Muitos animais de estimação acabam sendo abandonados em Belo Horizonte por famílias que viviam em comunidades carentes e foram remanejadas para prédios do programa Vila Viva. (Foto: Rodrigo Nunes/Esp. CB/D.A Press)

Programa Vila Viva, da Prefeitura de Belo Horizonte (MG), vira foco de abandono de animais

Citado como exemplo de organização de vilas e favelas, o programa Vila Viva, da Prefeitura de Belo Horizonte (PBH), é, atualmente, o maior projeto de urbanização do Brasil. Apesar de ter sido elaborado em 1994, somente seis anos depois, no ano 2000, o programa começou a ser implantado. O objetivo inicial era remanejar 125 mil habitantes, o que correspondia a 25% da população dos aglomerados da capital mineira, na época. As obras englobam a construção de várias unidades habitacionais padronizadas; a urbanização de becos; a criação de áreas de lazer e centros esportivos; entre outras melhorias.

Contudo, desde o início de sua execução, nenhum projeto de política de manejo populacional ético de cães e gatos foi implementado pela PBH. Com isso, o índice de animais abandonados e o descontrole populacional se tornou crescente. Seja por falta de informação ou opção, seja pela falta de espaço – já que os apartamentos são pequenos –, ou mesmo pela convenção dos próprios condomínios, muitos moradores deixam os animais de estimação para trás ao mudarem para um conjunto do Vila Viva.

No Morro do Papagaio, região centro-sul da capital, a área residencial do Santa Lúcia conta com 588 unidades habitacionais e os moradores já vivenciam o problema. Residente da comunidade há 40 anos, a faxineira Maria Aparecida Afonso, de 49 anos, tem tentado diariamente auxiliar os inúmeros animais abandonados que surgem na sua rua. “São cães e gatos de todos os jeitos, inclusive de raça. Aparecem famintos e assustados e muitos deles já chegam doentes. Fora os que já vivem aqui nas ruas. Sabemos que uma boa parte tinha dono e que eles se mudaram para os ‘predinhos’ [sic] e os deixaram para trás”, diz a moradora. Segundo ela, não existe nenhum programa de castração gratuita na comunidade e muito menos alguma parceria dos órgãos públicos com ONG’s para realizar o remanejamento desses animais, prestar os cuidados veterinários necessários e encaminhá-los para adoção. “O máximo que vi foi a Zoonoses [de BH] recolher alguns animais doentes que, com certeza, seriam mortos, e não tratados”, comenta Maria Aparecida Afonso.

Para Adriana Araújo, coordenadora do Movimento Mineiro pelos Direitos dos Animais (MMDA), essa é uma realidade antiga, contestada há anos pelos grupos de proteção. “Apesar do Vila Viva ser um projeto excepcional quanto à questão social, é extremamente grave quanto ao descaso com os animais. Pois, da maneira como é realizado, acaba estimulando o abandono”, afirma a ativista. De acordo com ela, a única solução para o problema seria a PBH cumprir a Lei 21970, de 2016, e realizar todas as ações que constituem a política pública de manejo no que se refere à conscientização populacional; guarda responsável; castração; campanhas de adoção; punição para os maus-tratos; entre outras necessidades.

Ex-morador do Morro do Papagaio, o advogado Luiz Carlos Moreira da Costa, de 59 anos, lembra que, quando ainda era menino, as famílias tinham pequenos quintais onde criavam seus animais de estimação, entre eles, porcos, galinhas e cabritos. No livro Assim Era a Minha Favela, com lançamento previsto para o mês de abril de 2018, ele fala sobre as transformações sofridas pela comunidade ao longo dos anos. “Realmente, existe uma incompatibilidade do Vila Viva com a realidade das famílias, especialmente no que se refere aos animais. Até mesmo por que muitas delas têm vários deles”, comenta Luiz Carlos.

Segundo os moradores de prédios do Vila Via, a falta de espaço nos apartamentos construídos pela PBH seria um dos principais motivos para o crescente abandono de animais de estimação. (Foto: DigitalGlobe Image/Landsat/Copernicus/Google Earth/Reprodução)

O que se vê, na prática, é que a política municipal de habitação popular de vilas e favelas, implantada em BH, sob gerenciamento da Companhia Urbanizadora de Belo Horizonte (Urbel), explicita o conflito entre as determinações do estado e a realidade da  sociedade civil. “Como ignorar o destino de tantos animais? Não adianta fazer um projeto pela metade. Tanto a fauna quanto a flora também são responsabilidades do estado”, reclama Adriana Araújo, do MMDA.

Segundo a Urbel, não há restrição por parte da companhia no que se refere à presença de animais nos conjuntos habitacionais. Existe, no entanto, o regimento interno dos conjuntos, discutido e aprovado pelas famílias durante o processo de remoção. “Algumas famílias, mesmo com a permissão explícita, não desejam levar os seus pets. Neste caso, orientamos sobre a adoção e sobre o não abandono”, informa a assessoria do órgão em nota enviada à Encontro.

De fato, não existe nenhuma ação da PBH voltada para o manejo, castração e adoção desses animais abandonados por moradores remanejados pelo programa Vila Viva. Para a auxiliar administrativa Gisele Maria Conceição, a questão é de saúde pública. Moradora do bairro Vila Paris, localizado próximo à barragem Santa Lúcia, ela auxilia vários animais que descem o morro em estado deplorável – alguns portadores de zoonoses como leishmaniose e sarna. “Recentemente, um deles tinha sido atropelado às 8h da manhã e, quando soube da situação, às 16h, ele ainda agonizava. Estava com as patas e o focinho quebrados. Imagino a dor que sentiu até ser socorrido”, conta Gisele.

Como Minas Gerais não possui um hospital veterinário público para atender os animais carentes, poucas são as pessoas que se dispõem a socorrê-los. “Trabalho no bairro Carmo e venho observando que o número de animais abandonados tem aumentado. Inclusive, muitos tentam atravessar a avenida Nossa Senhora do Carmo e acabam sendo atropelados. É realmente revoltante ver tanto descaso”, conclui a gerente administrativa Solange Rabelo.

Por Daniela Costa 

Fonte: Encontro 

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