Operação em seres humanos virtuais

Imagine que um paciente necessite de uma operação coronária urgente. Ele passa por exames e, na uma hora em que aguarda os resultados, cirurgiões realizam simulações para determinar a melhor forma de operá-lo.

Eles pesquisarão diferentes cenários cirúrgicos em ambiente de realidade virtual, de modo a tentar prever de que forma obterão melhores resultados no paciente. Com isso determinarão, por exemplo, em que local uma estimulação cardíaca seria mais efetiva naquele paciente, ou em que local a inserção de um tubo surtiria efeitos mais positivos para melhorar o fluxo de vasos bloqueados. Realizando tal simulação evita-se que o paciente seja submetido a tentativas e erros. Os procedimentos serão mais rápidos, mais efetivos e menos traumáticos.

Em quanto tempo? O Dr. Kohl, fisiologista da Universidade de Oxford e um dos principais cientistas envolvidos com o projeto Virtual Physiological Human (VPH) não sabe estimar. “50 anos – 10 anos – talvez até mesmo em 5 anos.” O projeto, financiado pela União Européia, visa produzir modelos biomédicos que simulem o corpo humano tanto estrutural quanto funcionalmente.

Biologia de hoje, biologia de amanhã

O foco da pesquisa biomédica tem sido, até então, a busca da compreensão do funcionamento do corpo desconstruindo-o. A partir de agora faz-se necessário que foquemos em sua reconstrução.

Até o momento a fisiologia tem visto o funcionamento do corpo de forma fragmentar. A partir de agora necessitamos entender de que forma essas diferentes partes interagem entre si, com a mente e com o meio ambiente. O avanço tecnológico que experimentamos recentemente permite que utilizemos de ferramentas que não estavam disponíveis no passado.

Não há modelo perfeito

Porém o Dr. Kohl não acredita que um dia seja possível obtermos um modelo completo do corpo, pois um modelo dificilmente terá todas as características do original. Além disso, um modelo perfeito seria tão complexo e incompreensível quanto o original, o que tornaria seu manejo dificultoso.

Modelos são representações simplificadas da realidade. Eles são construídos especialmente para simular determinadas situações. Eles necessitam ser constantemente reavaliados e atualizados e novos modelos devem ser criados para simular novas situações. Na comparação, como as ferramentas em uma caixa de ferramentas, deve-se selecionar o modelo certo para determinada situação.

Uma discussão sobre quais modelos são confiáveis

Muitas pessoas podem alegar que o fato de esses modelos de simulação não serem perfeitos atesta a necessidade do uso de animais na pesquisa. Nada mais distante.

A fisiologia de outros animais é tão complexa quanto a fisiologia humana e, assim sendo, sua compreensão demanda o mesmo esforço necessário para compreender a fisiologia humana. Além de tão complexa quanto, essa fisiologia é diferente da fisiologia humana. Assim, havendo diferenças e não sendo uma versão simplificada, animais não são modelos para a fisiologia humana.

Pelo contrário, simulações populacionais são feitas com base na própria fisiologia humana. Elas permitem visualizar a plausibilidade, simular cenários, vislumbrar procedimentos. Elas aproximam o profissional da compreensão, e não o distanciam como fazem os animais adotados como modelos.

O computador pode calcular probabilidades à frente, adiantar passos, e dessa forma tentar antever o que acontecerá com o paciente humano. Animais de laboratório não podem fazer isso.

Para saber mais sobre o projeto do Homem Virtual:

Adaptado de artigo da BBC News health de 12 de janeiro de 2009

Fonte: ANDA – Agência de Notícias de Direitos Animais


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Olhar Animal – www.olharanimal.org


Células-tronco e o direito de quem não nasceu

Foi divulgado nesta semana que um hospital escocês iniciará testes com células-tronco de fetos abortados, para tratar pacientes de derrame. O derrame é uma doença terrível e incapacitante, que apenas em um terço dos casos pode ser tratada com fisioterapia.

A ideia é retirar as células-tronco de fetos abortados, multiplicá-las e injetar no cérebro de pessoas que sofrem derrames. As células-tronco têm capacidade de se transformar em células diferenciadas, inclusive células neurais, reconstituindo o tecido danificado.

Devido à lentidão com que os processos tramitam no órgão americano que controla medicamentos e tratamentos (a FDA), optou-se por tranferir a fase clínica da pesquisa para o Reino Unido.

A controvérsia

Para que o tratamento possa ser testado em seres humanos ele foi previamente testado em animais experimentais. Os testes em animais mostraram que o tratamento é efetivo, no entanto, não é essa a prova de que o tratamento é seguro para seres humanos. Primeiramente porque seres humanos são diferentes de animais; diferentes tratamentos mostram-se seguros ou efetivos em animais e inseguros ou infetivos em seres humanos. O teste em um não assegura efetividade ou segurança no outro. Em segundo lugar, os animais utilizados para os testes não sofrem de derrame, mas tiveram parte de suas células neurais danificadas por meios artificiais. Embora os sintomas possam ser semelhantes, a doença não é a mesma.

A controvérsia, porém, não se encontra no uso de animais utilizados nessa pesquisa. Não se encontra, tampouco, na quantidade de recursos gastos com pesquisas inúteis, nem no tempo que foi perdido testando em animais um tratamento que já poderia estar aprovado para uso por seres humanos que de fato precisam dele.

Por incrível que pareça, a controvérsia encontra-se no fato de que as células-tronco utilizadas nesse tratamento foram retiradas de fetos humanos. Não fetos humanos abortados para esse fim, mas fetos humanos que, uma vez abortados, serviram para fornecer células que serão multiplicadas e produzirão tratamento para milhares de pacientes.

Tão logo a empresa Reneuron, que desenvolveu o tratamento, solicitou autorização para iniciar testes com seres humanos nos EUA, há dois anos, uma sociedade denominada Society for the Unborn Child (Sociedade pela Criança Não Nascida) iniciou suas criticas.

Aparentemente, essa sociedade defende que fetos abortados possuem direitos. Um direito esquisito, a bem dizer. Eles não são vivos nem chegarão a viver, mas por possuírem algo de humano (o DNA, talvez), merecem todo o nosso respeito.

Camundongos, ratos, porquinhos-da-índia, cães… enfim, animais inteiros, vivos, nascidos, sencientes, porém não humanos, não são alvo dessa controvérsia.

A defesa dos direitos de alguém que não nasceu e que jamais chegará a nascer não encontra fundamento na ética. Ela foge da esfera da academia, da ciência. Encontra respaldo apenas no pensamento religioso, que por sinal varia de indivíduo para indivíduo.

Quando o Vaticano e outras instituições religiosas quiserem de fato se envolver no debate referente à ética na ciência, se preocuparão com a senciência dos animais utilizados em laboratório, e não com a inércia das células-tronco fetais. Caso contrário, tudo o que for feito será em nome da veneração da figura do homem enquanto ápice da criação, e não qualquer outra coisa.

Fonte: ANDA – Agência de Notícias de Direitos Animais


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Xenotransplantes

Pesquisadores de Munique (Alemanha) divulgaram na revista Transplantation haverem criado porcos geneticamente modificados. Esses porcos poderiam, em um futuro não muito longínquo, produzir órgãos que gerariam menos rejeição ao serem transplantados para seres humanos.

Essa técnica de transplante de órgãos de uma espécie para outra é conhecida como xenotransplante (em oposição ao alotransplante, ou transplante de órgãos entre animais da mesma espécie). Ela tem como alegado benefício permitir a redução nas filas de espera de transplante de órgãos, uma vez que a procura tem sido maior do que a oferta.

Até o momento, todos os pacientes que receberam xenotransplantes morreram em curto espaço de tempo, especialmente porque os mecanismos de defesa imunológica do organismo receptor tendem a destruir o órgão transplantado, reconhecendo-o como um corpo invasor.

Mas será que todo o problema relacionado com os xenotransplantes limita-se à reação imunológica do organismo receptor? E pode realmente esse problema ser resolvido com porcos geneticamente modificados?

Ainda que a modificação genética sofrida pelos porcos permita que as células dos órgãos por eles produzidos não sejam consideradas invasoras no organismo receptor, há outras questões que precisam ser consideradas em relação aos xenotransplantes.

Problemas éticos

O filme A Ilha (Warner Bros., 2005), com Ewan McGregor e Scarlett Johansson, traz muitos elementos que permitem iniciar uma discussão ética em relação aos xenotransplantes. Nesse filme, clones de seres humanos são mantidos em um laboratório para servirem como fontes de órgãos para seres humanos originais.

Embora o transplante de órgãos, nesse caso, não seja de uma espécie para outra, em termos éticos a situação é exatamente a mesma, pois em ambos os casos um organismo senciente é criado e mantido com a finalidade de fornecer material para transplante.

Os xenotransplantes, como os transplantes realizados no filme, são possíveis apenas mediante a morte de uma “cobaia”, um ser reconhecidamente capaz de sentir dor, medo, amor, enfim, todas as sensações a que estão sujeitos também os organismos que irão receber os órgãos doados. No entanto, por questões comerciais ou de preconceito, algo faz com que o organismo receptor tenha mais direito à vida que o organismo doador.

Em verdade não faz nenhuma diferença ética se tratamos de seres humanos ou animais, se o órgão não provém de doação, mas sim foi retirado à revelia, ou se essa retirada ocasionou na morte do organismo doador, o transplante deve ser considerado antiético.

Problemas técnicos

Por mais que se aleguem semelhanças entre os órgãos de porcos e seres humanos, essas afirmações são feitas mais com base em formato e volume, e não em fisiologia e metabolismo. As diferenças existem e são muito significativas, a ponto de não se poder afirmar que órgãos extraídos de animais poderão realmente manter um ser humano vivo, ainda que se exclua o problema da rejeição do órgão.

