vida, e que esses direitos não podem ser negociados. Animais têm interesse na vida e existência continuada e jamais devem ser usados como recursos, ainda que se provem benefícios para o ser humano ou para maior número de animais.

Considerando tudo isso, o veganismo não é apenas uma escolha individual, mas uma obrigação moral de todo ser humano. Não é concebível que uma pessoa que diga defender animais não seja vegana visto que o veganismo é o primeiro estágio que o indivíduo deve buscar após reconhecer que animais possuem direitos. Uma pessoa que difunde direitos animais sem antes haver adotado o veganismo age de forma desonesta, pois pretende ensinar sem antes haver aprendido, e propõe que os outros façam o que ela mesma não se comprometeu a fazer. O veganismo não é um mero detalhe na vida do indivíduo, ele é fundamental para se entender de que forma que a pessoa realmente se compromete com os direitos animais. Veganismo é direitos animais em ação.

Dito isso, entendemos o porquê do movimento de bem-estar ser mais popular que o movimento de direitos animais. O “bem-estar” não exige nada do indivíduo, basta reconhecer que animais sofrem. E nem é necessário reconhecer que todos os animais sofrem, basta que sejam aqueles que nos são mais simpáticos. Basta empunharmos cartazes e gritarmos palavras de ordem. Basta dizermos que gostamos de animais. Não é necessário, realmente, mudar nada em nossas vidas para que sejamos “protetores de animais”.

Por outro lado, reconhecer que animais possuem direitos exige que transformemos nossas vidas, que façamos algo a respeito. E fazendo isso, levantamos muitas críticas daqueles que não querem assumir os mesmos compromissos. Muitos não negam que animais têm direitos, mas preferem defender que assumir que não devamos utilizá-los seja uma posição utópica. Que a sociedade não está ainda preparada para isso e que a adoção do veganismo é uma atitude extrema, radical. Defendem que quem quiser adotar o veganismo pode fazê-lo, mas que o veganismo não é para todos, e que as pessoas podem optar por continuar fazendo uso de animais.

Enfim, acreditam que animais têm interesse em não sofrer, mas não que eles tenham interesses na vida continuada. Que basta que animais morram sem sofrimento para que sua exploração seja considerada ética. Defendem ainda que aqueles que lutam pelos direitos animais colocam seu ativismo como uma questão de “tudo ou nada”, ou seja, que não acreditam que pequenos ganhos pela causa. Essa crítica é bastante infundamentada, até porque ela surge toda vez que bem-estaristas recebem criticas por estarem promovendo legislações que não representam pequenos ganhos pela causa, mas sim regulamentações de uso de animais.

Outra crítica infundamentada muitas vezes recebida é a de que animais não têm direitos porque direitos pressupõem deveres perante um Estado. Ora, se assim o fosse, bebês e deficientes mentais não gozariam de direitos, visto que não possuem deveres para com o Estado. Ademais, o que se busca para os animais não é “proteção” da forma como é colocada pelos “protetores de animais”, nem o direito ao voto, nem qualquer reconhecimento de cidadania. Direitos animais referem-se aos direitos à vida, à existência sem sofrimento e livre do subjugo humano. Não há porque exigir dos animais qualquer obrigação para com o Estado.

Entendidas as diferenças entre ambos os movimentos, resta-nos entender de que forma cada qual deve buscar seus objetivos. Vimos que o movimento de bem-estar animal tem uma forma de atuação que privilegia a premiação de indivíduos e organizações que se comprometem em explorar animais fazendo uso de “métodos humanitários”. Vimos também que esse movimento busca a elaboração de legislações que estabeleçam de que forma animais podem e de que forma animais não podem sofrer. Outras formas de ativismo, em verdade ‘demonstrações de que existimos’ podem ser enumeradas, entre elas protestos, performances de rua, divulgação de materiais, organização de abaixo-assinados, etc.

Convém que o movimento de direitos animais, enquanto movimento distinto do movimento de bem-estar animal, não tome parte dessas ações, ou quando o fizer, que o seja de maneira bem criteriosa. Creio que a palavra critério seja fundamental para a compreensão de todo o texto que se segue. Comecei o presente texto com uma crítica à popularização e mau uso do termo abolicionismo, porque mesmo quando adotados por veganos sinceros, seu emprego em um contexto bem-estarista acaba por corromper a palavra em sua pureza. Ativistas pelos direitos animais devem ver com reservas toda ação promovida pelos grupos de bem-estar animal. Devem ser criteriosos na escolha daquilo que apoiamos, aquilo a que somos indiferentes, e aquilo que merece nossas críticas.

Nesse 1º ENDA foi pedido que eu falasse sobre o caminho que o ativismo pelos direitos animais deveria tomar no futuro. Não sou dado a previsões, mas posso analisar criticamente o movimento no presente e tentar esboçar um movimento ideal no futuro. Certamente o que mais me incomoda no movimento presente é a falta de critério. Uma boa demonstração de falta de critério é a quantidade de e-mails inúteis referentes ao tema que recebemos diariamente. Sob a pretensão de estar ajudando animais, ativistas fazem circular tudo o que recebem. É óbvio que muito desse material é repassado sem uma leitura prévia, pois não se encontra nele nenhum objetivo prático. Também o texto nem sempre condiz com aquilo que acreditamos. É material ruim e até contrário à nossa ideologia, mas porque dele constam palavras chaves – direitos animais, proteção animal, etc. – ele simplesmente chega ás nossas caixas. Falta de critério dos ativistas.

A falta de critério também se torna evidente quando consideramos o grande número de atividades que se desenvolvem sob o pretexto de ‘direitos animais’. Embora o número seja relativamente grande, considerando o número de ativistas, faltam a essas atividades objetivos claros, foco, organização, enfim, são atividades sem propósito que apenas consomem tempo e energia dos ativistas.

Baseado nessas considerações supus que ‘falta de critério’ seja o maior problema do ativismo do presente e que ‘mais critério’ seja o que devemos buscar para o ativismo do futuro. Existem 5 perguntas que as organizações sempre devem se fazer para otimizar suas ações. Creio que movimentos e indivíduos envolvidos com direitos animais, para trabalhar com maior critério, devam sempre se fazer essas perguntas, também. São elas: Qual? Como? Quem? Onde? e Quando?

