Galactopoese – A natureza do leite

Curso de Extensão

Implicações éticas, ambientais e nutricionais do consumo de leite bovino abordagem crítica

[Auditório do Centro de Educação UFSC – 24/5/13]

Sinopse da Terceira Sessão – Devastação alimentar e ambiental (17/05/13) – Na sessão anterior tratamos da devastação alimentar e ambiental acarretada pela extração do leite bovino e consumo de laticínios. Quase 80% dos cereais e grãos cultivados ao redor do planeta são destinados à alimentação dos animais criados para abate, extração de leite e coleta de ovos. Entretanto, de cada 100 g de proteína dadas aos animais, os produtos alimentares obtidos deles pela extração do leite ou pelo corte de suas carnes, carreiam muito pouco dessas proteínas para o organismo animal. O leite devolve apenas 22 g de cada 100 g de proteína vegetal dada à vaca, e a carne devolve apenas 4%. Para cada litro de leite é preciso dar à vaca de 5,5 a 8,5 litros de água potável, parte da qual sairá no leite e a outra parte será transformada em urina. Cada litro de leite custou 0,5 kg de alimento sólido (grãos e cereais) e pelo menos 4 kg de forragens. Essa matéria ingerida será devolvida na forma de excrementos, a um planeta que não evoluiu para digerir excrementos e urina nessas proporções assustadoras. No processo de produção, cada litro de leite usado para fazer laticínios consome 868 litros de água. Nossa responsabilidade ambiental passa, portanto, pela defesa dos direitos dos animais, especialmente o direito de não ser usado como máquina galactífera da qual são extraídos dezenas de litros de leite por dia, a um custo que representa a exaustão da vitalidade das vacas, a destruição de águas, do solo e do ar, pela contaminação dos excrementos e do gás metano, e a decadência da saúde humana pela ingestão de um produto que não foi desenhado pelo organismo bovino para ser bem aproveitado pelo organismo humano.

Galactopoese – A natureza do leite

Dr. phil. Sônia T. Felipe

O médico pediatra norte-americano, Dr. Frank A. Oski, pioneiro na divulgação dos malefícios do leite de vaca para a saúde dos bebês humanos e autor do livro Don’t Drink Your Milk! [Não tome seu leite!], esclarece: as fêmeas amamentam seus filhos até eles triplicarem de peso. Em humanos, isso ocorre por volta de um ano de idade. Em nenhuma outra espécie, a não ser na humana e na felina domesticada, “o consumo de leite continua após o desmame”. [Cf. Oski, Apud Felipe, Galactolatria, p. 121]. O éthos mamífero está desenhado para que os novos membros de cada uma dessas espécies demandem apenas o leite da própria mãe. Seguindo o éthos de sua espécie biológica, os bezerros precisam apenas do leite de sua mãe vaca. Seu leite é desenhado para o organismo que ela acabou de gestar e parir.

Os meses de gestação servem para que o organismo da mãe faça o scanner das necessidades nutricionais daquele embrião e feto que está a gestar. Com o nascimento e rompimento do cordão umbilical não se rompe a comunicação metabólica construída ao longo da gestação entre o organismo da mãe e o do bebê.

O leite da mãe secreta quantidades específicas e equilibradas de nutrientes, vitaminas, minerais, gorduras, açúcar e proteínas, poder-se-ia dizer, sob demanda. O embrião e o feto não estão alojados passivamente no útero. Eles demandam nutrientes que estão fixados no corpo da mãe. O corpo da mãe aprende a receber as demandas e continua a fazer a entrega, pelo leite, após o parto. O leite é sangue branco. Cada bebê tem sua característica sanguínea e a progenitora o nutre com o que ele precisa para equilibrar o metabolismo de um organismo em processo de crescimento.

Com a desativação da lactase, a enzima especializada na digestão da lactose, o organismo deixa o estado de dependência galactofágica ao organismo da progenitora para ingressar pouco a pouco na dieta dos adultos de sua espécie, obtida não mais do seio materno, mas do ambiente externo ao qual terá que adaptar-se para seguir vivendo. Segundo Oski, “a natureza jamais pretendeu que alimentos contendo lactose continuassem a ser ingeridos após o desmame”. [Oski, Apud Felipe, Galactolatria, p. 122].

Desmamar, portanto, é tornar-se independente da fonte progenitora de nutrientes. Esse é o éthos mamífero. Com a primeira dentição, o padrão digestório mamífero amadurece sem qualquer anormalidade, sem atrofias. Isso quer dizer que o pequeno animal já pode mastigar alimentos sólidos e deles obter os mesmos nutrientes do leite materno, além de outros, necessários ao prosseguimento do desenvolvimento até sua completa maturidade. Normalmente, escreve Joseph Keon,

[…] o corpo humano para gradualmente de produzir a lactase por volta dos quatro anos, embora possa continuar a produzi-la em pequenas quantidades. As pessoas capazes de digerir a lactose são conhecidas como ‘persistentes na lactase’ e daquelas que não são mais capazes de digerir o açúcar se diz que são ‘adultos hipolactásicos’. [Keon, Apud Felipe, Galactolatria, p. 122].

O leite materno existe, no entender de Oski, com este propósito: “possibilitar ao bebê a nutrição, inclusive de hormônios que conduzirão e regularão seu crescimento.” Essa tarefa não é pouca. Humanos “dobram de peso em apenas três meses”, mas levam até um ano para triplicarem o peso que tinham ao nascer. Os bovinos o quadruplicam em apenas seis meses [Oski, Apud Felipe, Galactolatria, p. 123], uma proporção de crescimento duas vezes maior que a dos humanos. Cada leite materno transfere os hormônios de crescimento típico de sua espécie para o organismo dos recém-nascidos.

A transferência de hormônios do leite materno para o corpo dos bebês é algo necessário e desejável para que eles se desenvolvam com saúde. Mas a transferência dos hormônios de crescimento bovino para o organismo de um humano adulto através do leite animal, não. “Bebedores de leite”, escreve Oski,

[…] inundam seu sistema com o líquido branco contendo gordura, colesterol e hormônios. Seus processos celulares tornam-se regulados pelo poderoso hormônio de crescimento. Em adultos, esses hormônios são incapazes de estimular o tipo de crescimento celular que o organismo dos bebês experimenta. Ao invés disso, em adultos esses hormônios podem originar um verdadeiro horror. [Oski, Apud Felipe, Galactolatria, p. 123].

As suspeitas de Oski, levantadas na década de 70 do século passado com base em dados obtidos em seu consultório de pediatria, estão de acordo com a realidade do consumo de leite bovino por humanos ao redor do mundo. De fato, confirma o cirurgião de mamas Dr. Robert Kradjian numa carta endereçada a uma paciente que lhe perguntou se deveria continuar a consumir laticínios: “entre os mamíferos, apenas os humanos e, entre esses, apenas os caucasianos podem seguir tomando leite após desmamarem”. [Kradjian, Apud Felipe, Galactolatria, p. 123]. Complementando sua explicação sobre a razão pela qual não se deve ingerir leite após o desmame, Kradjian se refere à nossa herança ancestral. Ela não incluía a ingestão de leite em idade pós-amamentação natural. A abstenção do leite não impediu que nossos ancestrais paleolíticos tivessem ossos fortes e bem desenvolvidos:

Não há dúvida quanto aos esqueletos encontrados de que refletem muita força, musculatura e completa ausência de osteoporose. E, se você acha que esse grupo não é importante para nosso estudo, considere que hoje nossos genes programam nossos corpos quase do mesmo modo como o fizeram com nossos ancestrais há 50 e 100 mil anos atrás. [Kradjian, Apud Felipe, Galactolatria, p. 124].

Não temos necessidade alguma “de obter cálcio a partir do leite de vaca”, escreve, por sua vez, Joseph Keon no livro Whitewash, afirmando que isso, aliás, é contraproducente. Nossos ancestrais, enfatiza o autor, “obtinham cálcio de raízes, tubérculos, nozes e folhas verdes”, dieta que lhes facultou “atender à necessidade de cálcio”. [Keon, Apud Felipe, Galactolatria, p. 124].

Cohen chama a atenção para o fato de que “a maior parte das pessoas reage com repugnância à sugestão de tomar leite humano” ou mesmo o leite de sua gata de estimação. Tal reação apenas confirma a intuição que temos de que cada espécie tem seu próprio leite e ele existe para ser ingerido somente num determinado período da vida, não em outros. Mesmo assim, continuamos a tomar leite de vacas.

Ao tomar um copo de leite, comer um sanduíche de queijo, uma torta, um sorvete, chocolates, continua Cohen, “o fazemos sem consciência de estar consumindo hormônios poderosos de crescimento, quantidades enormes de colesterol, gordura saturada, proteínas alergênicas, inseticidas, antibióticos, vírus e bactérias.” [Apud Felipe, Galactolatria, p. 128]. Corroborando a tese de Oski, Cohen afirma: “leite de vaca deve ser consumido por bezerros, não por humanos. Leite de gatas, por gatinhos, não por cãezinhos. Cada espécie mamífera desenvolveu uma fórmula natural perfeita para seus próprios filhotes.” [Cohen, Apud Felipe, Galactolatria, p. 128].

O leite de cada fêmea mamífera é composto para possibilitar que os rebentos se desenvolvam dentro da expectativa daquela espécie, com habilidades animais específicas, inteligência específica, massa corporal específica. Nesse sentido, o médico Dr. Robert Kradjian, escreve:

[O] leite de vaca é muito mais rico em proteínas do que o leite humano. Três a quatro vezes mais. Ele contém de cinco a sete vezes mais minerais. No entanto, é notadamente deficiente em ácidos graxos essenciais, [enquanto] o leite da mulher tem de seis a dez vezes mais desses ácidos, especialmente o linoleico. [Apud Felipe, Galactolatria, p. 128].

A espécie humana não evoluiu para ganhar enorme massa corporal, como a dos bovinos, elefantes, girafas e rinocerontes (todos herbívoros), nem para dobrar o tamanho dos ossos em seis meses. Se assim o fosse, um bebê nascido com cinquenta centímetros teria um metro e meio de altura em seu primeiro aniversário. Considerando-se a altura dos bebês humanos ao nascerem, eles crescem, em média, em torno de 60% a 80% ao longo dos dois primeiros anos. Segundo Kradjian, o que tipifica o organismo animal humano é “o desenvolvimento neurológico avançado e um controle neuromuscular refinado”. Nesse sentido, alerta o cirurgião, recém-nascidos humanos “necessitam de material importante para seus cérebros, coluna vertebral e nervos.” [Apud Felipe, Galactolatria, p. 129].

Tornando mais palpável a tese da diferença na composição dos leites de cada espécie, Keon compara os percentuais de calorias e proteínas do leite de sete fêmeas de diferentes espécies, com o número de dias necessários para que seus respectivos recém-nascidos dobrem de peso. Quanto mais alto o teor de calorias proteicas no leite, mais rápido o crescimento do animal, a saber:

O leite da mulher contém 5% de calorias em forma de proteínas; bebês humanos levam 180 dias para dobrar o peso. O leite da égua contém 11% de calorias em forma de proteínas; potrinhos levam 60 dias para dobrar o peso. O leite da vaca contém 15% de calorias em forma de proteína; bezerros levam 47 dias para dobrar o peso. O leite da cabra contém 17% de calorias em forma de proteínas; cabritos levam 19 dias para dobrar o peso. O leite das cadelas contém 30% de calorias em forma de proteína; cãezinhos levam 8 dias para dobrar o peso. O leite da gata contém 40% de calorias em forma de proteínas; gatinhos levam 7 dias para dobrar o peso. O leite da ratazana contém 49% de calorias em forma de proteína; ratinhos levam 4 dias para dobrar o peso. [Keon, Apud Felipe, Galactolatria, p. 130]. Quanto maior o teor de calorias em forma proteica, mais acelerado é o metabolismo de crescimento mamífero.

Espécie de Leite

% Calorias Proteicas

Dias para Dobrar o Peso

Mulher

5

180

Égua

11

60

Vaca

15

47

Cabra

17

19

Cadela

30

8

Gata

40

7

Ratazana

49

4

Keon apresenta a média dos nutrientes presentes no leite da mulher e no da vaca: um copo de 250 ml de leite de mulher contém 1,1 g de proteína, enquanto o de vaca contém 4g. Na mesma medida de leite da mulher, há 4 g de gordura, enquanto no da vaca há 3,5 g. O leite da mulher contém 9 g de carboidratos, quase o dobro, comparado ao da vaca que contém 4,9 g. Quanto aos minerais, no copo de 250 ml de leite de mulher há 18 mg de fósforo, enquanto no de vaca há 97 mg. A quantidade de sódio no leite de mulher é de 16 mg em 250 ml, enquanto no da vaca é de 50 mg. A de cálcio, no leite da mulher, é de 33 mg, enquanto no da vaca é de 118 mg. [Cf. Felipe, Galactolatria, p. 130]. Nas Sessões 5 e 6 trataremos dos malefícios para a saúde humana do excesso de cálcio presente no leite de vaca.

250 ml leite

Proteína

Gordura

Carboidrato

Fósforo

Sódio

Mulher

1,1 g

4 g

9 g

18 mg

16 mg

Vaca

4 g

3,5 g

4,5 g

97 mg

118 mg

O nível de proteína no leite da mulher, esclarece Keith Woodford, é de 1,6% nos primeiros dias após o nascimento do bebê, caindo em seguida para 0,9%. O leite bovino, prossegue o autor, contém 3% a 4% de proteína, podendo variar em função do cruzamento e também de cada vaca. A qualidade e a quantidade das proteínas dos leites de mulher e de vaca também diferem. O de vaca contém 80% da caseína na gordura e 20% no soro. A caseína do leite de mulher concentra-se mais no soro (80%) do que na gordura (20%). [Cf. Felipe, Galactolatria, p. 130.].

Keith Woodford, no livro Devil in the Milk [O diabo no leite], compara diferentes leites e apresenta-os em sua especificidade: o leite das vacas contém apenas 13% de matéria sólida, enquanto o das ursas polares chega a 43% de sólido, e o das focas cinzentas, a quase 68%. No aspecto da porcentagem de matéria sólida presente nos diferentes leites, o da mulher tem característica semelhante ao das vacas, algo em torno dos 13%. [Apud Felipe, Galactolatria, p. 131]. Contudo, a semelhança acaba aqui. Os componentes desses dois tipos de leite diferem enormemente.

O leite de mulher tem um índice maior de lactose, um índice similar de gordura, mas um índice bem menor de proteína, comparado ao de vaca. Também os minerais – cálcio, sódio e potássio -, conforme Woodford, estão presentes em menor escala no leite de mulher, quando comparados aos índices desses minerais no de vaca. Se examinada com mais acuidade a proteína desses dois tipos de leite, o de mulher apresenta níveis que variam de 1,6% nos primeiros dias após o nascimento, baixando para menos de 1% nos dias seguintes. O índice de proteína do leite de vaca é de 3% a 4%. Nesse leite, quase 80% da proteína é formada pela caseína, enquanto a proteína do leite de mulher é formada basicamente por soro. [Cf. Felipe, Galactolatria, p. 132].

Oski é enfático em sua tese sobre o malefício do leite bovino na dieta humana. Ele critica o fato de se falar apenas da intolerância ao leite e de se fazer silêncio completo sobre as evidências dos benefícios do leite bovino para humanos serem míseros, seu gosto nem sempre ser agradável e haver risco de contaminação por bactérias e outros elementos danosos para a saúde humana.

Corroborando a tese de Oski, o pediatra norte-americano conhecido mundialmente por defender o aleitamento bovino de bebês, o Dr. Benjamin Spock, após meio século garantindo às mães “que o leite bovino era um alimento quase perfeito, […] deu uma virada de 180º” ao criticar o leite de vaca e “anunciar que ele é inapropriado para crianças com menos de um ano de idade, porque elas reagem negativamente aos hormônios bovinos”. Cohen afirma que a virada dada por Spock, alguns anos antes de morrer, levou a American Academy of Pediatrics [Academia Americana de Pediatria] a “reexaminar as questões do leite e a retirar seu apoio ao leite integral para bebês, com base no fato de que o ferro do leite não pode ser devidamente absorvido.” [Apud Felipe, Galactolatria, p. 134].

O Dr. Neal Barnard, fundador do Comitê dos Médicos por uma Medicina Responsável, que agrega mais de 6.000 médicos, curando doenças agudas e crônicas usando apenas alimentos de origem vegetal ou a dieta vegana composta de não refinados e não processados, em vez de remédios, e associando exercícios e meditação ao tratamento, enfatiza as conclusões de relatórios de pesquisa sobre “os riscos para a saúde, da ingestão de leite e derivados”, por conta da “proteína, do açúcar, da gordura e dos contaminantes” presentes nele, e sua inadequação enquanto alimento de bebês.

A Academia Americana de Pediatria “recomenda que bebês com menos de um ano de idade não recebam leite de vaca nem seus derivados. O leite de vaca é muito pobre em ferro. Para atingir os 15 mg de ferro recomendados pelo U. S. Recommended Daily Allowance, um bebê teria que tomar 31 litros de leite bovino por dia. O leite pode causar perda de sangue no trato intestinal. No decorrer do tempo, ainda que mínima, tal perda reduz os estoques de ferro. Pesquisadores desconfiam que a perda de sangue “pode ser uma reação às proteínas presentes no leite.” [Cohen, Apud Felipe, Galactolatria, p. 135]. Uma explicação para a reação às proteínas pode ser encontrada no fato de que “o leite bloqueia a acidez no estômago e permite que proteínas simples resistam à digestão”, como ocorre com o aspartame, explica Cohen. Com o teor mais alcalino, o estômago perde força, realizando malmente a digestão da proteína contida no leite. [Apud Felipe, Galactolatria, p. 135].

Cientes da composição do leite bovino e dos males que origina no organismo humano desde a infância, o Comitê dos Médicos por uma Medicina Responsável encaminhou em 12 de julho de 2012 uma petição ao governo norte-americano, liderado pelo Partido Democrata e Barak Obama, para que retire todos os leites e os produtos lácteos da merenda escolar de todas as escolas norte-americanas. Esses médicos também encaminharam uma petição ao congresso norte-americano para que retire da emenda à constituição que rege a merenda escolar a conhecida frase, imitada no Brasil: “o leite é um alimento essencial à saúde das crianças”. Além disso, eles encaminharam ao Congresso uma advertência, no sentido de considerar a saúde das crianças prioritária em relação aos interesses do agronegócio.

Também em 2012 os Cientistas da Faculdade de Medicina da Universidade de Harvard refizeram a pirâmide alimentar saudável, e deram às carnes, leite e laticínios a percentagem de 0 na constituição das refeições humanas, uma virada de 180º para o resto do mundo que segue o padrão norte-americano estabelecido na década de 80 do século passado, no qual as carnes e os laticínios ocupam a parte central do prato desenhado pelos médicos, a saber: 70% carnes e laticínios, 20% carboidratos, 5% vegetais, 5% frutas e hidratação feita com leite. A nova pirâmide alimentar saudável proposta pelo Dr. John McDougall, do Comitê dos Médicos por uma medicina responsável, ficou constituída na seguinte proporção: 70% carboidratos integrais, 20% vegetais, 10% frutas, 0% carnes e laticínios. A hidratação complementar deve ser feita com água [Cf. The Starch Solution, p. 5].

Alguém viu estas duas notícias nos noticiários brasileiros, sejam eles televisionados, radiodifundidos ou impressos nos jornais de grande e pequena circulação? Por que seria que somos bombardeados com notícias vindas dos Estados Unidos, desde que elas sejam favoráveis aos negócios da carne e do leite, mas não nos transmitem notícias que poderiam ajudar a redefinir nossos padrões dietéticos para uma virada saudável?

Ingredientes naturais do leite bovino

De acordo com Oski, pioneiro na condenação do leite bovino para bebês humanos, o leite possui os três ingredientes básicos usados para fortalecer sua propaganda medicinal: açúcar, gordura e proteínas. Esses ingredientes apresentam-se suspensos em água que contém uma variedade de vitaminas e minerais, destacando-se o cálcio, garoto propaganda do agronegócio infiltrado na comunidade médica não informada dos malefícios dos laticínios para o organismo humano [Apud Felipe, Galactolatria, p. 135].

Na verdade, um litro de leite é composto por 850 ml a 880 ml de água e 120 ml a 150 ml de matéria não líquida. Exatamente as matérias em menor quantidade no leite – açúcar, gordura e proteínas –, têm sido investigadas pela pesquisa médica nas duas últimas décadas por estarem associadas às doenças mais devastadoras do organismo humano no ocidente: câncer, aterosclerose, diabetes, artrite e inflamações do sistema digestório, para citar algumas delas, bastante comuns.

A lactose é um carboidrato dissacarídeo formado exclusivamente nas glândulas mamárias em lactação. Segundo Oski, entre as fêmeas mamíferas, apenas três espécies aquáticas não a secretam: focas, leoas marinhas e morsas [Apud Felipe, Galactolatria, p. 135]. Além do mais, explica Oski, “nenhum outro alimento, exceto o leite, contém lactose”. [Apud Felipe, Galactolatria, p. 135].

O leite da mulher apresenta algo em torno de 75 g de lactose por litro. Em contrapartida, o da vaca apresenta 45 g. O mesmo litro de leite de vaca contém em torno de 35 g de gorduras, das quais 21 g (60%) são saturadas. Se alguém consome um litro de leite ou seu equivalente, por dia, por exemplo, uns 50 a 60 g de queijo, ingere mais de um terço do total diário de gordura considerado necessário, segundo recomendação da Associação Americana do Coração e do Painel da Casa Branca sobre Alimentos, Nutrição e Saúde [Apud Felipe, Galactolatria, p. 135]. Para preservar sua saúde, conclui Oski, o comedor não tem outra saída a não ser abster-se completamente de ingerir leite e laticínios, a única forma de não ingerir gorduras saturadas em excesso [Apud Felipe, Galactolatria, p. 136]. Sua ingestão limita a liberdade de ingestão de outros alimentos. Mas quantos galactômanos sabem disso?

Cálcio

O cálcio está presente no leite de vaca na ordem de 1,2 g por litro, um teor bastante elevado [Oski, Apud Felipe, Galactolatria, p. 137]. Não há consenso, nos países que estabelecem doses mínimas para ingestão diária de cálcio, sobre a quantidade necessária a ser ingerida por humanos. Curiosamente, quanto mais leite de vaca um país extrai, mais elevada é a recomendação de ingestão diária do cálcio. No Canadá e na Inglaterra, seguindo a Organização Mundial de Saúde, a recomendação não passa de 500 mg por dia [Cf. Felipe, Galactolatria, p. 137]. Nos Estados Unidos a ingestão mínima recomendada é de 800 mg diários, podendo chegar a 1.200 mg [Apud Felipe, Galactolatria, p. 137].

Comparado ao leite da mulher, o da vaca apresenta de três a quatro vezes mais cálcio. À primeira vista, parece razoável concluir que é melhor, então, dar leite de vaca para bebês humanos, do que deixá-los serem amamentados por suas mães. Entretanto, um bebê humano não precisa de todo aquele cálcio para fortalecer seus ossos. O leite da vaca contém até 1.200 miligramas de cálcio por litro, enquanto o da mulher contém 300 miligramas. E basta. Se o leite da mulher fosse dado ao bezerro, ele, sim, sofreria deficiência de cálcio. Dar o leite da mãe ao bebê humano não o torna deficiente em cálcio, a menos que essa mãe esteja descompensada.

O cálcio em menor quantidade no leite da mulher é absorvido de modo eficiente pelo organismo do bebê, enquanto o do leite da vaca não o é, devido à quantidade de fósforo presente no leite da vaca. No processo de digestão do leite, explica Oski, essa quantidade de fósforo acaba por ligar-se ao cálcio, impedindo que seja absorvido pelo intestino. Isso leva “muitos nutricionistas a crerem que somente os alimentos com uma proporção de dois para um, ou menos, entre cálcio e fósforo deveriam ser usados como fontes primárias de cálcio.” [Apud Felipe, Galactolatria, p. 138].

Um copo de leite de vaca tem 210mg de cálcio e 167 mg de fósforo, 30% a mais do que o desejável para que o cálcio possa ser bem absorvido. O ideal para essa quantidade de cálcio seria 105 mg de fósforo, no máximo.

Para que o cálcio presente na dieta possa ser bem utilizado pelo organismo humano é preciso que haja equilíbrio entre ele e o magnésio. O leite da vaca, mais uma vez, apresenta uma relação desproporcional, da ordem de oito para um, entre cálcio e magnésio [Cf. Felipe, Galactolatria, p. 138], fazendo com que o cálcio não possa ser assimilado nessa quantidade.

Sabendo-se que 75% do cálcio contido no leite de vaca não pode ser assimilado pelo organismo humano, pode-se concluir que seria melhor desonerar nosso sistema digestório das tarefas que ele não consegue realizar com eficiência, abolindo o leite e seus derivados da dieta. Em vez de buscar no leite bovino a fonte de cálcio para nosso organismo, podemos buscar em alimentos vegetais o cálcio necessário para a manutenção de nossas células e ossos. Uma comparação, feita por Cohen, mostra-nos que é possível fazer certas escolhas mais saudáveis quando se trata de alimentação.

Em uma xícara de leite de vaca temos algo em torno de 291 mg de cálcio, enquanto uma xícara de couve cozida contém 290 mg de cálcio [Apud Felipe, Galactolatria, p. 138]. Todavia, dos 291 mg de cálcio contidos no leite, 218 mg (75%) circularão livremente, causando os danos acima referidos, caso haja carência do magnésio, fundamental para sua fixação.

De fato, segundo o que os autores afirmam, não há razão alguma para ingerir cálcio de origem animal, se temos à nossa disposição a mesma quantidade de cálcio de origem vegetal. “Se for levado em conta”, escreve Cohen, “que apenas um quarto do cálcio do leite é utilizado pelo corpo, por conta da falta de magnésio e da superabundância de proteína, então o cálcio disponível em uma xícara de couve cozida é igual ao de cinco copos de leite! Há cálcio sobrando no leite, mas ele não é facilmente absorvido.” [Apud Felipe, Galactolatria, p. 139].

Não é apenas o cálcio que excede no leite de vaca, considerando-se o que seria razoável ou recomendável para o organismo humano. Também o sódio e a vitamina D podem estar presentes em quantidades ameaçadoras à saúde humana. Entre os efeitos colaterais do excesso de vitamina D, esclarece Keon, estão “a formação de cálculos nos rins, a hipercolesterolemia (colesterol ruim alto), a hipercalcemia, o retardo mental e danos aos olhos, ao sistema cardíaco e circulatório.” [Apud Felipe, Galactolatria, p. 139].

Numa pesquisa feita nos Estados Unidos para medir a quantidade de sódio do leite vendido, foi constatado que ele podia variar de 25 a 40 miligramas acima do indicado na embalagem, por litro [Apud Felipe, Galactolatria, p. 139]. A falta de vigilância também ocorre em relação aos níveis de vitamina D, adicionada ao leite industrializado. O médico Neal Barnard alerta para o fato de que a vitamina D,

[…] tem sido regulada de forma precária. Testes […] de 42 marcas de leite [norte-americanos] confirmaram que apenas 12% estavam dentro dos parâmetros esperados do nível de vitamina D. O teste de 10 amostras de preparados para recém-nascidos revelou que sete continham mais do que o dobro de vitamina D indicada nos rótulos, uma delas continha mais de quatro vezes o teor indicado no rótulo. A vitamina D é tóxica em overdose. [Apud Felipe, Galactolatria, p. 139].

Dado que 75% do cálcio presente no leite de vaca não pode ser aproveitado pelo organismo humano, seja pela falta de magnésio, pelo excesso de fósforo ou pela carência de vitamina D, os empresários descobriram um modo de convencer os consumidores de que é possível, sim, aproveitar o cálcio do leite bovino, bastando para isso acrescentar-lhe vitamina D sintética. Com isso, o número de pessoas sofrendo risco de doenças causadas pela vitamina D aumenta, correspondendo ao aumento do consumo de produtos derivados do leite aditivado com ela. O excesso de cálcio leva o cérebro a interromper os comandos que envia ao fígado para processar a vitamina D.

Conforme explicado, o leite de todas as fêmeas contém duas concentrações diferentes de proteínas: a do soro e a da coalhada. A coalhada é formada por uma “variedade de proteínas chamadas caseínas, enquanto o soro contém as proteínas lactoferrina, alfa-lacto-globulina, beta-lacto-globulina, albumina, lisozima e imunoglobulinas.” [Apud Felipe, Galactolatria, p. 140]. A fermentação do leite por enzimas ou por ácidos segrega a coalhada, restando, então, o “soro do leite” [Apud Felipe, Galactolatria, p. 140]. A composição do leite da mulher difere da composição do leite de vaca também no que diz respeito à proporção entre soro e coalhada.

Relembrando o que já foi esclarecido anteriormente, as proteínas do leite da mulher se constituem de “aproximadamente 80% de soro e 20% de coalhada ou caseína”, enquanto as do leite da vaca praticamente invertem essa proporção. Ele contém mais de 80% de caseína e o restante de soro” [Apud Felipe, Galactolatria, p. 140]. Além dessa proporção inversa, a natureza das proteínas desses dois tipos de leite também difere. As proteínas do soro, contidas em maior quantidade no leite da mulher, são tidas como “superiores”, do ponto de vista nutricional [Apud Felipe, Galactolatria, p. 140].

Da perspectiva da saúde mental humana, a gordura do leite da vaca é pobre, especialmente para a formação e a manutenção das funções cognitivas. O leite da mulher, segundo Keon, “tem até dez vezes mais ácidos graxos do que o leite da vaca.” [Apud Felipe, Galactolatria, p. 140]. As proteínas contidas no leite da mulher respondem por apenas 5% das calorias ingeridas pelo bebê humano. Em contrapartida, para atender às necessidades do desenvolvimento do bezerro, o leite de vaca tem três vezes mais esse teor. Não apenas o cálcio do leite da vaca é excessivo para o organismo do bebê humano. Também o são as proteínas, o sódio e o fósforo contidos nele [Apud Felipe, Galactolatria, p. 140].

Se medirmos os teores de gordura, colesterol, sódio e proteína, contidos em 1½ litros de leite tabelado com 3,5% de gordura, ingerimos: “942 calorias, 53 g de gordura, 210 mg de colesterol (o limite diário é de 300 mg), 714 mg de sódio e 48 g de proteína” [Apud Felipe, Galactolatria, p. 141]. O Dr. Joseph Keon, autoridade em nutrição, bem-estar e saúde pública, nos Estados Unidos, declara: “Tais ‘Decisões Deliciosas’ podem ser a prescrição perfeita para a futura osteoporose, doença cardíaca, hipertensão, obesidade e elevado risco de câncer, segundo um número cada vez maior de resultados de pesquisa.” [Apud Felipe, Galactolatria, p. 141].

Woodford lista três tipos de caseína contidos no leite: alfa-, beta-, e kappacaseína [Apud Felipe, Galactolatria, p. 141]. Um litro de leite bovino, dependendo da raça da vaca, pode conter algo entre 9a 12 g, quase duas colheres de chá de betacaseína (A1 e A2), a proteína do leite associada à maior parte das doenças que afetam um grande número de pacientes, especialmente no ocidente: diabetes, cardiopatias, aterosclerose e outras de ordem neurológica e mental, incluindo a esquizofrenia e o autismo [Apud Felipe, Galactolatria, p. 141].

No leite bovino homogeneizado está presente a xantina oxidase, uma enzima que pode entrar na corrente sanguínea humana. Essa enzima contribui para a destruição das paredes internas das artérias e oxidação da gordura e das proteínas mal digeridas do leite em seu interior. A xantina oxidase pode ser o fator que eleva o número de pessoas com doenças cardíacas nos países onde o leite homogeneizado é mais consumido [Apud Felipe, Galactolatria, p. 141]. Associada ao excesso de cálcio circulando pelo interior das artérias, essa enzima ajuda a formar as placas em seu interior, causando sua estenose.

A quantidade de gordura de leite e derivados, ingerida por um comedor que segue a dieta padrão norte-americana, ultrapassa de longe os níveis considerados saudáveis, mesmo pelos defensores da dieta onívora. Para dar uma ideia mais precisa do teor de gordura e proteína escondidas no leite da vaca, Cohen apresenta a seguinte comparação:

Se você come [laticínios] na mesma quantidade diária do cidadão médio americano, você come o equivalente em gordura a 11 fatias de bacon, o equivalente em colesterol ao que 53 fatias de bacon contêm, e hormônios suficientes para dar início ao mesmo processo de ruptura do controle que seu sistema imunológico produz quando há câncer. [Apud Felipe, Galactolatria, p. 142].

Esses dados continuam ignorados pela maior parte dos profissionais da medicina e da nutrição e dos consumidores de leite e laticínios, não apenas nos Estados Unidos, mas também no Brasil.

O fator de crescimento insulínico – IGF-I

O fator de crescimento insulínico (IGF-I) não é a causa do câncer, explica Cohen [Cf. Felipe, Galactolatria, p. 142]. Mas ele fomenta o crescimento desordenado das células que formam os tumores cancerígenos. Sem ele, “não há câncer”. Em pesquisas mais recentes, os cientistas concluíram que o IGF-I fomenta os tumores, pois,

[…] acelera nitidamente o crescimento de células malignas e sua habilidade de se espalharem para outros órgãos (metástase). Quanto mais IGF-I presente neles, mais agressivos parecem ser os tumores. Isso pode acontecer, não apenas pelo fato de que o IGF-I é mitogênico (estimula a divisão celular), mas também por ser antiapoptótico, quer dizer, impede a morte programada das células – uma característica central de células cancerígenas. [Cohen, Apud Felipe, Galactolatria, p. 142].

O que parece ter sido criado para dar aos consumidores de leite e laticínios a impressão de estarem se servindo de algo seguro e saudável, a homogeneização, explica Cohen [Apud Felipe, Galactolatria, p. 142], é justamente o que torna o fator de crescimento insulínico IGF-I um perigoso coadjuvante no crescimento dos tumores cancerígenos. Ao sofrer a pressão que o processo de homogeneização produz sobre o leite, suas moléculas de gordura são fracionadas em partículas tão pequenas que não podem ser alcançadas pelos ácidos digestivos. Desse modo, elas entram na corrente sanguínea sem terem sido devidamente digeridas, seguindo livremente até o interior de cada célula do corpo humano. Para agravar ainda mais o quadro, a caseína oferece uma espécie de proteção contra a digestão apropriada das moléculas de gordura presentes no leite. As moléculas de gordura láctea não digeridas “passam do estômago para os intestinos, entram na corrente sanguínea e circulam pelo corpo humano, desencadeando poderosos efeitos de crescimento.” [Apud Felipe, Galactolatria, p. 142-143].

O leite magro, ao contrário do que a maior parte dos consumidores pensa, não está livre de gorduras. “Três fatias de bacon contêm menos gordura do que um copo de leite magro” [Cohen, Apud Felipe, Galactolatria, p. 143].

Ingredientes maléficos do leite bovino

Lactose, gordura, proteínas, vitaminas e minerais são constituintes naturais do leite, variando sua presença em função da espécie mamífera e até mesmo da raça ou indivíduo. Estudos atualizados enfatizam cada vez mais a associação entre o consumo de leite bovino e o risco de certas doenças. Os malefícios causados pelo leite bovino à saúde humana não decorrem apenas do fato de que a lactose, o colesterol, a gordura, a proteína e o cálcio, quando consumidos além da conta necessária para manter o funcionamento normal de nossas células, causam doenças. Outros ingredientes fazem parte daquela matéria que ainda chamamos leite. Entre eles, hormônios, pesticidas, antibióticos, pus, formol, formaldeído, ureia, nitratos, nitritos, metais pesados e organoclorados.