Mesmo sendo fato que existem analogias entre as moléculas produzidas por determinado órgão do porco em relação ao órgão do ser humano, uma pequena modificação na estrutura dessa molécula, característica da espécie fornecedora, pode comprometer todo o seu funcionamento no organismo da espécie receptora.

Dessa maneira, embora o órgão esteja ali presente e por um ou outro motivo não sofra rejeição, sua função metabólica é bastante limitada visto que o órgão não interage com o resto do organismo de maneira satisfatória.

Problemas com o surgimento de novas doenças

Os xenotransplantes trazem outro risco, que é o de permitir o surgimento de novas doenças. Homens interagem com porcos há milhares de anos e, embora a proximidade seja antiga, inclusive implicando a predação de uma espécie pela outra, em nenhum momento desse processo houve troca de material biológico in natura. Explica-se: tocar com a pele na pele de um porco é diferente de injetar soro de porco na veia. Comer carne de porco assada ou cozida é diferente de introduzir o fígado do porco diretamente no corpo humano.

Existe uma série de doenças conhecidas que os porcos podem transmitir para o ser humano. Todas essas doenças podem ser detectadas por exames simples. No entanto, há uma série de outras doenças que os porcos podem transmitir para o homem e que ainda não são nossas conhecidas. No organismos dos porcos, como no de outros animais, há bactérias e vírus que lá estão como simbiontes. Para o porco eles não representam doenças, pois esses parasitas ali evoluíram e encontraram seu equilíbrio. Porém, quando esses parasitas entram em contato com o organismo humano e encontram nesse novo hospedeiro uma nova possibilidade de colonização, novas doenças podem surgir.

Mesmo animais provenientes de biotérios, livres de germes e doenças conhecidas não estão certificados contra esses parasitas, que não são ainda conhecidos e nem serão enquanto não se tornarem um problema.

É irônico pensar que, caso seja resolvido o problema referente à rejeição de órgãos de outras espécies, uma pessoa que sobreviva ao transplante representará um risco para toda a população, pois tão logo essa pessoa volte ao convívio social, ela mesma se tornará veículo de transmissão de uma nova doença.

Problemas financeiros

As pesquisas referentes aos xenotransplantes já consumiram até o momento bilhões de dólares em todo o mundo, com taxa de sucesso insignificante. Isso parece incoerente com um mundo onde a maior parte da população não tem acesso aos serviços básicos de saúde. Além disso, pouco se investe em medicina preventiva, essa sim com potencial significativo de salvar vidas.

A solução do problema

Por todo o exposto parece claro que a solução para o problema da falta de órgãos para doação não passa pelos xenotransplantes. Xenotransplantes não são boas opções para reduzir a escassez de orgãos e tecidos humanos e a insistência nessa linha parece ter mais interesses econômicos envolvidos do que interesses em salvar vidas humanas.

A solução para o problema passa por sua compreensão: existe uma enorme fila de espera de pessoas que necessitam de órgãos e tecidos e uma pequena quantidade de órgãos e tecidos para doação. O problema seria resolvido se houvessem menos pessoas necessitando de órgãos e houvessem mais órgãos disponíveis.

Faz-se necessário questionar:

– O que torna essa demanda por órgãos tão grande? Será que todos os casos em que transplantes são recomendados necessitam realmente de transplantes? Será que a aplicação de melhores técnicas de diagnósticos e cirurgias poderia diminuir bastante essa demanda?

–   Será que algumas dessas doenças não poderiam ser evitadas mediante campanhas de prevenção, possibilitando à população permanecer saudável em vez de negligenciar sua saúde até que a população adoecesse para então buscar a cura?

– Será que muitos problemas de malformação de órgãos não estariam associados à exposições indevidas ocorridas durante a gestação, fatores que poderiam ser evitados?

– Será que muitos dos pacientes que receberam órgãos já não o fizeram em estado muito avançado da doença, comprometendo sua sobrevida e o órgão doado que poderia ter sido mais bem aplicado em outro paciente com melhores chances?

– Será que já se fez tudo o que era possível para aumentar o número de doações de órgãos para transplantes? Uma melhoria na estrutura de captação não permitiria que o número de órgãos disponíveis aumentasse?

Além disso, existem alternativas muito mais promissoras do que os xenotransplantes para, ao menos, aumentar a sobrevida de pacientes na fila de espera dos transplantes de órgãos humanos. Os aparelhos mecânicos, por exemplo, já suprem em parte as necessidades fisiológicas do organismo, embora tenham a limitação de, à semelhança dos órgãos derivados de animais, não cumprirem algumas funções bioquímicas mais complexas. No futuro, essa limitação será suprida por técnicas de engenharia de tecidos, que permitirão a construção de órgãos artificiais elaborados com células obtidas do próprio organismo do paciente.

Essa técnica já apresenta alguns bons resultados no presente, mas novas pesquisas fazem-se necessárias.

Fonte: ANDA – Agência de Notícias de Direitos Animais


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AIDS

Artigo que será em breve publicado na Proceedings of the National Academy of Sciences reporta que uma equipe da Universidade Rockefeller (EUA) está desenvolvendo um novo modelo animal para a pesquisa da AIDS. A espécie dessa vez escolhida é a Macaca nemestrina, originária do sudeste da Ásia, e sua infecção somente é possível quando os cientistas induzem uma mutação no vírus HIV-1.

Por infecção entenda-se a reprodução do vírus no corpo do hospedeiro, mas não necessariamente o desenvolvimento de alguma patologia por parte dos animais. Também nesse caso, como em outras pesquisas envolvendo primatas, as cobaias não desenvolveram a doença que conhecemos como AIDS, ou seja, não adoeceram por conta da infecção pelo HIV.

A origem da AIDS

A escolha de primatas como modelo animal para a pesquisa da AIDS se deve à proximidade que existe entre o vírus HIV (human immunodeficiency virus) e o vírus SIV (simian immunodeficiency virus). A teoria comumente aceita é a de que o vírus HIV surgiu quando seres humanos entraram em contato com chimpanzés contaminados com o vírus SIV, possivelmente nas selvas de Camarões.

De que forma o vírus passou dos chimpanzés para os seres humanos ainda não está claro, no entanto, estudos mostram que existem mais de 30 espécies de primatas em toda a África que possuem sua própria linhagem de SIV, sendo que o vírus sofre mutações cada vez que entra em contato com um novo hospedeiro. 

A criação de novas linhagens do vírus

Da mesma forma que ocorre na infecção natural, quando uma espécie transmite o vírus à uma outra, seja por processo de predação, seja por outra forma de contaminação cruzada, o processo de pesquisa da doença tem potencial de criar novas linhagens do vírus e, portanto, novas variantes da doença.

A pesquisa em questão deixa isso claro, pois pesquisadores nesse caso deliberadamente criaram uma nova variedade do vírus para conseguirem infectar o primata. Pode-se alegar que o experimento é controlado e que a nova linhagem desenvolvida está confinada a um laboratório, mas a história mostra que não existe processo inteiramente seguro, que organismos escapam de laboratórios.

Novas linhagens de vírus surgindo são justamente o que torna qualquer possibilidade de combate ao vírus inefetiva. Em resumo, uma pesquisa como essa tem mais potencial de causar prejuízos para seres humanos do que trazer benefícios.

A AIDS e os modelos animais

Como ocorre em outras doenças, no caso da AIDS animais não são modelos preditores da forma como a enfermidade se manifestará em seres humanos. Em qualquer patologia, mesmo quando a infecção de animais é possível, os sintomas e o desenvolvimento da doença ocorrem de maneira completamente diferente da forma como ocorre em seres humanos.

Mesmo a pesquisa do SIV em primatas não tem potencial de trazer conhecimento sobre a forma como o HIV se comporta. Embora exista alguma similaridade, o SIV e o HIV diferem significativamente.

Muito tempo, dinheiro e recursos humanos já foram gastos na pesquisa da AIDS em modelos animais, sem nenhum sucesso. Essa nova pesquisa será apenas mais um passo na direção errada. Os próprios pesquisadores admitem que os dados que eles obtiveram não são aplicaveis, que eles apenas lançam uma luz sobre pesquisas futuras. E que pesquisas seriam essas? O desenvolvimento de uma vacina que seja efetiva em curar animais que sequer ficam doentes? Anos e anos de pesquisa desperdiçados em algo que por fim não terá nenhuma aplicação para seres humanos?

O futuro da pesquisa sobre a AIDS

Por mais de 20 anos grande parte da pesquisa referente a AIDS envolveu primatas e outros modelos animais, no entanto tudo o que sabemos sobre essa doença proveio da pequena quantidade de pesquisas envolvendo a observação de seres humanos infectados naturalmente com AIDS e de seus tecidos. Parece claro que qualquer forma de tratamento deverá vir dessa mesma fonte.

Autópsias, pesquisa in vitro envolvendo tecidos humanos, pesquisas epidemiológicas, pesquisas genéticas, utilização de modelagem matemática e computacional são formas mais efetivas de pesquisa porque elas adotam como modelo uma situação real e não um modelo forçado que não condiz de forma alguma com a realidade. Torna-se evidente que o modelo animal nunca serviu e que precisa ser completamente abandonado.

Fonte: ANDA – Agência de Notícias de Direitos Animais


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Ética e dogma

Nas discussões acadêmicas e extra-acadêmicas referentes à bioética, vemos uma forte participação da Igreja nas tomadas de decisão, afinal, 74% dos brasileiros são católicos nominais, embora em grande parte não praticantes ou praticantes de outras religiões.

Mas os números não são importantes, o importante é que o Brasil é considerado um país católico e, embora haja separação entre o Estado e a Igreja, a Igreja ainda exerce forte influência.

Seja uma discussão sobre eutanásia, aborto, uso de células-tronco… lá estão representantes da Igreja emitindo opiniões dogmáticas, agora sob o nome de “ética”. Ora, a ética não tem nenhuma relação com dogmas e esse conceito deve ser rejeitado.