  • Qual? – “Qual o objetivo de determinada atividade? Quais atividades realmente merecem nossa atenção e a quais devemos ser indiferentes?” A pergunta qual? é importante para o ativista, pois impede que ele se envolva com atividades que não resultem em nada ou que resultem em algo que não seja seu objetivo. Algumas vezes me envolvi em campanhas sem realizar os devidos questionamentos e só então percebi que os objetivos de alguns dos participantes eram distintos dos meus. Outras vezes não havia objetivo algum, apenas o dispêndio de tempo e energia. Poucas pessoas gozam o privilégio do tempo e energia ilimitados. Para aqueles que trabalham, que possuem relações sociais, família, etc, as ações precisam resultar em algo, caso contrário serão ações vazias. Tudo o que fazemos tem que fazer sentido. Não adianta atirar para todos os lados, envolver-se com toda ação proposta, é hora de parar e se concentrar. Quais atividades de fato merecem nossa atenção?
  • Como? – “Como devo agir?” “Como vou atingir meu objetivo?” A pergunta Como? é importante porque muitas vezes as atividades propostas tem um objetivo claro, mas as ações pretendidas não são compatíveis com esses objetivos ou os efeitos que delas podem advir potencialmente produzirão resultados não desejáveis. Mais adiante realizaremos uma análise critica dessas formas de atuação.
  • Quem? – “Quem podemos chamar para fazer parte de nossas atividades ou de nosso grupo?” A pergunta Quem? é bastante importante no que se refere à formação de grupos ou das atividades que demandam a participação de muitas pessoas ou grupos distintos. Trabalhos em grupo são mais difíceis de manter dentro de um critério porque por sua própria natureza, as pessoas não agem de forma coesa. Quando o ingresso em um grupo se dá de uma maneira não questionada os grupos se tornam entidades heterogêneas, abertas a praticamente todas as formas de pensamento. É ótimo que no nível individual as pessoas possuam liberdade de pensamento, mas isso dentro de um grupo descaracteriza todo o trabalho. Grupos deveriam trabalhar por um objetivo claro e para isso a maior homogeneidade possível é impreterível. Por esse motivo, grupos menores tendem a ter ações mais focadas e o trabalho individual bem feito tende a ter qualidade superior ao trabalho realizado em conjunto. Grupos grandes e inchados tendem a ter infiltração de bem-estaristas, o que condena toda e qualquer ação do grupo. Em um grupo menor, com número mais limitado de pessoas, porém, é mais fácil encontrar retidão, coerência, honestidade, bom senso, responsabilidade, capacidade de manter o foco, convicção, clareza, profundidade, características desejáveis em companheiros de atividades.
  • Onde? – “Onde a ação deve se desenvolver?” A pergunta Onde? tem importância somente após decidida quais ações valem a pena serem tomadas, como deve-se agir e quem será chamado a participar. Ações em locais públicos demandam um questionamento per se, pois os efeitos desejáveis podem ser suprimidos por efeitos indesejáveis que poderiam ser previstos caso houvesse maior critério. Também, é importante que as ações sejam tomadas em locais que de alguma forma tenham relação com os objetivos propostos e cujo público alvo seja capaz de tomar decisões que de fato tenham efeito sobre os objetivos almejados.
  • Quando? – “Quando ela deve começar?” A pergunta Quando?, igualmente, tem importância somente após realizadas as três primeiras perguntas. Muitas vezes os objetivos são válidos, a forma de agir é compatível com esses objetivos, a escolha do local é a ideal, mas o momento não é o correto. Para que os objetivos sejam atingidos muitas vezes precisamos ter tomados medidas anteriores à ação. Não adianta trabalhar por algo fazendo com que as ações se antecedam aos eventos. As coisas funcionam dentro de determinada ordem e contrariar essa ordem pode significar não atingir o objetivo da ação.

O ativista pode encontrar problemas em agir seguindo esse critério, especialmente quando o convite para tomar parte em ações sem objetivos claros partir de pessoas por quem ele tenha apreço. Mas, certamente, o ativismo pelos direitos animais não deve ser usado como um recurso para fazer ou manter amizades. É bom que do ativismo resultem amizades, mas a verdade dos direitos animais e seus objetivos estão acima disso.

No passado me abstive de dizer para certos “ativistas” que o que eles faziam nada tinha de direitos animais, seja por causa das atividades em si, seja porque seu estilo de vida sequer era compatível com essa ideologia. Não é possível, por exemplo, que uma pessoa se identifique como ativista pelos direitos animais sem que antes tenha adotado um estilo de vida vegano. Veganismo não é o estágio máximo, superior, que o ativista deve atingir após anos de “desenvolvimento espiritual”. Veganismo é o estágio inicial, pelo qual ele primeiro realiza a mudança em si mesmo, para então buscar a mudança nos outros. Não devemos tentar ensinar aquilo que nem mesmo nós aprendemos.

No presente encontro-me afastado de muitas pessoas que conheci nessa jornada simplesmente porque disse a verdade. Vislumbrei que não estava no ativismo para fazer amigos, mas para atingir um objetivo. Amigos tenho fora do ativismo, pessoas que comem carne e que declaradamente não estão nem aí para os animais. No ativismo quero trabalhar com pessoas que vivam sua ideologia, e que tenham um estilo de vida compatível com ela. Pessoas que primem pela coerência. Disse certa vez John Kennedy “O segredo do sucesso é não tentar agradar a todo mundo”. Se algumas pessoas não suportam a verdade esse é um problema delas. Creio que no futuro os ativistas não precisarão passar por isso, pois já encontrarão dois movimentos bastante distintos.

E de que forma se dará o ativismo pelos direitos animais do futuro? Feitas as 5 perguntas e adotado a todo momento o pensamento criterioso, creio que o ativismo no futuro não lançará mão de recursos tão diversos dos já adotados atualmente, seja a divulgação de textos, o trabalho junto à mídia, a panfletagem, a organização de protestos, de performances, abaixo-assinados ou mesmo a ação direta. O que não temos hoje e espero que tenhamos no futuro é critério.