Curiosamente, quando ocorreu o escândalo do leite vendido no Brasil, por conter água oxigenada e soda cáustica, não se falou do pus nem de qualquer outro contaminante. Só se tratou de apavorar o consumidor por conta da soda cáustica e da água oxigenada. Quando ocorreu o escândalo do formol, não se falou em pus, nem em qualquer outro veneno presente naquelas caixinhas e saquinhos levados inocentemente pelo galactômano. Nenhum jornalista independente até hoje investigou o que uma caixinha de leite contém. Nenhuma ONG levou o leite aos laboratórios de bioquímica para escanear sua composição e contar as células somáticas e os resíduos de todos os contaminantes presentes no leite. Mas, no Mato Grosso, uma estudante fez sua dissertação de Mestrado sobre os contaminantes no leite de mulheres. Sua amostragem deu 100% de contaminação com organoclorados. De 62 mulheres, apenas uma trabalhava em contato direto com as sacas de soja e milho colhidos na cidade. Todas as mães estavam em contato com os venenos pelos alimentos consumidos e pelo ar respirado.

Os consumidores, ignorando que possa haver muito mais coisas no interior daquelas caixinhas, incluindo coliformes fecais, encontrados há três semanas em 18 de 25 marcas de queijo mineiro vendidas no Brasil, também não pressionam os cientistas das universidades brasileiras a fazerem uma investigação independente para revelar o que escorre escondido nos leites vendidos pelo país afora, e o que é vendido compactado no produtos laticínios: queijo, iogurte, nata, creme e manteiga.

Considerando-se que mais de 30% do leite consumido no Brasil não passa por qualquer inspeção [Cf. Felipe, Galactolatria, p. 144], podemos imaginar o que pode estar escorrendo nesse líquido branco do qual o galactólatra se serve e serve a seus filhos. O escândalo mais recente da adulteração do leite no Brasil (maio de 2013) confirma a deficiência de fiscalização para dar conta do parque galactífero. Formol, formaldeído, ureia e água de poço foram ingredientes aditivados aos do leite em mais de 100 milhões de litros nos últimos anos, sem que ninguém suspeitasse de nada. Todos esses elementos foram ingeridos por humanos, por anos a fio, sem que suspeitassem que o que tomavam como leite fosse apenas um líquido branco adulterado.

A mastite e o pus

Níveis de pus no leite são tabelados pelos Estados, pelo menos nos Estados Unidos. Para quem nunca ouviu falar disso, o tema pode parecer não apenas estranho, mas também repugnante. Segundo Schmid, a contagem de células somáticas é monitorada “para assegurar o cumprimento dos padrões federais de qualidade, e o que tais padrões revelam é a qualidade abismadora da maioria dos leites produzidos hoje.” [Apud Felipe, Galactolatria, p. 145].

O número de células somáticas não pode ser superior a 750.000 por ml de leite, para estar de acordo com a State and Federal Pasteurized Milk Ordinance – PMO (Regulamento Estadual e Federal da Pasteurização do Leite) nos Estados Unidos. Se esse nível legal de pus for ultrapassado, o leite não pode ser comercializado. Mas onde estão os fiscais para fazer o controle diuturnamente? Nem aqui nem lá existem pessoas em número suficiente para efetivo controle. Esse controle é feito por acaso, para constar. Mas ele não é suficiente para cercar todas as hipóteses de contaminação possíveis no leite tirado de um animal violentado em seu éthos pelo manejo galactocrático.

Conforme citado por Schmid, o mesmo artigo que estabelece os níveis legais de células somáticas no leite afirma que “em geral”, esse nível não passa de 200.000 por ml e, ainda, pode ser inferior a 100.000 “na primeira lactação, ou em rebanhos bem manejados”. A Comunidade Europeia estipulou o limite de 400.000 células somáticas por ml de leite. No Brasil o limite é de 1.000.000 de células somáticas para cada ml. Segundo Schmid, se os níveis passam de 250.000 os indícios são de “infecção bacteriana causando inflamação do úbere”. Como é que uma inflamação no úbere consegue deixar o leite livre de pus?

Há, pois, uma discrepância entre os níveis de pus que indicam inflamação do úbere causada por bactéria e os níveis do pus legalizados pelo lobby leiteiro, nos Estados Unidos, na Europa e no Brasil. Mas a discrepância torna-se ainda mais espantosa quando comparamos os níveis de células somáticas e células brancas do sangue, tolerados há 50 anos com os altos níveis atuais.

Àquela época, os textos se referiam ao assunto, nestes termos: “O leite de úberes normais normalmente contém menos de 50.000 células por ml, enquanto o de úberes infectados quase sempre contém mais de 100.000 por ml.” [Cf. Felipe, Galactolatria, p. 145]. Comparado ao nível de meio século atrás, quando os limites normais ficavam em torno de 50.000 células somáticas por ml, hoje esse limite é de 750.000 por ml.

O consumo de pus no leite e laticínios está hoje 15 vezes mais alto do que então. Quanto às células brancas do sangue, que atingem a metade ou mais das células somáticas contadas, não há informação divulgada. Quem deu autoridade a quem para induzir os galactômanos à ingestão de tal índice delas? Em que sentido elas são nutritivas para o organismo humano?

A contagem de células somáticas é um procedimento para medir a quantidade de células epiteliais e brancas do sangue presentes por ml de leite. Essa contagem, segundo Keon, serve também para premiar os produtores que mantêm as vacas sem processos inflamatórios infecciosos nas glândulas mamárias.

Em 2005, nos Estados Unidos, escreve Keon, “o prêmio de honra foi concedido a um rebanho que teve o número de até 70.000 células somáticas por ml de leite, e o segundo lugar ficou com um rebanho cuja contagem não ultrapassou 98.000 por ml.” Keon conclui sua exposição com uma frase absolutamente elucidativa:

É perfeitamente legal vender leite de vacas doentes, desde que a contagem de células somáticas não exceda 750.000 por ml. Desse modo, você pode gratificar-se legalmente com seu copo de 250 ml de leite contendo dezenas de milhões de células brancas do sangue. [Apud Felipe, Galactolatria, p. 146].

A questão, no entanto, não se resume apenas ao estabelecimento legal de níveis de pus num alimento largamente consumido por humanos, como o leite. A questão é a da fiscalização desses níveis, publicamente silenciada, se é que há. Como estar seguro, no Brasil, de que os galactômanos não estejam ingerindo níveis muito mais bombásticos de pus nos laticínios, se os níveis de células somáticas tolerados aqui são de 1.000.000 por ml de leite? De cada 100 litros de leite processados em nosso país, 40 litros não sofrem qualquer tipo de inspeção.

Assim como os antibióticos, cujos resíduos não podem ser inteiramente tirados do leite no processamento final, também não podem ser retirados os resíduos de pus dos leites processados e de derivados deles. O pus, escreve Cohen, é tratado em termos tão dissimuladores que levam a maior parte dos consumidores a não entender do que se trata. “Células somáticas” são termos polissêmicos que designam células epiteliais tanto quanto células brancas do sangue. O pus, embora desagradável de ouvir e ler, é servido e sorvido sem ser percebido pela visão, palato e olfato dos galactômanos humanos que ingerem leite e laticínios.

O leite [escreve Cohen] está repleto de células mortas dissolvidas como substância proteica em nome da culinária. Está cheio de pus de vacas com mastite, tratadas com antibióticos; abarrotado de pesticidas, contém bactérias que, apesar das inúmeras drogas miraculosas com que as vacas são tratadas, não são inteiramente destruídas. Gordura e colesterol? Nenhum outro alimento contém tanto. O leite contém o hormônio geneticamente modificado, do equivalente ao hormônio humano IGF-I, poderoso fator de crescimento. […] Como foi que tivemos tanto êxito em tirar da cabeça todo e qualquer conceito da origem do produto contido naquelas embalagens dos supermercados? Imaginando vacas felizes pastando em belos campos, representadas com grande habilidade nas mesmas embalagens. [Apud Felipe, Galactolatria, p. 147].

Hormônios

Muitos dos hormônios e fatores de crescimento presentes no leite bovino, senão todos, estão presentes também no leite humano. A função deles parece bem clara: levar os bebês humanos a se desenvolverem fisicamente para poderem seguir vivos e adquirir pouco a pouco as características típicas de sua espécie. Esses mesmos hormônios e fatores de crescimento bovino não são desativados quando ingeridos por humanos adultos.

Segundo o pesquisador Klagsburn, um dos pioneiros no estudo dos fatores de crescimento presentes no leite, “hormônios de crescimento, tanto no leite de vaca quanto no humano, estimulam o crescimento celular.” [Apud Felipe, Galactolatria, p. 148]. Para realizar o crescimento celular o organismo produz essa série de hormônios ou fatores de crescimento. A ingestão de uma carga extra deles leva a um crescimento celular fora do padrão daquele organismo. Em médio ou longo prazo é de se pensar que leve também, em muitos casos, à reprodução anormal de células no corpo humano.

O hormônio IGF-I [fator de crescimento insulínico] está presente no corpo humano, podendo ser detectado tanto no sangue quanto na saliva. Ele se liga “a proteínas e receptores, é um componente da formação do tecido celular […]. Os níveis normais de IGF-I livre são relativamente baixos. Medindo-os, recentemente, Frystyk descobriu que os níveis humanos são inversamente proporcionais à idade, variando de 950 ng/L [nanogramas por litro], entre 20-30 anos de idade, a 410ng/L acima dos 60 anos de idade”, diferente dos níveis de IGF-II, que não variam com a idade [Cf. Felipe, Galactolatria, p. 149].

O médico Samuel Epstein, professor de Medicina Ambiental na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de Illinois e Diretor da Coalizão para Prevenção do Câncer, explica o risco para a saúde humana do consumo de leite de vaca tratada com o hormônio recombinante. Nesse leite, esclarece o médico, “o nível de IGF-I chega a ser dez vezes maior do que o normal.” [Apud Felipe, Galactolatria, p. 150]. A preocupação do cientista deve-se ao fato de que a exposição ao IGF-I “aumenta o risco de câncer gastrointestinal e de mama”, conclusão à qual também chegaram outros cientistas, conforme artigo publicado em Cancer Research [Pesquisa do Câncer], no qual afirmam: ‘”a possibilidade existe, de que o aumento dos níveis de IGF-I circulando possa contribuir para o crescimento do tumor mamário’.” [Apud Felipe, Galactolatria, p. 150].

A Cruz Vermelha realizou uma pesquisa usando amostras de sangue de cordão umbilical, revelando “níveis de contaminação nunca antes imaginados”. Em média, as amostras apresentaram “287 contaminantes diferentes, incluindo pesticidas, retardantes de chamas, o químico PFOA, Teflon e mercúrio”. Segundo relatório dos pesquisadores, citado por Keon, “180 desses químicos são cancerígenos em humanos e animais, 217 são tóxicos para o cérebro e sistema nervoso central e 208 causam má formação fetal e desenvolvimento anormal em animais submetidos a testes.” [Apud Felipe, Galactolatria, p. 151]. Muitos desses químicos, confirma Keon, são lipofílicos, quer dizer, grudam-se às moléculas de gordura dos tecidos do organismo animal, e nelas ficam depositados. Ao ingerirem alimentos de origem animal os humanos oferecem seus organismos como alojamento dessas toxinas. Neles, as lipossolúveis voltam a fixar-se nos tecidos gordurosos, razão pela qual muitos cânceres têm origem na “gordura” e podem ser curados com abstenção total de alimentos de origem animal, conforme o prescrevem os médicos do Comitê dos Médicos por uma Medicina Responsável, nos Estados Unidos, entre eles, Neal Barnard, Caldwell B. Esselstyn, John McDougall e T. Colin Campbell.

Patógenos no leite

Além dos hormônios, fatores de crescimento, pus, antibióticos, bactérias resistentes a esses, pesticidas e teores desproporcionais de nutrientes, quando comparado ao leite da mulher, o leite bovino é um carreador de microorganismos poderosos que resistem até mesmo ao mais avançado processo de esterilização UHT.

Segundo Keon, a paratuberculose, doença bovina causada “pela infecção da Mycobacterium avium subespécie paratuberculosis, conhecida pela sigla MAP, similar à que causa tuberculose e lepra em humanos, foi descrita há quase um século pela primeira vez na Alemanha. Ela produz os mesmos sintomas no gado que a doença de Crohn produz em humanos, incluindo a perda de peso e a diarreia crônica”, com intervalos de remissão [Apud Felipe, Galactolatria, p. 151].

Segundo Schmid, a doença de Crohn é tida pela maior parte dos estudiosos como autoimune. Mas, balançando as convicções correntes, há pesquisas que avolumam evidências da “vinculação entre a doença de Johne e a de Crohn” [Apud Felipe, Galactolatria, p. 152]. Schmid reporta a afirmação do Dr. John Hermon-Taylor, Diretor do Departamento de Cirurgia do Hospital da Universidade de St. George, em Londres, especialista internacionalmente reconhecido por seus estudos da doença de Crohn.

Segundo Taylor, quando ”se considera a evidência, é difícil afirmar que o organismo não esteja envolvido. É certo que a M. paratuberculosis pode ser patogênica em humanos e é bem possível que ela cause uma proporção significativa – mesmo substancial – da doença de Crohn em humanos.” [Apud Felipe, Galactolatria, p. 152]. A pasteurização, ao contrário do que o Food and Drug Administration – FDA anuncia, não elimina a Mycobacterium avium paratuberculosis – MAP, afirma Schmid [Apud Felipe, Galactolatria, p. 152].

Keon, por sua vez, escreve: “tem sido sugerido que pessoas que tomam leite de vaca podem estar a ingerir […] a bactéria, aumentando a chance de desenvolver a forma humana da doença.” [Apud Felipe, Galactolatria, p. 152]. O cirurgião John Hermon-Taylor “detectou a micobactéria em 92% das amostras de tecido colhidas dos intestinos removidos de pacientes com a doença de Crohn. Num grupo de controle, apenas 26% tinham a bactéria” [Apud Felipe, Galactolatria, p. 152], razão pela qual o médico afirma: a “vinculação entre o leite de vaca e a doença de Crohn ‘constitui um desastre de proporções trágicas na saúde pública’.” [Apud Felipe, Galactolatria, p. 152].

Segundo Keon, uma investigação realizada pelo Ministério da Agricultura norte-americano – USDA revelou o seguinte: “de cada cem caixinhas de leite vendidas em supermercados, três apresentam bactérias MAP em crescimento!” [Apud Felipe, Galactolatria, p. 152]. Na Suíça, considerada uma das mais refinadas na produção industrial do leite bovino, 20% de 1.384 tanques de leite espalhados pelo país, analisados pela Universidade de Zurique, apresentaram resultados positivos para a MAP.

Podemos imaginar o que está sendo carreado pelo leite servido ao redor do planeta nos países onde o controle sanitário não é considerado fundamental. A micobactéria da paratuberculose também foi detectada em 2% do leite vendido no varejo na República Checa. Keon admite que os índices desse tipo de contaminação podem ser muito maiores, porque essa micobactéria é difícil de ser reproduzida em cultura[Apud Felipe, Galactolatria, p. 153]. Assim, para se ter certeza de que ela não está presente nos leites pasteurizados, seria necessário examinar cada litro vendido no varejo. “Sabemos”, escreve Keon, “que a MAP causa a doença de Johne no gado bovino e que essa doença apresenta os mesmos sintomas da doença de Crohn em humanos” [Apud Felipe, Galactolatria, p. 153]. As vacas infectadas secretam essas micobactérias no leite. O método relâmpago de pasteurização (72 ºC por 15 segundos) não as mata.

Um surto de tuberculose atacou nos últimos anos a população bovina leiteira de Dharamsalah, na Índia, afetando 60% das vacas. Ao mesmo tempo, a tuberculose recrudesceu na população humana que, segundo os especialistas, consome leite infectado não pasteurizado [Apud Felipe, Galactolatria, p. 153].

O bacilo da tuberculose pode passar para o corpo humano, tanto através do leite quanto dos queijos, além de infectar os trabalhadores que cuidam do gado afetado. Apenas na Inglaterra, esclarece Keon, algo em torno de 20 mil cabeças de gado foram abatidas entre 2000 e 2010, “num esforço para deter o surto de TB que continua a espalhar-se e a infectar mais de 40 pessoas por ano.” [Apud Felipe, Galactolatria, p. 153].

Não há vacina contra a tuberculose bovina, que pode ser transmitida internamente ao rebanho e passar para a pessoa que tiver “contato com animais infectados, tomar leite sem ferver ou cortar a carcaça dos bovinos doentes”, segundo o Jornal Diário Catarinense, na redação da notícia sobre a execução de 91% de um rebanho tuberculoso, “em sua maioria vacas leiteiras”, na cidade de Herval d’Oeste, em Santa Catarina. No mesmo texto, o jornal divulga o número de 300 animais diagnosticados com tuberculose no estado catarinense nos três primeiros meses de 2012 [Apud Felipe, Galactolatria, p. 153]. Quantos outros foram detectados ao longo desse mesmo ano e até a metade de 2013? Não se fala mais do assunto.

O New England Journal of Medicine anunciou a descoberta de um novo tipo de Salmonella resistente a cinco antibióticos diferentes e o aumento em trinta vezes dos casos de humanos com infecção contraída por conta dessa nova cepa da bactéria nos últimos quinze anos. Segundo Keon, a resistência da bactéria Campylobacter alcançou 13% no espaço de seis anos, quando antes era 0% [Apud Felipe, Galactolatria, p. 153].

Por mais que a propaganda laticínica tenha convencido um terço da população mundial de que beber leite de vaca é uma decisão não apenas deliciosa, mas também saudável, nos meios científicos independentes, isto é, formados por médicos que não se tornaram consultores nem assessores ou sacerdotes da galactocracia, não há qualquer convicção de que o consumo de leite bovino seja recomendável para humanos.

Numa metapesquisa, realizada em mais de 500 artigos médicos, o cirurgião de mamas Dr. Robert Kradjian, opositor da ingestão de leite em qualquer idade, com exceção do leite da própria progenitora na primeira infância, não encontrou um artigo sequer que defendesse o consumo de leite bovino por humanos.

Em primeiro lugar [escreve Kradjian], nenhum dos autores fala do leite de vaca como um alimento excelente, livre de efeitos colaterais. O foco principal dos artigos publicados parece ser as cólicas intestinais, a irritação intestinal, o sangramento intestinal e a anemia, as reações alérgicas em bebês e crianças, assim como infecções, tais quais as causadas por Salmonella’. “Em adultos [continua o Dr. Kradjian], os problemas parecem mais centrados nas doenças cardíacas, artrite, alergia, sinusite e em questões mais sérias como a leucemia, o linfoma e o câncer. [Apud Felipe, Galactolatria, p. 154].

Segundo Fox, o Comitê de Nutrição da Academia Americana de Pediatria, no artigo, “The use of whole cow’s milk in infancy”, alerta as mães e cuidadores para não darem “leite de vaca aos bebês com menos de um ano de idade, porque pode causar anemia ferropriva. Isso não é por causa de o leite conter pouco ferro, mas porque a albumina bovina no leite pode causar uma reação imunológica no trato intestinal que o leva a perder sangue.” [Fox, Apud Felipe, Galactolatria, p. 154].

A infecção por Salmonella spp., por sua vez, não é algo simples, passível de ser controlado com o mero emprego de antibióticos. Em pelo menos 15% dos afetados, segundo pesquisas médicas, ela pode provocar o surgimento de artrite, doença que se arrasta por um longo período, no qual a pessoa perde a qualidade de vida, seja devido à dificuldade de movimentos, seja devido à dor, ou mesmo devido à ingestão de remédios para superar essas duas dificuldades. A contaminação por Salmonella spp., escreve Keon, “tornou-se algo comum e, mais do que nunca, envolve produtos derivados do leite de vaca.” [Apud Felipe, Galactolatria, p. 154].

Além dos hormônios, o leite contém pesticidas, antibióticos e metais pesados não passíveis de digestão nem excreção. Eles circulam livremente pelo sangue e chegam às células do cérebro. Alguns, o alumínio, por exemplo, têm sido associados ao Mal de Alzheimer e a outras doenças neurológicas degenerativas irreversíveis. Níveis elevados e perigosos de alumínio foram encontrados no leite de vaca, em queijos, cremes e fórmulas instantâneas para bebês. Segundo um estudo publicado pela Journal of Pediatric Gastroenterology and Nutrition [Revista de Gastroenterologia Pediátrica e Nutrição], a versão fortificada de fórmulas para bebês contém 160 mcg de alumínio, enquanto a versão com caseína hidrolisada chega a 773 mcg”[Apud Felipe, Galactolatria, p. 155].

A matéria graxa exerce grande força de atração sobre a dioxina. Alimentos contendo dioxina contêm moléculas de gordura animal, tais quais o leite, a carne bovina e o peixe, fontes que respondem por até 95% da contaminação alimentar humana com dioxina, segundo relatórios de saúde publicados nos Estados Unidos [Apud Felipe, Galactolatria, p. 155].

O risco de contaminação por dioxina através dos alimentos que contêm gordura saturada é tão elevado que, em seu boletim Nutrition Action Health Letter [Carta sobre Nutrição, Ação e Saúde] o Center for Science in the Public Interest [Centro para a Ciência de Interesse Público], também dos Estados Unidos, recomenda: ”Sem dúvida alguma, um modo de minimizar sua exposição à dioxina é evitar alimentos de origem animal, incluindo os derivados do leite.” [Apud Felipe, Galactolatria, p. 156].

O próprio processo de produção do leite em pó desnatado libera nitratos, conforme vimos antes. Esse processo leva à “oxidação do colesterol no leite”. Embora, segundo Schmid, o colesterol não seja o grande inimigo da saúde humana (quando tem origem em fontes graxas vegetais) e até seja um “nutriente importante, especialmente para crianças em fase de crescimento”, o colesterol oxidado tem sido apontado como causador de danos e formador de placas ateroscleróticas nas artérias. Desse modo, conclui Schmid, “o consumidor que bebe leite desnatado, a fim de evitar doenças cardíacas e câncer, de fato, aumenta seu consumo de substâncias que causam doenças cardíacas e câncer.” [Apud Felipe, Galactolatria, p. 156].

Ao consumir apenas leite desnatado, na esperança de manter a saúde, o consumidor corre ainda outro risco, o de ter esgotado o estoque de vitamina A, armazenada no fígado. Segundo Schmid, a vitamina A é necessária para a assimilação proveitosa das proteínas. Não há gordura no leite desnatado na quantidade necessária para a assimilação das proteínas contidas nele. Justamente esse tipo de leite recebe uma dose alta de leite em pó, contendo proteínas não gordurosas em sua composição. Os riscos corridos pelo consumidor, de ter exaurido o estoque de vitamina A armazenada no fígado, vão das doenças autoimunes ao câncer. E, em crianças, alerta Schmid, “dietas ricas em proteínas e pobres em gordura resultam em crescimento rápido da espinha, postura ruim, atonia muscular e visão fraca […]. Isso é exatamente o que estamos vendo na América, hoje, onde governo e indústria se juntam para promover o consumo infantil de leites ‘ricos em proteína’ e pobres em gordura” [Apud Felipe, Galactolatria, p. 156], conclui o Autor.

Para citar:

FELIPE, Sônia T. Galactopoese: a natureza do leite. Palestra apresentada no Curso de Extensão Implicações éticas, ambientais e nutricionais do consumo de leite bovino – uma abordagem crítica. Florianópolis: UFSC, Auditório do Centro de Ciências da Educação, 24 maio 2013, das 18:45 às 21:30.

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Olhar Animal – www.olharanimal.org


Devastação alimentar e ambiental

Curso de Extensão

Implicações éticas, ambientais e nutricionais do consumo de leite bovino  abordagem crítica

[Auditório do Centro de Educação UFSC – 17/5/13]

Devastação alimentar e ambiental

Dr. phil. Sônia T. Felipe

Resumo da sessão anterior: As três principais fontes das dores e do sofrimento de vacas usadas para extração do leite são as inflamações dos quartos, do úbere, dos cascos e os distúrbios digestórios causados pela dieta artificial elaborada para disparar a secreção galactífera, causando-lhes acidose, responsável ao mesmo tempo pela inflamação dos cascos e demais doenças que afetam as vacas. Vimos também que o sistema de manejo, não importa qual seja seu design, não está projetado para deixar as vacas viverem e procriarem de acordo com seu éthos bovino. Está desenhado para render lucros aos extratores e processadores do leite delas. O consumidor de leite e de laticínios deve contabilizar em seu prato não apenas a agonia das vacas, mas também de seus vitelos, condenados ao tormento por 120 dias até serem mortos. Na sessão de hoje trataremos da devastação alimentar e ambiental que a extração e o consumo de leite bovino representam em escala mundial e nacional.

Emissão de gás metano na atmosfera

O gás metano é 23 vezes pior do que o dióxido de carbono para o efeito estufa. Justamente esse é o gás multiplicado no trato digestório do gado alimentado com grãos, cereais e lixo orgânico, em vez de gramíneas. A expulsão do metano ocorre tanto pela boca quanto pelo ânus.

De acordo com Michael Abberton, do British Department for the Environment, Food and Rural Affairs [Departamento Britânico de Meio Ambiente, Alimentos e Negócios Rurais], uma vaca usada para extração de leite expele, em média, “entre cem e trezentos litros de gás metano por dia”. [Apud Felipe, Galactolatria, p. 54]. Em vez de xingar a vaca, que não é culpada de ter sido forçada a comer o que não pode digerir direito, é preciso questionar o consumo de leite e laticínios, pois esse consumo arruína diretamente o planeta, pelo menos por três vias ligadas entre si:

1. A derrubada das florestas nativas para plantio de grãos e cereais destinados a alimentar essas vacas.

2. O manejo da alimentação das vacas, que as obriga a ingerir o que seu éthos não evoluiu para bem digerir, levando seu sistema digestório a produzir e expelir o gás metano, numa proporção que supera duas vezes pelo menos o que a queima de combustíveis fósseis representa para a destruição da camada de ozônio e acidificação dos oceanos.

3. O depósito de matéria excremental atirada sobre o solo, carreada para as águas de superfície pelas chuvas e enchentes e infiltrada no solo contaminando o lençol freático.

Multiplicando-se o número de vacas ordenhadas no Brasil no ano de 2009, segundo dados da Embrapa [Apud Felipe, Galactolatria, p. 56], num total de 22.435.289 animais, pelo volume de gás metano liberado na atmosfera por vaca, entre 100 e 300 litros diários, o consumo de leite em nosso país naquele ano respondeu pela emissão de um montante entre 818,888 trilhões a 2,456 quatrilhões de litros, com níveis diários de 2,243 trilhões a 6,730 trilhões de litros. Esse é apenas um dos muitos custos ambientais originados pelo consumo de laticínios no Brasil, que os galactocratas não pagam.

Não apenas no processo digestivo, mas também na montanha de excrementos não aerados forma-se o gás metano emitido na atmosfera, resultando na destruição da camada de ozônio. É possível ter ideia do que a galactolatria representa na destruição da camada de ozônio, fazendo-se a estimativa da emissão do gás metano expelido pelas vacas em 2008, nos 10 maiores extratores de leite do mundo, a saber:

Países extratores de leite por ordem extração

Vacas ordenhadas em 2008

1º Estados Unidos

9.224.000

2º Índia

38.500.000

3º China

12.652.601

4º Rússia

9.221.000

5º Alemanha

4.217.711

6º Brasil

21.198.000

7º França

38.080.000

8º Nova Zelândia

4.347.657

9º Reino Unido

1.909.000

10º Polônia

2.733.130

[Cf. Felipe, Galactolatria, p. 54].

Em 2008, o total das vacas ordenhadas nos maiores extratores de leite do mundo foi de 142.083.099. Esse total é de vacas ativas, não contando a parte dos planteis mantida na reserva para reposição das vacas caídas e das que são enviadas para o abate quando fracassam as tentativas de inseminação ou quando sofrem de mastite ou outras infecções recorrentes. O plantel reserva pode ter o mesmo número das vacas ordenhadas, ou mais, se considerarmos as novilhas bem jovens que estão sendo preparadas para a primeira inseminação.

Portanto, para os cálculos a seguir, pode-se praticamente dobrar os números, a fim de incluir a produção do gás metano pelas vacas reserva. Se cada vaca expele entre 100 e 300 litros de gás metano ao dia, a emissão estimada é da ordem de 14 a 42 bilhões de litros diários. Multiplicando-se 100 e 300 litros por 365, temos de 36.500 a 109.500 litros de gás metano, expelido por vaca ordenhada, por ano. O total das emissões das vacas ordenhadas alcançou de 5 a 15 trilhões de litros somente no ano de 2008, nesses dez maiores extratores. Considerando-se as vacas reserva desses mesmos países, os montantes sobem para 10 a 30 trilhões de litros no mesmo ano.

Vimos no parágrafo anterior o montante relativo aos dez maiores extratores de leite do mundo. Mas os restantes rebanhos do mundo, de outras 104.778.665 vacas ordenhadas, também liberam gás metano na mesma proporção. O total mundial alcançou no mesmo ano 246.861.764 de vacas ordenhadas. O montante estimado de gás expelido por elas foi de 24 a 74 bilhões de litros diários, resultando em 8 a 27 trilhões de litros no mesmo ano.

Se considerarmos que também o rebanho reserva emite o gás metano podemos dobrar os números dessa emissão, mantendo de 16 a 54 trilhões de litros de gás metano no ano de 2008. Essa é a contribuição anual que os galactômanos dão ao redor do mundo para diminuir a camada de ozônio que envolve nosso planeta. A galactomania forma uma rede de destruição ambiental organizada pela adicção aos laticínios, em âmbito internacional. Todo consumidor de laticínios faz parte desse projeto. Para cessar a emissão desse gás de efeito estufa, há que abolir o consumo de leite e laticínios. Por essa decisão responde cada consumidor. Pela destruição das chances de continuar a existir vida no planeta, também.

Considerando o peso do rebanho bovino usado para extração do leite ao redor do mundo no total de emissões do gás metano na atmosfera, não temos alternativa ética a não ser abolir da dieta esses alimentos. A principal razão pela qual é preciso fazer isso é o sofrimento dos animais cujo sistema digestório é forçado a expelir tantos gases, e a própria responsabilidade pela ameaça à vida que a dieta centrada nos laticínios representa. Caso contrário, todas as espécies de vida, das vegetais às animais, morrerão, direta e indiretamente, pelo fogo dos raios UV-AB, do sol, que perpassam a camada de ozônio cada vez mais fina por conta do consumo humano de leite bovino. Secas em lavouras, inundações em plantações. Eventos cada vez mais comuns. O planeta avisa há décadas. Os comedores estão surdos e cegos. Os alimentos animalizados não fazem bem para a saúde mental humana. Menos ainda para a saúde moral.

Irresponsavelmente, a Food and Agriculture Organization – FAO, para alegria dos galactocratas, recomenda que os brasileiros dobrem a quantidade de leite ingerido, a fim de “alcançarem os níveis considerados ideais”. Ideal, para quem, mesmo? Para o planeta, a expulsão e a emissão de gases, especialmente do metano, acarreta a destruição da camada de ozônio que protege todas as espécies vivas da radiação solar letal. Para as vacas, a duplicação da demanda por leite acarretará mais dor e sofrimento digestório, circulatório, mamário e podal. Para os galactômanos, o resultado será a dor e o sofrimento causados pelos males que só os afligem por conta de sua dependência casomorfínica.

Numa comparação com a tragédia que seria alimentar humanos com guloseimas, Singer e Mason alertam sobre o que representa para a saúde das vacas alimentá-las com milho. Dá para mantê-las vivas por certo tempo, mas, em hipótese alguma, elas terão saúde e longevidade. Se a ração à base de grãos implica em doenças e mesmo em risco de morte para as vacas, o que dizer da composição descrita por John Robbins e por Schlosser citada na primeira sessão deste curso? Cf. <http://www.pensataanimal.net/pensadores/152-sonia-t-felipe/382-implicacoes-eticas-ambientais-e-nutricionais-do-consumo-de-leite-bovino-uma-abordagem-critica-etica-animalista>.

Singer e Mason descrevem o processo digestivo bovino nos seguintes termos: Quando regurgitam, “os animais produzem gases chamados ‘compostos voláteis’. [A] maior parte desses gases é emitida pela boca, não pelo ânus. Quando há muitas cabeças de gado, o manejo gera muito gás”.

Se alguém quiser saber quanto gás metano é liberado por dia na atmosfera pelas vacas usadas para extração do leite, basta multiplicar o número de vacas por 100 e por 300. Para saber quanto as vacas dessa região liberam por ano, basta multiplicar o resultado anterior por 365 dias. Para saber o montante da responsabilidade pessoal de um galactômano urbano na emissão do gás metano oriundo da extração do leite, é preciso contabilizar o total dos produtos laticínios consumidos por dia, por semana ou por mês, calcular o número de vacas necessárias para fornecimento do leite usado para processar esses laticínios e a emissão diária de gás metano por essas vacas. Toda criança e adolescente deveria aprender a fazer tais cálculos desde o ensino fundamental. Se isso fosse feito, a consciência animal e ambiental dos jovens, dos adultos e dos idosos brasileiros já estaria noutra frequência ética.

Nos Estados Unidos, funcionários do Air Pollution Control District do Vale San Joaquim, que controla a poluição do ar na região, “acreditam que as 2,5 milhões de vacas leiteiras são a maior fonte de poluição do ar […]”. [Apud Felipe, Galactolatria, p. 56]. O total liberado na atmosfera por aquelas vacas, que representam 27,2% do total do rebanho ordenhado nos Estados Unidos em 2008, é estimado em “100 milhões de toneladas de gás metano por ano, o que representa 20% do total da emissão anual de metano do país”, escreve Keon [Apud Felipe, Galactolatria, p. 56].

Isso significa que o leite e os laticínios originados daquelas vacas, representam um quinto do total de gás metano emitido naquele país. Se o total de emissão de gás metano nos Estados Unidos é de 500 milhões de toneladas ao ano, e um rebanho de dois milhões e meio de vacas responde pela emissão de 20%, o rebanho de 9 milhões e 200 mil vacas responde então pela emissão de 73,6% do total de gás metano liberado na atmosfera por aquele país. Isso quer dizer que o restante das emissões, incluindo toda queima de combustíveis fósseis, dos aviões aos tratores, passando por todos os automóveis e ônibus não soma mais do que 26,4%. O peso do queijo, do iogurte, da vitamina, dos biscoitos, das tortas, dos gratinados na manteiga, das pizzas quatro queijos e de tudo o que contém derivados do leite, na destruição do planeta, é três vezes o do restante da atividade humana. Comer laticínios é praticamente sinônimo de destruição da vida no planeta. Mas quem já ouvira falar desse assunto, até ler este texto?

Ron Schmid escreveu o livro The Untold Story of Milk [A história não contada do leite], no qual revela que, em sua quase maioria, as vacas usadas para extração do leite nos Estados Unidos vivem a maior parte do ano confinadas em estábulos, alimentadas com “dietas científicas”, sem grama fresca, desenhadas com o propósito de “maximizar a produção do leite”. Mesmo na versão não composta com excrementos de galinha ou restos de outros animais triturados, essa dieta científica, adotada naquele país, contém igualmente matéria indigesta para bovinos, quando não, maléfica para sua saúde e bem-estar: “grãos, feijão de soja, restos de padaria (bolos, pão, tortas, massas e até mesmo balas) e tortas de cascas cítricas carregadas de pesticidas”.

Como se não bastasse terem de digerir açúcares e massas, além dos demais dejetos listados por Robbins, as vacas agora voltam a receber como ração bagaços da cana-de-açúcar, o lixo da indústria do álcool. O sistema digestório bovino não evoluiu para digerir e metabolizar esse tipo de matéria. Àquela época, as vacas recebiam bagaços de cana orgânica (não havia pesticidas nos cultivos do século XIX), acumulados nas áreas de produção do etanol. Hoje, segundo Schmid, elas recebem bagaços carregados de resíduos dos químicos empregues na fermentação acelerada da matéria orgânica, matéria carregada de enxofre.

Há mais de um século, a opinião pública tomou conhecimento de que as vacas eram alimentadas com resíduos das fábricas de cerveja, etanol e uísque. O leite que elas produziam era aguado e sem nutrientes relevantes para a saúde dos bebês humanos que o ingeriam e morriam em número assustador. Hoje, na era da informação disponível na rede internacional, os consumidores sequer sabem da dieta de bagaço contaminado com resíduos químicos de todo tipo, dada às vacas.