A ética é racional, fundamentada e frequentemente contrária aos dogmas da Igreja.

Vejam-se os casos de pedofilia que envolvem a Igreja. Por uma questão irracional e provavelmente dogmática, padres pedófilos não são submetidos a nenhuma pena seja dentro, seja fora da Igreja. Sua punição com frequência envolve a transferência para uma nova Paróquia, onde ninguém tem ciência de seus crimes do passado e onde o pedófilo tem liberdade para continuar praticando seu vício.

Esse último episódio que envolve o arcebispo de Olinda e Recife e a excomunhão das pessoas responsáveis pelo aborto em uma menina de 9 anos estuprada pelo padrasto fornece outra prova disso. Sob o nome de “ética” a Igreja, o próprio Vaticano, opôs-se ao aborto, alegando preservação da vida humana. Oras, exatamente para a preservação da vida humana, da menina violentada, que esse aborto foi recomendado e autorizado.

Se a excomunhão não ocorreu, se a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil resolveu voltar atrás desse processo, revogando um édito do arcebispo e do próprio Vaticano, isso não foi feito por piedade, mas porque o assunto chamou a atenção pública, e a Igreja já está com a imagem abalada. Ironicamente, a CNBB emitiu nota condenando o estupro, mas jamais cogitou excomungar o padastro estuprador. Aparentemente o estupro fere a ética mas não os dogmas da fé.

Para o dogma, o estupro não é o pecado, o pecado está em salvar a vida da mãe e livrá-la de uma gravidez indesejada; o pecado não é proliferação de doenças sexualmente transmissíveis, mas a distribuição de preservativos que “estimularão” as pessoas a praticarem sexo; o problema não está em nascer com malformação de algum órgão vital, o pecado é utilizar células congeladas e insensíveis para tentar alcançar a cura; não está em vegetar em cima de uma cama por décadas sem qualquer processo mental e sem nenhuma dignidade, o pecado está em desligar os aparelhos que mantêm o paciente preso a esse mundo.

A Igreja se coloca sempre em favor da preservação da vida e evoca sempre o mandamento não matarás, mas é óbvio que isso é apenas um argumento de retórica. Essa mesma preocupação incondicional com a preservação da vida e com o mandamento do Senhor não encontra eco quando se trata de outras vidas que não a humana e com frequência demonstra não se aplicar, tampouco, à vida humana.

O problema se encontra onde dogma e fé se confundem com ética e racionalismo.

As opiniões de qualquer grupo religioso são pertinentes apenas às pessoas que partilham aquele mesmo sistema de crenças. Para todas as demais pessoas, essas opiniões podem ser escutadas, à título de conselho ou por mera curiosidade, mas elas não devem pesar nas decisões finais aplicadas a toda a coletividade.

Fonte: ANDA – Agência de Notícias de Direitos Animais


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Por que ainda existe a experimentação animal?

Em minhas palestras frequentemente sou questionado sobre o porquê de, havendo tantas evidências de que a experimentação animal é inútil na promoção do bem-estar e da saúde da população e, pelo contrário, se é fato de ela frequentemente contribuir para o erro médico e o surgimento de novas doenças, ainda assim insiste-se na experimentação animal.

A resposta é bastante simples, correndo até o risco de ser simplista. Em resumo grande parte da explicação passa pelos interesses de instituições, governos e indivíduos que lucram com a experimentação animal. Não se trata de um pequeno grupo de indivíduos que defende uma pequena fatia lucrativa do mercado. Trata-se de um lobby muito bem estruturado que defende o interesse das indústrias mais lucrativas do mundo. E a argumentação para essa defesa com frequência passa longe da técnica.

Geralmente essas instituições, governos e indivíduos apresentam-se como preocupados com o bem-estar da população, com a saúde pública, etc. Invariavelmente colocam a experimentação animal como única forma possível de garantir esse estado de saúde e frequentemente pintam a imagem das instituições e indivíduos que se opõem à experimentação animal como inimigos da humanidade, insanos, obscurantistas e termos de mais baixo calão. Ou seja, o apelo utilizado é mais tendente ao emocional do que ao lógico, embora esse emocionalismo seja revestido de um viés cientifico (ou pseudocientífico).

Por melhor que seja a argumentação contrária à experimentação animal, ela não vence um título de doutorado em uma boa universidade estrangeira, um bom cargo em uma instituição de pesquisa de renome, dezenas de publicações em periódicos reconhecidos e, enfim, um currículo de muitas páginas, pois, afinal, é isso que impressiona a maioria das pessoas.

No entanto, isso não bastando, o grande lobby da experimentação animal conta com mais um importante aliado: se grande parte da argumentação contrária à experimentação animal refere-se aos direitos irrevogáveis e inalienáveis que os animais têm à vida, o lobby conta também com uma legião de autointitulados e autopromovidos defensores de animais que reconhecem “a importância da experimentação animal”, apesar de reconhecerem que “animais têm direitos” e que, dessa forma, buscam conciliar essas duas visões. Ou seja, a de que devemos continuar utilizando animais embora reconhecendo seus direitos.

Na prática isso significa diminuir ao máximo a quantidade de animais “necessários” para cada experimento e o refinamento das técnicas utilizadas, de modo a evitar o sofrimento animal, dentro do possível. Esse aparente posicionamento equilibrado, em verdade, não passa de um embuste. Porque como é possível que se reconheça que um indivíduo (seja ele um ser humano ou um animal) possa ter direitos e, ao mesmo tempo, defender que esses direitos podem ser revogados desde que para benefício de outros indivíduos.

É claro que qualquer pessoa que defenda essa ideia não reconhece, simplesmente, que animais têm direitos. Esses indivíduos podem até se envolver em passeatas antipele, em atividades antirrodeio, em campanhas de castração de cães e gatos, podem ser escolhidos por programas de TV como representantes da causa animal por sua empatia, sua postura perante as câmeras, por sua capacidade de oratória, ou por outro motivo que seja, mas a verdade é que essas pessoas não defendem a causa que dizem defender.

Esses “representantes da proteção animal” atacam as pessoas que realmente defendem os interesses dos animais acusando-as de insensatas e pouco realistas. Dizem lutar pela mesma causa, mas na prática lutam pela causa oposta. É curioso que, em alguns casos, esses defensores de animais componham bancas que literalmente autorizam cada experimento realizado em animais e, inclusive, sejam eles mesmos vivissectores.

Alguém poderia se questionar de onde provém o dinheiro que patrocina algumas das entidades “protetoras de animais” (e não raro enriquece sua alta cúpula). Ora, esse dinheiro vem de empresas como a Unilever, o McDonalds, a Glaxo, a Ciba-Geisy, a Purina, entre outras.

Contribuir com uma entidade de “proteção animal”, sem antes questionar a fundo sua ideologia e o seu posicionamento perante diferentes assuntos, pode significar promover o contrário do que se pretende. Mesmo uma entidade que abertamente proclame ser totalmente contrária à experimentação animal, promova métodos alternativos e produtos não testados em animais pode, por outro lado, trabalhar para a continuidade e a valorização da experimentação animal.

O público normalmente aceita de forma passiva o que declaram os especialistas: cientistas, em diversas áreas de especialização; “protetores de animais”, que aparentemente dedicam suas vidas a trabalhar pelos animais. Quando esses dois grupos defendem exatamente a mesma ideia, ou seja, que a experimentação animal é algo positivo e de alguma forma aceitável, aquele que tem posicionamento contrário aparece como radical ou insano.

Para o cidadão comum, preocupado com outras questões e sem disposição para se aprofundar no tema, o “caminho do meio”, sem “radicalismos” e “extremismos”, parece ser a melhor solução. Ao menos uma solução confortável, já que na prática não muda em nada a situação corrente.

Porém, o próprio senso de justiça impõe que nenhum julgamento seja feito sem considerar bem todos os fatos. E isso exige que nos aprofundemos no tema. Enquanto as pessoas insistirem em dar um tratamento superficial ao mesmo, a experimentação animal continuará existindo.

Fonte: ANDA – Agência de Notícias de Direitos Animais


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Uso de animais em práticas cirúrgicas – parte final

Simuladores que permitem que o estudante aprenda e pratique suas habilidades em microcirurgia básica, cirurgia microvascular, microneurocirurgia, cirurgia em órgãos e complexos de órgãos, suturas, pontos cirúrgicos, ou que permitem que cirurgiões já experientes possam praticar e assim manter suas habilidades. Essa ideia parece a visão de um mundo futurista distante, mas ela já é realidade atualmente.

Já estão disponíveis no mercado simuladores que imitam perfeitamente a pele, os ossos, todos os órgãos e os fluidos do corpo, sendo que alguns mimetizam até os odores naturais do organismo vivo. Esses simuladores podem ser construídos em diferentes materiais, mas todos eles tendem a imitar a textura e resistência do corpo ou de partes do corpo, bem como processos fisiológicos como a circulação sanguínea, o pulso, a respiração ou situações de órgãos cheios de fluidos.

O uso de manequins (ou bonecos) permite, em muitos casos, além do treinamento cirúrgico, que o estudante aprenda farmacologia, fisiologia, anestesia e prática clínica. Esses bonecos possuem todas as características de um paciente real (pulso palpável, coração, respiração audíveis, circulação…). Além disso, manequins podem ser programados pelo professor para apresentarem reações adversas a medicamentos ou situações fisiológicas especiais, tais como bloqueios respiratórios, hemorragias, arritmias, edemas pulmonares, cetoacidoses diabéticas etc.

Cirurgias virtuais e telecirurgias já podem ser realizadas em ambiente virtual, simuladores em 3D ou em realidade aumentada. Estes são ótimos recursos para planejamento pré-cirúrgico, simulação de cirurgia laparoscópica, microcirurgia, neurocirurgia, treinamento de suturas, cateterismo, treinamento em trauma e cirurgia craniofacial. A garantia de aquisição de habilidade motoras vem do sistema háptico acoplado ao computador e que permite ao estudante experimentar a sensação de estar manipulando tecidos e órgãos vivos.

