Como não existem definições legais dos termos “cruelty-free” e “não testado em animais”, parece que as marcas podem interpretar os termos como quiserem. (Emilija Manevska via Getty Images)

Por que o selo ‘cruelty free’ nem sempre é verdadeiro em alguns cosméticos

A indústria da beleza testa seus produtos em animais há anos. Essa prática ainda se mantém, apesar de muitas marcas terem adotado métodos ditos cruelty-free (livres de crueldade, ou seja, que não envolvem tratamento cruel de animais).

Vale perguntar o porquê disso. A razão por que os testes em animais continuam a ser feitos se deve em grande medida às normas vigentes na China e ao interesse das marcas em vender seus produtos no mercado chinês. É bom saber também que, mesmo quando o rótulo de um produto diz “cruelty-free” ou “não testado em animais”, isso pode não ser verdade.

Vamos explicar melhor:

O mercado onde uma empresa vende seus produtos pode determinar se ela testa esses produtos em animais.

Muitas grandes marcas de cosméticos afirmam que não usam testes em animais, mas vale notar que em outros países, especialmente na China, seus produtos podem ser sujeitos à exigência de testes em animais. Como observou o Bloomberg, a China exige que todos os produtos de beleza que importa, incluindo desodorante e protetor solar, sejam testados em animais. Se uma empresa quiser expandir seus negócios para a China, com seu mercado crescente de produtos de beleza, ela terá que obedecer à exigência dos testes em animais. A NARS Cosmetics, por exemplo, enfrentou uma reação negativa dos consumidores no ano passado quando confirmou que iria oferecer seus produtos na China. Antes de ingressar no mercado chinês, a NARS era vista como uma marca cruelty-free.

A China é o último grande país a exigir que cosméticos sejam testados em animais, segundo o Bloomberg. Em 2013 a União Europeua proibiu a importação e venda de produtos cosméticos contendo ingredientes testados em animais. De acordo com o New York Times, a intenção era que a proibição incentivasse outros países, incluindo a China, a procurar métodos alternativos para testar seus produtos. Índia, Israel, Noruega e Suíça têm leis semelhantes contra os testes em animais.

Os EUA não exige nem proíbe os testes em animais. Cosméticos não precisam ser aprovados pela FDA (Food and Drug Administration, órgão que regulamenta alimentos e medicamentos), e as leis federais não exigem que cosméticos sejam testados em animais para determinar se humanos podem usá-los com segurança. Em vez disso, a FDA recomenda que os fabricantes de cosméticos “empreguem os métodos de teste que foram apropriados e eficazes para determinar a segurança de seus produtos”.

“Cabe ao fabricante determinar a segurança tanto dos ingredientes quanto dos produtos cosméticos prontos, antes de colocá-los no mercado”, diz o site da FDA.

O simples fato de um produto levar o rótulo “cruelty-free” não significa que seja de fato cruelty-free.

A FDA observa que o uso de termos como “cruelty-free” ou “não testado em animais” não é regulamentado nos Estados Unidos e que, por isso, os termos podem não ser exatos.

“Algumas empresas de cosméticos promovem seus produtos com descrições desse tipo nos rótulos ou na publicidade”, avisa a agência. “O uso irrestrito desses termos pelas empresas de cosméticos é possível porque esses termos não são legalmente definidos.”

Em outras palavras, é possível que nem todos os ingredientes utilizados para manufaturar um produto sejam de fato cruelty-free. Algumas empresas que fixam esse rótulo em seus produtos podem recorrer a fornecedores ou laboratórios terceiros para fazer os testes em animais para verificar a segurança de uso por humanos, segundo a FDA.

Além disso, muitos dos materiais e ingredientes que compõem os cosméticos foram testados previamente em animais, mas uma empresa ainda pode usar esses ingredientes e dizer que seus produtos são cruelty-free, disse Perry Romanowski, químico especializado em cosméticos e autor de Beginning Cosmetic Chemistry.

E ainda, como não existem definições legais dos termos “cruelty-free” e “não testado em animais”, parece que as marcas podem interpretar os termos como quiserem.

Segundo a FDA, “um produtor de cosméticos pode alegar que seus produtos são cruelty-free porque os materiais ou produtos não estão sendo testados em animais ‘atualmente'”.