Não há nada de inerentemente errado em nenhuma das ações enumeradas acima. O erro está no uso que se tem feito de cada uma delas até o presente momento. A ação em si não tem sentido se ela não almeja um objetivo e se esse objetivo não condiz com os interesses dos animais. Considerando, ainda, que no futuro espera-se que haja um maior aprofundamento e até uma profissionalização do ativista, as ações tenderão a demandar menor gasto de tempo e energia com um maior rendimento nos resultados. Analisemos criticamente, à seguir, algumas dessas formas de atuação:

A divulgação de material é certamente uma ótima forma de atuação porque tem o potencial de educar as pessoas. Educar é, afinal, a melhor forma de atuação dentro do movimento. No entanto, sem critério, podemos estar divulgando material cujo conteúdo pode não condizer com a ideologia que queremos que as pessoas adquiram. Quando recebemos um material é prudente que, antes de repassá-lo, questionemo-nos: “Esse texto é perfeitamente coerente com minhas idéias? A linguagem empregada no texto é adequada? Ela é acessível? O texto é claro? Ele está bem embasado? A argumentação fere algum conceito ético?”.

Se o texto for ruim ou mais ou menos, não convém divulgá-lo. Quando as palavras não são colocadas de forma clara e exata e o texto dá margem a mais de uma interpretação, ou quando as palavras parecem ser medidas de modo a evitar tratarem explicitamente de direitos animais, veganismos ou outros temas, apenas porque o autor pode considerar que a população não está preparada para essas idéias, encontramos textos falhos. Textos com conteúdo religioso ou de ideologias diversas aos direitos animais também devem ser evitados. Textos que contenham referências a fatos científicos, como é o caso de nutrição ou fisiologia, devem ser tecnicamente bem embasados. Enfim, a divulgação de textos deve ser criteriosa e apenas textos que atendam a critérios bem específicos devem ser divulgados.

É curioso que no presente sejamos sempre incitados a dar apoio a determinado projeto de lei ou a assinar determinado abaixo-assinado, porque aí se encontra “a salvação dos animais”. Mas por que recebemos esse material já engessado, em um texto ruim e que não pode ser alterado? Por que a pessoa que agora te procura buscando teu apoio não te procurou antes, quando da elaboração desse material? Correndo o risco de parecermos mesquinhos, não se trata de orgulho de alguém que não foi consultado anteriormente, mas de alguém que não encontra naquele texto a expressão de suas idéias referentes àquele assunto.

Tendo em mãos um bom material para ser divulgado, cabe decidir a melhor forma de fazê-lo. Enviar textos pela internet é uma forma barata e com potencial de atingir pessoas em lugares distantes, mas mesmo aí é necessário haver critério. Se eu recebesse, digamos, textos com conteúdo evangélico em minha caixa de mensagens, além de não lê-los eu possivelmente pegaria birra de quem me enviou. Não tendo interesse pelo assunto não quero receber material com esse conteúdo. Simplesmente enviar material referente a direitos animais para pessoas que simplesmente não se interessam pelo assunto não as fará interessarem-se. Poderá, quanto muito, fazê-las adquirir aversão pelo assunto.

Outra forma de divulgar mensagens é através de panfletos. É providencial ter em mãos panfletos com bom conteúdo, para entregar às pessoas que por algum motivo se interessam pelo assunto e que querem saber mais. Panfletos são uma extensão da abordagem, trazem referências para que o assunto não morra ali, tenha uma continuidade. Bons panfletos trazem links para boas entidades; mais tarde a pessoa interessada pode buscar outras informações na internet.

Mas a panfletagem por si só, o ato vazio de entregar um panfleto para um pedestre na rua, ou para um motorista parado em um farol, não tem qualquer razão de ser. Quando recebo um panfleto na rua descarto sem ler. Ele vai parar na primeira lixeira ou no cestinho do carro. Pedestres que não tem tempo para conversar com você não terão tempo nem interesse de ler um panfleto que receberam na rua. Panfletos assim desperdiçados são recursos da entidade jogados fora, é lixo gerado, e não tem potencial de produzir os efeitos desejados.

Atividades como protestos e performances também precisam ser realizados de maneira bastante criteriosa. Precisamos a todo o momento questionar se com tais manifestações atingiremos algum objetivo. Particularmente assisto a protestos praticados por outros movimentos e não posso entender quais sejam suas exigências. Sei que uns são sem-terra, outros são estudantes de esquerda… mas o que eles realmente estão reivindicando? E se entendo a reivindicação, não entendo de que forma que o protesto pode ajudar. A quem ele é dirigido? Essa pessoa tem poder para cumprir com essas exigências? Se não há resposta para essas perguntas, o protesto ou a performance não fazem sentido.

Os protestos e performances em si não nos educam e, se chamam nossa atenção, nem sempre isso é feito de uma maneira positiva. Invariavelmente protestos significam pessoas segurando faixas e cartazes, e gritando palavras de ordem. Apenas quem está “puxando” o protesto tem voz, o restante é massa de manobra e não necessariamente está familiarizado com a situação. Há um lado hipócrita dos protestos, porque seu objetivo é juntar o máximo de pessoas possível, não importa qual seja sua ideologia.

Um protesto pode, inclusive, ser constituído por uma maioria que sequer pratica aquilo que está exigindo dos outros. Um protesto pelos direitos animais pode ser realizado por um grupo de pessoas cuja maioria não seja vegetariana. Um protesto pelo fim da experimentação animal pode ser promovido por pessoas que utilizam produtos testados em animais. Atividades que reúnem grande número de pessoas nem sempre são honestas e esse é um ponto importante a considerar.

Outro ponto importante é a possível antipatia que essa atividade pode gerar nas pessoas. Possivelmente uma pessoa que não pôde chegar em casa na hora desejada porque havia determinada atividade atrapalhando o trânsito não verá com bons olhos a mensagem desse grupo. Uma performance que faça uso de nudez ou que simule intercurso sexual pode não agradar a muitas pessoas, além de gerar o questionamento de como pode um grupo que combate o especismo fazer uso de recursos sexistas para levar adiante sua mensagem. E mesmo que a performance não faça uso desses recursos cabe o questionamento. É uma performance de bom gosto? As pessoas que a assistem entendem a mensagem?