Enquanto, há um século, era possível ver a pilha de bagaços e as vacas comendo-os, hoje, a indústria de bebidas e de etanol não edifica mais suas instalações em centros urbanos. “Essas leiterias estão fora do alcance das vistas e, pois, fora da mente – tão longe que o olfato não as pode alcançar”, escreve Schmid, “e revelam ainda menos a vinculação entre o que é dado às vacas para comer e a decadência da saúde pública.” [Apud Felipe, Galactolatria, p. 57].

O médico Virgil Hulse, investigador das sequelas humanas causadas pela ingestão de carnes e leite bovino, escreveu em 1996 o livro Mad Cows and Milk Gates. Em suas palavras, “a ração das vacas nos Estados Unidos contém carne e tecidos de ovelhas doentes, de frangos e de outras vacas”. A carne desses animais forçados a ingerirem e a digerirem carne de outros animais, em outras palavras, forçados ao carnivorismo e ao canibalismo, é “empacotada em embalagens de plástico, etiquetada e colocada à venda nos balcões dos mercados, como inofensivas para o consumo humano. Dessas vacas, 80% sofre com o vírus da leucemia bovina e 50% com o da imunodeficiência bovina – o equivalente animal da AIDS. Tomamos leite e comemos queijos com restos de linfócitos cheios de DNA proviral desses vírus”, alerta Hulse, e “sabe-se que, quando os consumidores ingerem fluídos emitidos por animais ou a própria carne deles, estão correndo riscos, seja lá em relação ao que for que tenha afetado o animal.” [Apud Felipe, Galactolatria, p. 57]. O Dr. Hulse é cientista de laticínios, pesquisador e epidemiologista do câncer. Ele foi inspetor do leite e dos laticínios na Califórnia por 13 anos, tendo se demitido por não conseguir que suas recomendações fossem seguidas para garantir a limpeza e não contaminação do leite vendido aos consumidores.

A excreção do leite

É preciso considerar o que representa para o planeta a manutenção do sistema de extração de leite animal. De acordo com os dados apresentados por Ron Schmid, uma vaca usada para extração diária de 40 litros de leite, considerando-se o total entre fezes, urina e águas contaminadas pela higienização das instalações onde as vacas são ordenhadas, produz em torno de 530 litros de resíduos por dia [Apud Felipe, Galactolatria, p. 58]. Basta imaginar o que representa, ao cabo de um ano, a produção de leite dessa única vaca, escondida dos olhos do consumidor: 193.450 litros de dejetos. A proporção fica em torno de 1 litro de leite para 13 litros de dejetos. Mas ao adquirir 1 litro de leite ou 1 kg de manteiga (equivalente a 40 litros de leite), o consumidor não adquire o contêiner contendo, respectivamente, 13 litros, ou, 530 litros de dejetos, o equivalente ao que o consumo desse produto de origem animal deixa de rastro sobre o planeta.

Se cada um fizer as contas do próprio consumo de leite e derivados, pode chegar à somatória final do que seus hábitos alimentares privados representam para a devastação animal e ambiental. Concluído o cálculo da ingestão de laticínios, não resta inocência moral alguma. É preciso assumir a responsabilidade pessoal pelos danos que esses alimentos causam às vacas, ao ambiente e à própria saúde.

Segundo Joseph Keon, a vaca comum produz em média 60 kg de excrementos semissólidos por dia [Apud Felipe, Galactolatria, p. 58]. Aqui não estão computados os resíduos líquidos acumulados em função do manejo em confinamento completo, levados em conta no cálculo de Schmid, somente o que é de fato expelido pelos sistemas digestório da vaca, seus excrementos. Ainda assim, se essa vaca produz 40 litros de leite por dia, cada litro de leite representa um litro e meio de excremento. O autor calcula a quantidade de excrementos produzida diariamente por uma vaca, como equivalendo ao de 24 humanos [Apud Felipe, Galactolatria, p. 58].

Contabilizando-se o total de excrementos produzidos diariamente pelas vacas usadas na indústria de laticínios, nos Estados Unidos, 553.440.000 kg, e calculando-se o equivalente de 1/24, temos um total equivalente ao de uma população de 220 milhões de humanos. Nos Estados Unidos, o leite bebido e processado deixa um rastro excremental praticamente equivalente ao dos dejetos excretados pelos norte-americanos.

Se fizermos os mesmos cálculos, no Brasil, multiplicando-se o rebanho de 22.435.289 vacas ordenhadas em 2009, pelos excrementos equivalentes ao de 24 humanos, as vacas brasileiras excretaram o equivalente a uma população de 538.446.936 de pessoas. Somos, portanto, uma população de 200 milhões de pessoas que excretam seus próprios dejetos e mais os de 22 milhões de vacas, por conta da adicção aos laticínios.

Por conta da galactolatria afogamos nosso solo, águas e ares em excrementos animais e ninguém nos dá a somatória excremental de nossa dieta animalizada. Alguma coisa está fora da ordem moral. Multiplicando-se o volume de 60 kg por 365 dias, as vacas brasileiras produzem 491.332.829.100 kg anuais de excrementos, por conta de 29.112.000 toneladas de leite extraído delas, segundo dados relativos ao ano de 2009 [Apud Felipe, Galactolatria, p. 59].

Isso equivale a quase 17 kg de excrementos por litro de leite extraído. O ônus para as vacas, que tiveram que ingerir, digerir e expelir toda essa matéria, e para o planeta, que não evoluiu para dar conta de ingerir e digerir tanto excremento, é imenso. Quem pensa que esses ônus são de graça para os humanos, engana-se. Não inventamos ainda um sistema de impermeabilização do mal. Se o praticamos e estamos no mesmo ambiente, ele reverte também sobre nós. O planeta não tem muralhas contra as ondas sísmicas nem contra quaisquer ondas destrutivas provocadas pelos hábitos alimentares humanos. O que fazemos às vacas e ao planeta, o fazemos a nós mesmos. Apenas o tempo em que o mal aparece pode ser outro. As coisas não revertem sincronicamente. Há um tempo para tudo. Para fazer o mal. Para sofrer o mal feito pelo outro. Para receber de volta o mal feito por conta própria aos outros.

Quando os dados são fornecidos pela Environmental Protection Agency [Agência de Proteção Ambiental] nos Estados Unidos, parte dos excrementos do leite parece evaporar-se. Segundo aquela agência, as vacas usadas para extração do leite, não as que são alimentadas para o corte, produzem 27 bilhões de kg de excrementos por ano, o que daria um total de 2.700 kg de excrementos por ano, por vaca. Considerando-se que, em 2008, o rebanho norte-americano era de 9.224.000 vacas lactantes, o montante não passa de 8 kg de excrementos por indivíduo ao dia.

Entretanto, os tratados de eficiência na extração do leite prescrevem: para cada litro de leite extraído deve-se dar 0,5 kg de comida sólida, 2 kg de forragens e de 5,5 a 8,5 litros de água para a vaca. Se do rebanho estadunidense foram extraídos 86 bilhões de litros de leite em 2008, então essas vacas tiveram que ingerir 43 bilhões de kg de comida sólida, 172 bilhões de kg de forragens e 602 bilhões de litros de água. A soma disso tudo é de 817 bilhões de kg. Como é que os relatórios apresentam apenas 27 bilhões de kg de excrementos? Onde foram parar os 790 bilhões de kg de excrementos resultado daquela ingesta?

Se contabilizarmos 60 kg de excrementos diários por vaca, apontados por Keon, e confirmados, no Brasil, pelo Portal do Agronegócio [Apud Felipe, Galactolatria, p. 59], e multiplicarmos por 9,224 milhões, em 2008, o rebanho norte-americano de vacas usadas para extração do leite excretou 553.440 t/dia. Ao final daquele ano, o volume foi de 202 milhões de toneladas, não de 27 milhões de toneladas. A Agência de Proteção Ambiental americana está nos protegendo de saber quanto excremento sua produção de leite representa para o planeta. Ela esconde nada menos do que algo da ordem de 175 milhões de toneladas anuais de excrementos de vacas lactantes. Em seu relatório ela fala de 27 milhões de toneladas. Mas um rebanho de mais de nove milhões de vacas excreta, no mínimo, 202 milhões de toneladas ao ano.

Os Estados Unidos recusaram-se a assinar o Protocolo de Quioto que ordenou a redução da emissão dos gases de efeito estufa. Vimos que as vacas respondem sozinhas por mais de 70% da emissão do gás metano, ganhando a medalha inclusive na competição com toda a queima de combustíveis fósseis daquele país. Mas a quem a galactocracia engana, escondendo dos galactômanos os resultados devastadores do consumo do leite? À camada de ozônio? Ao restante do planeta? Os galactômanos querem ser mantidos em seu estado de inocência? Mas o planeta e as vacas não assinaram contrato algum para sustentar essa que nada mais é do que uma pseudoinocência.

No sítio dedicado às questões relacionadas com a manutenção das vacas usadas para extração do leite, o primeiro parágrafo do texto, “Notícias: Dejetos bovinos aumentam produtividade em 25%”, afirma:

Muitos produtores não sabem, mas uma vaca que dá 25 litros de leite produz cerca de 60 kg de dejetos por dia. Se todas as vacas da fazenda forem somadas, a quantidade de esterco produzido diariamente é muito grande. [Apud Felipe, Galactolatria, p. 60].

Em artigo de César Dassie, no mesmo sítio, “Tirando proveito do esterco em confinamento”, temos dados similares:

Para se ter uma ideia, cada animal produz, em média, 50 kg de esterco semissólido por dia. Somando a urina, água desperdiçada e de lavagem de equipamentos, estima-se que o volume de dejetos atinja até 100 kg/cabeça/dia. […] Afinal, num confinamento de, por exemplo, 300 vacas leiteiras, algo em torno de 30.000 kg/dia de dejetos terão de ser coletados, transportados, estocados, tratados e distribuídos.[Apud Felipe, Galactolatria, p. 60].

A produção de excrementos varia conforme o peso da vaca, pois igualmente varia a quantidade de matéria ingerida por ela. Medindo-se os dejetos em metros cúbicos, temos a seguinte variação: um animal jovem, de 68 kg, produz por dia 0,005 m de dejetos. Dobrando o peso, aos 113 kg, o volume de dejetos praticamente dobra para 0,009 m/dia/animal. Com 227 kg, os dejetos do animal sobem para 0,019 m/dia/animal. Com 454 kg, peso médio das vacas lactantes, os dejetos diários sobem para 0,037 m. Se o peso alcança 635 kg, o volume de dejetos sobe para 0,052 m/dia/por animal [Apud Felipe, Galactolatria, p. 60].

Usando os dados oferecidos por Keon, chega-se a uma equivalência de 24 por 1, entre excrementos humanos e de vacas. São necessários 24 humanos para alcançar o total excretado, por dia, por apenas uma vaca. Mas, é bom frisar, Keon apresenta um número bastante tímido, se considerarmos os dados constantes do artigo de César Dassie. Segundo esse autor, do “conjunto de excreções, os elementos sólidos representam a menor quantidade, algo em torno de 25% do total.” [Apud Felipe, Galactolatria, p. 60]. É preciso considerar que além da matéria seca as vacas recebem forragens em volume quatro vezes maior do que o do alimento seco. Essa quantidade de gramíneas e forragens é necessária para que elas sejam supridas das fibras necessárias à digestão eficiente do restante da alimentação. Assim, não é de espantar que um volume de 100 kg de excrementos diários possa conter 25 kg de sólidos, mantendo o percentual de 25% do total excretado.

Se há algo que sai em tal quantidade, gases, urina e fezes, é porque algo, ração e água, em proporção equivalente, foi ingerido. Uma vaca com produção média, não a top de linha, mas também não a menos “eficiente”, usada para extração do leite, consome no mínimo “40 kg de comida por dia para manter alta a secreção do leite. Isso inclui grama, capim, sorgo, feno, grãos, cereais e outros.” [Apud Felipe, Galactolatria, p. 61]. Keon não refere, nessa quantidade, quanta água é ingerida pela vaca para hidratar seu sistema digestório e o resto do organismo.

No Brasil, segundo dados fornecidos pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária – Embrapa, 42% das fazendas adotam o sistema de semiconfinamento, cujo retorno por animal é de 22,8 kg de leite por dia. O confinamento completo das vacas usadas para extração do leite é adotado por 41% das fazendas, nas quais o retorno por animal é de 30,5kg de leite por dia. Nas pastagens, sistema adotado por 17% dos empresários do leite, o retorno por animal fica em torno de 17,2 kg de leite ao dia.

Para o cálculo do que escorre escondido no leite e derivados, são empregues os dados fornecidos pelos produtores que adotam os sistemas de semiconfinamento e confinamento completo, nos quais é possível calcular com mais segurança a quantidade de comida seca, forragens e água ingeridas pelos animais ao longo de um dia, e dividir esse montante pelo número de animais para se chegar a um número médio, tanto do consumo de alimentos e água, quanto dos dejetos excretados. Mesmo tomando conhecimento dos números assustadores, poucos galactólatras se preocupam com o destino final de tanto excremento galactogênico, lançado sobre o solo ao redor do planeta.

A quase totalidade desses excrementos fica exposta a céu aberto sobre os campos, esperando uma enxurrada que os carregue para os rios. Não é para menos que, somente nos Estados Unidos, mais da metade dos rios estejam contaminados com dejetos animais, considerados pela Environmental Protection Agency EPA (Agência de Proteção Ambiental), um dos maiores poluentes ambientais. A contaminação ambiental é uma das razões pelas quais os países, antes produtores de animais para consumo doméstico, agora comecem a olhar para o Brasil como fornecedor de carnes, leite e ovos. Eles querem se livrar do excremento, querem economizar suas águas potáveis, querem preservar seus trabalhadores das sequelas do trabalho animalizado. Enfim, querem tudo o que os beneficia, sem abolir de sua dieta os alimentos animalizados. Mas, obviamente, todo excremento e urina desses alimentos animalizados que eles importam de nós ficarão aqui, no Brasil, destruindo a saúde das vacas, do planeta e dos brasileiros. O bônus vai para a conta dos exportadores. O ônus, para a existência de todos os animais submetidos aos interesses galactocráticos.

Na exportação, a matéria cobiçada segue nos navios e aviões. Os excrementos ficam no solo, ar e águas do país exportador. Quando se referem aos milhões de toneladas de carne exportadas, por exemplo, as notícias sobre a balança comercial jamais acrescentam os bilhões de toneladas de excrementos acumulados em nosso território, resultado da excreção diária de todos os animais mortos para o corte de carnes. Os importadores da carne e do leite estão livres da contaminação que os respectivos dejetos representam para os ecossistemas do domicílio exportador.

Também não são citados nos noticiários os trilhões de quilogramas de alimentos consumidos pelas vacas das quais o leite é extraído e pelos demais bovinos mortos pela indústria da carne, nem o montante de água potável que esses animais consumiram. Excrementos, alimentos e água formam o bolo fecal sem o qual não há leites. Mas, ao orgulhar-se de ser um dos maiores produtores de gado bovino, o brasileiro jamais revela o montante do bolo fecal que fica para trás, depois que a carga foi despachada, limpinha, para o domicílio dos importadores.

Primeiro Inventário Brasileiro de Emissões Antrópicas de Gases de Efeito Estufa – Relatório de Referência dá atenção aos dejetos das vacas usadas para extração do leite em nosso país. Segundo dados fornecidos pela Embrapa Gado de Leite – CNPGL, “os sistemas de manejo de esterco no país estão distribuídos aproximadamente em: 1% – lagoa anaeróbica, 3% – lodo, 45% – pastagem; 20% – esterco seco no local de origem (daily spread); 20% – estocagem sólida e 11% – outros. Para a região Sul, a EPAGRI indica estes percentuais para o manejo de esterco: 5% – armazenamento em poços e fossas (outros sistemas); 75% – pastagem (sem manejo) e 20% – esterco armazenado no local de origem e usado posteriormente como adubo (daily spread)”. [Apud Felipe, Galactolatria, p. 62].

O excremento bovino não aerado produz uma concentração de amônia superior à encontrada em depósitos de excrementos humanos. Segundo medições comparativas realizadas pela agência estadunidense, Environmental Protection Agency – EPAa concentração média de amônia nos excrementos bovinos acumulados chega a ser 160 vezes maior do que a dos excrementos humanos, chegando a 200 vezes mais em casos menos frequentes [Apud Felipe, Galactolatria, p. 63].

Quando não seguem para os rios, os contaminantes presentes nos excrementos das vacas infiltram-se nas águas que formam os lençóis freáticos, usadas em algum momento para as necessidades humanas. Os processos de filtragem e decantação empregues para limpar a água e torná-la potável não dão conta de exterminar os patógenos presentes nela, contaminada com excrementos animais. Em 1993, relata Keon, 400.000 pessoas adoeceram e uma centena delas morreu “por exposição, através da água potável, ao patógeno mortal Cryptosporidium. Esse parasita foi rastreado e detectado no esterco bovino.” [Apud Felipe, Galactolatria, p. 63].

Há cinquenta anos, escreve Keon, as glândulas mamárias de uma vaca secretavam em torno de 1.000 litros de leite por ano. Hoje, chegam a tirar delas até 25 mil litros por ano. Há vacas premiadas das quais são extraídos 35 mil litros de leite por ano, uma média de 95 litros por dia [Apud Felipe, Galactolatria, p. 63]. Segundo Schmid, vacas “altamente eficientes” na conversão de alimentos, hormônios e antibióticos, resultadas de rigorosa seleção genética, podem chegar a produzir 20 vezes mais leite do que seria necessário para alimentar seu bezerro [Apud Felipe, Galactolatria, p. 63]. Inovações em zootecnia levaram a tais resultados, uma brutalidade contra a constituição anatômica e fisiológica das vacas, que rende bilhões a quem as explora, aos galactocratas, e uma existência dorente e sofrente a cada uma delas.

Na alimentação, a mudança mais cruel foi a substituição da dieta herbívora tradicional pela dieta de grãos, cereais, restos triturados de outros animais e excrementos deles. A quantidade de matéria ingerida também aumentou. A ela foram acrescidos aditivos. Na medicina veterinária, o emprego de hormônios e a seleção nos cruzamentos foram mudanças cruciais. Elas garantiram que somente as fêmeas mais “eficientes” (menor custo para o produtor e maior quantidade de leite sendo extraído delas) se reproduzissem [Apud Felipe, Galactolatria, p. 63]. E, no manejo, a escravização do organismo dessas fêmeas, forçadas a se reproduzirem sem descanso por quatro a seis anos de vida, subtraiu-lhes 70% de sua longevidade natural.

Nesse sistema, o estresse físico, emocional e fisiológico das vacas, quando recorrente, as torna suscetíveis a doenças em razão de sua baixa defesa imunológica, inaproveitáveis para os interesses financeiros de quem as explora [Apud Felipe, Galactolatria, p. 64]. O eufemisticamente chamado “descarte involuntário”, o abate de vacas exauridas, permite ao produtor explorar outra, mais jovem, renovando cada vez mais cedo seu plantel.

Segundo estudo comparativo da produtividade das vacas nos 10 principais países produtores do leite, as vacas brasileiras têm uma média de 1,31 toneladas anuais, o que dá uma média de 3,58 litros de leite ao dia. Nessa média provavelmente estão contabilizadas as vacas do plantel reserva. As vacas mantidas em confinamento completo produzem dez vezes esse volume. Mas no cômputo geral do leite brasileiro aquela é a média estimada por animal.

O total brasileiro, no ano de 2008, foi de 27.752.000 toneladas de leite, para um rebanho de 21.198.000 vacas ordenhadas. Se a média de excreção de cada animal ordenhado beira os 60 kg e a produção beira os 3,6 litros por dia, temos 16,6 kg de excrementos para cada litro de leite consumido ou processado. Não estão computados nesses totais os excrementos das vacas secas, que compõem o plantel reserva, apenas os das vacas lactantes.

Quanto maior a concentração da matéria sólida em um laticínio (queijo, manteiga, creme, ricota), maior o volume correspondente de excremento que esse produto deixou como lastro no planeta, sobre o território brasileiro, pois maior é a quantidade de leite usada em sua produção.

Levando a sério esses números, vamos ao cálculo do que jorra escondido junto com o leite e outros alimentos derivados dele, conforme a proporção de 16,6 kg de excremento, para cada litro de leite, e da quantidade de leite necessária para processar cada um dos itens laticínios. Temos, então, o produto, quanto de leite ele consumiu, e quanto de dejetos ficaram depositados no planeta por conta do consumo humano de laticínios.

Vejamos: para produzir 1 kg de manteiga são processados 42 litros de leite. Para produzir esses 42 litros de leite, foram deixados no planeta 697 kg de excrementos. Para produzir 1 kg de queijo duro, são processados 10 kg de leite, deixando no planeta 166 kg de excrementos. Para produzir 1 kg de sorvete, são necessários 24 kg de leite, que deixam no planeta 398 kg de excrementos. Para produzir 1 kg de leite em pó magro, são necessários 22 kg de leite, que deixam no planeta 365 kg de excrementos. Para produzir 1 kg de leite em pó integral, são consumidos 15 kg de leite, que deixam no planeta 249 kg de excrementos [Apud Felipe, Galactolatria, p. 64].

Laticínio

1kg

Quantidade leite

kg

Quantidade excremento

kg

Ghee

60

996

Manteiga

40

660

Sorvete

24

398

Leite pó desnatado

22

365

Leite pó integral

15

249

Queijo duro

10

166

Segundo dados apresentados por Robert Cohen, obtidos dos relatórios do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos – USDA, a média do consumo dos norte-americanos em 1995 foi de 197 kg de vegetais, 60,5 kg de frutas frescas, 96 kg de farinhas e cereais, 95,5 kg de carnes, frango e peixes, e 292 kg de leite e laticínios [Apud Felipe, Galactolatria, p. 65]. Usando os números apresentados por Schmid, segundo os quais 1 kg de leite deixa um lastro de 12 kg de excrementos sobre o planeta, nos Estados Unidos, podemos chegar ao total de 3.504 kg de excrementos, das vacas usadas para a extração desse leite usado no processamento dos laticínios consumidos pelo comedor norteamericano, individualmente. Essas três toneladas e meia de excrementos, relativas ao consumo de apenas um indivíduo em um ano, estão depositadas sobre a superfície do planeta.

Multiplicando-se aquelas três toneladas e meia por 300 milhões de consumidores, o montante sobe para o total de mais de um bilhão de toneladas por ano. Ninguém faz esse tipo de cálculo ao comprar leite, queijo, creme, iogurte ou manteiga. Conforme visto, quanto mais compactadas a proteína e a gordura no produto derivado do leite, mais litros de leite estão embutidos nele, portanto, maior o custo ambiental e o sofrimento animal, considerando-se a quantidade de alimentos que a vaca foi obrigada a ingerir sem poder digerir direito e os dejetos não manejados que esses laticínios vão deixando em sua passagem, do úbere da vaca ao estômago do comedor humano.

Contabilizando-se 60 kg por animal, o total de dejetos produzidos em 2008 [Apud Felipe, Galactolatria, p. 65] pelo rebanho brasileiro, na casa dos 21.198.000 vacas, alcançou 1.271.880 t/dia. Ao final daquele ano, foram dejetadas sobre o território brasileiro 464.236.200 toneladas de excrementos devidos à galactomania. Naquele mesmo ano, a média de consumo de leite foi de 138 litros por pessoa. Seguindo a estimativa de 16,6 kg de dejetos por litro de leite extraído no Brasil, cada consumidor contribuiu para o acúmulo de 2.290 kg de dejetos bovinos em território brasileiro. Além dos cálculos acima, não dispomos de dados precisos sobre o montante dos excrementos oriundos do leite, no Brasil. Esses cálculos foram realizados a partir dos números do rebanho em atividade lactante e das informações fornecidas sobre o volume de excreção e de matéria alimentar consumida por esse rebanho, nos trabalhos já citados.

Alguns consomem até dez vezes mais leite e laticínios do que outros, especialmente quando ingerem laticínios sólidos e semissólidos, não apenas leite líquido. Os sólidos concentram a matéria sólida do leite, correspondendo, em cada litro, de 13% a 15%, dependendo da vaca. Ninguém paga a conta dos dejetos da vaca ao comprar leite, manteiga, queijo, iogurte e sorvete. A proporção entre o leite extraído e os dejetos excretados é descomunal, da ordem de mais de 16 para 1. Não dá para entender, por que alguém ingere um alimento tão carregado de excrementos, a menos que se reconheça que a galactocracia, quer dizer, a propaganda médica tenha feito a cabeça das pessoas a ponto de elas se julgarem atrofiadas para absorção de cálcio, necessitando permanentemente de uma vaca por perto para lhe suprir a demanda natural por esse mineral. A galactomania não é um estado natural da espécie humana, e sim uma construção social de caráter mais impregnante do que a própria religião. Dominado pela dependência causada pelos laticínios, o galactômano perde a capacidade de pensar e calcular por sua própria vontade antes de fazer suas escolhas alimentares e as de seus filhos.

Se, conforme o sugere a Food and Agriculture Organization – FAO, o consumo brasileiro chegasse aos níveis de 215 litros/habitante/ano [Apud Felipe, Galactolatria, p. 66], cada brasileiro teria que responder, em sua consciência, pela devastação ambiental anual correspondente a 3.569 kg de excrementos de vaca, abandonados à própria sorte sobre o território brasileiro. De qualquer modo, se consumimos 76 mil toneladas de leite por dia, no Brasil, nossa cota chega ao montante diário de 1.261.600 toneladas de excrementos bovinos produzidos como dejetos desse consumo. Acrescente-se a esses os dejetos do comedor humano. O planeta não evoluiu para digerir tanto excremento.

Considerando-se o consumo de uma cidade como Florianópolis, arredondando sua população para 450 mil pessoas e tendo como parâmetro o consumo de 140 litros de leite por ano, por pessoa, temos um consumo de 63 milhões de litros de leite por ano. Se, para cada litro de leite ficou um lastro de 16,6 kg de excrementos sobre o planeta, lá onde as vacas são alimentadas, os florianopolitanos respondem por 1, 045 trilhões de litros daqueles excrementos.

Dividindo-se outra vez esse montante pelo número de habitantes, cada morador desta cidade de Florianópolis responde por ano por 2,3 toneladas de excrementos dos laticínios que consome, sem que tenha que ver, cheirar ou se mover em meio a essa montanha excremental, gerada pelo seu leite no café, sua torta, pizzas, sorvete, chocolates, queijo de todo tipo, manteiga, ghee, iogurte e microderivados do açúcar, das gorduras e proteínas do leite, usados pela indústria de processamento de quase todos os demais alimentos.

Para produzir 63 milhões de litros de leite, o planeta teve que fornecer 31,5 milhões de kg de grãos e cereais, pelo menos 126 milhões de kg de forragens, e 535.500.000 litros de água potável dada de beber às vacas. No processamento total do leite e dos laticínios, foram usados 54,684 bilhões de litros de água. Esse foi o consumo florianopolitano em um ano de galactomania. Cada um pode fazer o cálculo em relação à sua cidade. Todos os habitantes das cidades respondem pela devastação dos alimentos e da água e pela excreção causadas pela insistência em alimentar-se de produtos derivados do leite bovino.

Os dados para o cálculo são: 140 litros de leite por pessoa (o leite usado nos laticínios consumidos está nesse volume total anual), x 0,5 kg de comida sólida por litro de leite consumido, mais 2 kg de forragens por litro de leite, mais 8,5 litros de água potável por litro de leite, mais 868 litros de água gastos no processamento industrial em todas as etapas da produção do leite e dos laticínios, mais 16,6 kg de excrementos por litro de leite usado no processamento dos laticínios consumidos. Os habitantes urbanos têm, pois uma assinatura bem forte na destruição do planeta e das chances de continuar a existir algum ser vivo por aqui em poucas décadas. Não há mais tempo para brincar de inocente. Nossa contribuição individual já é alarmante. Quando somamos quase meio milhão de pessoas esse número fica muito mais pesado. 

A gula do leite

Vejamos o mesmo cálculo, considerando o consumo de alimentos, por um lado, e, por outro, os dejetos sólidos de uma vaca ingerindo em média 50 kg de comida [Apud Felipe, Galactolatria, p. 66], numa proporção de 10 kg de alimento sólido e 40 kg de forragens, para produção de 20 litros de leite diários [Apud Felipe, Galactolatria, p. 66], e consumo de 38 a 110 litros de água. Para cada litro de leite, são investidos diretamente no animal 0,5 kg de alimento sólido (grãos e cereais ricos em proteínas e calorias), 2 kg de forragens e cinco e meio a oito litros e meio de água. Esses números são médios. Há picos de hidratação e consumo alimentar que podem chegar a três vezes esse volume, dependendo da raça, idade, peso corporal, clima e estação do ano. Há especialistas que falam de 8,5 litros de água para cada litro de leite.

Keon declara que existe nos Estados Unidos algo em torno de 10 milhões de vacas usadas para extração do leite, cada uma contribuindo para a produção média diária de 25 litros de leite ou 9.000 litros por ano. No total, das vacas são extraídos 91 bilhões de litros de leite anuais. Se cada uma dessas vacas come 50 kg de alimentos por dia, somando-se os cereais e as forragens, as 10 milhões, juntas, consomem 500 mil toneladas de alimentos diários.

Comparando-se esse consumo e levando-se em conta que um ser humano ingere 2 kg de alimentos sólidos e semissólidos por dia, o que é dado às vacas norte-americanas poderia alimentar uma população de 250 milhões de humanos, quase 80% da população humana daquele país. Esse cálculo leva em conta apenas o alimento dado às vacas usadas para extração de leite. Se somarmos o alimento dado diariamente aos animais sustentados para a produção de carnes (bois, porcos, galinhas, perus, cabras, ovelhas, cavalos, coelhos, etc.), o consumo de alimentos, desviados do estômago dos humanos para o desses animais atinge proporções estratosféricas.

O rebanho galactífero brasileiro está por volta de 23 milhões de vacas. Se cada uma delas recebe 50 kg de alimentos por dia, isso totaliza 1,15 bilhão de kg de alimentos, que, se fossem cultivados para humanos, poderiam alimentar pelo menos 550 milhões deles. Somos, no Brasil, uma população de 200 milhões de humanos. Cultivamos e damos para vacas alimentos que poderiam sustentar meio bilhão de humanos. Escravizamos humanos para escravizarmos os animais. Derrubamos florestas nativas para transformar essas áreas em campos de monocultura biocidas e produzir milhões de toneladas de grãos, cereais e gramíneas para alimentar as vacas das quais extraímos o leite que, consumido, trará mais uma carga de danos, dessa vez à saúde humana.

A conversão da proteína vegetal em proteína animal realizada pelo metabolismo dos animais é baixíssima, se comparada com a conversão que os humanos podem fazer da proteína vegetal em proteína necessária à sustentação de seu próprio organismo. Só a garantia de lucros para os empresários do agronegócio (grãos, forragens, carnes e leites) justifica tal irracionalidade no emprego de alimentos ao redor do planeta.

Nesse sentido, não se pode dizer que haja escassez de alimentos no mundo. A tese de Malthus caiu por terra com a revolução verde, ocorrida após a Segunda Guerra Mundial. O que há – isso Malthus não poderia ter previsto , é desvio de alimentos para o sistema digestório dos animais não-humanos.

Não bastasse a mágica devastadora que transforma mais de 70% dos grãos e cereais cultivados na Terra em excrementos, essa mágica é a mesma que priva os humanos da valiosa proteína vegetal representada pelos grãos e cereais integrais, leguminosas e oleaginosas, pessimamente convertidas pelo organismo animal em proteína animal. Não bastasse o desperdício inicial, a proteína animal volta a ser desperdiçada quando consumida por humanos já suficientemente providos dela.

Crescemos, desde a década de 50 do século passado, ouvindo que era preciso ingerir 300 g de proteína animal por dia para ter saúde e manter o organismo. Passados 60 anos, os médicos revolucionam a dieta humana, reconhecendo que a necessidade de proteína não requer nenhum alimento de origem animal, e a quantidade varia de 30 a 80 gramas, dependendo do tipo de atividade física e de outras variáveis de cada organismo [ Cf. John A. McDougall, The Starch Solution, 2012, p. 89].

A proteína animal no prato dos abastados, conforme veremos nas sessões 5 e 6, causa-lhes doenças e contribui para a fome dos miseráveis. Ao mesmo tempo, essa mágica perversa devasta florestas nativas para plantação de grãos e cereais ou transformação dessas áreas em pastagens.

Segundo J. T. Reid, a conversão de proteína vegetal em proteína animal, nos animais consumidos pelos humanos, é da seguinte ordem: galinhas, usadas para produção de ovos, gastam 77% da proteína que lhes é dada, disponibilizando nos ovos apenas 23% do total da proteína recebida. Os frangos, usados para corte, gastam 83% da proteína que lhes é dada na ração, convertendo apenas 17% na carne. O porco consome 88% da proteína ingerida, convertendo apenas 12% na carne. E o boi, cuja carne é a mais consumida, consome 96% da proteína que lhe é oferecida na ração, devolvendo na carne apenas míseros 4% da proteína ingerida [Apud Felipe, Galactolatria, p. 68]. Não é absolutamente irracional uma dieta padrão como essa?

Já no final da década de setenta do século XX, Shurtleff e Oayagi apresentavam percentuais semelhantes, no cálculo da conversão da proteína vegetal em proteína animal, a saber: para cada 100 g de proteína vegetal ingerida pela vaca, 23 g retornam no leite. A galinha retorna 22 g de proteína nos ovos e 22 g na carne. Os suínos e bovinos retornam 12 g e 7 g, respectivamente, nas carnes. A devastação da proteína ingerida, que não retorna na mesma quantidade nos alimentos animalizados deve-se ao calor gerado no organismo dos animais para digerir a proteína vegetal recebida e manter seu próprio metabolismo equilibrado ao longo do processo digestivo [Apud Felipe, Galactolatria, p. 68].

Embora sejam muitas as variáveis que definem a quantidade de comida e água ingerida por vaca, veterinários e zootecnistas têm uma base sobre a qual calculam a alimentação delas. Segundo Brito, Nobre e Fonseca, à vaca deve ser oferecida quatro vezes mais água do que alimento sólido. Os autores são enfáticos: “Dos animais domésticos, a vaca leiteira é a que mais sofre com a privação de água. Primeiramente, pela grande excreção no leite; depois, pelo fato de seu corpo conter, em média, de 55 a 70% de água.” [Apud Felipe, Galactolatria, p. 68].

Infelizmente, conforme bem o reconhece o Primeiro Inventário Brasileiro de Emissões de Gases de Efeito Estufa – Relatórios de Referência, quando se trata dos dados acima, não se dispõem, no Brasil, de registros detalhados sobre “as características desses animais, em termos de peso, consumo de alimento, taxas de digestibilidade, consumo de energia e outros parâmetros necessários ao conhecimento dos rebanhos existentes no país.” [Apud Felipe, Galactolatria, p. 68].

De qualquer modo, tendo por base os parâmetros apontados pelas fontes internacionais e os apontados por alguns especialistas brasileiros é possível fazer cálculos, ainda que imprecisos, para se obter uma imagem do que se consome, ao se ingerir leite e seus derivados.

Um litro de leite consome, no mínimo, ½ kg de alimento seco ou comida sólida (grãos e cereais), 2 kg de forragens e de 5,5 a 8,5 litros de água. Tomando por referência esses dados, podemos calcular o alimento (sólido e forragens) e a água embutidos em cada um dos principais laticínios consumidos largamente ao redor do mundo, a saber:

Laticínio 1 kg

Leite litros

Grãos e cereais kg

Forragens kg

Água litros

5,5 a 8,5

Ghee óleo manteiga 1 kg

60

30

120

330 a 510

Manteiga 1 kg

42

21

84

200 a 320

Sorvete 1 kg

24

12

48

60 a 96

Leite em pó magro 1 kg

22

11

44

55 a 88

Leite em pó integral 1 kg

15

7,5

30

38 a 60

Queijo 1 kg

10 a 12

5

20

55 a 66

85 a 102

Comparando-se o consumo de aproximadamente 1½ kg de cereais, frutas, grãos, legumes e verduras diários (dieta vegana), e a dieta de um comedor que consome ½ kg de queijo em sete dias, o galactômano come através do laticínio mais 2,5 kg de cereais nobres e 10 kg de forragens, comida dada à vaca, para que ela produza o leite necessário para fazer ½ kg de queijo. O consumo de queijo, tomando-se como exemplo uma fatia por sanduíche diário, ao longo de uma semana, torna-se assustadoramente devorador de alimentos, equivalendo a pelo menos dezessete almoços de 700g no prato, comparando-se, o peso dos grãos e cereais dados às vacas e o dos alimentos dos quais os humanos se servem no almoço, nos balcões de autoatendimento.