Não há como imaginar que estudantes de medicina veterinária de uma universidade federal (a UFU, de Uberlândia) tenham, por livre e espontânea vontade, se indignado em necessitar utilizar recursos tais como estes, em vez de animais oriundos do CCZ. É certo que muitos fatores os levaram a se indignar. Primeiro, é certo que os recursos que foram disponibilizados para eles são ultrapassados e incompletos: eles possivelmente foram expostos a um único recurso; em segundo lugar, é certo que o professor, descontente com a substituição dos animais por outros recursos, tenha agido de má vontade na aplicação de sua utilização. É possível que ele tenha disponibilizado o recurso de qualquer jeito e dito aos estudantes que, por força de lei, eles teriam que aprender com aquilo mesmo, já que não podiam utilizar animais.

Sem dúvida os professores exercem grande influência sobre os estudantes, não apenas porque transmitem conhecimento, mas também porque transmitem opiniões, valores e atitudes. Podemos, dessa forma, entender que mesmo um estudante que seja sensível ao sofrimento animal pode deixar de sê-lo se seu professor transmite, expressamente ou subliminarmente, mensagens em contrário. Essa sugestão é verdadeira não apenas no caso de crianças, mas também de adultos.

Alguns professores de ciências admitem mesmo que um de seus objetivos é dessensibilizar os estudantes, por esse motivo não sentem constrangimento em expor seus estudantes às praticas que utilizam animais. Dessa forma, o sofrimento infligido ao animal se justifica pelo potencial conhecimento que se pode adquirir da prática, e qualquer uso que se faça do animal é considerado simplesmente como sendo “ciência”

Essa dessensibilização, por algum motivo, foi no passado associada à formação de bons cientistas, de cidadãos que não se desviam da objetividade e qualquer sentimento em contrário foi associado com o sentimentalismo, a fraqueza e falta de cientificidade. Na prática, porém, isso não se mostra verdadeiro. Estudantes dessensibilizados se tornam profissionais insensíveis, e certamente não é isso que queremos quando levamos nossos animais ao veterinário ou quando nós mesmos recorremos ao médico.

Além disso, é compreensível que estudantes que alguma vez utilizaram animais para realizar treinamentos tenham mais afinidade por esse método. Diversas pesquisas mostram que estudantes tendem a preferir o aprendizado pelo método que lhes foi colocado. Um estudo realizado por Lock and Millet, em 1991, mostrou que a atitude de estudantes frente à dissecção e à pesquisa com animais tornava-se mais favorável a ela quanto mais expostos os estudantes eram a essas práticas. Em outro estudo, Strauss e Kinzey (1994) verificaram que colegiais melhoravam sua opinião em relação à dissecção de sapos quando dissecavam sapos, enquanto que melhoravam sua opinião sobre alternativas quando estudavam por meio desse recurso.

Estudantes de veterinária que praticam em cirurgias nas quais no final o cão se recupera tendem a apoiar esse tipo de prática, enquanto os que praticam cirurgias nas quais no final o cão é morto tendem a apoiar essa prática, conforme ficou evidente em um estudo realizado por Bauer e colaboradores em 1992. Um estudo de Arluke e Hafferty, de 1994, mostra que estudantes de medicina que no começo mostravam desconforto em realizar procedimentos terminais em cães vivos, acabavam se tornando cada vez menos sensíveis e culpados conforme realizavam tais procedimentos.

Há, porém, uma diferença entre o método preferido pelos estudantes e o melhor método de ensino. Mesmo que estudantes digam preferir utilizar animais para treinar técnicas cirúrgicas, não quer dizer que eles aprendam melhor utilizando esses métodos.

Fonte: ANDA – Agência de Notícias de Direitos Animais


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Uso de animais em práticas cirúrgicas – parte 2

A ideia de que o uso de animais em treinamento de novos cirurgiões é importante para que estes adquiram autoconfiança é discutida no presente artigo.

Em 1994, M. Pavletic e colaboradores, trabalhando na Tufts University, realizaram um estudo comparativo sobre a aquisição de habilidade cirúrgica por estudantes de veterinária que participaram de um curso alternativo de procedimentos cirúrgicos e médicos de pequenos animais, em relação aos seus colegas que não participaram do mesmo curso, mas que treinaram em animais.

Os resultados de seu estudo mostram que não há evidências de que existam diferenças significativas no que diz respeito à habilidade de conduzir cirurgias comuns, procedimentos médicos e diagnósticos, capacidade de realizar cirurgias ortopédicas e em tecidos finos, confiança e capacidade de realizar procedimentos sem qualquer assistência.

Da conclusão desse estudo: “o uso de cadáveres durante o terceiro ano do programa de laboratório, quando suplementado por treinamentos clínicos adicionais durante o quarto ano, pode prover treinamento comparável ao provido pelo programa de laboratório convencional.”

Em outro estudo, realizado em 1999, R. Fingland analisou a experiência de estudantes de veterinária que treinavam suas habilidades cirúrgicas por meio da castração de animais de abrigos e pertencentes à população carente, em vez de animais experimentais. Com relação a este assunto, o autor escreveu : “Estudantes no ‘novo’ currículo obtiveram melhor desempenho durante a realização de ovário-histerectomia e em alguns aspectos da secção lateral do canal auditivo. Mais importante, o ‘novo’ currículo não compromete a educação de estudantes veterinários, mas oferece formas melhores de se ensinar a habilidade cirúrgica.” O estudo conclui que estudantes que utilizam essa técnica são mais bem preparados para realizar cirurgias.

Treinamentos utilizando pacientes reais ou que têm um propósito superior como o da castração, não apenas transmitem o conteúdo técnico, como também trazem consigo uma mensagem moral. Quando estudantes lidam com pacientes reais, cuja intervenção tem propósito curativo; quando eles têm a oportunidade de tomar conta dos animais, antes e após a cirurgia e de fato se preocupam com sua recuperação e saúde geral, ao invés de matá-los ao fim do procedimento, então estão-se formando verdadeiros veterinários.

Estudantes de medicina veterinária não deveriam aprender das instituições de ensino que animais são meros produtos descartáveis. Que tipo de veterinários espera-se obter por meio dessa formação? Ainda que o uso de animais experimentais fornecesse a melhor formação técnica possível, ainda assim o aprendizado deixaria a desejar. Pois a razão para a escolha da carreira veterinária deveria ser, acima de tudo, o animal. Estudantes veterinários que veem animais apenas como números, como objetos ou como mecanismos estão na carreira errada; são, em verdade, médicos frustrados.

O melhor aprendizado ocorre quando o estudante é responsável não apenas por sua habilidade, mas pela saúde e bem-estar do animal para o qual o tratamento está sendo aplicado.

Já foi documentado que o estresse psicológico, como o experimentado por muitos estudantes de veterinária quando lidam com animais de laboratório, pode resultar em diminuição na capacidade de observação e raciocínio; o uso de animais não pacientes na educação veterinária pode resultar, portanto, em menor aprendizagem. Finalmente, o uso de animais não pacientes na medicina veterinária pode prejudicar os sentimentos de compaixão e empatia do futuro profissional. Existem registros que mostram uma variedade de situações em que a violência exposta e outros estímulos aversivos levam a uma dessensibilização; animais de laboratório podem dessensibilizar estudantes ao sofrimento animal.

Muitos outros estudos mostram resultados semelhantes. D. Holmberg e colaboradores observaram em 1993 que o sistema DASIE – Dog Abdominal Surrogate for Instructional Exercises – substitui com vantagens o uso de animais, respondendo aos instrumentos cirúrgicos de forma semelhante aos tecidos de cães vivos.

O sistema é bastante simples, construído em espumas e tecidos dispostos em camadas. Para um leigo que olhe o sistema sequer lembra um cão, no entanto, pelo ponto de vista técnico ele substitui completamente a necessidade de uso do animal em várias técnicas, proporcionando aos estudantes uma facilidade para aquisição das habilidades psicomotoras necessárias para conduzir uma cirurgia.

Esse sistema DASIE pode ser utilizado para o ensino de técnicas assépticas, cirurgia estética, instrumentação, padrões de suturas, cirurgia abdominal geral e principalmente procedimentos cirúrgicos abdominais, urogenitais e gastrointestinais. Os tecidos das camadas mais internas e mais externas, bem como a camada laminada do meio, são reforçados para resistir ao corte, para reagir aos instrumentos cirúrgicos e manter as suturas semelhantes ao que ocorreria em tecidos cutâneos e faciais. Os vasos sanguíneos, simulados, permitem ao estudante a prática de pinçar e ligar pontos específicos do tecido. Além disso, a aceitação de DASIE por estudantes de universidades americanas e europeias é muito boa.

A despeito do que se diz em relação à necessidade do uso de animais para aquisição de destreza profissional e autoconfiança, De Young & Richardson declaram: “… é nossa opinião que a autoconfiança dos estudantes é aumentada enormemente após trabalhar com modelos plásticos. Suas habilidades motoras e a compreensão de princípios biomecânicos de fixação de fraturas e aplicação de implantes são superiores àquelas resultantes do uso de animais de laboratório vivos…”

Há outras vantagens do uso de modelos plásticos. Em aulas de laboratórios que utilizam animais vivos não há tempo suficiente para que o estudante manipule o animal e, dessa forma, adquira as habilidades motoras necessárias. No caso do uso de modelos plásticos, essa manipulação pode acontecer a qualquer momento, sem a necessidade de um professor, técnico de laboratório ou mesmo de um laboratório. Esse mesmo fator representa uma vantagem quando do uso de softwares e outros recursos que permitem a calma para o estudante analisar todo o procedimento, revisar, se ativer aos detalhes, realizar o procedimento seguidamente, por inteiro ou passo a passo, em velocidade normal ou mais lentamente.