Entendo que ter uma boa relação com a mídia é primordial para o futuro do movimento. Possivelmente no futuro os ativistas contarão com um corpo de especialistas nos diversos assuntos pertinentes aos direitos animais, prontos para fornecer opiniões sobre os diferentes assuntos. O ativismo contará também com uma efetiva assessoria de imprensa. Estar na mídia é importante, mas apenas quando a mensagem a ser transmitida é clara e está livre de distorções. No presente prevalece a idéia de que estar na mídia a qualquer custo é algo vantajoso. Isso está errado. Se for para aparecer em uma situação de ridicularização, ou transmitindo uma mensagem que não condiz com a ideologia, é melhor não estar na mídia.

Igualmente, as ações diretas, tão valorizadas por uns, tão depreciadas por outros, na verdade podem ser consideradas válidas desde que obedecendo a determinados critérios. As ações que se confundem com vandalismo, terrorismo, violência, etc. devem ser combatidas, não porque aqueles que sofrem essas ações mereçam alguma consideração, mas porque a impressão de que determinado grupo pratica violência tem efeito negativo sobre a população. Nós somos a forma como os outros nos vêem. Se educação é a principal bandeira do movimento, convém que as pessoas sintam simpatia pelo mesmo. Invadir um laboratório e dele retirar animais pode gerar simpatia ou antipatia, depende da forma como isso será feito.

Outro problema relacionado à ação direta é o possível destino que poderá ser dado aos animais. Em um determinado momento um grupo bem intencionado de jovens ativistas poderão ter em mãos centenas de cães, gatos, coelhos, furões, macacos, chinchilas, ou seja qual for a espécie animal. O que fazer com esses animais? É óbvio que quase qualquer coisa é melhor do que um laboratório ou uma fazenda de pele, mas simplesmente soltar animais em um ambiente selvagem não é algo bom de se fazer, primeiramente porque não sendo aquele o ecossistema ao qual o animal pertence e tendo esses animais passado suas vidas em cativeiro, suas chances de sobrevivência são mínimas. Em segundo lugar a introdução de espécies estranhas ao ambiente gerará impactos sobre as espécies ali presentes.

Um terceiro problema relacionado à ação direta é que o senso de justiça dos ativistas não condiz com o senso de justiça da polícia. O que uns podem ver como libertação, para outros significa vandalismo, invasão e roubo de propriedade. Ativistas podem ser presos praticando ação direta e precisamos de ativistas do lado de fora das prisões. As ações diretas não devem ser totalmente condenadas, mas menos ainda devem ser encorajadas. Os ativistas são mais úteis aos animais desenvolvendo outras atividades do que se envolvendo com ações diretas.

Enfim, de uma maneira geral, o que difere o ativismo do presente e o ativismo do futuro é que no futuro os ativistas terão mais senso crítico. No futuro as ações serão melhor planejadas, e por isso serão mais efetivas, com menor gasto de tempo e energia. No futuro haverá ativistas especialistas em diferentes assuntos. Haverá materiais de qualidade cobrindo os mais diferentes assuntos, o que evitará que continue a se proliferar a falta de informação e o ‘achismo’. Acima de tudo, o ativismo no futuro se desvencilhará do estigma de atividade de gente desocupada, de gente radical, de gente relacionada ao esoterismo ou hippies. Assumida uma postura mais séria e com uma mensagem mais clara, haverá maior respeito da população e da mídia.


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Olhar Animal – www.olharanimal.org


Necessidade de experimentação animal?

A experimentação animal é necessária para o bem-estar e a saúde humana? A resposta para essa pergunta é não. Para explicar de uma maneira bem simples, se assim o fosse, não seria necessária a existência de medicamentos de uso veterinário e medicamentos de uso humano, e poderíamos escolher entre nos operarmos em um médico ou um veterinário. Com efeito, não haveriam diferenças entre ambas as profissões.

Qualquer pessoa que tenha estudado biologia aprende que organismos evoluem. Evoluir significa diferenciar, derivar. Ratos e camundongos são animais parecidos, mas não idênticos; eles derivaram de um mesmo ancestral comum, cada qual com suas características. Mas uma vez que as diferenças se acumularam, duas espécies surgiram, próximas, mas diferentes. Fato é que ambos os organismos reagem de maneiras diferentes a determinadas drogas, a determinados tratamentos. Não basta sabermos que ratos pesam mais do que camundongos para corrigirmos a dose de uma droga, pois não existe qualquer linearidade que confira cientificidade a essa extrapolação. As diferenças entre espécies são qualitativas e não quantitativas. 

Da mesma forma acontece com o rato em em relação ao hamsters, o hamster em relação ao porquinho-da-índia, esse em relação ao coelhos, os sapos, os pombos, cães, gatos, porcos, macacos e, é claro, o homem. Nenhum resultado que se obtenha desses animais poderá ser aplicado ao homem, porque ao contrário do que querem nos fazer acreditar, o rato não é um ser humano que pesa quinhentas vezes menos. Também, a diferença de 0,4% entre os genes do chimpanzé e do homem não tornam esse um modelo recomendável para a pesquisa de doenças humanas em 99,6% dos casos. 

Animais utilizados em experimentação, para serem considerados “bons”, precisam pertencer a linhagens específicas. Eles precisam ser o mais homogêneos possível, com o mínimo de variação genética. Dessa forma, os resultados que se obtém desses experimentos são bem agrupados. Se ao invés de utilizarem animais de mesma linhagem fossem utilizados animais com diferentes procedências, ainda que pertencentes à mesma espécie, os resultados obtidos seriam inconclusivos, pois mesmo dentro de uma mesma espécie as diferenças tornam as reações aos tratamentos muito variadas. Daí pode-se entender a inconsistência da defesa da utilização de animais. 