Não há dieta mais devastadora para o planeta do que a dieta galactômana. Todas as áreas hoje cultivadas com grãos e cereais destinados à alimentação dos animais que serão abatidos e especialmente às vacas usadas para a extração do leite poderiam ser cultivadas com uma diversidade de alimentos vegetais que supririam completamente as necessidades calóricas e proteicas dos humanos, sem necessidade de fazer esse alimento passar pelo sistema digestório dos animais para, malmente, ser transformado em matéria proteica destinada à alimentação humana. O sistema galactólatra devasta a saúde das vacas e vitelos, as florestas naturais, os cereais, grãos e água potável, lança montanhas de excrementos no planeta e não favorece a saúde humana. Em qual lógica ele se baseia?

Poder-se-ia objetar que o queijo concentra muita proteína, valendo a pena queimar grãos e cereais nobres para transformar seu teor de proteína em proteínas do leite, concentradas finalmente no queijo. Infelizmente, conforme veremos nas sessões 5 e 6, o organismo de boa parte dos humanos não está preparado para digerir, metabolizar e aproveitar de modo satisfatório as proteínas lácteas animais, em especial a caseína e seus peptídeos.

Mesmo sendo apenas estimados, esses números nos dão ideia da inconsequência que domina a mente dos comedores que seguem a dieta padrão preconizada pelo agronegócio, desde a revolução verde. Essa revolução, inspirada pelo belicismo dominante nas décadas de 60 e 70 do século XX, que inventou uma maquinaria para matar e ficou sem ter o que fazer quando a guerra acabou, determinou também, com o mesmo espírito biocida, que fossem virados de ponta cabeça os hábitos saudáveis da alimentação animal e humana tradicionais.

Ao impor aos animais alimentos que a evolução de seu sistema digestório não previu que eles devessem digerir, assimilar e metabolizar, grãos e cereais, por exemplo, e ao convencer o comedor humano a consumir cada vez mais derivados do leite bovino, desconsiderando completamente o sofrimento animal, a devastação ambiental e os riscos para a própria saúde humana representados por essa ingestão, a revolução verde realizou uma interferência agressiva na saúde das vacas, dos ambientes naturais onde as vacas são exploradas e dos humanos transformados em galactomaníacos. Segundo o cientista e médico Dr. Virgil Hulse, na Introdução de seu livro Mad Cows and Milk Gates, 10% do genoma humano já está alterado pelos alimentos animalizados, carregados de DNA pro e retroviral oriundos dos animais comidos ou usados para extração do leite.

A produção de alimentos de origem animal é biocida em todos os sentidos, desde o uso de agrotóxicos nas culturas de grãos, cereais e forragens destinadas aos animais, até o abate de cada um desses bilhões de indivíduos. No caso das carnes, mata o animal para extrair o butim. No caso do leite, extrai o butim primeiro, exaure o animal e, caso a vaca não morra de esgotamento, é levada para o abate assim que não dá mais lucro extrair leite dela.

Food and Agriculture Organization – FAO assedia o consumidor latino-americano com a propaganda de que se deve ingerir pelo menos 215 litros de leite por ano. No Brasil, levando-se em conta a média per capita, o consumo está em torno de 136 litros por ano, um aumento de 36% em relação ao que era consumido entre 1980 e 1994 [Apud Felipe, Galactolatria, p. 70].

Segundo dados do Ministério da Saúde e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, a recomendação de ingestão anual, para crianças até 10 anos, é de 146 litros. Jovens de 10 a 19 anos são orientados a ingerir 256 litros de leite por ano. Para adultos, dos 20 anos até o final da vida, a recomendação fica em torno de 219 litros por ano [Apud Felipe, Galactolatria, p. 70].

Se o consumo de leite e laticínios seguir o padrão da FAO, cada indivíduo, no Brasil e no mundo responderá pela devastação direta de 730 kg de grãos e cereais transformados em excrementos jogados sobre o planeta, escondidos no leite consumido nos dez primeiros anos de sua existência. Considerando-se que uma criança come, digamos, 250 g de alimentos em um almoço, o leite consumido nos padrões sugeridos pela FAO para as crianças na faixa etária até os 10 anos corresponde a outros 292 almoços, por ano.

Os indivíduos de 10 a 19 anos respondem pelo consumo indireto de 1.280 kg de grãos e cereais que foram transformados em excrementos, em razão do consumo de leite ao longo dessa segunda década de vida. Se calcularmos 350 g de comida por almoço, em média, cada jovem consome o equivalente a outros 365 almoços por ano, em função do leite que consome, seguindo os índices da FAO. E os adultos de 20 anos para cima respondem a cada ano pelo consumo de 109,5 kg de grãos e cereais, digeridos pelas vacas para que se possa extrair delas o leite que consomem. Considerando-se um prato com 350 g de comida, adultos nessa faixa etária comem, além do seu almoço regular, outros 312, ao longo de um ano, equivalentes ao alimento nobre dado às vacas para produzirem o leite do qual são processados os laticínios.

Nesse cálculo não estão contabilizados os kg de forragens dados aos animais nesses 10 anos, exigindo milhões de hectares fantasmas para seu plantio ao redor do mundo. Obviamente, mais uma vez, esses cálculos são médios. Há quem coma mais e quem coma menos. Há quem tome mais leite e coma mais laticínios e há quem não tome leite nem coma laticínio algum, por exemplo, os veganos, os intolerantes à lactose, os alérgicos às proteínas do leite.

De fato, somos capazes de compor a cadeia de 20 aminoácidos que formam as proteínas necessárias à construção e manutenção das células de nosso corpo usando cereais, grãos, frutas, oleaginosas, leguminosas e verduras, fornecedores dos 8 aminoácidos essenciais. Os demais são sintetizados pelo organismo, não requerendo sua ingestão direta. Os alimentos de origem vegetal não deixam atrás de si a montanha de excrementos deixada pelos alimentos de origem animal.

Um quilograma de leite não equivale a um quilograma de alimento sólido, pois a parte sólida do leite não passa de 13% a 15% de seu volume total. Mais uma vez, usando-se os 15% de matéria sólida presente em um litro de leite como base de cálculo, sendo o resto dele, 850 ml de água, temos 500 g de cereais e grãos nobres fornecidos à vaca, convertidos em apenas 150 g de alimento sólido, portanto, uma conversão negativa, de mais de 3 para 1, em termos de volume, equivalendo a áreas de terras sendo cultivadas para uma inversão do volume de matéria alimentar que desperdiça comida ao redor do planeta.

A galactocracia, que determinou o conteúdo da dieta ocidental, está influenciando também os padrões orientais e nativos ao redor do planeta. O império do leite só se sustenta porque não arca com os custos da devastação ambiental que sua atividade produz, nem com os custos morais do sofrimento animal, nem com os custos financeiros do tratamento das doenças humanas galactogênicas, quer dizer, associadas ao consumo de leite e laticínios.

Damos milho, soja, sorgo, mandioca, alfafa, cevada e outras matérias alimentares às vacas, para extrair de seu úbere, de cada 1.000 ml, 150 ml de matéria sólida, gordura e proteínas que poderiam ser obtidas digerindo-se diretamente os cereais e grãos dados a elas. Esse sistema insensato de conversão proteica move mais de 20 bilhões de reais por ano no Brasil, contabilizando-se apenas a venda de leite feita diretamente pelos extratores, e outros 20 bilhões na compra e venda dos insumos e maquinário para as instalações e processamento do leite. Nesse cômputo não entraram as vendas dos produtos laticínios no atacado e no varejo.

Segundo Leovegildo Lopes de Matos, os animais alimentados na Europa consomem a produção agrícola de cereais cultivados no terceiro mundo, equivalente a sete vezes a área da Europa Ocidental [Apud Felipe, Galactolatria, p. 72]. Conforme o autor, o

[…] Reino Unido tem dois ‘hectares fantasmas’ [termo usado para designar o cultivo de cereais para alimentar animais em terras onde esses animais não vivem] para cada hectare cultivado pelos seus fazendeiros, e a Holanda cultiva 2 milhões de hectares, mas importa produtos de 15 a 16 milhões de hectares para alimentar seu povo e seus animais. [Apud Felipe, Galactolatria, p. 72].

USDepartment of Agriculture – USDA [Departamento de Agricultura dos Estados Unidos] estima o consumo médio de cada indivíduo, naquele país, somando-se queijos, iogurte e manteiga, em torno de 300 kg de laticínios sólidos por ano [Apud Felipe, Galactolatria, p. 72]. Estimando-se o leite embutido nesses 300 kg de iogurte, queijo e manteiga, em 2.000 litros, e usando-se a média norte-americana, citada por Schmid, de 12 kg de excrementos para cada litro de leite, o consumo de laticínios sólidos de cada americano representa 24 toneladas de excrementos, por ano, deixados no planeta. Com tal consumo, só a população estadunidense lança anualmente sobre o planeta um montante de sete bilhões de toneladas de dejetos bovinos, originadas do consumo de leite. Ao longo da vida de um único consumidor, quanto isso representa, em termos de sofrimento das vacas e vitelos, devastação das florestas para cultivo dos grãos e cereais fornecidos a elas, acúmulo de dejetos e emissão de gás metano na atmosfera?

Caso o mesmo indivíduo consuma essa quantidade de laticínios por 50 anos, o montante sobe de 24 toneladas anuais para 1.200 toneladas em meio século de consumo de laticínios. Se multiplicarmos 1.200 t por 300 milhões de indivíduos, no tempo de vida deles, terão deixado atrás de si a montanha de 360 bilhões de toneladas de dejetos de vacas lactantes, sobre o planeta, por conta de sua galactomania. Não dá para crer que a produção de um alimento que produz tanta sujeira seja benéfica para o planeta e seu consumo benéfico para a saúde humana.

Na conversão da proteína dos grãos, cereais e leguminosas em proteína de leite, o sistema digestório e metabólico das vacas dá sumiço em 78% da proteína vegetal ingerida. Os humanos podem digerir muito bem a proteína vegetal, poupando dor e sofrimento às vacas, usadas como máquinas digestórias para esse fim. Se a questão é a abolição da fome no mundo, é absolutamente irracional fornecer 100 g de proteína vegetal para a vaca, sabendo-se que seu leite devolve apenas 22 g de toda aquela proteína [Apud Felipe, Galactolatria, p. 73].

Por outro lado, é preciso tomar consciência da extensão do planeta usada para cultivo de grãos, cereais e leguminosas destinados à alimentar as vacas. Segundo Mason e Singer, 70% do milho produzido nos Estados Unidos, 94% da aveia, 52% de cevada, 74% do sorgo e mais de 90% da soja não exportada, são destinados à alimentação dos animais [Apud Felipe, Galactolatria, p. 73]. Antecipando a convicção de Singer e Mason, já em 1976, Shurtleff e Oayagi haviam alertado:

[…] esse sistema de desperdício transforma a abundância do planeta em escassez. Além disso, o estilo americano de dieta abastada surge como a principal causa da fome no mundo e das doenças degenerativas, tais quais as do coração, câncer, diabetes e obesidade. [Apud Felipe, Galactolatria, p. 73].

Dada à ineficiência na conversão da proteína vegetal pelos animais, e dado que o organismo humano está apto para digerir esses alimentos e aproveitar suas gorduras, proteínas, açúcar, cálcio e vitaminas em proporções maiores, não é possível continuar a defender a produção de animais para alimentar humanos, a menos que não se queira resolver o problema da fome no mundo, ou que se queira devastar o planeta com os gases e excrementos dos ruminantes forçados à dieta baseada em cereais, cultivados à custa da devastação das florestas nativas que asseguravam a biodiversidade sobre a crosta terrestre.

Se obedecêssemos à FAO e ingeríssemos, por ano (descontando-se os dois primeiros anos de vida, quando o bebê se alimenta de leite materno e consome menos leite bovino), os litros de leite estipulados por ela como desejáveis (146 até os 10 anos; 256 dos 10 aos 20 anos; e 219 dos 20 anos em diante) [Apud Felipe, Galactolatria, p. 73], e considerando a média de vida da população brasileira, estimada pelo IBGE em 73 anos de idade, cada brasileiro teria que ingerir ao longo de sua vida 15.335 litros de leite.

No Brasil, cada litro de leite deixa para trás de 10 a 20 kg de excrementos. Tomemos a proporção mínima, de 10 kg de dejetos para cada litro de leite, para que possamos fazer um cálculo aproximado do que esse consumo representa em nosso país. Ao longo da nossa vida, deixaríamos um montante de aproximadamente 153 toneladas de excrementos bovinos, trazidos para a superfície do planeta por conta da nossa compulsão por laticínios, nossa galactomania estimulada pela FAO e ditada pelo agronegócio estadunidense. Uma população de 200 milhões responderia por 30 trilhões de toneladas de dejetos de vacas lactantes, no período de sua existência.

Há injustiça, imperceptível mesmo ao “olho que vê” (Jorge Amado), do consumidor galactômano, entre consumidores de produtos lácteos, carne e ovos, em centros urbanos, onde nada disso é cultivado, e trabalhadores das regiões produtoras, obrigados a arcarem com o manejo das doenças e do sofrimento dos animais, a devastação das florestas para virarem lavouras de monocultura de grãos e cereais e a devastação ambiental causada pelos excrementos e pela emissão de gás metano e o abate e corte dos animais na esteira da produção industrial [Ver o documentário Carne Osso].

A mesma injustiça existe entre os países produtores e exportadores de leite e laticínios e os países importadores, desobrigados de cheirarem os resíduos líquidos e sólidos das vacas, de administrarem a montanha de excrementos, de consumirem suas reservas de água potável no processamento de laticínios e na manutenção das vacas e instalações, de emitirem gás metano para a atmosfera, e de lesarem trabalhadores nas esteiras da produção. Nos países produtores de leite e laticínios, os trabalhadores rurais arcam com os males decorrentes desse tipo de exploração dos animais, que acabam por afetar sua saúde também. Quem importa o leite e seus derivados não importa os excrementos nem cede a água e o alimento dado às vacas, apenas recebe o líquido branco embalado e pasteurizado. Nenhum importador ou consumidor de leite é convocado a defrontar-se com a imundície que esse alimento deixa atrás de si no processo de extração e produção. Ninguém é desafiado a avaliar e a julgar, sob a perspectiva ética e econômica, seu próprio consumo. Os dados ficam bem guardados, a salvo das vistas e da consciência dos galactômanos. Quando se fala do leite na mídia, é sempre relacionado a algum escândalo de adulteração do leite, como se todo o leite vendido já não houvesse sido suficientemente adulterado pelo manejo ao qual são submetidas as vacas.

Dados referentes ao ano de 1994 indicavam que o rebanho bovino feminino usado para extração de leite contribuía para gerar 13,5% de gás metano, no Brasil. Segundo o Primeiro Inventário de Emissões Antrópicas de Gases de Efeito Estufa, o total estimado de emissões, em 1995, foi de 1.288,15 Gg. Em 1986, a estimativa era de 1.087,75 Gg. As emissões de metano por todos os animais que produzem fermentação entérica (bovinos, bubalinos, ovinos, caprinos, equinos, muares, asininos e suínos), perfizeram em 1995 o total de 9.551,80 Gg, enquanto em 1986 elas eram de 7.914,75 Gg, um aumento de 17% nas emissões [Apud Felipe, Galactolatria, p. 75].

Com tais estimativas, podemos ter uma ideia do que escorre invisível do leite e laticínios consumidos. Aquela torta maravilhosa, o sorvete delicioso, a pizza quatro queijos irresistível, os legumes refogados na manteiga ou no ghee e tantas outras comidas das quais os galactólatras não querem abrir mão, são fonte de imensa devastação ambiental, silenciada publicamente. Está na hora de sair da zona confortável da inocência. Alimentos de origem animal estão no topo da hierarquia poluente. Seus consumidores também.

Uma lagoa de excrementos inunda as refeições de pelo menos dois bilhões de humanos ao redor do planeta, consumidores rotineiros de leite e derivados. Mas a última coisa que a propaganda laticínica admite mostrar aos comedores é justamente a montanha de excrementos que a fissura por laticínios produz. Em vez disso, falar de excrementos é tido como de mau gosto. A galactomania (adicção ao leite) faz-se acompanhar da coprofobia (aversão ao excremento). Temos certa urgência em vencer as duas formas de sustentação ideológica desse sistema que está a levar o planeta à ruína, a espalhar a fome ao redor do mundo, a tirar a saúde dos animais e a destruir a saúde e a longevidade de muitos humanos.

Seria o consumo de leite e de laticínios tão elevado, se fosse baixada uma lei ordenando que o consumidor, ao comprar o litro de leite, a manteiga, o ghee, o iogurte, o sorvete, a torta, levasse para sua casa um contêiner com os excrementos equivalentes ao consumo desses produtos? Prevendo a impossibilidade de o cidadão armazenar tantas toneladas de excremento em casa, a proposta pode ser melhor formulada: ao comprar 1 litro de leite ou de manteiga, o cidadão pagaria uma taxa equivalente para que o produtor administre esse excremento lá onde o leite é extraído. Com a elevação do preço, o consumo de produtos lácteos seria drasticamente reduzido. O planeta seria poupado. As vacas não seriam mais forçadas a darem leite vinte vezes acima do que sua capacidade fisiológica suporta. Os galactômanos ficariam mais saudáveis. Cada consumidor desassinaria o contrato de consumo de um produto com tal envergadura excremental e gasosa, nefasto para o meio ambiente e, com isso, desassinaria também o contrato galactômano que o torna coautor do sofrimento das vacas e vitelos. Mas, daí, as farmácias venderiam menos remédios.

Todos tremem de medo frente à possibilidade de o planeta nos sacudir para fora dele com terremotos, tsunamis, ciclones, vulcões, desabamentos, avalanches de lama, inundações e secas. Mas, ao sentar-se à mesa, ninguém dá a mínima importância para o gás metano, expelido pelas vacas na cadeia produtiva do leite e dos laticínios servidos em seu prato, devastadores da camada de ozônio.

A sede do leite

Conforme já referido nesta sessão, o leite é um grande consumidor de água potável. Segundo Acácio Sânzio de Brito e colaboradores, uma “vaca em lactação consome 62,5 litros diários de água; vacas e novilhas no final da gestação, 50,9 litros; vacas secas e novilhas gestantes, 45,0; novilhas em idade de inseminação, 48,8 litros; fêmeas desmamadas até a inseminação, 29,8 litros; bezerros lactantes em baias, 1,0 litro; e bezerros lactantes (a pasto), 11,2 litros” por dia [Apud Felipe, Galactolatria, p. 77]. Mas, conforme alertam os autores, as “necessidades diárias de água variam de acordo com a espécie e o tipo de exploração. […] Vacas leiteiras, de 38 a 110 litros. Vacas em lactação, até 140 litros” por dia [Apud Felipe, Galactolatria, p. 77].

Segundo a Embrapa, “as vacas consomem 8,5 litros de água para cada litro de leite produzido. Quando a temperatura ambiente se eleva, nos meses de verão, o consumo de água aumenta substancialmente.” [Apud Felipe, Galactolatria, p. 77]. É bom lembrar que, quanto mais água ingerida, maior o volume de excrementos acumulados, pois as fezes e a urina ficam misturadas ao serem excretadas.

A vaca precisa ingerir até 8.500 ml de água para cada litro de leite extraído dela. Este litro de leite extraído conterá 850 ml de água. Analogamente ao que acontece ao alimento dado a elas, cuja conversão de proteína vegetal em animal é baixíssima, o mesmo acontece com a água, cuja conversão em leite é da ordem de 10 para 1, em média. As pessoas podem não beber muita água, mas se consomem laticínios consomem indiretamente imensa quantidade dela. Esse desperdício de água potável estagna no “ponto cego moral” do consumidor.

Em 2008 foram extraídos ao redor do mundo 578.450.488.000 litros de leite de vaca [Apud Felipe, Galactolatria, p. 77]. Se, para cada litro de leite extraído, foram bebidos 8,5 litros de água potável, segundo dados da Embrapa, a produção láctea consumiu do planeta aproximadamente 5 trilhões de litros de água. Dividido esse volume por 365, temos um consumo de 13,7 milhões de litros de água por dia, o que daria para hidratar 7 bilhões e meio de humanos. O leite bebe toda essa água, sozinho.

Portanto, se há escassez de água potável para consumo humano onde há criação de vacas para extração de leite, tal escassez se deve à galactomania. O rebanho brasileiro, de quase vinte e cinco milhões de vacas lactantes, por exemplo, consome pelo menos dois bilhões de litros de água potável por dia. Isso equivale ao consumo de um bilhão de humanos ingerindo 2 litros diários.

A população humana brasileira é de 200 milhões de indivíduos. As vacas bebem a água que daria para saciar a sede de cinco vezes essa população. Estamos falando apenas da água bebida, não da água necessária para a higiene das vacas e limpeza das instalações em geral. Consequentemente, esses dois bilhões de litros de água serão generosamente devolvidos pela vaca na forma de urina, a cada dia. Quem administra esse líquido malcheiroso? O solo, os rios, o ar e as águas do planeta, que não evoluíram para beber urina. A acidez mata os oceanos, os lagos, as lagoas e os rios. A extração e consumo do leite animal é um projeto biocida.

California Farm Bureau Federation estima que, “se for considerada a necessidade de água de toda produção e processamento”, 250 ml de leite gastaram 217 litros de água [Apud Felipe, Galactolatria, p. 77], o equivalente a 868 litros de água para cada litro de leite vendido no varejo. Esse volume inclui as águas usadas ao longo de toda cadeia produtiva do leite: consumo individual de cada vaca, água usada para higienizar as instalações onde elas são confinadas para a extração do leite, água usada nas instalações onde o leite é processado e empacotado. Se esses números têm algum sentido, então, ao consumir qualquer laticínio, o galactômano está consumindo:

Tipo laticínio

1 kg

Água dada às vacas litros

8,5 litros por litro de   leite

Litros de

leite necessários

Grãos

e cereais

0,5 kg por litro de leite

Forragem

2 kg por litro de leite

Água todo processo

868 litros por litro de leite

Ghee

510

60

30

120

52.080

Manteiga

357

42

21

84

36.456

Sorvete

204

24

12

48

20.832

Leite pó desnat.

187

22

11

44

19.096

Leite pó integr.

127

15

7,5

30

13.020

Queijo

85 a 102

10 a 12

5 a 6

20 a 24

8.680 a 10.416

Calculemos 300 kg de laticínios consumidos pelo indivíduo estadunidense ao ano, estimando que esses laticínios sólidos contêm 2.000 litros de leite. Se para cada litro de leite produzido 868 litros de água foram gastos, então, além da água consumida diretamente, cada galactômano consome outros 1.736.000 litros de água anualmente. Em 2008, por sua vez, a média do consumo de água do brasileiro galactômano ficou em 119.784 litros de água, escondida nos 138 litros de leite consumidos. Multiplicando-se esse número por 200 milhões, chegamos ao volume aproximado de 24 trilhões de litros de água, gastos no processamento do leite e dos laticínios.

Se calcularmos o consumo de água embutida nos laticínios consumidos em uma cidade com 450 mil habitantes, a uma média de 138 litros de leite por ano, cada cidadão consumiu 1.173 litros de água (dada à vaca) e 119.784 litros de água usados no processamento dos laticínios ingeridos. Somando-se então o total de habitantes desta cidade de Florianópolis, por exemplo, damos às vacas a cada ano 527.850 milhões de litros de água, e desperdiçamos no processamento dos laticínios consumidos nesta cidade o equivalente a 53,902 bilhões de litros de água. Cada um pode calcular o que sua cidade consome de água escondida no consumo de laticínios, do seguinte modo: tome 138 litros de leite por pessoa, por ano, multiplique por 8,5 litros de água. Esse é o consumo de água por pessoa, escondida nos laticínios que ela consume por ano. Multiplique os 138 litros de leite por 868 litros de água, usada no processamento dos laticínios. Feitos esses dois cálculos preliminares, basta agora multiplicar cada um deles pelo número de habitantes de sua cidade e terá o montante de água gasta na dieta galactômana de seus conterrâneos.

Conforme alerta Keon, um “exército numeroso de vacas requer um grande negócio de comida para produzir tanto leite”. Seguindo o raciocínio, chegamos às regiões do planeta desflorestadas para cultivo dos grãos e cereais usados para alimentar esse gado. Ainda há humanos penando de fome e desnutrição. Enquanto isso, as terras férteis do planeta “não estão disponíveis para o cultivo de alimentos para [eles], porque são usadas no cultivo de alimentos para vacas.” [Keon, Apud Felipe, Galactolatria, p. 78].

Não há falta de alimentos no mundo. Mas, pelo processo de animalização do alimento humano, há um desvio imenso de proteínas e calorias para o organismo de animais, mortos para virar alimento rotineiro na dieta de apenas ¼ da população humana mundial. O consumo de carnes e leite é uma das marcas da desigualdade entre os humanos, além de marcar a absoluta desigualdade de direitos entre esses e os não-humanos. Países que exportam carnes e leite empacotam neles água, cereais, leguminosas, forragens, solo e ar. Contudo, nos navios que partem levando a matéria morta, ou a secreção mamária das fêmeas bovinas, não são despachados os excrementos equivalentes àquela exportação.

Assim, ficamos com os excrementos, a terra devastada, os rios a escoarem dejetos, o ar pestilento e as lesões cancerígenas na pele, causadas pela penetração dos raios solares ultravioletas alfa e beta através da camada de ozônio cada vez mais tênue, destruída pela emissão do gás metano produzido pelo consumo de laticínios. Os grãos e cereais ricos em proteínas não são dados de comer aos humanos e sim às vacas. Os importadores, obviamente, importam-se apenas em adquirir as carnes, queijos e leite, não os excrementos. Os empresários, por sua vez, embolsam os subsídios e os lucros, mas não pagam pelo sofrimento que causam às vacas e vitelos, nem pela devastação das águas, do solo e do ar. O consumidor, ao pagar menos de dois reais pelo litro de leite, ou menos de 10 reais pelo kg de queijo, não paga o custo real dessas matérias animalizadas que compõem sua dieta. Dessa trama rígida não nos libertaremos enquanto mantivermos os padrões dietéticos onívoros galactômanos atuais.

Podemos nos perguntar: como é possível que a real natureza de um alimento que, para ser produzido, consome quase 70% dos cereais nobres cultivados no mundo, dejeta excrementos e resíduos em tal magnitude, emite gás metano e consome toda essa água, permaneça invisível e, portanto, fora de nossa consciência? Como é que se forma o ponto cego moral em nossa mente, que não nos permite ver o que comemos? Trataremos desse assunto na sessão 7.

O “olho que não vê”, afinal, está olhando para onde? Somos o tipo de animal que se autoproclama privilegiado por possuir racionalidade. Essa não se resume à habilidade (embora a inclua), de fazer cálculos e avaliar a diferença entre o benéfico e o maléfico. Duvidar dos números acima seria uma razão para explicar como é que continuamos a consumir leite e derivados, se esse consumo, desnecessário para nossa saúde, tem tais implicações, tanto do ponto de vista do sofrimento animal, quanto do ponto de vista da devastação alimentar, hídrica e ambiental. Esses números, ainda que sejam apenas estimativas, não apontam para mais, e, sim, para menos, porque ainda não se tem um registro minucioso dos custos morais e ambientais da produção de leite. Se os tivéssemos, os números com certeza subiriam.

Mas, em vez de julgar que perdemos de vez toda decência, ou que nossa consciência é perversa, é bom tomar ciência de que o consumo de leite e laticínios deve-se à maciça propaganda medicinal feita nos meios de comunicação, jornais, revistas e livros de nutrição, cuja influência sobre o consumidor não pode ser subestimada. Para obstruir o sentido da visão de uma pessoa, basta incidir um raio de luz em sua retina. Enquanto fita a luz, ela perde a visão. A propaganda medicinal do leite faz mais ou menos a mesma coisa com os galactômanos: mantêm-nos fitando “os benefícios do leite”, principalmente o alto teor do cálcio, que de fato não é nem um pouco benéfico, conforme veremos nas sessões 5 e 6. Ao fixarem o olhar no ponto que os estimula, os consumidores não podem ver o que a produção de leite representa para o futuro de sua saúde e do planeta, nem o quanto já destruiu a saúde e o bem próprio das vacas.

A propaganda assedia os comedores já configurados como galactômanos, forjando em suas mentes o ponto cego cognitivo e moral que não permite que os dados expostos acima possam alcançar os neurônios responsáveis pelas escolhas alimentares. O comedor galactólatra continua a servir-se da mesma comida que lhe foi oferecida pela mãe, a empregada, a escola, a lanchonete, o restaurante, proclamada na televisão como saudável, sem efeitos colaterais. Todas essas fontes que influenciam o galactômano omitem o lastro excremental do leite e seus derivados. Por isso, o consumidor crê que tais escolhas são suas. Elas são escolhas cegas, não suas.

Até o presente, não há um trabalho científico sequer, atual, mostrando que os nutrientes em nome dos quais o leite é idolatrado não podem ser encontrados em nenhum alimento de origem vegetal, com exceção da vitamina B12. Mas, segundo o médico nutrólogo Dr. Eric Slywitch, sua deficiência afeta hoje em torno de 53% da população brasileira, que, bem o sabemos, não é constituída majoritariamente de veganos [Cf. Felipe, Galactolatria, p. 81]. Se todo mundo consome laticínios e ainda assim sofre da deficiência da B12 em maior percentagem do que a deficiência dessa vitamina entre os veganos, que estão conscientes da necessidade de sua reposição, isso desqualifica os laticínios como fonte segura de reposição da B12 no organismo humano. Os livros de nutrição, escritos por profissionais médicos, especializados em alimentação vegana, estão aí, afirmando justamente que os nutrientes mais conhecidos do leite (açúcar, gordura, proteína, cálcio) são bem assimilados pelo organismo humano quando ingeridos diretamente das fontes vegetais [Cf. Felipe, Galactolatria, p. 81].

[Para citar passagens deste texto use a referência completa disponível no rodapé. Obrigada]

FELIPE, Sônia T. Devastação alimentar e ambiental. Palestra apresentada no Curso de Extensão: Implicações éticas, ambientais e nutricionais do consumo de leite bovino – uma abordagem crítica. Florianópolis: UFSC, Auditório do Centro de Filosofia e Ciências Humanas, 17 de maio de 2013, das 18:45 às 21:30. 22 p.

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Olhar Animal – www.olharanimal.org


O sofrimento das vacas e vitelos

 Curso de Extensão

Implicações éticas, ambientais e nutricionais do consumo de leite bovino abordagem crítica

[Auditório do Centro de Educação UFSC – 10/5/13]

O sofrimento das vacas e vitelos

Dr. phil. Sônia T. Felipe

O princípio da igual consideração de interesses semelhantes – elaborado na ética prática animalista, iniciada na metade da década de 70 do século XX, em Oxford, pelo jovem estudante de Filosofia, Peter Singer, ao mesmo tempo em que a revolução verde colhia seus primeiros sucessos -, exige a incorporação da dor e do sofrimento dos animais não-humanos à reflexão ética. Segundo esse princípio, os interesses fundamentais dos animais não-humanos são tão relevantes para eles quanto o são os nossos, para nós. Não há distinções especistas entre direitos fundamentais quando se trata de seres sencientes, isto é, cientes de sua dor e capazes de sofrer.

Nestes quesitos, da sensibilidade à dor e da capacidade de sofrimento, todos os animais são iguais. Se sentem dor, é porque seu éthos ou natureza específica os dotou de capacidade de diferenciar o bom, do ruim, pelo menos para si. O que é ruim faz mal ao animal. Se lhe faz mal, a sensação será dolorosa. Nenhum animal está numa posição privilegiada quando se trata da vulnerabilidade à dor e ao sofrimento. O éthos ou natureza biopsicológica de todos os seres sencientes é forjado para a fruição do bem, representado pela vida livre e saudável.

Na comunidade científica inglesa, o mais destacado estudioso da mente das vacas é o médico pesquisador e professor da Faculdade de Veterinária da Universidade de Bristol, Dr. John Webster, autor do livro, Understanding the Dairy Cow [Entendendo a vaca de leite], publicado em 1993. Até a publicação desse livro, falava-se ainda com certa inocência, mesmo no meio acadêmico, da incapacidade das vacas de sentirem dor ou prazer. Desde então, definitivamente, esse discurso indiferente e ignorante perdeu qualquer chance de sustentação.

Entretanto, as fontes de sofrimento, no caso das fêmeas bovinas usadas pela indústria de extração do leite, são várias, a começar pelo tipo de alimentação oferecida a elas, constituída de grãos e cereais, inadequado ao seu sistema digestório, evoluído para a digestão eficiente de gramíneas, até as instalações nas quais as vacas são alojadas, no sistema de confinamento completo, e mesmo no de semiconfinamento, adotado pela maior parte dos países produtores de leite. A combinação desses dois manejos e seus desdobramentos alcança finalmente o ápice doloroso para as vacas, levando-as à morte por exaustão, ou ao seu descarte final para o abatedouro, quando esgotada a cota de hormônios que permite a gestação e a lactação, estimuladas por hormônios sintéticos e geneticamente modificados.

Quando alguém pega a caixinha de leite de sua geladeira e se serve do líquido que se acostumou a consumir por considerá-lo precioso, basta inclinar a caixinha, para que o leite escorra suavemente para o copo. Essa suavidade cria a falsa imagem de que é assim que ele escorre do teto da vaca para o contêiner no qual é coletado. Quase ninguém se dá conta de que não é com a mesma suavidade que o leite sai do úbere das vacas. A palavra inglesa milk deriva da latina, mulgeo, que significa “obtido por pressão suave das mãos”[Schmid, apud Felipe, Galactolatria, 40]. Esse sentido original evoca algo que não existe no sistema industrial de produção de leite e laticínios: a extração do leite por pressão suave das mãos.

Para que o leite da vaca esteja fora do corpo dela, só há duas alternativas: ou foi sugado pelo bezerro, ou extraído à força. Nesse caso, o método pode ser manual, quando se trata de um número muito pequeno de vacas para ordenhar, ou a vácuo, quando teteiras de sucção movidas à eletricidade são acopladas aos tetos. O vácuo força os esfíncteres dos tetos a se dilatarem e o leite sai. As mulheres que já amamentaram podem muito bem imaginar a realidade das vacas, com seus úberes sofrendo o impacto do vácuo em tal grandeza que os músculos dos mamilos (tetos) se dilatam, abrindo a passagem para a saída do leite. Se o leite encontra-se retido no úbere é por uma boa razão: ele foi secretado para alimentar o bezerro. A vaca o dá ao filho, mas não aos humanos. Submeter o corpo de uma fêmea a esse manejo igual ao que opera máquinas numa cadeia produtiva implica violência brutal contra seu éthos feminino mamífero. Temos aqui uma brutalidade de gênero. Mas ninguém a vê, porque a crítica ao machismo ainda é especista. Ela não se dirige a humanos de ambos os sexos para tratar da violência que a dieta padrão representa contra todos os animais usados para alimentar homens e mulheres, sem distinção alguma de gênero.

O traço mais característico do éthosi> animal é a liberdade física. Sem ela, o animal é condenado a interações que o subjugam, algo para o qual sua mente não evoluiu. Isso vale para qualquer espécie animal, voadora, nadadora ou andadora, não apenas para a humana. A mente específica de cada animal forma-se nas experiências peculiares comuns aos indivíduos da mesma espécie e nas particulares a cada sujeito individual, de modo que é nele que está sediada a fonte de orientação, ou consciência, no ambiente natural e social de sua existência. No manejo industrial de animais, não é possível respeitar a individualidade, a personalidade, a consciência e a liberdade ou éthosespecífico de cada animal. A condição de vida dos animais confinados no espaço industrial de produção de alimentos acarreta atrofias físicas e mentais e prejuízo ao bem-estar e ao bem próprio do animal. O confinamento impede o animal de qualquer iniciativa para autoprover-se e estabelecer vínculos sociais dignos de sua espécie, a seu próprio modo.