Programas gráficos, computadorizados, tridimensionais podem oferecer ao estudante uma variedade de treinamentos em diagnósticos e procedimentos cirúrgicos. Avaliações de pós-graduandos da Tufts University School of Veterinary Medicine demonstraram que estudantes treinados por intermédio dessas alternativas não diferiram significativamente em relação às habilidades, atitudes e confiança, de estudantes que foram treinados por meio de técnicas utilizando animais.

Se recursos alternativos servem ao propósito da formação de novos cirurgiões, por que se continuam utilizando animais? A resposta está no continuísmo e na falta de questionamentos. Cursos de caráter tecnicista ensinam a realização de determinada tarefa sem questionar o porquê desta e, por esse motivo, aulas práticas tornam-se excessivamente teóricas, já que as manipulações experimentais se resumem a demonstrações e ilustrações do que se encontra nos livros. Trata-se de um ritual de confirmação do que já se conhece, e não uma vivência do método científico. O aluno recebe verdades prontas de seu professor, sem qualquer questionamento. Portanto, embora se possa dizer que se está fazendo ciência, o que na verdade se está fazendo é propaganda dela.

Fonte: ANDA – Agência de Notícias de Direitos Animais


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Uso de animais em práticas cirúrgicas – parte 1

No mês de maio de 2009, cerca de 300 estudantes de Medicina Veterinária da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) invadiram a Reitoria da Universidade para protestar contra a proibição do uso de animais vivos oriundos do CCZ municipal em práticas de cirurgia. Segundo as alegações desses estudantes, seria impossível aprender a operar em cadáveres ou boneco, porque em animais vivos podem acontecer imprevistos, que preparam os estudantes para casos de operações reais.

Segundo ainda sua argumentação, a faculdade é o lugar onde eles podem errar e aprender. Matar animais agora para salvar animais no futuro. Esses estudantes se embasaram na Lei nº 11.794/08, a mal afamada Lei que regulamenta o uso de animais, para legitimar as cirurgias.

Obviamente que uma discussão jurídica, apoiada em uma lei criada para favorecer a experimentação animal, favorecerá o uso de animais, seja lá de onde provenham. O propósito do presente artigo não é discutir a questão legal, mas a técnica e a ética.

Em primeiro lugar as alegações:

I. É impossível aprender a operar em cadáveres ou boneco, porque em animais vivos podem acontecer imprevistos, que preparam os estudantes para casos de operações reais.
II. A faculdade é o lugar onde eles podem errar e aprender. Matamos animais no presente para salvarmos animais no futuro.

Como resposta à primeira alegação, o uso de recursos substitutivos tais como cadáveres e manequins de fato não possibilitam, por si só, a preparação do estudante para operar pacientes reais, mas eles nem têm a pretensão de fazê-lo. Estudantes que realizam seus treinamentos em animais experimentais também não saem preparados para realizar procedimentos em pacientes reais. Esse vácuo, essa desculpa, simplesmente não existem e nem fazem sentido. O treinamento cirúrgico em animais também não faz, por si só, dos estudantes cirurgiões.

Portanto, há que se entender que a defesa do uso de recursos substitutivos ao uso de animais não pretende trazer a noção de que um único recurso é capaz de conferir todo o treinamento necessário para estudantes de medicina veterinária ou de qualquer que seja a formação. A habilidade é adquirida, construída, mediante uma combinação de técnicas que inclui um somatório de recursos.

São alguns desses recursos, de fato, os cadáveres de animais frescos, mortos por causas naturais, ou preservados por técnicas que permitam a conservação dos tecidos como se estivessem ainda vivos; o treinamento fazendo uso de materiais biológicos retirados de pacientes reais, humanos ou animais, tais como veias com varizes (para treinamento de cirurgias vasculares), placentas ou tecidos oriundos de biópsias (podem ser utilizadas para treinamento em microcirurgia) etc; os simuladores realísticos, os manequins, as técnicas de cirurgias virtuais e telecirurgias e muitos outros recursos (para uma detalhamento maior sobre cada uma dessas técnicas ver “Alternativas ao Uso de Animais Vivos na Educação”.

Apenas após a utilização desses recursos, o estudante passa a trabalhar com animais vivos, não cobaias de laboratório ou animais oriundos de CCZ, mas pacientes reais. E esse trabalho deve ser feito sempre acompanhando o professor ou um cirurgião experiente. Na Europa e nos EUA, com raríssimas exceções, estudantes universitários aprendem técnicas cirúrgicas e de anestesia acompanhando, em pequenos grupos, cirurgiões experientes apenas como ouvintes. Conforme seu aprendizado progride, estes passam a desempenhar papéis secundários, como instrumentadores ou cirurgiões auxiliares, até que passam eles mesmos a desempenhar cirurgias.

Há muita diferença entre trabalhar com pacientes reais, que realmente necessitam sofrer um procedimento, e animais experimentais que de forma alguma necessitam sofrer o procedimento, a começar pelo fato de que as atividades realizadas em animais experimentais se limitam à técnica, mas não visam ao bem do animal, enquanto as técnicas realizadas em pacientes reais têm objetivos de cura e o estudante tem a oportunidade inclusive de acompanhar a recuperação do paciente.

De toda forma, quanto ao questionamento sobre a utilidade desses recursos substitutivos, diversos estudos têm comprovado que estudantes que utilizam esses recursos aprendem igualmente, ou em alguns casos melhor, do que estudantes que utilizam animais (para conhecer alguns desses estudos ver “Alternativas ao Uso de Animais Vivos na Educação”.

Como resposta à segunda alegação, a de que é importante que os estudantes tenham a possibilidade de errar em animais experimentais, com o objetivo de mais tarde salvar a vida de animais, essa relação simplesmente não existe. Aspirantes a se tornarem médicos não matam seres humanos em nome da formação acadêmica. Além disso, esse conceito de matar poucos para salvar muitos simplesmente não cabe. A diferença nitidamente se encontra no fato de que animais experimentais não possuem donos e, portanto, ninguém paga por sua manutenção; por outro lado, animais que sejam propriedade têm quem pague por sua saúde.

O uso de animais obtidos de CCZ ou oriundos de biotérios não tem potencial de transmitir ensinamentos significativos para os estudantes. Quanto muito, isso serve para aumentar sua autoconfiança, mas mesmo isso é questionável, visto que a morte do animal, por fim, pode ter o efeito inverso.

Com relação ao ganho de autoconfiança entre estudantes que aprendem utilizando métodos substitutivos a animais, ler “Uso de animais em práticas cirúrgicas II”.

Fonte: ANDA – Agência de Notícias de Direitos Animais


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Visita ao matadouro

Visita ao matadouro

Passei alguns de meus últimos anos no interior de São Paulo, fiscalizando fontes de poluição ambiental: usinas de açúcar e álcool, fábricas que processamento de polímeros, fundições etc. Mas nada me pareceu tão poluente e agressivo quanto os curtumes e abatedouros de animais. Estas atividades são, é claro, extremamente poluentes, mas pretendo falar sobre este assunto em outra ocasião. Gostaria de reservar este momento para falar sobre uma outra forma de violência, aquela que presenciei nos matadouros e abatedouros de animais.

Os cães de Banting e Best e a descoberta do diabetes em humanos

Introdução

O diabetes figura entre uma das mais citadas justificativas para a continuidade da experimentação em animais; muitos defendem que sem tais experiências, jamais teríamos hoje o conhecimento para compreender qual seria a causa do diabetes e encontrarmos a cura através da insulina. Curiosamente, o experimento conduzido por Frederich Grant Banting e seu ajudante Charles Herbert Best, considerados hoje os elucidadores do mistério, sofreu severas críticas de seus colegas na época. Segundo Roberts (1922), seus experimentos foram “mal concebidos, mal conduzidos e mal interpretados”.

O homem evoluiu como um animal carnívoro ou vegetariano?

O homem evoluiu como um animal carnívoro ou vegetariano?

É comum, atualmente, que no debate entre consumidores de carne e vegetarianos sejam utilizados argumentos relacionados aos “homens das cavernas”, uns argumentando que os homens evoluíram como carnívoros e outros argumentando que evoluíram como vegetarianos. O presente texto traz considerações com relação a esse assunto.

A questão da utilização científica de animais e a formação dos comitês de ética

A experimentação animal tem sido debatida em todo mundo. Biólogos, médicos e outros cientistas têm se levantado para se pronunciar a seu favor ou contra ela. Seus prós e contras tem sido apresentados, às vezes por uma abordagem científica, às vezes por uma abordagem ética. Auto-denominados “comitês de ética” tem sido criados com o objetivo de prontamente resolver a questão, conciliando todas as partes e tornando a experimentação aceitável pelo ponto de vista ético.

Foto ilustrativa

O modelo animal

Se um pesquisador propusesse testar um medicamento para idosos utilizando como modelo moças de vinte anos; ou testar os benefícios de determinada droga para minimizar os efeitos da menopausa utilizando como modelo homens, certamente haveria um questionamento quanto à cientificidade de sua metodologia.

O que será dos animais domésticos em um mundo vegano?

O veganismo é o estilo de vida resultante da oposição prática a toda forma de exploração animal, não apenas na alimentação, como também no vestuário, no entretenimento, no teste de produtos, no trabalho, etc. Por conseguinte, o veganismo opõe-se à própria criação animal.

Entendemos por criação animal a reprodução de linhagens de animais que atendem a um ou mais interesses do ser humano. Geralmente as espécies domesticadas derivam de formas selvagens selecionadas por expressarem determinadas características vistas como de interesse e cuja procriação seletiva ao longo dos anos ou manipulação genética selecionaram essas características de forma a potenciá-las.

