Violência humana mata mais macacos que febre amarela no Rio de Janeiro

Mortes pela doença e por agressão, provocada pelo equivocado medo de contágio, levam macacos como o bugio de volta à lista de espécies ameaçadas.

2519
Violência humana mata mais macacos que febre amarela no Rio de Janeiro

“Nunca vi um massacre nessas proporções. O que mais mata macacos no Rio de Janeiro, sem dúvida, não é a febre amarela, mas sim a violência”, diz a subsecretária de Vigilância Sanitária e do Controle de Zoonoses do Rio de Janeiro, Márcia Rolim.

Macacos mortos por maus tratos chegam à Vigilância Sanitária do RJ (Foto: Divulgação)

No ano passado, dos 602 animais mortos, 42% foram assassinados pela população. Neste ano, dos 144 mortos, 69% foram executados por maus tratos, como múltiplas fraturas, queimaduras e envenenamento. “Em janeiro do ano passado, recebemos 7 animais mortos. Em janeiro deste ano, já são 144”. O laboratório de Saúde Pública da Vigilância Sanitária do Rio de Janeiro recebe animais de todo o Estado. Os animais coletados provêm principalmente de regiões de beira de mata, onde há desmatamento. “Aqui na cidade do Rio de Janeiro não tivemos nenhum caso positivo de febre amarela em macacos no ano passado. No Estado foram 20. Neste ano, não houve nenhum caso positivo. Daí é possível imaginar a matança que estamos vivenciando”, afirma Márcia.

O macaco não transmite a febre amarela. Quem transmite é o mosquito dos gêneros Haemagogus e Sabethes, que pica o macaco, assim como pica o homem. O macaco também é uma vítima, além de ser um aliado do homem, pois, ao contrair a doença, sinaliza que há mosquito naquela região. O monitoramento da doença e as campanhas de vacinação são realizados a partir dessa indicação. “A febre amarela não é contagiosa. Se dizimarmos toda a população de macacos do Brasil, o vírus da febre amarela vai continuar existindo. É o mosquito que está levando a doença para todos os Estados, não o macaco”, explica.

Ela ressalta o caso da morte de macacos-prego por envenenamento na região do Alto da Boa Vista, no qual foi comprovado por necropsia que nenhum deles apresentava a doença. No Rio de Janeiro, a maioria dos macacos mortos são bugios, micos leão dourado e macacos-prego.

A crueldade observada na execução dos macacos tem sido atribuída à desinformação da população em relação à transmissão da febre amarela. No entanto, a médica veterinária afirma que no ano passado foi realizada uma extensiva campanha, inclusive com treinamento de funcionários de parques.

Bugios em alerta

Não existe vacina contra febre amarela para macacos nem tratamento para a doença. Quando contraem a doença, morrem geralmente em até sete dias, segundo Rolim. Algumas espécies são mais suscetíveis ao vírus, como os bugios. “O bugio, que é uma espécie tropical, tem alta suscetibilidade e morre facilmente, diferentemente dos primatas africanos, que apresentam maior resistência”, explica a médica veterinária Liliane Almeida Carneiro, diretora do Centro Nacional de Primatas, que abriga 600 macacos de 27 diferentes espécies na cidade de Ananindeua, no Pará. No Brasil, ocorrem 139 espécies e subespécies de macacos.

Ela afirma que existe uma preocupação “alarmante” entre os profissionais que trabalham com a preservação de espécies de macacos no Brasil em relação “à extensão e gravidade da mortandade de primatas”. Ela explica que as mortes de macacos por febre amarela, somadas aos óbitos por agressões, levaram o bugio-ruivo a ser listado novamente como espécie ameaçada de extinção no Brasil. “As pessoas matam mais macacos que a febre amarela, com certeza. Não se tem esta estatística em termos nacionais, sabe-se, porém, que, além das mortes pela infecção viral, os macacos estão sendo executados pela população pelo medo de transmissão da doença. O quadro prejudica a implementação de medidas preventivas pelas autoridades sanitárias e pode levar à extinção de espécies, prejudicando todo o meio ambiente”.

No Estado de São Paulo, o bugio preto já integra a lista de espécies ameaçadas de extinção na categoria “vulnerável”. Após o fim do surto da febre amarela, pesquisas serão realizadas para reavaliar o grau de ameaça de extinção desta e de outras cinco espécies que já constam da lista, segundo o Departamento de Fauna, da Coordenadoria de Biodiversidade e Recursos Naturais, da Secretaria de Estado do Meio Ambiente de São Paulo. As espécies são: bugio ruivo, mico leão preto, mico leão caiçara, sagui da serra escuro e muriqui.

Por Deborah Giannini

Fonte: R7

Os comentários abaixo não expressam a opinião do Olhar Animal e são de responsabilidade exclusiva dos respectivos autores.