Vacas não mentem

O boi, escreve Luis Fernando Veríssimo, “tem o ar de quem está só esperando que lhe peçam uma opinião. O boi tem teses sobre a vida, e que até hoje ninguém se interessou em saber.”[Veríssimo, apud Felipe, Galactolatria, p. 106].

Os animais, de modo geral, por influência de Descartes desde os meados do século XVII, foram considerados, tanto pela filosofia quanto pela religião e a ciência, destituídos de mente e de qualquer habilidade cognitiva e emocional. Tal hipótese, definitivamente descartada pela neurociência desde a Declaração de Cambridge sobre a Consciência Humana e Animal, de 7 de julho de 2012, deixou de ter valor científico, mas o senso comum ainda a propaga. As vacas, ao contrário dos cães e gatos usados para companhia, guarda e estima doméstica, são tidas pela quase totalidade dos humanos como animais destituídos de sensibilidade, consciência, capacidade de interação e de comunicação intraespecífica. As pessoas confundem a vaca real com as figurinhas de vacas estilizadas colocadas nas embalagens de produtos lácteos. Essas são as únicas vaquinhas destituídas de mente, consciência, sensibilidade, afetos e emoções, não as que estão nas engrenagens da ordenha todos os dias.

Em 6 de julho de 1953, relata John Robbins, em seu livro, Diet for a New America [Dieta para uma Nova América], editado em 1987, nos Estados Unidos, sem tradução no Brasil, um juiz da Califórnia teve que dar uma sentença no processo no qual o cidadão Mike Perkins foi acusado por seu vizinho de lhe ter roubado um bezerro e o ter marcado com sua inicial para fazer parecer que fosse seu. Não havia quaisquer evidências da veracidade da acusação, apenas a palavra do denunciante contra a do denunciado. O juiz pediu ao delegado que, sem que ninguém o soubesse, levasse a mãe do bezerro até a propriedade de Perkins, onde o bezerro já marcado com o “P” se encontrava. Mal a vaca chegou ao local, dirigiu-se mugindo em direção ao lote de bezerros soltos no pasto e foi direto lamber a ferida do ferro em brasa que marcara seu pequeno bezerro. Essa foi a única prova que o juiz obteve de que a denúncia procedia. O fazendeiro Perkins foi condenado pelo “testemunho da vaca”. [Robbins, apud Felipe, Galactolatria, p. 108]

Se não houvesse consciência, memória, inteligência e afeto bovinos, a vaca não teria recursos cognitivos para identificar seu bezerro, não teria se afligido ao ver o ferimento, não teria tratado do ferimento no corpo do seu bezerro com sua saliva. Teria ficado ali, no meio da manada, sem noção do que fazer, sem qualquer habilidade cognitiva para levar a efeito seus atos. Teria, quando muito, lambido qualquer dos bezerros recém-marcados, não, exatamente, o seu.

Porcos, vacas e galinhas são excluídos até mesmo das leis bem-estaristas, quanto mais das leis que garantem direitos aos animais, porque são vistos não como seres sencientes, mas simplesmente como matéria alimentar humana. São citados nos tratados de bem-estar animal apenas porque os maus-tratos podem baixar a qualidade dos produtos nos quais serão processados. Segundo Robbins, há uma convicção generalizada de que “se pode ser tão cruel quanto se queira com esses animais, visto que serão comidos mais tarde”,[Robbins, 1987, apud Felipe, Galactolatria, p. 108], desde que a crueldade não acarrete prejuízos aos produtores e consumidores.

Por outro lado, a concepção jurídica especista eletiva (que escolhe algumas espécies animais para proteger, enquanto extermina bilhões de outros para comer, vestir-se, divertir-se e fazer testes), está presente na moralidade desde os primeiros projetos de lei aprovados na Inglaterra, no primeiro quartel do século XIX, em defesa dos animais. Neles, apenas os animais usados para tração, sequer os cães ou gatos, foram considerados dignos de respeito. Nas palavras de Tom Regan, os animais são sujeitos-de-suas-vidas.[The Case for Animal Rights, apud Felipe, Galactolatria, p. 109]. Mas o especista eletivo discrimina os animais que não elege para estima. Para o especista elitista e antropocêntrico, a dor humana merece respeito, a bovina, não. As vacas são um exemplo de animais que sofrem a discriminação especista eletiva. Apesar de serem animais domesticados, tanto quanto o foram os cães, cavalos e gatos, elas não são consideradas dignas do respeito à vida, à integridade física e emocional, à liberdade, ao desenvolvimento de acordo com as peculiaridades de seu éthos bovino.

Há quem interprete a calma das vacas como indício de insensibilidade ao que ocorre a elas, ou uma espécie de ausência mental em relação aos efeitos de tais estímulos, o que caracterizaria ausência de consciência. Entrevistando um empresário de leilões de bovinos, John Robbins ouviu o que pode ser um resumo das convicções que movem o setor galactocrata do agronegócio. Mais ou menos nestes termos, o promotor do leilão, ao ser questionado por Robbins sobre sua posição pessoal em relação ao fato de os animais serem tratados nos leilões como se fossem mercadorias, respondeu-lhe que isso “não o aborrecia”, pois leiloar animais não se “distinguia de outros tipos de negócio”. Quanto à acusação dos defensores dos animais, de que eles maltratam o gado, o leiloeiro afirmou que se “pode ser mais eficiente quando não se é emocional”. Para resumir, declarou: “Estamos num negócio, não na Sociedade Humana (Human Society), e nosso trabalho é vender mercadorias com lucro. Isso não difere de vender clipes de papel ou refrigeradores.”[Robbins, apud Felipe, Galactolatria, p. 110].

Coerente em sua lógica de que animais não diferem de clipes de papel, a indústria do leite também vê a vaca como uma bomba galactífera, instalada sobre quatro patas, uma “máquina cuja finalidade é produzir leite para dar lucro”. Robbins escreve: “Ela é criada, alimentada, medicada, inseminada e manipulada com um só propósito – a máxima produção de leite a um custo mínimo.”[Robbins, apud Felipe, Galactolatria, p. 110].

Há evidências de que as vacas possuem vida mental com traços específicos de consciência, emoção, memória e sensibilidade. O manejo que embota seu éthos bovino as leva ao estresse. Na esteira da produção industrializada do leite, boa parte do rebanho sofre tanto com as alterações ambientais e sociais exigidas pela eficiência laticínica que é necessário dar-lhes calmantes.[Robbins, apud Felipe, Galactolatria, p. 111].A agitação que a vaca hoje demonstra contraria seu éthos primordial. Segundo o éthos bovino não interferido pelo ser humano, a serenidade da vaca não indica indiferença ou insensibilidade ao que a afeta.

Cientistas de diferentes áreas, da biologia, passando pela veterinária e chegando até à psicanálise, arrebanharam, com suas pesquisas, material suficiente para derrubar as hipóteses tradicionais sobre o vazio emocional das vacas. Tristeza, aborrecimento, infelicidade, termos antes aplicáveis apenas a humanos, são hoje usados pelos etólogos para designar estados mentais bovinos, sem risco de antropomorfização, isto é, de usar modelos que seriam apropriados exclusivamente à descrição da mente humana, para descrever mentes não-humanas. A cientista Temple Grandin, incapaz ela mesma, por sofrer de autismo, de sentir ou expressar emoções, diagnostica sem dificuldade o estado de tristeza numa vaca, quando separada do vitelo que acabou de parir. As pessoas, afirma Grandin, não podem se permitir sequer pensar que vacas sofrem emoções similares às que as mulheres sofrem quando separadas de seus bebês. A vaca muge de saudade, angústia, luto. Mas, sobre esses estados emocionais, ainda não há grande coisa escrita, declara.[Masson, apud Felipe, Galactolatria, p. 112].

As vacas são capazes de estranhar algo que sai da rotina. Seus sentidos de olfato e visão são muito aguçados. O da visão, por exemplo, tem o dobro do alcance da humana. Seus olhos estão posicionados de modo a poderem ver amplamente o que se passa no campo à sua volta, percebendo a aproximação de qualquer predador aos bezerros. A vaca, de fato, reconhece sua cria pelo tom da pele até certa distância. A partir desse ponto é seu sentido olfativo que amplia sua capacidade de registrar a presença de qualquer ameaça aos pequenos. Esse sentido é tão aguçado, nos bovinos, que eles podem detectar o cheiro de sódio no ar a uma distância de quatro quilômetros. O olfato da vaca funciona como um radar. Ela identifica nas proximidades dos bezerros qualquer odor emitido por um predador, ainda que o bezerro não esteja ao alcance de suas vistas.[Masson, apud Felipe, Galactolatria, p. 113]. Isso explica por que, às vezes, elas se assustam com algo que não vemos. Elas o detectam pelo olfato. Estranham a cor do pelo do novo vitelo quando destoa da cor dos anteriores.

Podemos imaginar o impacto emocional e adrenal delas ao serem empurradas para o caminhão e depois para a esteira da morte. O sentido olfativo bovino explica a ansiedade e o pavor que as vacas (bovinos em geral) sofrem com o cheiro do sangue dos animais abatidos no mesmo espaço, mas sem que sua vista os possa alcançar na câmara de sangria, pois estão isolados delas pelas paredes do corredor da morte. O impacto olfativo os deixa em estado de choque. Rosamund Young, entrevistada por Masson, responde afirmativamente à pergunta dele, sobre se as vacas têm, ou não, consciência da morte. Sim, o cheiro de sangue as deixa agitadas.[Masson, apud Felipe, Galactolatria, p. 114].

No vídeo A carne é fraca, produzido no Brasil em 2004 pelo Instituto Nina Rosa, a médica da faculdade de veterinária da Universidade de São Paulo, Doutora e Professora Irvênia Prada,[Apud Felipe, Galactolatria, p. 114]. especialista em neuroanatomia animal, confirma que os animais, nesse momento, apresentam midríase, a dilatação das pupilas que ocorre no estado de choque, quando, diante do risco de morte, mas, sem poder lutar ou fugir, o animal tem seu metabolismo completamente inundado pela adrenalina, com os efeitos adversos que isso representa para a fisiologia natural dos seus músculos, incluindo os cardíacos, nervos e sistema nervoso central.

A inexistência de qualquer expressão de dor, quer dizer, o estado de choque no qual a vaca fica ao ser ferida não traduz insensibilidade à dor, muito menos ausência de consciência dos estímulos dolorosos que a afetam. É possível usar o que vemos nos humanos e com isso julgar o que ocorre aos animais, sem antropomorfizar. Por isso, é bom lembrar que há humanos capazes de suportar estoicamente estados dolorosos. Deveríamos desprezar sua dor, por não ser expressa de modo ruidoso, convencional? O que, afinal, merece ser respeitado, o estado de dor do animal, ou sua capacidade de expressar e representar essa dor para si e para os outros?

O Professor Donald Broom, responsável pela cadeira de Bem-estar Animal, da Universidade de Cambridge, esclarece que “somente os animais acostumados a receber ajuda, gritam ao sentirem dor ou serem feridos. Esse é o caso dos cães, porcos e humanos. Todavia, para citar duas espécies mamíferas, vacas e ovelhas não têm a expectativa de receber socorro. Nesse caso, gritar só atrairia a atenção do predador”.[Broom, apud Felipe, Galactolatria, p. 116]. Seguindo esse argumento, Masson conclui: “não há dúvida de que a respeito de animais que não gritam não se pode dizer que não sintam dor, ou que a sintam menos […]. Os humanos simplesmente não buscam compreender as emoções dos animais. Isso não quer dizer que elas não estejam lá.”[Masson, apud Felipe, Galactolatria, p. 116].

O experiente estudioso do éthos bovino feminino, Professor John Webster, explica:

“A maioria das muitas espécies que gritam nascem em ninhadas e não individualmente. Se uma coelha grita ao ser capturada, seus filhotes podem fugir… o veadinho das planícies africanas não tem a quem apelar. Se ele gritar, mancar ou expressar outros sinais de aflição, ele se torna o indivíduo marcado pelo leão como presa fácil. É assim que a vaca domesticada e a ovelha se portam, de modo estóico, isto é, elas procuram não revelar o quanto algo lhes está doendo.” [Masson, apud Felipe, Galactolatria, p. 116].

De acordo com a médica Marthe Kiley-Worthington, especialista em gado bovino, “poucas devem ter sido as mudanças na organização social, no sistema de comunicação e no comportamento, do ancestral selvagem à vaca domesticada”.[Masson, apud Felipe, Galactolatria, p. 115]. Sua declaração corrobora a suspeita de que as condições mentais ou o éthos bovino se mantiveram praticamente os mesmos ao longo dos milênios de sua existência. A privação social e emocional que o confinamento e o sistema de produção em massa, tanto do leite quanto da carne, representa para esses animais, deve corresponder proporcionalmente a uma variedade de estímulos dolorosos e estressantes dos quais esse animal, olfativa e visualmente sensível, não pode esquivar-se. Segundo a doutora Kiley-Worthington,

[…] a evolução preparou a mãe vaca para se portar de certo modo em relação a seus pequenos. Tudo está projetado para proteger o vitelo vulnerável. O gado esconde sua cria e, nessas espécies, os vitelos praticamente não exalam cheiro nos primeiros dias de vida, reduzindo o risco de atrair predadores. Se a mãe vaca não pode lamber seu vitelo (para garantir que não exale cheiro algum), não pode alimentá-lo e não pode estar com ele dia e noite, isso produz um estresse mental e fisiológico talvez só compreensível para as mulheres que perderam seus recém-nascidos.[ Apud Felipe, Galactolatria, p.115 ].

Carne de vitelo

A utilidade do vitelo, para a produção galactífera, finda com o parto. Sua gestação foi tolerada por uma só razão: disparar o gatilho hormonal que forma a secreção mamária. Segundo Peter Singer e Jim Mason, quase todos os bezerros paridos pelas vacas usadas para extração do leite destinam-se ao mercado de carne de vitelo. Os que nascem com deformidades ou muito debilitados são “imediatamente abatidos e transformados em ração para animais de estimação”.Quem mantém animais sob sua guarda e os alimenta com rações industrializadas consome carne de vitelos, descartados pela indústria laticínia. Ingerir leite e laticínios implica em cumplicidade com o assassinato de todos os bezerros (recém-nascidos machos bovinos), “inúteis” para a indústria do leite, da vitela e da carne, e, em sua maioria, também para outros processamentos. Os poucos que nascem fortes “são criados para o corte”[Masson, apud Felipe, Galactolatria, p. 41].]. ou usados em cirurgias cardíacas experimentais de transplantes, substituindo cães.[Fox, apud Felipe, Galactolatria, p. 41]. A sequência de torturas sofridas pelos vitelos é de tal ordem que Singer e Mason chegam a escrever que o abate imediato após o nascimento é, do ponto de vista do vitelo, um gesto menos cruel do que seu confinamento por quatro meses,[Singer; Mason, apud Felipe, Galactolatria, p. 41], nas condições descritas a seguir.

Os vitelos são colocados num cubículo, privados do contato físico com sua progenitora, de alimentos com nutrientes essenciais para seu desenvolvimento e saúde, de água (assim ingerem maior quantidade da mistura sem ferro que os manterá anêmicos até o abate), de espaço para mover o corpo e de luz solar. Para evitar contato com a luz, que os estimula, as paredes são pintadas de preto. As luzes são acesas somente na hora da comida.[Singer; Mason, apud Felipe, Galactolatria, p. 42]. A cegueira, uma das muitas sequelas dessa condenação, anuncia a morte por exaustão.[Robbins, apud Felipe, Galactolatria, p. 42]. Ao final de quatro meses, os sobreviventes dessa dieta são enviados para a morte.

As acusações contra esse método italiano (Provimi) de manejo de vitelos foram dirigidas à indústria da carne de vitelo pela Farm Animals Concern Trust – FACT, dos Estados Unidos. Ao ler as acusações e não tendo como contestá-las, um desses empresários as enviou ao editor do The Vealer USA, porta-voz da indústria de vitelo, que lhe respondeu: “Obrigado pela informação sobre a FACT. Lamentamos ser incapazes de desmentir quaisquer das afirmações.[Robbins, apud Felipe, Galactolatria, p. 43].

Os vitelos são acometidos de doenças respiratórias e intestinais e recebem drogas para combater a pneumonia que os ataca em função da anemia. Mesmo recebendo doses maciças de drogas, tanto via oral, quanto injetáveis, entre as mais comumente usadas, nitrofurazona e cloranfenicol, muitos morrem antes de completar os quatro meses.[Robbins, apud Felipe, Galactolatria, p. 44]. Para coroar a lista de privações às quais são submetidos, os vitelos são impedidos de se deitar confortavelmente, além de serem privados de cama de palha, folhas ou serragem. Sua desnutrição é de tal ordem que, se lhes fosse fornecida uma cama de palha, folhas ou serragem, eles a comeriam,[Singer, apud Felipe, Galactolatria, p. 44].buscando, por essa via, o ferro e outros minerais não fornecidos por seus nutricionistas. Os bezerros confinados nesses caixotes são impedidos de andar, saltitar e correr.[Robbins, apud Felipe, Galactolatria, p. 44].

O peso de um vitelo, na hora do abate, no sistema tradicional, geralmente não passava de 70 kg. O ordenamento capitalista desafiou e seduziu os produtores e consumidores: e se alguém conseguisse agregar mais 100 kg ao peso original de 70 kg de cada vitelo, sem que sua carne seja enrijecida? A indústria da carne de vitelo realizou a mágica ao inventar o método Provimi para acumular mais matéria sem músculo no vitelo aprisionado. Indubitavelmente, tal mágica é realizada à custa de imenso sofrimento para os pequenos, que são mantidos vivos por 120 dias, nos quais sofrem diarreias, contraem pneumonia, não podem usar o corpo para deslocar-se no ambiente, não podem interagir com seus pares ou com sua progenitora. Foram forçados ao nascimento para sofrer todo tipo de violação ao seu éthos.

Não importa, para os empresários e comedores, o quanto sofra um vitelo confinado num caixote no qual nem pode se mover, passando fome, sentindo tonturas, enjoos, fraqueza, perdendo o sono e vivendo ao mesmo tempo atormentado com o desconforto de uma sonolência que não tem fim, sintomas bem conhecidos dos humanos que sofrem anemia. O que importa, para os comedores, é satisfazer um prazer absolutamente trivial, esse de degustar uma matéria carnosa sem resistência ao corte, tão macia que pode ser cortada usando-se apenas um garfo. Quem consome leite e laticínios autoriza esse tormento animal. Se não houvesse extração de leite para consumo humano, não haveria gestação de bezerros descartáveis.

Os vitelos são instalados em caixotes de 56 cm de largura por 1,38 m de comprimento, um espaço tão pequeno que os animais mal podem se mover para os lados e jamais podem girar seu corpo, completando um círculo. Amarrados pelo pescoço, não podem mudar de posição, nem olhar para qualquer outro ponto, a não ser o que fica imediatamente à frente de suas cabeças. Lembrando o que já foi exposto, a visão bovina é duas vezes mais ampla do que a humana. Privar esses animais de estímulos visuais e limitar ou abolir seu campo de visão são formas da crueldade sofrida por vitelos condenados à escuridão. Mas, se eles não foram feitos para a vida e sim para o corte, o que importa se têm suas mentes atrofiadas?

Um bezerro criado solto com sua mãe mama, em média, umas 16 vezes por dia. Mamar, segundo John Robbins, é um dos movimentos mais compulsivos do bezerro, pois é o que lhe garante o suprimento de nutrientes.[Robbins, apud Felipe, Galactolatria, p. 46].Compelido à sucção, o vitelo encaixotado tenta suprir sua carência fisiológica, psicológica e nutricional sugando as barras do caixote no qual está preso.

Se pudesse girar o corpo o vitelo faria o que bovinos saudáveis não fazem: comer seus excrementos (copromania). [Singer, apud Felipe, Galactolatria, p. 47]. Ainda que mínima, há certa quantidade de ferro em seus dejetos,[Robbins, apud Felipe, Galactolatria, p. 47], expelida da reserva presente em seu sangue ao nascer, uma reserva que não se mantém no fígado, no baço ou nos ossos na mesma quantidade, à medida em que o tempo passa e a perda não é compensada através da alimentação.

Se fosse possível, afirmam Singer e Mason, os produtores manteriam os vitelos mais tempo para aumentar seu peso. Mas por volta dos 120 dias dessa dieta seu “estado anêmico é grave e quanto mais tempo forem mantidos, mais adoecerão e morrerão nas baias.”[Mason; Singer, apud Felipe, Galactolatria, p. 47]. Por isso, são abatidos aos quatro meses de vida.[Robbins, apud Felipe, Galactolatria, p. 47]. Segundo a Dairy Cattle Science [A ciência do gado leiteiro], escrito por E. Ensminger, ‘“10% dos vitelos são afligidos por diarreia infecciosa e 18% deles morrem disso.”’[Schmid, apud Felipe, Galactolatria, p. 47]. Se aplicamos tais índices aos Estados Unidos, teremos um número de 100 a 120 mil vitelos afligidos por diarreias infecciosas, dos quais 18 a 20 mil sucumbem a elas, anualmente.

Com o olho que só quer ver a imagem da carne rosada refletida em sua retina, o comedor despreza a existência anêmica à qual o bezerro foi condenado nos 120 dias de prisão e maus-tratos. Esse campo cego moral mantém o consumidor numa zona de conforto físico e emocional prazerosa, a mesma zona que ele privou o pequeno animal de experimentar, ainda que fosse por apenas um dos 172.800 minutos nos quais foi submetido a tal existência. Uma carne macia é levada à boca pelo comedor urbano, que mal a mastiga e já a engole, permanecendo, portanto, na zona gustativa e palativa prazerosa desse comedor por menos de 15 segundos, à custa de 10.368.000 segundos de dor e agonia alheias. Essa contabilidade estava registrada na mente do animal. Onde está a moralidade desse comer?

Escravização sexual

Conforme visto, o propósito da gestação e lactação bovinas manejadas não é atender aos interesses fundamentais do éthos bovino dos pequenos e de suas mães. É desviar a produção láctea para fins comerciais. Segundo Jeffrey Moussaieff Masson, as vacas preferidas para extração de leite geralmente são as Guernsey, as Holstein e as Jersey, diferentes das usadas para corte.[Masson, apud Felipe, Galactolatria, p. 49].

A novilha deixa sua condição infantil e entra na adolescência ao completar seu primeiro ano de vida, quando é transformada em uma vaca de leite pelo manejo do produtor. Segundo Joseph Keon, as duas primeiras inseminações ocorrem aos 15 e aos 17 meses de vida, respectivamente. [Keon, apud Felipe, Galactolatria, p. 49]. Embora cheguem a levar a termo de quatro a seis gestações, elas não atendem à sua necessidade sexual natural. Usando um objeto desenhado para esse fim, o técnico introduz na vagina da vaca o sêmen extraído do touro selecionado como bom reprodutor. Não menos ardiloso foi o modo pelo qual se obteve esse sêmen. Em um dos métodos, o touro é aproximado de uma vaca no cio. Os operadores deixam que ele suba nela, mas interrompem o coito e subtraem o material que seria ejaculado nela. Após conferida sua qualidade, o sêmen é introduzido nas vacas preparadas para a inseminação.

Para identificar o exato momento do cio e obterem sucesso na inseminação forçada, os humanos enganam um macho, colocado em meio às vacas para sondar o momento de inseminá-las. Quando elas liberam o odor característico da descarga hormonal que anuncia o pico da fertilidade, os machos se dispõem a realizar o ato sexual, mas, obviamente, não têm autorização para isso. Segundo Mason e Singer,

Esses machos devem detectar, não, copular ou fertilizar fêmeas no cio. Para assegurar que seu esperma inferior não se antecipe ao dos tubos e provetas do inseminador artificial, seus pênis têm que ser neutralizados. Em certas instalações, os fazendeiros imobilizam o pênis com tubos de plástico e pino de aço colocado através da ‘bainha do touro’ para que o pênis fique dentro do animal.[Mason; Singer, apud Felipe, Galactolatria, p. 50].

Por causar “dores e infecções” e fazer o touro perder a vontade de copular, os fazendeiros resolvem a questão de forma segura para seus interesses: eles simplesmente cortam fora o pênis dos touros farejadores. Outros, menos drásticos, fazem uma cirurgia para desviar a posição do pênis.[Mason; Singer, apud Felipe, Galactolatria, p. 50]. Quando se toma leite ou ingere laticínios, toma-se parte nessas ações, embora à distância.

O parto, no sistema de confinamento completo, é realizado no piso de cimento. Não há liberdade nem privacidade para a vaca preparar o ninho ou buscar um recanto natural para parir, seguindo seu éthos, um lugar onde o recém-nascido não seja abocanhado por algum predador à espreita. Ela tem que parir na maternidade, no espaço artificial ao qual é confinada para finalizar o trabalho de parto. Ninguém se importa que ela entre em trabalho de parto em pânico, temerosa de ver seu rebento abocanhado por um predador assim que sair do seu ventre. Ninguém se importa, porque é exatamente isso que se vai fazer a ela!

Nascido, o vitelo fica com a mãe no máximo por dois dias. Quando o levam, ela muge desconsolada por até duas semanas, na expectativa de que ele a reencontre, já que ela está presa à baia de extração do leite. Imediatamente após esse “desmame” abrupto, de um bezerro que mal pôde ser amamentado, a vaca é levada à esteira de extração de leite. Pelos próximos três meses suas glândulas mamárias, estimuladas pela dieta ou por hormônios injetados diretamente nelas, secretam leite. No entanto, na ausência do bezerro, mesmo injetado com hormônios sintéticos, há um momento no qual o organismo entra em recesso na produção de leite. É hora de outra descarga hormonal. Ela volta a ser inseminada.

Desse modo, o gatilho hormonal que leva o organismo feminino mamífero a produzir leite é mantido acionado quase ininterruptamente. Se fosse respeitado o curso normal da reprodução, ele seria desacionado assim que o bezerro crescesse e se alimentasse inteiramente de capim. Mas, neste sistema, no qual literalmente o leite é fabricado usando-se o corpo da vaca como uma máquina de processamento de grãos, cereais, forragens e água, o momento em que cessa a lactação resultante de uma gestação coincide praticamente com o de outro parto, disparando outra vez o gatilho hormonal.

Esse ciclo de abuso e exploração das fêmeas bovinas por conta de suas características sexuais, de sua capacidade para produzir secreção glandular rica em nutrientes que asseguram a continuação da vida na nova geração, é repetido por quatro a seis anos, em média, quando então a vaca está gasta e é vendida para o mercado de carnes moídas. A vida bovina, longe dessas condições, pode prolongar-se de 17 a 25 anos. Na indústria da carne, ela não passa de dois anos e, na do leite, em sistema de confinamento, excepcionalmente, chega aos oito. O ciclo da exploração sexual se repete para cada fêmea da espécie bovina, do mesmo modo que se repete para cada fêmea suína. O rebanho mundial bovino feminino é de 528 milhões de vacas. Todas passam por esses tormentos, ainda que em graus diversos.

Comparada à vida de uma jovem humana, seria como mandá-la para o abate após ter sido levada a parir de oito a dez bebês, ininterruptamente, digamos, dos 14 aos 25 anos de idade. Os 50 anos que a mulher ainda poderia ter vivido, depois de tantas gestações e lactações forçadas, não seriam levados em conta, porque ela já não seria considerada útil para os interesses comerciais em questão. Aos 25 anos, ela seria eliminada da vida, descartada, com a mesma naturalidade com que o são as caixinhas e saquinhos, depois de esvaziado seu conteúdo, o leite.

Os gases ferem

Ao detalhar os ingredientes que compõem a ração dada às vacas nos Estados Unidos, John Robbins parece estar fazendo piada. Mas não está. Alimentar 100.000 vacas confinadas em uma única instalação é tarefa que requer quantidades imensas de matéria, algo em torno de 5.000 toneladas diárias, uma média de 50 kg diários por vaca. O estômago de ruminantes é feito para trabalhar sem pausa, digerindo capim. Manter milhares de vacas confinadas implica oferecer-lhes alimento, não apenas para que seu sistema digestório se mantenha ocupado, mas, principalmente, para que a comida ingerida seja excessiva, desnecessária para o organismo, podendo então ser transformada em massa corpórea igualmente desnecessária para a boa saúde animal, mas imprescindível para a formação de gordura que se transformará em leite.

Nos Estados Unidos, escreve John Robbins, a ração dada às vacas pode conter “serragem coberta de amônia e penas, jornal picado, ‘feno plástico’, lavagem processada, sebo inaproveitável, excremento de galinha, pó de cimento, raspas de papelão, sem falar dos inseticidas, antibióticos e hormônios. Aromas artificiais são adicionados para levar os pobres animais a comerem essa matéria.”[Robbins, apud Felipe, Galactolatria, p. 52]. De acordo com Eric Schlosser, autor de Fast Food Nation, “um estudo publicado há alguns anos em Preventive Medicine (Medicina Preventiva) revela que somente em Arkansas algo em torno de 1½ toneladas de excremento de galinha foram usadas como alimento para o gado”, em 1994. No Brasil, o emprego de excrementos de galinha na composição da ração das vacas vigorou até que o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento baixou uma Instrução Normativa proibindo o uso de quaisquer alimentos animalizados na ração de ruminantes e suínos.

Segundo o médico Neal Barnard, fundador do Comitê dos Médicos por uma Medicina Responsável, o excremento de galinha contém “bactérias perigosas, como a Salmonella spp. e a Campylobacter spp.”, além de parasitas intestinais, “resíduos de antibióticos, arsênico e metais pesados.” [Barnard, apud Felipe, Galactolatria, p. 53].Esses componentes da “dieta” das vacas são ingredientes inseparáveis do leite.

A espécie bovina evoluiu naturalmente para digerir capim e algumas outras ervas. Uma quantidade significativa de fibra precisa estar presente em sua alimentação. Caso isso não ocorra, explicam Singer e Mason, há uma produção exagerada de ácido lático no rúmen. O efeito doloroso para a vaca é a distensão do abdômen, que pode levar à morte por sufocação, caso os gases não sejam expelidos. Com frequência, elas sofrem também de tumores no fígado.[Singer; Mason, apud Felipe, Galactolatria, p. 53].

Segundo Lélio Batista Silva, as “vacas leiteiras de alta produção geralmente se alimentam com grandes quantidades de grãos e há um acordo geral de que este tipo de alimentação, incluindo o milho e a silagem de milho, seja um fator etiológico importante na ocorrência de distúrbios abomasais no rebanho leiteiro.” [Silva, apud Felipe, Galactolatria, p. 53]. O abomaso, uma das quatro partes do estômago da vaca, pode perder o movimento quando recebe um fluxo muito grande do rúmen, em decorrência da dieta de grãos à qual ela é submetida, que forma ácidos graxos voláteis. Sufocado pelos gases, o abomaso para de mandar o alimento para o duodeno. Parado, ele produz maior volume de gás metano, “causando distensão e deslocamento do abomaso.” [Silva, apud Felipe, Galactolatria, p. 53]. As vacas sentem dores abdominais fortes, agitam-se, deitam-se e levantam-se sem parar, param de comer, rangem os dentes e, no desespero, dão coices no próprio abdômen. [Silva, apud Felipe, Galactolatria, p. 54].

O silêncio da dor

Entre os males mais frequentes sofridos pelas vacas, além dos que resultam da falta de liberdade para viver a vida de acordo com o éthossenciente bovino, os distúrbios digestórios, a mastite e a laminite são os mais devastadores. Essas são inflamações causadas tanto pela dieta quanto pelo manejo industrial ao qual as vacas são submetidas.

A mastite resulta basicamente da agressão causada ao organismo bovino feminino por intervenções genéticas e químicas realizadas com o propósito de aumentar a produção e a secreção do leite pelo úbere. Além da mastite, as vacas sofrem as sequelas decorrentes do sistema alimentar e da arquitetura das instalações do manejo, entre elas, a laminite. O piso de concreto ou de metal não tem qualquer semelhança com a textura e relevo do solo ou do campo nos quais as vacas pastaram ao longo de sua evolução.

A exigência de maior produtividade com custo financeiro menor para o extrator de leite acaba por transferir para o organismo das vacas o ônus do aumento da oferta de leite. A grande oferta de leite no mundo não se deve apenas ao aumento dos rebanhos, mas, principalmente, às técnicas de aceleração da produção da descarga hormonal das fêmeas bovinas. Segundo John Robbins, os empresários do leite se orgulham do “fato de que a vaca média comercial dá três vezes, ou mais, leite por ano, do que o faziam suas bucólicas ancestrais.”[Robbins, apud Felipe, Galactolatria, p. 81].

A quantidade de leite extraído hoje das vacas, de três a vinte vezes mais do que era possível há meio século, requer intensa atividade glandular secretora e espaço para essa quantidade de leite ficar armazenada nos tecidos das glândulas mamárias também de três a vinte vezes maior. Com essa informação, podemos imaginar três litros de leite produzidos pela glândula mamária da vaca sendo liberados gradativamente ao longo de, digamos, 14 horas diurnas, período no qual o bezerro mama. Isso rende uns 200 ml de leite por hora. Liberando tal quantidade, os tecidos do úbere responsáveis pela retenção do leite secretado não se dilatam a ponto de arrebentar, não deformam.

Hoje, a glândula mamária das vacas pode ser forçada a produzir 10, 20, 40, 60, 80 e 95, em vez de 3 litros de leite diários. Não há tecido biológico que resista à pressão de tal impacto sem sofrer lesões. Ele simplesmente distende, inflama, rompendo os vasos sanguíneos. Como a agressão é contínua, as lesões também tendem a ser contínuas, forçando o sistema imunológico a disparar para tentar recompor o estrago. Por isso, na contagem de células somáticos do leite, algo em torno de 50% são células brancas do sangue, disparadas somente quando há lesões presentes naquela área. Em decorrência do peso e do esforço extenuante de sustentação, portanto, do estresse anátomo-fisiológico, os tecidos sofrem distensão. A reação inflamatória também triplica ou vintuplica. A vaca sente dor. Isso a leva a permanecer estática.

Há casos em que o úbere, de tão deformado pelo volume e peso, chega bem próximo ao solo. Se fosse permitido aos bezerros mamarem dos tetos desses úberes, provavelmente eles nem conseguiriam realizar a façanha, pois o úbere com essas proporções imensas, carregado de leite, representa para o pequeno vitelo um obstáculo praticamente intransponível na sucção natural. O úbere pende de tal forma que o bezerro teria que mamar deitado debaixo da vaca, para conseguir firmar o teto na boca. Mas não é fácil para bovinos ingerirem alimentos em decúbito dorsal.

Conforme lembra Robbins, quando os zootecnistas e empresários do leite se gabam de extrair três ou quatro vezes mais leite das vacas, hoje, do que o faziam seus avós na década de 60 do século XX, eles jamais revelam os desdobramentos maléficos, para a vaca e os bezerros, de tal eficiência em seus métodos de manejo. Também não fazem referência ao fato de que as vacas de nossas avós viviam de 20 a 25 anos, enquanto no sistema atual, devido ao manejo industrial, elas “podem dar-se por felizes se puderem contemplar seu quarto aniversário.” [Robbins, apud Felipe, Galactolatria, p. 83 ].

Quanto mais leite é extraído diariamente da vaca, analogamente ao que ocorre com qualquer outra fêmea lactante, menor seu teor de nutrientes. O organismo animal está evoluído para fornecer ao bebê, através do leite materno, uma quantidade determinada de nutrientes por dia. Essa quantidade é limitada. Não adianta tirar da vaca 50 ou 60 litros de leite por dia, na suposição simplista de que esses litros de leite contêm os mesmos teores de nutrientes que os três litros de leite destinados ao bezerro conteriam.

Schmid cita um artigo publicado pela Journal of Dairy Research [Revista de Pesquisa Laticínia], no qual o autor afirma: “a vaca transfere uma quantidade fixa de vitaminas para seu leite e quanto maior o volume desse leite tanto mais diluído seu conteúdo de vitaminas, especialmente a vitamina E e betacaroteno.”[Schmid, apud Felipe, Galactolatria, p. 83].

