Portugal: na praia de Cabanas, há uma raposa que come e bebe com os banhistas

O animal sente-se em casa, mas os turistas pedem a sua captura por causa do aspecto, aparentemente doentio. Mas quando os vigilantes da natureza se aproximam, desaparece por entre as dunas. Nesta quinta-feira, as autoridades vão despir as fardas e vestir o calção para atrair o bicho.

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A personagem mais famosa da praia das Cabanas de Tavira é, actualmente, a raposa Fox — simpática, meiga, mas que não deixa que qualquer um lhe deite a mão. Pelo seu aspecto — mal nutrida e com algumas peladas — passou a ser alvo da atenção dos banhistas. Nas redes sociais surgiram apelos à captura do animal, na suposição de que estará doente. As autoridades, desde há uma semana, responderam com a operação “captura à raposa”. Ainda não teve sucesso porque o animal é mesmo uma raposa — nova na idade, velha na astúcia — e não gosta de ter guardas ou polícias por perto.

Durante o dia, na praia, faz de conta que é um animal doméstico mas quando os guardas e vigilantes da natureza se aproximam, mostra o seu lado selvagem — pula e salta, desaparece por entre as dunas. Só quando tem fome ou sede é que vem para perto, embora medindo as distâncias e as cautelas para não ser capturada.

O dia desta quarta-feira revestiu-se de cuidados especiais, em mais uma tentativa de caça ao animal. O veterano vigilante do Parque Natureza do Parque Natural da Ria Formosa (PNRF), Daniel Santos, procurou seduzir a Fox com um petisco especial: duas cavalas frescas num prato, cobertas de azeite ligeiramente aquecido. Com este pitéu gourmet, disse, “ela não vai resistir”. Ao princípio, a estratégia foi bem sucedida mas, depois de comer o primeiro peixe, o animal deu meia volta, desatou a correr e mandou o vigilante ir “namorar” outra.

O animal, quando desce até à praia, comporta-se como um cachorrinho mas só na aparência: “Fino que nem uma raposa”, comenta Daniel Santos.

No apoio de praia “Cabanas Beach”, Bárbara Moreira revela a familiaridade do convívio que tem tido o animal “Durante todo o Verão tenho-lhe dado hamburgueres e cachorros e ela chega até aqui à porta”. O Centro de Recuperação e Investigação de Animais Selvagens — RIAS, em comunicado, criticou: “Este caso tem sido, infelizmente, um exemplo do que não deve ser feito na presença de um animal selvagem”. O facto deste animal estar a ser alimentado pelas pessoas, diz Diogo Amaro, do RIAS, “está também a atrasar e prejudicar o processo de captura pelas autoridades competentes”. Nesta operação têm estado envolvidos, desde há uma semana, não só os técnicos do PNRF, mas também a Polícia Marítima, GNR e câmara de Tavira.

No Algarve, o barrocal e a serra são considerados o habitat natural das raposas, mas quando a maré está vazia atravessam a ria Formosa e acabam por fixar residência permanente nas dunas, onde se refugiam e reproduzem. Então que é que esta raposa de Cabanas tem de diferente das que vivem na praia do Barril e ilha de Tavira? “É muita meiguinha, está magra (aparenta estar doente) e vem ter connosco”, diz Rosa Silva, da Cabanas Beach, que a filmou, quando ela lhe entrou pela casa dentro, e a baptizou de Fox. Sobre a doença, a veterinária da câmara de Tavira, Sandra Mealha, observa: “Tem problemas de pele (peladas), está magra, mas não sabemos se estará doente “.

Nesta quarta-feira, a maior proximidade entre a raposa e as banhistas deu-se por volta da hora do almoço. Carlos Colás, espanhol, viu o animal aproximar-se e a mulher fez-lhe um gesto de simpatia. A raposa mirou a garrafa de água que estava em cima da toalha e a turista percebeu que estaria com sede. Bebeu cerca de meio litro de água. “A raposa está aqui, em cima de uma toalha, na praia”, avisaram.

Mas as tentativas de a apanhar continuam sem sucesso. “Ontem [terça-feira] andei mais de 20 quilómetros atrás dela mas quando me aproximava, desaparecia”, conta Daniel Santos. Sandra Mealha adverte: “Ela conhece a linguagem corporal e não é fácil a captura”, sublinha. “Acho que as fardas afastam o animal”, diz, por seu lado, Virgílio Santos. Carlos Colás oferece-se como voluntário: “Dêem-me a rede”. Por se encontrar só de calção, os vigilantes cedem. Aproxima-se do animal, a quem a mulher dava de beber, mas a raposa deu dois saltos e deixou-o a olhar para as pegadas. A veterinária sugere: “Temos de fazer uma operação de camuflagem, tentando passar por banhistas na praia”. Essa é a estratégia que hoje vai ser posta em prática. A raposa, concluíram, gosta dos banhistas mas não vai à praia com homens fardados.

Por Idálio Revez

Fonte: Público / mantida a grafia lusitana original

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