A alegação mais comum para defender essas práticas é a de que seres humanos e animais domésticos são diretamente beneficiados por esses experimentos. Defende-se que, sem as pesquisas em animais, o ser humano não disporia de vacinas, transplantes, anestesias, nem das drogas que pretensamente tratam as diferentes doenças. Alarma-se para a idéia de que o fim da experimentação animal representaria o fim da humanidade. O declínio em nossa qualidade de vida, em nossa longevidade. Estas alegações são, para dizer o mínimo, enganosas. 

Embora todos esses tratamentos tenham sido exaustivamente testados e aprovados em animais, todos eles se mostraram falhos em produzir efeitos promissores em seres humanos, pelo menos em um primeiro momento. Muitos deles, apesar da segurança comprovada em animais, mostraram-se prejudiciais a seres humanos, produzindo severos efeitos colaterais. E se a intenção desses experimentos era impedir que seres humanos fossem utilizados como cobaia, isso não aconteceu. 

Se hoje transplantes de órgãos podem ser realizados com maior sucesso e existem vacinas um pouco mais seguras, foi porque ao longo dessas últimas décadas esses tratamentos foram testados em seres humanos, muitas vezes às custas de suas vidas e saúde. O pretenso sucesso desses tratamentos em tempos mais recentes, embora possa vir a ser contestado em outras instâncias, não pode ser atribuído ao uso de cobaias animais, mas sim ao uso de cobaias humanas. 

Seres humanos morreram nos primeiros transplantes de órgãos, seres humanos sofreram severos efeitos adversos de vacinas do passado, e com base nessas tentativas e erros, a atual medicina foi construída. Não com base na experimentação animal. 

Mas, se a experimentação animal não beneficia aos humanos, por que a maioria das pessoas acredita que ela é essencial? Podemos dizer que em certo sentido a ciência funciona como uma religião, onde a autoridade do alto clero jamais é contestada; assim, um doutor jamais pode ser questionado, mesmo que seja um mero reprodutor de uma idéia que ouviu. O próprio cientista muitas vezes não se questiona, o que parece um contra-senso, mas ele assume que determinados pressupostos são verdadeiros e os defende cegamente. 

Em outra abordagem, a ciência é mercantilista. Ela funciona por interesses comerciais, e a experimentação animal é interessante nesse aspecto. Além de todos os equipamentos e insumos necessários para a manutenção de animais de laboratório (gaiolas, equipamentos de contenção, rações, etc) a indústria lucra com a experimentação animal. 

Indústrias, como a farmacêutica, obtêm seus lucros da venda de seus produtos, no caso, medicamentos. Por isso, elas necessitam convencer a população de que seus produtos são vitais para sua qualidade de vida. Esforços são feitos para convencer as pessoas de que o aumento em nossa expectativa de vida tem relação direta com a enorme disponibilidade de drogas e tratamentos atuais. Poucos atribuem essas melhorias às nossas atuais condições de moradia, de higiene, abastecimento de água limpa, saneamento, segurança alimentar, etc, fatores estes que também passaram a preponderar nas últimas décadas. 

O papel da experimentação animal 

Nossa vida e bem-estar não dependem da experimentação animal. As experiências com animais apenas resguardam os interesses da indústria farmacêutica e associadas, possibilitando colocar no mercado drogas nem sempre seguras às pessoas. Experimentos em animais são conduzidos para amenizar as responsabilidades de laboratórios que lançam no mercado produtos que mais tarde poderão vir a prejudicar seres humanos. 

Por exemplo, se o xampu que não deveria arder nos olhos queimou os olhos de uma menina, isso é visto como uma fatalidade; testes realizados em olhos de coelhinhos mostram que o produto é seguro. E quem pode provar que o cigarro está associado a alguma doença, quando experimentos com animais mostram resultados inconclusivos? 

Após passarem por todos os testes ‘necessários’, em animais, e serem colocadas no mercado, muitas drogas precisam ser recolhidas. Isso porque seus efeitos adversos começam a se manifestar na população, muitas vezes de forma grave. Os testes em animais não podem prever esses efeitos, e isso é de conhecimento da indústria, mas há uma necessidade de que eles sejam conduzidos para prevenir a indústria de futuros processos. 

Se todos os testes considerados necessários pela legislação forem realizados em animais a indústria se isenta de sua responsabilidade. As pessoas que vierem a falecer em decorrência do uso de um medicamento tornam-se fatalidades. Números aceitáveis frente aos possíveis benefícios do medicamento. 

A ciência que utiliza animais de laboratório não é uma ciência boa, não apenas porque vitima animais inocentes, mas porque os resultados que produz prejudicam também ao ser humano. Esta metodologia conduz ao erro, ao atraso, a dados errôneos, à má-interpretação, à incoerência e ao desperdício de vidas. A abolição da vivissecção não é algo para ser pensado para o futuro, ela deveria ser algo do passado, é urgente. A utilização de animais em experimentos é um erro que se propagou na ciência e que ainda não foi suficientemente questionado. Cabe à sociedade como um todo se mobilizar no sentido de extingui-la.


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Educação humanitária

 

Recentemente tive a oportunidade de assistir a uma interessante palestra do professor Vinicius Signorelli, da Sangari do Brasil, onde importantes questões educacionais foram abordadas. Em sua exposição, o professor tratou de algumas problemáticas do ensino que tive a oportunidade de experimentar na qualidade de estudante e, mais tarde, na qualidade de educador.

Um dos pontos mais importantes, ao meu ver, era a questão da necessidade de transmissão de todo um conteúdo programático em determinado espaço de tempo. Meu professor de química do ginásio provavelmente tinha a noção de que não adiantaria tentar nos ensinar sobre ligações químicas logo na segunda aula, após nos haver ensinado sobre os modelos atômicos, porque não havíamos ainda compreendido aquela primeira parte da disciplina. E antes que pudéssemos compreender essa segunda aula, já estávamos aprendendo sobre funções inorgânicas, cálculo estequiométrico ou massa atômica. É possível que eu só tenha começado a entender o conceito de átomos nas duas últimas aulas do ano, que eram sobre química orgânica.

