Borboleta da espécie Melanis pixe pousada no Centro Nacional de Borboletas em Mission, Texas. FOTO DE SUZANNE CORDEIRO, AFP/GETTY IMAGES / IMAGEM CEDIDA POR SUZANNE CORDEIRO, AFP/GETTY IMAGES

Santuário de borboletas será atravessado pelo muro da fronteira dos EUA

A construção de um trecho de quase dez quilômetros de muro feito de aço e concreto ao longo da fronteira entre o Texas e o México está planejada para começar no fim deste mês. Contudo, conservacionistas estão em uma batalha jurídica urgente com o governo antes que seja tarde demais para o Centro Nacional de Borboletas, uma propriedade privada da Associação de Borboletas da América do Norte (NABA) que poderia ser fatiada pelo muro.

O centro de 17 anos se estende por cerca de 40 hectares, logo ao sul de Mission, no Texas, uma cidade contornada pelo Rio Grande na parte de trás e a uma hora ao norte da extremidade sul do estado.

Antes de ser adquirida pela NABA, a propriedade do centro de borboletas produzia cebolas, conta a Diretora Executiva Marianna Treviño-Wright. E, nos anos seguintes, o centro replantou a propriedade com espécies nativas e ameaçadas de extinção que servem como fontes de néctar para as borboletas.

O Vale do Baixo Rio Grande possui algumas das mais elevadas concentrações de borboletas dos Estados Unidos — tanto em volume quanto em quantidade de espécies. A icônica e migratória monarca é só mais uma delas. Graças à geografia do vale, ele contém 11 diferentes regiões ecológicas e conta com uma profusão de plantas floríferas. Atrás dessas plantas, vêm os diferentes tipos de borboletas que evoluíram com elas.

“Cada espécie está intimamente relacionada a uma ou duas espécies de plantas”, afirma Treviño-Wright. “Se a planta hospedeira desaparecer, elas desaparecem.”

Tomando o país das borboletas

O desaparecimento das borboletas devido à construção do muro é o que preocupa Treviño-Wright e outros conservacionistas. Em diversas regiões ao longo da fronteira, o muro não ficará exatamente na linha que divide os Estados Unidos e o México. Em numerosos casos, como acontece com o centro, ele será construído a uma distância de um a quatro quilômetros ao norte da fronteira no lado dos Estados Unidos.

Muitos parques estaduais e federais poderiam ser divididos. Reservas naturais federais oferecem menor resistência porque já são de propriedade do governo. Teoricamente, Gregg Abbott, o governador do Texas, poderia resistir à construção do muro em parques estaduais, embora especialistas considerem ser improvável que o governador de direita tome essa medida.

Para tomar propriedades privadas como as do Centro Nacional de Borboletas, o Departamento de Segurança Nacional (DHS) pode desapropriá-las. O processo permite que o governo tome propriedades privadas, declarando-as de utilidade pública, como por questões de segurança. Os proprietários ainda receberão o que o governo considerar um valor justo.

Aqueles que contestam a declaração de utilidade pública do DHS raramente ganham “e lhes restam poucos recursos”, afirma Raul Garcia, advogado da assessoria jurídica sênior do grupo ambiental EarthJustice.

Em outubro de 2018, o Centro de Diversidade Biológica e Defensores da Vida Silvestre entrou com uma ação judicial contra o DHS para impedir a construção do muro da fronteira, citando violações contra leis, como a Lei de Espécies Ameaçadas de Extinção. No início desta semana, o Centro Nacional de Borboletas tentou ganhar mais tempo também apresentando uma liminar para impedir que o DHS prosseguisse com a construção do muro.

Garcia afirma que é difícil prever o resultado da ação do centro, que depende do juiz que assumir o caso e do próximo passo do governo Trump.

Treviño-Wright conta que o centro ainda será informado da data marcada para a audiência.

Fragmentação pode afetar a vida silvestre

Foi em 3 de fevereiro que Treviño-Wright afirma ter começado a ver equipamentos de construção atravessarem a propriedade do centro, embora já tenha visto topógrafos na propriedade do centro durante o ano passado.

A colocação do muro da fronteira terra adentro cortaria o centro bem ao meio.

Como utilidade pública, só é permitido tomar a quantidade de terra que se planeja dedicar ao uso público”, afirma Garcia “O que ocorre, especificamente no contexto do centro, é que se dividirá a terra ao meio e, dos dois lados, haverá terras que ainda serão de propriedade do centro de borboletas.”

“Teremos um portão com um código de teclado eletrônico”, afirma Treviño-Wright, o que fornecerá ao governo acesso as duas metades da propriedade se o muro for construído. E o governo não será o único. Vizinhos—incluindo uma igreja católica, um camping de trailers e residências particulares—também terão acesso a um portão.

Em resposta às perguntas da National Geographic, a Proteção Aduaneira e de Fronteiras dos Estados Unidos (CBP) informou o seguinte por e-mail: “Em função da nossa política, a CBP não comenta ações judiciais em curso. No entanto a falta de comentários não deve ser interpretada como uma aceitação ou admissão de nenhuma das alegações. Na missão de segurança nacional do DHS, nossos profissionais policiais treinados cumprem a missão do Departamento, defendem nossas leis enquanto continuam a fornecer segurança e proteção à nossa nação.”

E o que será das borboletas?

“Se você eliminar o habitat, eliminará as áreas de alimentação e procriação (das borboletas)”, afirma Treviño-Wright.

As borboletas são importantes polinizadores que, como as abelhas, auxiliam no crescimento e desenvolvimento da flora, acrescenta ela. É um erro comum pensar que elas serão capazes de simplesmente voar sobre o muro. Muitas espécies voam a altitudes inferiores a dois metros. As lanternas utilizadas ao redor do muro à noite ainda poderiam desorientar as borboletas e outros animais.

A extremidade mais ao sul do Texas é considerada rica em termos biológicos, com animais como jaguatiricas que não são encontrados em mais nenhum lugar dos Estados Unidos. Conservacionistas estão preocupados de que a divisão ainda maior de seu habitat com novos muros poderia interferir com as migrações dos animais e inibir sua capacidade de encontrar alimento e parceiros de acasalamento.

“As margens do Rio Grande possuem uma joia”, afirma Treviño-Wright, referindo-se às reservas naturais do vale. Algumas das criaturas mais fantásticas do país vivem aqui.”

Por Sarah Gibbens

Fonte: National Geographic

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