No sistema de manejo em confinamento completo, a vaca vive no interior de uma instalação que inclui máquinas de tirar leite, às quais ela é atrelada duas ou três vezes ao dia. Quando inteiramente confinada nesses espaços artificiais, a vaca é detida na baia, da qual não pode sair por estar contida por uma canga metálica que não lhe permite sequer girar a cabeça e o corpo.

Na hora da extração do leite, o funcionário aperta um botão. A esteira, com dezenas de baias, gira, carregando as vacas para os pontos nos quais se encontram as teteiras metálicas que serão acopladas a seus tetos para extração eletromecânica do leite diretamente nos coletores, impedindo o contato manual do operador humano com o leite. Enquanto a maquinaria é preparada, as vacas são alimentadas, recebem água e têm sua baia de metal higienizada. Assim que o leite de um lote de vacas é extraído, a esteira rolante volta a conduzi-las para a área de estacionamento na qual esperam até a próxima ordenha. O ritual se repete todos os dias com outras dezenas, centenas ou mesmo milhares de vacas confinadas na mesma instalação,por quatro ou mais anos, dependendo da resistência delas a esse manejo e da eficiência de suas glândulas em secretar o leite. Esse sistema foi inventado pela companhia agrícola sueca Alfa-Laval [Robbins, apud Felipe, Galactolatria, p. 83].

Mastite

As vacas usadas para extração do leite são mortas ainda lactantes, no caso de infecção recorrente do úbere (mastite), quando o uso intenso de antibióticos representa custo maior na produção e baixa qualidade do produto. O uso de antibióticos aumenta a quantidade de soro do leite e diminui sua matéria sólida, usada de modo rentável na produção de queijos [Schmid, apud Felipe, Galactolatria, p. 84].

Por conta da mastite, problema comum na cadeia extratora de leite, boa parte do rebanho é abatida antes de chegar ao limite da exaustão hormonal, mesmo nas fazendas ditas “orgânicas”. Segundo relatório do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), citado por Joseph Keon no livro Whitewash, a mastite é a causa principal que leva os produtores a ordenarem o abate prematuro ou descarte e a “segunda causa mais comum” de morte das vacas.

A mastite é a inflamação da glândula mamária causada pela exposição a bactérias Staphylococcus aureus ou E. coli”, entre outras.[Keon, apud Felipe, Galactolatria, p. 84]. Geralmente recorrente, a mastite requer tratamento com antibióticos,adotado por 85% das empresas, segundo relatório do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos.[Keon, apud Felipe, Galactolatria, p. 84 ]. Até “522 kg de leite” deixam de ser extraídos de uma vaca com mastite ao longo de uma lactação. Entre os antibióticos usados estão a cefalosporina e a lincosamida, que deixam resíduos nos laticínios. Essas mesmas bactérias (que também podem infectar o organismo dos consumidores humanos de leite) tornam-se resistentes a eles.

Mesmo reconhecendo que boa parte da resistência humana aos antibióticos deve-se à expansão de seu uso “pela medicina humana”, a Associação Médica Americana- AMA enfatiza que esse tipo de resistência deve-se, também, ao uso massivo de antibióticos “na agricultura animal, com evidência crescente de que a resistência desenvolvida nos animais alastra-se para os patógenos humanos.”[Keon, apud Felipe, Galactolatria, p. 85].

Quando o tratamento com antibióticos não impede a reincidência da mastite em uma vaca, o produtor a despacha para o abate, substituindo-a por outra, ainda não sequelada. A carne daquela vaca será moída para compor hambúrgueres, consumidos aos bilhões a cada dia ao redor do mundo. Segundo Singer e Mason, a indústria do leite é a fornecedora de cerca da metade da carne de hambúrguer servida em restaurantes fast food,e de tabletes de caldos temperados. O mesmo destino aguarda a vaca “gasta” por sucessivas gestações e lactações. Assim que o “gatilho hormonal” perde força, apesar do emprego do hormônio de crescimento recombinante bovino (rBST), ou produz episódios frequentes de mastite, a vaca “gasta” finaliza sua existência na câmara de sangria do abatedouro, eufemisticamente referido como frigorífico.

Na Inglaterra, a mastite em estado doloroso afeta 35% do rebanho de dois milhões de vacas, isso quer dizer que 700 mil vacas submetidas à ordenha sofrem a dor da mastite. A dor da mastite não se constituiu necessariamente em elemento de evolução do organismo bovino feminino. É possível, então, que a mastite assole a maior parte do rebanho usado para extração do leite, pois a glândula mamária aumentada desproporcionalmente não encontra espaço confortável para acomodar-se, nem os tecidos dispõem de resistência para suportar o peso descomunal do úbere sobrecarregado.

Quando uma área do corpo “incha”, o sistema circulatório e linfático ao redor sofre pressão. As sensações desconfortáveis se multiplicam, sem que a vaca as possa expressar clinicamente. O aumento do úbere por si só representa um quadro inflamatório, portanto, doloroso, ainda que os sinais infecciosos da mastite não se façam presentes no início do processo inflamatório.

Se as vacas podem estar com o úbere inflamado sem apresentar sinais clínicos da dor, é plausível que metade, ou mais, do leite consumido seja proveniente de vacas sofrendo de mastite. Se o controle sanitário não passa de 60% do leite extraído e processado, dá para imaginar que, em muitos casos, os laticínios consumidos sejam produzidos com leite de vacas doentes.

Não há transparência do modelo de vigilância sanitária ao qual o parque leiteiro brasileiro está submetido. Se nas instalações que concentram milhares de vacas a fiscalização oficial é feita por amostragem, como se faz o trabalho nos plantéis pequenos, onde sequer há um veterinário de plantão? Se, por outro lado, a fiscalização do leite é feita na entrada das instalações de processamento, quem nos garante que os níveis detectados de pus, sangue e outros contaminantes acima dos níveis legais são motivo suficiente para o descarte desse leite sujo? Quem fiscaliza as empresas que fiscalizam o leite que acabaram de adquirir do produtor?

Laminite

Os médicos José Santos e Michael Overton, da faculdade de veterinária da Universidade da California, em Davis, em seu artigo, “Diet, Feeding, Practices and Housing Can Reduce Lameness in Dairy Cattle”, publicado em março de 2001 em Progressive Dairyman and Hay Grower, escrevem:

[A] acidose prevalece após o regurgitamento de grande quantidade de amido e outros carboidratos rapidamente fermentáveis, tais quais a pectina e os açúcares. Esses são exatamente os nutrientes encontrados em grande concentração na dieta rica em grãos que vacas confinadas recebem para ‘maximizar’ a eficiência e produção de leite. Com tal dieta ocorre uma concentração anormal de glicose no rúmen. ‘Na presença da glicose, micróbios oportunistas, tais quais os coliformes (bactérias normalmente encontradas apenas nos intestinos) podem se multiplicar’.[Cohen, apud Felipe, Galactolatria, p. 86 ].

Uma das doenças recorrentes em vacas usadas para extração do leite é a laminite, extremamente dolorosa. Sua causa mais comum é justamente a “dieta balanceada”, inventada pelos cientistas para maximizar a ingestão de calorias que resulta em maior secreção de leite. Além de enfrentar o desafio de digerir grãos e outros elementos que não lembram, nem de longe, a natureza do capim e das forragens para os quais o sistema digestório dos bovinos evoluiu, e além de sofrer com a quantidade de acidez produzida pela digestão de amiláceos e outros tipos de açúcar, a vaca também sofre com a ingestão de comida baseada em grãos carregados de aflatoxina. Mais da metade das vacas usadas para extração do leite nos Estados Unidos está confinada em estábulos e recebe uma dieta baseada em grãos.

No Brasil, são mantidas confinadas 41% das vacas usadas para extração do leite (quase dez milhões), representando bem mais de 41% do leite consumido em nosso país, pois dessas vacas geralmente se extrai mais leite do que das semiconfinadas e muito mais do que das vacas criadas soltas em pastos.

A literatura veterinária costuma encobrir os altos índices de laminite nas vacas em lactação. Todavia, pesquisas recentes dos graduandos em zootecnia e veterinária têm constatado que praticamente a metade dos animais padece das deformações dolorosas dos cascos. Segundo Lélio Batista Silva, essa enfermidade “caracteriza-se por lesões degenerativas das lâminas epidérmicas dos cascos, associadas às alterações circulatórias e inflamação das lâminas sensitivas, lâminas dérmicas e cório laminar, com consequente necrose e perda do estojo córneo ou crescimento anormal e deformação do casco”.[Silva, apud Felipe, Galactolatria, p. 87].

A causa da degeneração do tecido das patas das vacas pode ser remetida à dieta baseada em grãos e cereais, rica em carboidratos, que produz distúrbios digestivos, com “excessiva fermentação ruminal” e “grande produção de ácidos graxos voláteis, ocorrendo queda do pH ruminal (abaixo de 5,5), levando ao surgimento de lesões podais.”[Silva, apud Felipe, Galactolatria, p. 87].

Dependendo do tempo em que os grãos ficam armazenados até o momento de serem servidos[Schmid, apud Felipe, Galactolatria, p. 87], uma maior ou menor carga de fungos (entre eles a aflatoxina) os acompanha para o interior do estômago das vacas, cujo sistema digestório não está evoluído para digerir ou eliminar esses fungos, do mesmo modo que não evoluiu para digerir ou destruir as bactérias que se multiplicam com a alta acidez produzida pela fermentação dos grãos no rúmen. O sistema digestório bovino evoluiu para ser herbívoro; não, onívoro, e, menos ainda, para ser carnívoro.

Segundo o microbiologista Elliot T. Ryser, formado pela Universidade de Michigan, com doutorado em leite e laticínios, pesquisas recentes constatam que a aflatoxina não é eliminada por qualquer dos métodos tradicionais e modernos de processamento do leite e derivados: pasteurização, esterilização, fermentação, armazenagem a frio, congelamento, condensação ou desidratação. Tais evidências levaram 34 países a proporem uma legislação para impor limites aos níveis de aflatoxina presentes na ração bovina.

Seguindo a mesma lógica do mercado aplicada na regulamentação do pus no leite, também a aflatoxina foi liberada no leite e derivados, desde que não ultrapasse determinados níveis.[Schmid, apud Felipe, Galactolatria, p. 88].

Devido ao fato de não poderem se alimentar livremente de capim e, por outro lado, de receberem uma dieta centrada em grãos, com alguma quantidade de feno, as doenças nas vacas se multiplicam, indo da mastite à laminite, passando por outros distúrbios do sistema digestório, respiratório e circulatório. Uma grande quantidade de antibióticos precisa ser ministrada para que as vacas sobrevivam a essas dolorosas doenças.[Schmid, apud Felipe, Galactolatria, p. 88].

Mesmo a produção orgânica de leite, no sistema de confinamento completo, não livra as vacas das doenças comuns ao sistema não-orgânico. Do mesmo modo, o sistema orgânico força as vacas a ingerirem grãos, com a diferença de que esses não são cultivados com pesticidas.[Schmid, apud Felipe, Galactolatria, p. 88]. A razão pela qual a dieta das vacas continua a ser baseada em grãos é que eles aumentam a secreção láctea. Sem eles, a manutenção do sistema lucrativo de exploração das vacas seria inviável. Por essa razão, segundo Schmid, “fazendas orgânicas de produção de leite não prosperam, pois os custos são muito elevados e o retorno, nulo.” [Schmid, apud Felipe, Galactolatria, p. 88]. Portanto, não existe “extração ética” de leite, mesmo no sistema de produção orgânico, caso sejam usados cereais na dieta das vacas, ainda que tenham sido cultivados sem agrotóxicos.

De qualquer modo, o uso dos animais como máquinas produtivas para satisfação de demandas humanas jamais pode ser ético, em qualquer sentido. Os consumidores querem ter tudo: leite limpo, vacas saudáveis, consciência livre de culpa e preços baixos nos produtos. O mercado e a propaganda laticínica os iludem com a promessa de que tal mágica é possível.

De uma vaca genuinamente herbívora seriam extraídos, quando muito, dois a três litros de leite por dia. Seria necessário armazenar todo esse leite por duas semanas para conseguir produzir 1 kg de manteiga e uns 4 kg de ricota. Com a venda desse produto final, o extrator do leite não pagaria o custo da manutenção da vaca. Por essa razão, não existe “leite de vaca feliz” à venda. Se tal leite existe, sua produção é doméstica, não destinada ao mercado, mesmo porque, se alguém trata super bem de uma vaca e extrai dela um leite não contaminado, não o venderá por 0,69 ou mesmo 0,80 centavos o litro, venderá?

Para completar a lista dos males causados às vacas, mesmo pela indústria orgânica de laticínios, resta falar do bagaço da cana dado a elas. Não resulta absolutamente sem sequelas essa prática, do ponto de vista da saúde dos animais. Ron Schmid cita um artigo publicado pelo Stockman Grass Farmer, no qual os pesquisadores apontam três perigos de se dar bagaço de cana ou similares da indústria da cerveja para as vacas. O primeiro é uma espécie de polio, que “cria lesões no cérebro”, devido ao alto teor de enxofre contido nesse alimento, e sintomas similares “aos da doença da vaca louca”. O segundo perigo está relacionado ao fato de que,

[…] os subprodutos do etanol são altamente suscetíveis à multiplicação do fungo potencialmente mortal chamado micotoxina. [… A] aflatoxina pode de fato sobreviver ao processo de produção do etanol, pode passar no leite da vaca e não é destruída pela pasteurização. Ela é altamente venenosa para o fígado e um poderoso cancerígeno. [… O] gado alimentado com grãos usados na fermentação da cerveja está seis vezes mais sujeito a produzir a forma virulenta da E. coli, do que o gado alimentado com milho, e esse mais sujeito do que o alimentado com capim.[Schmid, apud Felipe, Galactolatria, p. 89].

A interferência do manejo humano na vida e digestão bovinas é de tal ordem que, para defender as vacas de um tipo de dieta que destrói sua saúde e a qualidade do leite que deveriam secretar para nutrir seu bezerro, os cientistas acabam por propor alternativas que nem de longe representam benefício para elas. Se, conforme visto acima, a digestão de grãos, carboidratos, amido e açúcares, mesmo orgânicos, é altamente maléfica para a saúde e bem-estar das vacas, como é que se pode defender a ingestão do milho? Obviamente, o bagaço de cana é uma das piores alternativas na dieta das vacas. O milho aparece como menos pior do que o bagaço, mas isso não o torna um alimento ideal para elas.

O alimento ideal para a saúde bovina são as gramíneas. Para Schmid, “o capim depende tanto dos ruminantes quanto esses, dele. Sem os ruminantes para fertilizar o solo e quebrar a celulose, nos climas secos, os campos logo se tornam desertos e, com o manejo de ruminantes que pastam, os desertos podem ser restaurados em terras produtivas.” [Schmid, apud Felipe, Galactolatria, p. 90].

O médico veterinário britânico, Michael W. Fox, no livro Eating with Conscience [Alimentando-se com consciência], critica a dieta “científica” elaborada para alimentar as vacas. Conforme o autor, as vacas são “ruminantes, evoluíram para sobreviver do capim e forragens, não dos grãos altamente energéticos que lhes são dados para aumentar a produção do leite.” [Fox, apud Felipe, Galactolatria, p. 90]. Uma dieta dessas, absolutamente inapropriada para o trato digestório e o metabolismo bovinos, deixa rastros em sua passagem, que as caixinhas e saquinhos de leite adquiridos pelo consumidor não deixam revelam.

O trato digestório das vacas alimentadas com grãos é assoberbado do início ao fim do processo digestivo pela formação de gases, borbulhas e diarreias frequentes. A vaca, sofrendo de diarreias, tem a cauda inundada pelos próprios dejetos. A cauda é a única defesa dos bovinos para afastarem moscas que buscam alimentos nas partículas depositadas na área da excreção. Com a cauda lambuzada de resíduos diarreicos e usando-a para afastar as moscas, a vaca acaba por espalhar as bactérias e patógenos por toda parte do corpo onde alcança batê-la. Muitos fazendeiros encontram a “solução” para o problema: eles, simplesmente, cortam a cauda da vaca, deixando apenas um toco. Essa prática, segundo Fox, é adotada igualmente por pequenos e grandes produtores de leite.[Fox, apud Felipe, Galactolatria, p. 90].

Com o úbere inflamado pela sobrecarga, o abdômen inchado pela produção de gás metano no rúmen,devido à dieta forçada de grãos e cereais, e as patas pressionadas contra os pisos de concreto ou de aço dos estábulos modernos, ou imersas na lama excremental ácida, a laminite ou lesão dos tecidos das lâminas do casco resulta em acúmulo de dor, suportada estoicamente pela vaca, no mais completo silêncio. Os responsáveis pelo manejo também silenciam.

Na ilusão de que o silêncio da vaca e o silêncio dos extratores de leite significam igualmente não-dor, consumidores de laticínios, instalados no conforto de sua indiferença pelo sofrimento animal, ignoram o que se passa nas leiterias modernas. Eles fixam o olhar apenas na marca do leite, o ponto cego que vela o conteúdo real da caixa ou do saquinho. Os galactômanos jamais dirigem um olhar para a vaca, para o que dão de comer a ela, para a dor causada pelas infecções contínuas às quais está sujeitada pelo manejo humano, para sua agonia física e psíquica. Consumidores inconscientes pensam que são as vacas que não têm consciência.

Enquanto a mastite diagnosticada afeta 35 de cada 100 vacas, segundo reconhecem os britânicos, a laminite atinge 60 em cada 100 vacas. Seu rebanho de quase dois milhões de vacas tem, então, um milhão e duzentos mil delas sofrendo de laminite. Isso significa que 60% do leite consumido pelos ingleses provém de vacas dorentes e sofrentes. Quanto temos disso, no Brasil? Não há dados nacionais. Mas a mastite obviamente é tão comum que os níveis de células somáticas tolerados no Brasil passam do dobro dos tolerados na Europa e mesmo nos Estados Unidos: 1.000.000 por ml de leite. Segundo especialistas, das células somáticas 50% são células brancas do sangue, indicando processo inflamatório ou infeccioso. O Dr. Webster oferece uma analogia para que possamos entender a dor dessa inflamação:

Imagine as unhas de ambas as suas mãos prensadas na dobradura da porta. Agora, imagine-se tendo que andar com elas apoiadas ao chão. Consegue imaginar a dor que sentiria? Então, se vê a vaca hesitando em pôr uma pata à frente da outra, esteja certo de que ela está sentindo essas dores atrozes.[Apud Felipe, Galactolatria, p. 91].

Quem sofre de unha encravada pode ter uma ideia aproximada do que seja sofrer de laminite. Mas para saber o que a vaca sofre, imagine as unhas de todos os dedos de seus pés encravadas. Imagine-se tendo que ficar de pé, ou mover-se, com todas, não apenas com uma das unhas, encravadas. Chegou perto do suplício infernal? Pois é, boa parte do leite ingerido por humanos é extraída diariamente de vacas com dor nos cascos, quer dizer, vacas supliciadas pela laminite, além da mastite. A causa principal, em ambos os casos, é o fato de serem forçadas a comer grãos e cereais, quando evoluíram para digerir bem apenas o capim. Citando Keeping Livestock Healthy, a Veterinary Guide [Mantendo a saúde do rebanho, um guia veterinário], Ron Schmid esclarece: quando sofrem de laminite, as vacas não ganham peso nem produzem tanto leite quanto o esperado, simplesmente porque “seus pés doem”.[Schmid, apud Felipe, Galactolatria, p. 92].

Alguém pode retrucar que, com o tempo, a dor dessensibiliza, a ponto de o animal nada mais sentir. Engana-se. Webster afirma que as pesquisas neurológicas mais avançadas mostram que “a laminite crônica desencadeia nas vacas a hiperalgesia, o aumento da sensibilidade à dor.” Nas palavras do cientista, vacas e humanos têm o mesmo tipo de perspectiva em relação à dor crônica: “com o tempo, só piora.”[Masson, apud Felipe, Galactolatria, p. 92].

A laminite tem duas causas diretas, evidenciadas pela pesquisa: a alimentação baseada em grãos e o piso de concreto ou metal das instalações nas quais as vacas ficam imobilizadas no confinamento. Seu sofrimento poderia ser aliviado se, em primeiro lugar, deixassem de confiná-las nessas instalações com pisos para os quais as lâminas de seus cascos não evoluíram nem biológica nem fisiologicamente e, em segundo lugar, se parassem de lhes fornecer grãos na dieta e devolvessem a elas a dieta natural herbívora. As duas condições para pôr fim ao sofrimento delas implicam na abolição do sistema de extração do leite. Para que isso seja alcançado e as vacas possam simplesmente viver em paz, é preciso, entretanto, abolir a galactomania, a demanda por produtos derivados do leite. Nesse caso, o destino das vacas depende de cada um dos consumidores humanos. Não são os governos que impõem o consumo do leite. Os governos só arrecadam mais impostos com isso.

Os veterinários José Santos e Michael Overton, estudiosos da laminite bovina, identificam o fator mais importante no desenvolvimento desse mal: o tempo que as vacas são obrigadas a permanecer de pé sobre o piso de concreto, alterando “o ângulo dos pés”. Quando prolongado, leva à inflamação das lâminas pela compressão dos tecidos que não se formam para aguentar em posição estática o peso de meia tonelada por horas, dias e meses a fio.[Schmid, apud Felipe, Galactolatria, p. 92]. Os danos aos tecidos acabam resultando em úlceras na sola da pata, próxima ao bulbo.[Schmid, apud Felipe, Galactolatria, p. 92].

A laminite também pode ocorrer quando as vacas são mantidas sobre terrenos lamacentos e cobertos de excrementos, prática comum em sistemas de semiconfinamento, nos quais elas vivem em espaços cercados. Impedidas de saírem do cercado e alimentadas com grande volume de grãos, cereais e demais sólidos indigestos, recebendo de 40 a mais de 100 litros de água diários, elas defecam no mesmo espaço onde permanecem, atolando-se nos próprios excrementos, muitas vezes até a altura dos joelhos. A imersão permanente das patas na massa excremental ácida amolece as lâminas, contribuindo para sua deterioração.

A violência contra o corpo das vacas fica evidente, se considerarmos o que seria uma vida bovina saudável, atendendo ao éthos ou bem próprio da espécie. Uma vaca livre descansa, deitada, por mais da metade do dia. Segundo Santos e Overton, Apud Schmid, dessas doze ou quatorze horas nas quais elas passam deitadas, pelo menos umas quatro ou cinco são de sono.[Schmid, apud Felipe, Galactolatria, p. 93]. Nas instalações para extração do leite, contrariando o bem próprio do organismo bovino, as vacas em estado de lactação, evoluídas para estarem deitadas mais da metade do dia, ficam de pé por horas e horas, sem poderem deitar para aliviar a pressão do peso do corpo sobre as lâminas das patas.

É preciso lembrar que não apenas as lâminas se ressentem da postura em pé. Também os tecidos do úbere carregado de leite sofrem. Se as vacas pudessem deitar-se, o úbere pesado descansaria sobre o solo. Não o podendo, esse peso fica suspenso, restando aos tecidos internos e externos a tarefa de sustentar o volume que se acumula em grande quantidade até o momento da ordenha. O estiramento dos tecidos impede a circulação sanguínea. Quando a vaca se deita o úbere volta a ser irrigado, renovando os tecidos lesados pela secreção, retenção e fricção na extração do leite. De pé, o sangue não circula adequadamente por toda a região lesada. Essa é a razão pela qual, naturalmente, as vacas se deitam imediatamente após o bezerro concluir sua mamada.

Para aumentar o lucro dos extratores de leite, as baias são construídas com o mínimo espaço, tão estreitas que as vacas mal podem mover-se um pouco para o lado. Por isso, elas não têm como relaxar enquanto se deitam e descansam. Assim, as vacas não podem dar alívio aos tecidos das lâminas que as protegem como amortecedores do impacto do peso estático do corpo. Sem o devido descanso, a pressão as desgasta, fazendo com que os tecidos mais frágeis se rompam, sem que possam ser regenerados a tempo, antes do novo impacto. O desgaste desses tecidos é mais rápido do que sua reconstituição, pois, com uma dieta baseada em grãos, lixo orgânico e sintético, a acidez do organismo também não dá trégua a eles. Na acidose, o trabalho dos osteoblastos fica prejudicado, enquanto o dos osteoclastos é acelerado.

No século XVII, quando os primeiros emigrantes da Europa chegaram ao norte da América levando as primeiras vacas a bordo dos navios, elas não rendiam a eles mais do que um litro de leite ao dia. O que rendiam além disso era para nutrir o bezerro. Por volta da metade do século XIX, a extração não passava de dois litros ao dia.[Cohen, apud Felipe, Galactolatria, p. 95]. Segundo Ron Schmid, nos anos 50 do século passado, as vacas já eram forçadas a produzir quase “dez litros de leite por dia”. Na virada do terceiro milênio, a extração exibia em média mais de 30 litros por dia.[Schmid, apud Felipe, Galactolatria, p. 95]. Robert Cohen refere-se à extração de até 50 litros por dia, em casos premiados, ficando a média, alcançada por ardis da engenharia genética e das novas drogas, como o hormônio somatotropina e o hormônio de crescimento recombinante bovino rBST, em torno de 24 litros de leite por dia. [Cf. Cohen, apud Felipe, Galactolatria, p. 95].

Segundo Ron Schmid, o volume elevado atual de leite extraído de vacas deve-se às técnicas de manejo empregues nos últimos vinte anos: seleção genética, alimentação baseada em grãos, hormônios recombinantes e aditivos [Schmid, apud Felipe, Galactolatria, p. 96], destinados ao mesmo fim: desviar comercialmente o leite que as vacas secretam para assegurar a vida de sua prole. Schmid fala de índices elevados, nos Estados Unidos, de vacas afetadas pela mastite. Webster refere-se a 35% das vacas na Inglaterra, enquanto na América do Norte chega a 40%[Schmid, apud Felipe, Galactolatria, p. 96].Se o rebanho bovino estadunidense em lactação é formado por 9 milhões e 200 mil vacas, 3 milhões e 600 mil são afetadas pela mastite. Os Estados Unidos extraem mais de 86 milhões de toneladas de leite por ano. Se 40% desse leite é tirado de vacas com mastite, mais de 30 milhões de toneladas foram extraídas de vacas com dor e em sofrimento. Não dá para esterilizar esses dados, pois seu registro está gravado na mente de cada uma delas, não na nossa. A pasteurização e a esterilização do leite não o tornam puro.

[Para citar passagens deste texto use a referência completa disponível no rodapé. Obrigada]

FELIPE, Sônia T. O sofrimento das vacas e vitelos. Palestra apresentada no Curso de Extensão: Implicações éticas, ambientais e nutricionais do consumo de leite bovino – uma abordagem crítica. Florianópolis: UFSC, Auditório do Centro de Educação, 10 de maio de 2013, das 18:45 às 21:30. 20 p.

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Olhar Animal – www.olharanimal.org


Ética animalista

Curso de Extensão

Implicações éticas, ambientais e nutricionais do consumo de leite bovino – uma abordagem crítica

[Palestra proferida no Auditório do Centro de Filosofia e Ciências Humanas – UFSC,

3 maio 2013, das 18:45 às 21:30]

ÉTICA ANIMALISTA

Dr. phil. Sônia T. Felipe

 

De origem grega, a palavra ética se desdobra em dois significados. Ela designa, em primeiro lugar, simplesmente, aquilo que o nascimento nos lega, hoje chamado bagagem genética, a herança biológica própria de cada espécie, que resulta da combinação dos elementos progênitos masculino e feminino, resultando no organismo individual. Nesse sentido, éthos refere aquilo que não podemos mudar, o que nos caracteriza enquanto espécie e também indivíduos. Esse significado básico biopsicológico, éthos como característica ou caráter, do qual deriva a palavra ethiké, traduzida em português como ética (bem conhecida e raramente adotada), resume a condição natural de todos os animais e plantas, mas não esgota o que deve ser entendido filosoficamente por ética, embora tenha algo a ver com ela.

O segundo sentido do termo, ethiké ou ética designa o que nos caracteriza, não pela bagagem genética, mas por moldagem cultural, conseguida pelo hábito, costume ou tradição. Neste sentido, o latim traduziu éthos ou ethiké, do grego, por mores, que significa costumes. Por isso, em português, usamos a palavra moral, sendo que não é raro o uso indistinto dos termos ética e moral. Na tradição religiosa, o termo moral foi usado para designar a lista de ações a serem praticadas por serem consideradas boas. Mas na tradição filosófica moral significa simplesmente o sistema de valores adotado por uma determinada cultura, por vezes com pretensão de validade universal. O que um determinado povo acha certo ou errado, pretende que todos os demais também o achem.

Passada de uma geração a outra, a lista das ações consideradas boas por serem praticadas há milênios acaba por compor o que somos condicionados a respeitar como tradição, aquilo que forma em nós uma armadura protetora, que vestimos quando interagimos socialmente, para que não façamos ao outro algo que o “desmoralize”, nem nos “desmoralizemos” fazendo algo inconcebível à imagem que temos de nós mesmos como seres éticos.

Entretanto, também desde os gregos, a palavra ethiké inaugurou a análise e avaliação dos costumes, tradições e ações humanas, considerando-os sob uma perspectiva crítica, tanto para indicar o bem que pode resultar de uma prática tradicional, quanto o mal que ela pode acarretar. Ao longo da história, com base nessa capacidade crítica da razão, muitas tradições foram abolidas. Quem insiste em ressuscitá-las geralmente é considerado bárbaro (também do grego uma palavra que designava o estranho, o não nascido em Atenas).

Este curso de extensão, Implicações éticas, ambientais e nutricionais do consumo do leite bovino, conforme anunciado no projeto, segue o espírito do livro Galactolatria: mau deleite (FELIPE, Sônia T. São José: Ed. da Autora, Ecoânima, 2012, 302 p.), uma abordagem crítica do éthos ou tradição moral e econômica de extrair leite das fêmeas bovinas para consumo humano.

Nesse sentido, o curso é uma análise ética crítica de algo que nos foi legado pela tradição dietética como condizente com o éthos Homo sapiensis, como característica natural humana. O que a tradição alimentar não nos ensinou é que certos hábitos alimentares resultam de interesses humanos que se mostram vantajosos para alguns e extremamente maléficos para todos os demais envolvidos: vacas, vitelos, ecossistemas naturais e o próprio sujeito galactômano.

Para muitos, seu interesse dietético galactófilo ou galactômano tem tanto direito de ser atendido quanto o tem seu interesse em professar determinado credo, estudar em uma universidade, escolher a pessoa com quem vai interagir sexualmente e assim por diante. Ser galactômano, para quem nasceu há menos de quarenta anos e para muitos que nasceram há mais de sessenta, parece ter se tornado um direito humano fundamental. Esse pretenso direito jamais leva em conta o direito das vacas e vitelos de não terem suas vidas e seu éthos destruído pelo manejo humano. Ninguém é formado para calcular a montanha de grãos, cereais, forragens e a imensidão de águas digeridas pelas vacas e expelidas no ambiente, por conta do consumo de leite e laticínios. Ao forçar nosso olho a buscar sempre o mesmo tipo de alimento ao qual nosso cérebro e nossa mente foram direcionados desde antes de nascermos, a dieta galactômana nos cega.

Falar criticamente sobre a galactomania pode parecer para algumas pessoas uma ofensa contra seus interesses fundamentais. Toda análise e juízo ético questionadores da moralidade tradicional dietética causam reações adversas.

Não nos ateremos à história da construção na mente humana da crença de que sem o leite bovino os humanos não podem gozar de saúde. Trataremos do mito nas sessões sobre o consumo de leite e laticínios e sua vinculação com muitas das doenças que abarrotam hoje os hospitais e levam boa parte das pensões e aposentadorias diretamente para as farmácias.

 Humanos costumam usar leite de fêmeas de outras espécies (yakas, vacas, búfalas, cabras, ovelhas e camelas) há mais de dez mil anos, sempre com a justificativa de que escasseiam no ambiente natural os nutrientes presentes nesses leites, e por isso os humanos precisam extraí-los de fêmeas de outras espécies. Ninguém nos ensinou a perguntar: “E de onde essas fêmeas extraem os nutrientes que compõem seus leites?” A resposta, obviamente, seria: “Do alimento que consomem”. Bem, se há alimentos disponíveis às fêmeas de outras espécies, dos quais elas obtêm os nutrientes que se concentrarão em seus leites, por que os humanos não ingerem esses alimentos diretamente?

Onde nasce vegetação que serve de alimento para as fêmeas mamíferas, também podem nascer vegetais nutritivos para a espécie humana. Então, a questão não é, propriamente, a de os nutrientes estarem presentes no leite animal, mas a de que as terras usadas para produzir o alimento dado a esses animais não são disponibilizadas ao cultivo de alimentos humanos, somente ao de alimentos animais. O alimento animalizado – comida dada aos humanos depois de os alimentos vegetais ricos em proteínas, minerais e vitaminas terem sido dados aos animais para que seus corpos os processem – custa mais caro. Agregação de valor.

Ao contrário do que se pensa, vacas, búfalas, yakas, cabras, camelas e ovelhas são usadas em maior ou menor número para extração de leite, dependendo da fartura de alimentos com os quais os extratores proveem o sustento delas. Na verdade, conforme veremos ao tratarmos da galactocracia ao redor do mundo, quanto mais fartura na produção de grãos, cereais e forragens, mais alta a extração de leite animal destinado ao consumo humano. Quanto menor a disponibilidade de grãos, cereais e plantas, mais baixa a extração de leite animal para consumo humano. Portanto, não é inteligente concluir que os alimentos animalizados nos salvam da fome. Eles saciam nossa gula. Satisfazem nosso apetite. Mas gula e apetite não são carências que justifiquem a morte ou a exploração dos outros para atendimento de nossas fantasias sensoriais bem mal-acostumadas.

Neste curso, abordaremos apenas a extração de leite das vacas. Portanto, ao usarmos aqui o termo leite, sempre será em referência ao delas. Quando não for este o caso, o termo leite virá seguido de algum qualificativo: vegano, de mulher, de baleia e assim por diante.

Vamos nos ocupar da ética animalista, no sentido grego do termo ethiké: uma análise crítica dos hábitos, costumes, usos e tradições nos quais nos formatamos conceitualmente, mesmo sem nos darmos conta disso, usando, explorando e matando os animais das espécies eleitas pelo padrão moral da nossa cultura para servirem ao nosso proveito. Faremos essa crítica ética para filtrar, pelo juízo, o que não condiz com determinado princípio moral, adotado para regular nossa existência em meio à dos outros, que também têm interesses a serem preservados. Os outros, nesse caso, podem ser as vacas, os vitelos, as florestas derrubadas para plantação de monoculturas e os ecossistemas naturais destruídos pelo gás metano e pelos excrementos do leite.

É comum aceitarmos que ninguém pode ter privilégios, a menos que eles sejam parte ou resultem de uma atividade aceita como justa pelos demais membros da comunidade moral. Então, não podemos exigir que alguém aprove a conduta de outro, quando esse acumula benefícios em favor próprio, sem que esses benefícios sejam resultado de uma atividade eticamente aceitável por essa comunidade. Esse é o princípio da igualdade, muitas vezes conhecido como isonomia, quer dizer, tratamento igual para os que são considerados iguais.

Entretanto, mesmo que uma determinada prática, costume ou tradição seja considerada aceitável por uma determinada comunidade, a simples aceitação da maioria não é ainda garantia de que tal prática seja ética. A maioria das pessoas pode estar simplesmente seguindo uma tradição nada ética. As pessoas costumam revestir-se de práticas e costumes típicos de sua cultura, e por estarem revestidas e investidas deles, os consideram louváveis. Isso as formata moralmente para aceitarem como válidos os hábitos e costumes que se assemelham aos seus e reprovarem os que não se parecem com os seus. Por exemplo: é comum, nas páginas de notícias da Agência de Notícias de Direitos Animais – ANDA, os internautas se referirem com termos vis aos asiáticos que comem cães e gatos, esquecendo-se que estão aqui a comer porcos e frangos. Para o porco ou para o frango, a vida é tão valiosa quanto o é para o cão ou para o gato. O valor da vida de um animal não pode ser medido por nossas predileções ou estimas pessoais. Isso pode valer para organizar nossos afetos e equilibrar nossas emoções domésticas. Mas afetos e emoções privadas não podem ser o crivo pelo qual a vida alheia, seja em que formato for, tenha que passar, para conseguir ser reconhecida como digna de respeito. Os animais não dependem de nossa estima para viver. Eles dependem do nosso respeito.  