O mesmo problema tive de enfrentar em outra posição, quando me tornei professor em um cursinho, porque todo o conteúdo de 2º grau de biologia precisava ser transmitido aos estudantes em um ano, estivessem eles entendendo a matéria anterior ou não. Por mais que as aulas fossem transmitidas em um tom informal e houvesse um plantão para tirada de dúvidas, o conteúdo da disciplina precisava ser decorado, não apenas compreendido. E afinal, não podemos explicar porque que um estudante de segundo grau que prestará vestibular para a faculdade de letras precisa saber sobre a função do retículo endoplasmático ou calcular quais as forças atuando sobre um carrinho correndo sobre uma mesa. Porque mesmo que ele decore essas coisas para passar no vestibular, é provável que logo as esqueça.

O ensino de ciências deveria incitar a curiosidade científica dos estudantes, e não apenas fazê-los decorar tabelas e esquemas. Entender o que precisa ser aprendido só acontecerá quando o aluno despertar interesse pelo assunto e conseguir realizar conexões entre os diferentes fenômenos. A ciência se encontra de tal forma desvinculada dos outros campos de conhecimento, distante de nossa realidade, que a maioria de nós se sente incapaz de associar os eventos cotidianos à pratica de aprendizado de ciências.

Mais do que receber toda uma carga de conhecimentos que ele provavelmente não é capaz de absorver, o estudante precisa ter a ciência em seu cotidiano, precisa ser capaz de interpretar sua realidade à luz do raciocínio científico. E, mais do que isso, o ensino de ciência não deve se limitar ao seu campo de atuação, mas se estender a outras áreas.

É fato que o conteúdo transmitido pelo educador interfere no cotidiano do estudante. É desejável que essa interferência ocorra, mas somente quando ela for positiva. A história mostra que a ciência pode ser usada tanto para bons quanto para maus fins. O uso, a inclinação que se dará para ela, em muito depende da educação que o cientista em formação recebe, não apenas no que se refere às questões diretamente abordadas enquanto conteúdo explícito, mas também todo o conteúdo transmitido mediante o currículo oculto.

E por “currículo oculto” entendamos todos os valores que são transmitidos aos estudantes, impregnados no conteúdo da disciplina ou na forma como esse lhes é transmitido. Esses valores acabam por moldar o caráter dos estudantes, influenciando suas atitudes para com seus colegas, sua família e a comunidade.

Muitas vezes o currículo oculto passa despercebido aos olhos do professor. Uma frase mal colocada ou uma informação omitida e aquela simples aula sobre evolução darwinista acaba inspirando sentimentos racistas. Em outras ocasiões, é nítido que o currículo oculto é propositalmente inserido dentro do contexto, com vistas a transmitir uma mensagem subliminar. E o caso da utilização didática de animais, onde a mensagem de que animais são recursos ou de que tudo é permitido em nome da ciência parece ser ainda mais importante do que aprender anatomia interna da minhoca.

Cabe ao educador estar atento, porque mais do que ciência, ele está ensinando valores; Cabe à sociedade estar atenta, porque mais do que formar possíveis cientistas, as escolas formam cidadãos. Nesse contexto cabe falar sobre a “educação humanitária”.

A educação humanitária pode ser definida como a educação que incentiva o respeito e a ética para com todos os seres, no contexto do ensino de ciências. Ela não visa apenas a transmissão do conhecimento contido no conteúdo programático, mas também o desenvolvimento de atitudes positivas em relação ás pessoas, aos demais animais e ao meio ambiente.

Há uma ligação direta entre o respeito aos seres humanos e o respeito aos demais animais e ao meio ambiente. É fatídico que o currículo oculto atualmente traga a mensagem de que os animais são recursos, objetos descartáveis, porque uma mensagem que talvez escape a essa programação é a de que seres humanos também são objetos. Não há como evitar que uma coisa leve à outra.

Estudos revelam uma correlação entre a prática de desrespeito contra animais na infância e a prática de crimes hediondos na idade adulta. Crianças que experimentam a violência doméstica com maior freqüência se tornam adultos insensíveis. De igual maneira, crianças que vivenciam a violência contra animais tendem a perder a capacidade de sentir compaixão e passam a desrespeitar outras formas de vida.

No “currículo oculto” das instituições de 2º grau e principalmente nas universidades, há práticas voltadas especificamente para dessensibilizar os estudantes. Por exemplo, estudantes são induzidos a realizar procedimentos em animais agonizando, de forma que se tornem menos sensíveis ao seu sofrimento. Dessa forma, espera-se que isso os capacite a terem “sangue frio” para tratar pacientes humanos agonizando.

O grande problema dessa prática é quando ela dá certo, porque é nítido que há um problema quando um estudante presencia um cão agonizando e não se compadece. O estudante de medicina que vê esse animal como um objeto, como um boneco para realização de procedimentos desnecessários, dificilmente terá uma visão diferente de seus pacientes. Não é a toa que o cenário que encontramos é de uma medicina desumanizada. O paciente que acorre a um consultório particular recebe, na maioria das vezes, um tratamento com alguma dignidade, afinal, ele é um cliente; mas o paciente que acorre a um hospital público não tem o mesmo tratamento, porque o médico o trata conforme aprendeu a tratar.

A educação humanitária, por outro lado, visa formar mais do que médicos e cientistas. Ela visa formar cidadãos responsáveis, éticos, compassivos, sensíveis. Porque é óbvio que um médico que escute seu paciente e de fato esteja preocupado com sua saúde é melhor profissional do que um médico que apenas exercite seu ego fazendo uso de um poder exercido em caráter temporário.

Mais do que um movimento de “proteção às cobaias”, esse é um movimento pela qualidade no ensino das ciências, da biologia, da medicina veterinária e humana. E de fato, diversos estudos demonstram que estudantes aprendem melhor através dessas metodologias, porque elas enfocam o conteúdo das disciplinas, não distraindo o estudante com a preocupação de se o animal vai acordar, se ele ainda está respirando, se ele vai morrer etc. Nada ali confronta sua ética ou compaixão, não há conflito, e por isso mesmo, o estudante não tem outra preocupação senão aprender.

