Exclusivo: Essas armadilhas por todo o interior são o “segredo sujo” da criação de faisões. Confinar aves altamente inteligentes causa ferimentos e enorme estresse.

Vídeo expõe a carnificina secreta da indústria da caça de pássaros silvestres no Reino Unido

Guardas de caça capturaram aves silvestres em armadilhas e os deixaram em estado de estresse por até dois dias, para sustentar a indústria da caça de pássaros.

Imagens secretas feitas em uma fazenda de tiro, obtida pelo site The Independent, revelam como corvos são confinados em gaiolas “cruéis”, e um deles foi deixado sem água por mais de 24 horas.

Ativistas dizem que as cenas são um exemplo típico do “segredo sujo” invisível da caça aos pássaros, uma situação que eles descrevem como “carnificina secreta de aves silvestres” por todo o Reino Unido.

As imagens aceleradas, feitas em uma fazenda em Somerset por quase 48 horas, mostram um corvo preso em um lado da gaiola chamado de armadilha de Larsen, um tipo comum e legalmente usado pela industria de caça para capturar corvos e pombos, que são considerados culpados por atacarem pássaros criados para a estação de caça.

Armadilhas de Larsen, disponíveis online, em geral contêm um pássaro em um compartimento. O choro estressante deles atrai outros pássaros para um outro compartimento.

Então os pássaros são mortos por um guarda caça para reduzir o seu número e proteger os faisões.

As imagens foram feitas na Fazenda Bonson Wood Game em Somerset, onde duas armadilhas foram postas lado a lado, uma com um pássaro que serve de isca e a outra com três pássaros abarrotados dentro do compartimento.

Por lei, as armadilhas devem ser verificadas “ao menos uma vez todos os dias, em intervalos de não mais que 24 horas”.

Contudo, o filme feito pela organização de direitos dos animais Animal Aid mostra que a armadilha não foi inspecionada por quase 35 horas. Em um momento, um trator passou, mas o motorista não saiu do veiculo para olhar os pássaros.

“Isso era indispensável, pois naquele intervalo de tempo o pássaro que servia de isca havia chutado um recipiente de água pequeno e totalmente inadequado em sua gaiola”, disse Fiona Pereira, diretora de campanha da Animal AID. “Nosso filme mostra que ele esteve sem água por mais de 24 horas.”

A filmagem aconteceu no final de junho, durante a onda de calor, quando as temperaturas atingem 28°C.

A Animal Aid, que reportou suas descobertas para a polícia e aguarda uma resposta, lançou as imagens uma semana antes do início da estação de caça aos faisões, em 1º de outubro. O filme foi publicado um dia após a decisão de encerrar a caça aos faisões em terras públicas, em Wales.

O Natural Resources Wales (NRW), órgão governamental de recursos naturais de Wales, disse que não vai renovar licenças de caça a pássaros a partir de março do ano que vem, e que não vai mais apoiar a criação de faisões em propriedades pertencentes ao governo. O governo de Wales tem se mostrado fortemente contrário às licenças.

Sra. Pereira disse que os três pássaros que estavam juntos sofreram ferimentos por perdas de penas e estavam propensos a terem as asas presas no poleiro da gaiola quando tentavam evitar uns aos outros.

“Nós também observamos os pássaros estressados voando para as laterais das gaiolas para tentar escapar”, disse ela.

A câmera parou de filmar após 48 horas, então não se sabe quanto tempo mais os corvos ficaram confinados.

“O que está claro, contudo, é que os pássaros estavam estressados e desesperados para serem soltos”, disse a Sra. Pereira. “O pobre pássaro que ficou sem água deve ter sofrido demais. As Larsens e outras armadilhas são um dos “segredos sujos” da indústria da caça. Confinar pássaros altamente inteligentes em um pequeno espaço por dias de cada vez lhes causa um enorme estresse e ferimentos físicos.”

“A maioria das pessoas não percebe que essas armadilhas estão por todo o interior do país. Mesmo quando as condições legais são satisfeitas, a vida é simplesmente infernal para eles porque nenhum pássaro quer ser engaiolado. Deve ser pavoroso para os pássaros, à medida que anoitece, porque deve haver raposas que atacam os corvos rondando ao redor.

Engaiolar pássaros que querem voar livremente é repugnantemente cruel quando você pensa no que isso significa. Estas armadilhas são de uso comum pela indústria que cria pássaros de caça apenas para atirar neles no céu por “esporte”, então não é de admirar que eles tratem a vida selvagem com a mesma crueldade que infligem aos alvos de penas que eles criam.”

Estima-se que entre 35 e 50 milhões de faisões e perdizes são criados para caça todos os anos, sendo que cada atirador paga até 1000 libras para matar 400 pássaros por dia.

A fazenda Bonson Wood questionou a precisão do vídeo.

Nicholas Pardoe, que administra a fazenda e é o presidente da Associação de Fazendeiros de Caça, disse: “A fazenda é propriedade privada e o vídeo foi feito sem permissão, o que é um crime e, como tal, não pode figurar como prova em um tribunal. Apesar de haver um relógio no canto da tela, não há um meio de saber se está ajustado de forma precisa ou de fato mostra a correta passagem do tempo. O vídeo foi muito editado e não acrescenta como prova de nenhum crime.

“É claro que o pássaro tinha água, e a evidência disso é o pote de água. Nenhum pássaro aparece morto ou mesmo doente. Com certeza, o cinegrafista tem um objetivo, que é parar o uso das armadilhas Larsen. O vídeo foi feito algum tempo atrás, e esta foi a primeira vez que ouvi falar dele.”

“Se eles realmente tinham preocupações com o bem-estar animal, deveriam tê-las apresentado a mim ou a um membro da minha equipe naquela oportunidade, ou mesmo ter reportado isso para as autoridades, ao invés de lançar um vídeo alguns meses depois.”

O The Independent contatou a Avon e a polícia de Somerset para comentários.

Por Jane Dalton / Tradução de Rie Kawasaki 

Fonte: Indepedent

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