Como passar o filtro nessas convicções morais? Descartes, ao desafiar a razão a pôr em questão todas as verdades e dogmas impostos pela igreja católica, reconheceu que é preciso ter um princípio abstrato que sirva de luz e guie nosso raciocínio enquanto fazemos a crítica dos nossos arraigados costumes. Para efeito da crítica ética às implicações da extração e consumo de leite animal, temos em mente o princípio, elaborado por Peter Singer, da igual consideração de interesses semelhantes, que congrega ao mesmo tempo o reconhecimento da igualdade de todos os seres sencientes, quer dizer, sua capacidade de sentir dor, de sofrer e de serem conscientes do que acontece a eles, e da liberdade, sem a qual nenhuma vida animal tem sentido, nenhuma mesmo. Temos também o princípio do direito moral à vida, elaborado por Tom Regan em sua concepção dos animais como sujeitos-de-suas-vidas, segundo o qual não há vida maior nem menor, melhor nem pior, pois a vida precisa ser respeitada da perspectiva do animal que a vive, não dos que são capazes de mata-lo ou de exauri-lo pela exploração. Em terceiro lugar, temos o princípio do direito abolicionista, elaborado por Gary L. Francione, pelo qual a vida animal deixa de ser considerada propriedade dos seres humanos.

Se conseguirmos filtrar nossas tradições animalizadas com esses princípios, quem sabe cheguemos próximo ao que defendemos como justiça em relação à vida futura. A vida futura. Não apenas a de nossos filhos. A dos filhos dos outros. E de outros de todas as espécies hoje ameaçadas pelo gás metano e pelos excrementos do leite. Não entendemos por vida futura apenas as vidas que carregarem nossos genes sobre este planeta. Entendemos por vida futura a vida dos seres de todas as espécies, vivida nos padrões do éthos que cada espécie configura para seus indivíduos, sem interferências ou malefícios provocados pelo estilo de vida de pouco mais de 25% dos humanos espalhados ao redor do planeta.

Alguns podem estar pensando: o que toda essa dissertação tem a ver com as vacas usadas para extração do leite? Guimarães Rosa fala de todas as agruras humanas no estilo que denomino roseio, termo que designa a mistura de estilos do Rosa, em rodeios que vão ao ponto, sem perdão.

A tradição moral milenar na qual fomos formatados não nos convida nem instiga a fazer a crítica do conteúdo moral dos costumes que desenharam em nós, desde o nascimento até a idade adulta, os hábitos aos quais nos afeiçoamos e que passaram a ser considerados naturais, por serem a norma padrão ou éthos da sociedade na qual vivemos. Fomos coagidos a respeitar os costumes e a incorporar hábitos, especialmente os alimentares, tomar achocolatados na merenda escolar, comer sorvetes no verão, beber leite antes de dormir. Para reforçar a fé na dieta animalizada, sem a qual o agronegócio e as indústrias farmacêuticas não prosperam, também fomos formatados para aprovar e preservar as tradições animalizadas: visitar festas populares onde os animais são maltratados para diversão humana, oferecer animais a entidades que gostam de sangue inocente para saciarem seus apetites, usar restos mortais dos animais para cobrir nossos corpos ou, simplesmente, num gesto de puro desdém pelas vidas destruídas na extração do butim (peles, couros, marfim, pérolas), adorná-los.

A dieta, para os gregos díaita, significa modo de viver e não exclui o estilo de comer. Mas em nossa tradição nunca o padrão alimentar é colocado às crianças, aos adolescentes, aos jovens, aos adultos e aos idosos como um tema a ser questionado na perspectiva ética, quer dizer, na perspectiva dos interesses fundamentais dos animais que possam estar sendo violados quando atendemos nosso apetite, gula ou adicção. Seguimos o padrão alimentar de nossa sociedade silenciosamente, obstinadamente, como a um dogma religioso.

O fato é que a configuração do conteúdo do prato tem mais poder sobre nosso espírito do que muitas rezas ou mantras repetidos ao redor do planeta. Ela configura nossos conceitos morais, quer dizer, nossos valores. Mas não nos damos conta de que os conceitos com os quais operamos no mundo estão formatados no antropocentrismo hierárquico especista. São valores que garantem um estatuto moral para os humanos. Ao hierarquizarem a vida dos animais, esses valores instituídos pelos humanos, deixam o humano no topo da hierarquia (especismo elitista), selecionam alguns animais, cães, gatos, cavalos e passarinhos, por exemplo, para ficarem fora dos tormentos aos quais os demais são condenados os porcos, bois, vitelos, vacas e frangos (especismo eletivo).

Na tradição onívoro-lacto-carnista (a dieta na qual se come de tudo, priorizando laticínios e carnes no cardápio), ao sermos condicionados a comer alimentos de origem animal, ouvindo desde o nascimento que eles são necessários para crescermos fortes, saudáveis e inteligentes, somos formatados inadvertidamente por conceitos ocultos, segundo os quais os humanos estão destinados a um lugar especial na ordem dos seres vivos, enquanto todos os outros seres estão colocados abaixo de nós, sob o domínio do nosso poder degustador e devorador.

Comer, no entanto, não é um ato inocente, situado num plano além ou aquém da ética. Isso quer dizer que devemos expor ao próprio juízo crítico os alimentos que ingerimos. Ao ingerirmos qualquer alimento estabelecido pela dieta padrão em vigor, internalizamos, sem o saber, os valores antropocêntrico-hierárquico-especistas que prevalecem há milênios em nossa tradição dietética. Todavia, a dieta não é um assunto à parte da existência, do qual devam ocupar-se apenas os que já estão sequelados por ela: obesos, hipertensos, diabéticos, cardiopatas, cancerosos, renais, celíacos, intolerantes ao leite ou alérgicos.

A dieta é o eixo da ética, quer dizer, da crítica ao éthos especista contemporâneo, pois nos alimentamos não apenas da matéria animalizada propriamente dita, mas também dos conceitos que os hábitos alimentares especistas carreiam para nossa mente. Por essa razão, é verdade que somos o que comemos. O que falta é desdobrar nossas pregas morais, para vislumbrarmos o que formata a moralidade enquanto enche nosso estômago, abarrota hospitais e dá imenso lucro às indústrias farmacêuticas.

Este curso não é sobre dietas, no plural. É sobre a dieta galactófila (gálaktos = leite, philia = afeição) ou galactômana (gálaktos = leite, manía = tendência mórbida, loucura ou compulsão por), sobre as implicações da extração de leite, para as vacas e  vitelos, o planeta e a saúde humana. O filtro deste curso é a ética, quer dizer, a análise crítica do éthos de nossa díaita esse modo de viver que entrega a responsabilidade moral do comedor aos interesses do mercado e a submete aos princípios econômicos aos quais a dieta humana foi garroteada por ordem do agronegócio nos últimos 40 anos.

A maioria dos comedores humanos evita tomar ciência da devastação causada por seu padrão alimentar, mantido à custa do sofrimento animal, da derrubada de florestas para plantação de grãos e cereais destinados à ração animal, do desvio de água potável e do retorno das bilhões de toneladas de alimentos e água dadas às vacas, na forma de excrementos e de gás metano,  lançados sobre o planeta sem que o consumidor de leite e laticínios seja confrontado em seu prato com o estrago que sua dieta privada causa ao ambiente natural. Trataremos desses dados no Tópico 3, Devastação alimentar e ambiental.

Por esse filtro ético será passado um dos alimentos mais consumidos em três continentes: Europa, América e Oceania, continentes com índices populacionais inversamente proporcionais aos índices da extração do leite bovino. Quanto menos população o continente tem, comparado aos demais, mais extração de leite bovino, portanto, mais consumo de grãos e cereais nobres, mais eliminação de água potável, mais emissão de gás metano, mais dejeção de excrementos. O ônus desses mais recai sobre todo o planeta e todas as vidas que o habitam. O bônus atende apenas ao apetite e à mania ou compulsão construídas socialmente nas culturas galactômanas.

O único continente que não pode ser acusado de ser menos populoso e de desperdiçar comida animalizando sua dieta é o Africano, cuja extração de leite se mantém aquém dos índices da Oceania, Europa e América, embora com densidade populacional equivalente ao desses continentes.  

Mesmo os continentes que pouco consomem laticínios estão atrelados ao sistema de produção galactífero dos demais continentes galactocráticos. As terras agriculturáveis nas regiões onde o leite bovino não ocupa o centro da dieta humana são usadas para cultivo de soja, milho, trigo, sorgo, cevada, feijão, arroz, amendoim e forragem em geral, para suprir as vacas usadas para extração de leite ou os habitantes dos países nos quais o espaço ou solo adequado para o cultivo dessas lavouras já esgotou a capacidade de suprimento dos animais criados por eles. Segundo Leovegildo Lopes de Matos, o Reino Unido “tem dois ‘hectares fantasmas’ para cada hectare cultivado pelos seus fazendeiros”. A Holanda tem sete hectares fantasmas para cada hectare cultivado para “alimentar seu povo e seus animais”. (Apud, Felipe, Galactolatria:72).

Para que uma ação possa ser considerada ética, é preciso que os desdobramentos ou efeitos dessa ação atinjam os envolvidos – humanos, animais de outras espécies e ecossistemas naturais – de modo igualmente benéfico. Quando uma ação bonifica alguns, por exemplo, os agentes morais, favorecendo seus interesses fundamentais, mas onera outros, os pacientes morais dessa mesma ação, os prejudicados estão sendo desconsiderados em seus interesses fundamentais. A interação entre os beneficiados e os prejudicados tornar-se desigual. Numa interação na qual não há igual liberdade nem igual benefício, na qual o ônus é empurrado para um dos lados e o bônus para outro, uma das partes está na condição de sujeito e a outra na de objeto, instrumento. Ações com esse perfil não são éticas. O sistema de extração e consumo do leite animal dá exemplo claro disso. Suas razões são econômicas, não éticas.

A dieta animalizada, especialmente a galactômana transforma florestas nativas em pastagens, em campos de monocultura. Transforma água potável em urina. Transforma grãos, cereais e gramíneas, digeridos com a água, em excrementos. Transforma o metabolismo das vacas, alterando sua fisiologia e esgotando-o, a ponto de a vida não poder prosseguir depois de ter sido vivido apenas um terço do que poderia ser, caso a vaca vivesse livre e não fosse explorada por secretar leite ao dar a vida a um bezerro.

Não bastasse o estrago que o cultivo de alimentos para saciar mais de meio bilhão de vacas que compõem o plantel da extração do leite, das quais 250 milhões são ordenhadas todos os dias ao redor do planeta, causa, o consumo de leite e laticínios por adultos bem formados e alimentados volta-se contra os interesses desses, quando seus organismos cessam de produzir as enzimas necessárias à digestão apropriada dos elementos dos quais o leite bovino é naturalmente constituído: açúcar, gordura saturada, proteínas e cálcio, para citar apenas os quatro elementos em maior concentração no leite bovino.

É preciso lembrar que o organismo humano não produz enzimas para digerir, assimilar ou expelir, sem se contaminar, pus, sangue, antibióticos, hormônios de crescimento bovino recombinante, pesticidas e metais pesados, presentes no líquido hoje submetido à UHT (ultra height temperature) com o propósito de destruir bacilos, bactérias, príons e vírus, sem vitória certa. Também não temos defesa contra os adulterantes usados pelos comerciantes do leite: formol, ureia, formaldeído, água oxigenada, soda cáustica e sabe-se lá o que neste momento está sendo vendido nas caixinhas e saquinhos pelo mundo afora como se fosse aquilo que a natureza nos deu para nos nutrir.

Todos os artifícios são empregados para que os extratores do leite continuem no sistema, que lhes paga algo entre 0,68 a 0,90 centavos por litro extraído, dependendo da quantidade de pus presente no leite, o que leva ao pagamento direto aos extratores de leite de mais de 20 bilhões de reais anuais, sem contar o movimento financeiro das fábricas que processam o leite e vendem seus derivados, e o dos que ofertam iguarias feitas à base do leite em todos os restaurantes, lanchonetes, padarias e confeitarias pelo Brasil afora. Só na venda de utensílios ou insumos agrícolas voltados para atender à demanda da produção e comercialização do leite e dos laticínios, o Brasil movimenta outros mais de 20 bilhões de reais ao ano.

Os comedores humanos com quarenta anos ou mais nasceram ou cresceram nas décadas nas quais o leite foi imposto a todos como alimento essencial. Quem está nesse contexto não teve chance alguma, pelo menos não aqui em nosso país, de acessar a literatura contrária ao consumo de leite bovino por humanos em qualquer idade. Refiro-me à literatura médica, não à literatura dos defensores dos animais abolicionistas.

Esses médicos, que hoje já representam mais de seis mil profissionais reunidos no Comitê dos Médicos por uma Medicina Responsável, tratam seus pacientes e os curam das mazelas mais comuns, agudas e crônicas, associadas ao consumo de leite bovino, retirando de sua dieta todos os alimentos de origem animal, portanto, usando a dieta vegana abolicionista. Mas no Brasil não temos um livro sequer de qualquer um desses profissionais traduzido para o português. Para poder superar a galactomania, os brasileiros têm que saber ler em inglês também. Sem essa habilidade linguística, continuarão a engolir laticínios na santa fé de que eles são indispensáveis à saúde e ao bom desempenho do seu organismo.

Na maior parte das pessoas o efeito da ingestão de laticínios é oposto ao que dita a propaganda médica nacional: quanto mais leite e derivados, mais mazelas e doenças se apresentam nesse organismo, sem que a maioria dos médicos tenha recebido formação para ajudar o paciente a abolir de sua dieta esse alimento. Então, o tratamento está voltado exclusivamente para os fármacos, porque em sua base teórica, a medicina não privilegia a nutrição como fonte de saúde.

Para se formar nutrólogo o médico precisa buscar essa especialidade no estágio residencial ou na pós-graduação. Por essa razão, o eixo dos tratamentos está firmado na questão: como eliminar os sintomas e reações adversas a certos alimentos usando medicamentos? Em sua formação tradicional, o estudante não aprende como ensinar o paciente a abolir do seu prato o alimento que agride os tecidos e órgãos de seu organismo. O estudante aprende a prescrever um medicamento para combater a reação do corpo ao alimento invasor. Se há reação a um alimento agressor, elimine-se a reação, não o alimento. Exterminar o agressor, no caso, o leite e os laticínios, para muitos médicos, ainda hoje, só em último caso, quer dizer, só quando há risco de o paciente morrer.  

Curiosamente, nos dois continentes nos quais o gado bovino foi domesticado há mais de dez mil anos, África e Ásia, as pessoas não se tornaram bovino-dependentes, nem galactômanas. Além de apresentarem os mais altos índices de intolerância à lactose, asiáticos e africanos criaram vacas Bos indicus, que não liberam em seu leite a betacasomorfina7, um peptídeo resultante da betacaseína A1, um fragmento proteico que não sofre digestão apropriada e entra na corrente sanguínea chegando ao cérebro e ligando-se aos receptores de opioides naturais desse. Essa pode ser a razão pela qual, mesmo criando gado bovino, africanos não se tornaram viciados em leite e laticínios, como o são os europeus e demais povos colonizados por esses, incluindo os brasileiros. A galactomania, na América, na Ásia, na Oceania e na África não é uma determinação natural. Ela existe por imposição cultural, racialista.

A genética que produz lactase após a formação da arcada dentária, típica dos caucasianos, foi considerada universal, quando na verdade apenas 20 a 30 por cento das pessoas ao redor do mundo mantêm a produção da lactase após a formação dos dentes. Porque parece fácil digerir leite bovino para pessoas com tal herança genética, essas pessoas, que colonizaram a África, altamente intolerante ao leite bovino, a América, altamente intolerante ao leite bovino e a Ásia, quase totalmente intolerante ao leite bovino, impõem a africanos, indígenas e asiáticos um alimento digerível apenas para 20 a 30 por cento delas. As demais, que não são a minoria e sim a maioria dos humanos, sofrem os desdobramentos da impossibilidade do seu organismo de digerir convenientemente os elementos que formam o leite bovino.  

Nenhum ser humano nasce predeterminado a ter que ingerir leite bovino para poder seguir seu desenvolvimento normal humano. Nenhum mamífero neste planeta nasce com atrofias em seu metabolismo, a ponto de só poder se desenvolver tomando o leite secretado pela glândula mamária da mãe de um animal de outra espécie. Essa atrofia não existe na natureza. Mas todos, aqui neste auditório e no resto do nosso país, com exceção dos que apresentaram intolerância e alergia ao leite desde muito cedo, e dos que nasceram em regiões onde não dá lucro criar vacas para usá-las como máquinas galactíferas, foram criados à base do leite bovino, como se o projeto metabólico do organismo humano houvesse fracassado nas populações dos continentes colonizados por eurocaucasianos. Se tal atrofia não existe no metabolismo humano, quer dizer, se o bebê humano pode se desenvolver plenamente com o leite materno humano, a galactomania é, então, uma construção cultural, existindo somente pela pressão do mercado e de todos os que o servem com seu trabalho, os sacerdotes da galactocracia, dos médicos e nutricionistas aos chefs e gourmets. Entretanto, a boa notícia é que se algo pôde ser construído socialmente, então pode ser desconstruído também socialmente. Estamos no tempo de desanimalizar nossa dieta.

Os povos mais numerosos do mundo, os africanos, os do Oriente Médio e os asiáticos,   que, juntos, formam cinquenta por cento dos sete bilhões de humanos espalhados ao redor do planeta, não tornaram suas dietas milenares dependentes do leite bovino. Entretanto, os povos influenciados pela dieta dos colonizadores europeus, tornaram-se galactômanos. A colonização europeia da América se deu com os homens pendurados nos tetos das vacas. Há algo no leite que permitiu que ele fosse ingerido mesmo contrariando uma reação natural quase esquecida de repulsa? O gado bovino europeu, da linhagem Bos taurus, libera no leite a proteína A1, cujos peptídeos betacasomorfinicos seguem o percurso sanguíneo, atingem o cérebro e o levam à adicção a esses elementos morfínicos que o leite das vacas da espécie Bos taurus contém em grande quantidade. Por essa razão refiro-me aos consumidores compulsivos e habituais do leite e laticínios como galactômanos.

A América e a Oceania foram invadidas e dominadas por europeus galactômanos. Os ingleses chegaram à África por volta do século XIV. Alguns povos criavam gado bovino, não para ingestão de leite puro, pois imperava a escassez, mas para produção de derivados fermentados, ingeridos em quantidade mínima. Na África, dominada pelos europeus, não houve uma introdução do gado Bos taurus. Eles mantinham seus rebanhos originais, Bos indicus. Hoje, os cruzamentos forçaram a existência do tipo de vacas europeias, trazidas para a América no século XVII, cujo leite produz grande quantidade da betacaseína A1 no organismo humano, com efeitos opiáceos não devidamente denunciados pela medicina que se pôs a serviço do agronegócio hegemônico desde a década de oitenta do século XX ao redor do mundo, prescrevendo o leite bovino como remédio para tudo que é tipo de desnutrição.

Mas, podem estar se perguntando: o que morfinas galactogênicas têm a ver comigo, com a filosofia e a ética?

Toda investigação ética tem o propósito de mostrar aos humanos que suas ações, mesmo fundadas na liberdade, podem ter consequências indesejáveis. Na ética tradicional, antropocêntrica, o critério do que é desejável se baseia no bem ou no mal que as ações podem acarretar para os próprios agentes humanos. Na ética animalista abolicionista, o círculo da moralidade alargou os limites tradicionais e incluiu os animais no âmbito da comunidade moral dos seres que os humanos devem considerar dignos de respeito à vida, ao bem-estar e ao próprio bem mental típico de cada espécie animal.

Ao indicar aos humanos que certas práticas, tradições ou convicções não podem mais ser consideradas louváveis, mesmo que sejam levadas a efeito por conta da liberdade humana, a ética questiona a liberdade, colocando-lhe um limite: se um ser humano é livre para fazer algo, então também é livre para não o fazer. A liberdade, na perspectiva ética, significa nada mais nada menos do que a possibilidade que se abre para uma ação ou uma abstenção. Por isso, na filosofia política, tratamos da liberdade em seus dois sentidos: a negativa e a positiva. A negativa é a liberdade limitada pelo dever de não invadir a liberdade alheia. A positiva é a limitada pelo direito frente a outros de levar adiante uma determinada ação, buscando o próprio bem ou o bem de uma coletividade.

Nesse sentido, a ética que propõe o fim de todo tipo de exploração animal, portanto a ética animalista abolicionista, pode ser considerada uma proposta abstencionista. Quer dizer: mesmo tendo poder e meios para explorar, abusar e matar animais em proveito próprio, o sujeito ético abolicionista vegano se abstém de todas essas ações de uso ou consumo de produtos que derivam da exploração e morte dos animais não-humanos.

Mas voltemos aos opioides galactogênicos e à ética. Se nossa dieta impõe ao cérebro de todas as crianças o consumo de opioides galactogênicos, tal dieta retira dessas crianças a liberdade de escolher o que comer e as condiciona a comerem, quando adultas, o que lhes foi imposto pelo vício desde a infância. A dieta padrão condiciona o cérebro humano a identificar nos alimentos de origem animal os nutrientes necessários ao organismo humano, privando as crianças do conhecimento de que esses nutrientes podem ser encontrados nos alimentos de origem vegetal.

A dieta padrão também omite das crianças que, para se obter carnes, laticínios e ovos, é preciso que os animais sejam mantidos prisioneiros nas instalações destinadas a recolher essas matérias alimentares. Ela também omite a dor e o sofrimento, inseparáveis do processo produtivo de alimentos animalizados em escala industrial. Uma dieta que mina a capacidade de raciocínio e elimina a liberdade de escolha do comedor infantil, adulto ou idoso não pode ser considerada ética. Esse ponto leva em conta o agente moral, não o resto dos sujeitos envolvidos na trama.

A extração do leite tem desdobramentos que precisam ser contabilizados e pregas que precisam ser alisadas para que possamos ver o cenário completo, não apenas focar o olho naquele líquido branquinho que sai da caixinha ou do saquinho, cegando-nos pelo teor rotineiro do gesto nunca antes questionado.

A liberdade é o fundamento da ética. Denominamos ética a ação praticada por um sujeito que se torna consciente de que suas ações podem trazer o bem ou o mal para os que forem afetados por elas, sem discriminar qualquer ser afetado, seja em função de sua espécie biológica ou de sua configuração exterior, portanto, sem especismo elitista ou eletivo. O critério da liberdade pode nos ajudar a compreender por que uma determinada prática, costume ou tradição deixam de ser considerados éticos. Se nossa ação implica em obter pela força algo de outro, à custa de sua vida, do bem que é próprio de sua natureza ou simplesmente à custa do bem-estar imediato desse organismo, então nossa ação é uma interferência na existência desse ser, em sua liberdade natural. Na ética antropocêntrica somente a liberdade dos humanos, conta. Na ética abolicionista animalista contam todos os seres que podem ter sua liberdade violentada por ações humanas que visem extrair deles algo em beneficio dos interesses humanos.

Discursos correntes entre os galactômanos  

O que as vacas têm a ver com a liberdade e a ética? Da perspectiva tradicional, vacas são tão importantes para um sujeito moral quanto o são seus demais bens materiais. Da perspectiva ética animalista, vacas são tão importantes para o sujeito moral quanto o são quaisquer outros seres capazes de sentir dor ou de sofrer, de terem sua existência violentada e de serem mortos para atender a interesses que não são delas e sim de quem as maneja para extrair delas o que secretam para alimentar seus bezerros.

Na interação humana com as vacas, o éthos ou natureza da vaca não é respeitado. Distorções de todo tipo, inclusive conceituais, são disseminadas entre os consumidores de leite e laticínios e os que fazem sua propaganda comercial. As duas mais comuns são: “a vaca nos dá o leite” (essa está em todos os livros infantis) e “para extrair o leite não se mata a vaca”.

“A vaca nos dá o seu leite”

Não é verdade que as vacas nos deem seu leite. O leite é extraído do corpo delas, à força. Atualmente essa extração é feita por meios eletromecânicos. Sem o bezerro ao pé, para que o leite saia do teto da vaca sem que o extrator desperdice tempo, é preciso que os esfíncteres dos tetos sejam abertos no momento em que o extrator quer fazer a ordenha. Para garantir que o interesse do extrator seja respeitado, o de obter o leite num tempo que represente ganhos, a engenharia inventou a ordenha eletromecânica a vácuo. A forma correta de expressar o processo é usar os termos “extração de leite a vácuo”.

O leite secretado pelas glândulas mamárias da vaca, ainda que hoje se extraiam delas dezenas de litros por dia (nos Estados Unidos há vacas premiadas das quais são extraídos 95 litros), não foi projetado pela natureza para alimentar seres de outras espécies. Naturalmente, o leite é constituído com a mais alta concentração de nutrientes presentes no sangue materno de todas as fêmeas mamíferas em gestação. Mas essa constituição, embora apresente em quase todos os leites características semelhantes, dá-se de modo também específico. Cada fêmea libera certa quantidade de açúcar, de gordura, de proteínas, de cálcio e outros minerais e vitaminas, na proporção exata em que o organismo do seu filho vai se desenvolvendo fora do útero. Cada espécie tem sua composição galactosa.

Para exemplificar, o leite da mulher tem uma proporção de proteínas e de cálcio três vezes menor do que o leite da vaca. Quando a mulher dá a seu bebê leite de vaca, está dando a ele 300% a mais de cálcio e de proteínas do que daria se o alimentasse com seu leite humano. Se a natureza houvesse previsto nos tornar dependentes de tanto cálcio e proteínas, que na verdade são desnecessários ao nosso desenvolvimento, ela nos teria feito nascer bezerros, não humanos. Seria delirante afirmar que o leite da mulher é deficiente em cálcio e proteínas, porque ele contém apenas 25% do que o de vaca contém desses dois elementos. Se as glândulas mamárias da mulher não secretam para seu bebê tamanha quantidade de cálcio nem de proteínas, é porque o organismo desse bebê não requer isso tudo. O do bezerro, ao contrário, não se desenvolveria sem esses teores.

O sangue alimenta o embrião e o feto até a ruptura do cordão umbilical. O nascimento implica a ruptura do canal de nutrição. Nascer animal, portanto, é ser brutalmente separado da fonte de provimento, assim que o período de desenvolvimento fetal está concluído. Sem o sangue materno para renovar e alimentar seus tecidos e sem os dentes para mastigar e desmanchar as matérias sólidas das quais aqueles nutrientes poderiam ser obtidos, o recém-nascido passa a receber externamente os nutrientes que antes lhes eram repassados umbilicalmente.

O leite é sangue branco, uma secreção necessária para garantir a sobrevivência do recém-nascido apenas nos primeiros meses do seu desenvolvimento extrauterino. Sugando o leite do corpo da mãe, o bebê mamífero aprende que é do ambiente externo que ele deve obter os nutrientes. Primeira lição para se tornar autônomo, capaz de prover-se e mais tarde prover os seus no ambiente natural da sua espécie. Essa autonomia digestória será atrofiada com a imposição do leite bovino, pois ela faz crer a todo mundo que sem ele ninguém pode ter saúde e sobreviver. Todos ficam atrelados aos tetos das vacas, mesmo tendo perfeitamente formada sua arcada dentária na primeira e depois na segunda infância.

Artifícios humanos levaram o organismo feminino bovino ao estágio atual, no qual não há mais liberdade para que o animal possa conduzir sua vida seguindo o éthos bovino que marcou a existência desses animais até 40 anos atrás. A liberdade das vacas não é levada em conta pelo sistema de extração industrial do leite. Das vacas, privadas da liberdade de prover-se e de prover seus filhos, tira-se o líquido branco, esse composto semelhante ao sangue delas, para vendê-lo a humanos suficientemente proteinizados, calcificados, adoçados e engordurados.

Para que os humanos possam acessar a glândula mamária das vacas, é preciso manejar sua rotina, fornecer ração desenhada para exceder o nível de calorias necessário à manutenção do metabolismo de preservação do organismo. É preciso manter essas vacas aprisionadas em espaços também desenhados para facilitar a extração do leite. Em 2009, o rebanho feminino bovino brasileiro estava na casa dos 22 milhões de animais. Dessas, nove milhões já estavam condenadas ao confinamento completo, outras nove milhões e meio, ao semiconfinamento e apenas três milhões e meio eram mantidas soltas em pastos.

Para manter animais em qualquer um dos sistemas de manejo adotados e garantir que a quantidade de leite extraído para venda cubra o custo dessa manutenção e dê lucro ao extrator, é preciso que a existência da vaca seja completamente controlada por ele. Com a vida completamente manejada em função de interesses alheios, definitivamente, não se pode dizer que “a vaca nos dá o seu leite”.

Do ponto de vista ético, a partir do momento em que um dos sujeitos da ação está submetido inteiramente a decisões que visam beneficiar quem as toma, sem considerar os interesses de quem será afetado por elas, a liberdade dos que estão submetidos a essas decisões deixou de ser considerada digna de respeito. O que conta, em qualquer sistema de extração de matérias animais, sejam elas extraídas do organismo ainda vivo, ou já morto, é o lucro obtido pelo extrator, não a vida, a existência, a liberdade ou o bem próprio do animal. Essa é a razão pela qual o manejo de animais, na concepção animalista abolicionista vegana, que voltaremos a abordar na Oitava Sessão, não pode ser considerado ético.

Se o manejo visasse assegurar o bem natural do animal, então já não seria manejo, seria uma intervenção humana na vida do animal para lhe devolver ou recompor a integridade ameaçada, sem qualquer pretensão de extrair dele algo para vender a consumidores indiferentes ao sofrimento desses animais. O sistema de extração de leite não foge à crítica.

“Tirar o leite não mata a vaca”          

O segundo lugar comum na linguagem dos galactômanos é a conhecida frase, “para tirar leite não é preciso matar as vacas”. Essa frase está na boca de todos os lactovegetarianos que conheço, está nos livros de iogues, nos textos budistas, judaicos e ambientalistas. Para extrair dezenas de litros de leite diários de uma vaca, seu organismo precisa ser transformado numa bomba galactífera. Os meios para isso são: alimentá-la com uma quantidade imensa de grãos e cereais; acrescentar muita água e forragens para forçar aquela matéria a ser digerida; medicar os animais, cujo sistema imunológico cai com a agressão alimentar; tratar com antibióticos as que se tornam vulneráveis a infecções nas mamas e nos cascos e com hormônios as que serão emprenhadas artificialmente.  Com esse manejo, não há organismo bovino feminino que resista muitos anos.

Depois de sofrer de duas a seis gestações, a vaca exaure. Os aditivos usados para mantê-la no ritmo produtivo, rentável para o extrator, tornam-se mais caros do que o rendimento obtido com a venda do leite empobrecido por pus, antibióticos, antiinflamatórios, hormônios, rações industriais e patógenos de todo tipo. Assim que a vaca cessa de secretar leite em quantidade e qualidade compensatórias, o extrator a coloca num caminhão para ser levada ao abatedouro no qual sofrerá a morte desenhada para qualquer bovino. A vida dessa vaca não foi nada prazerosa enquanto tiravam o leite dela. Também não o será sua morte.

Dizer que extrair leite não mata a vaca é, no mínimo, uma daquelas desinformações que apenas asseguram ao consumidor de laticínios o conforto moral de se saber bonzinho por não matar a vaca para tirar o leite dela. A verdade é que as vacas, todas as vacas, uma vez exauridas pela extração do leite, ou morrem subitamente de esgotamento nos currais e baias onde são confinadas (vacas caídas, que são moídas para virar ração de outros animais, ou mesmo das colegas de escravidão), ou são mortas no abatedouro tal qual qualquer outro bovino abatido para virar bife. A morte da vaca é tão certa e tão causada pela extração do leite quanto a morte do boi é certa e causada pela indústria que talha sua carne em bifes. A primeira diferença é que a carne da vaca vai virar carne moída e ser modelada em hambúrgueres, e a carne do boi, ou das outras vacas que não passaram quatro a seis anos nas baias de confinamento, nos cercados da extração do leite, vira bifes e churrascos apreciados por todos, excetuando-se os que já não mais aprovam a morte nem o corte de animais para alimentar humanos. A segunda diferença é que os bovinos mortos para bife vivem soltos e por menos de dois anos até o abate, enquanto a vaca usada para extração do leite suporta todo tipo de sofrimento por quatro a seis anos até ser morta.

Os gregos usam o termo díaita para designar modo de vida. Nós usamos o termo dieta para designar composições alimentares que têm limites ou restrições. Precisamos voltar a pensar no termo díaita como algo que engloba todos os aspectos da nossa vida, que inspire decisões éticas não-especistas, quer dizer, sem discriminar as espécies animais em tipos considerados dignos de respeito e tipos condenados ao tormento, à escravização e à morte.

Decisões éticas afetam positiva ou negativamente não apenas os outros seres humanos, mas também os animais e ecossistemas naturais. Se os interesses humanos são considerados dignos de respeito, porque não respeitá-los leva os humanos atingidos por nossas decisões à perda da qualidade de vida, ou até mesmo à perda da vida, então, todos os animais que se encontram na mesma condição de vulnerabilidade aos atos humanos devem ser incluídos no âmbito da consideração de seus interesses fundamentais: a vida, a liberdade e a qualidade específica de sua existência, sem sofrer interferências humanas.

[Para citar passagens deste texto use a referência completa disponível no rodapé. Obrigada]

FELIPE, Sônia T. Ética animalista. Palestra apresentada no Curso de Extensão: Implicações éticas, ambientais e nutricionais do consumo de leite bovino – uma abordagem crítica. Florianópolis: UFSC, Auditório do Centro de Filosofia e Ciências Humanas, 3 de maio de 2013, das 18:45 às 21:30. 15 p. 

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veggi requeijao-vegano

Requeijão vegano

Ingredientes

1 xícara de tofu firme
1 xícara de iogurte de soja
3 colheres de óleo ou azeite
1/2 colher de sopa de sal
2 colheres de amido de milho
1/2 xícara de água
1 pitada de noz moscada (opcional)

Modo de preparo

Leve o amido de milho e a água para cozinhar, mexendo até engrossar. Espere esfriar.

Bata os demais ingredientes no liquidificador, e vá acrescentando o amido cozido às colheradas e batendo, até obter a cremosidade desejada. Conserve em geladeira em recipiente bem tampado.

Fonte: Veggi & Tal

Semana vegana

 

Este projeto visa promover a cultura vegana e a difusão de valores relacionados a ela, como justiça e a compaixão.

TEXTO DA LEI

PROJETO DE LEI Nº

Institui a SEMANA VEGANA

A CÂMARA MUNICIPAL DE ___________ DECRETA:

Art. 1º Fica instituída no município de ________ a Semana Vegana, a ser comemorada anualmente na semana em que ocorrer o dia 1 de novembro (Dia Mundial Vegano).

Parágrafo único. Entende-se por veganismo o modo de vida motivado por convicções éticas com base na igual consideração para com animais humanos e não humanos, visando abolir toda a forma de exploração ou abuso.

Art. 2º Na Semana Vegana, as escolas da rede pública municipal poderão promover eventos relacionados ao tema, como palestras, exibição de material audiovisual e atividades artísticas e lúdicas, elaboração de merenda vegana e workshops promovendo receitas veganas, visando despertar a conscientização dos alunos para a necessidade de defender a igual consideração dos interesses dos animais, bem como para as implicações do veganismo para a saúde humana e o ambiente natural.

Art. 3º Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.

(local e data)

(assinatura do parlamentar)

JUSTIFICATIVA

Veganismo é o modo de vida que busca eliminar toda e qualquer forma de exploração animal, não apenas na alimentação, mas também no vestuário, em testes, na composição de produtos diversos, no trabalho, no entretenimento e no comércio.

Veganos são, portanto, vegetarianos que excluem animais e derivados não apenas de sua dieta, mas também de outros aspectos de suas vidas. Esse modo de vida fundamenta-se ideologicamente no respeito aos direitos dos animais e pode ser praticado por pessoas de quaisquer credo, etnia, gênero ou preferência sexual. O veganismo não tem relação com crenças políticas nem com preferências musicais, nem deve ser associado a determinada cultura. Trata-se, portanto, de uma prática universal.