As metodologias utilizadas na educação humanitária são as mais variadas, sendo que todas procuram desvincular o estudante da visão de que animais são recursos. Não necessitamos de cães, ratos ou coelhos para entendermos como funciona o sistema circulatório, para isso podemos utilizar atlas anatômicos, livros textos, softwares educacionais, simulações computadorizadas, slide-shows, manequins anatômicos, vídeos, cadáveres de animais obtidos de forma ética, podemos utilizar recursos que permitam que os estudantes estudem o sistema circulatório em seus próprios colegas, de forma consentida, amigável e interativa. Enfim, as possibilidades são imensas e não há porque limitá-las a uma única metodologia, tão discutível e polêmica.

O processo de aprendizado de ciências não precisa ser esse pesadelo desumano, onde as convicções éticas do estudante são a todo momento agredidas pela imposição do conceito de que isso é necessário ou imprescindível, para sua formação. A coação para que os estudantes participem dessas práticas de fato em nada contribui para seu futuro, pelo contrário, os torna sujeitos menos sensíveis e questionadores ou leva muitos à evasão para outros cursos. Com isso a ciência perde, porque deixa de atrair pessoa sensíveis e questionadoras.

A educação humanitária já é praticada em países europeus e nos EUA há muitos anos e não há porque não implementá-la também no Brasil. Dela não se beneficiam apenas aqueles que tem afinidade pelos animais, mas também o indivíduo e a sociedade.


 

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Uma questão de “tudo ou nada”?

É certo que os direitos dos animais não serão conquistados da noite para o dia. Da noite para o dia as pessoas não se conscientizarão de que os animais possuem direitos inalienáveis, e ainda que o façam, provavelmente não adotarão o veganismo de uma vez. Certamente as pessoas não passarão, tão rápido quanto desejamos, a considerar a prática de um crime contra um animal na mesma categoria que consideramos os crimes contra seres humanos. Neste ponto concordam tanto as pessoas que defendem os direitos dos animais, quanto aquelas que acham que podemos continuar explorando-os, desde velando por seu “bem-estar”.

No entanto, há profundas discordâncias quanto ao que se pode fazer nesse meio tempo, qual a estratégia a ser adotada para de fato proteger os animais. Aqueles que lutam pela idéia de “bem-estar” animal defendem que, não sendo possível promover os direitos dos animais a curto prazo, deve-se promover sua exploração de maneira mais “compassiva”, “menos ruim”. Esta idéia, obviamente, contrapõe-se à idéia fundamental de que os animais não devem ser explorados e por isso ela deve ser rejeitada pelas pessoas que acreditam nos direitos dos animais. 

Simplesmente não há porque comemorar quando o Centro de Controle de Zoonoses passa a “sacrificar” animais abandonados por um método menos doloroso, ou quando se aprova uma lei pelo “abate humanitário” de bovinos, porque essas não são conquistas em favor dos direitos dos animais. Essa estratégia apenas reafirma a idéia de que o que fazemos, que é anti-ético, pode ser resolvido simplesmente alterando a técnica. Essa idéia é especialmente perigosa quando vemos que muitos “protetores de animais” apóiam tais mudanças como se fossem “vitórias pela causa”. Isso é simplesmente a antítese de qualquer reconhecimento de que animais possuem direitos inalienáveis. 

Por outro lado, em defesa dessa estratégia, têm-se dito que a luta pelos direitos dos animais, o que convencionou-se chamar de “abolicionismo”, é uma utopia para o momento e que os abolicionistas adotam a política do “tudo ou nada”. Por essa política de “tudo ou nada” entenda-se que, uma vez que a completa abolição da escravidão animal não é possível, não vale a pena lutar por pequenos ganhos. Essa má concepção é obviamente falsa, como veremos a seguir. 

O movimento abolicionista jamais defendeu que seja possível tornar as pessoas veganas da noite para o dia, e muito menos o modo de ação desse movimento fundamenta-se na política do “tudo ou nada”. O que esse movimento defende, sim, é que nem tudo o que se faz em nome dos animais é em seu benefício e que, muitas vezes, o que fazemos nos levam mais para longe de nossos objetivos. Toda ação merece uma reflexão: Que benefícios tal ação pode trazer para a causa? Vale a pena despender energia e atenção do público para promover objetivos que não sejam nossos objetivos finais? Vale a pena uma entidade que se empenha em associar seu próprio nome com a defesa dos animais ou com um estilo de vida compatível com seus direitos promover algo que esteja em desacordo com esses objetivos? Há possibilidade dessa ação contribuir de alguma forma com objetivos oposto à causa? 

Em verdade, o que aqueles que lutam pelos direitos dos animais defendem é que uma informação que leve as pessoas a concluir algo diferente daquilo que queremos que elas concluam é pior do que informação nenhuma. E uma ação que resulte em conseqüências que nos levem em direção diferente àquela para a qual queremos ir e pior do que ação nenhuma. Isso não é “tudo ou nada”, porque é possível fornecer às pessoas informações parciais mas que lhes indiquem o caminho a seguir e é possível se empenhar em pequenas ações que nos levem na direção correta. É possível se empenhar em uma campanha por um objetivo pontual mas que não esteja em desacordo com os direitos dos animais. Isso é significativamente diferente de adotar um objetivo que seja contrário aos direitos dos animais, ainda que aparentemente esteja ao seu favor. 

Da noite para o dia… 

Quando a informação é transmitida de forma clara e indubitável, as pessoas podem apreciá-la e entendê-la; não há confusão. Ainda que as pessoas não se sintam capazes de colocar esse conhecimento em prática, por uma série de fatores sociais, econômicos ou pela própria conveniência, o conhecimento foi adquirido. Com o tempo ele poderá ou não ser colocado em prática, mas isso dependerá exclusivamente do livre arbítrio da pessoa. A mensagem foi passada e entendida, cabe à pessoa começar a seguí-la tão logo sinta-se pronta. 

Querer manipular a qualidade e profundidade da informação com base no que a população está preparada para seguir torna a mensagem confusa e contraditória. Os objetivos passam a se distanciar dos objetivos originais e, ainda que essa mensagem possa alcançar a mais pessoas, ela não representa de fato um ganho pela causa. A entidade sim, pode ganhar: doações de particulares e de outras entidades, incentivos governamentais, alianças com outras instituições… mas isso apenas beneficia à entidade e não à causa pela qual ela deveria estar lutando. 