Dessa forma, a maior parte dos animais “de criação” são organismos selecionados pelo homem para serem explorados, e diferem significativamente de suas formas selvagens. Ainda, a maior parte desses animais, com a seleção de características favoráveis à sua exploração, acabaram por perder características selvagens que tornavam-nos aptos a sobreviver em seu ambiente natural. De maneira resumida, a maior parte dos animais domésticos desenvolveu uma dependência do ser humano, especialmente no que diz respeito à sua sobrevivência.

Nos casos em que essas características não comprometem a sobrevivência do animal no ambiente natural, a introdução (ou reintrodução) desses pode vir a comprometer as formas selvagens da espécie, à medida que domesticados e selvagens passam a competir entre si, ou pior, passam a cruzar entre si, comprometendo o perfil genético da forma selvagem.

Portanto, a opção de “libertação animal” para espécies domésticas que envolve sua soltura em um ambiente selvagem na maioria das vezes não fará sentido, pelas próprias características dos animais envolvidos ou do ecossistema. A introdução de animais em ambientes naturais só deve ser feita quando seu perfil genético condiz com o das populações do campo e quando um trabalho de reabilitação é feito, de forma a possibilitar sua sobrevivência sem a interferência do ser humano. Não é o caso quando tratamos de linhagens de animais domésticos, selecionados para produzir.

Para exemplificar, vamos supor o caso do gado bovino. O gado hoje existente difere significativamente das formas selvagens originalmente capturadas por nossos antepassados em 7.000 A.E.C., na Ásia. Bois e vacas foram, ao longos dos tempos, selecionados para fornecer mais carne e menos carcaça, mais leite, couro de qualidade, animais mais mansos que facilitassem o manejo e robustos o suficiente para serem utilizados como animais de tração ou para outros trabalhos. Toda essa seleção resultou que, atualmente, existem mais de 1.000 raças de bovinos, todas adaptadas a uma determinada região e com características produtivas que atendem a um determinado interesse.

Toda essa seleção, porém, tornou esses animais menos aptos à sobrevivência sem os cuidados do ser humano. Bovinos tornaram-se animais pouco ágeis, pesados, muito distintos dos ruminantes não domesticados. Para um predador de topo, uma vaca é um alvo praticamente imóvel. Libertar bovinos nos campos, em locais onde existam predadores, é condená-los à morte certa, pois por 9.000 anos esses animais contaram com a proteção do ser humano e não se pode esperar que sobrevivam repentinamente sem essa proteção.

De maneira oposta, poderia-se pensar na libertação de bovinos em locais onde não existam predadores. Essa situação já existe, de certa forma, quando pensamos na pecuária extensiva, em regiões onde o criador pouco precisa fazer para proteger seu rebanho1. No entanto, nesse caso, o próprio ser humano trabalha como um predador, recolhendo o gado de tempos e tempos e mandando-o para o matadouro, regulando assim o tamanho de sua população.

Em uma situação hipotética onde todos os seres humanos tornam-se veganos, apenas abandonando o gado nos campos, os bovinos e outros animais domésticos que vivessem em áreas onde não existem predadores reproduzir-se-iriam indefinidamente, degradando ainda mais os ambientes naturais e interferindo com outras formas de vida.

Não há como defender que essas populações acabariam por atingir um equilíbrio com seu ambiente porque qualquer acomodação a um ecossistema implicaria no deslocamento de outras espécies, na alteração de seu funcionamento. Bois podem estar vivendo na região do Pantanal e da Amazônia, mas apenas porque esses ambientes foram modificados para suportá-los. Pelo ponto de vista do Pantanal ou da Amazônia, muito melhor seria não haver ali animais domésticos. Dessa forma os ambientes tenderiam naturalmente a voltar ao que eram antes.

Creio que o gado bovino exemplifique bem o que acontece com outros animais chamados “de fazenda” — Cavalos, ovelhas, cabras, galinhas, porcos, etc. Esses animais dependeram do ser humano por milhares de anos para sobreviver e se reproduzir, e sua manutenção dependerá, para sempre, da interferência do ser humano. Sua introdução em ambientes selvagens compromete sua própria sobrevivência ou a sobrevivência de outras espécies existentes nesses ecossistemas.

Além disso, podemos nos questionar sobre o porquê de, em um “mundo vegano”, mantermos espécies desenvolvidas pelo ser humano com a única finalidade de exploração. Pode-se entender que haja uma preocupação em evitar a extinção de espécies selvagens, afinal, cada espécie está inserida em um contexto ambiental e desempenha determinada função dentro de um ecossistema. Romper um elo nessa corrente pode significar a extinção de outras espécies e o comprometimento do próprio ecossistema.

Mas, no caso de espécies domésticas, vemos que a extinção não significa uma perda, pois essas espécies não representam nenhum elo positivo para a funcionalidade dos ecossistemas, pelo contrário, são invasoras. Além disso, não há lógica em se pensar na “perda de biodiversidade” quando a existência de apenas 3 espécies de ruminantes domésticas (o boi, a ovelha e a cabra), por exemplo, compromete a sobrevivência de mais de 160 espécies de ruminantes selvagens, além de infinitas outras formas de vida.

Cada boi, cada ovelha, cada cabra, cada animal doméstico deve gozar de direitos enquanto indivíduos, mas realmente não devemos nos preocupar com a “preservação da espécie” desse indivíduo. Levar ou permitir a extinção de determinada espécie/raça animal não significa ir contra os interesses desses animais enquanto indivíduos.

Os interesses de indivíduos animais, enquanto organismo senciente, limitam-se basicamente a levar vidas condizentes com sua natureza, buscando o conforto e fugindo ao desconforto. Acima de tudo, animais tem interesse na continuidade de sua própria vida. Bois ou galinhas não estão preocupados se dali a 100 ou 200 anos sua raça continuará existindo, e tanto faz para eles se atualmente existem 1 bilhão ou apenas 10 indivíduos de sua espécie. Isso simplesmente não faz parte de seus interesses particulares, mas sim do interesse de seres humanos preocupados com sua exploração2.

De que forma o veganismo levará as espécies domésticas à extinção?

Pode parecer uma situação que depõe contra o veganismo o fato de que seu advento implicará na extinção de espécies animais, mas isso apenas quando analisamos a situação pelo ponto de vista do ser humano educado no sistema de crença antropocentrista.

As variedades de animais que serão extintas com o veganismo não contribuem para a biodiversidade em seu estrito senso. Pelo contrário, sua existência contrapõe a existência de outras formas de vida, essas sim capazes de uma vida independente do jugo humano. Além disso, dar continuidade a essas formas de existência é condená-las eternamente à dependência da boa vontade humana. Dessa forma, a extinção parece ser uma opção desejável por todos os pontos de vista, exceto daqueles que objetivam sua exploração.

O cenário mais provável é que as pessoas não se tornem veganas da noite para o dia. Assim, podemos entender que as populações de animais domésticos declinem “naturalmente”, pelas próprias forças do mercado. Em um mundo tendente ao veganismo, os criadores de animais e os funcionários que atualmente atuam em algum nível dessa cadeia produtiva teriam gradativamente de procurar por atividades mais promissoras. Quando diminui a demanda, diminui a oferta.

Em um cenário bem menos provável, mas apenas para considerar todas as hipóteses, suponhamos que amanhã a humanidade toda perdesse o interesse na criação de animais. De uma hora para a outra “perderiam a serventia” 1,3 bilhão de bois e vacas, 1 bilhão de ovelhas e carneiros, 700 milhões de cabras e bodes, 930 milhões de porcos, 110 milhões de equinos e 18 milhões de frangos e galinhas, entre outros tantos animais.

Certamente a forma mais rápida para se livrar de bilhões de “animais indesejáveis” seria também a mais truculenta e sádica: o extermínio em massa, a incineração, a vala comum. Presenciamos essa cena em eventos de epidemias zoonóticas e ela seria também possível no caso dessa perda repentina de interesse pelos produtos de origem se dar por uma súbita revelação no contexto da saúde, ecológica, etc. Mas supondo que esse súbito vegetarianismo tivesse motivos éticos, esse extermínio não seria uma alternativa viável.

Abandonar os animais nas fazendas à própria sorte também não seria uma alternativa justa, pois esses animais são frutos de nossas atividades e teríamos responsabilidades morais para com eles. Em fazendas abandonadas esses animais morreriam à mingua, de fome, de doenças ou indefesos, atacados por predadores. Nos raros casos em que sua sobrevivência fosse viável, que esses animais pudessem se alimentar e se defender de predadores, o ônus ficaria para o ambiente, na forma de interações inter-específicas desarmônicas, transmissão de doenças para espécies silvestres, degradação ambiental, etc. De uma ou de outra forma, simplesmente abandonar as fazendas cheias de animais seria um ato de irresponsabilidade para com a vida e o meio ambiente.

Supondo esse cenário, bastante improvável, da perda repentina de interesse em bilhões de animais domésticos, por um ganho súbito de consciência ética, o que acredito que aconteceria é que seres humanos voluntários se encarregariam de manter esses animais nas fazendas, alimentados e afastados de predadores. As fazendas, assim, se transformariam em santuários de animais.

Porém, torna-se difícil crer que uma confraria de voluntários se prontificaria a diariamente alimentar animais, limpar seus recintos e manter seus predadores afastados apenas para evitar que sua espécie fosse extinta, porque esse é por si um trabalho sem objetivo final.

Diferente dos santuários de animais silvestres, onde animais recuperados são colocados para se reproduzir e, se possível, serem reintroduzidos em campo (o objetivo final é reintroduzir o animal em campo), santuários de animais domésticos devem se destinar a garantir a sobrevivência de animais já nascidos, sem no entanto permitir sua reprodução ou acesso a áreas selvagens (o objetivo, nesse caso, é garantir a melhor vida possível para esses animais, e a morte o mais tardia possível).

