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Pássaros com sintomas de transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) mostram como a poluição sonora está afetando os animais

Imagine que você está caminhando pela vizinhança, curtindo os sons relaxantes dos pássaros cantando nas árvores e do vento soprando as folhas levemente… então, de repente, o som de uma britadeira lhe tira dessa nuvem de felicidade cheia de natureza e paz.

Independentemente de você morar em uma cidade movimentada ou em um subúrbio silencioso, é provável que tenha se acostumado com barulhos causados por humanos. Nós escutamos o trânsito e sirenes o dia inteiro, lidamos com construções incômodas de prédios e estradas e nos distraímos com o som de barcos passando enquanto tentamos relaxar na praia. Essa “poluição sonora”, definida como um som inapropriado ou indesejado, é parte da nossa vida diária, e mesmo que tentemos ignorá-la, esses sons podem afetar níveis de estresse e sono, impactando nossa qualidade de vida.

De acordo com a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA): “A poluição sonora afeta negativamente a vida de milhões de pessoas. Estudos mostram que há uma ligação direta entre barulho e saúde. Problemas relacionados a barulho incluem doenças relacionadas ao estresse, pressão arterial alta, inteligibilidade da fala, perda de audição, distúrbios do sono e diminuição de produtividade”.

Mas estudos científicos estão mostrando que os humanos não são os únicos a sofrerem com o aumento do barulho no mundo. Os animais também são impactados negativamente pela poluição sonora do trânsito, atmosfera, transporte ferroviário, práticas industriais como mineração e perfuração, e atividades recreacionais humanas. Ela não está causando apenas estresse, mas também afetando como e onde eles vivem, viajam e até se reproduzem.

Um impacto causado pelo homem que nós frequentemente deixamos de reconhecer

Foto: Pixabay
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As atividades humanas têm causado poluição por plásticos dos oceanos e destruição de habitats devido ao desmatamento para a pecuária, mas a poluição sonora é algo em que não costumamos pensar. Infelizmente, esse tipo de poluição está afetando os animais e impactando ecossistemas inteiros. Com cada vez menos lugares para viver por causa da destruição dos habitats, a vida selvagem é forçada a viver mais perto dos humanos e, como resultado, seus habitats são frequentemente impactados pelas nossas atividades. E, como cientistas descobriram, até mesmo os sons mais sutis podem causar problemas para a vida selvagem próxima.

Em um estudo recente, cientistas pesquisaram pássaros que haviam feito seus ninhos em campos de gás natural no Novo México. Eles visitaram 240 ninhos, todos situados em proximidades variáveis de poços de gás natural e estações de compressão. Tais estações “emitem um zumbido constante e em uma baixa frequência muito similar a de muitos cantos de pássaros,” de acordo com um artigo do Washington Post sobre o estudo. E enquanto isso pode não parecer um problema, a questão é que o barulho dificulta a audição de sons naturais, incluindo os de predadores se aproximando. A exposição constante a esse som e a consequente perturbação causam aos pássaros sintomas de estresse parecidos com aqueles associados ao transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) em humanos, o que foi detectado por meio de amostras de sangue tiradas durante o estudo.

Um estudo de 2006 conduzido no Canadá encontrou questões acerca do impacto da poluição sonora causada por humanos nos hábitos de acasalamento de pássaros, o que pode afetar o tamanho da população. O estudo compara pássaros vivendo na silenciosa floresta boreal com aqueles vivendo próximos aos compressores de óleo e gás natural. Eles descobriram que os pássaros que vivem próximos aos compressores tinham uma taxa de sucesso de acasalamento 15 por cento menor do que aqueles da região florestal. Acredita-se que a causa seja o barulho, abafando ou alterando o canto do pássaro macho, ambos podendo impactar a resposta da fêmea.

Habitats protegidos e naturais não estão imunes ao problema

Foto: Daniel Mayer/Wikimedia
Foto: Daniel Mayer/Wikimedia

A poluição sonora afeta animais em áreas urbanas e rurais, mas está causando impacto também em áreas de vida selvagem protegidas. Rachel Buxton, da Universidade do Estado do Colorado, auxiliou na condução de um estudo de 492 áreas protegidas nos E.U.A., resultando em uma coleção de mais de um milhão de gravações de sons de pássaros. No estudo, foram usados algoritmos para determinar o nível de barulho causado por humanos ocorrendo de forma sobreposta aos naturais em cada área.

O estudo encontrou que a poluição sonora causada pelo homem era duas vezes mais alta que os sons naturais em sessenta e três por cento das áreas pesquisadas; em vinte e um por cento das áreas, algumas lares de espécies em extinção, era dez vezes maior. Em uma entrevista ao The Guardian, Buxton disse que “os animais usam os sons para muitas atividades essenciais, tais como fugir de predadores, encontrar alimento e parceiros, e manter relações em grupos sociais.” Então quando sons não naturais abafam os naturais, dos quais eles dependem, isso pode ter um sério impacto no modo como eles vivem.

Barulho excessivo e causado pelo homem pode também impactar o equilíbrio de um ecossistema. Máquinas com som alto podem assustar predadores maiores, o que por sua vez causa um aumento no número de presas. Pássaros e polinizadores também podem se assustar com sons, o que afeta plantas e insetos que dependem daquelas plantas para se alimentar e se abrigar. Essas coisas podem não parecer significativas por si só, mas a reação em cadeia pode resultar em complicações em ecossistemas inteiros.

No oceano, comunicação, hábitos de reprodução, rotinas migratórias de baleias e outras vidas marinhas têm sido afetadas pelo barulho da extração de petróleo, dispositivos sonares, navegação e recreação humana, como barcos e jet skis. Alguns conservacionistas e cientistas dizem que a exposição prolongada pode causar estresse e até mesmo danos auditivos em animais marinhos. Estudos também descobriram que animais marinhos expostos à poluição sonora podem mostrar mudanças no comportamento individual e social, metabolismo e saúde geral.

Ajude a limitar a poluição sonora fazendo escolhas conscientes

Foto: Yellowstone National Park/Flickr
Foto: Yellowstone National Park/Flickr

Há diversos estudos mostrando o impacto da poluição sonora em humanos, animais e nossos habitats. Os humanos podem utilizar fones que abafam ruídos externos e outras tecnologias para diminuir a sua exposição ao barulho excessivo, mas a vida selvagem e marinha não tem escapatória. E embora nós não possamos prevenir todas as formas de poluição sonora, podemos ser mais conscientes sobre as nossas atividades e como elas impactam a vida selvagem.

Quando estiver aproveitando áreas externas, principalmente parques e outras áreas naturais, tente escolher atividades silenciosas como acampar e caminhar ao invés daqueles que envolvem veículos motorizados. Você também pode ajudar a vida marinha e aquática limitando o uso de barcos motorizados e outras atividades barulhentas em áreas habitadas por animais. Outras formas comuns de poluição sonora incluem extração de petróleo e testes sonares, então defenda a vida marinha assinando petições que se opõem a essas práticas.

Compartilhe essas informações e denuncie barulho excessivo na sua vizinhança, afinal de contas, isso causa transtornos tanto às pessoas quanto aos animais. A maioria dos governos locais têm páginas na internet ou um 0800 onde você pode fazer reclamações sobre barulho.

Por Arianna Pittman / Tradução de Carla Lorenzatti Venturini

Fonte: One Green Planet

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