Para entendermos o prejuízo desse processo de “nivelamento por baixo”, tão recorrente nos grupos que defendem o bem-estar animal, tomemos como exemplo outras entidades que lutam por causas nobres: O que seria da luta anti-tabagista se a Sociedade Brasileira de Pneumologia passasse a recomendar cigarros com menos nicotina e alcatrão, “já que as pessoas não vão parar de fumar da noite para o dia”? O que seria da luta contra o alcoolismo se a Alcoólicos Anônimos adotasse a idéia de que consumir cerveja é “menos ruim” do que consumir bebidas destiladas? Se ela mantivesse um discurso do tipo “já que as pessoas não vão parar de beber da noite para o dia, pelo menos que bebam bebidas menos fortes”? Se um grupo de combate às drogas pedisse para que as pessoas só fumassem maconha aos fins de semana? Que credibilidade essas entidades teriam se derivassem seu discurso para esse caminho? 

No caso da defesa dos animais as questões são as mesmas. Não há como acreditar em uma entidade que se diga protetora de animais quando sua defesa é que animais de laboratório podem ser usados desde que o cientista se comprometa com seu “bem-estar”, utilizando técnicas mais refinadas e em um número reduzido de animais. O que dizer de uma entidade que se empenha em participar de “comitês de ética na pesquisa”, como se a utilização de animais saudáveis em experimentos científicos e demonstrações didáticas, de alguma forma pudesse ser justificável pela ética? 

O que dizer de uma entidade que, ao invés de pregar pelo vegetarianismo estrito, se empenha em promover um sistema de exploração animal “menos ruim”? Galinhas e vacas criadas soltas, sem hormônios, para a produção de carne, leite e ovos? As entidades alinhadas com a idéia da promoção do “bem-estar” animal defendem que esse sistema de criação é positivo, porque os animais não “sofrem excessivamente”. Referem-se aos modernos métodos de criação mecanizada em termos negativos e fazem referências à época áurea em que os animais eram criados soltos na fazenda, sendo “respeitados pelos fazendeiros”. 

Ocorre que, passando essa mensagem ao público, o que se entende é que o abate de animais, sua exploração propriamente dita, não é um erro. Que o erro está na forma como isso é feito. Fala-se em “abate humanitário”, um termo totalmente fora de propósito, porque abater um animal saudável jamais será um ato de compaixão, um favor que se faz para ele. Da mesma forma, fala-se em leite de vacas sem hormônios, em queijo sem coalho animal, em ovos de galinhas criadas soltas, etc, como se essas pequenas alterações no sistema de exploração fossem a solução para o problema em si. 

É claro que a maior parte da população não deixará de comer ovos ainda nessa década, nem é essa a concepção daqueles que defendem os direitos dos animais. Isso não quer dizer que os grupos de “proteção” animal tenham o direito de estabelecer quais ovos podem ou não ser consumidos, porque o que se espera de um grupo que de fato respeita os animais é que a mensagem seja sempre a de que é errado explora-los, não importa por quais meios. 

A pessoa que cultiva um hábito alimentar onívoro, uma vez que entenda e aceite esses argumentos, provavelmente não se tornará imediatamente vegana, e nem é isso que se espera que ela faça. É provável que ela abandone o consumo de carne vermelha, carne branca e por algum tempo ainda mantenha o consumo de ovos e laticínios. Mas porque esse tempo de transição existe e deve ser respeitado, não significa que devamos alterar o discurso. Consumir produtos de origem animal continuará vinculado à exploração de animais, como o era no inicio, apenas que nesse momento entendemos que a pessoa esteja adaptando seu sistema e seus hábitos a uma nova situação, que poderá durar décadas e poderá estar repleta de tentativas mal sucedidas. Aqui fica claro que não é uma questão de “tudo ou nada”, porque a fase de transição existe e pode perdurar por muito tempo. 

Quando grupos deixam de promover o veganismo, acreditando que as pessoas não adotarão imediatamente esse hábito, e passam a promover algum outro hábito alimentar intermediário onde se faça uso de produtos de origem animal, na verdade encontramos uma mensagem truncada, corrompida e até contraditória. Porque toda a argumentação em favor de um hábito alimentar vegetariano em verdade se aplica ao vegetarianismo estrito, não servindo de suporte ao consumo de ovos, leite, mel ou outros produtos de origem animal. Parece claro que o ovo-lacto vegetarianismo é um prelúdio ao vegetarianismo estrito; trabalhar o ovo-lacto vegetarianismo como objetivo final contradiz o veganismo e todos os argumentos em favor do vegetarianismo. 

De igual maneira, admitir que resultados obtidos de experimentos com animais não se aplicam para seres humanos e ao mesmo tempo defender que animais necessitam continuar sendo usados em laboratórios enquanto não forem criadas técnicas que os substituam são duas informações essencialmente contrárias entre si. 

Trabalhar duas frentes antagônicas é contraditório, confunde a informação e parece mostrar que existem formas de amenizar o que fazemos com os animais, tornar sua exploração de alguma forma ética. Dessa forma, as más obras acabam por encobrir as boas obras, e a energia dispensada para causar desinformação à população sobrepuja a energia gasta para produzir boas informações. O saldo é negativo. 

Abolição – o caminho a seguir… 

Vemos surgir, em tempos mais recentes, um movimento de fato pelos direitos dos animais. Esse movimento ainda está se estruturando, ganhando forma, mas certamente deverá diferir significativamente dos movimentos que aí se encontram. Por não adotar nenhum modelo pré-existente, possivelmente seu trabalho passará despercebido. Mas seu objetivo não será fazer política ou aparecer, e sim promover o fim da exploração animal.

Se esse movimento virá a se constituir em uma ou mais entidades ainda não podemos saber, mas particularmente creio que isso seja desnecessário. Cada vez mais me convenço que as entidades podem contribuir muito pouco para o fim da exploração animal. A solução parece não estar nas mãos de um grupo nem de políticas miraculosas, mas sim em uma inversão de valores de toda a sociedade e no trabalho despretensioso de seus indivíduos.


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