Está claro que à medida que esses animais fossem morrendo — de morte natural — os campos antes por eles ocupados ou destinados a produzir alimentos para seu sustento estariam liberados para produzir alimentos para o ser humano, ou melhor ainda, para permitir que a sucessão ecológica restabelecesse na área degradada os ecossistemas naturais, voltando ao local as espécies animais e vegetais originais. A vida dessa forma não sucumbiria, mas floresceria.

Liberdade de reprodução e o viés da ecologia rasa?

Pode-se pensar que privar animais da possibilidade de produzir uma prole constitua-se, por si só, uma forma de crueldade, mas essa é uma análise bastante superficial da situação. Para compreender o porquê disso podemos analisar o caso dos animais ditos “de estimação”. As pessoas mantém em suas casas cães e gatos, mas quando não há controle sobre sua reprodução, animais acabam sendo abandonados, submetidos a maus tratos e ao sistema de controle de animais errantes que geralmente envolve a morte.

Por isso a castração e a esterilização em massa são vistas como formas éticas de manter a população de cães e gatos em níveis considerados aceitáveis pelos órgãos de saúde. As esterilizações já acontecem e não há questionamento em relação ao seu estado moral. É fato que matar animais em Centros de Controle de Zoonoses é muitas vezes pior. E não há como defender, eticamente, que o controle da reprodução priva os filhotes do direito de nascer, porque não se pode defender os direitos de um ente que ainda nem foi concebido.

E embora esse sistema, da forma como se encontra, não vise a esterilização de todos os cães e gatos, permitindo a reprodução de alguns indivíduos e garantindo a satisfação da demanda humana por animais de estimação, o controle é feito. De toda forma alguns animais são impedidos de se reproduzir.

Mesmo que esses animais não sejam castrados, o próprio fato de estarem contidos já é fator limitante para o cumprimento de seus impulsos naturais. E qualquer ser humano que descuide desse aspecto do cuidado do animal de sua família deve ser visto como um irresponsável, pois uma vez que os filhotes nasçam é difícil providenciar-lhes um lar adequado. Chamamos a esse controle “posse responsável”, embora em um mundo ideal a idéia de ‘posse’ de um animal devesse ser substituída pela idéia de tutela.

Portanto, a libertação animal, quando tratando de animais selecionados geneticamente pelo homem, trata sem duvida de uma “liberdade relativa”, pois no que concerne aos aspectos de reprodução e à liberdade de ir e vir, esses animais precisarão ser sempre controlados.

Nessas antigas fazendas, agora santuários, animais poderiam correr pelos campos, fuçar a terra, cavar, cobrir-se de lamas e esfregar-se nas árvores, levar vidas condizentes com sua natureza. Mas de forma alguma eles deveriam poder transpor os limites dessas áreas a eles destinadas. Eles poderiam engordar sem correr o risco de serem abatidos e emagrecer sem correr o risco de serem descartados, levariam vidas plenas e viveriam o tempo de sua longevidade natural, mas em um mundo ideal essa seria sua última geração.3

Pode parecer radicalismo falar em “última geração” quando mantemos uma estrutura de pensamento harmonizada com o conceito de ecologia rasa, onde tudo é analisado pela perspectiva do ser humano. De acordo com esse conceito, o cerrado não tem valor em si mesmo. O cerrado tem valor à medida que nele encontram-se recursos, conhecidos ou potenciais, que poderão de alguma forma trazer benefícios para o ser humano. Fomos educados a perceber a biodiversidade como uma fonte de recursos e associamos o conceito de preservação a essa percepção de mundo.

Em ecologia rasa não cabe a idéia de extinção de uma espécie que serve ao homem, e menos ainda o conceito de extinção voluntária humana, porque o objetivo da existência do mundo é o próprio homem e pensar isso parece tornar o mundo sem sentido. Mas quando se analisa a posição das espécies domésticas e do próprio homem no ambiente natural, pelo ponto de vista da natureza, falar-se em extinção começa a fazer todo o sentido.

Para a ecologia rasa o indivíduo animal não tem valor intrínseco. Ele vale o quanto sua carga genética pode contribuir para a preservação de sua espécie, o recurso conhecido ou potencial que beneficia o ser humano. Assim, a vida de animais pertencentes a espécies abundantes não tem praticamente valor, enquanto que a vida de animais pertencentes a espécies raras vale mais. A vida tem valor no conjunto da espécie, não no âmbito do indivíduo, e seu valor está diretamente relacionado ao quanto ela pode oferecer para o futuro do ser humano.4

Pensar animais domésticos emancipados no âmbito da biodiversidade é, de certa forma, dar continuidade ao seu processo de exploração, porque nada, senão sua exploração, dá sentido à sua existência. Em nenhum outro aspecto, senão na perspectiva de exploração humana, esses animais se encaixam no conceito de diversidade, pois essas variedades não existiam antes da seleção realizada pelo ser humano e eles jamais virão a fazer parte de nenhum ambiente natural. Portanto, não são “formas de vida” cuja espécie deva ser poupada da extinção. Essas variedades são, e sempre serão, dependentes do ser humano para sua sobrevivência.

Portanto, permitir a procriação desses animais significaria necessitar manter, indefinidamente, santuários de animais, com seres humanos voluntários para sempre cuidando de sua alimentação e proteção. E com as necessidade de alimentação e proteção fornecidas, sem o controle da população, 1 bilhão não tardaria a se tornar um trilhão. Os santuários, e não mais as fazendas, se tornariam responsáveis pela degradação ambiental e pelo aquecimento global.

No cenário do santuário onde os animais gozam de uma relativa liberdade, sendo seu limite a reprodução, a situação não se manteria por muitos anos — 20 ou 30 anos talvez — o tempo de vida do animal mais longevo.

Uma possível degeneração humana

Adicionalmente, manter “estoques” ou bancos genéticos de animais domésticos traria o grande risco de sujeitar uma futura prole ao que podemos chamar de “flutuação cultural do ser humano”. Pois não há nenhuma garantia de que o advento do veganismo persistiria por muito tempo, por mais que educássemos nossos filhos. Das religiões aos movimentos políticos e sociais, temos muitos exemplos que demonstram que as idéias tendem a perder força ou se corromper ao longo do tempo.5

Em poucas gerações, aquela cultura vegana fervorosa e fortemente enraizada poderia vacilar e então, esses animais domésticos ali disponíveis poderiam servir de estímulo à degeneração e ao retrocesso do gênero humano. Essa nova geração poderia vir a se perguntar, 100 ou 200 anos após o advento do veganismo, porque que os seres humanos estão “servindo” animais em santuários ao invés de colocar animais para servi-los?

Preservando esse perfil genético propício ao fornecimento desses “recursos”, apenas pelo capricho de não permitir sua extinção, estaria-se criando uma situação favorável ao retorno ao seu sistema exploratório, simplesmente porque uma nova geração de pessoas se questionaria se abolir a exploração de tal fonte de recursos não seria um desperdício.

Pelo contrário, a extinção dos animais domésticos dificultaria esse processo de degeneração, pois esses “recursos” não estariam facilmente disponíveis e, para recriar um sistema de exploração, dependeria-se de uma nova seleção de características desejáveis a partir de formas selvagens ou da clonagem de animais domésticos a partir de fragmentos de tecidos ainda viáveis, manipulação genética e outras tecnológicas por si só desencorajadoras.

Uma vez estabelecido esse novo sistema vegano, a extinção das espécies domésticas em 20-30 anos garantiria sua continuidade, pois tudo o que as futuras gerações conheceriam seria o veganismo, sem possibilidade de retorno à condição anterior.

Sobre os chamados “animais de estimação”

Cães e gatos, bem como outros animais ditos de estimação, gozam de um estatus diferenciado em nossa sociedade. As explicações psicológicas e antropológicas para esse fenômeno são muitas e não serão debatidas aqui. Restringiremos a discussão aos aspectos referentes às vantagens dessa interação.

A manutenção de animais como animais de estimação pode resultar em interações positivas ou negativas. É claro que se analisarmos apenas pelo ponto de vista do ser humano essa interação será quase sempre positiva, mesmo porque quando ela se torna inconveniente a tendência é se desfazer do animal. Portanto, a análise da interação entre homens e animais de estimação deve ser feita pelo ponto de vista do animal.

O homem adota como animais de estimação animais domésticos, silvestres ou exóticos. Outros artigos já discutiram a domesticação de animais silvestres e exóticos, eles são unânimes em esclarecer que, pelo ponto de vista do animal, a vida em liberdade é melhor do que o cativeiro. Portanto, restringiremos essa discussão às vantagens e desvantagens da domesticação de animais domésticos, ou seja, animais cujo perfil genético foi modificado por seleção antrópica e que diferem das populações selvagens.

Espécies domésticas, em geral, não repelem o jugo humano. Isso pode levar à dedução de que essas são espécies que apreciam e se beneficiam da convivência com seres humanos, no entanto, devemos considerar que esses indivíduos, após nascidos, não tem outra escolha senão se submeter aos cuidados do ser humano.

Uma outra evidência pouco fundamentada de que essas espécies se beneficiam da convivência com seres humanos é que suas populações existem em tamanhos superiores aos das espécies silvestres. Essa falsa vantagem, no entanto, apenas demonstra que a criação animal, como a maior parte das atividades antrópicas, tende a extrapolar a capacidade suporte das áreas, degradar e modificar os ambientes e desalojar outras espécies de seus habitats. Portanto, para as demais espécies do planeta, exceto o ser humano, a existência de muitos indivíduos de algumas poucas espécies domésticas é algo negativo.

O fato do homem manter essas espécies em grandes populações não deve ser considerado uma vantagem nem mesmo para elas, uma vez que o indivíduo, e não a espécie em si, é que é sujeito de direito. E para o indivíduo pouco importa o estatus de sua espécie, se abundante ou não. Pelo contrário, a grande população mantida predispõe os indivíduos da espécie à exploração ou no mínimo ao abandono.