Romanowski acrescentou que, em sua opinião, “não existem empresas cruelty-free, porque as empresas usam ingredientes de origem agrícola”.

“As práticas agrícolas matam coelhos, camundongos, ratos e inúmeros insetos durante o plantio e a colheita”, ele explicou. “O fato de uma empresa não testar seus produtos em animais não quer dizer que o processo de produção desses artigos não envolva a morte de animais.”

Algumas empresas podem utilizar ingredientes e substâncias químicas da indústria farmacêutica, que não é sujeita às mesmas regras contra os testes em animais. É uma brecha no sistema, disse Romanowski.

“Se um ingrediente é testado para ser usado em um produto farmacêutico, a informação do teste pode ser transferida para a indústria cosmética, possibilitando o uso do novo ingrediente”, ele explicou.

A esperança de termos uma seção de beleza totalmente cruelty-free ainda não está totalmente perdida.

Apesar de algumas das maiores marcas internacionais de produtos de beleza seguirem as regras da China que exigem testes em animais, muitas disseram que financiam iniciativas que apoiam alternativas éticas a esses testes. Algumas estão trabalhando com as autoridades chinesas para tentar mudar a exigência dos testes em animais.

A L’Oréal, dona da Keihl’s e IT Cosmetics, parou de testar seus produtos em animais desde 1989 nos países onde isso não é exigido. E nos últimos 25 anos investiu mais de US$1 bilhão para desenvolver métodos de testes cruelty-free, segundo seu site na internet.

A Coty, marca que abrange linhas de produtos populares que incluem CoverGirl, Rimmel e Sally Hansen, disse ao HuffPost: “Continuamos a levar um diálogo com as autoridades chinesas, incluindo nossa participação ativa na Associação Chinesa de Indústrias de Fragrâncias e Cosméticos, para substituir testes em animais por outras alternativas. Graças a isso, a China começou recentemente a pesquisar alternativas aos testes em animais, buscando a assistência de cientistas europeus.”

A Estée Lauder, dona da MAC e da Clinique, trabalha em parceria com o Institute for In Vitro Sciences, um laboratório de pesquisa sem fins lucrativos sediado nos EUA que procura métodos de testes não animais. Segundo seu site na internet, a marca também é membro da Parceria Europeia para Alternativas aos Testes em Animais.

Como verificar se seus produtos favoritos são realmente cruelty-free.

Uma maneira de descobrir se suas marcas favoritas de cosméticos testam seus produtos em animais e também onde isso é exigido por lei é pesquisar nos sites das empresas. Muitas das empresas tratam da questão dos testes em animais em sua seção de Perguntas Frequentes ou FAQs, com declarações como “não realizamos testes em animais nem pedimos a terceiros que o façam por nós, exceto onde isso é exigido por lei”;

Também é possível pesquisar em sites online que verificam as marcas que são cruelty-free. A Leaping Bunny, uma organização que fornece essa certificação, traz um guia abrangente de compras em seu site e chega a oferecer um app para ajudar você a encontrar marcas de produtos de beleza que não realizam testes em animais. Para se adequarem aos critérios da Leaping Bunny, os produtos não podem ter sido testados em animais em nenhuma etapa de sua produção e não podem incluir ingredientes testados em animais. (Leia os critérios da organização aqui.)

A PETA também traz um guia de compras cruelty-free e um banco de dados de empresas cruelty-free no qual é possível fazer buscas. As empresas que constam de sua lista precisam comprovar que elas e seus fornecedores não pagam por testes de ingredientes, fórmulas ou produtos prontos feitos em animais. A organização australiana Choose Cruelty Free oferece recursos semelhantes e declara que os produtos que se enquadram em seus critérios não podem ter sido testados em animais nem incluir ingredientes testados em animais.

Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

Por Julia Brucculieri

Fonte: Huffpost


Nota do Olhar Animal: Além do exposto no artigo, o conceito de “cruelty-free”, mesmo se respeitado integralmente, não exclui a exploração dos animais. Pode não haver “crueldade” em abater um animal inconsciente,  que não quer dizer que isto não é injusto e danoso para o animal.

Os comentários abaixo não expressam a opinião do Olhar Animal e são de responsabilidade exclusiva dos respectivos autores.