Reflexões sobre capturas e abrigos

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Reflexões sobre capturas e abrigos

Por Eduardo Pedroso

Muitas vezes quem promove controle ético de gatos de rua se depara com situações conflituosas e aborrecedoras. Impossível quem diga o contrário. É algo inerente ao ofício. Como o sapateiro que se envenena ao segurar pregos com a boca e o lavrador que cria calos nas mãos empunhando a enxada, o agente de CED (Captura, Esterilização e Devolução) tem como “efeito colateral” a incompreensão quase que total de sua função social e seus métodos de trabalho. Isso é natural de atividades novas que se opõem a visões retrógradas incrustadas no imaginário popular. Só campanhas de esclarecimento e muita dedicação ao CED podem mudar essa situação.

Em junho passado fui procurado por uma moça que desejava ajudar uma família de gatos que habitava as cercanias de um famoso hospital da cidade de São Paulo. A moça, uma fisioterapeuta bem-nascida, contou sobre uma gata grávida e dois filhotes em um local aparentemente sem conflitos ou problemas.

Como de costume, dei toda orientação necessária para a formação da rotina que facilita a vida do agente de CED. São instruções que criam condições de captura e resgate.

Ficamos aguardando a rotina se estabelecer, afinal, ninguém gosta de ninhadas nas ruas.
E claro, em situações como essa, na hipótese de captura, é preciso decidir o que fazer para não agravar o problema da superpopulação de animais de rua.

Bom, os gatos têm vida própria e a natureza fez seu trabalho antes da minha intervenção. Dois ou três dias após as orientações a fisioterapeuta me enviou uma mensagem dizendo que a gata havia sumido e reaparecido magra e muito faminta.

Com essas informações cheguei ao local. A configuração era a seguinte: em um ambiente que se apresentava seguro, com fornecimento garantido de comida e proximidade de um grupo de pessoas não hostis, uma gata escondia uma ninhada recém-parida. Dois filhotes com aproximadamente três meses estavam com ela.

Imediatamente expliquei que não era o momento de mexer com os filhotes recém-nascidos e nem com a mãe deles.

Ninhadas muito recentes correm um risco enorme de rejeição por parte da gata de vida livre se acontece alguma interferência. Capturar a mãe com uma armadilha e posteriormente empreender uma varredura na área para encontrar a ninhada não é adequado. No caso em questão, deveríamos concentrar esforços nos filhotes maiores. Esses sim deveriam ser capturados, esterilizados e devolvidos. O controle da pequena colônia começaria por eles.

Bom, se os gatos têm vida própria, o ser humano se acredita Deus e juiz de todas as coisas. Muito contrariada, a fisioterapeuta passou a insistir na localização da ninhada a todo custo. Queria capturar e levar todos os gatos para uma ONG.

Recusei seu pedido e expliquei com os motivos que seguem:

1) a captura gera para qualquer animal um forte estresse, no caso específico de uma gata lactante, a perturbação física e mental que o aprisionamento causa é potencializada pelo momento sensível que é naturalmente a maternidade. A gata é uma mãe que acabou de gerar vidas;

2) o forte estresse pode fazer com que a gata rejeite a ninhada, o que é condenar os filhotes à morte;

3) capturar primeiro a mãe e depois procurar a ninhada é um erro primário, pois as gatas costumam esconder muito bem suas crias, além disso, na hipótese de encontrar a ninhada, o reencontro com a mãe em um ambiente estranho pode não ser agradável;

4) localizar a ninhada e resgatá-la sem a presença da mãe é ainda pior, uma vez que a gata não vai se deixar capturar com facilidade e novamente a ninhada estará condenada à morte, além disso, temos a terrível constatação de que a gata vai repor a ninhada o quanto antes, tratando de perpetuar sua espécie e agravando o problema.

Apesar das explicações a moça ficou esperando que algo fosse feito. E foi. Não capturei a gata apesar da boa possibilidade que havia. Desviei o foco para os filhotes e um deles foi capturado, esterilizado e devolvido para o local. O que despertou ódio na fisioterapeuta e na ONG que abrigaria os gatos. Atacaram-me nas redes sociais porque devolvi um animal saudável e castrado para o local onde ele nasceu e estava adaptado.

Essa experiência suscita algumas perguntas.

Será que os abrigos não deveriam se preocupar com os animais vulneráveis que estão pedindo socorro pela cidade toda?

O que motiva um abrigo a retirar de uma colônia um gato que não precisa de cuidados e levá-lo para um lar temporário ou jaula?

De novo: a função de um abrigo não seria acolher animais em situação de risco, filhotes que perderam as mães, gatos doentes, atropelados e machucados?

Qual motivação existe para negar lugar para animais que estão passando por tragédias? Sim, negar, porque se o abrigo preenche seus lugares com gatos saudáveis que voluntárias ou colaboradoras colocam inadequadamente dentro do abrigo, obviamente nem todos os lugares destinados a animais com sérios problemas serão ocupados por animais com sérios problemas. É uma questão de lógica.

Se você colabora com uma ONG e essa abriga animais, esteja certo de que essa instituição está fornecendo suas vagas para animais necessitados. Isso é o mínimo que se pode esperar de uma ONG que mantém um abrigo.

Sobre a mãezinha, fiquei com a consciência tranquila. Consegui “distrair” a fisioterapeuta e a ONG e, naquele momento importante e delicado, preservei a ninhada de neonatos junto da mãe e no ambiente seguro que se apresentava. Não sei o que aconteceu depois, espero que não tenham conseguido mexer na ninhada logo na sequência, ou se conseguiram, que nada de ruim tenha acontecido.

Nem todos os animais que estão nas ruas devem ser levados para um abrigo. É preciso bom senso, discernimento e conhecimento para fazer com que cada caso seja abordado da melhor forma possível.

O caso acima, a pequena colônia de gatos das cercanias do hospital, deveria ser tratado levando em conta aspectos de controle ético de gatos de rua e saúde pública. Os dois filhotes maiores deveriam passar por processo de CED (um passou) e também a mãe, após a ninhada atingir dois meses. Nesse momento é possível separar a ninhada da mãe e decidir, levando em consideração o temperamento de cada filhote entre outros fatores, se devem ser esterilizados e devolvidos à colônia ou abrigados e preparados para adoção.


Eduardo PedrosoEduardo Pedroso | edu_520@hotmail.com

Agente de CED (Captura, Esterilização e Devolução), idealizador da ONG Bicho Brother, especializada em controle ético de gatos de rua. Ajudou a produzir e dirigiu o 1º Seminário Brasileiro de CED. Formando em Gestão Ambiental pela Universidade Unicsul. Vegetariano estrito. Pai do Emanuel.

Os comentários abaixo não expressam a opinião do Olhar Animal e são de responsabilidade exclusiva dos respectivos autores.

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