Portanto, a análise das vantagens e desvantagens da domesticação deve ser feita pelo ponto de vista do indivíduo animal e do ambiente.

Sabemos que as pessoas podem manter cães, gatos e mesmo porcos, galinhas ou vacas como animais de estimação. Esses animais, enquanto indivíduos, certamente podem se beneficiar dessa convivência, dependendo tão somente da boa vontade de seu mantenedor. Se seu mantenedor cuidar bem deles, viverão bem; se cuidar mal, viverão mal, mas de toda maneira eles não estão livres dessa dependência e boa vontade.

Além disso, há uma grande distância entre dar abrigo a um animal que necessite e que depende da atenção humana e entre fazer nascer esse animal. E a diferença é, precisamente, que no primeiro caso age-se como a solução para um problema e no segundo caso age-se como a causa do problema.

Fazer nascer um animal que para sempre dependerá do ser humano, mesmo que com a intenção de dar-lhe cuidado ou transferir seus cuidados a terceiros é na verdade um ato que envolve grande responsabilidade. Com frequencia esses animais terminam em lares que não lhes darão o tratamento que merecem ou serão abandonados. O problema que envolve as populações de cães e gatos em todo o mundo apenas ocorre porque a decisão em relação à sua reprodução encontra-se na consciência de seus donos.

Diferente do caso em que o animal é adotado e nesse caso tutelado, a pessoa que adquire um animal mediante uma transação comercial torna-se seu proprietário. O animal é, então, um produto. Ele vale tanto quanto o comerciante cobra, e o propósito de seu nascimento é satisfazer a uma demanda, seja ela uma vontade ou uma carência humana.

Animais assim criados são trazidos ao mundo para servirem a um propósito humano, porque não há como defender que esse nascimento se deu para atender ao propósito do animal, visto que o animal não pode ter interesses antes de haver sido concebido. Seres humanos e outros animais só se tornam sujeitos de direito após sua concepção e aquisição de certa senciência. Portanto, fazer nascer animais de estimação é uma demanda humana e não uma demanda animal.

Cães e gatos, embora no ocidente na maioria das vezes não se prestem a fornecer carne, pele ou outros produtos, são como os animais de corte resultado de uma enorme cadeia de exploração. Esses animais são reproduzidos seletivamente de modo a aprimorar características consideradas pelos seres humanos como desejáveis. Além disso, dentro de uma ninhada, animais que não atendem a esses padrões são prontamente descartados ou abandonados.

Fêmeas são mantidas em canis e gatis apenas com o propósito de servirem como matrizes. Elas concebem ninhada após ninhada, até que, com a queda da fertilidade, são também descartadas. Seus filhotes são produtos empacotados em embalagens fofinhas, comercializadas em lojas de animais ou diretamente a particulares.

Na outra ponta dessa cadeia produtiva temos os animais que por um ou outro motivo tornaram-se indesejáveis, seja porque cresceram demais, não são mais fofinhos, seja porque os donos irão se mudar para um apartamento, seja porque os donos não sabiam que eles necessitavam comer e defecar todos os dias, seja porque adoeceram e o custo do tratamento excede o preço de um animal novo na loja, etc. Então esse animal é abandonado ou doado para uma pessoa que não se importa com esses seus “defeitos”.

Geralmente pessoas que adotam animais abandonados são conscientes de que uma coisa é manter animais recolhidos e outra é reproduzí-los. Quem recolhe animais geralmente os castra e os mantém, ou doa para quem se prontifica a mantê-los. Essas pessoas não vêem animais como produtos, mas como entes sencientes que já nasceram e que dependem de cuidados humanos.

A cadeia produtiva acima descrita é o caso extremo, que descreve o processo produtivo de um canil ou gatil comercial, mas é daí que provém a maior parte dos animais de raças puras. Particulares também podem procriar animais em suas casas e colocar os filhotes para venda ou doação. De uma ou de outra forma os animais acabam perdendo. Animais comprados, ainda que de particulares e não de canis e gatis comerciais, não escapam do mesmo destino.

E mesmo para o caso de animais que sejam doados, não podemos deixar de nos questionar: Será que esses animais precisariam ter nascido? Com animais abandonados nas ruas, em abrigos, faz sentido um particular colocar sua cadela ou sua gata para cruzarem, mesmo sabendo que seus filhotes serão adotados em outros lares? E mesmo que essa adoção seja certa, será que os novos proprietários não terão a mesma idéia de reproduzir seus animais, dando assim origem a uma prole que não poderá ser indefinidamente absorvida, indo muitos de seus filhos e netos ir parar nas ruas ou no serviço de controle de zoonoses?

Portanto, reproduzir animais, mais do que uma atividade de grande responsabilidade envolve um ato de grande irresponsabilidade.

Veganos e defensores dos direitos dos animais tendem a gozar dos benefícios da convivência com animais “de companhia”, mas na maior parte dos casos esses animais não foram gerados para satisfazer a essa demanda do indivíduo. Eles eram animais que já haviam nascido e que foram rejeitados pela sociedade, e então adotados.

Em um mundo ideal a sociedade cuidaria para que os animais já nascidos levassem vidas longas e felizes, mas cuidaria para que não nascessem outros. Fazendo-se isso seria quebrado o eterno ciclo de dependência. Essa seria a única maneira de evitar que cães e gatos fossem explorados e abusados.

Epílogo

Considerando que animais domésticos são organismos geneticamente selecionados para suprir o homem com determinado recurso; que esses organismos não existiam antes dessa seleção e que sua introdução em ambientes naturais é inviável por diferentes motivos; que sua existência será sempre dependentes de cuidados humanos; que sua existência atende apenas aos interesses do ser humano, mas não o de outras espécies ou do meio ambiente, entendemos que animais domésticos compõe um grupo especial de animais e que a preocupação conservacionista não se aplica em seu caso.

Por outro lado, considerando que a condição para o reconhecimento de direitos individuais é o atributo da senciência, e que não se pode defender os direitos de organismos que ainda não foram concebidos, entendemos que animais domésticos já nascidos são sujeitos de direito, e por isso devem ter suas vidas preservadas. No entanto, a procriação desses animais deve ser evitada.

A idéia de que em um mundo vegano ideal os animais domésticos não mais existiriam pode soar extrema e impopular mesmo para veganos. Isso ocorre porque tendemos a raciocinar com um forte componente emocional. E quem não gosta da companhia de um cão ou gato? Ou mesmo da oportunidade de conviver harmonicamente com animais de fazenda?

Nós, e a maioria das pessoas conhecidas, mantemos animais em nossas casas. Temos prazer em conviver com eles e sabemos que alguns deles sentem prazer em conviver conosco. A maioria das pessoas em nosso circulo de relações dá bom tratamento aos animais em suas casas, embora saibamos que essa pequena amostragem não reflete a realidade da maioria.

Essa relação, embora harmônica no nível individual, não justifica a defesa da domesticação animal em termos globais, pois estaria-se utilizando a exceção para criar uma regra. São realmente poucos os animais domésticos que levam vidas felizes e mesmo esses são produtos da exploração. Alguns frutos dessa exploração são animais rejeitados e que foram posteriormente adotados. Adotar animais rejeitados é um ato de amor, mas não reproduzí-los. Por outro lado adquirir animais de pessoas que propositalmente os fizeram nascer é ser condizente com seu ciclo de exploração.

De toda forma, seja qual for o tratamento que lhes dediquemos, animais domésticos serão para sempre dependentes do ser humano, e isso por si só coloca sua existência em uma condição frágil.

Parte de nossa luta por um mundo melhor envolve fazermos o exercício mental de pensar de que forma será esse mundo, aonde queremos chegar. Embora eu mesmo me beneficie da convivência com animais domésticos, todos adotados, sou consciente de que o mundo só será perfeito quando não houverem mais animais dependendo do ser humano para nada.

Notas

1 No Pantanal e na Amazônia, por exemplo, ocorre predação do gado por onças, mas essa predação é resultado de uma situação extrema onde as onças não mais encontram suas presas naturais. Se houvesse uma recuperação dos sistemas naturais as onças desprezariam o gado, grande demais para suas necessidade de caçadora solitária.

2 A preocupação com a preservação de outras espécies frequentemente passa pela conscientização de sua importância atual ou futura para a preservação da própria espécie humana. Assim, a biodiversidade do cerrado vale pelos seus recursos em plantas medicinais com princípios ativos ainda desconhecidos, com potencial para produzir curas para a AIDS, o câncer ou outra doença humana. Essa chamada “consciência ecológica” é, na verdade, ecologia rasa.

3 Esse conceito de levar vidas longas e proveitosas, porém sem deixar filhos, vem tomando forma em sua versão aplicada a seres humanos. Em sua manifestação mais organizada encontra-se o Movimento de Extinção Humana Voluntária (http://www.vhemt.org/pindex.htm). Ao contrário do que se pode pensar, não são indivíduos anti-sociais e misantropistas, mas pessoas bem humoradas e que amam aproveitar a vida. Seu slogan é “Para que possamos viver muito . . . e desaparecer.”

4 A vida de indivíduos sencientes tem valor inerente, mas esse valor se aplica ao indivíduo, não à espécie. Uma espécie vale pela função que ela desempenha em determinado ecossistema. Se determinada espécie não desempenha nenhuma função em nenhum ecossistema, não há porque preservar a espécie, embora os indivíduos devam ser preservados.

5 A história mostra que nem sempre a tendência da humanidade é o progresso cultural; algumas vezes retrocessos ocorrem. Igualmente, a história demonstra que praticamente nenhuma forma de pensamento, nenhuma revolução, sobrevive às gerações sem corrupção da idéia original. Mesmo as mais antigas religiões são constantemente reformuladas, renovadas e revistas. Inocência crer que com o vegetarianismo seria diferente.


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