O número de adeptos deste modo de vida cresce a cada dia no Brasil e no mundo, já existindo o Dia Mundial Vegano, comemorado anualmente em 1º de novembro. As práticas veganas valorizam a ética e a compaixão, e trazem benefícios para os animais, para a saúde humana, por meio de uma alimentação mais saudável, e para o meio ambiente.


TEXTOS RELACIONADOS

Parecer sobre vegetarianismo do Conselho Regional de Nutricionistas – Região 3 (SP e MS)

O que veganismo?, por Sérgio Greif

 

Matar não educa

Até ontem, caçador de elefantes. Hoje, caçador de caçador de elefantes. Uma virada. Mas sem qualquer aprimoramento moral. O velho que antes matava paquidermes, agora se arma e arma os mais jovens para matar humanos iguais ao que ele foi até ontem, com o “brilho da conversão” nos olhos, o mesmo brilho com o qual, certamente, antes matava elefantes? Não houve transformação moral alguma nessa virada. Para haver qualquer transformação moral é preciso enfrentar em si mesmo a compulsão antes dirigida para o alvo vítima. Sem a ahimsa, o princípio que ordena deter, em primeiro e absoluto lugar, a violência em si mesmo, em sua mente, em suas palavras e em suas ações, não há transformação moral digna de elogios.

Quando um “até ontem caçador de elefantes” se converte pelo argumento de que “os elefantes são mais valiosos economicamente, vivos”, para o país que antes os caçava, do que mortos, sua mente não sofreu qualquer evolução, pois os elefantes continuam, nessa forma de raciocinar, a ser considerados objetos com os quais se pode fazer dinheiro. Antes ele fazia dinheiro com partes tiradas do corpo do elefante morto. Agora pensa que, vivos, os elefantes podem render mais para ele e seu país, do que desmanchados em podridão. E se amanhã houver um argumento econômico que prove que os elefantes são um entrave ao desenvolvimento do mesmo país? Onde estará o brilho nos olhos de um humano que só emite tal faísca quando vislumbra benefício material para si ou para sua gente?

O estatuto moral dos animais deve ser garantido sem qualquer atrelamento a argumentos econômicos. A fundamentação do argumento do valor da vida do animal não é o quanto pode ser valioso no mercado, é o quanto essa vida representa de fruição para o animal que a vive, não importa se o formato dele é de um jeito, ou de outro, porque a aparência externa de um animal não acresce nem diminui o espírito que veio aqui nesse planeta expressar. A configuração material que chamamos corpo é apenas um modo de trazer um certo tipo de espírito à vida. Nascer com o formato de um humano não é mérito pessoal. É apenas uma chance de poder tecer um espírito na liberdade que essa materialidade possibilita. Cada animal, em sua configuração específica, traz consigo a potencialidade dessa condição singular.

Quando o “até ontem caçador de elefantes e hoje caçador de caçadores de elefantes” para de apontar sua arma para os paquidermes e gira o cano em direção ao corpo de outro humano que ainda faz o que até ontem ele mesmo fazia com a maior naturalidade, ele apenas muda o alvo de sua mira assassina, não aprendeu nada da ahimsa, o princípio que ordena conter a violência, a um só tempo, em sua mente, em suas palavras e em suas ações. Tendo alcançado esse estado no próprio espírito, o ahimsa não requer que se pegue em armas. Requer que se mostre que é possível viver sem matar, explorar, torturar qualquer ser senciente. Ser a mudança que se quer ver no mundo, exigia Gandhi, aliás, filho de uma jainista seguidora do princípio ahimsa.

Matar não é a melhor forma de ensinar. Se alguém houvesse matado esse ex-caçador de elefantes, ontem, enquanto seu alvo era o corpo de um elefante, ele não teria aprendido coisa alguma em relação ao dever moral humano de “não matar”, ao dever de “defender a vida animal”. No verbo matar nada resta do aprender. Matar é acabar com o tempo do aprendizado. Matar é decompor o corpo do outro, desalojar seu espírito, justamente aquele que veio para se expressar e aprender a fazer isso sem destruir os corpos alheios. Aprender a fazer isso em meio aos outros, assim definia Aristóteles a natureza humana em sua singularidade política, que quer dizer, aprender a saber viver em meio aos outros sem matá-los para liberar espaço, pois o espaço que o espírito precisa é unicamente o da expressão singular que o marca, não é o espaço ocupado pelo outro no mesmo território (de terra demarcada).

Na decomposição do corpo do outro nada há que o espírito possa aprender, pois não há evolução alguma na podridão. A morte chama e clama por matéria em decomposição. Evolução é ligação. Matéria em decomposição é desligação, desmanche. Só podemos transformar nosso espírito, mantendo bem vivo nosso corpo e o disciplinando para não atender a impulsos de decomposição e matança, pois esses são desejos de desmanche, de des-ligar… seu próprio corpo, ou o dos outros. Decompondo-os, não lhes ensinamos nada. Não há pedagogia alguma na morte, nem na natural, nem na violenta, essa, tão temida, que vem pela mão de outro.

Morte é decomposição. Ela desmancha todos os corpos e organismos vivos. No desmanche da matéria nada que beire o espírito pode aprender coisa alguma. Separado dela, esse já não pode realizar ato algum de aprimoramento da virtude, do aprendizado de estar junto de, estar com, estar em meio aos muitos, aos outros, com suas formas e configurações específicas, irrepetíveis. Viver é dispor-se a permanecer enclausurado na matéria desenhada pelo próprio corpo, convivendo com bilhões de outros seres igualmente formatados, ainda que cada um desses bilhões de outros corpos tenha lá seu próprio e irrepetível espírito. A expressão dessa singularidade é o que dá genuíno valor à vida, seja lá em que formato ela veio aparecendo a nós.

Educar é formatar um segundo espaço para os movimentos que o indivíduo pode fazer ao deslocar-se e expressar-se em meio aos bilhões de outros indivíduos de iguais bilhões de outros formatos e configurações materiais. Matar é desmanchar esses corpos, impedir seus ensaios, atrofiar para sempre sua expressão, seja ela consciente, ou não. Por isso, a pena de morte é o ato mais antiético que se pode adotar, em relação aos humanos que não receberam educação, e em relação aos animais que nenhuma ação empreenderam para que fossem condenados à execução sumária.

Enquanto os verbos matar, caçar, aprisionar, apropriar-se de, possuir, explorar, continuarem a traduzir o cerne da nossa moralidade em relação a qualquer espécie de animal, estaremos na mais baixa frequência moral e espiritual da humanidade, porque impedimos com tais ações que o espírito de cada espécie, alvo individual da mira do matador, se apresente e se represente, pois destruímos a materialidade na qual ele veio se manifestar em sua singularidade.

Fonte: ANDA – Agência de Notícias de Direitos Animais  


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Leis da física vs. princípios éticos

Sem lei alguma, o reino é do caos [do grego cháos]. Caos não significa simplesmente desordem, embora seja comum usar o termo para dizer isso, pois este conceito, o de desordem, pressupõe uma ordem qualquer, ora alterada ou mesmo destruída. Caos, simplesmente, significa aquilo no qual a lei entra para dar um configuração ainda não existente.

A ciência da física dedica-se ao estudo das leis que, ao entrarem na matéria original não delineada, permitem que essa matéria forme espaços, dando mais tempo aqui, menos tempo ali, átimos de tempo acolá. Esse é o mundo físico que nos rodeia. O mundo da matéria da qual nosso organismo é constituído. Sem o compasso do tempo, essa matéria seria apenas um amontoado orgânico, sem funções próprias, servindo apenas de pasto para a fermentação bacteriana e a reprodução de suas colônias.

Na vida diária obedecemos às leis da física antes mesmo de termos ouvido as palavras “física” e “leis”, de termos compreendido o que significam, ou de termos ido à escola.

Obedecemos às leis da física desde o dia do nascimento, quando nos põem na posição correta para mamar. Se errarem a posição, nos afogamos no leite materno. Depois, quando o início da digestão desse leite exige que o ar parado no estômago saia para que o leite possa aí repousar, nos põem outra vez na posição vertical, porque o ar, sendo mais leve do que a matéria orgânica do leite, e em menor quantidade do que ela, tende a subir, saindo de volta pelo orifício superior do nosso sistema digestório. Assim a vida se garante: obedecendo as leis mais simples da física, as mais básicas.

Acontece que, se não as obedecermos, sofremos danos. Se, em vez de apoiar bem a planta dos pés no solo, o bebê inventa de atirar-se para a frente, ele cai e machuca o rosto, quebra um braço, o nariz. O mesmo sucederá para o resto da vida: cada vez que desobedecer a uma lei da física, o animal, humano ou de outra espécie, sofrerá um dano.

A vida não tem prosseguimento na desobediência às leis que mudaram a matéria caótica e a tornaram cósmica ou orgânica, dando a ela um destino, uma função, uma tarefa. Uma vez assim ordenada, para continuar a existir, aquelas leis que a forjaram precisam ser respeitadas. Se não o forem, quem as desobedece sofre um dano.

Analogamente ao que ocorre na física, o mundo dos valores éticos, daquilo que é sagrado e não deve ser destruído, também tem suas leis. Elas põem ordem no caos dos desejos, dos impulsos, das fantasias, da imaginação, tornando-o um espaço sagrado, o espaço do simbólico no qual podemos projetar o desenho daquilo que gostaríamos que representasse para nós mesmos e para o outro a essência do nosso ser.

Para que a natureza sagrada do ser humano não se perca no ritmo dos impulsos iniciados pelo movimento da matéria orgânica, é preciso que o sujeito ordene suas ações de acordo com princípios éticos. Eles não podem inverter a posição dos valores, colocando o que é fundamental no lugar do que é instrumental.

Viver a vida seguindo o modo próprio da espécie na qual nascemos, sem trairmos essa espécie e sem a atrofiar, esse é um valor sagrado, em todas as espécies de vida. Se isso for sacrificado em nome de outro valor qualquer, por exemplo, o acúmulo de bens, o ritmo frenético de consumo, a busca incessante por prazeres fugazes, aquele valor sagrado da vida se dilui e se confunde com o que é meramente instrumental.

Precisamos de leis para traçar o desenho do nosso caráter, tanto quanto precisamos de leis para forjar o desenho do nosso corpo e o configurar plenamente, com todos os tecidos, órgãos, sistemas e células. Sem ética nos perdemos nesse emaranhado da fisiologia e anatomia animais.

Bem, se precisamos igualmente, tanto das leis da física orgânica e inorgânica, quanto de princípios éticos, por que obedecemos as leis da física mas pisamos na ética?

Conforme escrito acima, se desobedecemos as leis que regem a plasticidade da matéria que forma nosso corpo, nos machucamos, destruímos nossos tecidos e membros. Sair da casa pela janela do quarto, caminhando, a partir do segundo andar, é um bom exemplo de desobediência às leis da física. Desse modo, tendemos a obedecer a tudo o que nos traz alguma vantagem imediata, tudo o que nos propicia prazer imediato. Nossa natureza hedonista nos leva a isso, sem que tenhamos tomado qualquer decisão. Também fomos treinados, desde bebês, para aprender a obedecer as leis fundamentais que regem a posição de um corpo em movimento no espaço.

Entretanto, quando falo de ética, tenho que escrever tratados para que as pessoas possam entender que também devem obedecer seus princípios. Por quê? Porque não fomos treinados para seguir leis, normas ou princípios éticos. Geralmente os pais pensam em proteger o bebê, a criança, o adolescente, das dores que ele possa provocar em si mesmo desobedecendo as leis da física, da química. Pensam que assim ele aprenderá também que não deve desrespeitar os princípios éticos. Mas, entre um aprendizado e o outro há um precipício, não apenas prático, mas também neuro-neural.

A área do nosso cérebro responsável pelo aprendizado das lições do movimento no espaço não é a mesma responsável pelo aprendizado da moralidade, isto é, do movimento em meio a valores sagrados que não podem ser pisados, sob pena de a espécie humana perder sua essência e tornar-se mais uma espécie animal, sem qualquer design moral.

Quando desrespeitamos as leis da física nos machucamos. Quando não respeitamos limites ao agir, e agimos como se nosso corpo, nossos impulsos, nossos desejos fossem indomáveis e estivessem acima do valor do corpo dos outros, dos desejos dos outros, das necessidades dos outros, não sentimos nada errado, nenhuma dor, nenhuma fratura, nenhuma lesão.

Por isso, continuamos a fazer mal a eles, porque quem sente o dano não somos nós. Esta é a razão pela qual parece tão natural obedecer as leis da física, e tão difícil agir com ética: porque o resultado da desobediência às leis naturais se volta imediatamente contra nossos interesses. Ao contrário, pelo menos a curto ou médio prazo, quando desobedecemos aos princípios da ética, o mal não se volta imediatamente contra nós, porque nós o projetamos sobre aqueles que sofrem os desdobramentos de nossas ações.

Quem sente o mal da desobediência das leis físicas somos nós. Quem sofre o mal da nossa desobediência das leis éticas são os outros. Aqui está a diferença entre violar as leis da natureza e violar a ética.

Quando agimos de modo ético, o bem que fazemos afeta os outros. Quando agimos de modo não ético, o mal que fazemos afeta os outros. No primeiro caso, nosso interesse pessoal não está em pauta. No segundo, nós o protegemos acima de tudo. Por isso tem sido tão fácil para toda gente, ser anti-ético em relação aos demais animais.

O mal que fazemos aos animais e a outros humanos não se volta, pelo menos não imediatamente, contra nós. São eles quem sofrem os danos, a tortura, a crueldade do aprisionamento, dos ferimentos, do empilhamento, da falta de ar puro, da comida processada e cheia de fungos, da privação do alimento que seria próprio de sua natureza. A dor que causamos a eles não é sentida por nós. Desobedecemos a todas as leis da física que regem seus organismos, ao privá-los do movimento, do sol, do ar puro, da terra, da grama e das interações sociais e amorosas que teriam feito sua vida ser plena, caso não houvessem sido forçados a nascer confinados.

Ao fazermos tudo isso, desobedecemos a todos os princípios da ética. Mas, o mal que a desobediência a esses princípios causa, não é sentido por nós, e sim por eles. Por isso, seguimos em frente, cuidando, é claro, em cada esquina que cruza uma preferencial, para não enfiar nosso carro debaixo de outro que a estiver usando. Não atentar para isso feriria uma lei básica da física: se dois corpos forem jogados no mesmo espaço ao mesmo tempo, dependendo da massa de um e do outro e da velocidade do deslocamento, pode ocorrer que as massas orgânicas e inorgânicas envolvidas sejam comprimidas num amontoado onde nada mais fará qualquer sentido ou terá qualquer valor. Danos totais.

Não percebemos ainda que fazer o mesmo contra os outros causa danos morais totais. Damos a preferencial, obedecendo sem hesitar as leis da física. Entretanto, pisoteamos os princípios éticos, pois desse massacre resulta prejuízos imediatos e diretos apenas para os outros. Assim pensamos. Perdemos, no entanto, nossa essência sagrada. Mas nem toda gente já desenvolveu a sensibilidade para a sacralidade da própria essência.

Fonte: ANDA – Agência de Notícias de Direitos Animais


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A dor nos pés da galinha

Estou escrevendo sobre o sofrimento das fêmeas de outras espécies, exploradas para consumo humano. Então, os pés-de-galinha, aos quais o título dessa coluna se refere, não são aquelas ruguinhas que se formam ao redor dos olhos quando sorrimos… ou quando, para ser franca e direta, simplesmente, envelhecemos um pouquinho mais. São os pés das galinhas, mesmo!

Escrevi nas duas últimas colunas sobre o dever moral não apenas de não praticar o mal contra os animais, mas de reverter imediatamente a situação na qual o fazemos, recompondo as condições de vida para os animais violentados, a fim de que eles possam voltar a viver de acordo com o que sua natureza específica lhes concedeu ao nascerem na espécie na qual nasceram. Assim, antes de entrar em detalhes, quero dizer que o bem de cada animal é algo de grande valor para ele enquanto indivíduo, não apenas enquanto espécie. O sofrimento não é vivido pela espécie animal, e sim pelo indivíduo particular. Por isso, agir moralmente em relação aos animais requer a abolição completa de todos os costumes, aos quais nos mal-acostumamos, que causam dor, sofrimento, privação ou amputação de quaisquer elementos em suas vidas, dos ambientais aos emocionais, dos físicos aos nutricionais.

Falei na coluna, “O sono das galinhas”, da tortura infligida a elas no sistema industrial de produção de ovos, mas destaquei, por uma questão de limite do texto, apenas a privação de repouso que elas sofrem no confinamento completo. Para botarem ovos sem parar, as galinhas recebem luz artificial por até 22 horas por dia. Um tormento para o cérebro, porque não há descanso nem sono possíveis com o estímulo luminoso sobre os olhos indo direto para a hipófise. Hoje quero falar das atrocidades sofridas por elas, das feridas causadas em seus corpos em razão desse tipo de confinamento ao qual são condenadas.

Não bastasse isso, elas recebem alimentação aditivada, inapropriada para seu bem-estar, mas eficiente para acelerar o disparo hormonal que leva à produção de ovos sem parar. Sem poderem dormir, o estresse é contrabalançado com mais comida. Sabemos por experiência própria, que quanto mais se come mais se excreta. Então, imaginemos o que seria nossa vida, se tivéssemos que viver num edifício construído com o único propósito de não permitir que fugíssemos dele, e, se isso não bastasse, para cada um de nós fosse destinado apenas o espaço que o corpo ocupa sem estender qualquer membro, digamos, o espaço que ocupamos quando estamos sentados num banco ou numa cadeira. Não teríamos espaço para alongar as pernas, nem os braços. E, para se ter uma ideia ainda mais precisa, imaginemos que essa única posição que nos concederiam adotar, tivesse que ser mantida, por, digamos, uns 15 anos seguidos, findos os quais seríamos enviados para um abatedouro para que nos cortassem o pescoço e nos tirassem a pele, ou partissem em pedaços, vendidos a seres que adorassem comer essa carne.

Mas, voltemos aos galpões de confinamento das galinhas usadas para produção industrial de ovos. Elas recebem exatamente esse tanto de espaço para alojarem seus corpos. E ali são alojadas milhares de galinhas, no mesmo edifício, por dois ou três anos, o que equivale a uns 12 ou 15 anos de vida humana. Aos milhares, elas vivem assim, se a isso se pode chamar de vida. Comida é o que não falta. Luz nos olhos também não. É mais ou menos como se fôssemos condenados a ficarmos sentados numa fileira de humanos, cada um em sua cadeira, sem podermos esticar as pernas, abrir os braços ou caminhar, ainda que todos os movimentos fossem possíveis para nossos membros. O que nos seria amputado não seria o membro, mas o movimento, a liberdade física de ir e vir, de mover-se de acordo com o padrão da espécie na qual nascemos.

Bem, escrevi acima que comida não falta nesse sistema. Também o que não falta num lugar desses é excremento. Então, imaginemos que na condição de confinamento, nos dão comida de monte. Mas, dado que nos tiraram a liberdade de ir e vir, tudo o que comemos temos que descarregar ali mesmo, no lugar onde nos puseram sentados. Agora alguém pode questionar: se elas não podem sair para “ir ao banheiro”, e se essa quantidade de comida é mesmo imensa, para que ovulem sem parar, em poucos dias estariam afogadas na matéria expelida, não?

Isso não pode acontecer! Se elas se afogassem nos próprios excrementos o sistema de produção de ovos teria perdas imensas. Para evitar um dano desses, lá estão os profissionais habilitados para encontrarem soluções exequíveis. E foi assim que esses profissionais resolveram o problema da ameaça de afogamento das galinhas exploradas pela indústria dos ovos, em seus próprios excrementos. O espaço minúsculo das instalações nas quais as galinhas são forçadas a viverem têm uma solução simples: elas são colocadas sobre um piso vazado, tipo grade metálica. Sim. Ali podem ficar paradinhas o dia todo, por uns dois a três anos “apenas”, comendo de monte e excretando um monte, sem se afogarem nesse mar de resíduos. Os excrementos simplesmente deslizam pela grade para um nível abaixo delas.

Milhares de indivíduos comendo, bebendo água e excretando ao mesmo tempo, em galpões abarrotados, nos quais os excrementos não são tirados a não ser raramente, forma gás amônia, altamente nocivo para a saúde dos pulmões, não apenas das galinhas, mas igualmente dos trabalhadores que aparecem de vez em quando para catarem os ovos que elas põem. Com uma diferença: os operadores desse sistema maléfico não ficam sentados em seus postos por 10 a 15 anos, o equivalente humano ao tempo de vida das aves condenadas ao confinamento. Elas, ao contrário deles, não podem sair lá fora para respirarem um ar limpo.

Para finalizar esse ponto doloroso, vou agora falar de uma fonte de sofrimento a mais: por terem de se firmar sobre buracos da grade sobre a qual depositam seus corpos, nos pés das galinhas formam-se feridas. É como se nos obrigassem a sentar naquele espaço exíguo, sobre grades de metal cortante, forçando o peso do corpo incidir em certos pontos da pele e da carne, pois o modelo é o de grade, através da qual nossos excrementos devem passar para um nível abaixo do nosso corpo.

Passaríamos o dia (e a noite não dormida!) tentando encontrar um ponto de equilíbrio, um só ponto, que fosse, onde o peso do corpo pudesse ser alocado sem causar dor. Bem, em se tratando de uma base gradeada, isso seria humanamente impossível. Com as galinhas ocorre o mesmo. Elas buscam encontrar um ponto de apoio sobre esses espaços vazados, machucando-se cada vez mais, porque seus pés não são constituídos com uma base, ou seja lá o que pudesse servir de plataforma. Elas só têm dedos, cartilagens, um tipo de tecido anatomicamente inapropriado para oferecer conforto quando o peso do corpo é colocado sobre metais gradeados.

Sobre a pele machucada e não cicatrizada, novas feridas se formam. Tratamento veterinário não lhes é oferecido, porque a hora de um veterinário custa muito mais do que os ovos que uma galinha pode botar por essa hora. Não compensa para o produtor cuidar das feridas desses pés sofridos. O que acontece então? Sem receber tratamento, a ave busca mover os pés feridos o mínimo possível, porque cada movimento implica dor na pele lacerada. Mas, os tecidos lesados continuam vivos, e cumprem sua missão de renovar-se, multiplicar-se até fechar o ferimento. O que acontece quando nos cortamos? O tecido volta a crescer, não é mesmo? Pois isso é o que acontece ao tecido dos pés da galinha. Agora, imobilizada para não sentir dor e não lesar novos tecidos, a galinha fica ali, “curando” suas feridas nos pés.

Ocorre que, após dias nessa posição, quando seus pés estão tão feridos que não há mais qualquer movimento possível sem que uma dor lancinante ocorra, os tecidos voltam a crescer, envolvendo o metal sobre o qual o pé está fixado. Com a pele reconstituída junto com a grade de metal, o animal não pode mais tirar o pé do lugar. Sem poder mais tirar o pé do ponto onde a pele cresceu envolvendo a grade, a galinha mal pode esticar-se para alcançar a comida e a água que lhe são servidas no comedouro à sua frente. Dor, amputação do movimento, fome, infecção, e morte por inanição e desidratação. Essas são algumas das experiências pelas quais galinhas no sistema de produção industrial de ovos passam. E achamos que comer ovos e alimentos feitos a partir deles é defensável, porque não “matamos” a galinha. Bem, não matamos no ato, torturamos longamente antes de enviá-la para a degola. Se a galinha fosse poupada da morte em reconhecimento pelos ovos que foi forçada a “pôr”, ela comeria algo em torno de meia tonelada de milho no tempo restante de vida. Quem custearia essa meia tonelada de comida para que ela pudesse simplesmente viver, envelhecer e morrer em paz? Não há sistema de produção de ovos que seja eticamente defensável. Alguém realmente ainda se sente no direito de comer ovos?

Fonte: ANDA – Agência de Notícias de Direitos Animais


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Olhar Animal – www.olharanimal.org


O sono das galinhas

Na coluna anterior, “Omitir-se de praticar o mal não basta“, tratei não apenas da questão dos deveres negativos e positivos que nos tornam agentes morais responsáveis, mas também dos desdobramentos de nossas ações que envolvem tirar a vida dos animais para satisfação de algum interesse humano. Num cálculo arredondado, para dar uma noção preliminar do erro que cometemos ao matarmos galinhas, porcos e bois para produzir “carnes”, pudemos ver o quanto amputamos da vida desses animais, ao matá-los na sua infância.

Mas o erro moral não se limita ao fato de tirarmos a vida dos animais. Tirar a vida, em alguns casos, pode até não ser o maior dos erros, por exemplo, quando a vida não pode mais ser vivida de forma digna, o que acontece quando um cavalo fratura uma perna, pois seus ossos não se regeneram. Viver atirado ao chão não é vida digna para um ser da espécie equina. Mas o tema da morte digna já tratamos na coluna “Eutanásia“.

Precisamos pensar sobre o erro que cometemos ao tirarmos a vida dos animais para atender nossos interesses gastronômicos, quando estes podem ser atendidos com alimentos de origem vegetal. Temos uma ansiedade imensa por proteínas e gorduras de origem animal. O mercado internacional mobiliza boa parte do dinheiro ao redor do mundo nos negócios da comilança de carnes, leite e laticínios, ovos e tudo o mais que é fabricado usando-se matéria orgânica animal. Mas esse mercado não cresceria, não fosse a demanda humana por tais alimentos. O mercado da carne está sustentado no assassinato em massa dos animais. Uma verdade dolorosa e repulsiva. A verdade não é doce, jamais. Animais são executados no momento mais frágil de sua existência: a infância e adolescência.

Creio que poucas pessoas sabem, de fato, que, ao comerem uma carne bovina assada, estão comendo pedaços do corpo de um animal que nascera para viver de 17 a 25 anos. Mas esse animal foi apunhalado e tirado da vida aos 2 anos. Ao comerem “frango assado”, os humanos não sabem que estão ingerindo pedaços do corpo de um animal que nasceu para viver de 15 a 20 anos, mas foi degolado aos 43 dias de vida. Na coluna anterior ofereci alguns cálculos aproximados, para dar uma noção do quanto de vida foi amputado ao abater esse frango. Ao comerem “pernil” ou “presunto”, os humanos não sabem que estão ingerindo pedaços de um animal que nasceu para viver de 10 a 12 anos, mas foi apunhalado aos 140 dias de vida. Para comer, os glutões humanos amputam a vida dos animais cobiçados. Sim, comemos em excesso, por gula, não por necessidade. Padecemos de excesso de gordura e proteína animais, mal digeridas, porque nosso pâncreas não consegue produzir suficientemente o glucagon, responsável pela digestão delas. Daí as doenças que abarrotam os corredores dos hospitais de macas, nas quais os pacientes são “internados” para receberem drogas que os aliviam dos sintomas de uma dieta maléfica.

Humanos sofrem de ansiedade por alimentos de origem animal. Conforme bem o explica o médico Neal Barnard [fundador do Comitê dos Médicos para a Medicina Responsável, uma ONG que congrega quase 10 mil médicos], em seu livro Breaking the Food Seduction, e a nutróloga Carol Simontacchi, em The Crazy Makers, a fissura por gordura animal é adicção, como o é a fissura por outros aditivos que alteram o estado de consciência. Portanto, ter um forte apetite ou desejo de comer carnes, queijos, sorvetes, chocolates, não é indício de que o organismo está “precisando” dos nutrientes contidos nesses alimentos. É o cérebro que esperneia para obter mais gordura e açúcar, seus dois alimentos preferidos. O fato é que podemos dar a ele gordura e açúcar de origem vegetal. Mas nossa cultura nos induziu a pensarmos que estes não prestam, só os de origem animal.

E, para piorar tal agitação, os comedores humanos ouvem dizer, todo tempo, que “somente em alimentos de origem animal é que existem as proteínas necessárias à saúde humana”. Cada vez mais os humanos querem comer mais carnes, mais queijos, mais ovos, mais alimentos produzidos com matéria animal. E, em seu afã de comer mais e mais matéria de origem animal, os humanos estão perdendo a capacidade de raciocinar sobre a origem dela e, especialmente, sobre a trajetória percorrida pelo animal, do dia em que nasce ao dia em que é abatido. Os humanos estão convencidos de que qualquer que seja o mal infligido aos animais, nenhuma marca fica registrada na memória das células que formam os tecidos dos músculos consumidos, ou das que respondem por suas secreções hormonais: leite e ovos.

Onívoros não se perguntam sobre o sofrimento animal, e ainda menos sobre o direito dos animais à vida longa e saudável. Esse é um direito universal de todas as espécies vivas. Mas achamos que, por terem sido os humanos a pensarem em estabelecer para si tal direito, os animais não devem ser incluídos no âmbito da justiça.

Algumas fêmeas bovinas, suínas e galináceas vivem um tempo maior do que as outras de sua espécie, ou do que a maioria dos machos. Mas o destino que as aguarda não tem similar, quando se trata da crueldade levada a efeito pelo sistema de produção que extrai delas o leite, os ovos ou suas ninhadas, no caso das suínas. Destinadas a produzirem ovos, as galinhas têm seus bicos cortados sem anestesia logo nos primeiros dias de vida. A razão pela qual isso é feito é porque serão forçadas a viver empilhadas e confinadas em espaços exíguos, não mais do que o de uma caixa de sapatos por ave, nos galpões onde viverão por dois a quatro anos, sem jamais saírem para ciscar o chão, receber um raio de luz solar, esticarem as asas, escolherem as amizades, formarem sua rede social, chocarem seus ovos, cuidarem de seus pintainhos. No confinamento total, a única função que exercerão, à revelia de sua natureza, é botarem ovos sem parar, até que a descarga hormonal se esgote completamente.

Volto a eleger um ponto para apresentar cálculos que nos permitem ver com mais clareza o quanto somos cruéis contra os animais, ao amputarmos deles o bem próprio que a vida lhes propicia, ao transformá-los em meros itens do nosso consumo, algo que não é de sua natureza. Nenhum animal nasce para servir a outro.

Pensemos no tempo de vida de uma galinha: de 15 a 20 anos. Desse tempo, se pudesse viver livre, ela passaria umas 10 ou 12 horas por dia, digamos, das seis da tarde às quatro a seis da manhã seguinte, recolhida, descansando sua hipófise dos estímulos produzidos pelos raios solares. Sem a luz do sol, o organismo galináceo inicia a produção do hormônio que leva ao descanso e ao sono. Para cada 15 anos de vida, uma galinha passa, em média, se não tiver sua vida amputada por artifícios humanos, 7 anos e meio descansando. Para isso, ela escolhe lugares protegidos, sem luz e silenciosos. É assim que ela se recupera de um dia de atividade e excitação intensas. Calculando-se por alto, a galinha precisa gastar metade da sua vida para se recompor do estresse que a atividade galinácea diária representa. No sistema de confinamento completo, no qual as galinhas são mantidas como “máquinas de produção de ovos”, não lhes é dado descanso algum. A luz artificial é mantida acesa por até 22 horas diárias. Essa prática hiperestimula a hipófise, que descarrega estímulos sobre o restante do sistema hormonal, fazendo com que essas fêmeas ovulem sem parar. Para garantir que a crueldade de fazer o bicho ficar sob o raio da luz não seja vã, a ração que elas recebem vem preparada para acelerar o processo de ovular ininterruptamente.

Sem dormir, comendo um alimento que não comeria se pudesse escolher livremente do que se alimentar, as galinhas são mantidas na produção, quando muito, algo em torno de quatro anos, ao fim dos quais estão “gastas”. Este é o termo usado pela indústria para justificar o abate delas. Quando cessa a produção hormonal, é hora de serem degoladas.

Se houvessem vivido esses mesmos quatro anos livres, algo em torno de 35.000 horas de vida, teriam passado quase dois anos desse tempo, umas 17.000 horas, em estado de repouso, recuperando as forças para cuidarem de si de acordo com o que sua natureza galinácea requer. Mas, confinadas pelo sistema industrial ovorista, em quatro anos, em vez de terem descansado suas quase 12 horas diárias, elas são mantidas estimuladas pela luz artificial por até 22 horas diárias, o que significa, para seu cérebro, 10 horas a menos, por dia, de recuperação. Além dessa tortura, são forçadas ao convívio com milhares de outras aves, quando em liberdade elas vivem em grupos pequenos, menos de 10 aves por grupo, formado a partir de suas próprias escolhas das melhores companheiras de vida.

Não bastasse terem de viver empilhadas umas sobre as outras, quer gostem ou não do contato físico e da falta de privacidade que isso representa, as fêmeas galináceas são obrigadas a respirarem um ar carregado de amônia, sobrecarregando seus pulmões com infecções. A postura forçada de ovos leva ao prolapso do útero. A galinha não morre com esse prolapso. Ela também não é atendida por um médico, porque o procedimento custa caro. As outras bicam o útero pendurado para fora do corpo. Ela vai morrer de infecção não tratada.

O silêncio, para todo animal, é um condição sine qua non para um repouso tranquilo. Como ter isso em meio a 2.000 ou 10.000 aves em sofrimento contínuo? Impossível. Assim, em estado de estresse crônico, elas se tornam canibais. Para evitar perdas, o sistema queima o bico das pintainhas que serão vendidas para as firmas de ovos. Não nos esqueçamos que a área ao redor do bico de uma ave é formada por uma rede de nervos, garantindo a sensibilidade dos olhos, olfato, auditiva e tátil, sem a qual seu cérebro não poderá receber as informações devidas. A dor da ferida, com a cauterização do bico feita por lâminas de aço ou em brasa e sem anestesia, pode durar semanas… sem analgesia. Esse é o cumprimento de boas-vindas ao mundo, dado pelos humanos às pintainhas que só serão deixadas a crescerem para serem usadas como máquinas de ovos. São ainda bebês, mas é com o bico em ferida que elas devem comer a ração. Basta imaginar como faríamos isso sem dor, se tivéssemos que pegar diretamente com a boca o alimento, sem usar as mãos para introduzi-lo entre os lábios, após termos os lábios cauterizados por uma lâmina em brasa … sem anestesia… sem analgesia.

Um ano de vida, seguindo o padrão da espécie, daria a uma galinha algo em torno de 8.000 horas, das quais umas 4.000 seriam aproveitadas para repouso, de preferência no escuro. Um ano de vida no confinamento completo representa as mesmas 8.000 horas, mas, ao contrário da vida no padrão que seria natural a essa espécie, em vez de ter umas 4.000 horas para descansar, as galinhas têm apenas umas 700 horas de descanso, quando o sistema adotado é de iluminação artificial por até 22 horas diárias.

Sabemos por experiência própria o desgaste que nosso cérebro sofre quando não podemos dormir em paz a quantidade de horas requeridas para o restabelecimento do nosso corpo, da nossa mente e da nossa consciência. Sabemos o desconforto que nos assola, o transtorno de humor, a limitação para iniciar ou manter interações sociais prazerosas, quando nos faltam as horas de sono. Passamos mais tempo dormindo, em nossa vida animal, do que comendo ou trabalhando. Mas, quando se trata do sono dos animais, deixamos de lado qualquer consideração moral. E, para coroar nosso atordoamento, ingerimos os ovos que saem dos organismos estressados dessas fêmeas. Amputamos os anos de vida que sua espécie lhes propiciaria em liberdade, amputamos seus corpos e também as funções saudáveis do cérebro e da mente dessas fêmeas. Tudo isso para extrair delas algo que contém nutrientes disponíveis em alimentos de origem vegetal.

É preciso usar nossa racionalidade instrumental, isto é, nossa capacidade de fazer contas, para redefinir os padrões morais que alimentamos ao nos alimentarmos. Temos usado nossa razão instrumental apenas para calcular o quanto podemos tirar dos animais para nosso proveito. Seguindo o dever de não apenas parar de fazer mal a essas fêmeas, mas começar a fazer o bem a elas, está na hora de começarmos a calcular quanto devemos devolver a elas do bem próprio que lhes vem sendo amputado, quando queremos seus ovos para compor nosso prato já farto de nutrientes.

Fonte: ANDA – Agência de Notícias de Direitos Animais


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